Por que Uruguai e Estados Unidos estão legalizando o mercado da maconha para uso recreativo?

Proibição das drogas gera mais violência e fortalece crime organizado
Se portar drogas não é crime, como pode ser crime sua comercialização? A regulamentação do mercado de drogas não é uma panaceia, mas parece ser a chave para amenizar esses problemas. Entenda mais no texto de Fernanda Mena para Folha de S.Paulo.

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A guerra contra as drogas tem se mostrado mais danosa, custosa e letal que o comércio e uso de drogas em si.

Sua baixa eficácia fica evidente quando se observa que o crime de tráfico de drogas é o que mais atulha os já superlotados presídios brasileiros e é o terceiro que mais mobiliza forças policiais do país –que prendem sobretudo por roubo, furto e tráfico, mas investigam apenas 8% dos homicídios cometidos no país, quase 60 mil por ano.

Além disso, o crime de tráfico há anos legitima ações militarizadas em comunidades dominadas por facções, tornando os extratos mais vulneráveis da sociedade reféns do terror de tiroteios, quando não eles mesmos vítimas de balas perdidas.

Ainda assim, nenhum indicador aponta diminuição do consumo de drogas aqui. Ao contrário: o Brasil se tornou o segundo maior consumidor do mundo de cocaína e derivados, como o crack.

Por outro lado, a experiência internacional na descriminalização do uso de drogas (em vigor em países como Alemanha, Colômbia, México e Portugal, entre outros) aponta que ela tem pouco ou nenhum impacto no consumo, ou seja, não faz explodir seu uso como se teme.

A medida também não aumentou as mortes por overdose nem a incidência de doenças mentais, e ainda aproxima usuários problemáticos do sistema de saúde e evita que caiam na Justiça –que drena recursos e vidas.

A esses resultados, porém, soma-se uma contradição: se portar drogas não é crime, como pode ser crime sua comercialização? Se desconsiderarmos o caso da maconha cultivada para consumo próprio, como a substância foi parar no bolso de alguém?

A regulamentação do mercado de drogas não é uma panaceia, mas parece ser a chave para amenizar esses problemas: liberaria forças policiais para a atuação em crimes mais graves, descongestionaria a Justiça e desafogaria o sistema penitenciário, para que fosse possível ressocializar presos, além de retirar recursos financeiros e humanos do crime organizado.

Existem hoje duas experiências em curso, restritas à maconha: no Uruguai e em oito Estados americanos, que legalizaram o mercado para uso recreativo por adultos.

Em Washington, por exemplo, a prisão por posse de maconha caiu 98% desde a mudança, e as projeções de impostos com a venda atingiam US$ 270 milhões em 2016 –dinheiro carimbado para ações como prevenção ao abuso de drogas nas escolas.

Apesar das evidências, é um desafio pensar fora do paradigma proibicionista, que tem mais de cem anos. Mas vale lembrar: estudos apontam que a droga que mais causa danos ao usuário e a terceiros é o álcool, vendido em qualquer esquina. Alguém ouviu falar em proibi-lo?

Fonte: Smoke Buddies
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Grupos conservadores e de religiosos fundamentalistas discriminam meninas com pênis e meninos com vagina

“Há meninas com pênis e meninos com vagina” informa cartazes em ônibus 

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O cartaz com desenhos de crianças com a frase: “Há meninas com pênis e meninos com vagina. É simples assim. A maioria deles sofre diariamente, porque a sociedade não conhece essa realidade” causou polêmica com alguns grupos conservadores e de religiosos fundamentalistas, que tentaram boicotar a campanha.

Uma campanha realizada no norte da Espanha trouxe neste mês cartazes com desenhos de crianças com a frase: “Há meninas com pênis e meninos com vagina. É simples assim. A maioria deles sofre diariamente, porque a sociedade não conhece essa realidade”.

A campanha, que traz a ilustração de crianças felizes e com genitálias diversas, ficou em ônibus e metrôs dos dias 10 a 16 de janeiro. Foram 150 cartazes distribuídos nas comunidades autônomas de País Basco e Navarra.

A responsável é a Chrysallis, associação de famílias com crianças trans, que teve o objetivo de dar visibilidade para as crianças trans, combater o preconceito contra elas, contribuir para uma adolescência e vida adulta saudáveis e sem transfobia. Ela aponta que a taxa de tentativa de suicídio entre adultos trans a quem foi negada sua identidade na infância é de 41%.

Beatriz Sever, que é porta-voz da Chrysallis, declarou que o cartaz evidencia que a genitália não tem importância alguma. “Mostra crianças felizes independente do que têm entre as pernas (…) Queremos transmitir a mensagem de que a natureza não é uma máquina de xerox, que a natureza é diversa”, declarou.

Em um dos folhetos da organização explica-se que a transgêneridade ou transexualidade é quando a identidade de gênero de uma pessoa não corresponde com o que lhe foi designado com base em sua genitália ao nascer”.

O cartaz causou polêmica com alguns grupos conservadores e de religiosos fundamentalistas, que tentaram boicotar a campanha. Porém, de acordo com Natalia Aventi, presidente da Chrysallis, as críticas só têm levantado uma “onda de apoio”. Tanto que o número de membros da organização só tem aumentado desde 2013: de seis famílias para 425 integrantes.

Um dos apoios veio do Parlamento de Navarra, que aprovou uma declaração institucional em que “reitera seu apoio e reconhecimento dos direitos das pessoas trans, às famílias de menores trans e à campanha criada pela associação Chrysallis para fazer com que a realidade desses meninos e meninas seja reconhecida”.

Por Neto Lucon, jornalista.

Fonte: NLucon

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A verdadeira homofobia não é o ódio aos homossexuais

Nota do blog:
O uso do termo homofobia como significado de aversão/ódio a homossexualidade (LGBTTTIQ) está consagrado e errado.
Correto seria usar somente para a situação de medo em relação a homossexualidade.
Veja nesta lista o uso de “fobia” como “medo de”. Especial atenção para “homofobia” na pagina 8.
A ocorrência mais importante de medo é vivenciada pelo homossexual enquanto não sai do armário.
Como vemos no texto abaixo e em muitas outras descrições.
Já fizemos uma pequena referência a esta questão aqui no blog e em eventos sobre o tema.
E também uma proposta para uma melhor definição da Conduta Discriminatória contra homossexuais.

12 Historias que te inspirarán a salir del Clóset desde Beauchef

Chile-12La decisión de salir del clóset no es fácil y los resultados no siempre son los esperados, sin embargo, el amor de ayudar a los demás contando sus experiencias, ha hecho que 12 chicos y chicas valientes nos compartan su historia de vida.

Cada historia lleva contenida una mezcla de emociones, sentimientos y lágrimas, que en algunos casos han sido necesarias para limpiar la tristeza de sus vidas. Son momentos de vida que esperan inspirar a otros chicos no sólo a salir del clóset, sino a valorarse, amarse y aceptarse a sí mismos, tal como lo escribe María Josefa de propia mano, “Lo que verdaderamente importa es tu interior, tu ser”.

Ellos escriben para abrazar con sus propias palabras a quien lo necesite, para ayudarte a saber que no estás solo y que como dice Bordemarino: “puedas estrechar los lazos de quienes realmente te comprendan”.

Son historias que merecen ser leídas por todos, porque esos chicos y chicas también necesitan de sus amigos, familiares y de todas esas personas que, sin ser de la comunidad LGBT los amamos por su esencia y no por su orientación. Así lo dice Byron “Soy lo más YO que puedo” y eso es, lo que como seres humanos nos hace valiosos como persona.

Coincido en lo que dice Martín, yo también “Espero que salir del Clóset pronto pase de moda” para que chicas como Rocío dejen de tener miedo, para que el dolor y el silencio no condenen a nadie, para que por sobre todas las cosas, sea el amor, el respeto y la aceptación lo que podamos dar siempre a los demás.

Agradecemos al área LGBT de la Secretaría de Sexualidades y Género de la FCFM de la Universidad de Chile, por tener esta gran iniciativa y compartirnos estas historias, a Martín Canales por ser el propulsor de este proyecto, y nuestra especial felicitación y cariño a cada uno de esos 12 valientes que nos han inspirado con sus historias: Bordemarino, María Josefa, Camilo, Byron, Sofía, Karen, PFB, Carolina, Rocío, Martín y los dos anónimos.

Te dejamos el link donde puedes leer estas historias: https://goo.gl/MFnEvn

Por Rosy Rodríguez

Fonte: Clóset LGBT

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La lección del gobierno de Suecia contra el machismo de Trump

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Just signed referral of Swedish#climate law, binding all future governments to net zero emissions by 2045. For a safer and better future.— Isabella Lövin (@IsabellaLovin)

Las mujeres sí mandan en Suecia: la viceprimera ministra del país nórdico, Isabella Lövin, ha respondido con una fotografía a la estampa que regaló al mundo el inquilino de la Casa Blanca, Donald Trump, en la que aparecía firmando uno de sus polémicos decretos rodeado única y exclusivamente por hombres.

En su primera semana al mando de la presidenta de Estados Unidos, el magnate aprobó, entre otras medidas, la prohibición de financiar con fondos gubernamentales los proyectos de organizaciones humanitarias que asesoren sobre prácticas abortivas. La imagen de la polémica mostraba un exceso de testosterona alrededor de la mesa presidencial: hombres decidiendo sobre el cuerpo de las mujeres, mientras casi medio millón de ellas protestaban en la calle contra el machismo y las políticas discriminatorias que ha empezado ya a aplicar Trump.

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Como contraste, la imagen que llega desde Suecia: ocho mujeres poderosas, una de ellas embarazada, escoltan a la también ministra de Desarrollo Internacional y Clima mientras firma un propuesta muy contraria a la voluntad de Trump. “Firmada la ley sueca por el clima que obliga a los gobiernos futuros a a las cero emisiones”, dice en Twitter Lövin. “Por un futuro más seguro y mejor”.

Somos un gobierno feminista, se ve en esta foto. Después ya es cosa de cada uno cómo se interpreta”, declaró la ministra en un comunicado enviado a varios medios suecos. Suecia presume de ser un gobierno paritario en el que se ha normalizado la presencia femenina, cosa que debería ser normal en un mundo en el que no existieran perlas de este calibre pronunciadas por el hombre que marca el rumbo del país más poderoso del planeta.

Fonte: Público Esp.

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“A ejaculação está proibida a não ser para a procriação…”

Activistas francesas realizan versión paródica de la fotografía de Donald Tump firmando la orden anti aborto

Un grupo de activistas francesas tuvieron una gran idea para responder a la fotografía que se hizo de mala fama del presidente de EE.UU, Donald Trump, firmando la orden anti aborto rodeado de hombres y ni una sola mujer.

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El 23 de enero, Trump reinstalo la política de la Ciudad de México, también conocida globalmente como la regla de mordaza legal, la cual prohíbe la ayuda económica de Estados Unidos a cualquier organización internacional de salud que promuevan el aborto como opción en sus planes de apoyo a la mujer.

La imagen de Trump firmando dicha orden, la cual afecta directamente sobre la libertad corporal de la mujer, en el cuarto lleno de hombres, fue extensamente criticada.

Un grupo feminist francés que se hace llamar “52”, decidió realizar una noticia en forma de parodia en donde muestran una foto de Hilary Clinton rodeada de mujeres, firmando una orden ejecutiva que prohíbe la eyaculación a los hombres.

La nota está titulada “La eyaculación, para cualquier otra cosa que no sea la procreación, está ahora prohibida en los Estados Unidos”.

“Los estereotipos de género son tan fuertes, que uno solo puede darse cuenta de lo absurdo que es cuando se lo muestra desde la mirada exactamente opuesta”, comentó una de las representantes del grupo 52 a The Huffington Post. “Y es por eso que pensamos que deberíamos recrear la imagen de un mundo en donde las mujeres pudieran exigir al hombre que no mantenga ninguna relación sexual sin intenciones de procrear”.

El grupo feminista, cuyo nombre refleja el porcentaje de población femenina presente en Francia, confesó que inicialmente estaban shockeadas por la imagen de Trump y que sintieron que necesitaba una respuesta.

“Queremos que la gente se dé cuenta de lo absurdo de la situación y que se levante a luchar, incluso si es con humor, lo cual es una gran arma”, expresaron.

Las activistas usaron trajes tomados de una imagen de 2009 de Barack Obama otorgando a las Mujeres Piloto de la Fuerza Aérea la Medalla de Oro del Congreso para la imagen de su artículo falso, la cual ya se ha vuelto viral.

“Estamos contentas de ver la cantidad de visitas y personas que compartieron nuestra mirada. Tenemos la intención de continuar realizando más acciones de este tipo durante las próximas semanas que vendrán”, expresaron desde el grupo.

Fonte: LARED21

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A onipotência, o narcisismo e a perversão na prática médica

Morrendo como objeto

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Somos seres que morrem, isso não podemos evitar. Somos seres que perdem aqueles que amam, e isso também não podemos evitar. Mas há algo aterrador que persiste, e isso podemos evitar. E, mais do que evitar, combater. É preciso que os mortos por causas não violentas cessem de morrer violentamente dentro dos hospitais.

Aqueles que amamos se tornam vítimas de violência no espaço onde deveria existir cuidado. E nós, que os perdemos, também nos tornamos vítimas. Quando tudo acaba, não somos apenas pessoas que precisam elaborar o luto de algo doloroso, mas natural. O sistema médico-hospitalar faz de nós violentados. Não há apenas luto, mas trauma. E é preciso que comecem a responder por isso – ou a rotina de violências não cessará.

Escrevo sobre o morrer e sobre a necessidade de recusar a “obstinação terapêutica” há quase dez anos. Em 2008, acompanhei o cotidiano de uma enfermaria de cuidados paliativos por quatro meses, para contar da morte com dignidade, a partir da ideia de que quando não se pode curar, ainda se pode cuidar. Neste percurso, testemunhei o morrer de várias pessoas, cada uma à sua maneira, vivendo até o fim a sua singularidade. A morte como parte da vida, não como seu contrário.

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Morrer com dignidade é morrer da forma que se escolheu morrer quando o fim se tornou inevitável. É escolher até onde os médicos podem ir na tentativa de prolongar uma vida que já não é vida, é escolher se quer morrer numa cama de hospital ou em casa, é escolher na companhia de quem se quer estar quando chegar a hora de partir.

Como a maioria de nós não sabe o que vai provocar sua morte, nem quando, existe um instrumento chamado de “Diretiva Antecipada de Vontade (DAV)”. Particularmente, prefiro outro nome, “Testamento Vital”, porque é de vida que se trata. Mas apesar do nome burocrático, hermético para a maioria, este documento pode ser até mesmo escrito a mão. Nele, determinamos previamente nosso desejo, assim como os limites à equipe de saúde que nos atenderá, caso não estejamos em condições de expressar nossas escolhas quando o fim chegar. Caberá a nossos familiares levar esse documento à equipe de saúde e garantir que essa vontade seja cumprida. Ou, se nenhuma vontade foi expressa, escolher o que nos cabe quando já não for possível evitar a morte. Porque são eles que nos conhecem melhor – e porque possivelmente nos amam.

É preciso lembrar que o fim de uma vida é ainda vida – e não morte. Para respeitar a vida, é preciso respeitar aquele que vive. Só há respeito quando há reconhecimento de que ali há um sujeito. No momento em que o corpo se torna objeto, o sujeito é sujeitado. E o que é apresentado como cuidado vira tortura.

Comprovei da forma mais dura que, com exceção de alguns pequenos enclaves de resistência, morrer com dignidade é uma ficção no sistema médico-hospitalar brasileiro. No momento em que se entra num hospital e a morte se desenha como desfecho, aqueles que amamos deixam de pertencer a si mesmos. É uma espécie de sequestro, mas sem resgate possível.

No início de 2016, perdi um parente querido. Numa noite, logo após um dia particularmente feliz, um aneurisma em sua aorta rompeu-se. Depois de uma longa cirurgia, as possibilidades de recuperação eram escassas. Após mais de uma semana na UTI, em que ele não despertou nenhuma vez, complicações mostraram que não havia chance. Era preciso deixá-lo partir. Mas ainda assim ele seguia entubado, continuava sendo espetado por agulhas e manipulado de várias maneiras. Havia se tornado um objeto de intervenção. Quando manifestávamos nossa preocupação, a resposta era: “Não se preocupem, ele não sente nada”.

Receber a notícia da perda de alguém tão estrutural na vida é devastador. Podemos tão pouco neste momento. E o que podemos é cuidar. Para nós, não é um corpo sedado que ali está. É uma pessoa na grandiosidade de seus últimos momentos de vida.

Pedi então para conversar com um dos médicos. Ele me atendeu incomodado por estar sendo chamado. Manifestei, educadamente, a nossa preocupação com a continuidade dos procedimentos invasivos e a nossa necessidade de compreender melhor o que estava acontecendo e quais seriam os próximos passos. Já que não era mais possível desejar que aquele que amávamos vivesse, queríamos assegurar sua dignidade na morte e nos despedir em paz.

Estávamos no corredor da UTI, em pé. O médico não concordara em conversar com os familiares numa sala reservada, apesar de existir um espaço para isso. Ele alterou a voz, quase gritando. Claramente, sentia-se afrontado porque, como “doutor”, qualquer pergunta soava como um questionamento a uma autoridade que acreditava incontestável. Disse-me que não havia nada a ser questionado, que eles sabiam o que fazer – e estavam fazendo.

Ao ouvir a voz alterada do médico, o filho do homem que morria se postou ao meu lado. Ele, que perdia tanto, disse ao médico com toda a calma que não era aceitável ser grosseiro quando já sofríamos tanto. E reiterou que precisávamos compreender melhor o momento e os próximos passos para fazer as melhores escolhas. Depois de mais alguns minutos de rispidez, o médico afastou-se sem nos dar qualquer resposta. Estávamos num dos templos do sistema hospitalar brasileiro.

Naquele momento, além da dor da perda, já somava-se uma outra. Havíamos sido agredidos quando estávamos tão frágeis. Em vez de acolhimento, abuso. Nos dirigimos então à recepção da UTI para perguntar se havia um setor de cuidados paliativos. Estávamos confusos, sem informação. Nossa esperança era que alguém com um conceito mais humanizado sobre o morrer pudesse intervir e conseguisse responder a nossos questionamentos, assim como assegurar os direitos de quem morria. O recepcionista da UTI disse que iria pesquisar e, depois de alguns minutos, apareceu com um telefone num pedaço de papel. Era um domingo. Passei a manhã ligando e só encontrava uma gravação de secretária eletrônica. Perguntei se havia outra maneira de contatar o setor, o recepcionista me deu um celular de emergência da suposta equipe. Outra secretária eletrônica. Deixei recado. Nunca recebemos resposta.

Da sala de espera da UTI comecei a buscar orientação com médicos paliativistas que eu conhecia, trocando mensagens privadas nas redes sociais. Estes me escutaram e me orientaram pelo Twitter. Uma médica amiga foi ao hospital e entrou na UTI como visita para poder nos explicar o que estava acontecendo e o que poderíamos exigir que fosse diferente, a partir de nossa escolha de evitar procedimentos invasivos e desnecessários e poder alcançar a melhor despedida possível dentro das circunstâncias.

É importante sublinhar: foi preciso infiltrar uma médica para ter informações e tentar fazer escolhas que respeitassem aquele que morria. Num momento tão limite da vida de todos, foi necessário uma “clandestina” para tentar proteger quem partia. E o que era proteger e cuidar quando já não era possível salvar? Tratá-lo como uma pessoa, um ser com história – e não como um objeto, um invólucro de carne “que nada sentia”.

Pouco antes da morte, soubemos por uma enfermeira que há pelo menos uma semana já era claro que este seria o desfecho. Mas nada disso nos foi contado. Possivelmente não era necessário que morresse numa UTI, possivelmente não havia sentido que permanecesse numa UTI. Possivelmente poderíamos ter nos despedido do nosso jeito. Certamente poderíamos ter escolhido bem mais.

Mas no instante em que ele entrou no hospital, numa situação de emergência, perdemos o acesso a quem amávamos. Tínhamos apenas o acesso controlado ao seu corpo “que nada sentia”. De repente, ele era um objeto sob vigilância, protegido de nós, que com ele compartilhávamos a vida e a história.

Seis meses depois, em agosto, perdi meu pai. Havíamos combinado de assistir juntos à abertura da Olimpíada. Como morávamos em estados diferentes, eu ainda estava no caminho quando ele passou mal. Foi levado ao hospital de ambulância. E lá sofreu um AVC e entrou em coma. Meu pai tinha 86 anos e já não havia chance para ele.

Quando cheguei com parte da família ao hospital, depois da pior viagem de nossas vidas, ele estava na UTI. As visitas eram permitidas apenas em três horários. Como só conseguimos chegar de madrugada, convenci a enfermeira a me deixar entrar. Ao perceber que ela ficaria ao meu lado, pedi que saísse porque eu queria privacidade. Antes de sair, ela fez um comentário: “Fazia muito tempo que você não via o seu pai?”.

Meu entendimento era que meu pai morria de velho. Se não morremos por tiro, acidente ou catástrofe, alguma doença nos mata em nossa progressiva corrosão física. No caso do meu pai, poderia ter sido o coração, que tantos sobressaltos lhe provocou durante a vida. Mas foi um AVC. Assim, apesar da dor sem medida que eu sentia, me era claro que a morte era inevitável. Qualquer tentativa de esticar sua vida, na sua idade e naquelas circunstâncias, seria excessiva. Na melhor das hipóteses, ele teria uma vida sem vida, o que meu pai não gostaria nem merecia. Me era claro – e era para todos nós – que tudo o que podíamos fazer naquele momento era assegurar a ele uma morte digna e garantir a nossa despedida.

Ao contrário dos principais hospitais do país, a UTI do centro de saúde em que meu pai for internado não permitia a permanência dos familiares junto à pessoa doente ou em processo de morte. Segundo o Estatuto do Idoso, ele teria direito a um acompanhante permanente. Mas ali a UTI suspendia a lei. Era preciso esperar pelos horários de visita. Mas como ficar numa sala de espera enquanto alguém que amamos morre sozinho, entubado e cheio de fios a alguns metros dali? E por quê?

Nós queríamos estar com ele. Queríamos fazer carinho no seu cabelo enrolado e tão branco. Queríamos dar beijo na testa e também nas bochechas. Queríamos afagar a sua mão. Queríamos ter certeza de que ele não estava passando frio. Queríamos contar histórias sobre ele. Queríamos dizer que o amávamos e que ele seguiria vivendo em nós.

“Ele não sente nada”, ouvi mais uma vez. Ainda que ele não sentisse, nós sentíamos.

Quando horas depois o médico declarou a “morte cerebral”, sabíamos que ele tinha partido. Mas o horário de visitas não tinha chegado. A despedida já não importava ao meu pai, mas importava a nós. Ele já não estava lá, mesmo que o coração ainda batesse. Mas nós precisávamos dessa despedida para poder seguir a vida sem ele. O que nos roubaram ao impedir que ficássemos com quem amávamos, ao reduzir meu pai a um corpo passível de visitação em horários determinados, jamais poderá ser devolvido.

Minha mãe queria estar com o homem com quem viveu 63 anos de um casamento de amor, mas o horário de visitas não tinha chegado. Na noite anterior ela tinha dormido aconchegada a ele, horas antes conversavam sobre o que comprariam na feira, e agora ela era impedida de tocá-lo. Me era difícil suportar a indignidade daquela situação, mas ver a minha mãe passar por essa violência me era insuportável. Ela nunca poderia ter sido impedida de ficar ao lado do meu pai, de mão com ele. Não há necessidade de manter uma pessoa numa condição irreversível em uma UTI. E não há sentido em manter alguém na UTI longe dos familiares.

Naquele momento, meu pai já estava morto, e eu sabia disso. Morte encefálica é morte. E ponto. Mas minha mãe ainda seguia aguardando o horário de visitas. Toquei a campainha para falar com a enfermeira. Disse a ela que meu pai estava morrendo e que precisávamos nos despedir. Que não poderíamos esperar o horário de visitas e que também não podia ser um de cada vez, que precisávamos estar com ele juntos.

Ela negou, dizendo que isso era contra as regras – ou contra o estatuto do hospital, não lembro o termo exato. Eu retruquei que nosso direito de estar com o meu pai no seu morrer estava acima das regras do hospital. A enfermeira chamou o médico de plantão. Havíamos nos tornado a família criadora de problemas. Já tínhamos inclusive ouvido mais uma pérola: “As famílias sempre têm dificuldades de aceitar mortes repentinas”. Era o que para essa profissional justificava a nossa impertinência de exigir direitos. O médico chegou. Disse a ele o mesmo que havia dito à enfermeira. Ele concordou com os argumentos e permitiu nossa entrada.

Nos reunimos todos em volta do meu pai. Ele já estava morto, mas fingimos que o coração batendo era vida. E nos despedimos. A enfermeira que antes tinha barrado nosso direito de nos despedir talvez não tenha suportado a interdição. Com a justificativa de medir os sinais vitais, arrancava o lençol dele, expondo o seu corpo. Minha mãe, de 81 anos, voltava a puxar o lençol para cobrir o homem que ela amava, o homem com quem criou uma família, o homem com quem dividiu a vida. A enfermeira voltava a tirar o lençol. Minha mãe o recolocava. Dois gestos em disputa, o impasse de uma época. A mão asséptica, pragmática, arrancando o lençol (e a humanidade) transformava meu pai num objeto. A mão trêmula, gasta de anos, voltando a cobri-lo com o lençol, devolvia a ele a humanidade e a história.

O direito de permanecer junto à pessoa querida, assim como o direito de se despedir, seguiu sendo negado às outras famílias que estavam na sala de espera. Parte delas, em vez de se juntarem a nós num movimento que seria mais potente porque coletivo, nos acusaram de “privilégio”. Era desesperador ouvir direito ser convertido em privilégio justamente por quem era violado num momento tão limite. Mas não havia tempo para argumentar. Era preciso cuidar agora do corpo do pai.

Por mais que a gente se prepare para perder, e eu me preparo há muitos anos, a morte é um buraco. Não há um dia sequer em que eu não sinta falta do olhar do meu pai. Sei que ele vive em mim, o reconheço na forma como eu escuto o mundo, no formato dos dedos dos meus pés. Meu sorriso é o dele. Na minha carne há palavras que foi ele quem disse, suas histórias correm no meu rio.

Mas há um buraco onde antes havia o olhar dele. Percebo que envelhecer e perder é também aprender a andar por aí com o corpo esburacado pelos olhares que a gente já não tem. Passamos a ser carregadores de ausências. E há que se abrir espaço-tempo para viver o luto, porque só assim a gente descobre como reencontrar a alegria mesmo com o corpo esburacado. E a alegria, a forma mais bonita de amor, é quase tudo.

Meu luto é fundo, mas sereno. A violência vivida, não. Ela me escava. E é com ela que me debato hoje. Perto de mim, aquele que perdeu o pai no início de 2016 nomeou o que ambos vivemos como “estresse pré-traumático”. Passamos a ficar em pânico com o que acontece com uma pessoa quando ela entra num hospital e, de imediato, é convertida num objeto. E num objeto sequestrado. Descobrimos que nada do que já deixamos escrito servirá para barrar a onipotência médica se o nosso processo de morrer acontecer dentro de uma instituição hospitalar. Que nosso corpo será virado e revirado por estranhos, espetado e penetrado por objetos, mesmo quando estivermos além da possibilidade de cura. Que só teremos informações pela metade e que estranhos escolherão por nós.

Descobrimos que tudo isso que somos numa vida nos será roubado no final. Não pela morte, mas por um sistema médico-hospitalar que reduz pessoas a objetos. Numa paródia com o inferno de Dante, a inscrição no portão dos hospitais poderia ser: “Deixai toda história, ó vós que entrais”. Nem morremos ainda e já somos reduzidos a um não ser.

Me preparei muito para cuidar de quem amava quando morresse. E não pude. Não consegui protegê-los. Não fui capaz de fazer valer nem os meus direitos nem os deles. Aceitar que morremos e que perdemos é duro, mas é preciso. É nossa condição de existir. Mas a impotência diante da violência e da violação de direitos é uma indignidade que não podemos seguir permitindo que aconteça.

É isso o que aquele que perdeu o pai primeiro descreve como estresse pré-traumático. Prometemos um ao outro impedir a redução a objeto, mas sabemos que fracassaremos. Porque fracassamos em proteger o pai dele e o meu de quem deveria cuidá-lo. Se nossa morte não for súbita, não conseguiremos voltar para casa para morrer entre os livros, com a nossa música, no espaço que lembra de nós, entre aqueles que conhecem a nossa história. O último ato da vida será o de virar coisa num hospital. E, assim, o estresse pré-traumático seria a expectativa dessa objetificação, como os prisioneiros que ouvem os gritos nos porões e sabem que sua vez irá chegar. A antecipação da tortura já é tortura.

A imagem do nosso trauma é a descrita pelo historiador Phillipe Ariès em seu livro O homem diante da morte: “A morte no hospital, eriçado de tubos, está prestes a se tornar hoje uma imagem popular mais terrífica que o trespassado ou o esqueleto das retóricas macabras”. Pensávamos que podíamos escapar disso e cuidar da morte como parte da vida, mas a lógica do sistema nos esmagou. Lembro de uma mulher que entrevistei para uma das minhas reportagens sobre o morrer. Ao perceber o que fariam com seu marido, além da possibilidade de cura, ela e um filho fugiram com ele do hospital numa cena cinematográfica. Ela conseguiu encontrar um lugar em que ele pôde morrer em paz, mas ter de fugir para fazer isso revela o tamanho da distorção.

Naturalizamos essa lógica perversa em que se morre não como gente, mas como objeto. A assepsia do processo, os jalecos brancos, a linguagem que torna a maioria analfabetos, a informação que não é compartilhada, o poder da medicina sobre os corpos em nossa época histórica encobrem a perversão de um sistema em que bem no fim nossos direitos são suspensos. Se já não há história, não há sujeito. Se não há sujeito, não há direitos.

Não uso a palavra “doutor” para ninguém. Nem para médico, nem para advogado, delegado, procurador, juiz etc. O uso do “doutor”, no Brasil, ecoa nossas piores distorções históricas. E, sempre que evocado, volta a reeditá-las. Assim, escolho não usar como ato político. Mas em algum momento destes processos, me vi chamando médicos que violavam direitos de “doutor”. Percebi que queria agradá-los por duas razões: 1) a expectativa de que me tratassem com gentileza porque me sentia imensamente frágil; 2) o pavor de saber que eles tinham todo o poder sobre alguém que eu amava.

Ao fazer isso, eu assumia a posição de vítima. E esta posição, como é óbvio para qualquer um, tem um custo alto. Como a violência aparece travestida de cuidado, o que talvez seja a maior perversão do sistema, fica ainda mais difícil tratar violência como violência.

Percebo com clareza que a maioria dos profissionais de saúde não compreende que, a partir de um determinado momento, o que é apresentado como cuidado se torna tortura. Assim como o que é apresentado como zelo se torna excesso. Assim como não percebem que os corpos não lhes pertencem apenas porque ingressaram na instituição. E que, ao tomá-los, torna-se sequestro. Somos todos – e os profissionais de saúde também – filhos dessa época histórica. Por isso, quando questionados, os profissionais ofendem-se e sentem-se até mesmo injustiçados. Afinal, acostumaram-se a habitar um lugar idealizado e de enorme potência, o lugar de quem salva.

Esse estado de coisas, o funcionamento da instituição médico-hospitalar como espaço de absolutos, é naturalizado. Afinal, a medicina tem hoje o poder de decidir até mesmo quem é normal e quem não é – ou o que é normalidade. Ou, ainda, que a normalidade existe. O que somos não é mais algo complexo, cheio de camadas, mas um diagnóstico: depressivo, cardíaco, anoréxico, obeso etc. Quando esse poder de dizer o que uma vida humana é se une aos interesses da indústria farmacêutica, as chances de um olhar em que a pessoa não seja reduzida a um objeto se encolhem.

É preciso encontrar uma maneira de dar vários passos para fora e recuperar a capacidade do espanto. E assim poder enxergar o que acontece no espaço do hospital sem os véus encobridores da naturalização. Pegando o mais comum dos procedimentos, por exemplo. Uma simples injeção. Se não há justificativa, ela é não é cuidado. É tortura. Exatamente porque nem sempre é fácil identificar quando o cuidado se transforma em tortura, o questionamento se torna fundamental. E a escolha, ao final, só pode ser de quem morre ou de quem ama aquele que morre quando este já não pode escolher. O que para o profissional de saúde é digno, para aquele que morre pode não ser. Quem decide?

Se quisermos morrer como sujeitos, teremos que mudar a formação dos médicos nas universidades e botar limites na falta de limites

Abrir mão do poder absoluto sobre os corpos, porém, é algo difícil para grande parte dos médicos. Difícil por várias razões e, principalmente, porque significa aceitar a própria condição de impotência diante da morte. Assim, qualquer pergunta que questione esse poder, ainda que ela parta de uma pessoa fragilizada pela perda de alguém, se transforma numa ferida narcísica. Nesta época histórica, se quisermos morrer como sujeitos, teremos que mudar a formação dos médicos nas universidades. E botar limites na falta de limites.

Levei meses para compreender que me confrontava com duas situações inteiramente diversas. Uma natural, a da perda. A outra naturalizada, a da violência perpetrada pelo sistema médico-hospitalar. Uma é lidar com a condição humana de morrer. Com essa, podemos. A outra é lidar com a certeza de morrer como objeto. Com essa, não podemos. Uma é lidar com a dor da perda de quem amamos. Com essa, podemos. Outra é lidar com a violência de não poder assegurar o direito de uma morte digna a quem amamos. Com essa, não podemos. Uma é luto, outra é trauma. O luto se vive, o trauma precisa virar outra coisa para que a vida possa seguir. No meu caso, vira escrita. O luto – e a luta.

Num país em que o SUS está sendo atacado pelas forças do retrocesso, em que doenças como dengue e zika proliferam por falta de saneamento básico, em que a febre amarela ressurge no Sudeste, em que as pessoas morrem por falta de assistência, o debate sobre o direito de morrer com dignidade encontra pouco espaço. Mas é de vida que se trata. Se não sabemos morrer, jamais saberemos viver.

Por Eliane Brum, escritora, repórter e documentarista.

Fonte: EL PAÍS Brasil

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O peso do patriarcado nosso de cada dia, dia após dia…

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Por Fátima Oliveira, médica

Em tempos de papa “morde e assopra” – sataniza a teoria de gênero e exorta aos homens que ouçam as mulheres – e da misoginia de Donald Trump entronizada na Casa Branca, dá arrepio pensar. Eu vivi os tempos Bush, pai e filho, e Regan. Sei do que falo e do que temo. É quase um desalento.

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No horizonte, uma disputa ideológica titânica pertinente às questões de saúde pública – o primeiro ato de Trump foi contra o Obamacare (2010), que garantiu seguro de saúde para milhões de americanos. Trump, em ordem executiva, reduziu a “carga financeira” e regulatória do sistema antes de derrogar a lei e substituí-la.

Trump desferirá ataque brutal aos direitos sexuais e aos direitos reprodutivos. De certeza contará com o apoio irrestrito da Santa Sé e do Vaticano! A conjuntura é de somatória de fundamentalismos, lançando tentáculos de modo danoso e singular sobre quem vivencia situações de vulnerabilidade, a exemplo das opressões de gênero, racial/étnica e de classe. Do site da Casa Branca foram eliminadas as páginas sobre direitos LGBT e civis e mudanças climáticas.

Pontuo que ele tem o compromisso com o movimento Tea Party – ultraconservador e ultradireitista, um braço do Partido Republicano – de restabelecer, via ação executiva, a lei ou regra da mordaça, ou Regra da Obstrução Global, conhecida como Global Gag Rule, criada por Ronald Regan (1981-1989). Foi rechaçada por Bill Clinton (1993-2000) e restaurada por Bush Filho (2001-2008). Conforme a Global Gag Rule, as organizações estrangeiras que recebem fundos norte-americanos, públicos ou privados, para planejamento familiar, saúde sexual e saúde reprodutiva estão proibidas de falar sobre aborto.

No primeiro dia do governo de George W. Bush, o primeiro ato foi legislar sobre os corpos das mulheres do mundo inteiro, reeditando, como uma religião a ser seguida, a maldita Global Gag Rule e, ao mesmo tempo, estimulando, com muito apoio financeiro, a abstinência sexual – promessa de se manter virgem até o dia do casamento. Todos os governos do mundo disseram “amém”.

Pesquisas do governo norte-americano sobre a cruzada pela preservação da virgindade – levada a cabo por grupos cristãos e por George W. Bush – concluíram que não foi reduzido o contágio de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), pois a maioria dos adolescentes que se comprometeram a abster-se sexualmente antes do casamento mandou o compromisso às favas. Registrou-se taxa igual de transmissão de DSTs dos demais pesquisados: 12 mil adolescentes, entre 12 e 18 anos, foram acompanhados por oito anos, dos quais 88% dos que prometeram castidade tiveram relações sexuais antes do casamento.

Conforme Peter Bearman, sociólogo da Universidade de Columbia e condutor da pesquisa mesmo entre quem manteve o compromisso de abstinência ou prorrogou a idade de sua primeira experiência, poucos usavam métodos anticoncepcionais, correndo, por isso, o mesmo risco de contágio por DSTs ou de gravidez! Para ele, “o movimento a favor de uma educação sexual baseada na abstinência induz não apostar em campanhas de informação sobre o sexo seguro, o que se torna contraproducente”.

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O patriarcado prospera sob o manto do fundamentalismo e estimula visões de mundo puritanas e teocráticas. O papel das mulheres é se insurgir contra as trevas! (como expliquei em “A cruzada do papa Francisco de satanização da teoria de gênero”, de 25.10.2016). As norte-americanas, com apoio do feminismo mundial, sabem que consolidar o Estado laico é a exata contraposição ao fundamentalismo religioso, portanto marcharam contra o fortalecimento das ideias patriarcais.

Fonte: Tá lubrinando – escritos da Chapada do Arapari

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Preço de medicamento de doença grave é inflacionado se não há tratamento alternativo

Las medicinas serán cada vez más caras (y no necesariamente mejores), según la OCDE
En la última década, el coste de algunos medicamentos que sirven para tratar se ha disparado. Y la situación puede ir aún peor, sugiere un documento de la OCDE
farm 1¿Cuánto nos cuesta la salud? (iStock)
El futuro de la medicina es prometedor. Siempre y cuando podamos pagárnoslo, claro está. Los precios de los nuevos medicamentos se han disparado en los últimos años, y en muchos casos, esta subida espectacular no está ligada a unos mayores beneficios para el paciente. Es lo que señala un nuevo informe publicado por la OCDE y llamado ‘New Health Technologies. Managing Access, Value and Sustainability’ que resume las promesas y los problemas de la medicina moderna.

“La producción farmacéutica es abundante, pero no responde de manera adecuada a las necesidades médicas prioritarias”, señala el informe. “Como resultado de las nuevas tendencias, muchos nuevos medicamentos tienen precios muy altos que no siempre están relacionados con grandes beneficios para la salud”. Este cambio se debe en gran parte al auge de las medicinas especializadas, que en algunos países desarrollados llegan a suponer el 37,7% de las prescripciones a lo largo del año, y cuyo precio de salida al mercado es muy alto. Se trata, por lo general, de medicinas orales contra el cáncer e inmunomoduladores (que regulan el sistema inmune).

El informe presenta varios ejemplos de este “nuevo modelo de negocio”. Por ejemplo, el coste del tratamiento para la esclerosis múltiple cuesta de media 10 veces más ahora que hace 10 años, 60.000 dólares (56.000 euros) frente a 6.000 (5.600). Algo que también ha ocurrido con el coste del tratamiento oncológico mensual de los pacientes suscritos a Medicare, ya que muchos de los medicamentos aprobados durante los últimos años son especialmente caros. “Aunque los precios varían ampliamente, este incremento se ha observado en muchos países de la OCDE”, señala el informe.
Esto provoca que, en muchos casos, el coste para la seguridad social de estos tratamientos se dispare, lo que plantea nuevos retos, sobre todo teniendo en cuenta los problemas demográficos que atraviesan países como España. Aún más sensible en el caso de medicinas utilizadas para tratar enfermedades graves que no tienen otro tratamiento alternativo, lo que permite a las farmacéuticas disparar el precio. Aunque el informe no lo cite, es lo que ocurrió con Turing Pharmaceuticals de Martin Shkreli y la subida del 5.000% del medicamento para tratar el sida Daraprim o las medicinas para tratar la leucemia mieloide crónica (LCM).
Un futuro esperanzador, pero caro
En muchos de los casos analizados, los nuevos medicamentos han permitido que los pacientes vean alargada su vida y mejorada la calidad de esta. En el caso de la leucemia, por ejemplo, la aparición de medicamentos como el imatinib (Glivec) permitió que los pacientes pudiesen sobrevivir a la enfermedad. Sin embargo, es un tratamiento para toda la vida. Es lo que tienen en común la mayor parte de medicinas que suponen una elevada carga económica para enfermos y sistemas de seguridad social: son patologías crónicas con apenas tratamientos alternativos que colocan a las farmacéuticas en una situación privilegiada para negociar los precios.
farm 2La financiación privada no llega a muchos medicamentos que tratan enfermedades raras. (iStock)

Según el informe de la OCDE, en 2016 se prepararon 13.700 nuevos medicamentos, 6.900 de los cuales estaban en fase de desarrollo. El área que está experimentado un mayor crecimiento es la oncología: un tercio de las nuevas medicinas sirven para tratar el cáncer, una enfermedad que la OCDE considera prioritaria y que supone el 16,9% del coste de los países desarrollados. Sin embargo, el informen advierte que se destina muy poco dinero a a la investigación sobre resistencia a los antibióticos. ¿Por qué? “Los incentivos para las compañías privadas para desarrollar nuevos antibióticos son pocos ya que las expectativas de que resulten rentables son mucho más bajas que otras categorías terapéuticas, como las enfermedades crónicas”.

En otras palabras, el mercado no siempre ofrece respuesta a las necesidades de la población. Debido a que gran parte de la financiación es privada, esto puede suponer un riesgo a la hora de investigar enfermedades que afectan sobre todo a países en vías de desarrollo. Son las conocidas como “enfermedades abandonadas”, nombre por el que se las conoce desde hace 20 años, como el sida, la malaria y la tuberculosis, cuya investigación suele financiarse con dinero público (60%) o procedente de ONG (9%).
La buena noticia para los españoles es que, en comparación con otros países, los precios no son demasiado elevados. Como puso de manifiesto una investigación realizada por Sabine Vogler y publicada en ‘The Lancet Oncology’, los países en los que los fármacos para tratar el cáncer son más caros son Suecia, Suiza y Alemania, y el coste es más bajo en Portugal, Reino Unido, Grecia y nuestro país. No obstante, la subida de precios en los medicamentos que entran al mercado es generalizada.
El lujo de poder medicarse
Eso si hablamos de medicamentos cuya eficacia se corresponde con los beneficios que producen en la salud de los pacientes. No obstante, como señalábamos, hay otros que resultan menos eficientes. Aquí vuelven a aparecer también los tratamientos contra el cáncer: “De los 12 medicamentos nuevos aprobados por la FDA en 2012, solo uno aumenta las probabilidades de supervivencia en más de dos meses”, señala el informe. Otras medicinas de reciente entrada en el mercado han visto aumentar su precio y disminuir su impacto.
farm 3La tendencia parece tristemente clara: cada vez hará falta gastar más dinero para obtener peores resultados. Según las cifras ofrecidas por el informe, en 1995, un año más de vida costaba al paciente estadounidense 54.100 dólares (algo más de 50.000 euros); en 2005 esta cantidad ascendía a 139.100 (130.000 euros) y en 2013 eran 207.000 (193.000 euros). Es decir, un aumento de un 10% anual, muy por encima de la inflación. Por si fuera poco, la cantidad de medicamentos no recomendados por el NICE (National Institute for Health and Care Excellence) ha pasado de una tercera parte a dos tercios, aproximadamente.
El estudio hace especial hincapié en el reto que suponen los medicamentos para tratar la hepatitis C y que fueron aprobados entre 2013 y 2014. Se trata de tratamientos que suponen un gran avance para los pacientes debido a la respuesta de más de un 90% que produce el sofosbuvir, muy caros pero rentables. No obstante, la estrategia de Gilead, la compañía que lo comercializa en un gran número de países como España, desvela el problema que presentan mucho de esos tratamientos. El medicamento salió al mercado en EEUU con un coste de 84.000 dólares (78.630 euros) para 12 semanas. A principios de 2016, Gilead había obtenido en todo el mundo 35.000 millones de dólares (32.760 euros) de beneficio gracias al sofosbuvir.
En España lo conocemos bien: el coste por paciente ronda los 13.000 euros, y la no administración de los nuevos fármacos llevó a la Plataforma de Afectados por la Hepatitis C a querellarse en el Tribunal Supremo contra el ministro de Sanidad del momento, Alfonso Alonso. Muchos accionistas de la propia Gilead consideran que se podría reducir el precio del medicamento para facilitar su acceso en todo el mundo y seguir ganando dinero. Es la gran pregunta que se hace el informe: “las ganancias de Gilead han sido excepcionales y no reflejan la media de las compañías farmacéuticas. Sin embargo, estas plantean la pregunta de la relevancia del modelo de negocio y las respuestas políticas”.

¿Qué hacemos?
El informe también resume algunas de las medidas políticas que se están adoptando para hacer frente a este aumento en los precios y propone algunas más. Entre las primeras se encuentran una mayor regulación del mercado de entrada de nuevos medicamentos y su aceleración (que se ha reducido casi a la mitad den los últimos 10 años) o la adopción de medidas de fijación de precios basándose en el valor de medicamento, como ocurre en el sistema de salud inglés. También la financiación pública de medicamentos cuando la investigación de estos no resulta rentable, como ocurre con algunas medicinas para combatir el cáncer.

farm 4El coste de algunos medicamentos puede excluir a muchos enfermos. (iStock)

Entre la serie de medidas propuestas por el informe se encuentran las siguientes, basadas ante todo en un “reequilibrio entre los poderes de negociación de los compradores y los vendedores en algunas áreas terapéuticas” y la incentivación del desarrollo de medicamentos huérfanos (aquellos que afectan a un sector relativamente pequeño de la sociedad y cuya comercialización, por ello, resulta poco probable). Como señala el informe, uno de los problemas en muchos mercados es que, como hemos visto, las farmacéuticas tienen mucho más poder que el consumidor a la hora de fijar precios.
“Las tendencias actuales en los mercados farmacéuticos se ven al mismo tiempo con optimismo y con preocupación”, concluye el informe. “La cantidad de medicamentos aprobados cada año, impulsada por el desarrollo de terapias dirigidas, suena prometedora”. Sin embargo, la OCDE alerta de la aparición de “un nuevo modelo de negocio” en el que “las empresas solicitan precios más altos a poblaciones pequeñas afectadas por enfermedades graves”. ¿Se podrá reaccionar a tiempo, o millones de personas sufrirán por esta falta de adecuación entre el mercado y las necesidades de los pacientes?

Por Héctor G. Barnés
Fonte: El Confidencial (ESP)

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Filósofa avalia chacina de Campinas (3)

Assassino de Campinas atirou sozinho, mas não inventou assassinato de mulheres sozinho, diz filósofa

MT 1

Wagner Souza/Futura Press
Massacre que deixou 12 pessoas mortas em Campinas, sendo 9 mulheres, chocou o país na noite do réveillon
Os primeiros minutos de 2017 ficaram marcados por um massacre que chocou o país. Em Campinas (SP), um homem invadiu a casa onde sua ex-mulher celebrava o Ano Novo com a família e começou a atirar. Ela e mais onze pessoas morreram, incluindo outras oito mulheres e o filho de ambos, de 8 anos. Em seguida, ele se matou.

Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, deixou algumas cartas e áudios para “explicar” sua atitude. Neles, chamou a ex-mulher de “vadia” por ter conseguido a guarda do filho em um processo que incluiu acusações de que ele teria abusado sexualmente da criança, condenou a Lei Maria da Penha – a qual chamou de “lei vadia da penha” -, e disse que queria “pegar o máximo de vadias da família juntas”.

A mulher teria registrado seis queixas contra ele entre 2005 e 2015 por agressão e ameaça.
“Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Más (sic) todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer! (…) A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias. As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade. (…) Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas (sic).”

Diante da atitude e da “justificativa” do assassino, muitos passaram a tratá-lo como psicopata e enxergaram o caso como algo “bizarro”, desconectado da realidade. Mas, para a filósofa Márcia Tiburi, ele não cometeu o crime sozinho.

Especialista na questão de gênero e autora de livros como As Mulheres e a Filosofia e Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero, ela alerta para o papel da sociedade na barbárie. “Ele não inventou esse assassinato das mulheres sozinho. Ele pode ter atirado sozinho, mas o que ele fez é simbolicamente muito mais grave”, afirmou ela à BBC Brasil.

“A culpa é de um sistema, de um imaginário de ódio às mulheres que deixa os indivíduos descompensados.”

Veja os principais trechos da entrevista.  MT 2                                                                         Reprodução/TV Brasil
Assassino era cidadão “destruído pelo machismo”, diz Márcia Tiburi
BBC Brasil: Nas cartas que o autor da chacina deixou, há um discurso repleto de ódio contra as mulheres, chamando todas elas de “vadias”. Dos 12 mortos, 9 eram mulheres. O que isso representa?

Marcia Tiburi: Esse elemento no discurso do assassino faz parte de um contexto mais geral, a meu ver. A gente chama isso de misoginia. Esse discurso não é novo: ele só nos choca no fato de ser tão declarado e de aparecer numa maneira tão tosca.

O caráter brusco desse discurso, que tem autorização para dizer tudo isso sem preocupação, isso é o que o torna mais chocante. Mas se você for ler discursos mais rebuscados na mídia tradicional, na Bíblia, nos textos clássicos da História, você encontra o mesmo tipo de conteúdo, a mesma estrutura simbólica de ódio às mulheres. Como há um ódio histórico aos judeus, aos negros.

O ódio no contexto do machismo é estrutural. Não tem machismo sem ódio. Todo machismo carrega em si um afeto odiento. Seja como repulsa, como inveja, como necessidade de fazer calar.

BBC Brasil: Muitos estão tratando o assassino como psicopata. O que acha disso?

Tiburi: Ele poderia ser, de fato, a partir de um ponto de vista psiquiátrico, medido como um psicopata. Mas não temos esse registro comprovado. A gente tem que tomar muito cuidado com isso, com esse diagnóstico que surge no senso comum.

O importante aqui é que do ponto de vista sociológico, filosófico, a gente não vive sozinho, a gente tem influência do meio em que vivemos. Eu diria que esse cidadão seria, no nível do senso comum, apenas um pobre coitado que realiza algo que é da ordem do desejo coletivo. É um desejo forjado por uma estrutura social machista e que nesse momento perde seu freio.

Um dos exemplos que perde o freio social, a noção da lei. Ele confronta a lei de uma maneira jocosa, interpreta a lei à luz da sua própria ignorância e usa essa ignorância como um aval, uma justificativa.

Mas ele não inventou essa matança sozinho. Ele pode ter maquinado essa chacina sozinho, mas não inventou esse assassinato das mulheres sozinho. Ele pode ter atirado sozinho, mas o que ele fez é simbolicamente muito mais grave.

MT 3                                                                                              Ag. Brasil
Para Márcia Tiburi, cultura machista é culpada pelo crime em Campinas

Podemos analisar esse lugar do encontro entre a atitude particular e um contexto percebendo a semelhança entre o discurso que ele profere e o discurso que a gente vê no senso comum. Esse indivíduo pensa a partir do senso comum. É importante perceber que as ideias não são nossas, eu tenho ideias com relação ao mundo, eu absorvo os conceitos do mundo, as ideias do mundo, e nós vivemos em um mundo machista, misógino.

Ele, em que pese sua culpa, é mais um cidadão que foi destruído pelo machismo. Não é mais vítima do que as vítimas que ele causou, mas ele é também vítima de um sistema dos quais todos nós somos vítimas. A gente não deve colocar a culpa no indivíduo, a culpa é de um sistema de um imaginário de ódio às mulheres que deixa os indivíduos descompensados.

Esse cidadão rompeu com o bom senso, com a racionalidade, mas ele estava buscando a compensação.

Eu, como professora de Filosofia, acho que as pessoas não devem nesse momento achar que elas não têm nada a ver com isso. Elas têm algo a ver com isso, nós todos temos, porque todos nós participamos de uma cultura assim. Onde nós como cidadãos estamos errando? Esse cidadão pode fazer o que fez? Ele achou que estava acima da lei.

BBC Brasil: Muitas pessoas comentaram que o autor da chacina seria uma personificação dos comentários que se lê nas redes sociais – o discurso dele traz esses elementos de ódio que encontramos nas redes. Qual é o perigo de tornar “naturais” esses discursos?

Tiburi: A naturalização faz parte da história da cultura. O feminismo irrita porque ele é um questionamento do machismo naturalizado, estrutural. Então todo o questionamento relativo àquilo que foi naturalizado incomoda.

As naturalizações servem pra acobertar alguma coisa. Nesse caso, um sistema de privilégios dos homens. Nesse sistema de privilégios, os homens não querem olhar para uma mulher como alguém de igual para igual. Então esse indivíduo assassino olhava para mãe do seu filho como uma pessoa que não tinha direito nenhum, a reduzia a uma vadia. Ele se colocava como cidadão de bem, correto e, de tão correto, acima da lei.

A grande questão pra se colocar hoje é: como nós chegamos a essa ideia de que nós podemos fazer tudo o que a gente achar certo? Ele rebaixa a cidadã, mas rebaixa (também) a lei.

Mas ele não inventou isso sozinho. Ele é uma evidenciação, uma metonímia da sociedade nesse momento. É a parte que fala pelo todo.

(3) Terceiro e último texto de uma série de avaliações sobre a chacina de Campinas.

Por Renata Mendonça
Fonte: BBC Brasil

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