A Lei de Incentivo à Cultura e a obesidade infantil

“O Museu Mais Doce do Mundo” das marcas Nestlé, Bauducco, Docile e Itubaína distribuiam doces. E os promoviam: “Diga sim à felicidade”, “Fui atrás da felicidade e voltei com um brigadeiro”, “Fui para um planeta mais doce” e “A vida é como um sorvete aproveite antes que derreta”. Mas no final “acabou-se o que era doce”.

Exposição solicita recursos da Lei de Incentivo à Cultura para fazer publicidade de grandes marcas

Com ingressos salgados, O Museu Mais Doce do Mundo tentou arrecadar R$ 2,5 milhões dos cofres públicos, mas recebeu parecer contrário da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura

A exposição “O Museu Mais Doce do Mundo”, em cartaz desde 5 de abril em São Paulo, está chegando ao fim. Após 18 de agosto, a mostra será deslocada para o Rio de Janeiro, onde os cenários “instagramáveis” com referências a grandes marcas – como Nestlé, Bauducco, Docile, Itubaína e Nina Ricci – seriam recheados com o dinheiro público: os organizadores do evento foram autorizados a arrecadar até R$ 2.544.060,46 por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

A Lei Rouanet, como é popularmente conhecida, permite que empresas destinem a projetos culturais valores que seriam usados no pagamento de impostos.A prática de usar essa legislação para promover marcas não é rara.O Museu Mais Doce do Mundo havia atraído o interesse da Multiplan, grande administradora de shopping centers brasileiros, entre eles o Village Mall, na Barra da Tjiuca, onde a exposição deve entrar em cartaz em 9 de setembro; e da Puig Brasil, representante da marca de cosméticos Nica Ricci, que tem um espaço de publicidade na exposição de São Paulo. Segundo apágina de acompanhamento da lei na internet, R$ 360 mil foram captados.

A exposição também tem um contrato de patrocínio de R$ 500 mil firmado com a Bauducco, que, em troca, tem o direito de customizar e equipar uma das salas da mostra com suas cores, além de poder distribuir produtos no fim da visita.

A expressão “era doce e se acabou” parece encaixar com perfeição na história da exposição. Após semanas de sucesso, com ingressos a até R$ 60, O Museu Mais Doce do Mundo teve um revés. A Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) recomendou a suspensão do financiamento. Na visão do colegiado, o projeto não tem “valor artístico ou cultural” e, portanto, não se enquadra nos critérios estabelecidos pela Lei de Incentivo à Cultura. Segundo o parecerista, a exposição parece “um playground para brincadeiras” no qual o visitante pode fazer “selfies”.

Visitamos o “museu” em uma tarde de julho, quando as férias escolares aproximavam-se do fim. Assim como os membros da CNIC, ficamos com dúvidas sobre o valor cultural do espaço. A fila era composta em grande parte por mães e pais acompanhados de crianças pequenas, ansiosas para descobrir o que se escondia atrás do dizer“Diga sim à felicidade”estampado em uma porta colorida.

Na antessala da exposição, monitores educados explicavam aos pequenos que eles não poderiam pular na piscina de “marshmallow”. Uma mãe perguntou um pouco indignada: “Se é uma piscina, por que não pode pular?” A caixa preenchida com espumas em formatos cilíndricos é rasa, pensada para fotos “instagramáveis”. Ao pular, as crianças podem se machucar. Os pequenos, já um pouco decepcionados, são incentivados a gritar “marshmallow” antes que outra porta colorida se abra e dê acesso à exposição.

A piscina de mentira tem tempo contado. Mais monitores pedem educadamente, sempre de olho em um pequeno cronômetro à mão, que os pais tirem depressa as fotos que querem. Como recompensa pela eficiência, adultos e crianças recebem cones demarshmallows oferecidos pela Docile, que tem o logo estampado na altura dos olhos dos pequenos.

Após a primeira sala, a exposição se divide em dois andares, com salas e corredores preenchidos por doces de plástico e frases motivacionais estampadas nas paredes. No primeiro piso, visitantes podem tirar fotos com donuts,gummybears,cupcakes, quindins ou dentro de uma caixa com a palavra “sweet” (doce, em português) replicada diversas vezes.

Subindo as escadas, brigadeiros, biscoitos, gomas de mascar, garrafas de refrigerante, biscoitos e sorvetes compõem o cenário. As referências às marcas ficam por conta da identidade visual, da ambientação e das guloseimas ricas em açúcar distribuídas para os visitantes. Para ser justa, os doces, assim como o tempo da piscina, também são limitados: apenas um por pessoa.

Na justificativa do pedido de financiamento feito ao então Ministério da Cultura, rebaixado à categoria de secretaria pelo atual governo, o objetivo descrito pelo projeto é de“espalhar felicidade e cultura pop através de uma exposição interativa com temática do imaginário doce”.Não há nenhuma menção sobre as ativações de marcas que acontecem dentro da exposição.Em uma das salas, por exemplo, uma jovem vestida com os trajes estampados na lata de Leite Moça, da Nestlé, oferece um brigadeiro a cada pessoa que passa por ali. A Docile, além dos marshmallows, distribui balas de goma para os visitantes. 

No documento tampouco há uma descrição detalhada sobre o valor cultural da mostra, o que foi ressaltado no parecer do CNIC.Há apenas uma breve menção à intenção de apresentar aos visitantes “a fundo a história de alguns doces brasileiros, suas origens e como eles fazem parta [sic] da vida dos brasileiros”. Na exposição, é possível usar o aplicativo do museu para acessar vídeos explicativos sobre a origem dos doces: basta apontar o celular para pequenos desenhos nas paredes. Na visita que participamos, poucas pessoas fizeram isso. O mais importante era, sem dúvida, tirar fotos para as redes sociais.

Fica difícil entender o que há de “museu” naqueles cenários plásticos. Segundo oEstatuto dos Museus, sancionado em 2009, podem ser assim chamadas apenas “as instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento”. Nenhum dos itens da longa lista de exigências é preenchido pela mostra.

O que sobra para as crianças, que não têm ou não deveriam ter acesso às redes sociais, são os doces distribuídos na exposiçãoe pequenos momentos interativos, como a piscina e um jogo de quindins voadores acompanhado por meio de óculos de realidade virtual patrocinado pela Huawei.

A ambientação da exposição, permeada por frases motivacionais, induz os pequenos a relacionarem o consumo de açúcar à felicidade. “Fui atrás da felicidade e voltei com um brigadeiro”, “Fui para um planeta mais doce” e “A vida é como um sorvete, aproveite antes que derreta” são alguns exemplos.

Quem derreteu no meio disso tudo foram oslimites da publicidade infantil. A exposição não tem classificação indicativa e crianças de até quatro anos não pagam para entrar. Segundo o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica a crianças de até 12 anos é abusivo.

Em 2017, onze grandes empresas de alimentos firmaram um acordo para reduzir propagandas voltadas para crianças. O compromisso estabelece limites para publicidades de doces, refrigerantes e chocolates a públicos compostos em 35% ou mais de crianças menores de 12 anos. A Nestlé, uma das signatárias do acordo, parece não ter levado as indicações em conta na hora de patrocinar a “sala do brigadeiro” em um espaço povoado por crianças.

O compromisso foi feito como uma tentativa de combate ao consumo excessivo de açúcar na infância, relacionado a problemas de sobrepeso e obesidade. Estudos do Ministério da Saúde indicam que 12,9% das crianças brasileiras de 5 a 9 anos são obesas. Em um documento de 2015, a Organização Mundial da Saúde recomendou que a ingestão de açúcar, independentemente da faixa etária, deve ser de no máximo 10% das calorias diárias, o que no caso de adultos fica em torno de 50 gramas por dia. Quatro unidades de marshmallows daDocile, segundo informações do site da marca, contêm 15 gramas de açúcar. Uma garrafa com 350mL deItubaína, 20 gramas.

Todas as marcas mencionadas ao longo do texto também possuem espaços no caminho de saída do espaço que, segundo a assessoria de imprensa da exposição, não fazem parte da mostra.Mesmo assim, os visitantes não têm alternativa senão passar por uma lata de dois metros de altura de Leite Moça; outra piscina de mentira, agora patrocinada pela Nina Ricci; uma moldura de fotos de marshmallows da Docile e um cubo de espelhos com o logo da Huawei antes de deixar para trás “O Museu Mais Doce do Mundo”.

Procuramos a assessoria de imprensa do evento para entender o uso do termo “museu” no nome da exposição. Luzia Canepa, diretora da mostra, afirmou que O Museu Mais Doce do Mundo “preserva características culturais e sociais dos doces, que estão na cultura de todos os povos como elementos de celebração, brincadeiras e alegrias” e ressaltou que o local não é de “comilança”, pois são oferecidas apenas três degustações aos visitantes.

Apesar da constatação empírica feita pela reportagem da presença de logos dentro da exposição, Canepa afirmou que os nomes das marcas “não estão estampados em instalações dentro do Museu”. A diretora disse ainda que “a exposição do nome de um patrocinador não é proibida nem antiética”.

Por meio da assessoria, O Museu Mais Doce do Mundo confirmou ter recebido o parecer negativo e afirmou que “o logotipo do governo federal será retirado da exposição por indicação da Secretaria da Cultura do Ministério da Cidadania”.

Fonte:O joio e o trigo

As recomendações da indústria de alimentos não visam somente a saúde do paciente

Reações ao racismo do presidente de clube de futebol

É sintomático que figuras exponenciais da assim chamada elite política e econômica tenham vindo em socorro do dirigente. Para essa elite, se tratou apenas de um comentário infeliz que não deveria ser sobrevalorizado. Fica-se com a  impressão de que, para o andar de cima da sociedade, o discurso da dignidade da pessoa humana, da ética, dos valores da inclusão de todos é um discurso para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo e discriminação. 

Clemens Tönnies ficará três meses afastado da direção do Schalke 04

A fala racista do presidente do Schalke e o poder do vil metal

Após o bilionário Clemens Tönnies insultar africanos, fica-se com a impressão de que, para a elite, o discurso da dignidade humana é para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo.

Clemens Tönnies ficou bilionário com sua empresa de produtos alimentícios (Tönnies Holding, de carnes e salsichas) em Rheda-Wiedenbrück, pequena cidade de 48.500 habitantes a pouco mais de 100 quilômetros de Gelsenkirchen, casa do Schalke 04. O time sempre foi a grande paixão de Tönnies e, desde 2001, ele é o presidente do clube.

Na qualidade de empresário, e como um dos homens mais ricos da Alemanha e do mundo (atual nº 1.349 da lista da Forbes), ele foi convidado pelos organizadores do evento Dia do Ofício, em Paderborn, a falar perante 1.600 convidados no começo deste mês.

Um dos temas do seu discurso foi a possível instituição de um imposto para combater as mudanças climáticas, especialmente em países da África. Em vez de mais um imposto, Tönnies propôs o financiamento e construção de 20 usinas elétricas na África por ano.

Ele justificou sua proposta com o seguinte argumento: “Assim, os africanos parariam de derrubar árvores e de produzir crianças quando fica escuro.”

Além da estapafúrdia afirmação racista, talvez um dos aspectos mais assustadores tenha sido a não reação da plateia. Ninguém protestou. Ninguém vaiou. Ninguém se levantou e deixou o recinto como atitude simbólica de repulsa. Nem o arcebispo convidado de honra sentado na primeira fila foi capaz de um mínimo gesto de desaprovação. Pelo contrário, ao final, o discurso foi aplaudido pelos presentes.

Não bastasse isso, após a repercussão negativa de sua fala, o próprio Tönnies propôs ao Conselho de Ética do Schalke 04 o seu afastamento temporário da presidência do clube por três meses. Ditou a sua própria sentença, que foi aceita sem mais delongas pelo conselho, com a justificativa de que a acusação de racismo contra o presidente é “infundada”.

É o caso de se perguntar: o que mais precisa ser dito para considerar como racista uma afirmação que insulta toda população da África?

Houve, porém, algumas vozes que se levantaram contra o racismo explícito manifestado pelo dirigente.

Pablo Thiam, por exemplo, que nasceu na Guiné e cresceu em Bonn, onde seu pai trabalhava como diplomata. Durante anos, Thiam jogou na Bundesliga, em clubes como Colônia, Wolfsburg, Stuttgart e Bayern. Atualmente, dirige o departamento dos times de base do Wolfsburg, além de ser o responsável pelo setor de integração que luta contra discriminação e racismo.

“Estou estupefato. Simplesmente me faltam palavras. Nem sei o que dizer. Com seu discurso, o presidente do Schalke contraria frontalmente todo trabalho que estamos desenvolvendo pelo diálogo e pela integração de migrantes e refugiados”, disse.

Para Thiam desculpas não bastam: “São desculpas de meia-pataca. Por acaso ele se desculpou com a população africana que insultou? Não. O seu pedido de desculpas se dirigiu exclusivamente aos próprios alemães. Nenhuma palavra sobre os africanos alvos da sua manifestação.”

Hans Sarpei, de origem africana e ex-jogador do Schalke, foi no mesmo diapasão: “Do clube e do senhor Tönnies espero que as palavras sejam seguidas por ações. É preciso se distanciar claramente de toda e qualquer discriminação e xenofobia. O presidente deve pedir desculpas publicamente a todos os africanos.”

Peter Lohmeyer não é apenas um dos atores de cinema mais conhecidos da Alemanha, mas também um dos mais famosos fãs de carteirinha do Schalke 04. Só que depois da difamação dos africanos pelo presidente do clube e da generosa pena de três meses de suspensão do cargo, Lohmeyer decidiu devolver a carteira de sócio.

“Faço isso porque sou fanático pelo Schalke, clube que sempre esteve na vanguarda e na luta contra discriminação e racismo. Tenho muito orgulho disso. Agora vem um açougueiro rico e questiona essa postura. O clube sempre se orgulhou de mostrar o cartão vermelho para palavras e atos racistas. Quem contraria esse preceito não é Schalke de coração. Está lá por outros motivos; quiçá por interesses pessoais”,a firmou o ator.

Na TV alemã pipocaram depoimentos de torcedores, especialmente das torcidas organizadas, muito contrariados com as declarações do dirigente. Muitos pediram sua renúncia. Na partida do Schalke pela Copa da Alemanha sábado último, centenas de fãs levantaram cartões vermelhos exigindo a saída do presidente.

É interessante verificar que a maioria das críticas veio de pessoas da grande massa torcedora, dos assim chamados cidadãos comuns. Também era de se esperar que a classe dirigente deste meganegócio chamado futebol se posicionasse claramente sobre o assunto.

Cartolas influentes, como Watzke, do Dortmund, ou Rummenige e Hoeness, do Bayern, todos muito falantes quando do alto do pódio fazem discursos sobre responsabilidade social, mantiveram silêncio sepulcral e se fecharam em copas. Não reações, como se sabe, na verdade representam uma tomada de posição, porque quem cala, consente.

O próprio arcebispo de Paderborn, Hans-Josef Becker, presente no evento, só se manifestou discretamente alguns dias depois, através de comunicado oficial, ressaltando que o arcebispado é contra qualquer tipo de discriminação, seja por palavras ou atos. Aproveitou para dizer que Tönnies já havia pedido desculpas, dando assim o caso por encerrado.

Não resta dúvida de que Tönnies é muito importante para o Schalke. Basta lembrar que foi a figura-chave na obtenção do patrocínio milionário da empresa russa Gazprom e que pessoalmente injetou recursos financeiros consideráveis no clube quando necessário. Além do mais, como um dos homens mais ricos da Alemanha, é muito bem relacionado nas altas rodas políticas e empresariais, não só do país como também da Europa.

É sintomático que figuras exponenciais da assim chamada elite política e econômica tenham vindo em socorro do dirigente. Para essa elite, se tratou apenas de um comentário infeliz que não deveria ser sobrevalorizado. Fica-se com a  impressão de que, para o andar de cima da sociedade, o discurso da dignidade da pessoa humana, da ética, dos valores da inclusão de todos é um discurso para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo e discriminação. 

Tönnies ficará três meses afastado da direção do Schalke 04, pelo menos formalmente. Nem pensa em renunciar ao cargo. Em novembro estará de volta. É tempo suficiente para refletir e se lembrar de que o mínimo a fazer é pedir desculpas publicamente a todos os africanos que insultou com seu discurso.

Fonte:  Deutsche Welle

ONU: “Crimes de ódio são precedidos por discurso de ódio”

“Palavras matam assim como balas. O Holocausto não começou com as câmeras de gás mas muito antes com discurso de ódio. Com a subida de extremistas, em toda a parte, nota-se um número crescente de grupos neonazistas e neofascistas”.

 

“Temos de lembrar que crimes de ódio são precedidos por discurso de ódio”

O Conselheiro Especial para a Prevenção do Genocídio, Adama Dieng, disse que “todos temos de lembrar que crimes de ódio são precedidos por discurso de ódio.”

Adama Dieng foi o autor da Estratégia e Plano de Ação das Nações Unidas contra o Discurso de Ódio, lançada este mês em Nova Iorque.

História

Em entrevista à ONU News, o representante lembrou vários exemplos históricos de violações de direitos humanos que começaram com palavras contra grupos étnicos ou religiosos.

O representante disse que “todos têm de lembrar que o genocídio dos tutsis em Ruanda começou com discurso de ódio.” Ele acrescentou que “o Holocausto não começou com as câmeras de gás, mas muito antes, com discurso de ódio e que “o que é observado em Mianmar contra a população rohingya também começou com discurso de ódio.”

Atualidade

Na atualidade, Dieng vê um aumento do extremismo no mundo e defende que é necessário combater este tipo de incitação.

O enviado disse que “o que é visto pelo mundo, com a subida de extremistas, seja na Europa, na Ásia, em toda a parte, quando se nota um número crescente de grupos neonazistas, grupos neofascistas, e quando é observada a forma como os migrantes e refugiados estão sendo vilificados, é preciso fazer todos os esforços para abordar este discurso de ódio.”

Combate

Dieng diz que deve ser lembrado que palavras matam. Segundo ele, “palavras matam assim como balas.”

Por essa razão, o conselheiro defende que sejam feitos todos os esforços para investir em educação e na juventude “para que a próxima geração entenda a importância da vida em conjunto.

Para o alto funcionário da ONU, é necessário “fazer todos os esforços para que ataques, como aquele no Sri Lanka, quando igrejas foram atacadas, na Nova Zelândia, em Pittsburgh, tudo tenha de parar.”

Para isso, Adieng sugere “um investimento em mobilizar a juventude, usar o verbo para que se torne uma ferramenta para a paz, para o amor, para aumentar a coesão social e a harmonia no mundo, em vez de ser uma ferramenta para continuar a cometer genocídio e crimes contra a humanidade.”

Estratégia

A Estratégia e Plano de Ação das Nações Unidas contra o Discurso de Ódio foi lançada este mês pelo secretário-geral da organização, António Guterres.

No lançamento, o chefe da ONU considera que esse ato de comunicação “é um ataque direto” aos valores centrais de tolerância, da inclusão e do respeito pelos direitos humanos e pela dignidade humana.

O secretário-geral afirmou também que as Nações Unidas, os governos, o setor privado, a academia, a sociedade civil e a comunidade internacional precisam de intensificar esforços.

Fonte:  ONU
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Trump discriminador e seus estereótipos com judeus, negros e portorriquenhos

Em se tratando de discriminação, Trump brinca com fogo como nenhum presidente em um século. Mantém a estratégia política de nós contra eles que caracterizou sua presidência desde o início. No Twitter deixa seus assessores de mãos atadas – incapazes ou indispostos – para defendê-lo.

El presidente Trump niega ritualmente cualquier animadversión o motivación racial. “Soy la persona menos racista que hayas conocido”, ha dicho más de una vez. Erin Schaff/The New York Times

Trump aviva las llamas del fuego racial

WASHINGTON—El presidente estadounidense Donald Trump despertó la mañana del domingo, miró hacia la nación que lidera, vio las astillas secas de las relaciones raciales y decidió arrojar una cerilla encendida. No era la primera vez que lo hacía y no parece que vaya a ser la última. Tiene una caja bien grande de fósforos y un suministro disponible de querosene.

A muchos les sorprendió su arenga de Twitter que incitaba a las congresistas demócratas de color a “volver”al país del que habían venido, aunque la mayoría de ellas en realidad habían nacido en Estados Unidos. Pero debería haber sorprendido a pocos de los que han visto la forma en que ha gobernado un país multicultural y multirracial en los últimos dos años y medio.

Cuando se trata de la raza, Trump juega con fuego como no lo ha hecho ningún presidente en un siglo.Aunque otros de sus antecesores en la Casa Blanca en ocasiones se acercaron o incluso cruzaron la línea al encontrar modos de apelar a los resentimientos de los estadounidenses blancos de manera sutil y no tan sutil, ninguno en la época moderna ha atizado las llamas de manera tan abierta, implacable e incluso entusiasta como Donald Trump.

Su ataque a lascongresistas demócratassucedió el mismo día que su administración amenazaba con redadas masivas a los inmigrantes que viven en el país de manera ilegal. Y fue apenas días después de que convocara a la Casa Blanca aalgunas de las voces más incendiarias de la extrema derechaen Internet y de que juró que iba a encontrar otro modode contar a los ciudadanos del país de manera separada de los no-ciudadanos, a pesar de que una decisión de la Corte Suprema le impidió añadir una pregunta al censo que se realiza cada diez años.

Su suposición de que las demócratas de la cámara de representantes deben haber nacido en otro país —o de que no pertenecen a Estados Unidos—es coherente con la estrategia política de nosotros-contra-ellos que ha estado en el corazón de la presidencia de Trump desde el inicio.En el camino a la elección del próximo año, parece estar trazando una línea profunda entre el país blanco, nacido en los Estados Unidos de su memoria, y la nación étnicamente diversa y con una población crecientemente nacida en el exterior que preside, desafiando así a los votantes en 2020 a declarar en qué lado de la línea se encuentran.

“De muchas formas, esta es la clase más insidiosa de demagogia racial”, dijo Douglas A. Blackmon, autor deSlavery by Another Name, una historia ganadora del Pulitzer sobre la servidumbre racial en Estados Unidos entre la Guerra Civil y la Segunda Guerra Mundial.

“El presidente ha pasado de invocar las obvias calumnias raciales de hace 50 años, clichés como los de los barrios negros ‘en llamas’, y ahora invoca la mentalidad de supremacía blanca de principios de 1900, cuando cualquiera que no pareciera blanco podía ser calificado como indeseable en Estados Unidos”.

Trump formalmente niega cualquier motivación o animadversión racial. Su lucha contra la inmigración ilegal, dice, es para asegurar la frontera y proteger al país. A menudo se jacta de que el desempleo entre hispanos y afroamericanos ha alcanzado récords bajos. La semana pasada le agradeció aRobert L. Johnson, el fundador de Black Entertainment Television, por reconocer su administración de la economía.

“Soy lapersona menos racistaque han conocido”, ha dicho más de una vez. 

Pero no se esmera en evitar la apariencia de que sí lo es y su seguidilla de publicaciones en Twitter del domingo dejó a sus asesores atados de manos —incapaces o indispuestos— para defenderlo. Ninguno de los seis voceros de la Casa Blanca o de su campaña respondieron en un inicio a las solicitudes de declaraciones.

Solo uno de los funcionarios de su gobierno que ya tenía previsto aparecer en los programas de conversación del domingo, Mark Morgan, el comisionado en funciones de Aduanas y Protección Fronteriza, dejó en claro que no estaba dispuesto a formar parte del asunto.“Van a tener que preguntarle al presidente qué quiere decir con esos tuits en particular”, dijo enFace the Nationde CBS.

Los congresistas republicanos en general no acudieron a ponerse del lado del presidente el domingo ni tampoco se aprestaron a denunciarlo.Aunque muchos republicanos se sientan profundamente incómodos con lapolítica empapada de racismode Trump, les preocupa ofender a los votantes de base que vitorean al presidente como alguien que dice la verdad en la tiranía de la corrección política. 

Solo por la noche Trump respondió al furor, al decir que los demócratas estaban defendiendo a colegas que “hablan mal de nuestro país” y “cuando se les confronta” llaman a sus adversarios “RACISTAS”.

Entones, Tim Murtaugh, un vocero de campaña de Trump, respondió al pedido de declaraciones y dijo: “El presidente señaló que muchos demócratas dicen cosas terribles sobre este país, que en realidad es la nación más grandiosa de la Tierra”. Murtaugh no explicó por qué Trump le dijo a las congresistas nacidas en Estados Unidos que “volvieran” a países de los que no eran.

Otros presidentes han jugado a la política racial o se han regodeado en los estereotipos.Las grabaciones secretas de Lyndon B. Johnson y Richard M. Nixon muestran que a puerta cerrada ambos hacían comentarios virulentos y racistas.La estrategia de Nixon en el sur se dice que estaba dirigida a los blancos desencantados.

A Ronald Reagan se le acusó de hacer referencias racistas en código al referirse tanto a las “reinas del bienestar”. George Bush y sus seguidores insistieron en el caso de un asesino afroamericano que estaba de licencia de una prisión llamadoWillie Horton. A Bill Clinton se le acusó de hacer una jugada racial al criticar a una estrella negra del hip-hop.

Pero incluso hace una generación había límites y la mayoría de los presidentes predicaron la unión racial por encima de la división. Johnson, por supuesto, pasó la legislación de derechos civiles más radical de la historia de Estados Unidos. Bush firmó una ley de derechos civiles y denunció aDavid Duke, el líder del Ku Klux Klan, cuando postuló a la gobernación de Louisiana como republicano. Su hijo, George W. Bush, puso énfasis en visitar una mezquita días después de los ataques del 11 de septiembre de 2001 para mostrar que Estados Unidos no estaba en guerra con los musulmanes. Barack Obama invitó a una “cumbre de cerveza” a un profesor afroamericano de Harvard y al policía blanco que lo arrestó por error.

La historia de Trump en asuntos raciales ha quedado bien documentada desde sus días de desarrollador inmobiliario, cuando llegó a un acuerdo con el departamento de Justicia en torno a una demanda por discriminación al rentar departamentos, hasta la agitación pública que causó durante el caso de los Central Park Five en Nueva York. Jack O’Donnell, el expresidente del Casino y Hotel Plaza Trump en Atlantic City, después escribió que Trump abiertamente desprestigiaba a otros según su raza al quejarse, por ejemplo, de que no quería que hombres negros administraran su dinero.

“Trump no solo ha sido siempre un racista, y cualquiera a su alrededor que lo niegue está mintiendo”, dijo O’Donnell el domingo. “Donald Trump hace comentarios racistas todo el tiempo. Una vez que lo conoces, dice lo que piensa sobre la raza de manera muy abierta”.

Dijo que Trump traficaba regularmente con los estereotipos raciales: los judíos son buenos con el dinero, los negros son holgazanes, los puertorriqueños se visten mal. “La gente blanca son los estadounidenses para Trump, todos los demás son de otro lado”, dijo O’Donnell. “Simplemente niega la realidad de cómo inmigramos todos a Estados Unidos”.

Trump impulsó su camino a la Casa Blanca en parte al promover la falsa teoría de conspiración de que Obama había nacido en África, no en Hawaii. Abrió su postulación presidencial en 2015 con un ataque a los “violadores mexicanos” que cruzaban la frontera (aunque “algunos, asumo, son buenas personas”) y después llamó aprohibir a todos los musulmanesel ingreso a Estados Unidos. Dijo queun juez nacido en Estados Unidos de ascendencia mexicanano sería justo con él debido a su origen étnico.

Como presidente, se ha quejado en reuniones que ahora son públicas de que los inmigrantes haitianos “todos tienen SIDA” y de que los visitantes africanos nunca“volverían a sus chozas”. Ha desprecado a Haití y a algunos países africanos con una vulgaridad y dijo que en lugar de inmigrantes procedentes de allí, Estados Unidos debería aceptar más de Noruega. Dijo que había “muy buenas personas en ambos lados” refiriéndose a una manifestación para salvar un monumento confederado que se volvió mortal en Charlottesville, Virginia, aunque también condenó a los neonazis allí.

Insiste en que solo dice lo que otros creen pero tienen miedo de expresar. Y cada vez que las llamas rugen, Trump agrega un poquito más de combustible a la hoguera. Puede que el fuego esté caliente, pero así es como le gusta.

Por: Peter Baker
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Os Estados Unidos cheira a podre por ter um presidente racista

Trump é racista. É um problema de caráter a que se soma o sexismo e a xenofobia. “Resumindo, o racismo é malévolo porque sua lógica de fundo é o genocídio”. A boca que desdenha nem sempre está conectada com a mão que destrói, mas compartem o mesmo espírito e desejo de causar dano.

En Estados Unidos huele a podrido y es por un presidente racista

Es desesperante ser tan repetitivo y seguir señalando que Donald Trump es racista, pero alguien tiene que hacerlo. Es necesario porque se trata de un problema fundamental de carácter, que arruina y determina muchos otros rasgos, casi de la misma manera en que lo hacen su sexismo y su xenofobia.

El sábado, Trump tuiteó que el distrito del representante Elijah Cummings era “un caos terrible, infestado de ratas y roedores”, un “lugar muy peligroso y sucio”; además afirmó que “ningún ser humano querría vivir ahí”. Cummings es de raza negra, como la mayoría de las personas que viven en su distrito.

El hecho de que utilice el verbo “infestar” revela en gran medida sus percepciones, pues al parecer solo lo aplica a problemas que involucran a personas negras y de tez morena. Criticó las “áreas infestadas de ébola en África”. Dijo que el distrito de Atlanta del congresista John Lewis está “infestado de delincuentes” y le recomendó concentrarse en “los barrios pobres de Estados Unidos infestados de criminalidad, un tema imperioso”. Comentó que las ciudades santuario son un “concepto infestado de criminalidad y semillero de la delincuencia”. Advirtió que los “inmigrantes no autorizados” vendrán “en bandadas e infestarán nuestro país”. También describió la presencia de miembros de la pandilla MS-13 “en ciertas partes del país” como una “infestación”.

En ninguno de esos casos se refiere a la delincuencia como un fenómeno discreto, sino quevincula inextricablemente la criminalidad con las personas de tez oscura. Los partidarios de la supremacía blanca no siempre consideran a las personas de raza blanca como superhombres; en muchos casos, más bien clasifican a laspersonas que no son de raza blanca como subhumanos.De cualquier manera, el punto es establecer una jerarquía en la que la raza blanca ocupa la posición superior.

Un estudio de los tuits de Trump revela que cuando asocia la criminalidad con grupos de la población, casi siempre se refiere a personas de raza negra o tez morena y a “barrios pobres”, un eufemismo urbano para referirse a vecindarios de gente negra y morena.

Trump no ha perdido ninguna oportunidad para mostrar su postura, desde el caso de los Cinco de Central Park hasta una serie de tuits que publicó en 2013, cuando escribió: “Por desgracia, la impresionante cantidad de delitos violentos que ocurren en nuestras principales ciudades son cometidos por personas negras y morenas —un tema difícil— y debemos hablar de eso”.

Hay que dejar claro que las personas de raza negra no son más propensas a abusar de otros, como tampoco alguien es más propenso a abusar de los opioides solo por ser blanco. Los seres humanos respondemos a nuestro entorno, a nuestras necesidades y deseos, así como a nuestra desesperanza.

Por ejemplo, en Nueva York aumentó mucho la delincuencia en el siglo XIX, cuando casi no había personas de raza negra en la ciudad.De hecho, en 1985, un escritor y cronista prodigioso de la ciudad de Nueva York, Edward Robb Ellis, escribió en The New York Times sobre un ciudadano que se quejaba en 1852 porque “el incremento de la tasa de delincuencia, la violencia y frecuencia de los ataques a ciudadanos comunes y corrientes por la noche en la ciudad, y la… estupidez e ineficacia de la policía son motivo de gran alarma entre el segmento de la ciudadanía que actúa con decencia y respeta la ley”.

Según Ross, el propio Walt Whitman afirmó: “Nueva York es una de las ciudades más plagadas de delitos y más peligrosas de la cristiandad”.

¿Los blancos que vivían en Nueva York en esa época estaban predispuestos racial y patológicamente a la criminalidad? Por supuesto que no. Tampoco lo están las personas de tez negra y morena en la actualidad. Los racistas no consideran en absoluto ese contexto histórico y sociológico.

Lo peor es que no hay nada positivo en el lenguaje que usa Trump. Cuando hay infestaciones, existe justificación para exterminar la plaga.Por algo Martin Luther King Jr. dijo: “En resumidas cuentas, el racismo es malévolo porque su lógica de fondo es el genocidio”. Quizá la boca que desdeña no siempre esté conectada a la mano que destruye, pero sin duda comparten el mismo espíritu y el deseo de causar daño.

Sería fácil exponer fundamentos para un juicio en contra de Trump por motivos de política pública, pero las políticas no están en la naturaleza de la criatura. Más bien, en su naturaleza están la supremacía blanca, el nacionalismo blanco y el patriarcado blanco.

Este hombre es, en esencia, racista, y esa perspectiva está tan fundida con su sentido del mundo que no es capaz de reconocer que es racista. Su instinto es atacar a las personas negras.Para él resulta natural denigrar los lugares en los que viven y los países de sus ancestros.

Está tan convencido de las ideas que defiende la supremacía blanca, que su ideología ya no necesita ninguna etiqueta, según cree. Para él, esta mentira es precisamente la verdad y, si algo está “bien”, no puede ser racista.

Los racistas han operado de esta manera a lo largo de la historia para evitar que los asocien con aquellos que azotaron la piel de los esclavos, con quienes violaron a las mujeres y vendieron a los niños, con quienes soltaron los perros y apuntaron los cañones de agua, o con quienes pusieron las sogas al cuello y les prendieron fuego a las cruces.

Esos que se expresaron, consumidos por el odio y el sadismo, eran los racistas. No los grupos cada vez más grandes que se han tragado y han regurgitado una visión deformada del mundo, una visión adulterada de la historia y que presentan “hechos” supuestamente irrecusables sin contextualización.

Trump es racista. Gritémoslo a voces. Gritémoslo con la profundidad que se merece. Para mí, es el principio y el fin de la lógica que necesito para mantenerme firme en la resistencia.

Por: Charles M. Blow
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Novidade na educação de crianças e pré-adolescentes

Na Holanda esta prática, na maioria das vezes com pré-adolescentes, é conhecida como “dropping” e é inspirada nos exercícios militares. A infância dos holandeses é diferente. Às crianças é ensinado a não depender, em demasia, dos adultos. Aos adultos é ensinado a permitir que as crianças resolvam seus próprios problemas.

Muchos adultos recuerdan con cariño sus experiencias cuando fueron parte de un ‘dropping’. Dmitry Kostyukov para The New York Times

Un rito de verano neerlandés: abandonar a los niños en el bosque durante la noche

AUSTERLITZ, Países Bajos — Una noche reciente, poco después de las 22:00, un auto se detuvo en el área donde comienza un bosque. La puerta se abrió y salieron tres chicos: dos niños rubios de 12 y 15 años, así como una niña de 12 años con coletas oscuras y una mochila llena de emojis. Luego el conductor puso el auto en marcha y se alejó velozmente, haciendo crujir la grava bajo sus llantas.

Eran figuras diminutas a la entrada del bosque, a kilómetros de distancia del campamento de verano al que asistían, y solo llevaban un rudimentario GPS para mostrarles la dirección correcta. La noche caía y estaban solos.

Observaron en la oscuridad: ¿era este el camino?

“Podría ser”, dijo Thomas, el líder del equipo, de 12 años.

Y luego, puesto que no había nada más que hacer, se internaron en el bosque.

Se trata de una tradición neerlandesa de exploración conocida comodropping, en la cual literalmente se deja en un bosque a grupos de niños, por lo general preadolescentes, con la expectativa de que encuentren el camino de regreso a su base. La idea es que sea una actividad desafiante, y a menudo logran dar con su base a las 2:00 o 3:00.

En algunas variaciones de este reto, inspirado, pero sin demasiado rigor, en ejercicios militares, los adultos siguen a los equipos de los niños, pero se rehúsan a orientarlos, aunque tal vez dejen notas enigmáticas como pistas. Con el fin de hacerlo más difícil, los organizadores a veces incluso les tapan los ojos a los niños de camino al lugar donde los dejarán, o conducen varias veces en círculos para confundir su sentido de orientación.

En ocasiones, se ocultan en la maleza y hacen ruidos como los de un jabalí.

Si esto te parece disparatado, se debe a que no eres neerlandés.

Es justo decir que la infancia de los neerlandeses es diferente. A los niños se les enseña a no depender demasiado de los adultos; a los adultos se les enseña a permitir que los niños resuelvan sus propios problemas. Dejarlos en el bosque sintetiza estos principios de una manera extrema, confiando en la idea de que incluso para los niños cansados, hambrientos y desorientados, hacerse cargo de la situación genera una emoción que compensa.

Desde luego, muchos adultos de los Países Bajos recuerdan con cariño esa experiencia. Rik Oudega, un líder de exploradores que tiene 22 años, recordó haber sido detenido por la policía mientras conducía en la dirección contraria en una carretera de un solo sentido cuando iba a dejar a unos niños. Sudó frío, comentó, “porque lo que había hecho era ilegal”.

Los oficiales se detuvieron junto a él y le pidieron que bajara la ventanilla. Miraron el asiento posterior del auto, donde había cuatro niños con los ojos vendados, lo cual “en realidad tampoco está permitido”, según dijo Oudega.

Oudega intentó ser honesto: “Voy a dejar a estos niños en el bosque”, les dijo haciendo referencia aldropping, con la esperanza de que sirviera.

“Se miraron entre sí, luego me sonrieron y dijeron: ‘Que pase buena noche, y trate de respetar las reglas’”.

Los niños que abandonados en Austerlitz, cerca de Ultrecht, se adentraron caminando en el bosque, cuyo suelo arenoso despedía un olor a agujas de pino y estaba cubierto de musgo negro. En el cielo había aparecido una media luna.

Durante unos cuantos minutos, se escuchó el sonido de los automóviles de la carretera, pero luego, eso también desapareció. El bosque los había rodeado por completo y se hacía más denso.

Esa noche fue la primera vez que dejaban en el bosque a Stijn Jongewaard, un chico de 11 años y orejas sobresalientes, quien afirma haber aprendido inglés gracias a los videojuegos deMinecrafty a la serieHawái 5.0. Pasa gran parte de su tiempo libre en casa frente a su PlayStation. Esa es una de las razones por las que sus padres lo enviaron al campamento. Nunca antes se había internado en el bosque.

Su madre, Tamara, mencionó que había llegado el momento de que se hiciera más responsable, y el ritual de abandonarlo en el bosque era un paso en esa dirección.

“Stijn tiene 11 años”, comentó. “Se está terminando el tiempo en el que podemos enseñarle. Va a entrar a la adolescencia y entonces tomará sus propias decisiones”.

Después de haber estado caminando durante media hora, el grupo se desvió del camino y entró al bosque; luego se detuvieron, hablaron entre ellos durante unos minutos y dieron marcha atrás. A unos 9 metros del camino, un gran animal saltó impulsándose desde detrás de las hojas y los niños se sobresaltaron. Era un venado.

Si leemos con detenimiento los diarios neerlandeses, encontraremos pruebas de que a veces las cosas no salen bien cuando dejan a los niños en el bosque. En 2012, medios alemanes informaron que cinco niños neerlandeses que participaban de un droppingen un bosque alemán llamaron a la policía local para que los sacara del estrecho espacio donde se habían atorado, entre una pared rocosa y un ducto de ventilación.

Una “aventura peligrosa”, informaron los medios alemanes.

No obstante, a los periodistas neerlandeses no les impactó todo ese alboroto y se burlaron de él describiéndolo como el “drama por losdroppings” y como algo “un poco adornado”. “Con frecuencia, esta actividad es la parte más emocionante de un campamento”, explicó un artículo que le dio seguimiento a la noticia.

Esta práctica es una parte tan normal de la infancia de los neerlandeses que muchos se sorprenden cuando les preguntan al respecto, porque suponen que es común en todos los países. Sin embargo, Pia de Jong, una novelista que ha criado a sus hijos en Nueva Jersey, comentó que esto reflejaba algo especial acerca de la filosofía neerlandesa sobre la crianza.

“Nada más dejas a tus hijos en el mundo”, señaló. “Desde luego, te aseguras de que no se mueran, pero aparte de eso, ellos tienen que encontrar su propio camino”.

No obstante, de Jong, de 58 años, ha comenzado a preguntarse si esta práctica es en realidad tan divertida. “Imagínate que te pierdes y no tienes idea de a dónde ir”, comentó. “Pueden pasar diez horas, puede pasar toda la noche, y no tienes ni idea. Es tarde, el camino es largo y la gente se asusta un poco”.

Hizo una pausa para reflexionar. “De hecho, no creo que sea bueno hacerles eso a los niños”, afirmó.

En 2011 y 2014, algunos niños que habían sido abandonados en el bosque como parte de esta tradición fueron atropellados fatalmente mientras caminaban por la carretera. Desde entonces, esta práctica está mucho más reglamentada.

El equipo que se deja en el bosque sí lleva un celular para usar en caso de alguna emergencia, y la asociación de exploradores exige que los participantes lleven chalecos que sean muy visibles y distribuye una larga lista de lineamientos, principalmente orientados hacia la seguridad vial. “Es divertido traspasar los límites”, dice una recomendación, “pero eso también tiene sus límites”.

Eran casi las 2:00 cuando Stijn y su equipo de campistas llegaron arrastrando los pies al campamento. Había una fogata que chisporroteaba, y salchichas cocidas en panecillos esponjosos. Los búhos estaban cazando y sus chillidos se escuchaban en la parte alta del follaje de los árboles.

Los campistas devoraron la comida, se quedaron mirando a la fogata durante unos minutos y luego se fueron dando traspiés a sus tiendas de campaña. Cuando Stijn salió de su tienda soñoliento a las 11:00 la mañana siguiente, se creía todo un experto.

Dejó de echar de menos su PlayStation. Y dijo que, cuando tuviera hijos, quería que vivieran esa experiencia algún día.

“Te enseña, incluso en momentos muy difíciles, a seguir caminando, a seguir adelante”, señaló. “Nunca antes había tenido que hacer eso”.

Como identificar os sabotadores da sua vida (Pessoas tóxicas*)

Estas pessoas podem impedir o seu crescimento. Ter a capacidade de identificar e administrar os sabotadores que nos cercam é uma das chaves mais importantes para nos sentirmos melhor conosco mesmos.

Rubén Montenegro

 

Como identificar os sabotadores da sua vida (mesmo se estiverem camuflados)

Estas pessoas podem impedir o seu crescimento

Crescer depende da nossa capacidade de nos afastar de quem nos boicota e da nossa habilidade de alimentar as relações com que nos incentiva.

Ter a capacidade de identificar e administrar os sabotadores que nos cercam é uma das chaves mais importantes para nos sentirmos melhor conosco mesmos.O neurologista Juan Fueyo sugere em seu livro Te Dirán Que Es Imposible(Planeta, 2019, em espanhol, algo como “te dirão que é impossível”) as chaves para ter sucesso no que fazemos. Entre outras coisas, ele fala da importância de sabermos nos cercar de ambientes onde possamos crescer. Baseia-se nas biografias de pessoas bem-sucedidas como cientistas, escritores e empresários, e também em sua própria vida. Não é para menos: Fueyo é uma eminência mundial no campo da medicina. Esse asturiano e sua esposa, Candelaria Gómez Manzano, trabalham no Centro Oncológico M. D. Anderson da Universidade do Texas. Em 2003, desenvolveram um vírus modificado, ainda um ensaio clínico, para combater um dos cânceres cerebrais mais agressivos. Fueyo reconhece que ao longo de sua vida teve que ignorar muitas vezes quem lhe dizia que era impossível fazer o que ele imaginava.

“Sabotador é uma palavra drástica”, observa Fueyo. Às vezes é difícil imaginar que um amigo ou um familiar possa ser um sabotador, mas acontece. Os sabotadores podem ser pessoas que desejam o melhor para nós, mas seus medos são maiores que a confiança. O sabotador expressa sentimentos negativos de maneira constante, às vezes de forma inconsciente: “Não dá”; “é impossível”. São pessoas que incentivam você a permanecer em sua zona de conforto e, claro, não expressam confiança nas possibilidades que alguém tem. Um sabotador, no fundo, fala de si mesmo e de suas inseguranças. Em algumas ocasiões, sobretudo se forem familiares, é sua forma de expressar carinho, embora não estejam conscientes do preço que estão pagando.

Devemos diferenciar um sabotador de alguém que nos diz coisas que não queremos escutar. No fundo, quem nos dá um feedbacknegativo nos oferece um presente. Temos que discernir o que há por trás de suas dúvidas ou de seus comentários: se é medo ou se é algo que não estamos vendo e que pode nos ser útil para aprender. Existem várias estratégias para reduzir o impacto dos sabotadores. Uma delas é afastar-se deles ou pôr seus comentários de quarentena.Fueyo explica isso com uma experiência pessoal de quando era adolescente. Gostava de escrever poesia, e um dia fez um experimento com alguns de seus críticos. Passou-lhes uns versos pouco conhecidos do consagrado poeta espanhol Miguel Hernández, dizendo que eram obra dele próprio, e que queria saber a opinião dos conhecidos a respeito. Como imaginava, os comentários foram desoladores. Aquilo lhe permitiu perceber que muitas vezes os sabotadores não criticam uma obra, eles expressam seu medo, seu mal-estar ou seu preconceito, independentemente do que seja.

Se tivermos sabotadores em nossa vida, talvez um colega de trabalho, nosso chefe ou algum amigo, é melhor se afastar dele. Se forem familiares ou pessoas que não podemos evitar, então é preciso deixar seus comentários em quarentena ou olhá-los com compaixão: falam do seu próprio medo.Outra estratégia consiste em compensar o impacto dos sabotadores com incentivadores, pessoas que lhe ajudarão a chegar mais longe graças ao seu otimismo, aos seus conselhos e, inclusive, aos seus feedbacksnegativos, que lhe farão crescer mesmo que você não goste de ouvi-los. Estas pessoas enxergam a campeã ou campeão que temos dentro de nós, ressalta Fueyo. Por isso vale a pena cuidar e cultivar o relacionamento, dedicar tempo a essas pessoas e na medida do possível agir de maneira recíproca.

Como revela Fueyo, “o coletivo é mais inteligente que o indivíduo, e a osmose social define o que você tem e quem você é como indivíduo”. Crescer como pessoas, mas também como profissionais, depende de nossa capacidade de nos afastarmos dos boicotadores (ou olhá-los com compaixão se forem familiares) e de nossa habilidade para alimentar as relações com nossos incentivadores.

*Pessoas tóxicas

Fonte: EL PAÍS
Por: Pilar Jericó
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“Um Estado que não é regido pela justiça e a ética se reduz a um bando de ladrões”

Um Estado sem justiça, sem ética em suas autoridades não tem mais uma forma de governo do que a lei do mais forte, a lei da selva.

Las matemáticas, la ética y los valores

Le preguntaron al gran matemático árabe Al-Khawarizmi, uno de los padres del álgebra, que vivió entre el año 780 y el 850, sobre el valor del ser humano, y este respondió con la siguiente fórmula:

“Si tiene ética, entonces su valor es = 1. Si además es inteligente, agréguele un cero y su valor será = 10. Si también es rico, súmele otro 0 y será = 100. Si por sobre todo eso es, además, una bella persona, agréguele otro 0 y su valor será = 1000. Pero, si pierde el 1, que corresponde a la ética, perderá todo su valor pues, solamente le quedarán los ceros”.

Gran verdad esta simple y sencilla fórmula del matemático Al-Khawarizmi. Todo el edificio, tanto el social como el individual, se sustenta en la ética. Si la ética falla, todo se viene abajo, y más pronto que tarde: la política, la economía, el arte, la cultura, el estado de derecho, la vida en sociedad. Ya lo dijo el gran Agustín de Hipona:“Un Estado que no se rigiera según la justicia se reduciría a una gran banda de ladrones”. Y aquí podemos usar como sinónimos “ética” y “justicia”. Un estado sin justicia, sin ética en sus autoridades no tiene más forma de gobierno que la ley del más fuerte, la ley de la selva, en definitiva.

Estas definiciones del matemático árabe Al-Khawarizmi y de San Agustín, por lejanas que nos parezcan, nos ayudan a comprender mejor la afirmación del empresario chino Jack Ma sobre la necesidad de un cambio radical en la forma de educar. Una educación no basada en conocimientos, que se pueden repetir mediante inteligencia artificial que un algoritmo o un robot pueda suplantar trabajo humano.Lo que según Ma no se podrá suplantar nunca por una máquina, es una educación que se dirija a inculcar las habilidades necesarias que incluyen edificar valores, fomentar el pensamiento independiente, cuidado de los otros, trabajo en equipo.

Y la ética es una parte de esos valores que no pueden reproducir las máquinas por más avanzadas que sean. Dentro de estos valores se encuentra también la ética de la responsabilidad frente a las decisiones que uno toma, la ética de la cultura del trabajo que se viene resquebrajando a pasos agigantados en muchas partes del mundo, la ética de la ayuda a los demás colegas cuando están sobrepasados o cuando no ven la solución o cuando el peso de trabajo los agobia o cuando el trabajo en equipo potencia capacidades.

De hablar y de enseñar valores se debería tratar, por encima de todo, la reforma educativa que debemos emprender sin más demora. Una reforma que no rebaje los estándares de exigencia curricular para que todos pasen de grado y se reduzca la tasa de repetición o de reprobación, algo que se propone desde muchas autoridades de la enseñanza uruguaya que no quieren ser mal evaluadas internacionalmente o por la comparación con sus propios resultados en años anteriores.

No se trata solamente de mejorar el nivel de conocimientos para que los jóvenes puedan aprobar Primaria o Secundaria. Ello es obviamente necesario, pero si no educamos en valores, (y hay que reconocer que las autoridades educativas de los últimos lustros se han esforzado en eyectar los valores de las aulas so pretexto de una mal entendida laicidad y so pretexto de no exigir esfuerzo en momentos de la vida donde se forma el carácter) todo lo que pueda enseñarse tendrá un valor relativo y además efímero a medida que la automatización avance.

Pero esto no es solo un problema uruguayo sino mundial. Por ejemplo, las grandes escuelas de negocios, donde se forman muchos de los principales dirigentes empresariales, se han visto obligadas a repensar sus currículos y sus métodos de enseñanza al darse cuenta de que la ética quedaba por fuera de ellos. Y como consecuencia, esa ausencia se manifestaba luego en comportamientos empresariales tendientes a su maximización del beneficio a toda costa pasando por encima de personas, de reglas y de normas: volvíamos a la ley de la selva, a la ley del más fuerte, a la ley de que los fines justifican los medios.

Es importante, por tanto, que ante la contienda electoral que se avecina, los candidatos no se concentren únicamente en propuestas y programas de mejora material de la sociedad. Esas propuestas son necesarias, pero si no van acompañadas de propuestas en valores, del fomento del pensamiento independiente y del respeto a quien piensa distinto, de poco o nada servirán. Quizá se arregle el déficit fiscal o la tasa de inflación o se mejore el desempeño económico. Pero no habrá una base sólida para que la democracia y la libertad prosperen y estaremos a los vientos de los populistas y embaucadores de todos los pelos. Si ello ocurre, las personas perderán todo el valor y estaremos gobernados sin justicia. Será el sálvese quien pueda. Podremos tener prosperidad por un rato, pero las bases de la misma serán frágiles como la arcilla.

Por: Ricardo Peirano
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Ensinando, na escola, bondade e empatia, reduziríamos conflitos interpessoais?

O jornalismo supérfluo, a ciência e a homeopatia

O jornalismo brasileiro vive um bizarro caso de amor com a homeopatia. Um caso em que o leitor desempenha o papel de cônjuge traído. Há cerca de quinze anos que a credibilidade clínica, a respeitabilidade científica e o papel da prática em políticas públicas de saúde, no mundo civilizado, só faz encolher – e o brasileiro que confia nos jornais, nas revistas e na televisão não fica sabendo.

Jornalismo brasileiro falha quando o assunto é homeopatia

O Titanic homeopático foi a pique anos atrás, abalroado por uma verdadeira frota de icebergs de evidência científica, mas para a mídia nacional é como se isso não tivesse nenhuma relação com oBrasil, um país onde a prática é absurdamente reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, promovida pelo Ministério da Saúde e subsidiada pelo SUS.

Por exemplo, a notícia recente de que o governo francês decidiu encerrar sua política de subsídioa medicamentos homeopáticos, atendendo a (mais um) parecer científico que constata a ineficácia da prática, chegou ao Brasil via internet – depois de ser antecipada aqui, em Questão de Ciência mas mal foi citada nos meios tradicionais. E, quando a citação ocorre, é no sentido de curiosidade inócua de uma terra estrangeira (o texto do G1, no link inicial deste parágrafo, é uma tradução do serviço de imprensa alemão Deutsche Welle). 

O contexto nacional chama atenção pela ausência: é como se os fatos científicos relevantes para a fisiologia e a saúde dos franceses não significassem nada aqui.O que se encaixa bem na cegueira histórica da imprensa brasileira para com a crítica científica à homeopatia.

O primeiro iceberg a pegar o transatlântico homeopático pela proa foi a publicação, pela revista médica The Lancet, em 2005, do estudo de Aijing Shang e colegas, demonstrando que os supostos efeitos benéficos da prática se reduzem aos de um placebo. Um editorial intitulado “O Fim da Homeopatia”– o que poderia ser mais claro? – acompanhava o trabalho.

Por aqui, na época, a Folha de S. Paulo dedicou ao assunto uma nota de rodapé na página de Ciência: nota traduzida do jornal inglês The Independent, sem nenhum esforço de relacionar o estudo (ou o editorial) à realidade brasileira. Sendo que, no tempo em que a grande imprensa ainda contava com espaço e equipe consideráveis para tratar de assuntos de saúde e ciência,qualquer coisa que saísse na Lancet sobre tratamento de unha encravada em camundongo virava abre de página, com ampla repercussão entre especialistas nacionais.

Um segundo golpe veio em 2010, quando uma investigação do Parlamento Britânico concluiu que o uso de verba pública para subsidiar a prática configurava desperdício do suado dinheirodos contribuintes.O jornal The Guardian definiu a defesa da prática, apresentada pela “elite da homeopatia” britânica, como “farsesca”, dada a incongruência dos argumentos e a falta de evidências. 

No Brasil, onde o SUS gasta dinheiro com homeopatia, silêncio sepulcral (para ser mais preciso, outra nota de rodapé na Folha, tratando o assunto como coisa de planeta alienígena). Quando, anos mais tarde, o relatório parlamentar permitiu que a ONG Good Thinking Societyforçasse a exclusão da homeopatia do sistema público inglês, o assunto foi largamente ignorado por aqui. Mal comparando, se uma CPI britânica concluísse que aspirina é inútil, e por causa disso o remédio acabasse banido da rede pública inglesa, isso seria, no mínimo, capa de Veja.

Um terceiro petardo veio da Oceania: em 2014, o Conselho Nacional de Pesquisa Médica da Austrália divulgou o resultado de uma ampla revisão de estudos sobre a eficácia da homeopatia como forma de tratamento médico.

Assim como os autores do artigo de 2005 naLancete o comitê do Parlamento Britânico em 2010, os australianos chegaram à conclusão de que não existe prova nenhuma de eficácia. O trabalho repercutiu internacionalmente– mas não no Brasil.

Aliás, a recente decisão francesa de encerrar o subsídio público a remédios homeopáticos se segue a mais uma revisão da literatura científicasobre o assunto, que produziu resultados idênticos aos (desculpe o tamanho da lista) publicados na Lancet, pelo Parlamento Britânico, pelo Conselho australiano, no British Journal of Clinical Pharmacologye por diversos outros cientistas:não há evidência positiva crível de que a homeopatia funcione melhor do que um placebo.

Existem revisões de literatura com resultado favorável à homeopatia? Sim. Mas só as que são feitas por homeopatas (e que costumam ter qualidade lastimável). O que remete à anedota do cara que acredita que é invisível, mas só quando nenhum cético está olhando.

Para ser justo, não é que a mídia brasileira ignore por completo a evidência de que a homeopatia é inútil. Mas insiste em tratá-la, editorialmente, não como evidência, questão de fato, mas como argumento, isto é, questão de opinião. Ainda em 2018, nosso “modelo”, a Folha, publicava artigos pró e contra homeopatia em sua página de material opinativo, Tendências/Debates. O jornal provavelmente teria pruridos em tratar o criacionismo ou o terraplanismo da mesma forma.

Para ser claro: não existe “controvérsia científica” em torno da homeopatia. A prática é rotineiramente citada como exemplo inequívoco de pseudociência ou ciência patológica em manuais acadêmicos de filosofia da ciência, muitas vezes no mesmo parágrafo que o design inteligente ou a astrologia. 

Pode-se argumentar que existe uma percepção pública de controvérsia. Isso é algo, infelizmente, comum em ciência: a questão já se tornou pacífica entre os especialistas e estudiosos, mas o público ainda tem a falsa impressão – quase sempre, insuflada por interesses comerciais ou ideológicos – de que o debate segue indefinido.

Da relação entre tabaco e câncer ao aquecimento global, passando pela evolução das espécies, a lista de proposições que já enfrentaram, ou ainda enfrentam, esse descompasso entre realidade e senso-comum é enorme. Mas o papel da imprensa deveria ser o de esclarecer e informar, não o de se curvar bovinamente ao senso-comum.

O problema ganha uma camada extra de complexidade, no entanto, quando descemos da esfera das abstrações e levamos em conta que o jornalista é um ser humano como outro qualquer, inserido na cultura dominante e também imerso no senso-comum. Se uma parcela significativa da sociedade é simpática à homeopatia e desconfia dos resultados que apontam contra ela, é provável que uma parcela significativa dos jornalistas também seja – e desconfie. E essa parcela acaba influenciando a seleção e o direcionamento das pautas.

De qualquer modo, a história do jornalismo está repleta de casos em que o ideal da objetividade e o peso bruto dos fatos derrotaram o senso-comum dessa ou daquela redação – a profissão seria bem supérflua, aliás, se isso não acontecesse com certa frequência. 

Então, recapitulo aqui os fatos brutos, e acrescento mais alguns: Inglaterra e França concluíram que subsidiar homeopatia é má política pública. Austrália concluiu que a prática é inútil.

Essas conclusões foram atingidas de modo independente, a partir da análise de milhares de estudos científicos, uma base de evidências que se acumula há décadas. A mesma base de evidências, aliás, levou o serviço de proteção ao consumidor dos Estados Unidos a exigir uma rotulagem especialpara medicamentos homeopáticos, advertindo o comprador de que eles não têm base científica.

Esses desdobramentos internacionais têm óbvia relevância para o cenário brasileiro. A grande mídia estaria cumprindo melhor seu papel se parasse de fingir o contrário.

Por: Carlos Orsi

Terapias “energéticas” são contos de fadas

Incluindo terapia quântica, toque terapêutico (TT), energia vital, reiki, “Ciência da Fada dos Dentes”, “campo energético humano”, Qigong…

Imagem IQC

Emily Rosa tinha onze anos de idade quando conseguiu algo com que muitos cientistas com décadas de carreira apenas sonham: assinar um artigo publicado num periódico científico de primeira linha. Há pouco mais de vinte e um anos, em abril de 1998, o Journal of the American Medical Association (JAMA) trazia a público o trabalho A Close Look at Therapeutic Touch, em que um experimento, desenhado por Emily dois anos antes para a feira de ciências da escola, demonstrava que praticantes de “toque terapêutico”, ou “TT” – uma forma de terapia por imposição das mãos – eram incapazes de detectar o tal “campo energético humano” de que suas supostas “curas” dependiam.
A metodologia adotada era de uma clareza solar: profissionais de TT tinham de introduzir suas mãos por um anteparo e determinar se, do outro lado, havia ou não a mão de outro ser humano. As chances de acerto, por pura sorte, eram de 50%. Se realmente houvesse um campo energético humano ou força vital detectável, o resultado deveria ser próximo de 100%. A real: 44%. O experimento publicado em JAMA foi composto por 280 testes individuais, e os participantes tinham, em alguns casos, quase três décadas de experiência em TT.
Produto do Ocidente, o TT foi inventado, na década de 70 do século passado, por uma ocultista holandesa, radicada nos Estados Unidos, e uma professora de Enfermagem da Universidade de Nova York. As criadoras, no entanto, reconhecem as raízes da práticano pensamento oriental.
Em artigo publicado em 1975 em The American Journal of Nursing, a professora de Enfermagem Dolores Krieger, uma das duas autoras do TT, cita o conceito indiano de prana, que ela interpreta como energia vital. A professora escreve que “a literatura afirma que o pranaé intrínseco ao que chamaríamos de molécula de oxigênio”.
A parceira de Krieger na elaboração da teoria e prática do toque terapêutico, a ocultista Dura Kunz, foi durante anos presidente da Sociedade Teosófica dos Estados Unidos. Desenvolvida na América do Norte no fim do século 19, a Teosofia importou vários elementos do misticismo hindu, misturando-os a tradições místicas europeias.
Qigong
Vamos, então, ao Oriente. Dez anos antes da publicação de Emily Rosa, um grupo de pesquisadores dos EUA e do Canadá havia visitado a China, a convite de cientistas chineses, para auxiliar nos testes de práticas ligadas à medicina tradicional chinesa (MTC) e outros supostos fenômenos paranormais.
As aventuras desse comitê, do qual fez parte o ilusionista James Randi, são descritas num dos capítulos do livro The Hundredth Monkey: And Other Paradigms of the Paranormal, mas a que nos interessa trata do teste de um certo Doutor Lu, mestre Qigong, uma forma chinesa de “cura” por imposição das mãos com (suposta) transferência, transmissão ou manipulação de alguma forma de energia vital.
Embora supostamente alicerçada em tradições milenares, a terapêutica Qigong surge, com esse nome – “qi” significando algo como “espírito” ou “força vital” e “gong”, “perícia”, “habilidade” – em 1955, num centro de repouso para funcionários do governo comunista em Pequim. O primeiro tratado sobre o assunto é publicado em 1957. Em comparação, a técnica japonesa de reiki (“rei”, divino, miraculoso; “ki”, energia, sopro), em que o terapeuta que também busca canalizar ou emitir “energia vital” a partir das mãos, foi codificada na década de 20.
A despeito, portanto, da antiguidade cultural dos conceitos de pranaqi ou ki, nenhuma das práticas hoje associadas à ideia tem, na verdade, mais de cem anos.
Sopro de ar
Como explica o especialista em história médica chinesa Yuan Zhong, citado neste artigo, durante milênios os médicos chineses tiveram de conviver com sérias restrições culturais que impediam a dissecação do corpo humano – algo que também foi comum no Ocidente –, e os principais modelos disponíveis eram as vítimas de execuções, que ocorriam principalmente por decapitação.
“Após a descida do machado, o sangue deixa o corpo rapidamente, e os observadores da antiguidade presumiam que esse líquido vinha da cavidade corporal, não dos curiosos tubos, aparentemente vazios, que conseguiam ver depois de o sangue ir embora”, explica o médico e historiador.
“Hoje, sabemos que esses vasos eram as artérias carótidas e veias jugulares, que transportam sangue”, prossegue. “Observadores antigos imaginaram que, como esses tubos pareciam vazios e murchos, algum tipo de ar ou gás especial deveria inflá-los, daí o nome qi”, que também admite o significado comezinho de “ar” (curiosamente, “prana”, em sânscrito, também tem o significado mundano de “respiração”).
Qigong na prática
Mas, voltando ao Doutor Lu: numa demonstração inicial, ele realizou suas manipulações energéticas sobre uma paciente, que reagiu de modo dramático, movendo-se “às vezes de forma lenta e comedida; às vezes, violenta e convulsiva”. O mestre Qigong estava a dois metros e meio da voluntária.
Os norte-americanos sugeriram uma demonstração da prática sob condições um pouco mais rigorosas. O teste foi, como no caso de Emily Rosa, de uma clareza fantástica: mestre e paciente foram colocados em salas separadas, sem contato visual ou acústico entre si (Doutor Lu tinha certeza de que sua capacidade de manipular e emanar qi funcionaria à distância, e através de paredes). 
Durante uma série de rodadas de duração predeterminada, o mestre iria emitir energia na direção da paciente ou se manter imóvel – o que aconteceria em cada rodada seria determinado por um lance de cara-ou-coroa. 
Questão: será que a voluntária iria entrar em movimento, ou teria convulsões, nas mesmas rodadas em que Doutor Lu estaria enviando energias? Caso a hipótese qi estivesse correta, a correlação temporal entre uma coisa e outra deveria ser próxima de 100%. 
Resultado: “durante um período, a moeda saiu coroa quatro vezes seguidas; isso significa que o mestre Qigong não transmitiu qi por 14 minutos e 45 segundos. No entanto, a voluntária se contorceu ao longo de todo esse tempo. As duas únicas rodadas em que a voluntária se manteve imóvel foram rodadas em que a moeda havia caído cara e o Dr. Lu tentava influenciar a paciente”.
Físicos
O relato em The Hundredth Monkey diz ainda que experimentos para tentar detectar a suposta energia que fluiria dos dedos dos mestres Qigong já haviam sido realizados antes da chegada do grupo de investigadores norte-americanos, com resultados negativos.
Nenhuma das forças conhecidas da natureza – gravidade, eletromagnética e as forças nucleares – corresponde à descrição da energia vital ou qi. Físicos como Sean Carroll e o falecido Victor Stenger apontam que a existência de uma força capaz de afetar objetos na escala de órgãos humanos, mas que ainda não tenha sido detectada por instrumentos científicos, é virtualmente inconcebível.
“Todos os organismos vivos são compostos pelos mesmos quarks e elétrons que compõem uma rocha ou um rio”, escreveu Stenger no artigo The Physics of Complementary and Alternative Medicine. “Sofrem os efeitos das mesmas forças. Físicos conseguem medir os efeitos de forças eletromagnéticas em uma parte em um bilhão, mas não encontram a menor sugestão de forças vitais ou psíquicas especiais”.
Carroll, em seu livro The Big Picture, afirma que, se existissem forças ou partículas capazes de fazer uma pessoa afetar outras pessoas ou objetos à distância, “já as teríamos descoberto”. A ciência está longe de saber tudo, diz ele, mas o que já sabe permite descartar algumas hipóteses.
Esse autor chama atenção para o conceito de domínio de aplicabilidade de uma teoria científica: Carroll não afirma que nenhum novo fenômeno físico jamais será descoberto; o que ele afirma é que qualquer nova força, se relevante na escala humana do cotidiano, já teria sido notada, se de fato existisse.
Sequer o fenômeno do emaranhamento quântico – em que partículas separadas por grandes distâncias são capazes de responder instantaneamente uma à outra – oferece refúgio. No livro Schrödinger’s Killer App: Race to Build the World’s First Quantum Computer, o físico Jonathan Dowling lembra que, na temperatura do corpo humano, “qualquer emaranhamento quântico seria destruído em um septilionésimo de segundo”. Nem mesmo as consultas do SUS são tão rápidas.
Fadas
Há vários anos, a médica e escritora Harriet Hall vem popularizando a expressão “Ciência da Fada dos Dentes”. Como ela mesmo explica num artigo:
“Você pode estudar quanto dinheiro a Fada dos Dentes deixa em diferentes situações (primeiro contra último dente, idade da criança, dente num saquinho contra dente enrolado em papel, etc.), e seus resultados podem ser replicáveis ​​e estatisticamente significativos. Você pode achar que descobriu algo sobre a Fada dos Dentes; mas seus resultados não dizem o que você imagina, porque você não se deu ao trabalho de descobrir se a Fada dos Dentes é real ou se alguma causa mais plausível (os pais) poderia dar conta do fenômeno”.
A pesquisa dita científica sobre as propriedades terapêuticas do tal “campo energético humano”, pranaqiou ki são exemplos clássicos de Ciência da Fada dos Dentes: busca-se medir os efeitos de um fenômeno sem, antes, estabelecer-se a realidade do fenômeno. De fato, o corpus reunido em torno do tema é negativo, inconclusivo, ou, quando positivo,  tem tão baixa qualidade que é como se os pesquisadores estivessem evitando – talvez de modo inconsciente – sequer considerar seriamente a hipótese “sem fada”.
Uma revisão recente da literatura sobre toque terapêutico, descrita na revista Skeptic, revela o estado lastimável do campo. Em pelo menos um caso, o “efeito positivo” descrito não passava de erro na interpretação dos dados estatísticos. E as autoras encontraram ainda “vários artigos publicados pela mesma equipe de pesquisa, dos quais pelo menos dois foram publicados com autores em ordem diferente e em diferentes periódicos, mas relatam exatamente os mesmos dados”.
As autoras concluem que, desde a publicação seminal de Emily Rosa, “a pesquisa sobre terapia energética não melhorou em nada; se houve mudança, foi para pior”.
Balão de ar
Como apontado por Carroll, Stenger e outros, a existência de algum tipo de “campo energético humano” viola as leis da Física – as mesmas leis que permitiram que você baixasse este artigo da internet, e que mantêm acesa a tela em que o lê.
Faz muito mais sentido reconhecer que os conceitos milenares de pranaki ou qi não são nada além de elaborações pré-científicas da constatação, muito real, de que o ar e a respiração são essenciais para a vida, e de que há uma ligação forte entre o ritmo e fluxo da respiração e o estado emocional.
Técnicas modernas, como reiki, Qigong e toque terapêutico, que tentam reinterpretar esses conceitos antigos em termos de campos e energias, cometem o mesmo erro das teorias “arqueológicas” que veem astronautas em pinturas pré-históricas. É uma mistura de perda de contexto e firme vontade de crer.
Quando Dolores Krieger, uma das inventoras do toque terapêutico, escreveu que “o prana é intrínseco ao que chamaríamos de molécula de oxigênio”, ela estava, enfim, muito mais certa do que poderia imaginar.
Por: Carlos Orsi
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