É tempo de semear empatia

Está na cidade, até o mês de maio, a fantástica exposição de Sebastião  Salgado – “Gênesis”. 
           A motivação para o trabalho, segundo o próprio artista foi a realização de um pedido de seu pai à Lélia Wanick Salgado, sua nora, para que o casal se envolvesse com a fazenda da família em Minas Gerais e que estava abandonada.  Lélia plantou árvores existentes na antiga fazenda e o artista pode contemplar a volta da vida. 
           Isto foi um bálsamo para o sentimento de desesperança, em relação à humanidade, de Salgado, após a vivência nos seus trabalhos anteriores ”Trabalhadores e Êxodos”.  Segundo Lélia “É possível voltar atrás e recuperar o que parecia perdido para sempre “. Salgado diz que o trabalho que fazem no Instituto Terra é “criar uma usina de sequestro de carbono” ao recuperar áreas devastadas. 
           Quem sabe a visita a essa exposição não nos inspire a tentar a recuperação do que, às vêzes, parece estar perdido nas relações humanas, fazendo um “sequestro” do individualismo que nos intoxica. 
           Voltar atrás e recuperar as origens das relações mais individualizadas deveria ser uma preocupação já nos precoces cuidados de saúde materno infantil e da educação.  Semear no momento certo, deixando que as crianças amadureçam respeitando seus tempos e adequando os espaços para que elas possam manter um ritmo próprio e normal  de desenvolvimento.  O ritmo de permitir que elas vivam cada etapa, sem tantas demandas (dos pais e de uma sociedade muito competitiva) e, principalmente, sem um “fast” ponto final, para que os adultos/cuidadores possam seguir suas vidas sem preocupações.
           Cuidar/educar uma criança é dedicar tempo e atenção a ela. Infelizmente é o que os adultos, envolvidos em suas ocupações, redes sociais, futilidades,etc., não dispõem atualmente.  
           Isto também ocorre com alguns profissionais da saúde, da educação e do próprio Estado, que devem cumprir metas, apresentar resultados e mostrar eficiência quantificada e não qualificada. 
           Os sentimentos de empatia (colocar-se nos “chinelos dos outros”, capacidade de sentir como o outros) e intersubjetividade (capacidade de  antecipar o que o outro precisa para se trabalhar em equipe ) só se desenvolvem na relação individualizada, respeitosa, amorosa com os cuidadores (pais e professores).  
           Desenvolvendo estas capacidades, um indivíduo pode se tornar uma pessoa mais feliz, saudável, integrada e produtiva na sociedade.
          Maria Helena Mariante Ferreira
          Médica e Psicóloga
          Psiquiatra e Psicoterapeuta

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