Zero Hora distorce conteúdo de pesquisa com que finalidade?

“Erro em Pesquisa” foi o título de matéria publicada pelo jornal Zero Hora, dia 5 de abril de 2014. Referia-se a um grosseiro
erro de interpretação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), sobre estudo que havia realizado e que abordava a violência sexual contra a mulher. Ao invés de 65% de “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” a porcentagem era de 26%. De qualquer modo muito alta. Mas não é esse o foco desse texto.

O Ipea, um instituto de alta credibilidade, cometeu um erro, grosseiro, mas veio a público, desculpando-se e apresentando os resultados corrigidos. Isso, tratando-se de uma instituição onde se reúnem pesquisadores com grande experiência em pesquisas.

Lembrei-me então que ano passado (2013), o mesmo jornal publicou matéria, baseada em dados publicados pelo IBGE e estampou a manchete: “Qualidade de vida (no RS) dois passos atrás”. Examinando a matéria verifiquei que havia erros de interpretação e enviei à ZH a seguinte mensagem por e-mail, na expectativa de que pudesse ser publicada.

“Sobre a Qualidade de vida no Rio Grande do Sul”

Impressionou-me a manchete de ZH de 03/08 “ Qualidade de vida dois passos atrás” e pensei que algo muito grave estaria ocorrendo , afinal, nosso Estado se caracterizava, historicamente, por manter bons índices estatísticos que atestavam a qualidade de vida. Mas ao ler o subtítulo, vi que se tratava de uma comparação , pois não estava mais no topo do ranking brasileiro. Leio então, na página 22, que essa queda no ranking soma-se “a outras recentes decepções regionais” . Quais seriam estas decepções, o texto não explica.

Recorro aos números e noto que o RS apresentava em 2010, segundo o IBGE, uma taxa de mortalidade infantil de 9,9 óbitos para cada mil nascimentos, somente superada pela taxa em Santa Catarina de 9,2 por mil. Diga-se de passagem, os únicos dois Estados do Brasil onde este indicador baixou para a casa de um dígito. Ou seja, duas notícias excelentes.

Essa introdução tornou-se necessária para justificar a crítica que faço ao erro interpretativo da editoria de ZH, com uma manchete totalmente equivocada. A análise de indicadores de saúde deve contemplar, necessariamente, estudos de tendência, isto é: como a situação estava antes, o que encontramos agora e o que se pode estimar para o futuro.

Na mesma reportagem há um comentário que houve queda na mortalidade infantil e aumento na expectativa de vida ao nascer, mas que o Rio Grande do Sul não é mais o primeiro do ranking.

Afinal o que é mais importante? Observar-se que os indicadores de saúde revelam constantes melhorias no passar dos anos, ou estabelecer-se comparações de quem está na primeira colocação? Trata-se de uma competição de indicadores? Qual o significado da diferença de 9,9 para 9,2 por mil? A qualidade de vida do gaúcho, não está dois passos atrás, ao contrário, está um passo a frente, pois houve melhoria pela avaliação da tendência dos indicadores.

Os dois estados do extremo-sul do Brasil melhoraram, e em nenhum dos dois a qualidade de vida decresceu. Seriam resultados para motivo de júbilo, sem ufanismo é claro, e não para a equivocada avaliação do jornal. A manchete correta seria, no meu entendimento, “Indicadores do IBGE mostram que a qualidade de vida no RS continua melhorando”. No meu entendimento é a única interpretação possível, considerando-se os indicadores em análise”.

Talvez esse texto não merecesse ou não pudesse ser publicado, pois devem ser inúmeros os artigos enviados e uma seleção torna-se necessária. Se erram, muitas vezes não admitem, principalmente, se a interpretação é politicamente tendenciosa. O que prevaleceu foi a formação de opinião, que induziu o leitor a erro de interpretação. Em momento algum ZH publicou nota esclarecendo que a análise da pesquisa estava completamente equivocada.


Airton Fischmann, Médico de Saúde Pública. Ex-consultor da Organização Panamericana da Saúde.

A quem interessa a legalização da maconha ?

No memorável poema “Morte e vida severina” o poeta João Cabral de Melo Neto coloca na boca do mestre Carpina o verso “difícil defender,
só com palavras, a vida”. Lembrei-me dele ao ler o discurso feito, na última assembleia geral da ONU, pelo Presidente do Uruguai, José Mujica. Trata-se de uma bela peça de oratória que foi muito elogiada, inclusive por amigos meus.
Menos badalado foi o encontro que Mujica teve, na véspera de seu discurso, com o megainvestidor George Soros. O motivo do encontro, pelo que li, na ocasião, nos periódicos uruguaios, foi para discutirem a política sobre drogas que o Presidente acaba de implantar no país vizinho.
No discurso fez um alerta contra o consumismo, na entrevista, aparentemente não se preocupou que o consumo, ao menos de maconha, aumentará no Uruguai, apesar de 63% da opinião pública ser contra.
Terminada a entrevista o megainvestidor elogiou a coragem de Mujica de “fazer do Uruguai um laboratório para o mundo”. E, acrescento eu, dos uruguaios, cobaias.
Neste grande debate internacional sobre diferentes formas de liberar a maconha está ficando cada vez mais claro quem são os protagonistas. De um lado, os profissionais da saúde a alertar que em todas as experiências internacionais ocorridas até agora houve aumento de consumo da droga. A ABEAD (Associação brasileira de estudos sobre o álcool e outras drogas), em boa hora, dedicou-se ao tema e evidenciou que isso ocorreu em Portugal, Reino Unido, Austrália, Holanda e nos Estados Norte-americanos que adotaram posturas liberalizantes. Do outro lado, além de usuários e de alguns defensores do “Direito de se drogar”, os demais protagonistas são porta vozes de interesses econômicos, seja de megainvestidores que vislumbram no negócio da maconha uma nova oportunidade de ganhar dinheiro, sejam empresas estabelecidas que já detém conhecimento na exploração de outro tipo de cigarro.
Portanto, não me parece que estejamos frente a um debate romântico intelectual sobre direitos, mas sim se somos a favor ou contra que o capitalismo selvagem passe a explorar este novo negócio mesmo que em detrimento da saúde da população. Afinal, há um século, a indústria do tabaco anunciava que cigarro fazia bem para a garganta e para afecções pulmonares como bronquites e asma. Agora se diz que maconha faz bem para determinadas doenças!
É mesmo difícil defender,
só com palavras, a vida.

Dr. Sérgio de Paula Ramos
Psiquiatra e psicanalista,
Doutor em medicina pela UNIFESP.
Membro do Conselho Consultivo da ABEAD.
Coordenador técnico da Villa Janus.

Conduta Discriminatória motiva correspondência entre psiquiatras.

Caro Telmo.
Obrigado pelos teus comentários sobre meu artigo na ZH de 5/4/14.
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4466577.xml&template=3898.dwt&edition=24052&section=1012
Foste o responsável por ele (aliás como és pelo “tamanho do progresso publicado sobre o assunto”). Como idealizador e condutor do ‘Projeto Discriminação’ (ABP, 2007), solicitaste minha colaboração numa Mesa Redonda sobre o tema. Estudei e elaborei um trabalho, mas como a Mesa não saiu, não se concretizou minha contribuição.
O artigo teve essa intenção. Deu trabalho, pois o espaço era restrito. Mas deu para colocar os pontos psíquicos essenciais da Conduta Discriminatória e do teu Projeto. A começar por Freud, que foi o 1º a perceber e publicar tais aspectos: agressão narcisista/apocalíptica e a ‘denúncia’ da mesma como forma de inibi-la (fez o mesmo em relação ao suicídio e histeria).
Para finalizar (esta é minha colaboração com teu Projeto, pois novos compromissos me chamam).
Eis, abaixo, outra solicitação tua (formular um conceito para CD):
CD: Ato maldoso e agressivo pelo qual o sujeito atua fantasias de destruição da totalidade dos outros com vistas a um mundo narcisista pleno.
Parabéns pelo Projeto e pela condução, estimulando colegas, trabalhos e instituições a se voltarem para o (grave) problema.
Caso tu consigas alguma inserção governamental para o Projeto, além da psiquiátrica, acredito que terás melhores condições de desenvolvê-lo.
Um abraço do
Mabilde.

Mabilde
A tua sensibilidade e engajamento ajudarão a atenuar a repetição/manutenção do “grave problema” da Conduta Discriminatória.
E, possivemente, motivarão outros colegas a se interessarem pelo tema.
Freud foi, sem dúvida, um dos grandes inspiradores para pensarmos e desenvolvermos estas idéias.
O Projeto Discriminação tem como objetivo básico a criação de uma terceira instância inibitória da CD.
Gostei muito quando usastes, no artigo citado acima, a expressão “o homem é o lobo do homem”.
Cujo significado, em termos individuais, equivale a uma outra, mais ampla, de Freud.
“Todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização”.
Será que estas duas expressões ajudarão a pensar/ampliar/traduzir o conceito que sugeristes p. a CD?
O discriminador é o lobo do homem e inimigo da civilização?
Abraço
Telmo

Luiz Carlos Mabilde
Médico psiquiatra.
Psicanalista

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra.
Psicoterapeuta.

Seminário na UNICEF sobre Desenvolvimento Cerebral

Os cuidados com o neurodesenvolvimento têm sido de interesse de instituições que investem na implementação de programas que visam a promoção de um desenvolvimento integral e integrado das crianças, especialmente na faixa etária dos 0 aos 6 anos.
Com este objetivo a UNICEF realizará em sua sede, em Nova York, no dia 16 de abril próximo, Seminário sobre: “A Perda das Interrelações: Compreendendo as Múltiplas Influências para o Desenvolvimento Cerebral”.
Estará organizado em 4 painéis que abordarão desde a “estrutura cerebral, suas distorções ocorridas pelas vivências diuturnas, como promover o seu pleno desenvolvimento e a construção futura de cérebros excelentes”.
Busca-se deste modo explorar as correlações entre os múltiplos conhecimentos vindos da investigação neurocientífica e produzidas por áreas diversas da ciência (nutrição, neurologia, educação, etc) visando a melhor compreensão das suas influências, negativas ou positivas, e seus efeitos no desenvolvimento e funções cerebrais.
Recebi este honroso convite e estarei participando do painel sobre “Enriquecimento Cerebral – como promovê-lo ? ”. Trata-se de uma tarefa bastante complexa. São muitas as informações advindas de pesquisas.
Elas oferecem o substrato para a organização de programas visando a promoção do desenvolvimento. Mesmo assim, “o como” organizar e desenvolver programas que favoreçam o desenvolvimento infantil ainda permanece uma tarefa desafiadora e instigante.
Com expertise, profissionais capacitados, recursos financeiros adequados e políticas públicas específicas, certamente, seguiremos avançando no caminho da realização dessas propostas.
Estaremos, desta forma, prevenindo alterações comportamentais tão frequentes em crianças e adolescentes, e oferecendo as possibilidades de um futuro com melhor inserção social e realização profissional.

Saul Cypel, médico
Professor livre docente de neurologia infantil.
Faculdade de Medicina – UNIFESP

Quem são os responsáveis pelas altas taxas de cesarianas

O recente caso da cesariana executada contra a vontade da gestante, levou-nos a algumas lembranças e reflexões.No caso da gestante de Torres, sem dúvida, a indicação médica foi a mais segura para a mãe e para o nascituro. Mas o evento que afinal teve um bom desfecho fez-nos lembrar de congressos de ginecologia e obstetrícia nos quais participamos onde era freqüente o debate do tema “ Cesariana a pedido “. Perguntava-se então, se seria correto, sob o ponto de vista obstétrico, finalizar-se gestação por uma intervenção cirúrgica abdômino-uterina, tendo-se como único parâmetro a solicitação da gestante. O motivo da discussão prendia-se ao fato de que o PA rto por via vaginal seria mais doloroso, demorado, cansativo ( para a paciente e para o obstetra) e causador de alterações na elasticidade vaginal.
E, dizia-se então, que estes fatores induziam as gestantes solicitar a via alta do parto em detrimento da via baixa. Este tipo de indicação de cesariana, na verdade, era uma solução errônea sob o ponto de vista obstétrico, e só explicável pelo nível social das pacientes que a exigiam. Em geral, eram mulheres de classes altas, que ciosas de sua aparência corporal, da valorização de seus desempenhos sexuais que seriam preservados ao manter suas musculaturas perineal e vaginal em perfeita forma funcional. Tal raciocínio, era e é, embasado na idéia de que a satisfação sexual e a obtenção de afetos depende somente de um desempenho sexual de excelência máxima.
A afirmação de que as discussões nos fóruns médicos do tema “ cesariana apedido “ era problema de mulheres de elevada categoria sócio-econômica, está comprovado no fato de que na rede privada com ou sem planos de saúde, as taxas de cesariana chegam a 80%. Já nos hospitais e maternidades da rede pública, as taxas de cesariana caem para 27.5% em estudos realizados pela Agência Nacional de Saúde.
Estes dados configuram duas inevitáveis constatações:
a primeira é de que as gestantes provindas de famílias de maior renda, não somente são ouvidas em suas reivindicações como também dirigem e indicam o tipo de atendimento que desejam, mesmo sem critérios médicos adequados e corretos;
a segunda – e esta talvez de maior gravidade – é a de que no decorrer da gestação, no período pré-natal, não se estabelece um esclarecedor, didático e empático relacionamento médico-paciente. E na ausência deste relacionamento, as gestantes não são devida e adequadamente esclarecidas sobre vantagens, desvantagens , indicações e contra-indicações dos partos cirúrgicos-abdominais e dos nascimentos por via vaginal e portanto não cirúrgicos. E, principalmente dos respectivos riscos para as mães e para os nascituros. Diversos estudos efetuados em maternidades de vários países do mundo, provam à saciedade que a abordagem cirúrgica, as cesarianas enfim, são causadoras de maiores morbidade e mortalidade materno-fetais e suas consequências poderão ser estendidas por um longo e definitivo período de tempo.
Os gráficos a seguir, são deveras esclarecedores sobre a errônea e persistente conduta obstétrica adotada em nosso país.

Gráfico1cesarea

Gráfico2cesarea

Pela Organização Mundial da Saúde, a recomendação é de que as cesarianas representem 15% dos partos. Mesmo nos hospitais públicos, o Brasil tem um índice muito alto de partos cesáreos.
Este segundo gráfico nos deixa preocupados pelo fato de que no Brasil, 99% dos partos cirúrgicos são realizados por médicos e em ambiente hospitalar e , na outra extremidade, na Holanda, 50% dos partos são finalizados por via vaginal, realizados por parteiras e em ambiente caseiro. Diante dessa realidade a pergunta que deve ser feita é a seguinte: qual é a influência dos médicos nas decisões para que se execute tão altas taxas de cesariana?

Franklin Cunha, Médico gineco-obstetra, membro da Academia Riograndense de Letras
Airton Fischmann, médico de saúde pública, ex-consultor da Organização Panamericana da saúde

Progressos na inibição da Conduta Discriminatória

Os últimos dias marcaram um avanço nas idéias publicadas sobre a conduta discriminatória.
Principalmente no sentido/entendimento que apresentamos aqui no blog.
Que são as mesmas do Projeto Discriminação que desenvolvemos, anos atrás, na Associação Brasileira de Psiquiatria.

Lillian Thuram, ex-jogador de futebol francês em entrevista na Globo, disse.
…”desde cedo se ensine às crianças que haverá, sim, pessoas que as julgarão pela cor da pele, mas que o problema está nessas pessoas”.
Ele não especificou qual o problema.
Muitos são da opinião que o “problema” é emocional.

Javier Miranda, Diretor Nacional de Direitos Humanos da República do Uruguai, em entrevista ao Sul21.
Ao comentar sobre preconceitos, discriminações, condutas discriminatórias:
“Precisamos diminuir a pressão penal”.
“Crer que tudo se resolve com legislação penal não é um avanço”.
“A violência e o crime têm outras raízes que não se combatem exclusivamente com legislação penal”
“Não vamos derrotar o preconceito com criminalização”.
“Esse pensamento conduz à criminalização do que não é criminalizável: os afetos, as identidades e as individualidades”.
Se a conduta discriminatória é um problema emocional.
Se ela causa sofrimento emocional nos discriminados.
A Psiquiatria e a Psicologia devem se apropriar do estudo desse comportamento.
E criar outra instância inibitória desta conduta causadora de sofrimento humano.
E não esperar que a legislacão penal substitua, p. ex., a medicina preventiva.

E por último o belo artigo “Conduta discriminatória”, Zero Hora, 5/4/14.
Escrito pelo colega e parceiro em muitos eventos e congressos.
Luiz Carlos Mabilde, psiquiatra e psicanalista.
Onde se alia às idéias expostas acima e também defende a origem emocional desta conduta escrevendo:
“Encará-la como produto do preconceito associado a um distúrbio mental seria, além do enquadramento penal, outra forma de inibi-la”.

Depois de dez anos de “militância” na questão das discriminacões.
Acompanhando episódios de discriminação, publicações científicas e leigas.
Participando de vários eventos sobre o tema e sua divulgação na imprensa.
Como organizador ou como convidado em congressos.
Em outras apresentando nossas idéias para algumas prefeituras.
Nesse tempo de dedicação ao assunto, não tinha visto tamanho progresso publicado na nossa imprensa.

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Paulo Pimenta: “Brasil está de joelhos para a indústria da cerveja, agências de publicidade e mídia

 

por Conceição Lemes

O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, por ano fabrica aproximadamente 12 bilhões de litros.

Porém,  a única lei brasileira que estabelece restrições à propaganda de bebidas alcoólicas –a nº 9.294, de 15 de julho de 1996 –, sancionada pelo ex-presidente Fernando  Henrique Cardoso,deixa de fora as cervejas.

“Na época, o Congresso foi tolerante com a cerveja”, relembra o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS). “O parlamento sofreu um lobby muito forte e cedeu à pressão das empresas de bebida, das agências de publicidade e de atores, esportistas e cantores, garotos propagandas das grandes marcas.”

Para corrigir este equívoco na lei 9.294 de 1996, Pimenta tem um projeto de lei em tramitação no Congresso — o 703/2011 –, que estabelece restrição à publicidade de cerveja como medida para redução de acidentes de trânsito e mortes de jovens.

” O Congresso Nacional precisa ter coragem de enfrentar o ‘lobby pesado’ dos setores que impedem a aprovação de uma legislação sobre o tema no Brasil: a indústria de cerveja, as agências de publicidade e a mídia”,  afirma Pimenta. “O Brasil inteiro está de joelhos diante desses três segmentos de grande capital econômico.”

Acontece que o sucesso do mercado brasileiro da cerveja é diretamente proporcional ao aumento do prejuízo do sistema de saúde e às mortes de trânsito.

Em 2010,  a Organização Mundial da Saúde (OMS), em sua Assembleia Geral, aprovou a restrição da publicidade de cerveja como solução estratégica para diminuir a violência no trânsito, uma das principais causas de mortes no mundo. Dados da OMS indicam que o álcool causa quase 4% dos óbitos no mundo. Os jovens, especialmente do sexo masculino, são as principais vítimas.

No Brasil, o álcool está relacionado a 21% dos acidentes  no trânsito. É o que revela estudo do Ministério da Saúde, que mostra também que 49% das pessoas que sofreram algum tipo de agressão consumiram bebida alcoólica. Homens de 20 a 39 anos são as principais vítimas.

Essa pesquisa do Ministério da Saúde também aponta que:

* O consumo do álcool tem forte impacto nos hospitais públicos, mais especificamente nos atendimentos de urgência e emergência do Sistema Único de Saúde (SUS).

* Uma em cada cinco vítimas de trânsito atendidas nos prontos-socorros brasileiros ingeriram bebida alcoólica.

* Entre as pessoas envolvidas em acidentes de trânsito, 22,3% dos condutores, 21,4% dos pedestres e 17,7% dos passageiros apresentavam sinais de embriaguez ou confirmaram consumo de álcool. Entre os atendimentos por acidentes, a faixa etária mais prevalente foi a de 20 a 39 anos (39,3%).

“A própria indústria da cerveja não admite a relação entre a publicidade, o consumo e as mortes no trânsito”, critica Paulo Pimenta. “Além disso, as orientações do Conar [Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária] são frequentemente desrespeitadas.”

“As propagandas abusam do apelo à sexualidade, de símbolos nacionais ou regionais para criar maior identificação com os consumidores e reforçam a ideia equivocada de que quem bebe são pessoas com êxito profissional e pessoal, normatizando o consumo de álcool no país”, critica o deputado. “Além disso, o Conar é conivente com publicidade de cerveja na mídia brasileira. Daí, ser indispensável uma lei que proíba a propaganda de cerveja.”

Reproduzido do BLOG DA SAÚDE de Conceição Lemes em VIOMUNDO