“Comecem pela saúde mental dos políticos”

UE exige aos governos que tratem melhor a saúde mental

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Só metade dos doentes mentais graves que vivem nos países da União Europeia têm acesso a cuidados adequados. Os efeitos negativos destas doenças representam 450 mil milhões de euros/ano. Por isso, a Europa quer compromissos e atuação.

A União Europeia (UE) quer que os países europeus assumam um compromisso sério para garantir mais cuidados de saúde mental. Por isso os 25 Estados membros, mais a Islândia e a Noruega, reuniram-se para avaliar problemas e fazer propostas para dar mais tratamentos, consultas, prevenção e envolver mais áreas políticas. O retrato assim o exige: as doenças mentais são muito comuns e têm um efeito negativo na qualidade de vida pessoal e profissional (representam 22% da carga das incapacidades); são mais de 450 mil milhões de euros anuais os custos diretos e indiretos (cuidados médicos, faltas ao trabalho, etc.); só cerca de metade dos doentes mentais graves na UE têm acesso a tratamentos adequados e há infraestruturas institucionais ultrapassadas. A avaliação recaiu em cinco áreas, para as quais a UE faz propostas e pede aos países que implementem as recomendações, façam uma avaliação dos resultados e que mudem a legislação se preciso: são as Linhas de Ação Estratégica para a Saúde Mental e Bem estar da União Europeia. Os projetos inovadores vão ter apoio para que possam ser implementados nos restantes países.

Portugal tem legislação e um Plano de Saúde Mental que vai ao encontro das recomendações da UE. Mas como estamos neste retrato? “Numa situação pouco confortável. Temos seguido a um ritmo lento, influenciado pelas políticas nacionais e pela crise financeira. Entre 2012 e 2015 houve um retrocesso, com perspetiva de reativar a institucionalização”, disse ao DN Álvaro de Carvalho, diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, referindo que Portugal não precisará de grandes alterações legislativas para pôr em marchas as recomendações da UE. Precisa sim, de outra organização e financiamento, sobretudo para cumprir o objetivo da integração dos doentes na comunidade. “Sem uma mudança do modelo de financiamento e de governação para os serviços locais não podemos aprofundar muito o que quer que seja. A fonte de financiamento dos hospitais são as consultas e os internamentos. Há um modelo que está a ser estudado no âmbito dos EEA-Grants [programa de financiamento europeu] em que o dinheiro segue o doente, à semelhança do que acontece com a diabetes e VIH, em vez de ser um valor per capita. Se o doente precisar de cuidados na comunidade é acionado um financiamento especifico”, explica, referindo que é este o modelo que vai ser proposto ao Ministério da Saúde.

O modelo de organização teria por base os centros de responsabilidade integrada já previstos desde 1999, mas que não avançaram. “Os serviços locais de saúde mental seriam centros destes. O diretor estabelece um plano para determinado tempo, recebe o orçamento de acordo com os objetivos. Se não cumprir é penalizado”. O atual ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes, já disse que os centros de responsabilidade integrada são uma das áreas a apostar.

Mais cuidados na comunidade e menos nos hospitais

› Segundo a UE, ainda existe um longo caminho a percorrer na criação de uma rede de cuidados mentais na comunidade e na disponibilização de cuidados socialmente inclusivos e de boa qualidade na Europa. Defende-se, por isso, uma ligação mais próxima com os centros de saúde, a cooperação com os serviços sociais e de emprego para que existam projetos vocacionais ou residências acompanhadas. Um dos exemplos de boas práticas saiu de Portugal, que coordenou este grupo de trabalho na ação conjunta europeia. Aliás, o modelo de novo financiamento que está a ser estudado em Portugal tem por base um projeto desenvolvido em Oeiras, com uma equipa do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental que em 2009 recebeu financiamento por ser um programa inovador.

No terreno trabalha uma equipa com psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. Estão numa casa alugada em Caxias, onde os doentes mentais graves, que mais dificilmente iriam ao hospital, têm consultas e planos individuais. E onde a família destes também participam. “O facto de termos instalações nestes locais é socialmente mais inclusivo. Trabalhamos com o doente e apoiamos a família. Trabalhamos com as estruturas locais – Câmara de Oeiras, juntas de freguesia, associações recreativas, Instituto do Emprego – e em articulação com os Cuidados de Saúde Primários o que permite promover uma melhor integração para os nossos doentes. Após uma crise fazemos a reabilitação inicial e trabalhamos com instituições que promovem formação e emprego apoiado. Quando não é possível para o doente, existem os fóruns ocupacionais, onde têm atividades, relacionamento com outras pessoas, desenvolvem competências. Dá-lhes objetivos. Sem isto, a alternativa após internamento seria irem para casa, ficarem isolados, e ter consulta de dois em dois meses no hospital”, explicou ao DN Joaquim Gago, coordenador da equipa, que reconhece que o financiamento tem sido difícil e que projetos como este são ainda exceções e não a regra. Com este modelo de cuidados integrados, acrescenta, é possível diminuir os internamentos e as recaídas devido a prestação de cuidados diferenciados na comunidade e assim conseguir melhorar a inclusão social e a qualidade de vida destes doentes.

Prevenir as depressões e reduzir o risco de suicídio

› A UE quer que esta seja uma prioridade. “Agir contra a exclusão económica e social, a violência doméstica, o bullying, consumo de drogas e álcool”, pode ler-se nas linhas estratégicas europeias, que defendem ainda o apoio das redes sociais de proteção e o aumento do reconhecimento da depressão e o acesso a tratamentos com mais psicoterapia e ferramentas eletrónicas. No caso Portugal já foram implementados projetos que estão a chegar aos centros de saúde do país de formação de médicos e enfermeiros “para capacitação do diagnóstico da depressão e tratamento”, diz Álvaro de Carvalho, adiantando que “nos centros de saúde estão a ser incluídos indicadores de saúde mental na avaliação das grávidas”. O plano do Governo passa por ter também psicólogos nos centros de saúde. Aqui, fica um alerta. “Tem de ter formação em psicoterapias, que são intervenções mediadas pela palavra em que a medicação não é a componente principal”, defendeu o diretor do programa nacional de saúde mental.

Escolas: um aliado para promover a saúde mental

› A maioria das doenças mentais começa antes da idade adulta. Por isso a UE afirma que as escolas são fundamentais para prevenir as doenças mentais, reconhecimento da doença e informação sobre os tratamentos. Recomenda, pois, que haja formação a todos os funcionários e que as escolas sejam vistas como uma parte da rede. Portugal já está a agir. “Foram desenvolvidos dois projetos, um com equipas de saúde outra com equipas educativas [professores] que procura sensibilizar para a valorização dos sinais de sofrimento de crianças e adolescentes [por exemplo perturbações no sono ou lesões autoinfligidas]. Já está a ser estendido a todo o país”, disse Álvaro de Carvalho.

Promover melhor saúde nos locais de trabalho

› A principal recomendação da UE é a intensificação da colaboração política entre a saúde e o trabalho para a criação de estratégias que envolvam as empresas. É uma forma de combater as reformas antecipadas e faltas ao trabalho por doença mental, que aumentaram nos últimos anos. Querem que haja a identificação e combate aos fatores de risco psicossocial, promoção de vida saudável e serviços de saúde disponíveis para os trabalhadores que precisem. Em Portugal já existe um projeto que pretende avaliar a pressão que a crise criou nos locais de trabalho e o apoio dado aos grupos mais afetados.

Saúde mental tem de estar em todas as políticas

› Público, privado, políticas internacionais, nacionais, regionais. A UE quer que todas as decisões tenham em conta os efeitos que as medidas podem ter na saúde mental da população. Consideram que é fundamental que haja mais conhecimento sobre a saúde mental para que se reduza o fosso que existe entre as decisões e o impacto destas. No nosso país decorre um estudo sobre o impacto da crise na saúde mental.

Comentários:

Guilherme Gonçalves · Fisioterapeuta na empresa Hopital Meulan les Mureaux
Comecem pela saúde mental dos políticos 😂
Gosto · Responder · 4 · 19 de Setembro de 2016 2:13

Alexandra Abreu · Gestao e coordenaçao na empresa Gestão e Coordenação Pedagógica
Ora aqui está uma boa exigência
Gosto · Responder · 1 · 19 de Setembro de 2016 8:51

Fonte: DN

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Reparando a escravidão com cotas na universidade

Universidades dos EUA começam a enfrentar seu passado escravocrata

A jesuíta Georgetown anuncia que dará facilidades de acesso aos descendentes de 272 escravos vendidos em 1838

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Joe Stewart posa ao lado de Patricia Bayonne-Johnson em Georgetown. Os dois descendem do grupo de escravos vendidos em 1838.

“Eu me chamo Joe Stewart e sou descendente de um dos 272. Vocês dizem que a única coisa que falta neste debate são os rostos dos afetados. São estes”, disse solenemente este homem afro-americano, indicando com a mão quatro mulheres que, ao lado dele, participavam de um ato cerimonioso na Universidade Georgetown (Washington). Os 272, seus ancestrais, eram os escravos que os jesuítas venderam em 1838 para saldar uma dívida e garantir a sobrevivência da que hoje é uma das melhores universidades do mundo: 115.000 dólares da época – 3,3 milhões de dólares atuais (10,8 milhões de reais)– por um grupo de famílias que foram separadas por seus compradores ao chegarem em Louisiana, ao contrário do prometido.

Os investigadores da universidade afirmam que os jesuítas possuíam mais de mil escravos nas plantações da região. Não eram os únicos. Brown, Princeton e Emory também os tiveram. Apesar de esse episódio ser amplamente conhecido pelos historiadores, o assunto é o centro de um intenso debate público desde o ano passado, quando o movimento estudantil contra a discriminação racial chamou a atenção para isso. E agora é parte do debate sobre a divisão racial do país.

Georgetown, a primeira instituição educacional católica dos EUA e uma das mais prestigiadas do país, deu um passo histórico na quinta-feira ao anunciar que oferecerá reparações aos descendentes dos 272 e lhes dará preferência para estudar em suas classes. A instituição também anunciou que um de seus edifícios se chamará Isaac, nome de um dos escravos vendidos, e outro será batizado em homenagem a uma professora afro-americana que pertenceu a uma ordem católica.

“O demônio que definiu os primeiros anos da república estava presente aqui”, afirmou na quinta-feira o presidente da Universidade Georgetown, John DeGioia, ao anunciar a decisão, que coincide com a publicação de um relatório realizado pela própria instituição sobre seu passado escravocrata. A universidade jesuíta celebrará também uma missa na qual “buscará o perdão por ter participado da instituição da escravidão, especificamente pela venda de 272 crianças, mulheres e homens que deveriam ter sido considerados membros de nossa comunidade”.

“Georgetown merece reconhecimento por ter tomado essa decisão que demonstra seu compromisso de participar de uma conversação de longo prazo sobre como curar as feridas”, afirma Craig Steven Wilder, autor do livro Ebony & Ivy, dedicado à herança escravagista das universidades dos Estados Unidos. “Mas os relatórios e as conversações não curam. Precisamos de ações concretas.” O especialista sente falta de um compromisso econômico mais sólido por parte da Georgetown e medidas que favoreçam a entrada de mais estudantes afro-americanos, que representam agora 6% de seus 18.500 alunos.

Karran Harper Royal também. Ela foi a encarregada na sexta-feira de ler o comunicado dos descendentes dos 272. Enquanto Georgetown investigava seu rastro com peritos em genealogia, esta trabalhadora da área social de Luisiana começou a fazer o mesmo pela Internet, prosseguiu nos arquivos dos museus e viajou a antigas plantações. “É uma descoberta que estou aprendendo em tempo real. Há milhares de pessoas conectadas”, explica. “E eu precisava saber por que sou quem sou.” Graças aos testes de DNA, sabe que seu marido e filhos descendem de um dos escravos que a universidade vendeu. “Georgetown deu um bom passo, mas queremos trabalhar com eles para que sigam ainda mais longe.”

Wilder afirma que os 272 pertenciam à última geração escravizada na universidade, onde fazia cinquenta anos eram empregados em serviços de construção, manutenção ou para atender funcionários e estudantes. Como Georgetown, a Universidade Brown anunciou em 2006 a criação de um instituto para o estudo da escravidão e um monumento em nome de suas vítimas. Outras instituições deram passos semelhantes, mas numa em forma de compensações econômicas.

“Eles têm medo do termo reparações e temem criar um precedente que teria um custo importante”, explica o historiador do Massachusetts Institute of Technology. “Estamos falando de algumas das instituições mais ricas do país.” O escritor documentou em seu livro como a época de maior crescimento nas universidades dos EUA, em meados do século XVIII, coincidiu com um dos picos históricos do tráfico de escravos. Na época somavam 400.000 pessoas escravizadas. Um século depois eram quatro milhões: a quinta parte da população.

A identificação dos descendentes diretos é praticamente impossível pela falta de registros oficiais. Universidades como Brown, Princeton e Emory não registraram a venda de escravos, já que isso correspondia às famílias às quais cada instituição pertencia na época. Em Georgetown, a história é diferente. “É mais fácil identificá-los porque os jesuítas guardavam arquivos de todas as suas atividades empresariais”, afirma Wilder.

Os protestos estudantis dos últimos anos, reivindicando gestos como o da Georgetown, coincidiram também com a publicação de novas pesquisas e trabalhos em torno da herança da escravidão em empresas, instituições e universidades de todo o país que escoraram seu sucesso econômico com o trabalho de mão de obra escrava.

É a última tentativa de recuperar o debate da reconciliação iniciado por Boris Bitker em 1971, com seu ‘Argumento pelas reparações a afro-americanos’ para “curar as feridas (…) de quem levará durante décadas as cicatrizes de séculos de escravidão”. Em termos semelhantes, Harper Royal explicou na sexta-feira em Georgetown que querem “romper as correntes dos corações e das mentes de quem nunca foi fisicamente escravizado, mas ainda assim trabalha sob os vestígios da escravidão em nosso país”.

Fonte: EL PAÍS

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Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra

 

14/09/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

14/09/2016 – PORTO ALEGRE, RS – Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Telmo Kiguel: “se o discriminador faz mal ao outro, porque a ciência não pode pensar numa prevenção a esse modo de conduta?”.

Por Marco Weissheimer

No dia 8 de setembro, o Comitê Contra a Intolerância e a Discriminação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), promoveu um debate sobre os efeitos da discriminação na área da saúde. Participaram do debate Raquel Silveira, do Instituto de Psicologia da UFRGS, e Telmo Kiguel, médico psiquiatra e coordenador do Projeto Discriminação da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Esse projeto tem como objetivo básico a apropriação do estudo pela Psiquiatria da Conduta Discriminatória, cuja origem é basicamente psicológica e produz sofrimento mental e/ou físico no discriminado podendo chegar, em casos extremos, ao suicídio.

Em entrevista ao Sul21, Telmo Kiguel fala sobre esse projeto e defende a necessidade de uma maior mobilização dos profissionais da saúde mental no debate sobre esse tema. Hoje, na sociedade, assinala o psiquiatra, há somente duas instâncias que auxiliam a inibir as condutas discriminatórias: a ação organizada dos grupos discriminados e de seus apoiadores e o Direito que já tipifica como criminosa determinadas condutas como o racismo. No entanto, ressalta, o psiquismo presente em todo o processo discriminatório ainda requer um estudo mais aprofundado visando a busca de um diagnóstico compatível com a tipificação de um crime dada pelo Direito.

Sul21: Como nasceu o seu interesse por esse tema do papel da ciência na prevenção de condutas discriminatórias?

Telmo Kiguel: Eu sou psiquiatra e trabalho com psicoterapia de orientação psicanalítica. Tenho interesse neste tema desde o final da década de 60 quando me especializei em Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Naquela época, ainda vigia uma definição do doente mental como alguém que fazia mal para outras pessoas ou mal para si mesmo. Quando se descobriu o papel dos vírus e bactérias no surgimento de certas doenças, a ciência se preocupou em desenvolver procedimentos para detectar e neutralizar a ação desses microrganismos por meio de vacinas, abrindo a partir daí a possibilidade da prevenção. Isso mudou profundamente o mundo. Quando eu me formei, a especialidade mais procurada era a pediatria. Com o desenvolvimento das vacinas, ela foi se tornando uma das menos procuradas, pois os problemas de saúde das crianças diminuíram muito.

Pensando neste cenário, uma coisa sempre me intrigou: se o discriminador faz mal ao outro, porque a ciência não pode pensar numa prevenção a essa conduta? Há cerca de dez anos, consegui instalar na Associação Brasileira de Psiquiatria esse projeto sobre discriminação. A ideia é que, se não se definir e não se diagnosticar a conduta do discriminador, especialmente do racista, do machista e do homofóbico, continuaremos sem um trabalho de prevenção nessa área. Quando se isolou o vírus da gripe e se desenvolveu uma vacina para a doença, isso provocou uma grande mudança do ponto de vista da prevenção. Nunca mais tive uma gripe depois que passei a tomar uma vacina. Faz mais de dez anos que eu não tenho essa doença.

14/09/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

14/09/2016 – PORTO ALEGRE, RS – Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

“O conhecimento de uma definição científica psiquiátrica ou jurídica pode inibir condutas sintomáticas ou criminosas”.

Em um mundo ideal se definiria/diagnosticaria o discriminador e, uma vez definido, ele sofreria o impacto desta definição e isso inibiria a sua conduta. Na década de 70, homossexuais e suas lideranças pressionaram a ciência, por meio da Associação Americana de Psiquiatria e a homossexualidade deixou de ser classificada como doença. Posteriormente, aqui no Brasil, grupos discriminados pressionaram a Ciência Jurídica e conseguiram, por exemplo, que a conduta discriminatória racista e machista passassem a ser definida como crime.

O conhecimento de uma definição científica psiquiátrica ou jurídica pode inibir condutas sintomáticas ou criminosas. Um exemplo disso aparece no trânsito. Os motoristas conhecem a lei que limita a velocidade: uns respeitam, outros não; na maioria das vezes respeitam, mas, eventualmente, não. E é assim porque os motoristas tomaram conhecimento desta lei.

Esse é o princípio que rege esse projeto sobre as condutas discriminatórias. Eu posso olhar para ti dizer que está com febre. Você me responde dizendo que não está com febre e eu insisto que está e proponho que usemos um termômetro para tirar a dúvida. Em três minutos a ciência decide se você está ou não com febre. Acabou a discussão.

Sul21: Na sua opinião, há algo como um termômetro que pode medir e definir condutas discriminatórias com essa precisão?

Telmo Kiguel: A aceitação de que o termômetro é o grande juiz levou muito tempo. Tiveram que descobrir o mercúrio, as suas propriedades, a capacidade de utilizá-lo como elemento para fazer determinadas medições, etc. Houve um caminho da ciência que foi percorrido aí. O que estou propondo é que a ciência seja acionada, como já foi em outros episódios, para prevenir condutas discriminatórias. Quando a ciência foi acionada por grupos discriminados, ela tomou iniciativas que ajudaram a melhorar determinadas situações como ocorreu no caso dos homossexuais e das mulheres. No entanto, como não há prevenção, o número de ocorrências discriminatórias não diminuiu.

Sul21: Quando você fala em ciência, aqui, está falando basicamente da Psiquiatria?

Telmo Kiguel: Já existem várias propostas de definições a esse respeito. Uma delas foi formulada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora do livro Americanah, romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. Ela escreve que a maneira como o racismo se manifesta nos Estados Unidos mudou, mas a linguagem não. Os autores de práticas racistas, diz ela, não são mais aqueles clássicos “brancos malvados de lábios de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis”. “Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista”. A partir dessa avaliação, ela propõe: “Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra ‘racista’. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda”. Essa é a hipótese diagnóstica que ela propõe.

A necessidade do diagnóstico deve-se ao fato de que essa é uma conduta que faz o outro sofrer. Na medicina ou na saúde pública de um modo mais geral o que faz o outro sofrer pode ser um vírus ou pode ser outra pessoa. Uma pessoa viciada em drogas sofre e faz sua família e amigos sofrerem muito. Isso é uma doença. Se a minha conduta faz outras pessoas sofrerem, ficarem deprimidas, etc., estamos lidando com uma conduta doentia. A ciência baliza a maior parte dos nossos comportamentos, mas não nos damos conta disso. Quem está no limite da doença ou no limite da lei, está pensando que tem sempre que driblar a lei e tentar esconder os sintomas da doença. Um diagnóstico pode interromper esse tipo de conduta. É muito comum pessoas que têm um diagnóstico de uma determinada doença mudarem de vida. Alguém passa a usar óculos porque teve um diagnóstico de algum problema de visão e teve que mudar sua conduta por causa dele. É assim. A gente tem um diagnóstico e muda.

Sul21: Além da dimensão individual de posturas discriminatórias como racismo, machismo e homofobia, não há também uma dimensão social desses problemas que deve ser levada em conta para a obtenção desse diagnóstico? Fala-se muito hoje que estamos vendo o crescimento de uma cultura do ódio no Brasil. Não estamos, neste sentido, também às voltas com uma espécie de enfermidade social?

14/09/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

14/09/2016 – PORTO ALEGRE, RS – Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

“Tem gente que resolve pautar seu comportamento por um livro escrito há cerca de dois mil anos”.

Telmo Kiguel: Essa dimensão social, para os propósitos da questão que estou propondo, é secundária. A medicina não atacou a gripe, mas sim o vírus da gripe. Quem cria e mantém o racismo são os racistas. Eles seriam os vírus, os agentes causadores da doença. Mesmo no caso do racismo institucional, há pessoas que praticam determinados atos que fazem com que esse racismo exista. O meu foco é a práxis, é onde vou agir. Não estou dizendo que não pode haver todo um grupo contaminado. Pode. Há grupos assim. Mas precisamos definir uma unidade sobre a qual agir.

O discriminador, quando adulto, continua funcionando como uma criança imatura que rejeita comer determinado alimento que nunca experimentou, por puro preconceito. Esse discriminador pode ser um gênio em matemática ou física, pode ser o melhor jogador de futebol do mundo, mas ser imaturo. O ser humano não amadurece de forma homogênea, mas sim por ilhas. Todos nós temos essa característica: somos mais maduros em determinadas questões e menos em outras.

Sul21: A postura discriminatória então, na sua avaliação, estaria associada a uma espécie de imaturidade. Isso valeria para diferentes formas de discriminação como machismo, racismo e homofobia?

Telmo Kiguel: O imaturo ao qual estou me referindo aqui é uma pessoa que funciona segundo padrões da sua infância ou muito mais antigos. Tem gente que resolve pautar seu comportamento por um livro escrito há cerca de dois mil anos. Não é a toa que são chamados de fundamentalistas. A Bíblia é um grande livro que ajudou a ordenar o mundo e torná-lo mais civilizado, mas não é adequado hoje para ser adotado como um guia de comportamento. Tampouco é um acaso que alguns conservadores na política sejam discriminadores. Há pesquisas mostrando que países mais religiosos e menos laicos têm mais discriminação.

Sul21: Na psiquiatria, há certas condutas que já estão tipificadas como é o caso da psicopatia, por exemplo. Qual seria a fronteira, na sua opinião, entre um discriminador e um psicopata?

Telmo Kiguel: A psicopatia é considerada um distúrbio de personalidade anti-social. Um dos objetivos centrais desse projeto é obter um diagnóstico compatível com o crime. Não sei ainda qual será esse diagnóstico. Dizer que alguém é um discriminador não é um diagnóstico. A palavra “racista” está tão naturalizada que não é mais um diagnóstico compatível com o crime que ela expressa. Chamar alguém de psicopata já parece um diagnóstico mais compatível com o crime.

A ideia é investigar o agente causador, defini-lo e diagnosticá-lo. Creio que só quando se conseguir defini-lo começarão a diminuir as ocorrências. A educação, por si só, não é suficiente para prevenir. No Uruguai, uma pesquisa sobre a participação de mulheres na política mostrou que os homens com nível de educação superior são mais resistentes à participação feminina em cargos de decisão política. Enquanto 64% das mulheres, com ensino superior, responderam que deveria haver mais mulheres legisladoras e ministras, apenas 49% dos homens, com o mesmo nível de formação, manifestaram-se favoravelmente a essa proposta.

Aqui no Brasil, os conservadores não querem que se discuta questões de gênero nas escolas. No tempo da ditadura, uma das frases que era pichada nos muros era “A palavra cão não morde”. Se eu falar em gripe, você não ficará gripado por causa disso. Os conservadores acham que, se os professores falarem em homossexualidade nas escolas, os estudantes vão se tornar homossexuais. Isso é assim porque dentro dos templos religiosos que eles frequentam, a homossexualidade é definida como algo perverso e imoral e o papel das mulheres é ficar numa posição secundária em relação ao homem. Para muita gente, a homossexualidade ainda é um tabu que não pode ser objeto de conversas nas escolas.

A psiquiatria ainda não definiu nenhum diagnóstico para essas condutas discriminatórias. E, como já afirmei, esse diagnóstico só terá valor se ele for compatível com o crime. Alguém que é claustrofóbico, por exemplo, tem medo de andar de elevador e opta por subir as escadas quando precisa. Mas ele não sai dando pontapés no elevador, por ter medo de andar no mesmo. Por analogia, chamar determinada conduta de “homofobia” me parece uma denominação atenuada que acaba beneficiando o discriminador. No caso de alguém que ataca e é capaz de dar um tiro ou esfaquear um homossexual, isso está muito além de uma expressão de medo. Nós podemos ter medo de elevador e subir pelas escadas, como referi. O nome desse tipo de conduta é outro. Esse dito homofóbico acha que o problema está no homossexual e não reconhece que está nele próprio. Nós tempos problemas e doenças que reconhecemos e sabemos que temos, mas podemos ter doenças que não reconhecemos porque não conseguimos enxergá-las. No nosso psiquismo também temos situações, sintomas e doenças que a gente não reconhece que tem. Até o momento acreditamos que homofobia é o que se passa com o homossexual enquanto não se assume como tal ou “enquanto não sai do armário”. Este é realmente um tempo que há medo, de assumir a sua própria homossexualidade.

Tags: fundamentalismo, homofobia, machismo, psiquiatria, racismo, Síndrome do Distúrbio Racial, Telmo Kiguel, UFRGS

Fonte: Sul21

Textos correlatos que complementam esta entrevista:

1. Do Projeto Discriminação – Associação de Psiquiatria do RGS

http://aprs.org.br/eventos/projeto-discriminacao-aprs/
2. Do evento na UFRGS
Painel discute os efeitos da discriminação na saúde — UFRGS …
3. Textos publicados no blog Saúde Publica(da) ou não que ilustram algumas idéias do PD:
3.1 Sobre definição/diagnóstico da Conduta Discriminatória:
Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.

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Ministerio de Salud Pública lanza la aplicación móvil “Gurú del sexo”

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Busca que los jóvenes se puedan informar sobre temas relacionados con la sexualidad y derechos en salud

“Gurú del sexo”, la aplicación creada por el Ministerio de Salud Pública (MSP) para informar a los jóvenes sobre sus derechos en salud sexual, fue presentada esta tarde por Agustín Casanova, líder de la banda de cumbia pop Márama.

Durante la jornada “Desempolvando el Derecho: jóvenes discutiendo la salud”, del que participaron 200 jóvenes de todo el país, Casanova sostuvo que la aplicación permite que los jóvenes sean los “encargados de hacer entender a otros” sobre temas de sexualidad y agregó: “Está bueno de que los jóvenes participemos en estas cosas no solo para mejorar el país, sino la situación de cada uno”.

El año pasado, durante la primera edición de ese evento, los jóvenes propusieron tener otras herramientas de acceso a la información, con lenguaje joven y adaptado a las nuevas tecnologías, manifestó a El Observador el director del Instituto Nacional de la Juventud (INJU), Santiago Soto.

Embarazos no deseados y suicidios en adolescentes son dos temáticas sobre las que el gobierno tienen especial preocupación. Sobre todo porque el 16% de los bebés que nacieron en Uruguay en 2015 tuvieron madres menores y la mitad de ellas manifestó que su embarazo no fue buscado. Y porque también el año pasado 96 jóvenes de entre 10 y 24 años se quitaron la vida.

“La idea es una aplicación en lenguaje joven, que trabaja sobre temas, mitos, realidades y cosas relativas a la temática de forma interactiva”, dijo Soto.

Vea también: Así funcional la aplicación “Gurú del sexo”

En ese sentido, la aplicación cuenta con un calendario donde los jóvenes pueden anotar las consultas con los médicos, la última menstruación en el caso de las mujeres, o apuntar que tuvieron una relación sexual sin usar preservativo. En esos casos, la aplicación móvil recomienda al usuario a realizarse una prueba del virus de inmunodeficiencia humano (VIH).

También cuenta con una parte de georeferenciación donde a través de la ubicación la aplicación muestra el centro de salud adolescente más cercano y los derechos o exigencias que pueden tener los jóvenes con los médicos, como que se les hable en un lenguaje entendible.

La aplicación muestra también un resumen de derechos de los adolescentes en salud, como la cantidad de preservativos que se pueden adquirir de manera gratuita en centros de salud, información sobre el VIH o del suicidio. Esta tecnología será utilizada por la cartera para enviar alertas y de esa manera llegar a ese grupo etario con información preventiva.

La aplicación está disponible para el sistema Android a partir de este lunes y para IOS el próximo mes. Este será un plan piloto, que si funciona tendrá una segunda fase con mayor interacción de los usuarios de la aplicación.

Fonte: El Observador

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parlamento
Los hombres que alcanzaron la educación terciaria son los que se muestran más reticentes a la hora de promover la participación de las mujeres en los cargos de decisión política, según se desprende de un informe realizado por la consultora Cifra.

La encuesta denominada Actitudes hacia la participación de mujeres en política y mecanismos de acción afirmativa en Uruguay señaló que el 66% de la población considera que debería haber más mujeres en cargos políticos de los que hay en la actualidad y el 77% considera positivo que en los próximos 10 años haya una presidenta mujer.

Sin embargo, al desagregar los datos según nivel educativo y sexo, las mayores reticencias se encuentran en los hombres que aseguran haber alcanzado el nivel terciario de enseñanza. En ese caso, mientras que el 64% de las mujeres con esa formación considera que debería haber más mujeres legisladoras y ministras, en los hombres la respuesta alcanza el 49% de apoyo. Algo similar ocurre con la pregunta sobre la ley de cuotas aplicada en las elecciones nacionales de 2014, la cual obligaba a los partidos a que en en las listas hubiese cada dos personas de igual sexo una tercera con el sexo opuesto.
El 62% de los hombres con educación terciaria está en desacuerdo con la norma, mientras que en las mujeres esa postura la mantiene el 47%,

Luego, ante la pregunta de si en las próximas elecciones debía aplicarse el criterio de cuota, de paridad (misma cantidad de hombres que de mujeres) o ninguna de las dos, otra vez fueron los hombres con el nivel educativo más alto los más reticentes a impulsar estas normas: el 58% opina que no habría que aplicar ninguna de las dos, mientras que en las mujeres con el mismo nivel educativo esa respuesta alcanza el 42%.

Por otra parte, el 77% de los encuestados considera que sería positivo que de aquí a diez años hubiese una mujer presidenta en Uruguay. Al desagregar los resultados el menor apoyo se da entre los hombres de educación terciaria, en donde la respuesta positiva disminuye a 67%.

La directora de CIFRA, Mariana Pomiés, señaló que este grupo, que es “el que más se resiste a aumentar la participación de la mujer” también “es el público que está en las cúpulas de dirección de la política y de las empresas” y que, por tanto, “se ven amenazados por la participación de la mujer”.

El estudio concluye que si bien “la gran mayoría” de la población está de acuerdo con que debe haber más participación de las mujeres en política, hay dudas sobre cuál sería el mejor camino para lograrlo. Esto se debe a que luego de la aplicación de la ley de cuotas aumentó el escepticismo con respecto a esta medida en particular.

Por otra parte, la mayoría de quienes quieren que se apliquen medidas para fomentar la participación femenina, prefiere una ley de paridad antes que una de cuota.

Ley con resultados insuficientes

Luego de la aplicación de la ley de cuotas, las mujeres electas como titulares llegaron al 19,4% en el Parlamento, lo que implica el porcentaje más alto de participación femenina en la historia del país. Sin embargo, la presencia de las mujeres en las cámaras sigue siendo baja si se compara con la mayoría de los países de América Latina, advierte el proyecto Atenea, impulsado por ONU Mujeres y el Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD).

Fonte: El Observador

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Os desafios que a USP terá de enfrentar para ser exemplo em igualdade de gênero

Instituição foi escolhida pela ONU para sediar campanha mundial de igualdade e, para isso, tenta encarar suas contradições internas. Evento feito no início do mês contribuiu para a visibilidade de algumas questões, mas são muitos os desafios….

Ketrin Cristina da Silva*, especial para o Saúde!Brasileiros

Muitos podem achar exagerado o que vou dizer: alunas da USP passam por situações similares aos episódios de violência doméstica. Mas não é. O nível de instrução não blinda as mulheres da violência. As pessoas não mudam apenas por entrarem na USP – e se a universidade quiser, de fato, exercer uma mudança cultural, ela terá que enfrentar suas contradições e ser ela mesmo um exemplo para os seus alunos. Por isso, a desigualdade de gênero e situações de violência precisam ser discutidas – e, aos poucos, elas estão saindo do silenciamento. Prova disso é o evento inédito “10 anos de Lei Maria da Penha: Avanços e Desafios na USP”, organizado pelo USPMulheres e realizado no dia 18 de agosto de 2016. É a primeira iniciativa oficial, com aval da reitoria, para uma discussão explícita da violência contra a mulher dentro da USP.

O USPMulheres é um escritório criado em junho de 2015 na Universidade de São Paulo e integra o movimento da Organização das Nações Unidas “ElesPorElas” [HeForShe]. A USP foi a universidade latino-americana escolhida para participar da campanha. A universidade, assim, deve ter um papel ativo na promoção da igualdade de gênero e exercer influência sobre as demais instituições. São muitos, no entanto, os desafios até lá.

usp1 Evento feito na USP debateu os 10 anos da Lei Maria da Penha e a violência de gênero dentro da universidade. Da esquerda para a direita Maria José Menezes, professora Eva Blay, Beatriz Mazzini, Ketrin Silva, Prof. Bete Franco, Sarah Botelho e moradoras do Crusp. Foto: Ketrin Silva

Desde a aluna de graduação até a pós-graduação, são diversas as circunstâncias que indicam negligência, opressão e situações em que a assimetria de poder é evidente. Explicito aqui o paralelo que fiz inicialmente com a violência doméstica. Muitas mulheres, por manterem uma relação de dependência econômica com o seu agressor, silenciam abusos. Na universidade, essa situação é expressa na relação professor-aluna. Se a agressão é perpetrada por um professor, a aluna fica em situação de vulnerabilidade e, como também mantém uma relação de dependência, pode igualmente silenciar. Na graduação, dependemos do professor para corrigir as provas, tirar dúvidas em aula, elaborar projeto de iniciação científica. Na pós-graduação, a dependência é ainda maior. É o orientador que efetua a matricula semestralmente em cada uma das disciplinas que queremos cursar. Também dependemos dele para elaborar e executar o projeto de pesquisa. E, por fim, há dependência econômica: é o professor que assina os pedidos de bolsa de pesquisa para o mestrado e doutorado.

USP2 Protestos contra assédio nas residências estudantis da USP, o Crusp. Foto: Página do Facebook Crusp/USP – O pesadelo das mulheres

A USP deve ter um papel ativo e criar um canal direto para denúncias. E está tentando fazer isso. Ano passado, a universidade passou a estimular a criação de Núcleos de Direitos Humanos em todas as unidades para lidar com questões como essa. Ainda, não oficialmente, há a Rede Não Cala!, um coletivo autônomo formado por mais de 250 professoras da universidade, que tem como objetivo combater a violência de gênero no ambiente universitário, tanto pela participação ativa no recebimento de denúncias e nas comissões de julgamento de casos, como execução de ações preventivas. Dentre elas, destacam-se as rodas de conversa promovidas nas diversas unidades a fim de abrir um debate sobre o tema e treinamento de funcionários que lidam diretamente com alunas vítimas. A expectativa é que esses núcleos, ao lado de outras iniciativas, sejam capazes de prestar a devida assistência para essas mulheres.


Superação da cultura misógina e Lei Maria da Penha na USP

“#MeuQueridoPolitécnico me ofereceu uma carona pra poli e na hora de descer do carro ele disse que eu poderia pagar com sexo”. Esse foi um dos depoimentos publicados na página Politécnicas Reexistem. Demonstra a cultura misógina dentre os futuros engenheiros formados na Faculdade Politécnica, onde apenas 20% do corpo discente é composto por mulheres. Não é um caso isolado e a rede DeFEMde (Rede Feminista de Juristas), presente no evento, verbalizou isso de maneira muito apropriada. Segundo a rede, os altos índices de violência contra a mulher na sociedade como um todo acontecem porque a mulher é vista muito mais como propriedade do homem do que como proprietária do próprio corpo, algo que precisa ser desconstruído dentro e fora das universidades.

Dentro esse contexto, desafio ainda maior, no entanto, são as denúncias de violência dentro do Conjunto Residencial da USP (Crusp). Não me encontro na posição de detalhar o que acontece lá dentro –não sou moradora – mas, a contar pelas denúncias (que, como sabemos, nunca representam a totalidade dos fatos), são muitas as contradições e opressões que ocorrem nas residências. Isso já começa pelo déficit de vagas que cria uma situação cruel: os moradores ilegais. A partir deles, um outro tipo de assimetria de poder ocorre dentro do Crusp. Se quem sofreu a violência é uma moradora ilegal, o agressor se utiliza dessa posição “não legítima” para destrinchar ameaças e a própria vítima acaba por silenciar abusos.

usp3 Campanha conta o assédio feita pelo Diretório Central dos Estudantes da USP. Divulgação

Fora isso, há as denúncias “oficiais” negligenciadas. Pelo descaso, alunas do Crusp chegaram a ocupar a Superintendência de Assistência Social (SAS) em abril deste ano e requereram a formação de uma comissão para apurar agressões feitas. Ainda, há a difícil situação das mães do Crusp: a residência possui 12 vagas oficiais para elas, mas há 72 mães lá dentro. Há também falta de vagas nas creches e alunas carregam seus filhos para as aulas. Além disso, elas enfrentam diariamente o medo de estupros e violência física dentro de sua própria casa, medo estendido às demais moradoras.

A violência sofrida também por professoras

Embora ocupem posição privilegiada, as professoras não ficam imunes do reflexo da sociedade patriarcal na universidade, haja visto o predomínio de figuras masculinas nas cadeiras de professores titulares, diretorias e conselhos universitários. De fato, a professora Eva Blay, fundadora da primeira Delegacia de Defesa da Mulher no Brasil e coordenadora do USPMulheres, diz que após alcançar o grau de titular, levou 16 anos para que o mesmo título fosse conferido a outra mulher da unidade. Ela ainda ressalta os esforços do USPMulheres junto ao reitor para a adoção de medidas em favor da comunidade uspiana, incluindo defesa dos diretos de transexuais e transgêneros.

A professora Bete Franco, da Rede Não Cala!, reitera que nem o silêncio e nem a impunidade devem ser admitidos na USP. Segundo ela, a universidade deve proporcionar um ambiente acolhedor e seguro a sua comunidade e, além disso, promover uma mudança de desnaturalização da violência dentro e fora de seus muros. Afinal, a USP é um espaço educador. Assumindo uma postura otimista, ela destaca os avanços obtidos através da luta de movimentos feministas anteriores e convida toda comunidade da USP para participar da elaboração de um centro de enfrentamento a violência dentro da USP.

O que precisa ser feito?

Um dos aspectos que não pode ser negligenciado pela universidade é a punição e a apuração de denúncias, bem como maior atenção à representatividade e visibilidade a grupos com necessidades específicas dentro da USP.

É consenso entre Jaqueline Valadares da Silva, delegada da 2ª­­ Delegacia de Defesa da Mulher, Fabiana Dal’Rocha Paes, promotora de justiça do Ministério Público de São Paulo e Tatiane Moreira Lima, juíza da Vara de Violência Doméstica do Fórum do Butantã (zona oeste de São Paulo, que estiveram presentes no evento, que a Lei Maria da Penha aplica-se a casos ocorridos dentro das moradias estudantis e a qualquer violência cometida por parceiro afetivo, parente ou qualquer homem que coabita com a vítima.

As especialistas também abordam a necessidade de medidas preventivas e não apenas punitivas, uma vez que o homem agressor é a exceção dentro da sociedade. Nesse cenário, a militante Maria José Menezes, membro do Núcleo de Consciência Negra e funcionária da USP, questiona a falta de eficiência da Lei Maria da Penha para as mulheres negras, uma vez que houve um aumento significativo nas taxas de feminicídio negro, enquanto o número de homicídios de mulheres brancas diminuiu. Ela finaliza pontuando a necessidade da USP abrir-se ao diálogo com a comunidade negra e com as funcionárias, a fim de entender suas especificidades. Alunas apontam outras minorias que merecem atenção, como as mulheres lésbicas e indígenas, e pedem que disciplinas sobre gênero sejam obrigatórias em todos os cursos da USP.

No evento, a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres na cidade de São Paulo e a Rede Oeste de enfrentamento a violência contra a mulher mostraram os serviços disponíveis na região, como assistência jurídica e psicológica gratuitas para a mulher vítima de violência. Eles podem ser consultados aqui. Também, segundo Gabriela Schmidt, aluna de Ciências Sociais e representante do DCE (Diretório Central dos Estudantes da USP), é urgente a atualização do regimento da universidade, que ainda não prevê punições para violência de gênero.

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No Dia Internacional da Mulher, a Universidade de São Paulo (USP) lançou a campanha “USP Mulheres – Elas podem”, que aborda os direitos das mulheres e o papel dos homens de apoiá-las. A campanha, que conta com apoio da Pró-Reitoria de Graduação da USP, foi um trabalho realizado dentro da disciplina de Arte Publicitária por três alunas do curso de Publicidade e Propaganda da Escola de Comunicações e Artes (ECA) – Angélica Souza, Márcia Shimabukuro e Vanessa Rondine – que tiveram suas propostas escolhidas em uma disputa entre nove equipes.

*Ketrin Cristina da Silva é doutora pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Ela também fez mestrado no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e se prepara para o pós-doutorado na mesma instituição

Fonte: Brasileiros

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Piropos já são crime e dão pena de prisão até três anos

Piropos

Alteração a Código Penal em agosto passou despercebida. As “propostas sexuais” não desejadas têm pena de prisão até três anos.

“Comia-te toda”; “ó borracho, queres por cima ou queres por baixo?/ queres pela frente ou queres por trás?”; “dava-te três sem tirar”; “ó estrela, queres cometa?”; “ó joia, anda cá ao ourives”. Exemplos banais, deixando de lado os mais cabeludos (e não menos comuns, pelo contrário), do que se costuma apelidar de “piropo” e que as mulheres, desde o início da adolescência, ouvem nas ruas portuguesas. E que desde agosto têm, pelo seu caráter de “propostas de teor sexual”, relevância criminal, por proposta do PSD, com pena de prisão até um ano, ou três caso sejam dirigidas a menores de 14. Trata-se de um aditamento ao artigo 170º do Código Penal, “importunação sexual”, o qual criminalizava já o exibicionismo e os “contactos de natureza sexual”, vulgo “apalpões”.

Esta alteração legislativa, efetuada no âmbito da transposição para o ordenamento jurídico nacional da Convenção de Istambul – a Convenção do Conselho da Europa para a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica assinada em 2011 em Istambul – passou completamente despercebida, apesar de o tema ter sido muito debatido nas redes sociais e profusamente comentado nos media. Consistentemente ridicularizada como “exagero”, “histeria feminista” e até “atentado à liberdade de expressão” e “fim da sedução”, a criminalização do assédio sexual, quer na rua quer no trabalho, foi proposta primeiro pelo coletivo feminista UMAR [União de Mulheres Alternativa e Resposta], em 2011, e depois pelo BE, que em 2013 apresentou um projeto de lei nesse sentido, o qual acabaria por “cair” nos trabalhos na especialidade.

A ideia que ficou foi portanto de que o assédio sexual se mantinha fora do Código Penal (está apenas penalizado no Código do Trabalho). Mas Cecília Honório, a deputada do Bloco que deu a cara pelo projeto do seu partido, admite que a alteração ao artigo 170º, em relação à qual se absteve na votação (todos os outros grupos parlamentares votaram a favor), criminaliza mesmo uma parte considerável dos assédios, apesar de usar outro nome. “Foi uma alteração que surgiu nas propostas finais que a maioria PSD/CDS apresentou. E realmente depois de toda a discussão que houve sobre o assunto passou entre os pingos da chuva, ninguém falou disso. Mas sendo um eufemismo, porque não fala de assédio, o que ficou consignado é muito bom, a todos os níveis. Prova que toda a pressão que houve e o debate que decorreu, apesar de toda a ridicularização, deram resultado.” E conclui: “Nisto a maioria [PSD e CDS] portou-se muito bem.”

Carla Rodrigues, deputada do PSD na última legislatura, era a coordenadora do grupo de trabalho parlamentar que tratou do pacote legislativo relativo à Convenção de Istambul. E assume a maternidade da iniciativa. “A alteração surgiu por proposta nossa. Visava dar resposta a uma situação que não estava prevista no Código Penal. Percebi, fruto das audições e de debates em que participei, incluindo uma conferência sobre assédio promovida pela UMAR, que havia situações que não estavam previstas como crime e que deviam estar. Havia o projeto do BE com o qual eu não concordava, e entendemos que não resultava da Convenção a obrigatoriedade da penalização do assédio, até porque não havia consenso nesse sentido. Aliás mesmo no meu grupo parlamentar houve algumas resistências. Mas dei alguns exemplos e consegui convencer as pessoas.”

Os assédios às adolescentes parecem ter sido decisivos para tal: “Falei de casos como o de uma jovem de 15 anos que vai na rua e vem um velho e diz “fazia-te isto fazia-te aquilo”. Isso sensibilizou-os mais. O insulto ou injúria estão desde sempre previstos no Código Penal, mas um homem a importunar, a amedrontar uma miúda não estava a cometer um crime. E um dos argumentos contra criminalizar é que as mulheres têm de saber lidar com isso, responder – mas as adolescentes também? Tenho uma filha de três anos e falei disto com o meu marido, sobre como nos sentiríamos com isto a suceder-lhe, como se podia protegê-la. E cheguei a esta formulação.”

Carla Rodrigues considera que o conceito tipificado “se aplica em qualquer circunstância: no local de trabalho, na rua, em grupos sociais, em qualquer situação em que um agressor pratique qualquer desses atos. Acho que as mulheres e as meninas estão muito mais defendidas com esta formulação. Praticamente todas as coisas que são ditas na rua para importunar as mulheres, tudo aquilo que é ordinarice, fica assim criminalizado. Agora é preciso é que tenham consciência disso e denunciem. É preciso divulgar a existência deste novo crime.”

A deputada do PS Isabel Moreira assente. “Muito do que as pessoas queriam que fosse criminalizado através da criação do novo artigo do Código Penal e que estava mal formulado na proposta do BE, a qual no meu entender nunca passaria no Tribunal Constitucional, está previsto na alteração ao 170º e no novo tipo penal de perseguição [154º A: “Quem, de modo reiterado, perseguir ou assediar outra pessoa, por qualquer meio, direta ou indiretamente, de forma adequada a provocar-lhe medo ou inquietação ou a prejudicar a sua liberdade de determinação, é punido com pena de prisão até 3 anos ou pena de multa, se pena mais grave não lhe couber por força de outra disposição legal”].”

“Intimidação machista é grave”

Mas o impacto pedagógico da criminalização – para as vítimas e para os perpetradores – no sentido de vincar a inadmissibilidade de uma determinada conduta e de a retirar da “aceitabilidade cultural” só existe se houver consciência da existência do tipo criminal e se começar a haver queixas, operacionalizando o conceito. Como, se a mudança foi varrida para debaixo do tapete, até pelos proponentes? “É verdade que não puxámos muito por isso, no PSD”, admite Carla Rodrigues. “Falou-se de tudo o resto que veio no pacote – criminalização do casamento forçado, da perseguição/stalking, da mutilação genital feminina, das alterações ao crime de violação – mas disto não.”

Falemos então. E mais concretamente do que muda, na prática. A penalista Inês Ferreira Leite, que apresentou, a pedido do PS, um parecer sobre as várias propostas de alteração do pacote da Convenção de Istambul, incluía neste a possibilidade de se alterar o crime de importunação sexual da forma que veio a ser aprovada (proposta que, curiosamente, o PS não apresentou). O que correspondeu a uma evolução da sua posição, expressa num texto publicado no início de 2015 no site da associação Capazes (antes Maria Capaz), em que reconhecia a gravidade do assédio de rua mas concluía que o que nele tem relevância penal já estava previsto em vários tipos criminais – a injúria, por exemplo.

“Compreendo a gravidade do problema da intimidação machista, mas como penalista sou da corrente minimalista”, explica a jurista. “Fui sempre contra a criação de um novo tipo criminal mas acabei por achar que fazia sentido incluir expressamente os comentários de teor sexual no crime de importunação.” Todos os comentários? “Todos aqueles que sejam afirmativos, e incluam teor sexual, implicando fazer qualquer coisa sexualmente. Os comentários mais subtis, com referência à roupa, por exemplo, não estão abrangidos.” E tudo dependerá, claro, da forma como os juízes interpretarem a lei e as situações que forem surgindo. “É um problema quando se fazem normas com as quais os juízes não concordam.”

Juíza no Supremo Tribunal de Justiça, Clara Sottomayor defende a autonomização do crime de assédio. E um dos motivos é precisamente o conservadorismo dos juízes. “Esta alteração do crime de importunação, sendo um passo na direção correta, não é o que é preciso. Interpretado em termos literais abrange uma intenção de proposta ou revelação ou intenção, de forma que nem todos os assédios sexuais estão englobados. Duvido que abranja todas as situações de assédio de rua, parece-me mais adequado às propostas de assédio sexual no trabalho. Com uma interpretação lata poderia abranger outras coisas, mas com o conservadorismo da nossa magistratura…”

Considera também uma falha a inexistência de uma agravação do crime no caso de a vítima ter entre 14 e 17 anos. “Equipara-se uma menina entre os 14 e os 18 a uma mulher de 25, 30. Deve haver uma especial proteção para menores.” Ainda assim, acolheu com agradável surpresa a mudança: “Sinto isto como uma meia vitória. Nunca pensei que acontecesse, achei que havia uma posição inflexível no grupo de trabalho, e surpreendeu-me muito que fosse o PSD a avançar. Mas sabe-se que este tipo de coisas progride aos poucos. E é preciso continuar a pugnar pela eliminação deste obstáculo à liberdade e autodeterminação das mulheres, que ficam inibidas de participar no espaço público ao serem desde muito miúdas submetidas a este condicionamento. Muito do que é a ausência de vontade das mulheres de intervir publicamente e que se apresenta como uma característica feminina é assim construído, culturalmente.”

Vai aliás nesse sentido o artigo 40º da Convenção de Istambul, intitulado “assédio sexual”, que obriga os estados a “adotar as medidas legislativas ou outras que se revelem necessárias para assegurar que qualquer tipo de comportamento indesejado de natureza sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o intuito ou efeito de violar a dignidade de uma pessoa, em particular quando cria um ambiente intimidatório, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo, seja passível de sanções penais ou outras sanções legais.” Uma redação que a Associação das Mulheres Juristas, assim como a sua presidente, a juíza do Tribunal da Relação Teresa Féria, já vieram certificar publicamente como obrigando o Estado português a penalizar especificamente o assédio sexual. Entendimento que a maioria dos deputados não tiveram e permitiu deixar de fora das alterações alguns comportamentos típicos do assédio.

“Não, o crime de importunação sexual não inclui tudo o que é dito às mulheres na rua com intenção de as amedrontar, vexar, humilhar, provocar”, admite Isabel Moreira, embora “seja difícil dizer o que está ou não integrado porque ainda não houve jurisprudência. Mas houve uma evolução clara no que respeita aos crimes contra a autodeterminação sexual e portanto a própria jurisprudência tem de dar um passo nesse sentido. Portanto, tudo o que seja, e são estas coisas que as mulheres e miúdas ouvem na rua, “fodia-te toda, comia-te toda” está incluído, claro. E parece-me que outras coisas também, porque do ponto de vista da interpretação teleológica e da tutela da liberdade das mulheres dizer “comia-te toda” ou “tens boca de broche” é a mesma coisa.” Na dúvida, conclui, aconselhável é que quem tem o hábito de se dirigir na rua a mulheres e meninas desconhecidas com comentários sexuais se abstenha: “Como não podem saber o que vai ou não ser considerado crime, calem-se.”

Nova redação

Crime de importunação sexual

“Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.” Esta é a nova redação do artigo 170.º do Código Penal. No artigo 171.º (Abuso sexual de crianças) agrava-se a moldura penal para a importunação sexual quando cometida sobre menor de 14 anos, passando o máximo da pena a três anos e sendo a tentativa punível.

Fonte: DN

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“Dopasmina”: o machismo no nome da turma de medicina da UFPB.

Por Luísa Gadelha

DOPASMINA

Em entrevista concedida em junho ao jornal L’humanité, o médico e romancista francês Martin Winkler declarou que “na França, a seleção dos estudantes de medicina ocorre sobretudo entre os jovens das classes mais favorecidas. E esses estudantes são educados para tratar pacientes de sua própria classe e não de setores operários nem sub-proletariados. É por isso que a formação medica deixa a entender, para os estudantes, que dentro da própria medicina existe uma elite, e que isso os motiva a tornarem-se parte dessa elite. Pensando nesse sentido, isso significa que ‘alguns’ valem mais que ‘outros’.”

A situação francesa parece se repetir no Brasil. Além dos absurdos do dia-a-dia e da notícia assombrosa divulgada no mês passado, de um médico brasileiro que fez chacota de um paciente  que não sabia pronunciar corretamente “pneumonia”, uma turma de alunos de medicina da Universidade Federal da Paraíba se auto-intitulou “dopasmina”, numa incontestável referência à cultura de estupro, e utilizou a alcunha para seu time de futebol.

A polêmica veio à tona depois que, criticados pelo nome da turma e do time, os alunos ainda tentaram defender seu direito de escolha, o que gerou uma nota de repúdio do Coletivo Feminista Nise da Silveira (UFPB), assinado também por mais outros 37 coletivos.

Em sua nota de esclarecimento, publicada ontem, a turma “dopasmina” insiste que o epíteto é uma referência ao neurotransmissor dopamina, sem a “intenção de fazer apologia ao estupro ou de desrespeitar as mulheres”.

Embora o grupo dopasminas, agora intitulado “turma 99”, tenha pedido desculpas, não deixa de ser preocupante a atitude de continuar negando o caráter extremamente machista e incitador de violência do nome da turma, que claramente não se refere apenas à substância. Segundo o Coletivo Nise da Silveira, “o trocadilho dopasmina é um termo bastante utilizado pelos estudantes de medicina de todo o país ao nomear festas e eventos, onde ocorrem diversas tentativas e abusos sexuais às mulheres, a maioria realizada por futuros médicos e acobertada pela própria universidade e centros acadêmicos. É notável a falta de empatia da turma com diversas vítimas e também com as colegas que, mais uma vez, se encontram a mercê do machismo e da cultura do estupro”.

Quando a própria classe médica, que supostamente deveria proteger e informar a população dá rédeas à cultura de estupro, reproduzindo comportamentos intolerantes, preconceituosos e machistas, torna-se difícil ter referências seguras daqueles que cuidam de nossa saúde.

É necessário repensar a formação de médicos no Brasil, visando sobretudo a construção de empatia e solidariedade entre médico e paciente, e não apenas uma mera marionete da indústria farmacêutica ou a escolha mais fácil de profissão para aqueles que visam estritamente o lucro.

Como bem disse Martin Winkler em sua entrevista, de maneira sucinta e direta, infelizmente “os preconceitos dos médicos são os preconceitos de classe”.

FONTE: DCM

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As críticas à cobertura machista da participação das atletas olímpicas

JorMach

Quando se referem às competidoras de elite nos Jogos Olímpicos, os discursos jornalísticos se inclinam mais a destacar ou avaliar sua beleza, sexualizar a visão sobre seus corpos e não valorizar seus méritos.

A reportagem é de Sonia Santoro, publicada por Página/12, 16-08-2016. A tradução é do Cepat.
A cobertura destes Jogos Olímpicos destaca que quando falam de esportistas mulheres e de suas conquistas, os meios de comunicação não fazem o mesmo que quando falam de esportistas varões. “A cobertura dos meios de comunicação esportivos é majoritariamente machista, homofóbico e esconde conquistas, resultados, marcas, abusos, violências, destrato, falta de apoio que as mulheres vivem no esporte. Graças a estes Jogos isso foi evidenciado. Seria bom que dure e se siga com o mesmo olhar sobre as coberturas”, destaca a especialista em Esporte e Gênero, Marta Antúnez.

Manchetes dos meios de comunicação de todo o país e da região concordam em aplicar esses critérios. Desde Cuyo, uma logo adiantou suas preferências: “As guerreiras argentinas: mais sexys que nunca”. Uma portenha se inclinou pelos “Dez rostos bonitos que serão vistos na Rio 2016”. “A sexy esgrimista mexicana que tem um corpo escultural”, apontou outra do mesmo grupo. E, ao mesmo tempo, da América Central se expressaram a favor da “Linda do futebol que caiu na Rio 2016”, outra retrucava, de Rio de la Plata, pelas “Bonecas suecas”. O diálogo é um pouco monotemático: corpos belos (de mulheres), dependências femininas, amores que conquistam medalhas.

Antúnez observa que, desta vez, há “muita mais cobertura que outros Jogos e com a mesma misoginia”. “Ocorre que se conseguiu uma maior cobertura. Em muitas olimpíadas nem se sabia dos Jogos, a cobertura ocupava um espaço reduzido nos meios de comunicação. Ao crescer a cobertura, cresce a visibilidade e se notam mais os comentários espantosos que cotidianamente os meios de comunicação fazem das mulheres esportistas”.

“Agora, parece que todos nós estamos apreendendo que a cobertura dos meios de comunicação é machista. No entanto, pouco ou nada se fala da capa de algum suplemento esportivo, nem da quantidade de espaço que o esporte feminino normalmente ocupa nos meios de comunicação, dos títulos das notas e dos comentários dos usuários de internet sob as mesmas, sem falar das redes sociais. A cobertura dos meios de comunicação esportivos é majoritariamente machista, homofóbica e esconde conquistas, resultados, marcas, abusos, violências, destrato, falta de apoio vivido pelas mulheres no esporte. Graças a estes Jogos isso foi evidenciado. Seria bom que dure e se siga com o mesmo olhar sobre as coberturas”, acrescenta a especialista.

Barbara Duhau, da organização unpastiche.org, disse que os Jogos Olímpicos funcionam como uma lupa: “há uma quantidade suficiente ou um foco colocado nas mulheres que em outros momentos não ocorre e que permite analisar este escrutínio constante que se faz dos corpos, da invisibilização de seus méritos esportivos. É um tratamento usual que se dá às mulheres, mas neste tempo específico há uma grande necessidade de falar sobre isto. Então, muitas vezes, por nunca se tratar destes temas, porque o esporte e as mulheres quase não são abordados nos meios de comunicação, acredito que por um lado não sabem como tratá-lo e acabam ficando no ranking das mais sexys”.

Duhau acompanha este discurso midiático machista em torno das atletas, desde que sua sócia Taluana Wenceslau, que vive no Brasil, viu o que vinha com semelhante evento esportivo internacional. Por isso, decidiram encarar um Observatório de Gênero dos Jogos Olímpicos – Rio 2016, junto à organização Grow, para focar o “problema de representação, invisibilização e tratamento sexista que as mulheres recebem, neste caso específico, no esporte”.

Antes dos jogos, revisaram mais de 300 notícias publicadas nos meios de comunicação on-line. Das notas focadas nos atletas, apuraram que 61% se referiam só a homens, 22% exclusivamente às mulheres, e 17% a ambos. Isto significa uma diferença importante, já que hoje a participação de mulheres quase se equiparou a dos homens. “Desde Sydney, quando foram equiparadas as provas com as dos homens, e com a ação do Comitê Olímpico Internacional para que os esportes que sejam agregados ao programa olímpico tenham obrigatoriamente as duas categorias, a quantidade de mulheres subiu 45% nestes jogos”, explica Antúnez.

Das notícias que só falaram de mulheres, quase 27% enfatizaram a beleza das atletas. O estereótipo das mulheres não só se centra em ressaltar seu atrativo físico, como também em sempre conceder suas conquistas a fatores externos, em geral masculinos: um treinador, um amor. Exemplo disto é o monólogo de um jornal portenho sobre a nadadora que ganhou uma medalha de ouro: “A história de amor da nadadora húngara Katinka Hosszu e seu treinador, que os levou ao ouro na Rio 2016” e “A estranha relação de Katinka Hosszu com seu treinador, que a levou ao ouro e ao recorde mundial”. Mas não é único e nem novo. Quando, em 2009, a primeira mulher argentina escalou o Monte Everest, um jornal intitulou: “A argentina que conseguiu chegar ao cume do Everest, fez isto por amor”.

É que a história do sexismo e o esporte não começa, nem terminará com os Jogos do Rio, nem tampouco nos meios de comunicação de fala espanhola. Uma pesquisa de Cambridge University Press, publicada no dia 6 de agosto, analisou mais de 160 milhões de palavras de jornais, blogs e postagens em redes sociais – entre outras fontes – relativas aos esportes olímpicos e verificou que as palavras mais usadas em diversas combinações em relação às mulheres são “idade”, “grávida”, “solteira”. Ao contrário, as palavras mais utilizadas em relação aos homens foram: “rápido”, “forte”, “grande”, “real”, “fantástico”.

Quando se fala de seu rendimento, parece que os homens têm de antemão o triunfo de seu lado. Predominam palavras como “gênio”, “ganhar”, “dominar” e “batalha”, ao passo que quando se fala das mulheres aparecem “competir”, “lutar” ou “participar”. Também há uma infantilização da mulher. Muitas esportistas são chamadas de “pequena”, se fala muito das “pequenas”, frente aos pouquíssimos homens que receberão o apelido de “pequeno”. Também são utilizados termos mais tradicionais. A pesquisa diz que há duas vezes mais probabilidades que uma esportista seja chamada de “senhora”, que um atleta de “cavalheiro”. A linguagem que utilizamos pode condicionar nossas atitudes de gênero para o esporte? O estudo parece indicar que sim.

“Compreendo que o esporte é uma questão cultural, no qual os homens continuam mandando e nós, mulheres, somos esportistas de segunda e, claro, colocando-o no foco, seria estupendo que os meios de comunicação, com sua sensibilidade de gênero, possam difundir o que ocorre no esporte. Alucinar-se com os Jogos Olímpicos a cada 4 anos e perder o alvo depois é avançar como o caranguejo, para o lado”, disse Antúnez.

Depois, acrescenta: “E quando digo fazer a cobertura do que acontece no esporte não é atuar como o jornalismo machista, com os resultados das partidas e as conquistas de um campeonato, mas colocar o olhar justamente naquilo que os meios de comunicação não veem: no que acontece com nós, mulheres, no esporte, como chegam, como as federações, associações e estado fazem as políticas. Mostrar as diferenças de apoios econômicos, mecanismos de discriminação. É extenso o tema porque o esporte é muito amplo”.

Fonte: IHU

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Blog terapia, catarse e empatia

Escribir para existir: ¿Qué es la blogterapia?

Una tendencia que no solo se extendió con la explosión de las redes sociales: la necesidad de expresarse se plasma también en talleres que incluyen técnicas para escribir pero también reflexión

Blogterapia

Por Katya Nantez, de la redacción de
El Observador

Muchos comienzan en las redes sociales. Otros con el tiempo se animan a pasarse a otras plataformas más completas. Unos se basan en material fotográfico, otros le dan más peso a la escritura. Pero lo que tienen en común la mayoría de los casos es que todo empieza con una necesidad de hacer catarsis, de expresar sentimientos y de plasmar una idea o compartir con otros una realidad.

Alfonsina Almandoz, mamá de Candelaria, una niña con síndrome de Down, creó un blog llamado “Cande Down Side Up”, en el que cuenta el día a día de su hija y cómo la pequeña y su familia sobrellevan, de una forma natural, la vida con síndrome de Down. Almandoz afirmó que todo comenzó como una catarsis involuntaria: “Me resultaba sano contar lo que estaba viviendo en mi vida y enviar ese mensaje de positivismo a la gente. Es una catarsis que, en cierta medida, es difícil porque tenés que transmitir positivismo de algo que para muchos puede ser negativo”. Comenzó a escribir en las redes sociales y en su blog para, como dice en su fan page de facebook, “descubrir que la vida con Síndrome de Down es una vida up” y poder compartir este mensaje con los demás.

Mariana Olivera, comunicadora, actriz y bloguera, comenzó a escribir por una necesidad de conexión con ella misma; quería aclarar sus ideas, necesitaba encontrar un rumbo. “Escribir me salvó la vida”, contó a El Observador. Con el paso del tiempo descubrió que al compartir sus vivencias con otras personas, todos los efectos positivos de la escritura se potenciaban. Hoy, luego de haber escrito un libro sobre la maternidad (Madrecoco), el cual surgió a raíz de uno de sus blogs, Mariana se dedica a brindar talleres de, como ella misma llama, Blogging Therapy (en español sería algo así como “terapia de blogueo” o “blogterapia”). Son espacios de escritura en los que el objetivo no es solamente que los alumnos se creen un blog, sino que también se genere un momento de reflexión, de introspección y a la vez de compartir lo que se piensa.

Para Olivera, la clave para una escritura exitosa es dar rienda suelta sin censura a la imaginación y por sobre todas las cosas ser honestos y desprejuiciados, tanto con nosotros mismos como con los demás. “El objetivo es conectar con nuestro ser a través de la escritura. Es impresionante el valor que tiene un texto, un relato o un post cuando sale de mi honestidad máxima y desde la misión de desprejuiciarme en serio”, explicó. Olivera prioriza una escritura libre, que sea transparente y que permita generar empatía, más allá de las técnicas y métodos estrictos. “No creo que haya un virtuosismo literario o poético al que eventualmente accedo si soy talentoso o no. Para mí es una cuestión de libertad, de hacerlo y de conectar con uno. Todos, absolutamente todos, somos creativos, y por el hecho de estar alfabetizados todos podemos escribir y leer”, afirmó.

Alfonsina Almandoz sostuvo que cuando una persona escribe en un blog o en las redes sociales tiene que ser consciente y estar dispuesto a exponerse, pero que a pesar del precio de hacerlo y lo que eso conlleva, es de los aspectos más valorables de la experiencia, ya que con esa exposición es que justamente se logran cosas muy positivas. “Yo expongo a mi familia con un fin. Y es el fin lo importante, no la exposición. Es un costo real pero el beneficio es mucho mayor”, añadió. Además aconseja que, una vez que la persona acepta exponerse, lo mejor es entregarse de lleno a esa apertura y contar tanto las cosas buenas como las malas, y no a medias.

Catársis y empatía

Una tendencia que no solo se extendió con la explosión de las redes sociales: la necesidad de expresarse se plasma también en talleres que incluyen técnicas para escribir pero también reflexión

Tanto Olivera como Almandoz sostienen con firmeza que uno de los principales beneficios de la escritura es el “soltar”, plasmar lo que se piensa y luego poder recurrir a eso cuantas veces se desee para reflexionar o recordar. “A las palabras se las lleva el viento cuando son orales; en cambio lo escrito sentencia. Y salió de vos, lo soltaste, eso que estaba en tu cabeza ahora está ahí, y te sentís más liviana”, compartió Olivera. En la misma línea, Almandoz dijo que “la escritura regala tener para siempre ese minuto reflexivo ahí, plasmado. Me pasa que cuando escribo puedo volver a ese minuto reflexivo y releerlo”.

Asimismo, ambas recalcaron que el mejor fruto de compartir la escritura es la empatía que se genera. Señalaron que, cuando la persona escribe desde su honestidad, muchos lectores se van a sentir fuertemente identificados con su experiencia, con sus sentimientos, con su óptica y con su historia. “Cuando lo compartís, estás diciéndole a otro allá afuera que no está solo y eso es lo más valioso de la blogterapia. Su poder está en lo que genera en la comunidad, en ese poder de encontrarnos con personas que están atravesando una situación igual o semejante. Lo bueno es generar redes humanas con esto”, sentenció Alfonsina.

El miedo a la hoja en blanco

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“No existe esa cosa de ‘no tengo nada para contar’. Tú sos un ser humano, tenés una historia, te pasaron cosas, tenés mucho para decir. Es un tema de libertad, de darse el permiso para hacerlo”, aseguró la creadora de Blogging Therapy. Según ella, el bloqueo tiene mucho que ver con la desvalorización, con el “para qué me voy a animar si lo que voy a hacer va a ser una porquería, si nunca va a ser tan bueno como lo hace otro”, comentó tras asegurar que estas son excusas para “no hacerse cargo de uno mismo”.

Desde los dibujos en las cavernas de los neandertal y desde las primeras escrituras de los humanos civilizados, el gran protagonista de las historias transmitidas ha sido el hombre. Olivera está convencida de que “a la inspiración la encontramos en nosotros y que el personaje, por más que tenga otro nombre, somos nosotros mismos”. Así, todo lo que nos rodea a la vida de una persona la condiciona, y a su vez todo lo que vemos es una potencial historia. Por eso, para inspirarse tan solo hay que detenerse y observar. “El pez gordo está dentro de cada uno”, concluyó.

Consejos para crear un blog – por Mariana Olivera

– “Lo más importante es conectar con nosotros mismos y eliminar los prejuicios. Contar una idea o tema encarada desde nuestra honestidad y sin prejuzgarnos”.

– “Ser contundente. Menos es más, cada palabra que elegimos está ahí por algo. El lector de internet es muy disperso, necesita la información digerida y precisa”.
– “No es imprescindible, pero es muy recomendable escribir en papel. No dejarse devorar por la vorágine de las tecnologías y no olvidar que hay una conexión muy importante entre el cerebro y la hoja papel”.

– “No releer y corregir más de 3 veces. Luego del papel pasarlo a una versión más correcta en digital, y darle otra revisión cuando lo voy a postear, pero no más para que no comience a actuar la censura”.

– “El título y bajada del blog son muy importantes, ya que son el ‘qué’. Es importante pensarlos bien y es atractivo que no haya una literalidad estricta, sino abrirse a jugar con las palabras y mezclar conceptos”.

– “Las fotos son muy importantes para ilustrar el post. Si son sacadas por nosotros, mejor”.

– “Plataformas más recomendadas para armar un blog: Tumblr, WordPress y Blogger”.