Papa Francisco não enfrenta o “lobby gay”, os escândalos financeiros e a Pedofilia

         “A luta contra a pedofilia não é uma coisa que interesse ao Papa Francisco”

EF1Depois de “Avareza”, Emiliano Fittipaldi, julgado pelo Vaticano por roubo de documentos, publica “Luxúria”, onde mostra documentos inéditos sobre escândalos de pedofilia na Igreja. 

O jornalista italiano Emiliano Fittipaldi foi julgado em 2016 pelo tribunal do Vaticano, acusado de ter roubado e divulgado documentos secretos que mostravam os escândalos de corrupção envolvendo alguns dos mais importantes membros da Cúria Romana. Acabaria por ser absolvido, por ficar provado que não cometeu nenhum crime no interior da Cidade do Vaticano, pelo que o tribunal católico não tinha a jurisdição para o condenar. Já sobre os padres, bispos e cardeais que denunciou — no seu primeiro livro, Avareza — nem uma acusação por parte da igreja católica.

Apenas Fittipaldi e Gianluigi Nuzzi, outro jornalista italiano julgado pela divulgação de documentos secretos do Vaticano e sobre dois sacerdotes, suspeitos de terem passado a documentação para as mãos dos jornalistas, foram à barra do tribunal. Um destes clérigos, o padre espanhol Lucio Ángel Vallejo Balda, antigo colaborador próximo do Papa Francisco, foi mesmo condenado a 18 meses de prisão efetiva por ter divulgado documentos secretos. Francisco deixou-o sair da cadeia após ter cumprido seis meses de pena, como “ato de clemência”, e retirou-lhe todas as funções no Vaticano.

Durante o julgamento, Fittipaldi continuou a investigar e preparou, em segredo, um novo livro, que agora chega às bancas em português. Em Luxúria, o jornalista italiano volta-se para outro dos grandes escândalos da igreja católica: o abuso sexual de menores por parte de membros do clero. No livro, Fittipaldi publica dezenas de documentos secretos que mostram como vários bispos e cardeais — incluindo alguns dos mais próximos colaboradores do Papa Francisco — ocultaram durante anos casos de pedofilia ocorridos nas suas dioceses.

Um dos casos mais conhecidos é o do cardeal George Pell, atual líder da secretaria para a Economia do Vaticano e número três do Vaticano, que durante perto de três décadas terá ocultado centenas de casos de pedofilia na sua diocese, na Austrália. Fittipaldi publica inclusivamente uma carta enviada por Pell a Emma Foster, uma das vítimas de abusos sexuais, a oferecer à jovem um pagamento em troca do seu silêncio sobre o caso — caso não aceitasse, a Igreja defender-se-ia em tribunal até às últimas consequências, lê-se no documento.

Em entrevista ao Observador, o jornalista mostra-se desiludido com o Papa Francisco, considerando que a anunciada revolução do papa argentino é na verdade apenas uma ação de marketing e exemplificando com o facto de Francisco ter escolhido para o seu conselho consultivo (composto por nove elementos) três cardeais envolvidos em escândalos de pedofilia. Fittipaldi acusa mesmo o Papa Francisco de não fazer da luta contra a pedofilia uma prioridade e dá detalhes sobre a influência do lobby gay no Vaticano, que diz ter sido responsável pela resignação de Bento XVI.

EF2“Luxúria” é editado em português pela editora Saída de Emergência (FÁBIO VILARES/OBSERVADOR)

Começo pelo prólogo do livro, em que descreve detalhadamente os momentos do seu julgamento no Vaticano — era acusado de ter roubado e divulgado documentos secretos — a poucos metros dos apartamentos dos cardeais que tinha denunciado. Acabaria por ser absolvido. Como se sentiu a ser julgado pelo Vaticano?
Nada bem, porque considero a minha experiência e do meu colega [Gianluigi] Nuzzi uma das coisas mais absurdas que podem acontecer a um jornalista. É uma coisa que pode acontecer na Turquia de Erdogan ou na Coreia do Norte, mas não no Vaticano. Não sabia que havia uma lei tão severa contra a imprensa, que prevê a prisão entre os quatro e os oito anos para quem divulga informações reservadas.

Foi até humilhante, porque houve colegas jornalistas, sobretudo colegas vaticanistas [os jornalistas com acreditação permanente no Vaticano], que me atacaram ao definirem-me como um ladrão. De facto, eu no livro começo por dizer que a minha mãe quase teve um enfarte quando o Papa Francisco disse “o Fittipaldi é um ladrão de documentos”. Não é verdade que seja um ladrão. Nem uma goma roubei na minha vida. Mesmo assim, resolvi ir ao julgamento para explicar como se desenvolveram os factos e também para tornar claro na opinião pública italiana como se desenvolveu a história, como tudo aconteceu.

Podia ter recusado comparecer em tribunal. Porque é que preferiu ir?
Sim. Sou um cidadão italiano, não sou um cidadão do Vaticano. Mas, se eu não tivesse lá ido, iam fazer o julgamento na mesma sem eu estar presente e podiam inventar acusações de qualquer tipo. Portanto, preferi ir. Obviamente, foi tudo muito paradoxal, por vezes cómico, porque não obstante eu ter denunciado no livro “Avareza” todos os escândalos financeiros e económicos do Vaticano e dos cardeais, o único julgamento que havia era sobre os documentos divulgados. Éramos nós, os dois jornalistas, e os dois que nos teriam supostamente passado os documentos, os papéis, os únicos a ser julgados.

No Vaticano, neste momento, está a acabar um julgamento que foi aberto graças ao meu livro “Avareza”, sobre o apartamento de Bertone [Tarcisio Bertone, antigo secretário de Estado do Vaticano], que foi financiado com o dinheiro do hospital infantil Bambino Gesù. Um julgamento onde se pede três anos de prisão para o diretor do hospital, que deu o dinheiro ao cardeal Bertone. Mas o cardeal Bertone não foi nem chamado ao tribunal.

Neste novo livro, o Emiliano escreve precisamente sobre esse problema, dizendo que no Vaticano se aplicam penas mais pesadas a quem é transparente sobre os escândalos — neste caso sobre os da pedofilia — do que para os próprios criminosos. Há uma inversão de prioridades na Igreja?
A luta contra a pedofilia não é uma coisa que interesse ao Papa Francisco. Não é uma prioridade do Papa Francisco. Se tu és um pedófilo ou encobriste algum caso de pedofilia, muitas vezes és condenado a uma vida de oração e penitência. Nos casos mais graves, mas esses são muito poucos, és expulso da Igreja — mas muitas vezes continuas a receber um salário de padre em vez de fazer uma vida de penitência. Quem, pelo contrário, conta a um jornalista uma destas centenas de casos, quem fala de um destes processos secretos que há na Congregação para a Doutrina da Fé, arrisca o despedimento e a excomunhão. Nada disto mudou com o Papa Francisco. É exatamente igual.

Quando foi julgado, disse que a Igreja, com o seu julgamento, queria passar uma dupla mensagem. Por um lado aos jornalistas, para que desistissem de investigar o Vaticano, ou seriam duramente julgados; e por outro lado aos próprios membros da Cúria, para que desistissem de ajudar jornalistas, caso contrário seriam excomungados. Pensa que a Igreja conseguiu passar essa mensagem?
Não! Porque no “Luxúria”, o livro que aí tem, há informações secretas que consegui obter durante o julgamento. Quando fui julgado e ia ao Tribunal do Vaticano, havia quem ficasse à minha espera no corredor entre a entrada e a sala do tribunal, que tinha uns 300 metros, havia quem aparecesse por ali para me falar de notícias, para me entregar documentos. Porque há uma parte do Vaticano que quer uma verdadeira reforma. Claro que agora há muitas pessoas que têm medo de falar comigo.

Por exemplo, publiquei, no mês passado, um livro em Itália com um documento reservado sobre o caso da Emanuela Orlandi [jovem cidadã do Vaticano que desapareceu em 1983 com 15 anos, naquele que se tornou num dos casos mais obscuros da igreja católica], um documento que saiu diretamente do Vaticano, um documento apócrifo muito discutido. O Vaticano veio logo negar tudo. É impossível parar esta onda contra os jornalistas, de negações e de ocultação dos documentos. Seria muito melhor que o Vaticano adotasse uma política de transparência total, se realmente quer mudar.

EF3Emiliano Fittipaldi falou ao Observador em Lisboa, onde esteve este mês a apresentar o livro “Luxúria” (JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR)

No livro refere um detalhe significativo: três dos nove cardeais escolhidos pelo Papa Francisco para o C9, o conselho consultivo mais próximo do Papa, estão envolvidos em casos de ocultação de casos de pedofilia. Ainda há pouco dizia que, no que toca aos procedimentos internos, nada mudou com a mudança de Papa. O Papa Francisco não é a revolução de que tanto se fala?
Creio que os jornalistas têm de se preocupar com os factos e não com as palavras. O Papa Francisco diz que quer mudar a vergonha da pedofilia na Igreja, que vai mudar, que vai ser severo. São belas palavras, mas se depois vai promover para o C9 três cardeais como [George] Pell, como [Óscar Rodríguez] Maradiaga ou como [Francisco Javier] Errázuris, que são pessoas envolvidas em casos de pedofilia, e um inclusivamente — George Pell — com uma acusação por parte de um tribunal australiano, está a fazer uma mudança com as palavras, mas não com os factos.

O Emiliano escreve que em Itália, e nos países latinos e católicos no geral, é difícil haver uma investigação como a que houve no caso Spotlight, nos EUA, porque a imprensa é muito controlada pela Igreja. Enquanto jornalista italiano a investigar a Igreja, sentiu essa pressão?
Sim. Senti-a diretamente, esta pressão é muito forte. Nós, jornalistas que trabalhamos nos países latinos, nos países católicos, temos dificuldades objetivas muito mais fortes do que os que trabalham nos países anglo-saxónicos, porque temos uma imprensa menos livre, porque não temos uma tradição de jornalismo de investigação. Particularmente quando vamos contra um poder tão intocável como o da Igreja, é muito fácil ou autocensurarmo-nos, para não termos problemas, ou encontrar poucas fontes que ajudem a chegar à verdade no escândalo.

Isto não significa que não tenhamos de tentar romper o muro de silêncio e tentar ajudar sobretudo os mais inocentes, as crianças que não se podem defender. Esse é um dos motivos pelos quais eu fiz este livro. Quis contar como no Vaticano e em Itália existe um sistema como o do Spotlight, mas em 2017, com ocultação de casos e silenciamento das vítimas, exatamente sob o governo do Papa Francisco. Ele, nas suas palavras, disse que ia destruir o sistema da pedofilia na Igreja, mas o que acontece é o contrário, como o meu livro demonstra.

Pode dar exemplos concretos de como sentiu essa pressão por parte da Igreja?
Houve bispos em Itália, dos quais não vou dizer o nome, que me ameaçaram. Que me disseram “se publicares isto, faço-te a vida negra”. Houve cardeais que não responderam às minhas perguntas, mas que me telefonaram através do meu jornal para me dizer “tem cuidado com o que escreves”. Tenho a sorte de trabalhar num jornal livre, no L’Espresso, onde sempre pude escrever o que queria, mas é claro, é notório, que há uma força, um poder, que está a ameaçar. O Vaticano — não a Igreja, que eu tenho muito respeito pela base da Igreja, mas a cúpula — tem uma memória muito longa. Fazerem um julgamento a um jornalista já é algo que dá uma grande pressão sobre o jornalismo. Eu e Nuzzi tivemos a sorte de sermos dois jornalistas bastante estruturados, mas noutros casos o risco é o de passar por um processo mediático, ser destruído por um processo mediático.

“Houve cardeais que não responderam às minhas perguntas, mas que me telefonaram através do meu jornal para me dizer ‘tem cuidado com o que escreves'”

Ao contrário de outros jornalistas e investigadores que têm publicado sobre os escândalos do Vaticano, o Emiliano nunca atacou diretamente a doutrina ou a fé católica, mas apenas os factos praticados pelos clérigos. Nem mesmo nestes casos de abusos sexuais, em que a relação com a doutrina — o celibato, por exemplo — pode ser fácil. Nunca sentiu essa tentação?
Não, nunca. Neste livro eu só falo de doutrina no último capítulo, que é sobre o lobby gay, porque me interessava a hipocrisia da doutrina católica, que é muito severa com os homossexuais, muito rígida. Ainda hoje, nada mudou com o Papa Francisco. A doutrina é idêntica à de há 100 anos. No catecismo, ainda se encontram referências a Sodoma e Gomorra, às cartas de São Paulo, em que ele diz que um homossexual não pode entrar no reino dos céus. Mesmo com esta doutrina em vigor — de que não gosto, porque acho que é muito retrógada — surgem os factos que dão conta de um lobby gay dentro do Vaticano, que é muito poderoso, que decide carreiras, destinos. Este lobby foi tão forte durante o período de Ratzinger que contribuiu para o fim de um papado ao fim de mais de mil anos. Aí, sim, interessa-me a hipocrisia entre uma instituição que fala da perfeição da heterossexualidade, criticando qualquer coisa que seja diferente disso, e que depois na vida privada se comporta exatamente como aquilo que demoniza.

Outros aspetos que me preocupam em relação à doutrina têm a ver, por exemplo, com o facto de os homens serem os únicos detentores de poder na igreja católica. As mulheres não têm nenhum tipo de poder. O Papa disse que ia abrir uma comissão de estudo para avaliar se as mulheres podiam aceder ao diaconado. Desta comissão não se sabe nada. Acho que uma Igreja mais aberta às mulheres — porque eu sou um feminista convicto — seria menos corrupta e os escândalos de pedofilia seriam muito menos. Quase sempre, os escândalos de pedofilia têm a ver com os homens, quase nunca têm a ver com freiras, com as mulheres. Na Irlanda foram relatados casos muito graves com as freiras, mas os casos de pedofilia, 90% deles, estão relacionados com os homens.

Já que falou do lobby gay, vamos já lá. Há muitas questões em torno deste lobby, muito mistério, muita negação, apesar de tanto Bento XVI como Francisco terem acabado por reconhecer, timidamente, a sua existência. Afinal, quem são estas pessoas, o que é que pretendem, que influência têm no Vaticano?
O perigo deste lobby ficou bem demonstrado pelo primeiro Vatileaks — eu sou protagonista do segundo Vatileaks. O primeiro foi o que levou ao fim do Papa Bento XVI. O lobby gay influenciou de forma pesada a demissão de Ratzinger. Houve um grupo de poder que se inseriu nos vértices da administração da Santa Sé, que controlava o Instituto de Obras Religiosas [o banco do Vaticano], os hospitais, a grande riqueza do Vaticano e, a dada altura, percebeu-se que muitas dessas pessoas estavam ligadas pela mesma orientação sexual.

Por mim não há nenhum problema que tenham a mesma inclinação sexual. O problema é que quando há um lobby assim — e nisto concordo com o Papa Francisco — quem tem a mesma inclinação cultural ou sexual tem a tendência a excluir os outros, a comportar-se como uma máfia. Foi isto que aconteceu durante o pontificado do Bento XVI. Ele chegou a admitir a existência de um lobby gay, disse que este lobby gay tinha sido eliminado. O problema é que depois há outros que se vão formando, e houve lobbys que se formaram no pontificado do Papa Francisco. Um ex-líder dos guardas suíços [guarda oficial do Papa] descreveu o problema dos homossexuais dentro da Santa Sé como um problema muito grave, de pessoas unidas por interesses económicos e que poderiam até atentar contra a vida do Papa. Eu acho isso excessivo, mas com certeza há forças, há lobbys homossexuais que decidem carreiras no Vaticano. Se fores homossexual, tens oportunidade de fazer uma grande carreira no Vaticano, se não fores arriscas fazer menos carreira. A homossexualidade funciona ao contrário, porque pela doutrina a homossexualidade não é aceitável, mas aqui funciona como arma para destruir carreiras.

“Há lobbys homossexuais que decidem carreiras no Vaticano. Se fores homossexual, tens oportunidade de fazer uma grande carreira no Vaticano, se não fores arriscas fazer menos carreira”

Um dos trabalhos de investigação mais notáveis que publica neste livro é relativo ao cardeal George Pell [antigo arcebispo de Melbourne, Austrália, atual secretário para a Economia do Vaticano, acusado de encobrir centenas de casos de padres pedófilos na Austrália]. Teve acesso a documentos reservados, como por exemplo a carta que Pell enviou a uma das vítimas a propor-lhe uma indemnização em troca do silêncio, ou outro documento interno da diocese a preparar a ajuda aos padres pedófilos que saíam da prisão. Foi difícil ter acesso a esta documentação e investigar este caso? Estamos a falar de um dos homens mais poderosos do Vaticano.
Foi difícil contar toda a história, todo o escândalo de pedofilia de Pell, porque o caso dura há quase trinta anos. Precisei de aceder a documentação que está na Austrália, porque era documentação que as vítimas tinham entregue à Royal Commission, uma comissão criada pelo governo de Camberra para investigar todo o fenómeno da pedofilia na Austrália, e não apenas na Igreja, mas também nas escolas e outras instituições australianas. Tive fontes no interior da comissão e até jornalistas australianos que me ajudaram a encontrar, no meio de milhares de papéis, os documentos mais importantes, os que podiam demonstrar como Pell sabia muito bem o que estava a fazer, como estava a tentar defender a Igreja, defender os cofres da Igreja, porque essa era a sua prioridade, ou a fingir que protegia as vítimas. Houve pessoas na Austrália que me ajudaram.

Em todos os outros países tive pessoas que me ajudaram, por exemplo no Chile [onde ocorreu o caso do cardeal Errázuriz] também tive fontes. De facto, foi uma investigação muito comprida, demorei quase um ano a fazer este livro, mas no final estes documentos, sobretudo os que estava a citar, relativos a Pell, demonstram sem sombra de dúvida o nível ético e moral de Pell. Não estou interessado se ele vai ser ou não condenado por estas novas acusações de pedofilia de que é agora alvo. Até desejo que ele consiga demonstrar a sua inocência. Acho que será muito difícil demonstrá-lo, após 30 anos de acusações tão graves. Mas há estes documentos que mostram como ele tentou comprar as vítimas, como negou violências muito evidentes, como não quis ouvir os gritos de dor das pessoas que não tinham maneira de se defender, como tentou proteger o dinheiro das dioceses de Melbourne e de Sidney.

Tudo isto está provado por este livro, não é preciso um julgamento. Provavelmente nem cometeu crimes, mas é uma sentença moral que já pode ser emitida. Por mim negativa, obviamente. Eu fiquei muito surpreendido com a notícia da nomeação de Pell. Mesmo tendo, provavelmente, as mesmas informações que eu tenho sobre ele, o Papa Francisco resolveu promover o cardeal para número três do Vaticano.

EF4Fittipaldi publica documentos da diocese de Melbourne, como a carta enviada a Emma Foster, vítima de abusos sexuais, a oferecer-lhe um pagamento em troca do seu silêncio (FÁBIO VILARES/OBSERVADOR)

No caso Spotlight, o cardeal Bernard Law acabou por ser forçado a renunciar ao seu cargo como arcebispo de Boston. Mas o cardeal Pell, que também encobriu padres pedófilos, fez carreira, chegando ao topo do Vaticano. Porque é que estes casos tiveram desfechos tão distintos?
Antes de mais, não diria que o cardeal Law não tenha sido também promovido. Ele foi nomeado como arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior [em 2004, dois anos depois da resignação em Boston]…

O Papa João Paulo II na altura disse que essa nomeação, para um cargo sobretudo simbólico, fazia parte de um “processo de cura”…
Sim, mas de facto tornar-se arcipreste… Um processo de cura para o cardeal Law seria pegar nele e pô-lo num iglu na Gronelândia, para rezar, pensar nos seus pecados. Não é numa das igrejas mais importantes para o Cristianismo, que é a de Santa Maria Maior. Isto é incrível. O caso de Pell é ainda mais incrível, porque fez exatamente o mesmo que Law — não acreditou nas vítimas, tentou comprar o seu silêncio. Durante o escândalo, Bento XVI não o quis em Roma. Bento XVI e Bertone pararam-no. Sabiam que havia este escândalo na Austrália. Depois, veio Francisco e promoveu-o imediatamente. Foi uma coisa incrível. Na Europa ninguém falou disso. Em Itália ninguém falou disso… falei eu um pouco no L’Espresso, e os meus colegas jornalistas australianos, que se tornaram meus amigos, e aos quais eu pedi depois ajuda para encontrar os papéis que mostravam a culpa de papel.

Recorde a entrevista do cardeal George Pell ao Observador

Há pouco referia a ideia de sentença moral ao invés da sentença pela prática de crimes. No livro escreve sobretudo sobre questões éticas e morais e não sobre os crimes praticados. O seu objetivo é demonstrar a hipocrisia e a inversão de valores na Igreja?
O meu objetivo é ver a diferença entre o que a Igreja e os líderes da Igreja dizem através da sua propaganda e a realidade dos factos. Quero informar os leitores e a opinião pública sobre o que realmente acontece em relação a uma batalha civilizacional importantíssima, que é a luta contra a pedofilia. É só isto. É isto que tem de fazer um jornalista quando está a investigar um poder. Muitos destes crimes já não podem ser perseguidos na justiça porque já prescreveram, porque a Igreja tem a tendência de esconder estas violências e os abusos sobre as crianças durante anos e anos, até que a lei civil já não seja possível de utilizar para condenar os criminosos.

Por exemplo, o Papa Francisco fez algumas coisas que foram contadas por jornais do mundo inteiro como revolucionárias, como a criação da comissão contra a pedofilia. Descobri que esta comissão, em três anos, se reuniu cinco ou seis vezes, não fez nada e não tinha nenhum tipo de poder. Dois dos membros da comissão — os dois únicos sobreviventes de atos de pedofilia que faziam parte da comissão, Marie Collins e Peter Saunders — bateram com a porta, saíram em protesto. Diziam que esta comissão é uma palhaçada, que tinha sido instituída para fazer public relations ao Papa. A comissão de facto não tinha nenhum poder, e não tinha nenhuma informação da Congregação para a Doutrina da Fé, onde, pelo contrário, são escondidas todas as informações sobre os padres pedófilos. Fica tudo nos arquivos da Congregação, não chegou nada a esta nova comissão, criada só para mostrar aos jornalistas. O problema é que nós, jornalistas, muitas vezes, acreditamos nestas coisas.

Mas há mais exemplos destas hipocrisias. O Papa Francisco, em 2015, anunciou um tribunal contra os bispos que ocultaram crimes de pedofilia. Todos disseram que era uma decisão muito corajosa. Foi constituído o tribunal? Nunca. O Papa Francisco fez uma encíclica chamada Amoris Laetitia, explicando que finalmente o Papa tinha mais poder para mandar embora os bispos que escondiam a pedofilia e os padres pedófilos. Isto também foi descrito pelos jornais do mundo inteiro como uma revolução, mas é uma mentira. O Papa sempre foi o monarca da Igreja, sempre teve o poder de mandar embora quem entendesse, se fosse considerado indigno. E de facto, antes da Amoris Laetitia, o Papa Francisco já tinha afastado alguns dos seus inimigos de um dia para o outro.

Ou seja, a revolução do Papa Francisco de que se fala é uma fachada?
É comunicação. Marketing.

Porque é que a Igreja continua a esconder a documentação sobre a pedofilia nos arquivos secretos em vez de adotar uma política de transparência? É falta de preparação da Igreja para lidar com este assunto da forma mais eficaz?
A Igreja católica não está preparada para enfrentar estes escândalos, porque tem medo do que aconteceu nos EUA, na Irlanda, agora na Austrália. A dimensão dos escândalos foi espantosa nos locais onde os houve. Sobretudo a Igreja perdeu muito dinheiro nas indemnizações. Os juízes anglo-saxónicos não são como os juízes latinos, e os ressarcimentos, as compensações, podem ser milionários. Por isso, a Igreja hoje, em vez de mudar de política e tentar tornar-se realmente transparente, continua a esconder tudo. Porque tem medo de que novos escândalos possam destruir o pouco de credibilidade que ainda têm nos países latinos e, sobretudo, têm medo de que possa haver um ataque aos cofres pelas vítimas que querem reembolsos. Então, continua a esconder qualquer escândalo, como que a tentar parar um tsunami com as mãos. Os escândalos vão continuar a aparecer. Sobretudo, se não houver uma reforma verdadeira, os padres vão continuar a achar que podem sair limpos destes casos. É como um círculo vicioso, no futuro vai haver mais escândalos.

Eu esperava, do Papa Francisco, uma verdadeira revolução sobre este tema, essa foi uma das razões pelas quais ele foi eleito no conclave de 2013. Do Papa Francisco esperavam-se ações em relação a três coisas: os escândalos financeiros em Roma, a luta contra os abusos sexuais por parte dos padres e uma relação mais direta com o povo católico, porque Ratzinger tinha sido um papa muito afastado das pessoas. O Papa concentrou-se apenas neste último aspeto. Mas os aspetos mais importantes, aqueles que ficam no tempo, são os primeiros dois.

“Os escândalos vão continuar a aparecer. Sobretudo, se não houver uma reforma verdadeira, os padres vão continuar a achar que podem sair limpos destes casos”

Ter o Papa Francisco, uma celebridade de que todo o mundo gosta, a dizer em público que o Emiliano roubou documentos foi difícil para si?
Fiquei muito zangado, foi muito humilhante. Mas também me senti consciente de que tinha feito o meu trabalho de maneira rigorosa, respeitando a lei e a minha deontologia profissional. Eu sei bem quem me deu aqueles documentos, sei bem que estes documentos estavam à disposição das fontes e não foi porque os tinham roubado, mas sim porque eram titulares dos documentos. Estes documentos continham notícias muito importantes, que qualquer jornalista do mundo, tendo verificado, publicaria. Se não o fizesse, é melhor que mude de profissão.

Fiquei dividido. Por um lado, tive medo, fiquei desiludido e zangado. Mas, por outro lado, sei bem que o poder, quando é atacado, se defende de maneira muito forte. Estava consciente de que teria de ser muito forte para poder contra-atacar e demonstrar ao meu jornal, às pessoas que me rodeiam, que só tinha feito o meu trabalho e mais nada. E correu bem.

Depois de publicar estes dois livros, ficou com problemas em relacionar-se com a Igreja, desde as fontes oficiais aos membros da Cúria?
Eu não falo com as fontes oficiais do Vaticano. Nunca dão informações que não sejam de propaganda, por isso não estou interessado em falar com o gabinete de imprensa. Não estou interessado em falar com a comunicação oficial, com o Greg Burke [diretor de comunicação do Vaticano], e eu, como sou um jornalista de investigação, também sou um problema para eles. Tenho de tentar dar a volta e encontrar uma fonte interna que tenha coragem de contar o que a propaganda não contou.

Com os membros da Igreja, no geral… eu sou um agnóstico, por isso não sinto necessidade de me relacionar com a Igreja. Não sou um católico praticante. Sou batizado, vivo na cultura católica, tenho respeito pela fé, mas para mim a Igreja, em particular a cúpula da Igreja, é um poder como outro. Eu faço investigações sobre o poder, utilizando o mesmo método para políticos, empresários corruptos ou o príncipe da Igreja. Vivo em Roma, faço um jornalismo de investigação sobre o poder. Se não fizesse também sobre a Igreja, eu próprio seria uma piada.

No início da nossa conversa referiu que chegou a ter cardeais a telefonar-lhe para o jornal a ameaçá-lo para não publicar determinados assuntos. Alguma das ameaças chegou a concretizar-se? Não tem medo?
Um padre importante, diretor da Rádio Maria, disse durante a transmissão em direto que eu tinha de acabar enforcado como Judas. Disse-o a toda a Itália. Aí, assustei-me um pouco. Não foi por ele, mas porque o mundo está cheio de loucos, pensei que se ele dizia alguma coisa assim, alguém podia ouvir, não sei. Chamei a polícia para pedir proteção. O que mais me impressionou foi que ninguém me deu solidariedade em Itália. Ninguém na Igreja disse “este padre é um louco”.

Repito: é uma tensão contínua ir contra um poder deste tipo. Consideram-me um jornalista que quer vender livros para ganhar dinheiro, que inventa os escândalos movido por alguma maçonaria internacional que quer destruir a Igreja (risos). Fizeram-me as acusações mais incríveis. Pergunto-me como é que num país como o nosso, Itália, por vezes acusações deste tipo são tomadas em consideração.

Já publicou “Avareza” e “Luxúria”, ainda faltam mais pecados. Planeia continuar a investigar a Igreja?
Não vou fazer livros sobre todos os sete pecados mortais! (risos) Se alguém quiser, encontrará muitos outros escândalos. Depende do tipo de notícia que venha a descobrir. Se forem notícias importantes, um jornalista tem sempre de publicar. Num livro, numa transmissão televisiva, num jornal. Não sei se vou fazer um livro ou se vou publicar no L’Espresso. Há um mês descobri que [o cardeal Luis] Ladaria, o líder da Congregação para a Doutrina da Fé, que sucedeu a Muller, assinou uma carta em que avisava um bispo que tinha mandado embora um padre pedófilo, que tinha feito um julgamento de que ninguém sabia nada. Ladaria disse ao bispo para não dizer nada, para evitar um escândalo público. Acontece que este padre pedófilo deixou de ser padre, tornou-se treinador de futebol infantil, e abusou de metade da equipa. Exatamente por culpa do novo chefe da Congregação para a Doutrina da Fé. Se eu tiver uma notícia deste tipo — esta publiquei em julho — como é claro vou publicar. Se forem muitas, então faço um livro.
Fonte: Observador
Por: João Francisco Gomes
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Psiquiatras deveriam avaliar a Saúde Mental do Presidente da República antes da posse?

 Diagnosticando Donald Trump e seus eleitores

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A questão não é se o presidente é louco, mas se ele é louco como uma raposa ou louco como louco. E, se houver alguém que possa conhecer a diferença, essa pessoa ou esse grupo de pessoas poderiam dizer alguma coisa – ou seria loucura (ou antiético ou antidemocrático)?

Jay Rosen, um estudioso de mídia da Universidade de Nova York, tem argumentado por meses que “muitas coisas que Trump faz são melhor explicadas pelo transtorno da personalidade narcisista”, e que os jornalistas deveriam começar a dizer isso. Em março, o Times publicou uma carta dos psiquiatras Robert Jay Lifton e Judith L. Herman, que afirmava que o “fracasso repetido de Trump para distinguir entre a realidade e a fantasia e seus ataques de raiva quando suas fantasias são contraditas” sugerem que diante de crises faltará ao presidente Trump o discernimento para responder racionalmente. “Herman, que é professor na Harvard Medical School, também co-autor de uma carta anterior ao presidente Obama, em novembro, instando-o a encontrar uma maneira de sujeitar o presidente eleito Trump a uma avaliação neuropsiquiátrica.

Lifton e Herman são, possivelmente, os maiores pensadores americanos vivos no campo da saúde mental. Lifton, que se formou tanto como psiquiatra como psicanalista, também é psico-historiador; Ele escreveu sobre os sobreviventes das bombas atômicas lançadas no Japão, sobre os médicos nazistas e também outras manifestações do que ele chama de “um século extremo” (anterior a esse). Herman, que fez pesquisas pioneiras sobre trauma, escreveu de maneira mais eloquente sobre a quase impossibilidade de falar sobre o inimaginável – e agora que Donald Trump é, inimaginávelmente, presidente, manifestou-se a favor de falar. Herman e Lifton, recentemente, escreveram artigos introdutórios para uma coleção chamada “O Caso Perigoso de Donald Trump: 27 Psiquiatras e Especialistas em Saúde Mental Avaliam um Presidente” Ele é editado por Bandy X. Lee, um psiquiatra da Faculdade de Medicina de Yale que, No início deste ano, convocou uma conferência chamada Duty to Warn.

Os colaboradores do livro aventam a possibilidade de aplicar uma variedade de diagnósticos e descrições ao Presidente. Philip Zimbardo, que é mais conhecido por sua Pesquisa na Prisão de Stanford e seu co-autor, Rosemary Sword, propõem que Trump é um “hedonista auto indulgente ao extremo”. Ele também pode ser um sociopata, um narcisista maligno, um “borderline” no expectro bipolar, hipomaníaco, que sofre de distúrbio delirante ou prejuízo cognitivo. Nenhuma destas condições é uma novidade no Salão Oval. Lyndon Johnson era bipolar, e John F. Kennedy e Bill Clinton poderiam ter sido caracterizados como “hedonistas auto indulgentes”, narcisistas e hipomaníacos. Richard Nixon era, além de seu narcisismo, um sociopata que sofria de delírios, e o perceptível declínio cognitivo de Ronald Reagan começou não depois do seu segundo mandato. Diferentes autores sugerem que a América só evitou com Reagan, que a insanidade maligna de Nixon fosse exposta a tempo e que as misérias de Clinton poderiam tê-lo impulsionado para o sucesso presidencial, assim como traços semelhantes podem ajudar o sucesso dos empreendedores. (Steve Jobs desponta.)

Atrás das evidentes inclinações políticas dos autores, esconde-se um problema conceitual. As definições de doença mental são variáveis; variam de cultura para cultura e mudam com o tempo. O Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais é editado a cada poucos anos para refletir mudanças nas normas: algumas condições deixam de ser vistas como patologias, enquanto outras são elevadas de simples idiossincrasias ao status de doença. Em uma nota de rodapé de sua introdução, Herman reconhece a “história ignominiosa” da miséria e da homofobia da profissão psiquiátrica, mas isso é enganador: o problema não era tanto que os psiquiatras eram homofóbicos, mas que o homossexualidade saiu tão fora da norma social a ponto de virtualmente impedir a possibilidade de uma vida feliz e saudável.

A liderança política não é a norma. Uma vez Alexander Esenin-Volpin, um dos fundadores do movimento dissidente soviético, recebeu seus documentos médicos, remontando às suas internações décadas antes. Seu diagnóstico de doença mental baseava-se explicitamente em sua crença expressa de que o protesto poderia derrubar o regime soviético. Esenin-Volpin riu de alegria quando leu o documento. Foi divertido. Também era acurado: a ideia de que o protesto de alguns intelectuais poderia derrubar o regime soviético era uma loucura. Esenin-Volpin, na verdade, lutou com problemas de saúde mental ao longo de sua vida. Ele também era um visionário.

Ninguém de mente sadia suspeitaria que Trump fosse um visionário. Mas existe uma maneira objetiva, isenta de julgamento de traçar a distinção muito subjetiva e carregada de julgamento entre visão e insanidade? Indo direto ao ponto, há uma maneira de evitar o perigo representado pela loucura de Trump que não nos colocasse no caminho do policiamento do pensamento de líderes democraticamente eleitos? Zimbardo sugere que deveria haver um processo de exame para candidato presidencial, semelhante aos testes psicológicos utilizados para cargos que vão desde o funcionário de vendas de lojas de departamentos até executivos de alto nível”. Craig Malkin, palestrante da Harvard Medical School e autor de “Rethinking Narcissism” sugere se basear em pessoas já treinadas para fornecer avaliação funcional e de risco baseada inteiramente em observação – psiquiatras forenses e psicólogos, bem como criadores de perfis preparados pela CIA, o FBI e várias agências de aplicação da lei. “Esta é uma idéia positivamente aterradora. Como Mark Joseph Stern escreveu em Slate em resposta aos pedidos de dezembro passado para o Colégio eleitoral para não eleger Trump, “só faria sentido se se assumisse como ponto de partida que a América nunca realizaria outra eleição presidencial”.

Os psiquiatras que contribuíram para “The Dangerous Case of Donald Trump” são movidos pelo senso de que eles possuem um conhecimento especial para comunicar ao público. Mas Trump não é paciente deles. A frase “dever de advertir”, que se refere à obrigação de um psiquiatra de violar a confidencialidade do paciente em caso de perigo para um terceiro, não pode ser aplicada literalmente. Como profissionais esses psiquiatras têm uma espécie de ótica que lhes permite destacar sinais de perigo no comportamento ou declarações de Trump, mas, ao mesmo tempo, estão analisando o que todos nós vemos: as mentiras persistentes e flagrantes do presidente (há algum desacordo entre os colaboradores sobre se ele sabe que está mentindo ou é, de fato, delirante); suas declarações contraditórias; sua incapacidade de esperar; sua agressão; sua falta de empatia. Nada disto é secreto, conhecimento especial – tudo é conhecido pelas pessoas que votaram nele. Deveríamos perguntar o que há de errado com eles, e não o que está errado com ele.

Thomas Singer, um psiquiatra e psicanalista junguiano de San Francisco, sugere que a eleição reflete “uma ferida no núcleo do grupo do Americano do Self”, com Trump oferecendo proteção contra ferimentos adicionais e até mesmo a cura para outras lesoes. A conversa se volta para diagnosticar as pessoas que votaram nele. Isso tem o efeito de fazer Trump parecer normal – no sentido de que, psicologicamente, ele está oferecendo aos eleitores o que eles querem e precisam.

Sabendo o que sabemos sobre o Trump e o que os psiquiatras sabem sobre agressão, controle de impulso e comportamento preditivo, estamos todos em perigo mortal. Ele é o homem com o dedo no botão nuclear. Os colaboradores para “The Dangerous Case of Donald Trump” perguntam se isso cria um “dever de avisar”.

Mas a verdadeira questão é: a democracia deveria permitir que uma pluralidade de cidadãos colocasse a vida de um país inteiro nas mãos de um louco? Louca como essa ideia é, não é uma questão que os psiquiatras podem responder.

Fonte: The New Yorker
Por: Masha Gessen
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Qual o interesse em sucatear a ciência no Brasil?

“Há um sucateamento da ciência”

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Em entrevista concedida ao jornal Zero Hora, publicada em 5/10, o premiado epidemiologista gaúcho, Cesar Victora, professor e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), denuncia o sucateamento da ciência no Brasil.

O professor Victora, referência mundial na área de epidemiologia, com trinta anos de pesquisa no Rio Grande do Sul estudando a relação do aleitamento materno com a diminuição da mortalidade infantil, acaba de ser premiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapergs) com o prêmio especial, concedido a cada dois anos a quem tenha contribuído extraordinariamente para o desenvolvimento científico, cultural, tecnológico e social, econômico e artístico do Rio Grande do Sul. O fato de ser referência mundial nas pesquisas sobre o aleitamento materno contribuiu decisivamente para a concessão do premio. Seu estudo concluiu que a aleitamento materno por no mínimo seis meses diminui em 14 vezes a mortalidade infantil. A partir dessa conclusão a Organização Mundial da Saúde (OMS), passou a recomendar aos países, as políticas de aleitamento exclusivo. “Hoje você vai a qualquer parte do mundo e a recomendação do aleitamento materno é baseada nas pesquisas realizadas pela UFPEL em Pelotas”.

Victora comandou um estudo internacional que cruzou dados de 28 pesquisas e concluiu que a falta de amamentação causaria um prejuízo anual de US$ 302 bilhões, por limitar o desenvolvimento intelectual, dos quais US$ 8,7 bi, no Brasil.

O prêmio gaúcho recebido pelo epidemiologista, precede a outro que deverá receber no Canadá, o Prêmio Gairdner, um dos mais importantes na área da saúde. Pois esse grande pesquisador, na entrevista que concedeu ao jornal, disse que, nunca, como nesses últimos dois anos (referindo-se ao governo Temer), a falta de investimento em ciência foi tão evidente, em virtude dos cortes orçamentários. “O financiamento está zero e os jovens pesquisadores estão indo embora”. “No ano passado perdi três doutores do meu laboratório que foram trabalhar na Inglaterra”.

Neste século a pesquisa científica em nosso país deu um salto significativo. O trabalho de Cesar Victora, iniciado ainda em 1982 é um exemplo inegável do benefício recebido pela população pela aplicação de recursos financeiros em pesquisa. No entanto, os dois últimos anos obscurantistas do governo Temer estão a demonstrar o quanto a ignorância e o descaso com o conhecimento põem a perder as possibilidades de crescimento social, educacional e cultural de um povo.

Por: Airton Fischmann, médico
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O que é a Diversidade Sexual?

Este excelente vídeo explica os principais conceitos que devem ser considerados para compreender a sexualidade em toda a sua diversidade.

¿Sabes cuántos tipos de sexualidades existen?

¿Conoces cuál es la dimensión de la diversidad sexual en el ser humano?

¿Has oido hablar de intersexual, pansexual, bigénero, demigénero, género fluido, tercer sexo o asexual?

El vídeo pretende explicarte todo esto de forma fácil y sencilla.

Carki Production
Autor: Gorka Pérez
Voz en off: Salva Vallejo
Agradecimientos: yeyettes
Música: The Creek
Fonte: YouTube
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As Ciências Humanas avançam lentamente numa sociedade conservadora

Comentários do blog:
A propósito das dificuldades das Ciências Humanas avançarem em certas áreas devido ao conservadorismo/imaturidade de parte da sociedade.
Estamos de pleno acordo com o texto de hoje em função de uma idéia muito exposta neste blog de que Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra .
Apesar de já encontrarmos publicado por pessoas ou instituições “leigas” aqui e aqui que o discriminador (racista, machista, homofóbico, etc.) é um doente mental, a maioria da nossa sociedade parece não ter interesse neste avanço.
Apesar destas resistências esperamos anunciar, em breve, importantes novidades nesta área.

chPhoto by madamepsychosis — Flickr

                                        A ciência e a sociedade

Um desabafo contra a intolerância e o preconceito

É muito comum que a ciência venha, de tempos em tempos, a quebrar paradigmas muitas vezes profundamente enraizados na nossa sociedade. O seu desenvolvimento traz com certa frequência novos conhecimentos que se chocam com os fatos e dados que aprendemos nas escolas ou nos meios sociais, causando muitas vezes perplexidade, outras vezes até mesmo uma aversão.

Não me parece errado dizer que toda sociedade, dentro de certos parâmetros, é um tanto quanto conservadora. Não à toa, é muito comum caricaturar os cientistas como pessoas não convencionais, depravados, imorais ou só “malucos” mesmo.

Muitas vezes, quando surgem novas evidências, ou que novos conceitos acabem se tornando um fato razoavelmente estabelecido dentre determinadas comunidades científicas, ainda assim é possível ver o quanto a sociedade em geral teima em refutar ou em negar tais condições.

Eu não saberia dizer sobre os porquês destes acontecimentos, mas o que mais temos, são exemplos dessas situações. Há pessoas — comunidades inteiras, em alguns casos— de “céticos” que creem no “terraplanismo”, enquanto muitos outros estão convencidos de que há raças humanas superiores. Há quem difunda tratamentos alternativos para o câncer, e outros creem que a homossexualidade é uma doença e precisa ser tratada.

E estes fatos, por mais que sejam sistematicamente e cientificamente desconstruídos, continuam sendo calorosamente defendidos. Tem até os que matam por tais “superstições”. E os argumentos que eles usam para “refutar” as novidades muitas vezes são construções argumentativas rasas, falhas e desprovidas de evidências, ou então baseadas em evidências meramente anedóticas, quase sempre publicadas em livros patrocinados ou artigos em revistas sem nenhuma reputação.

Ah, e claro, sempre com muita falácia, principalmente a ad hominem, quando as discussões chegam nas redes sociais. Por tal razão, posicionar-se cientificamente embasado sobre determinados temas, muita vezes, acaba nos levando à embates, à uma situação conflituosa. E o que não falta, nestas horas, são acusações que vão do extremo “fascista” à preocupante “esquerdopatia”.

Os últimos textos deste que vos fala (ou melhor, escreve) foram publicados no Ciência Descomplicada e renderam boas — e às vezes não tão boas assim — discussões. Em especial no Youtube, onde também divulgo um pouco mais da ciência do Direito. Mas, quando se propõe a divulgar cientificamente determinados conteúdos, é preciso estar pronto para o embate contra o moralismo e a ignorância vigente.

Posso dizer, por exemplo, que é assustador, para não dizer alarmante, ver a quantidade de pessoas que se manifestaram à favor do tratamento para a cura gay, partindo da premissa (completamente absurda) de que a homossexualidade é uma doença — para muitos, mental (!).

Ao posicionar-se tecnicamente contra tal a decisão (da “reorientação sexual) eu tinha ciência de que enfrentaria uma boa quantidade de críticas ou de pessoas que defenderiam tais tratamentos. Em especial, os mais devotos cristãos. Só não esperava que fosse uma enxurrada de agressões e de rotulações, especialmente de natureza ideológica.

Pois é. É preciso salientar que os fatos científicos são “amorais”. Não há moralidade em uma pedra que cai, quando jogada pra cima. Morais somos nós, humanos, que valoramos as descobertas como boas ou ruins. Como aceitáveis ou repugnantes. E isso, diga-se de passagem, é fundamental — os cientistas e a ciência precisa, sim, de limites e de controle. De debates éticos. Mas as descobertas, as constatações, elas são o que são.

Por isso que é frustrante ver muitas pessoas, partindo de um ponto de vista ideologicamente ou moralmente viciado, que querem refutar, à todo custo, uma realidade já desvendada pela ciência. E nesse desespero, vale tudo, inclusive atacar os cientistas ou mesmo os entusiastas, divulgadores ou qualquer um que conviva bem com as (nem sempre) novas descobertas.

Como “divulgador científico” do Direito, eu tenho a exata noção de que, por se tratar de ciência humana, é plenamente aceitável a existência de conceitos duais, muitas vezes somando-se (as conhecidas teorias ecléticas), em outras situações rejeitando-se. O Direito não é exato, matemático. Ele está sempre sendo operado sob uma ótica subjetiva, assim como a sociologia, a psicologia e antropologia, por exemplo.

Mas, mesmo possuindo seus subjetivismos, ele ainda é uma ciência, com procedimentos e técnicas peculiares à sua natureza. Muitas vezes, os textos ou artigos jurídicos são apenas técnicos e pedagógicos, e em outras, há também a exteriorização de pontos de vista pessoais ou ideológicos — pois, é claro, uma das funções do Direito é construir normas que, invariavelmente, refletem conceitos morais ou éticos de uma determinada sociedade.

Um bom exemplo é a questão das armas de fogo, que abordei neste texto. A permissividade ou não é uma questão sociológica, ideológica e que guarda diversos aspectos subjetivos, morais e éticos. Mas uma vez inserida no ordenamento, a análise ou a orientação de como se deve proceder para possuir uma é uma questão técnica derivada da norma. Ainda assim, quando à abordamos, estamos sujeitos à sermos tachados de fascistas ou de estar, de certa forma, à serviço da indústria bélica.

No entanto, expor esses questionamentos morais ou éticos não é um problema — pelo contrário — precisamos cada vez mais de debates e diálogos, abertos e respeitosos, sobre nossos direitos e sobre nosso Estado, nossa política, nossa educação e nossa ciência. Precisamos baixar a nossa guarda ideológica para ouvirmos e refletirmos sobre as novas descobertas, sob novos pontos de vista, sob novas opiniões.

Não devemos ter medo de conversarmos sem pudor sobre a ciência, sobre o direito, sobre nós. E não devemos, por outro lado, nos omitirmos de expor o preconceito e as maleficências destes paradigmas ultrapassados, tampouco deixarmos de combatê-los. E a melhor forma de se combater a ignorância, a desinformação e o preconceito é transmitindo o conhecimento.

Vamos, então, informar!

Fonte: Trendr
Por: Tássio Denker
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Pais homossexuais são mais dedicados e tolerantes e seus filhos mais tolerantes e empáticos

  O ensinamento magisterial sobre atos e relacionamentos homossexuais

FH

“As posições magisteriais sobre gays e lésbicas rendem a ser hipóteses teóricas não substanciadas pela experiência prática dessas pessoas. A posição magisterial com respeito à sua afirmação de que atos homossexuais ‘não procedem de uma genuína complementaridade afetiva e sexual’ fica vulnerável à mesma acusação, hipóteses teóricas não substanciadas pela experiência prática”.

A opinião é dos teólogos estadunidenses Michael G. Lawler e Todd A. Salzman, professores do Departamento de Teologia da Universidade de Creighton, EUA. Lawler é doutor em Teologia Sistemática pelo Instituto Aquinas de Teologia, em Saint Louis, EUA, e Salzman é doutor em teologia pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. O artigo está publicado no capítulo 7 do livro A Pessoa sexual. Por uma antropologia católica renovada (Editora Unisinos, 2012).

Eis o artigo.

Nossa análise dos textos bíblicos, que pode ser estendida aos textos teológicos igualmente histórica e socialmente construídos do Magistério, aponta para a direção do discernimento moral que propomos como um caminho para chegar a um julgamento consciencioso sobre a moralidade ou a imoralidade dos atos homossexuais e dos relacionamentos homossexuais.

A tradição ensina que os aros homossexuais são intrinsecamente desor­denados pelas seguintes razões: eles “são contrários à lei natural”, cujos princípios estão refletidos na própria natureza humana; “eles fecham o aro sexual à dádiva da vida”; e “eles não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual genuí­na”.[50] Analisaremos cada uma delas a seguir.

O argumento da lei natural

Primeiro, existe em cada ser humano por “natureza” uma orientação sexual – e lembrem-se de que “natureza” é sempre uma categoria interpretada e, portanto, pode haver juízos dialéticos sobre o que é e o que não é “natureza”. O significado da expressão “orientação sexual” é complexo, e não há um consen­so universal sobre esse significado, mas o Magistério apresenta uma descrição. Ele estabelece uma distinção entre “uma ‘tendência’ homossexual, que se prova ‘transitória’, e ‘homossexuais que são definitivamente assim em virtude de algum tipo de instinto inato”‘. E prossegue ao declarar que “parece apropriado compreender a orientação sexual como uma dimensão profundamente arraigada da personalidade de uma pessoa e reconhecer a sua relativa estabilidade em uma pessoa”.[51] A orientação sexual é predominantemente heterossexual, homossexual ou bissexual. Essa realidade “natural” e histórica, social e experiencialmente revelada pode estar obscurecida pela preponderância estatística óbvia de pessoas de orientação heterossexual, mas de modo algum é negada por essa preponderância estatística. Estamos totalmente de acordo com a CDF, quando ela ensina que “não pode haver uma verdadeira promoção da dignidade de um homem [e de uma mulher] a menos que a ordem essencial da sua natureza seja respeitada”. [52] No entanto, discordamos da CDF, em sua interpretação exclusivamente heterossexual dessa “ordem essencial da natureza”.

A “natureza” e a lei natural sempre ocuparam um lugar proeminente na teologia moral católica e, no ensinamento religioso oficial, não só a homossexualidade, mas também as atividades sexuais conjugais dos tipos pré-conjugal, extraconjugal, contraceptiva e não reprodutiva são condenadas como contrárias à lei natural. Toda atividade sexual que se desvia das “sabiamente ordenadas leis da natureza” de Deus [53] e que não esteja aberta à transmissão da vida, ensina o Magistério, é moralmente errada. Os princípios fundamentais que ditam esse julgamento moral estão contidos “na lei divina – eterna, objetiva e universal – pela qual Deus comanda, dirige e governa todo o universo e todos os caminhos da comunidade humana. ( … ) Essa lei divina está acessível às nossas consciências”.[54] No entanto, é precisamente esse “acessível às nossas consciências”, conforme explicamos no prólogo, que levanta sérias questões hermenêuticas. Já no século XIII, Aquino ensinava que a lei natural “não é nada além da luz da compreensão colocada em nós por Deus”.[55] Porém, ele também afirma que, embora os preceitos da lei natural sejam universais e imutáveis, a sua aplicação varia conforme as circunstâncias da vida das pessoas. Afirmamos o mesmo no Capítulo 2, e aqui precisamos apenas resumir rapidamente nossa argumentação.

Homens e mulheres históricos e racionais não têm acesso a uma “natureza” pura e não adornada. A “natureza” revela à nossa atenção, compreensão, julgamento e decisão somente a sua facticidade nua. Tudo além dessa facticidade é o resultado de uma interpretação por pessoas atentas, inteligentes, racionais e responsáveis; ou seja, nós experienciamos a “natureza” somente como interpretada e socialmente construída. A experiência não interpretada da “natureza”, como de fato de cada outra realidade, fica restrita à sua mera facticidade e é desprovida dê significado, uma qualidade que não é inerente à natureza, mas atribuída a ela por seres racionais em atos interpretativos. “O oleiro, e não o pote, é responsável pela forma do pote”.[56] É inevitável que grupos diferences de mulheres e homens igualmente racionais e historicamente fundados – como teólogos tradicionalistas e revisionistas, por exemplo – possam formular diferences interpretações da “natureza” e das obrigações morais dela derivadas, e que qualquer interpretação dada possa estar equivocada. Em virtude de toda interpretação da “natureza” construir uma realidade socialmente construída e dependente de interpretações humanas mediadas por perspectivas, a realidade da “natureza” deve sempre estar sujeita a escrutínio, ainda que a interpretação seja proposta pelo Magistério da Igreja.

A nossa antropologia sexual reconhece a orientação sexual como uma dimensão intrínseca da “natureza” humana. Como cal, o que é “natural” na atividade sexual, que constitui uma expressão da pessoa sexual, variará conforme a orientação sexual, variará conforme orientação sexual da pessoa, que ramo pode ser homossexual ou heterossexual. Atos sexuais homossexuais são “naturais” para pessoas com uma orientação homossexual, exatamente como atos sexuais heterossexuais são “naturais” para pessoas com uma orientação heterossexual. São naturais porque coincidem com, e refletem, a “natu­reza” humana fundamental de uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. Não estamos alegando aqui que a atividade homossexual é moral por ser natural para aqueles com uma orientação homossexual; isso seria tratar fatos naturais como justificação e cometer a falácia naturalista. Qualquer ato sexual, seja homossexual ou heterossexual, deve não apenas ser natural, mas também, conforme explicamos no Capítulo 4, justo, amoroso e de acordo com a complementaridade holística.

O argumento da procriação

Segundo, a afirmação magisterial de que os atos homossexuais “fecham o ato sexual à dádiva da vida” foi abordada no Capítulo [4], e não precisamos repeti-la aqui. Basta dizer que, quando se explora a “abertura à transmissão da vida” em termos biológicos, então os atos heterossexuais potencialmente reprodutivos e permanente ou temporariamente não reprodutivos são tipos de atos essencialmente diferences. Conforme observa Koppleman contra Finnis, “Os genitais de uma pessoa estéril não são mais apropriados para a reprodução do que um revólver com gatilho quebrado é para dar um tiro.” Trata-se de um estiramento conceituai, prossegue ele, “insistir que os atos sexuais de inférteis incuráveis são do mesmo ripo que os atos sexuais de órgãos férteis que ocasionalmente falham na entrega das mercadorias”.[57] Portanto, a complementaridade heterogenital se torna, assim como a Nova Teoria do Direito Natural, o fator essencial que diferencia atos heterossexuais não reprodutivos de atos homossexuais. Quando se explora a “abertura à transmissão da vida” em termos metafóricos, então tanto casais homossexuais como heterossexuais podem exibir o “significado icônico” de Hanigan em suas uniões interpessoais e em seus atos sexuais corporificados.[58]

O argumento da complementaridade

Terceiro, embora o Magistério consistentemente condene os atos homossexuais com base no pressuposto de que eles violam a complementaridade heterogenital e reprodutiva, ele não explica a razão pela qual eles também violam a complementaridade pessoal, a não ser por afirmar que os atos homossexuais “não procedem de uma genuína complementaridade afetiva e sexual”.[59] Entretanto, essa afirmação pas­sa ao largo da questão de tais atos poderem ou não alguma vez ser verdadeiramente humanos no nível da complementaridade sexual e pessoal. Embora o Magistério não tenha confrontado essa questão, casais homossexuais monogâmicos, amorosos e comprometidos a confrontaram na prática e testemunham que eles realmente vivenciam a complementaridade afetiva e de comunhão por meio de seus atos homossexuais. Margaret Farley observa que o testemunho vivencial desses casais evidencia “o papel desses amores e relacionamentos na manutenção do bem-estar humano e na abertura para o florescimento humano” e “chega até as contribuições que indivíduos e parceiros fazem para as famílias, a Igreja e a sociedade como um rodo”.[60] Isto coincide precisamente com nosso princípio fundacional sobre o impacto relacional direto e indireto dos atos sexuais verdadeiramente humanos. “Expressas de maneira verdadeiramente humana, essas ações traduzem e promovem a mútua doação de si pela qual os cônjuges [diretamente] enriquecem um ao outro e [indiretamente] enriquecem a sua família e a sua comunidade com uma determinação alegre e agradecida’’ [61] A afirmação de Farley é amplamente sustentada por pesquisas relatadas e científicas sobre a natureza dos relacionamentos homossexuais.

Cerca de vinte anos atrás, embora admitisse que a questão das relações entre o mesmo sexo era uma questão controversa, Farley observou experiências relatadas por casais homossexuais e comentou que temos alguns testemunhos claros e profundos das possibilidades de cresci­mento de vida das relações entre o mesmo sexo e das possibilidades de inte­gração promovidas pela atividade sexual no interior dessas relações. Temos o testemunho de que a homossexualidade pode ser uma forma de incorporar um amor responsável e de manter uma amizade humana.

Ela conclui, logicamente, que “esse testemunho por si só é suficiente para exigir que a comunidade cristã [e política] reflita novamente sobre as normas [e leis] do amor homossexual“.[62] Seu julgamento conforma-se ao de Bernard Ratigan, psicoterapeuta inglês gay, que observa que “a distância entre a caricatura feita de nós [gaysl nos documentos da Igreja e a nossa realidade vivida parece enorme”. Com razão, ele pergunta “sobre que evidências o Vaticano baseia as suas afirmações sobre nós?”, e prossegue observando que a psicanálise “passou do estar unicamente preo­cupada com o sexo genital para o pensar bem mais sobre relacionamentos humanos e o amor”.[63] O mesmo ocorreu também com a teologia moral católica revisionista.

Essa indagação por evidências serve também para a mais recente afirma­ção sobre homossexualidade da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA. Fa­lando sobre urna inclinação homossexual, os bispos observam que ela “predispõe a pessoa para aquilo que não é verdadeiramente bom para a pessoa humana”. A predisposição é para atos homossexuais que “não são ordenados à realização dos fins naturais da sexualidade humana” e, portanto, “agir conforme cal inclinação simplesmente não pode contribuir para o verdadeiro bem da pessoa humana”.[64] A afirmação de que os atos homossexuais, por definição, não podem contribuir para o bem da pessoa humana parece contradizer, as experiências relacionais de casais homossexuais comprometidos e monogâmicos. Embora essa afirmação não mencione escudos científicos para comprovar sua alegação, há uma série de estudos que explicitamente a contradizem.

Lawrence Kurdek realizou extensas pesquisas a respeito de casais de gays e lésbicas e observa as seguintes características ao compará-los com heterossexuais casados. Casais de gays e lésbicas tendem a ter uma distribuição mais igualitária de trabalho doméstico, demonstram maiores habilidades na resolução de conflitos, têm menos apoio dos membros da própria família, mas mais apoio de amigos e, de maneira mais significativa, experimentam níveis semelhantes de satisfação relacional em comparação com casais heterossexuais.[65]

Estudos empíricos não apenas contestam as afirmações magisteriais de que os atos homossexuais, por definição, são prejudiciais à pessoa humana e aos relacionamentos humanos; esses escudos também contestam as afirmações do Magistério em relação aos efeitos prejudiciais da paternidade homossexual sobre os filhos. A CDF argumenta contra casais do mesmo sexo que socialmente criam os filhos com base na alegação de que “como mostrou a experiência, a falta de complementaridade sexual nessas uniões cria obstáculos ao desenvolvimento normal dos filhos que ficam aos cuidados dessas pessoas. ( … ) Permitir que crianças sejam adotadas por pessoas que vivem cm uniões desse tipo significaria, na verdade, praticar uma violência contra elas.”[66] Não só é uma afirmação dessas retó­ricamente injusta e discriminatória,[67] mas é também empiricamente desprovida de substância. A CDF não apresenta quaisquer evidências científicas, seja aqui ou em qualquer outro lugar, para substanciar a sua afirmação de que as uniões homossexuais constituem um obstáculo contra o desenvolvimento normal de uma criança. Há, no entanto, abundantes evidências em contrário.

Embora reconheça que as pesquisas sobre pais gays e mães lésbicas ainda estejam em evolução, especialmente com respeito a pais gays, Parterson sintetiza as evidências disponíveis a partir de 20 anos de estudos: Não existe qualquer evidência para sugerir que lésbicas e gays não sejam ade­quados para serem mães e pais ou que o desenvolvimento psicossocial [inclu­sive sexual] entre crianças adotadas por gays ou lésbicas fique comprometido cm algum aspecto em comparação com o desenvolvimento de filhos de pais heterossexuais. Nem um único estudo demonstrou que crianças de pais gays ou mães lésbicas estejam em desvantagem em algum aspecto significativo em relação a filhos de pais heterossexuais.[68]

Em sua análise geral da pesquisa, Laird sugere ainda que os dados científicos indicam que pais homossexuais são um tanto mais dedicados à criação dos filhos e tolerantes que pais heterossexuais, e que seus filhos são, por sua vez, mais tolerantes e empáticos.[69] Essa preponderância de evidências levou a Associação Norte-americana de Psicologia a aprovar e a divulgar uma importante resolução. Em virtude de mães lésbicas e pais gays assemelharem-se aos pais heterossexuais na provisão de ambientes incentivadores e saudáveis para seus filhos, (…) [e em virtude de] as pesquisas terem demonstrado que a adaptação, o desenvolvimento e o bem-estar psicológico dos filhos não estão relacionados à orientação sexual dos pais e que os filhos de pais gays e mães lésbicas têm as mesmas possibilidades de florescimento que os de pais heterossexuais, a Associação se opõe a qualquer discriminação com base em orientação sexual.[70]

A importante Liga Norte-americana pelo Bem-estar Infantil, totalmente centrada na criança, também está convencida pelos dados de que não existem diferenças significativas entre as atitudes e habilidades parentais de casais de pais heterossexuais e homossexuais, sejam de gays ou lésbicas.[71] Em 1994, a declaração da política da Liga recomenda que “homossexuais, gays ou lésbicas, que desejam adotar filhos devem ser avaliados do mesmo modo que qualquer outro candidato à adoção. Deve-se admitir que a orientação sexual e a capacidade de criar um filho são questões diferentes.” A Liga recomenda ainda que informações factuais sobre gays e lésbicas devem ser fornecidas “para dissipar micos comuns em torno de gays e lésbicas”.[72] Não é a orientação sexual de pais gays e mães lésbicas que produz resultados negativos em seus filhos, mas a discriminação social em relação a eles gerada por mitos propagados sobre seus pais.

O Concílio Vaticano II louva os avanços das ciências sociais que trazem à comunidade humana um “autoconhecimento aprimorado” e ”influenciam a vida de grupos sociais”.[73] O Papa João Paulo II ensina que “a Igreja valoriza pesquisas sociológicas e estatísticas quando elas se mostram úteis à compreensão do contexto histórico no qual a ação pastoral deve ser desenvolvida e quando levam a um melhor entendimento da verdade”.[74] A presente questão, a saber, o efeito de pais e mães homossexuais sobre seus filhos, constitui um caso clássico no qual as ciências sociais claramente levaram a um melhor entendimento da verdade. Há dados científicos sociais abundantes para sustentar a afirmação de que a complementaridade de comunhão e afetiva são evidentes nos relacionamentos homossexuais e que, no caso de pais e mães homossexuais, essas complementaridades facilitam não só a complementaridade parental, mas também a criação positiva dos filhos.[75]

Essas avaliações das experiências relacionais e parentais de casais homossexuais lembram o princípio de John Courtney Murray de que a inteligência prática, diferentemente da teórica, está preservada da ideologia ao manter “uma relação direta com a experiência concreta”.[76] Como vimos anteriormente em relação a escudos científicos sobre pessoas em relacionamentos homossexuais e filhos que são criados por pais gays e mães lésbicas, as posições magisteriais sobre gays e lésbicas rendem a ser hipóteses teóricas não substanciadas pela experiência prática dessas pessoas. A posição magisterial com respeito à sua afirmação de que atos homossexuais “não procedem de uma genuína complementaridade afetiva e sexual” fica vulnerável à mesma acusação, hipóteses teóricas não substanciadas pela experiência prática.

Notas do capítulo 7:

[50] CCC, 2357; CRP, 4.

[51] United Srares Conference of Carolic Bishops, Alw11ys 011r Childrm, 4-5, ênfase acrescenta da. Veja também PH, 8.

[52] PH, 3.

[53] HV, li

[54a] lbid., 3, ênfase acrescentada.

[55] CCC, 426.

[56] Alfred North Whitehead, Symbolism: lts Me11ning and Effict (New York: Putnam’s, 1959), 8.

[57] Andrew Koppleman, “Natural Law (Ncw)”, em Sex from Pinto to Pag/i11: A Philosophiu/Encyclopedia, ed. Alan Soble (Wcstpon, CT: Greenwood Press, 2006), 11: 708.

[58] Todd A. Salzman e Michael G. Lawler, “Qunestio Disp11rnta: Catholic Sexual Erhics: Com­plemcncariry and rhe Truly Human”, TS 67, n. 3 (Septcmber 2006): 631-35; David Matzlco McCarthy, “Thc Rclarionship of Bodics: A Nupcial Hcrmcncurics of Same-Sex Unions”, em Theology nnd Sexualiry: Clnssic and Contemporary Readings, ed. Eu gene F. Rogers Jr. (Oxford: Blackwcll, 2002), 200-16.

[59] CCC, 2357.

[60] Margaret Pi.. Farley, }ust Love: A Framework for Christian Sexual Ethics (New York: Coo• tinuurrt, 2006), 287. Prans Vosman faz essa afirmação também áô observar, por exemplo, que homossexuais contribuem para o “bem social” em termos de “apoio, cuidado e justiça mútuos”. Frans Vosman, “Can rhc Church Rccognize Homosexual Couples in rhc Public Sphere)” INTAMS Review 1, 11. 12 (2006): 37.

[61] GS, 49.

[62] Margarcr A. Farlcy, ”An Erhic for Same-Sex Rclations”, cm A Ch11/Lmge to Love: Gay a,u/ lesbian C111holics in the Clmrch, cd. Robert Nugem (Ncw York: Crossroad, 1983), 99-100. Em seu livro mais recente, Farlcy retorna à questão da experiência de gays e lésbicas e avalia que “não dispomos de force rcsrcmunho do papel desses relacionamentos [de gays e lésbicas] na manutenção do bem-estar humano e na abertura para o florescimento humano. Esse mes­mo testemunho se estende para as contribuições que indivíduos e parceiros fazem para suas famílias, para a Igreja e para a sociedade como um todo”; Farley, }ust Love, 287. O rccenic documento do Vaticano sobre homossexualidade e o sacerdócio é também acusado de ignorar a experiência de muitos gays. Após ter afirmado que gays “devem ser aceitos com respeito e sensibilidade, todo sinal de discriminação injusta com relação a eles deve ser evitado”, o documento prossegue afirmando injustamente que esses homens “encontram-se em uma situação que os impede seriamente de relacionar-se de maneira apropriada com homens e mulheres”; Congregation for Catholic Education, lnstruction Conceming the Cri teria for the Discemment of Vocatiom with Regnrd to Persons wirh Homosex11al Twdencies, 2, disponível aqui, acessado em 22 jan 2012. Nenhuma evidên­cia é aprcscnrada para uma afirmação genérica como essa; evidências contrárias, conhecidas de qualquer pessoa que aceita gays e lésbicas com “respeito e sensibilidade”, são ignoradas.

[63] Bernard Ratigan, “When Fairh and Feelings Conflict”, The Tnblet, Oecembcr 10, 2005, 13.

[64 United Staces Confcrcnce of Catholic Biships, ”Minisrcy to Persons with a Homosexual ln­clination: Guidelincs for Pastoral Care”, Origins 24, n. 36 (November 23, 2006): 381.

[65] Lawrence A. Kurdck, “What Do We Know about Gay and Lesbian Couples)” Current Di­rections i11 Psychological Science 14 (2005): 251; Lawrence A. Kurdek, “Differences bctween Parmcrs from Hetcrosexual, Gay, and Lesbian Cobabiting Couples”,Joumn/ of Mnrriage 1111d Family 68 (May 2006): 509-28; Lawrence A. Kurdek, “Lcsbian and Gay Couples”, em Les­bian, Gay and Bisex1111l ldemities over the Liftspan, ed. Anthony R. D’Augelli and Charlotte J. Patterson (New York: Oxford Univcrsity, 1995), 243-61; e Lawrence A. Kurdck, “Are Gay and Lesbian Cohabicing Couples Renlly Different from Heterosexual Married Couples?” }011mal of Marriage and Family 66 (2004), 880-900. Veja também, Ricch C. Savin-Williams e Krisrin G. Esrerberg, “Lcsbian, Gay, and Bisexual Families”, em Handbook of Family Diver­síty, ed. David H. Demo, Katherine R. Allen, e Mark A. Fine (Ncw York: Oxford Universiry Press, 2000), 207-12; e Philip Blumscein e Pcpper Schwam:, America11 Couples: Money, W’ork, Sex (Ncw York: Morrow, 1983).

[66] CRP, 7.

[67] Veja Stephen J. Popc, “The Magistcrium’s Argumcnrs against ‘Same-Sex Marriage’: An Echi- cal Analysis and Critique”, TS 65 (2004): 530-65.

[68] Charlotte J. Patterson, “Lesbian and Gay Parcnting” (\Xfashingron, DC: APA Press, 1995), disponível aqui, acessado em 22 jan 2012, ênfase acrescentada. Veja também Marybech J. Mattingly e Robert N. Bozick, “Chil­dren Raise<l by Same-Sex Couples: Much Ado abouc Noching”, trabalho apresentado na Confercncc of che Souchcrn Sociological Society, Atlanta, 2001.

[69] Joan Laird, “Lesbian and Gay Families”, em Normal Family Processes, ed. Froma Walsh (New York: Guilford, 1993), 316-17.

[70] APA, “Resolution on Sexual Orienration and Marriagc”, 2004, disponível aqui, acessado em 22 jan 2012.

[71] Ann Sullivan, ed., Imw i11 G11y 1111d Lesbian Adoption: Procerdings of the Fourth Annual Peirce-W’arwick Adoption Symposium (\Xfashingron, DC: Child Wclfare Leaguc of America, 1995), 24-28.

[72] lbid., 41.

[73] GS, 5.

[74] FC, 5.

[75] Para uma análise desses dados, veja Osnar Erel e Bonnie Burman, “lnterrelatedness of Ma­rital Rclations and Parenr-Child Relacions: A Meca-Analyric Rcview”, Psychologicnl Bulletín 118 (1995): 108-32; Paul R. Amato e Alan Booth, A Generation at Risk: Growíng Up in an Em of Fnmily Upheaval (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1997), 67-83; Stacy J. Rogcrs e Lynn K. White, “Sacisfaccion with Parenring: Thc Role of Marital Happincss, Fa­mily Scruccure, and Parems’ Gcnder”, Joumnl of Mnrringe 1111d Family 60 (1998): 293-316; e David H. Demo e Marcha J. Cox, “Families wirh Young Children: A Review of rhe Research in rhe l990s”,Jo1m111l of Marringe and Ftlmily 62 (2000): 876-900.

[76] John Courrney Murray, W’e Hold Time Trwhs: Cntholic Rejlections on riu Ameríca11 Experim­ce (Ncw York: Shccd and Ward, 1960), 106.

Fonte: IHU
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Violência doméstica: do normal ao patológico

Comentário:
Sabemos que a violência doméstica já foi considerada uma conduta normal. O fato desta conduta machista com violência passar a ser considerada crime não determinou uma diminuição na sua frequência. Já publicamos aqui e aqui matérias enfatizando que estas ocorrências não diminuirão se não houver prevenção. No texto de hoje a autora, de origem portuguesa, também faz referência à necessidade de prevenção. E por coincidência, o também português, Secretário-Geral da ONU, António Guterres, ao participar da 34a sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, sugeriu que As discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença.

Entre um “dó maior” e um “sol menor”: sobre a banalização da violência

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Até há relativamente poucos anos, a violência doméstica povoava a vida quotidiana da comunidade de modo indelével mas sem gerar grandes manifestações de indignação.

A apresentação dos cônjuges como a cara-metade traduzia o índice de pertença a uma unidade maior mas, simultaneamente, a referência a uma perda de identidade após o casamento: cada cônjuge não seria senão a metade de um todo e esse todo indivisível constituía a finalidade da relação a dois. A educação, sobretudo das mulheres, dirigia-se a esse projecto comum no qual se realizariam, pelo que o fim da relação conjugal era frequentemente sentido como uma falha pessoal, um projecto de vida falhado, uma vez que os projectos individuais se diluíam no colectivo familiar.

Ensinavam-se alegremente às crianças histórias de um Sebastião que “come tudo tudo tudo chega a casa e dá pancada na mulher”, ou do “mar que também é casado com a areia, bate nela quando quer”, ou da amante do fado Valentim que clama pelo seu amor “quero o Valentim olaró laró, quero o Valentim, olaró meu bem” mas que, a determinado passo afirma “agora é que eu percebo o valor do pau de marmeleiro”. E não havia espanto que uma marca de farinhas usasse como slogan “Seu marido bate-lhe? Então tome farinha de fava, ou Favacau d’A Mariazinha … e verá como cria forças para até o atirar pela janela fora!”. Poderia pretender ser apenas um spot publicitário de (duvidoso) humor, se não correspondesse, infelizmente, a uma forma de olhar a realidade, sem empatia pelo sofrimento do outro.

Olhando para a sociedade em que foi educada a minha geração e as que a precederam, verifica-se que o mundo dos preceitos morais, que de modo afincado e rigoroso nos eram transmitidos, coabitava com um dispositivo lúdico tinha como matéria prima este tipo de violência.

A acriticidade com que estas cantigas se difundiam poderia traduzir, ora a insensibilidade, o alheamento, o “fingimos que não vemos” com que era sentida a violência doméstica, ora a constatação da impotência para agir numa sociedade em que todos – instâncias formais e comunidade – procuravam instintivamente detectar um comportamento da vítima que pudesse fundamentar, de alguma maneira, a reacção do agressor: o poder correctivo dos pais a tentar conduzir ao bom caminho um filho insurrecto, a paixão incomensurável do agressor imerso na sua dor de não ser querido por quem não o merece, a perturbação incontrolável do amante para quem qualquer conduta menos dependente do ser amado (que julga pertencer-lhe) era sentido como sinal de infidelidade; ou apenas demonstração da incapacidade de se imaginar sozinho num mundo desenhado para dois, ainda que fosse um mundo azedo, triste, violento. Por outro lado, capear com humor as situações desagradáveis foi sempre um artifício usado para permitir um convívio menos doloroso com a realidade.

As palavras traduzem conceitos e as palavras moldam comportamentos.

Os provérbios e frases populares constituem, igualmente, um bom manancial de exemplos que ilustram não apenas o que se constatava, mas os comportamentos aceitáveis (desejáveis ?) nestes contextos: “entre marido e mulher não metas a colher”, “casa que não é ralhada não é governada”, “amor querido, amor batido”, “quanto mais me bates mais gosto de ti”, ou o não menos elucidativo, “só se perdem as bofetadas que caem no chão” constituem bons exemplos.

Portugal tem construído, ao longo dos últimos anos, um sistema integrado dirigido à diminuição da violência familiar e à protecção das vítimas de que se pode orgulhar. Porém, nenhum sistema, por muito bem estruturado que seja, por muitos meios que coloque ao dispor da vítima e do agressor, poderá obter bons resultados por si só.

É indispensável que se mobilizem todos os actores e se convoquem todos os meios para combater e prevenir a violência familiar.

Porém, a principal força motriz da modificação de comportamentos será a educação. Aprender a compreender e dominar os sentimentos e as emoções, aprender a respeitar o outro incondicionalmente, ensinar a pedir ajuda. Fortalecer a autoestima (que não poderá confundir-se com sobranceria), torna-se uma exigência de modo a que se adquira a capacidade de compreender que não se é dono de ninguém e se aceite que o fim de uma relação, por muito dolorosa que seja, não é o fim da vida.

Fonte: Linked in e locus delicti
Por: Ana Paula Pinto Lourenço, Docente Universitária
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Publicitários também definem o discriminador como um doente

Introdução:

Já apresentamos neste espaço o Projeto Discriminação (PD) da Associação de Psiquiatria do RGS – APRS que tem como um dos seus objetivos a definição do(s) Discriminador(es) como um doente e a Conduta Discriminatória como uma conduta doentia.
Para um melhor entendimento do PD vejamos outras publicações aqui do blog:
Uma hipótese para definição da Conduta Discriminatória (CD) e as características emocionais do Discriminador.
Duas entrevistas sobre o PD: aqui e aqui.                                                                             Duas propostas “leigas” que tem afinidade com o PD:                                                     Uma formulada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, no premiado livro Americanah.                                                                                                               E a do secretario-geral da ONU, sugerindo que as discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença.
As expressões abaixo, da publicação de hoje, seguem a linha do PD:                             o  Discriminador é um doente. /
#HomofobiaÉdoença /
“homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”.O que precisa de cura é o preconceito” /
#trateoseupreconceito /
o preconceito é que é a doença /
Doença é o preconceito, a homofobia e a violência que mata milhares de pessoas no mundo todo. Isto sim precisa de cura./                   #HomossexualidadeNãoÉDoença      #DoençaÉoPreconceito /
TrateSeuPreconceito   #CombateÀHomofobia  #HomofobiaÉDoença /

 

        Cura gay? Marcas se posicionam contra decisão de juiz do DF

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No último dia 15, o juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho da 14ª Vara do Distrito Federal concedeu uma liminar que, na prática, proíbe o Conselho Federal de Psicologia de impedir que psicólogos ofereçam “terapias” alternativas de reorientação sexual, popularmente conhecidas como “cura gay”. Diante de títulos sensacionalistas de diversos portais e memes (que muitas vezes reduziam o assunto a um entendimento raso), não só o assunto gerou um importante buzz de discussão sobre o tema, como também trouxe para o Facebook um colorido especial de volta a muitas fotos de perfil, com filtros em apoio à causa LGBT.

Personalidades como Anitta, Paulo Gustavo e Fernanda Gentil e marcas como Jardim da Ressureição, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Absolut, Google, o Detran SP, Museu do Amanhã, além do próprio Facebook entraram na conversa. Diversos governos também se posicionaram e a hashtag #TrateSeuPreconceito também subiu no Twitter juntamente com #AmorNãoÉDoença, #HomofobiaÉdoença e outras. Veja alguns deles:

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O Governo do Rio Grande do Sul relatou em sua página: “Não há cura para o que não é doença. Desde 1990, homossexualidade não é mais classificada como transtorno mental pela Organização Mundial da Saúde. Naquele ano, o órgão declarou que “homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”.O que precisa de cura é o preconceito” e esta imagem:

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A Revista Estilo publicou: “Repudiamos a decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho que concedeu uma liminar que permite a terapia de reversão sexual aos homossexuais, a cura gay. A comunidade LGBT não precisa de cura, precisa de respeito.”

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A Galileu também deu seu posicionamento online: “Na última segunda-feira (18), o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho da Justiça Federal do DF liberou psicólogos a tratarem gays e lésbicas como doentes. A decisão é um retrocesso, já que a OMS deixou de considerar a homossexualidade uma doença em 1990. #trateoseupreconceito”

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Assim como a Prefeitura de Recife, que disse: Quando se trata de amor, o preconceito é que é a doença. #maisamorporfavor”

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E o Governo da Bahia: “Homossexualidade é simplesmente o amor que uma pessoa sente por outra do mesmo sexo. Doença é o preconceito, a homofobia e a violência que mata milhares de pessoas no mundo todo. Isto sim precisa de cura. #HomossexualidadeNãoÉDoença    #DoençaÉoPreconceito  #Bahia #GovernoDaBahia”

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Minas também participou do movimento: “Desde o ano passado, os formulários dos REDS (Registros de Eventos de Defesa Social) – nome dado aos antigos boletins de ocorrência – permitem que a homofobia seja apontada como motivação presumida de um crime. Também foram predefinidas outras opções de preenchimento mais precisas, como lesbofobia, bifobia e transfobia. A medida adotada em Minas Gerais ajuda a elaborar um diagnóstico mais detalhado da violência relacionada a preconceitos e, assim, embasar políticas de combate a esses crimes. 🏳️‍🌈     #TrateSeuPreconceito     #CombateÀHomofobia #HomofobiaÉDoença  #MG — com SESP – Secretaria de Estado de Segurança Pública e Secretaria de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania.”

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Fonte: Adnews
Por: Redação Adnews
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Pedofilia católica: o celibato é a causa principal

Celibato es factor determinante de pederastia católica

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Durante los últimos cinco años, los exsacerdotes australianos Des Cahill y Peter Wilkinson revisaron la literatura especializada relacionada con la pederastia al interior de la Iglesia Católica.

El resultado de su investigación es un reporte de casi 400 páginas publicado por el Centro para la Investigación Global de la RMIT University de Australia.

Entre sus múltiples hallazgos se encuentra que las políticas de la Iglesia Católica sobre el celibato obligatorio son un factor determinante en que los sacerdotes terminen violando niños — otros factores son la homofobia y el machismo institucionales:

• Aunque no es la causa directa, el celibato obligatorio ha sido y sigue siendo el principal factor de riesgo precipitante para el abuso sexual infantil. Los mejores estudios en todo el mundo muestran que uno de cada 15 sacerdotes cometió el delito, aunque los índices difieren entre las diócesis y las congregaciones religiosas.

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• Los niños católicos jóvenes y vulnerables, especialmente los varones, eran y siguen siendo víctimas de la falta de intimidad de los sacerdotes y hermanos religiosos psicológicamente inmaduros, sexualmente privados y profundamente frustrados, en particular los que no han resuelto su propia identidad sexual y cuyo pensamiento está profundamente distorsionado y mutado hacia los niños.

• Aunque la homosexualidad no es una causa directa de abuso, el ambiente profundamente homofóbico dentro de la Iglesia y sus seminarios, basada en la enseñanza de que la homosexualidad es un estado intrínsecamente desordenado y que todos los gays deben llevar una vida de celibato, contribuye a la inmadurez psicosexual.

• Si bien hay otros factores, el riesgo de delito ha sido mucho mayor entre los hermanos religiosos con poco contacto con mujeres —educados en escuelas sólo para hombres y formados para la vida religiosa en instituciones sólo para hombres— antes de ser asignados a escuelas sólo para hombres y vivir en comunidades de hombres. La ausencia de lo femenino y la denigración de las mujeres dentro de las estructuras eclesiásticas es un factor de riesgo clave y subyacente en el abuso.

• Los sacerdotes y los depredadores religiosos se han beneficiado del fácil acceso a los niños en parroquias y escuelas, particularmente aquellos que viven en los presbiterios de un solo sacerdote y con acceso a un automóvil. El riesgo fue especialmente alto en países como Australia e Irlanda, donde históricamente ha habido un gran número de orfanatos y escuelas residenciales.

• El riesgo de depredación es mayor en entornos residenciales. Ese riesgo continúa hoy en día, particularmente en la India e Italia, que tienen una proporción significativa de los 9.500 orfanatos restantes de la Iglesia.

• La decisión del Papa Pío X de 1910 de reducir la edad a la que los niños se confiesan por primera vez a los siete años contribuyó indirectamente a poner a más niños en peligro.

• Los Papas y obispos crearon una cultura del secreto que condujo a una serie de graves fracasos en la transparencia, la rendición de cuentas, la apertura y la confianza, en su empeño por proteger la reputación de la Iglesia como una institución sagrada por encima de todo, incluso a expensas de la seguridad de los niños.

Desde hace unos años venimos abogando por prohibir que los menores de edad sean expuestos a la religión, porque eso es aprovecharse de que los niños —¡muchas veces con apenas días de nacidos!— no pueden tomar una decisión informada, lo que constituye una violación efectiva de su libertad de conciencia y de cultos — vamos, que es un lavado de cerebro en toda regla.

Aunque me parece terrible, entiendo que incluso en el mundo civilizado aún les cuesta trabajo ver a los niños como personas con DDHH que ni siquiera sus padres pueden violar, por más convicción que tengan y convencidos que estén. Ante este tenebroso panorama, no creo que sea mucho pedir que, por lo menos, se prohíba dejar niños solos con representantes religiosos a quienes les exigen celibato.

Fonte: De Avanzada
Por David Osorio
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Escutar o paciente ou receitar drogas?

 Notícias da psiquiatria e seu mal-estar na terra de Trump

 

Chama atenção que o programa não faz nenhum incentivo à escuta ou terapias não medicamentosas, simplesmente a prescrição, daí que ele vem sendo ironicamente chamado, ao invés de Educação Médica, de Programa de Promoção de Drogas.

subversos

O que podemos esperar da troca do mais alto posto da psiquiatria americana, a direção do National Institut of Mental Health (NIMH)? Por treze anos a entidade foi comandada pelo notório Dr. Thomas Insel. Insel ganhou repercussão mundial quando a esperada quinta edição do DSM, que vinha sendo organizada pela Associação de Psiquiatria Americana, não foi referendada pelo NIMH no exato momento de seu lançamento. O DSM5 foi elaborado em meio a grandes polêmicas e resistências, principalmente quando o mundo descobriu o alto grau de comprometimento dos psiquiatras responsáveis com a indústria farmacêutica. Quando o NIMH desautorizou o DSM5 muitos comemoraram, pois a expectativa era de um manual ainda mais repleto de transtornos, aumentando enormemente o que poderia ser considerado uma patologia mental. Contudo, como chamou atenção Eric Laurent, em um artigo escrito logo após o anúncio do NIMH, não haveria muito o que comemorar, já que a crítica de Insel era precisamente que o DSM5 não era suficientemente “científico”, deixando entrever que o futuro da psiquiatria seria seu desaparecimento no oceano das pesquisas em neurociências[1].

As pesquisas translacionais

Efetivamente, a gestão Insel priorizou a neurociência e estrangulou progressivamente o orçamento para a pesquisa clínica. Afinal, com toda a crítica feita ao DSM, este era ainda um instrumento conectado à experiência clínica de profissionais que recebiam pacientes todos os dias. A partir de 2010, o NIMH instalou um novo critério para aprovação de pesquisas , chamado de RDC (Research Domain Criteria), que atrelava qualquer solicitação de financiamento à pesquisa translacional. O que é a Pesquisa Translacional? Trata-se de uma tendência mundial, crescente na pesquisa de doenças de todos os tipos, que visa agilizar a transferência de resultados da pesquisa básica à pesquisa clínica, afim de produzir benefícios para a comunidade como um todo. Em princípio a ideia é muito boa, pois visa reduzir o hiato entre a ciência pura e a prática clínica. As pesquisas translacionais no caso da psiquiatria envolvem sempre, em uma mesma pesquisa, tanto os genes, moléculas produzidas, células, e circuitos cerebrais, quanto o comportamento e os resultados clínicos obtidos.

Contudo, a crença de que o futuro da psiquiatria está no cérebro é tão consolidada, que solicitações de financiamento de pesquisas puramente clínicas passaram a ser sistematicamente negadas a partir dos novos RDC. A alegação do NIMH é sempre de que faltam nas propostas simplesmente clínicas uma “neurosignature”, espécie de selo de qualidade que implica a presença no projeto encaminhado de procedimentos atrelados aos pilares das neurociências. Em uma recente carta ao Times, o psiquiatra John Markowitz relata como ficou difícil propor uma pesquisa puramente clínica auspiciada pelo NIMH, já que, progressivamente, os fundos foram todos dedicados às pesquisas que incluem as neurociências. Atualmente apenas dez por cento do bilionária verba do NIMH é dedicada à trabalhos puramente clínicos[2].

Remédios para todos

Quem então se interessa pelos ensaios clínicos? Percebe-se que o espaço deixado vago foi fartamente ocupado pela indústria farmacêutica. Enquanto os neurocientistas se dedicam às pesquisas translacionais, a clínica psiquiátrica, na ponta, passa a ser orientada de modo cada vez mais explícito por protocolos duvidosos que levaram o consumo de medicamentos à patamares sem precedentes.

Dentre os projetos mais controversos encontra-se o Practice Support Program for Child and Youth Mental Health (PSP-CYMH), coordenado pelo Dr. Stan Kutcher. Trata-se de um programa que visa identificar patologias psiquiátricas entre os jovens em idade escolar. O programa foi largamente impulsionado por alguns crimes e suicídios cometidos por adolescentes em suas escolas, e que ganharam grande repercussão na imprensa. Nele, médicos generalistas recebem 2600 dólares por 10 horas de capacitação, para identificar precocemente possíveis distúrbios psiquiátricos em jovens em idade escolar. Assim, durante as visitas rotineiras para vacinação e demais check-ups anuais, os jovens pacientes passaram a responder a um questionário protocolizado visando identificar possíveis situações de depressão, ansiedade ou outro sintoma psiquiátrico.

A constatação foi que, com o questionário, o número de jovens diagnosticados e tratados com medicamentos aumentou para proporções muito acima da realidade. Um dos mais preocupantes métodos para identificar distúrbios de ansiedade entre os jovens é o SCARED, Screen for Child Anxiety Related Disorders[3]. Enquanto a maioria dos dados conhecidos indicava que não mais que 10 por cento dos jovens apresentam distúrbios de ansiedade, com o SCARED o numero de jovens diagnosticados e tratados foi simplesmente o triplo[4]. O questionário, elaborado pelo Dr. Kutcher, vem sendo questionado por inúmeras entidades. A crítica é que ele induz os generalistas a aumentarem ou persistirem com a prescrição de Fluoxetina em jovens que muito provavelmente não possuem patologia alguma, simplesmente problemas cotidianos do enfrentamento de situações escolares difíceis.

Chama ainda atenção que o programa não faz nenhum incentivo à escuta ou terapias não medicamentosas, simplesmente a prescrição, daí que ele vem sendo ironicamente chamado, ao invés de Educação Médica, de Programa de Promoção de Drogas.

Como então encontrar o sujeito do sofrimento psíquico? O país está dividido. Há os que apostam milhões de dólares na elucidação biológica precisa das doenças psiquiátricas, em pesquisas cuja duvidosa comprovação pode levar décadas até produzir algum sentido prático na clínica, mas há igualmente os que desenvolvem sua prática clínica em um meio completamente distorcido pelo charme da indústria farmacêutica[5].

Os devaneios podem ir mais longe. Um experimento recente[6]] permitindo que adultos pudessem atingir o ouvido absoluto[7], condição que normalmente somente se adquire na infância, levantou a hipótese de que é possível recuperar a neuroplasticidade neuronal da juventude. A partir desses dados alguns pesquisadores já cogitam uma intervenção muito mais ousada, se não seria possível apagar os traumas infantis e permitir ao sujeito um novo ponto zero em sua própria história[8]. Ignora-se completamente que nossos traumas, assim como os sintomas decorrentes, são constitutivos de nossa própria existência.

Uma bilionária foraclusão do sujeito

“Os avanços na genética humana estão remodelando a maneira como entendemos muitas doenças mentais, incluindo a esquizofrenia. Sabemos infinitamente mais sobre as mudanças de DNA… O próximo passo crítico é aprender como eles produzem a doença.”[9] Esse comentário da Dra Pamela Sklar compõe uma matéria com as expectativas de seis grandes pesquisadores no domínio das doenças psiquiátricas publicado recentemente na Revista Cell, uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo. Os comentadores estão todos muito otimistas e pedem ainda mais fundos para continuar a desenvolver suas pesquisas: “Precisamos declarar guerra à doença mental, que afeta a vida de uma em cada quatro pessoas, e priorizar o financiamento de pesquisas neurobiológicas inovadoras para uma melhor prevenção, diagnóstico, intervenção precoce e tratamento.”, alega no mesmo artigo Jeffrey Borenstein, daBrain & Behavior Research Foundation.[10]

Não é provável que o orçamento anual de 1,5 bilhões de dólares do NIMH tenha destino muito diferente nas mãos de seu novo diretor. Joshua Gordon assume o novo posto após uma larga experiência como professor no Columbia University Medical Center, onde é o responsável pelo currículo de neurociências[11]. Suas pesquisas, focadas na atividade neural de camundongos portadores de mutações com relevância em doenças psiquiátricas, deixam entrever que não é para breve uma reconciliação entre a Associação de Psiquiatria Americana e o Instituto Nacional de Saúde Mental. São dois gigantes de peso. Se o orçamento do NIMH é gigantesco, o aumento no consumo de medicamentos psiquiátricos no Estados Unidos tem as mesmas proporções. Enquanto em 1987, quando o Prozac foi lançado, os americanos consumiam 800 milhões de dólares em medicamentos psiquiátricos, em 2010 essa cifra subiu para 40 bilhões de dólares/ano. E assim a máquina anda muito bem. O NIMH, preocupado com suas pesquisas em neurociências, parece não ter nenhum papel regulador sobre o consumo em proporções abissais de medicamentos prescritos no cotidiano da clínica. Há cifras bilionárias para ambos na terra de Trump. Somente a clínica do sujeito continua proletária

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Em um ambiente tão inóspito, de que modo a psicanálise pode ser ouvida? Como mostrar uma face muito pouco conhecida da psicanálise em território americano, a psicanálise aplicada? Entre genes e ratos de laboratório por um lado, e uma venda crescente de medicamento por outro, poucas vozes se levantam contra essa bipolaridade obcecada em isolar o sofrimento psíquico no corpo cadaverizado da ciência ou rentabilizado pela indústria farmacêutica. Dentre as resistências mais ativas, podemos destacar o papel atual da organização não governamental MAD IN AMERICA[12]. Capitaneada pelo jornalista americano Robert Withaker, autor do best seller Anatomy of an Epidemic, a MAD se tornou uma das mais importantes associações contra os abusos e distorções da Saúde Mental americana. Sem dúvidas é necessário conhecer e interagir com essas resistências. Nas últimas décadas, a psicanálise acumulou uma enorme experiência em hospitais, serviços substitutivos e demais projetos sociais. Essa prática mostra que o mal-estar contemporâneo pode ter outro destino que não seja o entorpecimento. O sonho americano tem demonstrado seu amargo despertar, trata-se de um mal-estar que não será tratado por nenhuma droga, tampouco por promessas genéticas que podem beirar a eugenia. A psicanálise com certeza tem algo a dizer sobre os restos que nenhum muro consegue segregar.

[1] Laurent E., DSM 5, O fim de uma era, boletim Diretoria na Rede da Escola Brasileira de Psicanálise, link para acesso: http://www.ebp.org.br/dr/ebp_deb/ebP_deb001/laurent.html

[2] Markowitz J., There’s Such a Thing as Too Much Neuroscience, NYT de 14 outubro 2016 – http://www.nytimes.com/2016/10/15/opinion/theres-such-a-thing-as-too-much-neuroscience.html?emc=edit_tnt_20161014&nlid=67084594&tntemail0=y

[3] Sensitivity and Specificity of the Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders (SCARED): A Community-Based Study – Child Psychiatry & Human Development: June 2013, Volume 44, Issue 3, pp 391–399

[4] Wipond R., The Proactive Search for Mental Illnesses in Children, no site: https://www.madinamerica.com/2014/07/proactive-pursuit/

[5] Alison Bass, em seu livro Side Effects (Efeitos Colaterais), faz uma detalhada incursão no universo da indústria farmacêutica e suas tramas.

[6] Gervain J, Vines BW, Chen LM, Seo RJ, Hensch TK, Werker JF and Young AH (2013) Valproate reopens critical-period learning of absolute pitch. Front. Syst. Neurosci. 7:102. doi: 10.3389/fnsys.2013.00102

[7] Ouvido absoluto é capacidade que uma pessoa tem de formar uma imagem auditiva interna de qualquer tom musical marcado por um símbolo apropriado (nota, letra) de modo que se possa naturalmente identificar qualquer tom acusticamente apresentado

[8] Richard Friedman – Return to the Teenage Brain NYT de 8 outubro 2016 – http://www.nytimes.com/2016/10/09/opinion/return-to-the-teenage-brain.html

[9] “Developing Effective Treatments for Psychiatric Diseases” – Cell 165, June 2, 2016 1309

[10] idem

[11] NIH names Dr. Joshua Gordon director of the National Institute of Mental Health – www.nih.gov – new releases em 28 de julho 2016

[12] www.madinamerica.com

Fonte: Subversos
Por: Marcelo Veras, psicanalista
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