“Quem aprova o Mais Médicos”.

QUEM APROVA O “MAIS MÉDICOS”.

Airton Fischmann[1]

A satisfação de parte da população, que antes não tinha acesso a um atendimento médico pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pode ser avaliada na reportagem  do jornal Zero Hora de 23 de fevereiro de 2014, intitulada “Revolução cubana nos postos de saúde”. Ao entrevistarem vários médicos cubanos e pessoas da população que receberam atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) onde estavam trabalhando, ficou expressa a aprovação pelo trabalho realizado. Os entrevistados  reconheceram a maneira atenciosa, as consultas mais demoradas, a realização de exame físico, e realização de anamnese (registro dos sintomas e história pessoal do paciente) completa. “ Os médicos brasileiros mal olham a gente”, relatou uma das entrevistadas.

O Brasil se ressente da formação de médicos qualificados para a atenção básica de saúde, principalmente em áreas afastadas ou de difícil acesso. Uma vez que a medicina de mercado oferece  condições para atendimento especializado é comum e até lógico que os estudantes de medicina visualizem (e são para isso estimulados) uma perspectiva de formação médica com qualificação em alguma especialidade. Decorrência disso é a falta de profissionais generalistas que optem por qualificarem-se em atendimento clínico geral, ou principalmente em Medicina de Família, especialidades necessárias para o trabalho em Unidades Básicas de Saúde (UBS), mais  popularmente conhecidas como Postos de Saúde (PS).

Equipes de Medicina de Família existem desde 1994, quando o começou o Programa de Saúde da Família, hoje denominado Estratégia de Saúde da Família, mas que ainda não chegou para grande parte da população brasileira. No que se refere à medicina tradicional, pode-se dizer que não existe desemprego, seja por contratos com empresas, Sindicatos, Associações, hospitais ou por convênios com planos ou seguros-saúde. Ou seja, a maioria de médicos é assalariada ou depende de planos de saúde. É comum médicos trabalhando em consultórios particulares e também ligados a vários contratos de trabalho em diferentes lugares . Mas, pode-se dizer também que há falta de médicos onde vivem as populações periféricas, em áreas deprimidas economicamente ou nos rincões mais afastados do país, onde a função pública faz-se necessária, para o atendimento gratuito das pessoas que não têm acesso a Atenção Básica.

Estima-se que a população que não pode pagar pela atenção a sua saúde, no Brasil, esteja em torno de 75%.(Cerca de 150 milhões). Essa seria a população que acorre ao Sistema Único de Saúde (SUS). Cerca de 20% dessa população, ou aproximadamente 25 a 30 milhões de pessoas são consideradas sem acesso ao SUS, dado esse que refletiu a necessidade de médicos, para o “Programa Mais Médicos” identificada por cerca de 3.000 prefeitos dos municípios brasileiros. Com a execução do Programa, o Ministério da Saúde está satisfazendo essa necessidade, colocando em cada município um ou mais médicos sejam eles brasileiros ou estrangeiros ( a maioria cubanos, mas também, portugueses, argentinos e de outras nacionalidades).

Cedo para avaliações definitivas, mas pode-se afirmar que nos primeiros meses de atuação desses médicos nas áreas mais carentes, os resultados são muito positivos. Esse tipo de atenção precoce, seguramente, vai se refletir na diminuição de demanda a centros especializados, como os hospitais, reduzindo as filas para atendimento.

Cuba foi um dos países pioneiros a trabalhar com Medicina de Família. O primeiro da América Latina. A realização de programas com o que se convencionou chamar de Equipes de Saúde da Família em praticamente todos os países sul-americanos,  baseou-se no modelo cubano. Então, não surpreende a avaliação positiva referida na citada reportagem, afinal, no que se refere aos indicadores de saúde, Cuba os apresenta como os melhores da Região das Américas.

Somente para comparar com o Brasil, citem-se alguns: a taxa de mortalidade infantil é de 4,9 óbitos para cada 1.000 menores de um ano, enquanto no Brasil é de 16,0. (Dados de 2011). O número de médicos por 1.000 habitantes em Cuba é de 7,0, enquanto no Brasil, é de 1,8. Cuba dispõe de 04 leitos hospitalares para cada mil habitantes, enquanto no Brasil esta taxa é de 2,26; o índice de alfabetização em Cuba é de 99,8 % e a escolaridade mínima é de nove anos de estudo. No Brasil o índice de alfabetizados é de 91,7% (2010).  De um país com esses indicadores sociais é que vieram os médicos entrevistados pela reportagem de ZH. Sua experiência de trabalho também incluiu serviços prestados em outros países sul-americanos e africanos. Sua profissão é a de dedicar-se exclusivamente à causa pública. Sua presença, durante  oito diárias nas UBS, realizando visitas domiciliares e atendendo de forma carinhosa a população, têm feito uma grande diferença. Por enquanto, a população beneficiada está aprovando o Programa Mais Médicos.

 

[1] Médico. Ex consultor da Organização Panamericana de Saúde. Aposentado pela Secretaria de Saúde RS.

2 comentários em ““Quem aprova o Mais Médicos”.”

  1. Não concordo com alguns posicionamentos, tais como, de que irá diminuir a demanda por atendimento especializado. Muito pelo contrário, esses médicos fazem apenas atendimento básico, deixar de encaminhar o paciente para um profissional especializado continua sendo necessário. Inclusive, aumentará o número de requisições por exames, o que o sistema não comportará. Todas as prefeituras do país aderiram ao programa porque é sabido que, caso assim não fizessem, sofreriam retaliações em outros programas do Ministerio da Saude (é só perguntar a qualquer secretario municipal de saúde). Por fim, é publico e notório que as taxas de mortalidade infantil em Cuba são manipuladas. Médicos são obrigados a alterar a idade de óbitos de crianças, sempre para mais. Aumentar o número de profissionais da saúde é necessário, mas isso só dá uma sensação de resolução do problema!

  2. “Inclusive, aumentará o número de requisições por exames”
    Apenas uma opinião, nenhuma comprovação.
    “Todas as prefeituras do país aderiram ao programa porque é sabido que, caso assim não fizessem, sofreriam retaliações em outros programas do Ministerio da Saude ”
    Inverdade absolutamente facciosa e mendaz
    “é publico e notório que as taxas de mortalidade infantil em Cuba são manipuladas.”
    Afirmação que não é pública nem notória, a não ser pelo facciosismo indeológico do missivista.
    Quem controla os Índices de saúde de toda a América é a OPAS, organização absolutamente séria e destituída de vieses corporativistas e ideológicos.

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