A saúde mental de filhos de casais homossexuais

Pesquisadores publicaram na Child Development, uma das mais conceituadas revistas científicas de Psicologia do Desenvolvimento, e baseado no NHIS, inquérito nacional levados a cabo pelo governo federal norte-americano o histórico psicológico de 21.000 crianças e adolescentes compreendidos entre os 4 e os 17 anos de idade.

CWCNPM Boy walking with two men in a park. Image shot 2012. Exact date unknown.

CWCNPM Boy walking with two men in a park. Image shot 2012. Exact date unknown.

Homoparentalidade: estudo massivo reafirma sanidade mental de crianças enquanto Portugal a confronta no pequeno ecrã

Novas e detalhadas evidências de algo que já sabíamos: filhos e filhas de casais homoparentais não sofrem maiores dificuldades psicológicas e emocionais do que aquelas criadas por casais heterossexuais. Este estudo massivo publicado na Child Development, uma das mais conceituadas revistas científicas de Psicologia do Desenvolvimento, é baseado no NHIS, inquérito nacional levados a cabo pelo governo federal norte-americano, e que agora inclui orientação sexual dos pais.

Os investigadores olharam para o historial psicológico de 21.000 crianças e adolescentes compreendidos entre os 4 e os 17 anos de idade, e não encontraram quaisquer diferenças entre as criadas por casais homo- e heteroparentais. O acordo sugere inclusivamente que as crianças de casais homoparentais podem sim sofrer residualmente pelo estigma social sofrido pelas mães e pais, nomeadamente no caso da bissexualidade, pelo que apontam a discriminação social dirigida aos pais como o único fator desviante, e não a capacidade dos mesmos de criar uma criança saudável e equilibrada.

Ontem o programa da SIC “E Se Fosse Consigo?” abordou a temática da homoparentalidade em Portugal. Mostrou a habitual encenação de rua, neste caso num parque infantil, onde dois actores homens estavam a encarnar os pais de uma criança enquanto uma mulher os abordava e questionava a capacidade de dois homossexuais cuidarem de uma criança. Apesar de algumas (poucas) reações claramente homofóbicas, a maioria censurou de forma veemente a atitude da agressora. Estavamos, no entanto, num jardim em Lisboa, resta saber o quão mudaria aquele mesmo cenário noutra cidade ou vila do país. Mas mais iluminador e com poder transformativo foram os testemunhos reais de pais, mães, filhos e filhas que demonstraram de forma inequívoca que a única coisa que de facto interessa a uma criança é amor.

Numa altura em que em também em Portugal alguns profissionais da área da psicologia continuam a questionar a validade de casais do mesmo sexo ou pessoas de diferente orientação sexual na educação de uma criança ou alas políticas mais conservadoras a insistirem no debate do “superior interesse da criança” é importante que estudos sérios e compreensivos como este continuam a derrubar estigmas e preconceitos arcaicos.
Fonte: Escrever.com e Newsweek
Por: Lola Huete Machado
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Fátima Oliveira, nosso anjo se foi; que o seu espírito guerreiro permaneça entre nós

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis. Bertold Brecht (1898-1956), dramaturgo e poeta alemão, voz dos oprimidos do mundo

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Fátima Oliveira sempre foi imprescindível.

Médica, feminista e escritora. Negra e nordestina. Cabelinho nas ventas. Não mandava recado, falava na lata. Revolucionária.

Na manhã de 5 de novembro de 2017, aos 63 anos, ela “se encantou”, como diria o grande escritor Guimarães Rosa.

Foi no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estava internada há cerca de um mês.

Ironicamente no mesmo HC onde foi médica muito querida por 30 anos e se aposentou em março de 2014.

Fátima já está fazendo falta. E vai fazer muito mais.

A médica e feminista Ana Maria Costa, que presidiu o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), me avisou pelo zap:

–Acabo de saber da morte de Fátima Oliveira! Muito triste!”

— O quê???!!!!

— Como, doutora?!

— De câncer.

–Onde?

A gente se conheceu em 2009.

Fátima já tinha uma coluna semanal em O TEMPO, que saía às terças-feiras.

De vez em quando a reproduzíamos no Viomundo. Depois, quase toda semana.

Fátima reunia condições difíceis de serem vistas juntas num mesmo profissional: competente, atualizada, ética, corajosa, sem papas na língua, retidão ímpar.

Em se tratando de direitos sexuais e direitos reprodutivos, saúde integral das mulheres, saúde da população negra e SUS, Fátima era fonte fundamental.

Entrevistei-a para muitas reportagens nessas áreas.

Algumas vezes, eu, como repórter, buscava a sua ajuda. Outras, ela, antenadíssima, me alertava sobre temas. Ficava feliz, quando percebia que tinha colocado pilha, para eu ir atrás de algum tema mais cabeludo.

Em março de 2014, após morar décadas em Belo Horizonte, ela retornou ao seu querido Maranhão.

Em agosto deste ano, em resposta a um e-mail meu, querendo saber dela, veio a esta carinhosa resposta:

Oi, Conceição!

Quantas saudades de você!

Como vai? E como vai o Azenha?

Há momentos, a maioria deles, que penso estar em outro país!

É tudo muito surreal…

Digo sempre: ainda bem que tenho meus cactos e Clarinha Kkkkk

Morar no Maranhão tem sido um alento porque vivemos sob a égide de um governo humanista e ganhamos as eleições nas quatro cidades da Ilha de São Luís. Falando sério!

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Na sequência, me mandou uma foto da neta Clarinha.

Nas duas últimas semanas tudo isso veio à cabeça.

Revi nossos e-mails, nossas reportagens, entre elas as muitas sobre a MP 557, de 26 de dezembro de 2011, a famigerada MP do Nascituro, contra a qual Fátima, movimentos e entidades de saúde da mulher e saúde coletiva lutaram bravamente, denunciando o absurdo. O Viomundo e esta repórter se orgulham muito de terem remado contra a maré e lhes dado voz.

É difícil acreditar que ela partiu.

Foi ao remexer essas lembranças que me veio a ideia de, a exemplo do que fizemos em várias reportagens, nos juntarmos mais uma vez. Só que, agora, para homenagear Fátima.

Por e-mail, perguntei a vários participantes de alguma dessas matérias — a maioria conheci através de Fátima — se queriam dar uma declaração sobre o ser humano que cada um conheceu.

Resultado, de coração: depoimentos singelos, despretensiosos, pequenos fragmentos do gigante mosaico chamado Fátima Oliveira.

MARGARETH ARILHA: “OBRIGADA PELA LUZ QUE TRANSMITIU”

E porque a vida é assim, me arrepiei ontem a noite quando li o teu convite, Conceição!

Explico. Acabava de sair de uma tarde maravilhosa, na casa de Elza Berquó, onde recordamos com muita alegria e tristeza, o momento que tivemos juntas nós duas, e mais Fátima, Sonia , Tania Lago, Valeria e Jacqueline Pitanguy, em fevereiro de 2016.

Nos recordamos de como ela estava feliz, e de como havia chegado trazendo um pequeno cacto de presente para a dona da casa, dizendo, eu trouxe para você, não se preocupe, ele não precisa de muita água. Ele ficou plantado num vasinho pequeno de porcelana, e ontem veio iluminar aquela mesma mesa.

Juntas, colocamos as mãos sobre ele, abraçamos a Fátima, que permaneceu ali, toda a tarde conosco.

Eu a conheci no Cebrap [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento], e lá conversamos muito, muito, muito, rimos, rimos, rimos muito, choramos muito.

Durante anos. Tivemos medos e sonhos. Mas nunca esse pesadelo: o de sua partida tão fora de hora. Esbanjando saúde, sua lucidez parecia atirá-la para uma vida quase sem fim.

Afinal, parecia sempre estar carregada com tanta imaginação, palavras e lucidez, temas para debater, raivas pra curtir e lamentar, e prazeres para compartilhar, que ela e sua vida pareciam intermináveis.

Sempre dividia conhecimento e sabedoria. Falávamos das crias, do meu e do seu Gabriel, perguntava da Marina, falava dos filhos e mais recentemente da Débora. A presença instigante nas reuniões, e a luta sempre presente para tocar os plantões no hospital e seguir militando.

Sempre se fazia presente em todos os debates da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), sempre compreendeu sua natureza e missão, e participou com seu pensamento continuo e agitado.

Da professora Elza, era assim que a chamava, sempre falava com admiração, e apreciava imensamente a confiança por ter colaborado com o Programa de Bolsistas Negras do Cebrap, altamente inovador.

Ironicamente, as últimas imagens de seu twitter vinham sendo os cactos, pássaros e a casa no sertão.

Ironicamente, sua penúltima foto é com Fernando Pacheco Jordão [falecido em 14 de setembro de 2017], também membro da CCR, e falando da Democracia.

Ironicamente não tive tempo de dizer a você, Fátima, que o Maranhão, suas belezas e agrestes agruras são agora o centro da vida de minha filha.

Você gostaria de saber. Obrigada por tudo o que nos ensinou, e pela luz que transmitiu.

Margareth Arilha é psicanalista e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Desde os anos 1980 dedica-se a questões de gênero, saúde reprodutiva e políticas públicas.

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Tanto Margareth (depoimento acima) quanto Sonia Corrêa (abaixo) resgatam o último encontro com Fátima. Foi, em 26 de fevereiro de 2016, na casa da professora Elza Berquó, que fundou e dirigiu o consagrado Núcleo de Estudos da População, da Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp). Da esquerda para direita: Margareth Arilha, Valéria Pandjiarjian, Elza Berquó, Jacqueline Piranguy, Sonia Correa e Fátima Oliveira

SONIA CORRÊA: “UM TEMPO PARA O LUTO; AXÉ, FÁTIMA!”

Primeiro, soube que alguma coisa tinha acontecido com a feminista negra Fátima de Oliveira, com quem compartilhei momentos fáceis e difíceis, travessias tensas, mas também passagens muito prazerosas no curso de incessantes lides em torno da saúde e dos direitos das mulheres que transcorreram ao longo dos últimos quase trinta anos.

Um pouco mais tarde soube que ela havia partido.

Conheci Fátima nos início dos anos 1990, quando ela passou a integrar a Comissão de Cidadania e Reprodução.

Olhando suas fotos hoje, nas notas que circulavam sobre sua partida prematura, lembrei de muitos de nossos momentos juntas. Visualizei espaços, climas, conversas, expressões faciais.

Um desses momentos aconteceu, possivelmente, em 1998, num encontro anual da Rede Feminista de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos em Caxambu.

Era uma noite gélida. Sentadas num canto protegido do bar à beira da piscina, já meio bêbadas, tivemos um longo embate. Fátima havia aplicado para uma bolsa individual da Fundação Mac Arthur e dizia, obsessivamente, que não ia nunca ser selecionada pois era comunista.

Eu, de meu lado, dizia, obsessivamente, que ela estava enganada. Como o impasse não tinha solução, encerramos a conversa apostando uma garrafa de uísque 12 anos.

Eu ganhei. Bebemos quase metade da garrafa alguns meses depois para comemorar.

Mas também me voltaram imagens da última vez em que a vi, no início de 2016, num almoço com Margareth Arilha, Jacqueline Pitanguy, Tania Lago e Valéria Pandjiarjian na casa de Elza Berquó.

Nesse dia, ela estava alegre e cheia de energia. Falou das plantas do seu jardim, das frutas do seu pomar, da vida quase rural que havia escolhido. Falou de seus filhos e filhas e netos, das amizades e inevitavelmente das políticas, a com “P” mas também as políticas em que estivemos juntas metidas por tanto tempo.

Como podíamos imaginar que ela ia partir?

Segunda feira, frente à tela, eu lia as notas de lamento, olhava fotos de Fátima e buscava mais notícias, circulando as que ia encontrando, mandando mensagens para saber mais.

Tudo muito rapidamente, pois tinha que seguir adiante, pois há sempre muito mais a fazer.

Até que, de repente, me dei conta de que essa brutal aceleração já não deixa espaço nem mesmo para o luto. Parei, me aquietei, senti o vazio. Fui atirada ao lugar da nossa precariedade comum.

Essa nota foi escrita para não evadir esse abismo, como um gesto encantatório que traz Fátima um pouco de volta, mas também como uma tentativa de romper a jaula da compressão temporal a que estamos hoje sujeitas.

Axé, Fátima.

Sonia Corrêa é pesquisadora associada da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e co-coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política/Sexuality Policy Watch

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ALAERTE MERTINS: “MULHER DE FIBRA, FORTE”

Com certeza, esta é uma merecidissíma homenagem!

Mas, sinceramenre, não consigo escrever nem dois parágrafos, pois fiquei sem palavras, surpresa, desde que soube do passamento.

Se você me conheceu, assim como outras pessoas neste país e fora dele, foi graças à persistência da Fátima na luta pela saúde das mulheres, especialmente a redução da morte materna, e das mulheres negras, tema que insistentemente ela me pedia para escrever.

Guardarei sempre a lembrança da mulher de fibra, forte. Segue aí a foto de nosso último encontro, na República Dominicana, em 2015.

Alaerte Leandro Martins é enfermeira obstétrica e doutora em Saúde Pública. Incentivada por Fátima, pesquisou para sua tese mestrado “Mulheres negras e mortalidade materna no estado do Paraná”. Depois, no doutorado, gestantes negras que não foram a óbito, mas que ficaram com graves sequelas

BEATRIZ GALLI: SEUS OLHOS DE ÁGUIA SEMPRE VIAM DE LONGE”

Fátima era uma mulher negra, guerreira e intensa.

Era incansável na luta pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e nunca deixava de pontuar o que poderia ser uma ameaça de retrocesso no nosso campo de luta.

Seus olhos de águia sempre viam de longe, com clareza.

Ela sempre esteve muito atenta e por muitas vezes lia nas entrelinhas o que de fato estava acontecendo.

Eu tive a oportunidade de conhecê-la, em 2004, em uma reunião das Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro.

Desde então, sempre esteve presente nas reações rápidas em análises afiadas sobre o contexto político nacional. Mesmo de longe, ela continuava presente.

Fátima, que falta você está nos fazendo!

Beatriz Galli é advogada e assessora de políticas para a América Latina do Ipas.

ANA MARIA COSTA: ‘LACUNA NA ESQUERDA E NO FEMINISMO POLITIZADO”

Fátima Oliveira foi mulher admiravelmente múltipla: militante, médica, mãe, escritora, formuladora e muito mais!

Sua partida deixa uma lacuna na esquerda e no feminismo politizado que luta por direitos e políticas universais.

Meu enorme respeito pela Fátima!

Ana Maria Costa é médica, professora e diretora do Cebes, que já presidiu.

Através do Viomundo, muitos leitores se encantaram com a Fátima. Acabaram se tornando muito próximos, amigos, mesmo, como Telmo Kiguel e Gerson Carneiro.

A convite nosso, eles também fizeram as suas homenagens.

TELMO KIGUEL: EM COMUM, A MEDICINA, AS DISCRIMINAÇÕES E A POLÍTICA

Conheci a Fátima há poucos anos no Viomundo e solicitei à Conceição o seu email. A partir daí, passamos a nos corresponder e acabei publicando aqui, em Porto Alegre, três textos seus: Médico branco racista e médica negra discriminada; Médica diz: o Conselho Federal de Medicina não me representa; E a médica não se corrompeu.

A partir daí, descobrimos vários interesses em comum e parecia que nos conhecíamos há muito tempo. E tudo isso só pela internet.

Finalmente veio a POA e tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente e a família. A impressão de “velhos amigos” foi confirmada. Um dia só foi muito pouco para o que tínhamos em comum: a medicina, as discriminações, a política, etc. Acabamos o dia numa floricultura em que ela me deu uma aula sobre uma de suas muitas paixões, os cactos.

Ao saber de sua morte, não descansei enquanto não falei com sua filha Débora para saber o que tinha ocorrido. Muito triste. Muita saudade.

Telmo Kiguel é médico psiquiatra e responsável pelo blog Saúde Publica(da) ou não, no portal Sul21

LUANA TOLENTINO: FÁTIMA ME ESTENDEU A MÃO

Fátima Oliveira parte, mas entre nós fica o legado de uma mulher que lutou de maneira incansável pelo SUS e pelas mulheres negras desse país. Como um mantra, guardo uma frase dita por ela: “A superação do racismo no Brasil exige uma faxina moral”. Guardo também a mais profunda gratidão. Fátima me estendeu as mãos no momento mais doloroso da minha vida. Fátima será sempre nossa grande Mestra!

Luana Tolentino é professora e historiadora; ativista dos movimentos Negro e Feminista.

GERSON CARNEIRO: TIVE A SATISFAÇÃO DE SER CORRIGIDO PELA FÁTIMA; CONHECI UM ANJO

“Nós nos conhecemos através do Viomundo por volta do ano de 2009.

Eu comentava os textos dela. Passamos a compartilhar mensagens no twitter e logo estávamos trocando mensagens privadas, onde falávamos sobre nossas observações do mundo e também dávamos gargalhadas. Sim, ela tinha um humor fino, inteligentíssimo.

Fazia bem ter a companhia dela, saber que ela gostava das minhas tiradas no twitter, gostava dos meus textos.

Ela era muito poética. Adorava cactos. Postou no twitter muitas fotos belíssimas de cactos. A admiração pelos cactos era um dos pontos de ligação entre mim e ela.

Em uma tarde de 2011, no começo do julgamento do mensalão, eu ainda estava dando expediente no trabalho e, de soslaio, acompanhei as pessoas, ela inclusive, comentando o início do julgamento.

Em um das oportunidades comentei:

— Se eu não tivesse nada pra fazer eu também iria acompanhar o julgamento do mensalão.

Ela soltou uma gostosa gargalhada:

— Kkkkkkkk… Deixe de ser invejoso.

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Cirúrgica, a Dra. Fátima acertou. Era só inveja mesmo.

Em outra oportunidade, ela disse, em público, que uma fala minha no twitter era machista. Tentei justificar. Ela rebateu: “É machista. Apague, senão lamentavelmente vou ter que deixar de seguir o amigo”.

Diante de tal aviso, na hora, claro, me curvei na hora. E tive grande satisfação de ser corrigido por ela. Um enorme prazer.

Há um ano deixei essa foto do Frido na caixa postal dela no twitter.

E mais uma vez fui presenteado com a sua gostosa gargalhada. Foi nossa última troca de mensagem.

Realmente, conheci um anjo.

— Por que anjo? –, alguns talvez questionem.

Por causa da autoridade dela advinda da retidão em que trilhou. Só tem verdadeira autoridade quem tem retidão de caráter.

E por isso ela tinha autoridade para com seus conhecimentos nos proteger na labuta em favor das causas que acreditamos e defendemos.

De longe e, ao mesmo tempo, tão perto, nos proporcionava acolhimento nas batalhas. Sua repentina partida deixou uma imensa lacuna. Sentiremos nesse tempo sombrio o qual estamos passando.

É como a ” Estrela”, de Gilberto Gil:

“Há de surgir

Uma estrela no céu

Cada vez que você sorrir

Há de apagar

Uma estrela no céu

Cada vez que você chorar

O contrário também

Bem que pode acontecer

De uma estrela brilhar

Quando a lágrima cair

Ou então

De uma estrela cadente se jogar

Só pra ver

A flor do seu sorriso se abrir

Hum!

Deus fará

Absurdos

Contanto que a vida

Seja assim

Sim

Um altar

Onde a gente celebre

Tudo o que Ele consentir”

Estrela – Gilberto Gil

Gerson Carneiro é frequentador assíduo das redes sociais.

Curiosamente, até no seu “encantamento” Fátima Oliveira nos juntou, obrigando-nos a refletir sobre lutas passadas.

Mas também sobre o aqui e agora: só juntos teremos condições de enfrentar e buscar as saídas para a destruição do SUS, dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres brasileiras.

Fátima Oliveira, presente!

Fonte: Viomundo
Por: Conceição Lemes

Pobres loucos

Pobres locos

Pero a veces basta con una mala decisión política que alienta la inseguridad o enciende un conflicto; con un giro inesperado de la vida económica; con un quiebro en la suerte o en la salud… Basta que la red que te protegía desde la infancia vaya desapareciendo. Que llegue la ruptura y la soledad. Esa es demasiadas veces la biografía de los que habitan a la intemperie.

PLEsta semana se ocuparon en el programa Hoy por Hoy de la Cadena Ser de los sin techo; hablaron de aquellos peatones, no muchos, que al pasar se detienen a mirarlos o a preguntar cómo están. Para informar de cuál es la situación en Madrid invitaron al psiquiatra Rafael Fernández, jefe del Equipo de Calle de Salud Mental del Hospital Clínico, uno de esos peatones que sí se detiene y pregunta. Unas 600 personas, contó él, se encuentran en tal situación en la capital de España, y especificó que antes eran 800. Algo va a mejor, parece ser. “Un 30% de estas personas”, añadió, “sufren un trastorno mental grave, pero si nos centramos en alcoholismo o adicciones que producen alteraciones de la conducta, entonces son ya el 80%”. Porcentajes varios sobre seres humanos tirados junto a nuestras casas, cual hojas de otoño, en parques, aceras o en esos rinconcitos bien resguardados que suelen cobijar los cajeros automáticos de los bancos. Algunos de esos 400 millones de personas clasificados como “con problemas neurológicos” por la Organización Mundial de la Salud, que tiene un plan hasta 2020, pero sin que se pueda especificar mucho más.

Tal referencia otoñal me hizo recordar Berlín, donde recorrí hace no mucho en bicicleta grandes áreas por motivos varios. Vi más sin techo que nunca. Hay un prototipo de vagabundo de larga duración, generalmente alcohólico, frecuente en las urbes alemanas. Pero no era el caso. Estos estaban sobrios. Como había que descartar el efecto últimos retazos de temperatura estival, regresé a los mismos lugares en horas distintas, e incluso al caer el sol (muchos homeless salen de los albergues temprano y regresan a la noche) y en días alternos. Y allí seguían. Saben en Berlín bien lo que está pasando: muchos son extranjeros, refugiados o inmigrantes varados. Ahí están, vestidos con mil prendas encima; gorros cubriendo los rostros y con todas sus pertenencias acumuladas en esos carritos metálicos de los supermercados que son como metáfora del consumo occidental de todo producto, incluida la pérdida de rumbo. Alemania recibió en los últimos dos años más de un millón de refugiados ante la crisis siria. Y se nota (sumado a la presión migratoria desde el Este). En España, sin embargo, país al que en el reparto europeo posterior le tocó asumir 17.337 apenas ha acogido a 2.190 según datos de anteayer mismo.

Escuchando al doctor Fernández en la SER recordé la sonrisa de uno de estos llamados “locos” en otro contexto. Uno, andando un día por el hermoso barrio de la Medina de Dakar (Senegal), transistor en mano, interpelando a voz en grito a todos los transeúntes. Un conocido grafitero de la ciudad, que nos acompañaba y participaba en un hermoso proyecto artístico en los muros del barrio, al verlo pasar, nos pidió a los periodistas occidentales que nos ocupáramos de ellos. “Son muchos en África. Son el último eslabón de la cadena, los restos, la basura…”, dijo. Lo anotamos en la agenda. Y ya. Los olvidados de los olvidados, así titulaba hace unos años el programa de La Noche Temática de La 2 un documental sobre el tema.


Como las calles del continente más pobre suelen estar, de por sí, repletas de todo tipo de enfermos, los neurológicos se deberían ver mucho menos en ese contexto. Muchos son maltratados, lo sabemos. Pero otras muchas veces no es así, y no lo contamos adecuadamente en los medios: muchas comunidades en África están cohesionadas y son muy solidarias y sí, suelen verlos, alimentarlos y atenderlos como quiera que sea y con lo poco que tengan. Obviamente esto no basta. Si hablar de salud mental en países desarrollados remite a tragedia, en los países en vías de desarrollo, que no tienen ni asegurada los servicios mínimos básicos de asistencia, remite a drama de tintes medievales.

Estos locos vagan (más los hombres que las mujeres; ellas se suelen aislar o refugiar) de un lado a otro, hablan sin parar un día y se quedan quietos y mudos otro, cuando la depresión arrecia. Enloquecen por enfermedad pero también de pena, de miedo, de desesperación o soledad… Sus miradas, sus cuerpos expresan lo mucho sufrido o visto, lo nunca contado. Vidas durísimas de principio a fin. Sabemos que unos 30 millones de africanos (muchos, ciudadanos de los países más pobres y conflictivos de la Tierra) sufren depresión y que reparar las mentes rotas no solo es costoso sino muchas veces imposible de practicar sin sistemas de salud adecuados, sin fondos. Y menos en zonas castigadas por conflictos, como sucede en el norte de Nigeria asoladas por el terrorismo de Boko Haram. O cómo sucedía en Sierra Leona, tras la guerra: seres desorientados por doquier, unos pocos hospitales o manicomios donde eran atendidas algunas víctimas: niños soldado obligados a asesinar a sus familias, niñas violentadas, mutiladas; mujeres y hombres con todo perdido.
Es un mal terrible perder la razón siendo pobre. Lo es, y muy frecuente, hacerlo tras vivir una desgracia, una catástrofe, una guerra. Pero también hay enfermos por la necesidad alimenticia crónica, por la violencia y los abusos constantes, por la pérdida de los seres queridos… Hace unos días publicamos en Planeta Futuro un artículo titulado Cómo abordar la salud mental de los refugiados al hilo de una reunión de psicólogos de emergencias celebrado en Serbia para tratar aquello, interno y devastador, que destroza el alma de tantas personas: huir, perderlo todo, quedar expuesto… Refugiados que abundan (más de 65 millones según ACNUR) hoy más que nunca desde el fin de la II Guerra Mundial. La paz garantiza muchas cosas, entre ellas, la salud mental comunitaria, ciudadana e individual.

Que no hay suficientes psicólogos a pie de calle o en pie de guerra (si se prefiere) fue la conclusión de unas jornadas celebradas hace unos meses por el Colegio de Psicólogos de Andalucía. La fragilidad, la vulnerabilidad es algo intrínseco a nuestro corazón y a nuestra mente. “Uno piensa que eso no te puede pasar a ti”, se oía en las ondas de la SER… Uno espera.

Pero a veces basta con una mala decisión política que alienta la inseguridad o enciende un conflicto; con un giro inesperado de la vida económica; con un quiebro en la suerte o en la salud… Basta que la red que te protegía desde la infancia vaya desapareciendo. Que llegue la ruptura y la soledad. Esa es demasiadas veces la biografía de los que habitan a la intemperie. El 10 de octubre pasado se celebró el Día Internacional de la Salud Mental, pero tampoco nos detuvimos mucho a mirar.

Fonte: EL PAÍS
Por: Lola Huete Machado
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Apesar das pesquisas sobre os atentados Trump não quer alterar sua relação com a indústria de armas

A afirmação de que “as armas não matam pessoas, os doentes mentais é que matam” é insustentável. As armas matam pessoas. Quanto menos armas estão em uma comunidade, seja nas mãos de civis ou da polícia, mais segura é essa comunidade.

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1. O que diz Trump:

      ‘Não é sobre lei de armas’, diz Trump do tiroteio em Igreja Batista*
O presidente norte-americano, Donald Trump, declarou que o tiroteio que chocou o estado do Texas nesse domingo não tem relação com a lei permissiva de armas no estado. A declaração foi feita nesta segunda-feira (6) durante coletiva no Japão.

Trump disse ainda que o atirador era “um indivíduo muito perturbado, com muitos problemas” e que tinha “um problema de saúde mental no mais alto nível”, lembrando o mesmo discurso que fez após o tiroteio em Las Vegas.

– Não é uma situação que se possa atribuir às armas – concluiu o presidente durante a coletiva. Os jornalistas lembraram que o estado do Texas é o mais permissivo no controle de porte de armas de fogo, que podem ser usadas até em universidades e supermercados.

O tiroteio na Igreja Batista, que deixou 26 mortos e outros 20 feridos, deu maior força à discussão sobre controle de armas, que acirra o campo político entre democratas e republicanos nos Estados Unidos. De um lado, democratas pedem maiores restrições, enquanto o partido de Trump defende o porte.

A discussão é polêmica no país em que existem mais armas do que veículos – 265 milhões de armas, contra 263,6 milhões de carros, de acordo com o Departamento de Transporte dos EUA. Além disso, Trump teve sua campanha apoiada pela Associação Nacional de Rifles e criticada por pacifistas.

Trump está em viagem diplomática pela Ásia durante 12 dias. Nesta segunda, ele se encontrou com o primeiro-ministro e a primeira-dama do Japão e falou sobre os acordos comerciais com o país. O presidente americano chegou a fazer críticas, dizendo que os Estados Unidos estavam saindo no prejuízo, mas manteve a relação aberta.

*Fonte: Pleno.News

2. O que diz a pesquisa:

Pesquisa da School of Humanities and Social Sciences, Deakin University, Geelong, Australia.**

Doença mental e violência por armas: lições para os Estados Unidos, da Austrália e Grã-Bretanha**

Austrália, Grã-Bretanha e Estados Unidos são sociedades diretamente comparáveis. Os dados estatísticos confirmam que eles têm taxas semelhantes de doença mental, incluindo as formas de doença mental mais susceptíveis de serem associadas a comportamentos violentos. As três sociedades têm uma mídia negativa e construção de cultura popular de doenças mentais, incluindo um senso exagerado da periculosidade dos doentes mentais. Eles também têm, através dos meios de comunicação tradicionais e das mídias sociais, acesso ao mesmo script do apocalipse pessoal. O que os homens australianos e britânicos não têm acesso fácil, no entanto, são armas de fogo.

As diferenças significativas entre as três sociedades são o número de armas de fogo na comunidade e se a polícia está armada.

No Reino Unido, as armas são difíceis de obter e a polícia geralmente não está armada. Uma pessoa que sofre de uma crise de saúde mental é improvável que possa causar sérios danos a outras pessoas, e a polícia quase sempre poderá resolver essa crise sem uma fatalidade.

Na Austrália, as armas são difíceis de obter, mas a polícia é rotineiramente armada. O maior risco de fatalidade é para os doentes mentais, devido a uma resposta policial que envolve automaticamente armas de fogo.

Nos Estados Unidos, as armas de fogo são facilmente acessíveis. Uma pessoa mentalmente enferma em crise geralmente tem uma arma disponível capaz de infligir facilmente violência letal, em alguns casos, sobre um grande número de pessoas em pouco tempo. A polícia também está geralmente armada e, embora os dados sejam insatisfatórios, uma proporção desconhecida (mas provavelmente grande) de um número desconhecido (mas muito grande) de civis mortos a tiro são doentes mentais.

Os benefícios do controle estrito de armas e da polícia desarmada são mais claramente ilustrados pelas diferenças nas mortes devido à ação da polícia. A população dos Estados Unidos é quase cinco vezes maior que a da Grã-Bretanha. Isso significa que, de acordo com dados conhecidos como uma grande subestimação (Planty et al., 2015), um civil dos EUA está entre 171 e 226 vezes mais chances de ser morto por um policial do que uma pessoa que vive na Grã-Bretanha no pior ano registrado da última década (Teers 2015).

A afirmação de que “as armas não matam pessoas, os doentes mentais é que matam” é insustentável. As armas matam pessoas. Quanto menos armas estão em uma comunidade, seja nas mãos de civis ou da polícia, mais segura é essa comunidade.

**Fonte: Violence and Gender
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“Algumas mulheres gostam de ser molestadas, outras não. E os homens normais sabem quais são as mulheres que querem ser abordadas ou não”

                     Assédio sexual no Parlamento Europeu por investigar
Várias eurodeputadas invocaram, na quarta-feira, o slogan “Eu também”, que tem sido usado nas redes sociais para denunciar casos de assédio sexual de mulheres, ao qual o Parlamento Europeu não é imune.

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Ver o vídeo acima aqui.

Na quinta-feira será votada, na sessão plenária em Estrasburgo, uma resolução que pede uma investigação independente, mesmo que haja poucos casos a serem claramente denunciados.

“Sou uma mulher, é claro que já fui alvo disso. Não estou orgulhosa de dizer que, provavelmente, reagi como a maioria das mulheres: fiz cara dura, ignorei o que aconteceu, como se não fosse importante. Mas claro que é aborrecido, sentimo-nos humilhadas, é degradante”, disse Sophie in’t Veld, eurodeputada liberal holandesa.

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Ver descrição sobre a foto aqui.

O jornal britânico “The Times” noticiou que “mais de uma dúzia” de assistentes foram abusados por eurodeputados, sendo mencionado, explicitamente, o caso de um membro dos Verdes.

“Tomámos conhecimento de que um membro da família política dos Verdes assediou um assistente. Lidámos com isso convocando-o para uma reunião com outros membros, para lhe dizer que tinha de parar com esse mau comportamento”, afirmou Yannick Jadot, deputado ecologista francês.

Outros eurodeputados, pelo contrário, não têm pudor em afirmar que sempre foi assim e que não é um problema.

“Algumas mulheres gostam de ser molestadas, outras não. E os homens normais sabem quais são as mulheres que querem ser abordadas ou não”, disse Janusz Korwin-Mikke, independente polaco que, recentemente, fez comentários misóginos no plenário e teve de pagar uma multa.

A resolução exorta a Comissão Europeia a propor “medidas claras” para combater o assédio sexual no local de trabalho, entre outras medidas para combater o fenómeno.

Segundo a eurodeputada socialista espanhola Iratxe Garcia, cerca de 50% das mulheres europeias já foram vítimas de alguma forma de assédio sexual.

Fonte: Euronews
Por: Isabel Silva
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Algumas questões que você deveria saber como seu médico pensa

Médicos têm um novo juramento

A Associação Médica Mundial reviu a declaração de Genebra, o juramento moderno dos médicos. Pela primeira vez, consagra o respeito pela autonomia do doente. Abrirá caminho em questões fraturantes como a eutanásia? O bastonário dos Médicos tem dúvidas. «Respeitar é diferente de fazer». João Semedo, um dos rostos do movimento pela despenalização, fala de um contributo inegável: «Ninguém poderá voltar a usar o fantasma de Hipócrates»

juramento

É um momento simbólico, o final da condição de alunos e o início do exercício da medicina em autonomia, com tudo o que traz de entusiasmo, missão e responsabilidade. No ano em que terminam o curso, os jovens médicos de vários países mantêm a tradição de um juramento, que evoca um código de ética – o mais antigo de que há registos – atribuído ao pai da medicina, Hipócrates. Desde o final dos anos 40 do século passado, o texto usado em muitos países passou a ser a Declaração de Genebra, ratificada pela Associação Médica Mundial (WMA na sigla em inglês), e em alguns locais os médicos deixaram de jurar por Apolo, Esculápio, Higia e todos os deuses do tempo do médico grego. Não é diferente em Portugal, mas este ano o texto sofreu algumas mudanças. E há quem acredite que podem fazer a diferença.

A sexta revisão da declaração de Genebra aprovada pela Associação Médica Mundial foi anunciada no dia 14. Segundo a organização, o texto passa a refletir as alterações das últimas décadas na relação entre os médicos e os seus doentes mas também entre os próprios clínicos, impondo uma relação de partilha de informação e reciprocidade. Por exemplo, até aqui os jovens médicos deviam gratidão aos seus mestres e agora todos devem gratidão e respeito uns aos outros, professores, colegas e alunos. Há também uma preocupação inédita com o burnout – surge a ideia de que os médicos têm de cuidar de si, para prestarem cuidados de maior qualidade. Em Portugal, é um tema caro que tem estado a ser estudado pela Ordem: metade dos médicos apresentam sinais de exaustão.

Ainda assim, é no quarto compromisso da declaração que há quem veja uma mudança de fundo. Pela primeira vez, assinalou a WMA, há uma referência ao respeito pela autonomia do doente, o que nunca tinha acontecido. «Respeitarei a autonomia e a dignidade do meu doente», lê-se, sem que a associação adiante consequências. Será um novo caminho em temas fraturantes como a eutanásia ou o suicídio assistido? Em Portugal, o movimento cívico que pede a despenalização da morte assistida não tem dúvidas e destacou a alteração no seu site.

João Semedo, ex-deputado bloquista e um dos rostos do manifesto que levou o tema ao parlamento em 2016, fala de uma mudança histórica. «Não é possível desvalorizar o significado e o impacto destas alterações. A sua importância resulta do sistemático recurso ao juramento de Hipócrates por parte dos que se opõem à morte assistida, na base de que aquele juramento impedia os médicos de praticar a morte assistida porque valorizava a vida em absoluto e não falava sequer na autonomia do doente, que teria assim um valor relativo e não absoluto», diz ao b,i. o médico, recordando que a versão de 1983 estabelecia, por exemplo, que os médicos deviam guardar respeito absoluto pela vida humana desde o seu início, mesmo sob ameaça, e não fariam uso dos seus conhecimentos médicos contra as leis da humanidade. «Pela primeira vez a autonomia do doente é um valor a respeitar em absoluto pelo médico, a dignidade do doente é valorizada como até agora não era e a vida humana justifica o máximo respeito mas sem absolutismos interpretativos», diz Semedo.

O bastonário dos Médicos reconhece os passos dados na nova declaração: aliás, uma das propostas que tenciona fazer aos diferentes conselhos regionais da Ordem é que este ano o juramento dos médicos seja feito sob este texto. «Nem sempre são usados os mesmos textos nas cerimónias de juramento que acontecem em Coimbra, Lisboa, Braga e Porto», explica Miguel Guimarães. Quanto ao alcance das alterações no diz respeito ao reconhecimento da autonomia do doente, o médico sublinha que esse respeito estava há muito inerente à profissão e mesmo no juramento, quando impunha o respeito por todos, sem discriminação. E o bastonário não acredita que venha a concretizar-se num maior apoio dos médicos à despenalização da morte assistida ou à sua participação na eutanásia. «Penso que a maioria dos médicos não está de acordo e respeitar não significa fazer», sublinha Miguel Guimarães, explicando que noutros casos em que hoje é invocada a objeção de consciência, como na interrupção da gravidez, os médicos têm o dever de respeitar a legislação e encaminhar os utentes. Guimarães dá um exemplo concreto: «Da mesma forma que se um doente quiser ser operado porque entende que deve ser operado, o médico não é obrigado a fazê-lo».

Num cenário de despenalização da morte assistida no país, Miguel Guimarães sublinha que a sua posição será manter o atual código deontológico dos médicos que determina que o médico deve respeitar a dignidade do doente no fim de vida, mas é-lhe «vedada a ajuda ao suicídio, a eutanásia e a distanásia [a prática de prolongar a vida através de meios artificiais e desproporcionais aos ganhos]». O atual regulamento de deontologia médica foi publicado em Diário da República em julho do ano passado, mantendo estes princípios, depois de ter sido estruturado por um grupo de trabalho que envolveu médicos de todo o país. «O que faremos caso a morte assistida seja despenalizada é determinar que os médicos que o façam ao abrigo da legislação do país não serão penalizados disciplinarmente», diz Miguel Guimarães, assegurando desde já que teria de ser preservado o direito à objeção de consciência, o que aliás está previsto no código deontológico da classe. No regulamento, lê-se que o médico tem o direito de recusar práticas que entrem em conflito com a sua consciência, ofendendo os seus princípios éticos, morais, religiosos, filosóficos, ideológicos ou humanitários.

Nisso, João Semedo concorda, mesmo à luz do que diz a declaração de Genebra. E recorda que no caso da interrupção da gravidez, a lei prevê esse direito. «Pode e deve manter-se o direito à objeção de consciência. É um direito que só não é válido se contrariar as leis do país, o que não seria o caso dado que a própria lei o prevê». E embora também não anteveja um impacto significativo no debate da despenalização da morte assistida, acredita que o impacto simbólico da nova declaração é inegável. «Ninguém poderá voltar a usar o fantasma do Hipócrates», diz. Este ano, são cerca de 1500 jovens médicos a fazer o seu juramento em Portugal. A primeira cerimónia será em Coimbra, no dia 18 de novembro. Segue-se Lisboa, no dia 22 de novembro, Braga a 26 de novembro e Porto, a 10 de dezembro. O bastonário ainda pensou juntar todos os médicos num só sítio, mas a logística seria difícil. O impacto coletivo seria maior. No ano passado, em Lisboa, o juramento encheu a Aula Magna, numa festa com tunas, discursos e a distinção dos melhores alunos. Mas o momento arrepiante é quando as luzes baixam e os médicos repetem em uníssono as palavras do juramento que esperam concretizar.

A nova Declaração de Genebra

Como membro da profissão médica:
– Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da humanidade;
– A saúde e o bem-estar do meu doente serão as minhas primeiras preocupações;
– Respeitarei a autonomia e a dignidade do meu doente;
– Guardarei o máximo respeito pela vida humana;
– Não permitirei que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente;
– Respeitarei os segredos que me forem confiados, mesmo após a morte do doente;
– Exercerei a minha profissão com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas;
– Fomentarei a honra e as nobres tradições da profissão médica;
– Guardarei respeito e gratidão aos meus mestres, colegas e alunos pelo que lhes é devido;
– Partilharei os meus conhecimentos médicos em benefício dos doentes e da melhoria dos cuidados de saúde;
– Cuidarei da minha saúde, bem-estar e capacidades para prestar cuidados da maior qualidade;
– Não usarei os meus conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;

Faço estas promessas solenemente, livremente e sob palavra de honra.
Fonte: Jornal Sol Sapo Pt
Por: Marta F. Reis
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Há 79 anos a Harvard faz uma pesquisa sobre felicidade

Do que é feita uma vida boa? Lições do mais longo estudo sobre felicidade

Harv

O que nos mantém saudáveis e felizes enquanto passamos pela vida? Se você fosse investir agora no seu melhor “eu” futuro, a que dedicaria seu tempo e energia? Houve uma recente pesquisa entre a Geração Y perguntando-lhes quais eram seus objetivos mais importantes na vida, e mais de 80% disseram que seu maior objetivo de vida era ficar rico.

E outros 50% desses mesmos jovens adultos disseram que outro grande objetivo de vida era ficar famoso. (Risos) E nos falam constantemente que devemos priorizar o trabalho, dar nosso melhor e conquistar mais coisas. Nos dão a impressão que essas são as coisas que devemos correr atrás para se ter uma vida boa. Imagens de vidas inteiras, das escolhas que as pessoas fazem e dos resultados que estas lhes trazem, essas imagens são quase impossíveis de conseguir.

Quase tudo que sabemos sobre a vida humana é de perguntar às pessoas do que se lembram do passado, e, como sabemos, o olhar em retrospectiva não é apurado. Esquecemos a maior parte do que nos acontece na vida, e às vezes a memória é totalmente criativa. Mas e se pudéssemos assistir a vidas inteiras enquanto elas se desenrolam ao longo do tempo? E se pudéssemos estudar as pessoas desde sua adolescência até a velhice para ver o que realmente mantém as pessoas felizes e saudáveis? Nós fizemos isso.

O Estudo de Desenvolvimento Adulto, de Harvard, é possivelmente o estudo mais longo sobre a vida adulta que já foi feito. Durante 79 anos, nós acompanhamos as vidas de 724 homens, ano após ano, perguntando sobre seus trabalhos, vidas domésticas, saúde e, claro, perguntando o tempo todo, sem saber como as histórias de suas vidas seriam. Estudos assim são extremamente raros. Quase todos os projetos desse tipo se encerram dentro de uma década porque muitas pessoas abandonam o estudo, ou o dinheiro para a pesquisa acaba, ou os pesquisadores perdem o foco, ou eles morrem, e ninguém mais chuta a bola para frente. Mas por meio de uma combinação de sorte e a persistência de várias gerações de pesquisadores este estudo sobreviveu.

Aproximadamente 60 dos nossos 724 homens originais ainda estão vivos, e participam do estudo, a maioria deles na casa dos 90 anos. E agora começamos a estudar os mais de 2 mil filhos desses homens. E eu sou o quarto diretor nesse estudo.

Desde 1938, nós acompanhamos a vida de dois grupos de homens. O primeiro começou o estudo quando estavam no segundo ano da Universidade de Harvard. Todos terminaram a faculdade durante a 2ª Guerra Mundial, e a maioria foi servir na guerra.

E o segundo grupo que acompanhamos era um grupo de garotos dos bairros mais pobres de Boston garotos que foram escolhidos para o estudo especialmente porque eram de algumas das famílias mais problemáticas e desfavorecidas na Boston da década de 30. A maioria vivia em prédios populares, muitos sem água corrente, fria e quente. Quando eles entraram no estudo, todos esses adolescentes foram entrevistados. Fizeram exames médicos. Nós fomos às suas casas e entrevistamos seus pais. E então esses adolescentes se tornaram adultos que seguiram diversos caminhos na vida. Tornaram-se operários, advogados, pedreiros e médicos. Um deles tornou-se Presidente dos Estados Unidos. Alguns desenvolveram alcoolismo. Uns poucos sofreram de esquizofrenia. Alguns ascenderam socialmente do fundo até o topo e alguns fizeram essa jornada na direção oposta.

Os fundadores desse estudo nem nos seus sonhos mais loucos imaginariam que eu estaria aqui hoje, 79 anos depois, contando-lhes que o estudo ainda continua. A cada dois anos, nossa equipe, paciente e dedicada, contata nossos homens para saber se podemos enviar-lhes mais um bocado de perguntas sobre suas vidas. Muitos homens da Boston urbana nos perguntam: “Por que vocês ainda querem me estudar? Minha vida não é tão interessante.” Os homens de Harvard nunca fizeram essa pergunta. (Risos)

Para ter uma ideia melhor dessas vidas, nós não apenas enviamos questionários. Nós os entrevistamos em suas salas de estar. Pegamos suas informações médicas com seus médicos. Nós tiramos seu sangue, escaneamos seus cérebros, falamos com seus filhos, os filmamos conversando com suas esposas sobre suas maiores preocupações. E quando, há uma década, finalmente perguntamos às esposas se elas se juntariam a nós como membros do estudo, muitas disseram: “Sabe, já estava na hora.” (Risos)

Então o que aprendemos? Quais são as lições que extraímos das dezenas de milhares de páginas de informação que geramos sobre essas vidas? Bem, as lições não são sobre riqueza, ou fama, ou trabalhar mais e mais. A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 79 anos é esta: bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Ponto final.

Aprendemos três grandes lições sobre relacionamentos. A primeira é que conexões sociais são muito boas para nós, e que a solidão mata. As pessoas que estão mais conectadas socialmente com a família, amigos e comunidade, são mais felizes, fisicamente mais saudáveis e vivem mais do que as pessoas que têm poucas conexões. E a experiência de solidão é tóxica. Pessoas que são mais isoladas do que elas gostariam descobrem que são menos felizes, sua saúde decai precocemente na meia idade, seu cérebro se deteriora mais cedo e vivem vidas mais curtas do que aqueles que não são solitários.

E o fato triste é que, em qualquer período considerado, mais de um em cada cinco norte-americanos relatará que está solitário. E nós sabemos que você pode sentir-se só numa multidão e pode sentir-se solitário num casamento, então a nossa segunda grande lição é que não é apenas o número de amigos que você tem, e não é se você está ou não em um relacionamento sério, mas sim a qualidade dos seus relacionamentos mais próximos que importa. Acontece que viver no meio de conflitos é ruim para a nossa saúde. Casamentos muito conflituosos, por exemplo, sem muito afeto, podem ser muito ruins para a nossa saúde, talvez até pior do que se divorciar. E viver em meio a relações boas e reconfortantes nos protege.

Uma vez que tínhamos acompanhado nossos homens até seus 80 anos queríamos observá-los novamente na meia idade e ver se poderíamos predizer quais deles iam se tornar octogenários felizes e saudáveis e quais não iam. E quando juntamos tudo o que sabíamos sobre eles aos 50 anos, não foram seus níveis de colesterol de meia idade que previram como iriam envelhecer. Foi o quão satisfeitos estavam em seus relacionamentos. As pessoas que estavam mais satisfeitas em seus relacionamentos aos 50 anos eram mais saudáveis aos 80. E relacionamentos bons e íntimos parecem nos proteger de algumas circunstâncias adversas de envelhecer. Nossos homens e mulheres mais felizes em uma relação relataram, aos 80 anos, que nos dias que tinham mais dor física, seu humor continuava ótimo. Mas as pessoas que estavam em relacionamentos infelizes, nos dias que tinham mais dor física ela era intensificada pela dor emocional.

E a terceira grande lição que aprendemos sobre relacionamentos e nossa saúde é que relações saudáveis protegem não apenas nossos corpos, mas também nossos cérebros. Ocorre que estar em um relacionamento íntimo e estável com outra pessoa aos 80 anos é algo protetor, que as pessoas que estão em relacionamentos nos quais sentem que podem contar com outra pessoa em caso de necessidade têm suas memórias preservadas por mais tempo. E as pessoas em relacionamentos nos quais elas sentem que realmente não podem contar com a outra, são as que acabam tendo declínio de memória mais cedo. E esses relacionamentos bons não têm que ser tranquilos o tempo todo. Alguns de nossos casais octogenários podiam discutir um com o outro dia sim, dia não, mas contanto que sentissem que poderiam contar um com o outro quando as coisas ficavam difíceis, aquelas discussões não prejudicavam suas memórias.

Então esta mensagem de que relações próximas e saudáveis são boas para saúde e bem-estar é uma sabedoria antiga. Por que é tão difícil de assimilá-la e tão fácil de ignorá-la? Bem, somos humanos. O que nós realmente gostaríamos é de um conserto rápido, algo que nós poderíamos obter que tornaria nossas vidas boas e as manteria assim. Relacionamentos são confusos e complicados e o trabalho duro de zelar pela família e amigos não é sexy ou glamouroso. É também para a vida inteira. Nunca cessa. As pessoas em nosso estudo de 79 anos que eram as mais felizes após aposentadas foram as que batalharam para substituir colegas de trabalho por companheiros. Assim como a Geração Y naquela pesquisa recente, muitos de nossos homens, quando estavam se tornando jovens adultos, realmente acreditavam que fama, riqueza e grandes conquistas eram o que eles precisavam correr atrás para ter uma boa vida.

Mas repetidas vezes, ao longo desses 79 anos, nosso estudo tem mostrado que as pessoas que se deram melhor foram as bem relacionadas, com a família, amigos e com a comunidade. E você? Digamos que esteja com 25, 40 ou 60 anos. Que tal buscar o que os relacionamentos têm a oferecer? Bem, as possibilidades são praticamente infinitas Pode ser algo tão simples quanto trocar o tempo vendo TV por tempo com pessoas ou reviver uma relação antiga fazendo algo novo juntos, longas caminhadas ou encontros à noite. Ou contatar aquele membro da família com quem você não fala há anos porque aquelas brigas de família tão comuns deixam marcas terríveis nas pessoas que guardam rancor.

Eu gostaria de encerrar com uma citação de Mark Twain. Mais de um século atrás, ele estava se lembrando de sua vida e escreveu isto: “Não há tempo, tão curta é a vida, para discussões banais, desculpas, amarguras, tirar satisfações. Só há tempo para amar, e mesmo para isso, é só um instante.” Uma vida boa se constrói com boas relações Obrigado. (Aplausos)

Fonte: TED
Por: Robert Waldinger
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“O altruísmo é uma teoria de profundo ódio contra o homem e contra o êxito”

¿Son neutrales las redes sociales?

altruismoEn una conferencia dada en 1981, Ayn Rand, la autora de cabecera del actual presidente de la cámara de representantes de Estados Unidos, Paul Ryan, y de los conservadores cristianos, leyó: “Ningún poder externo puede destruir al capitalismo y sus empresarios. Solo un poder interno: la moral. Más concretamente, el poder de una idea depravada, aceptada como principio moral: el altruismo. Esa teoría moral según la cual un hombre debe sacrificarse por otros. El altruismo es una teoría de profundo odio, contra el hombre, contra el éxito. El altruismo es enemigo del capitalismo”.

La idea del egoísmo como el motor de los negocios es razonable, pero no es, como la ideología capitalista quiso establecerlo, necesariamente el motor del bienestar de las sociedades. Los mismos economistas capitalistas han estudiado desde hace décadas los efectos de las “externalidades” por el cual un excelente negocio puede ser realizado no solo en detrimento del resto sino de los mismos beneficiados a largo plazo.

Para bien y para mal, el beneficio propio sigue siendo el corazón ideológico y práctico de los dueños de mega compañías como Google, Facebook, etc. Con una diferencia: ya no se trata de mentir para vender Coca Cola o McDonald’s sino de formas más extendidas y profundas de pensar y de sentir.

Las tecnologías digitales, que pueden servir para democratizar la información (Wikipedia es un ejemplo), para denunciar injusticias o hacerle la tarea difícil a un dictador al viejo estilo del siglo XX, también sirven para lo contrario: para manipular, todo debajo del manto de la pretendida neutralidad tecnológica.

El caso de las redes sociales es uno de esos ejemplos, probablemente el más significativo. No basta con demostrar que el gobierno ruso manipuló la opinión de los votantes estadounidenses valiéndose de estos instrumentos. Es necesario preguntarse, además, ¿cuál es la razón existencial de los dueños y administradores de esas mega sociedades en cuyas redes vive, literalmente, la mitad de la población mundial?

Es uno, básicamente: las ganancias. Es un negocio y funciona como tal.

Pero ¿no son los negocios una actividad pragmática, sin ideología? Tal vez los negocios sí, pero no los mega negocios.

Cuando uno habla con individuos que formaron parte de grandes compañías trasnacionales y conoce sus familias, no queda otra posibilidad que reconocer que son buenos padres, buenos esposos, buenos hijos, donantes regulares para causas nobles. Los individuos suelen ser muy buenos, pero cuando son gerentes de poderosas compañías de sodas, de tabaco, o de fast foods, cumplen una función, y su primer objetivo es que dicha compañía no quiebre. Es más: el objetivo es que el volumen de ganancias crezca sin parar, más allá de si el tabaco, el azúcar y las grasas recicladas matan a cientos de miles de personas por año. La moral individual casi no importa; los individuos no explican la realidad. Es el sistema para el cual trabajan.

Lo mismo compañías como Facebook, Twitter o Instagram. Zuckerberg es un buen muchacho, realiza donaciones millonarias (que en muchos casos es como si un obrero donase diez dólares a los afectados por un huracán). No obstante, su equipo de ingenieros y psicólogos trabaja día y noche para maximizar las ganancias maximizando el número de los nuevos clientes sin importar que para ello deban desarrollar estrategias de dependencia psicológica, sin importar que varios estudios insistan que Facebook produce depresión, sin importar que varias investigaciones hayan mostrado el carácter adictivo de esta actividad. Como la nicotina o el azúcar, las que fueron camufladas por las tabacaleras y todavía lo son por las gaseosas carbonatadas. Como el alcohol, el consumidor compulsivo satisface una necesidad creada mientras niega el problema y presume de su libertad.

Como en la economía actual, la clave del éxito de las megaempresas no radica, como se repite hasta el hastío, en satisfacer una demanda existente sino en crearla, ya que las demandas suelen no existir antes del producto.

Miles de millones de usuarios de las redes sociales han sido atrapados por unos muchachos de California, también por otra razón. Desde vendedores de lapiceras hasta actrices y vendedores de libros casi nadie puede prescindir de ellas porque es allí a donde se han mudado los consumidores. Un diario que no tenga una página en FB o en Twitter para distribuir sus noticias y artículos prácticamente no existe o existe a medias. Es decir, para los amantes de las redes y para quienes las detestan, son imprescindibles. Incluso para hacer conocer un artículo crítico de ellas mismas, como lo puede ser este. Por no entrar a hablar de las infraestructuras, como los cableados internacionales, que dependen cada vez más de estas paraestatales.

Las redes sociales son un medio y una tecnología que no tienen nada de neutral. Poseen su propia lógica, sus propios valores y su propia ideología.

Deberíamos preguntarnos, cómo y cuáles son los posibles efectos de estas súper concentradas redes y negocios en la realidad social y psicológica. Aparte de la adicción y las depresiones individuales, podemos sospechar efectos sociales. Cuando en los 90s veíamos a Internet como el principal instrumento para una Democracia directa en algún futuro por venir, no previmos los efectos negativos. ¿Son la creación de burbujas sociales uno de esos efectos? Los usuarios (¿individuos?) suelen eliminar con un solo click un “amigo” molesto. Esto, que parece muchas veces lo mejor, tiene un efecto acumulativo: hace que los individuos se rodeen de gente que piensa como ellos. Así se crean sectas, burbujas, mientras el individuo se vuelve intolerante ante la discrepancia o la opinión ajena. El producto, el nuevo pseudo-individuo, no sabe debatir. El insulto y el odio afloran a la velocidad de la luz. Así, las redes se convierten en fábricas de odio y de seudo amistades. La probabilidad de que viejos amigos terminen por insultarse por meras cuestiones de opinión es muy alta a medida que progresa cualquier conversación y degenera en discusión. El diálogo, antes probable cuando se estaba cara a cara con un café mediante, desaparece y aflora el amor propio, el Ego herido por cualquier punto y coma de más.

Claro que el odio y el egoísmo es tan antiguo como andar a pie, pero es probable que esté potenciado hoy con las redes antisociales. A partir de estas coordenadas mentales, quizás podríamos comprender mejor la ola fascista en los países donde surgieron y predominan estas redes y no reducirlo todo a una reacción contra la antigua inmigración. Tal vez no es casualidad que el surgimiento del nazismo en la Alemania de los ‘30 coincida con la explosión de la radio y la propaganda en los cines.

Las actuales redes antisociales, instrumentos democráticos (de solidaridad y altruismo) son hoy los transmisores favoritos del odio. Que estén gobernadas por mega sectas multibillonarias, cuyo objetivo central son las ganancias económicas, no debe ser casualidad.

Hay que tomarse en serio la confesión de Ayn Rand.

Fonte: Alainet
Por: Jorge Majfud
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Os Estados Unidos tem uma longa história de simpatia pelos nazistas

Lo que un mitin nazi de Nueva York de 1939 puede enseñarnos sobre América hoy.
Hay una larga historia de simpatías nazis en los Estados Unidos.

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Movimiento Nacional Socialista EEUU

Varios meses antes de que Alemania invadiera Polonia, dando comienzo a la Segunda Guerra Mundial, un grupo de aproximadamente 20.000 nazis estadounidenses realizó un mitin en el corazón de la ciudad de Nueva York.

Allí recitaron el Juramento de la Lealtad, agitaron banderas con esvásticas y levantaron sus brazos en saludos nazis.

El German American Bund, un grupo nazi que se deterioró durante el curso de la guerra, convocó a la reunión el 20 de febrero de 1939, en el Madison Square Garden de New York “Una noche en el Garden”, un breve documental dirigido por el dos veces nominado al Oscar, Marshall Curry, ofrece una visión de la supremacía blanca y el antisemitismo desenfrenado que se exhibió entonces.

Lanzado después de los mítines de supremacía blanca en Charlottesville, Virginia, la película de siete minutos revela escenas con paralelos aterradores a los mítines neonazis que América ha presenciado en los últimos meses. “Si nos pregunta para qué estamos luchando activamente bajo nuestra carta: primero, un Estados Unidos socialmente justo, blanco y gobernado por los gentiles”, se puede ver al líder del Bund, Fritz Kuhn, contando a la audiencia de 1939 en el video. “En segundo lugar, sindicatos controlados por gentiles, libres de la dominación judía dirigida por Moscú”.

En ese momento en la película, un manifestante sube al escenario y los hombres en el escenario lo atraparon rápidamente y lo golpearon. El manifestante, Curry escribe en el sitio web de la película, era Isadore Greenbaum, un plomero de 26 años, cuyo acto de desafío fue recibido con violencia y burlas. Además de golpearlo, los asistentes al acto le bajaron los pantalones mientras el público rugió de risa y vítores (Ver foto izq). Incluso puede verse en el video un chico joven en el escenario riéndose y frotándose las manos, entusiasmado por la paliza.

Greenbaum fue arrestado por conducta desordenada y multado con 25 dólares, según un artículo del New York Times que se publicó dos días después del mitin. Al presentarse en la corte al día siguiente, Greenbaum le dijo al juez: “Fui al Garden sin ninguna intención de interrumpir. Pero escuchando todo lo que dijeron con tanto odio contra mi religión perdí la cabeza, y sentí que era mi deber hablar”.
Cuando el juez le preguntó si había considerado que “personas inocentes” podrían haber muerto, Greenbaum respondió: “¿Se da cuenta de que muchos judíos podrían ser asesinados con la incitación a su persecución que estaban haciendo allá arriba?”

Después de la violencia en agosto en Charlottesville, Curry dijo que sentía que había una necesidad “urgente” de recordarles a los estadounidenses este episodio anterior de simpatías nazis en el país.

“Nos gustaría pensar que cuando se levantó el nazismo, todos los estadounidenses se horrorizaron al instante. Pero mientras que la gran mayoría de los estadounidenses estaban consternados por los nazis, también hubo un grupo significativo de estadounidenses que simpatizaban con su mensaje blanco supremacista y antisemita”, escribió en el sitio web de la película. Curry dijo que esperaba que quienes vieron la película reconocieran la pendiente resbaladiza entre consentir al fanatismo y participar activamente en él.

“Nos gustaría creer que hay líneas nítidas que nos dividen entre las buenas y las malas personas”, escribió. “Pero creo que la mayoría de los humanos tienen pasiones oscuras dentro de sí, esperando ser despertados por un demagogo gracioso y mezquino, que puede convencernos de que la decencia es para los débiles, que la democracia es ingenua y que la amabilidad y el respeto por los demás solo ridícula corrección política”.

La manifestación de 1939, dijo, “debería recordarnos que no debemos ser complacientes, que las cosas que nos importan deben ser nutridas y defendidas regularmente, porque incluso las personas aparentemente buenas tienen el potencial de hacer cosas horribles”.

Fonte: Huffpost EUA
Por: Antonia Blumberg
Tradução: Alicia Benmergui em Milim Revista Digital
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Despediu-se do psiquiatra deixando como lembrança um paralelepípedo em cima da mesa

Um mexicano em Paris

JG

Estou lendo um livrinho precioso. Em 68: Paris, Praga e México (editora Rocco, 2008), do escritor mexicano Carlos Fuentes, passeia pelos grandes movimentos insurrecionais libertários de 1968, todos vivenciados pessoalmente. Ainda estou a meio caminho, mas o que já li é suficiente para recomendá-lo fortemente. Não se trata de uma análise política acadêmica, mas reportagens emocionadas sobre o que ele chama de ano-constelação, no qual “sem razão aparente, imediatamente explicável, coincidem fatos, movimentos e personalidades inesperadas e separadas no espaço”. Como se franceses, tchecos e mexicanos tivessem marcado hora para a erupção de um vulcão, a partir de três bocas diferentes, geograficamente muito afastadas. A descrição está longe de ser neutra. Fuentes se apaixona pelo que vê e suas palavras dão vazão a este sentimento, com grande densidade literária.
Sei que internet em geral, Facebook em particular, não é território apropriado para textos extensos. Não à toa os grandes sucessos de audiência, que “viralizam”, são apenas imagens, no máximo comentários ligeiros, perecíveis. Vou remar contra a corrente. Gastei um tempinho digitando um pequeno trecho do livro, que reproduzo abaixo. Fala de Paris naquele ano agitado. Quem se dispuser a lê-lo, arrisco dizer, compartilhará algo escasso hoje em dia: gente identificada com a construção de um futuro mais fraterno, criativo, revolucionário. Todos aglutinados apesar de diferenças ideológicas e nutridos por essas mesmas diferenças. Alento nestes tempos de revitalização do fascismo.

Em tempo: comprei o livro no sebo Berinjela (avenida Rio Branco, 185 – loja 10, bem em frente à livraria Leonardo da Vinci). Não o estava procurando. A surpresa deste tipo de encontro é dessas coisas que a internet jamais proporcionará. Viva Berinjela !

Cafés, bistrôs, oficinas, aulas, fábricas, lares, esquinas dos bulevares: Paris se transformou em um grande seminário público. Os franceses descobriram que há anos não dirigiam a palavra uns aos outros, e que tinham muito a se dizer. Sem televisão e sem gasolina, sem rádio e sem revistas ilustradas, deram-se conta de que as “diversões” os tinham, realmente, distraído de todo contato humano real. Durante um mês, ninguém tomou conhecimento das gestações da princesa Grace ou dos amores de Johnny Halliday, ninguém se sentiu impelido pelos apelos publicitários para trocar de carro, relógio ou marca de cigarros. Em lugar das “diversões” da sociedade de consumo, renasceu de maneira maravilhosa a arte de as pessoas se reunirem para escutar e falar e reivindicar a liberdade de interrogar e duvidar.

Os contatos se multiplicaram, iniciaram-se, restabeleceram-se. Houve uma revolta – tão importante quanto as barricadas estudantis ou a Cartaz maio 68 1greve dos operários – contra a calma, o silêncio, a satisfação, a tristeza. Pais e filhos encontraram uma possibilidade de comunicação (ou se certificaram de que a haviam perdido). Maridos e mulheres se separaram por incompatibilidade política, moral e erótica (pois trata-se de sinônimos). Outros pares se conheceram nas barricadas, no debate permanente no Odéon, nas passeatas: o amor nasceu com a mesma velocidade dos acontecimentos. Flo é filha de uma montadora de filmes amiga minha; era a moça mais inibida do mundo; estuda em Nantes e ocupou a universidade com seus companheiros; Flo se libertou em uma cidade da qual despareceram os policiais, convocados com toda a urgência a Paris: Nantes, a cidade e sua universidade, e a linda Flo, foram verdadeiramente livres pela primeira vez. Madeleine é a inteligente editora de uma coleção de livros infantis em uma grande editora; seu marido é produtor de televisão. No momento mais tenso das barricadas, Madeleine transformou seu apartamento em refúgio e hospital para estudantes feridos; o marido reclamou que a atitude dela o comprometia: quando se trabalha na ORTF, tem-se de estar bem com o governo. “Escolha entre eu e Pompidou”, respondeu Madeleine. Jean-Jacques, um amigo psicanalista, queixa-se amargamente: “Os consultórios se esvaziaram, e muito. A revolução substituiu o psiquiatra. Nós nos sentimos inúteis. Ontem uma paciente minha esteve no consultório e disse: ‘Os senhores querem nos adaptar a essa sociedade idiota. Eu me nego a ser adaptada. Quero ser rejeitada e rejeitar o mundo atual’. E me deixou, como lembrança, um paralelepípedo em cima da mesa”.

Autor: Jacques Gruman
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