Quem são os responsáveis pelas altas taxas de cesarianas

O recente caso da cesariana executada contra a vontade da gestante, levou-nos a algumas lembranças e reflexões.No caso da gestante de Torres, sem dúvida, a indicação médica foi a mais segura para a mãe e para o nascituro. Mas o evento que afinal teve um bom desfecho fez-nos lembrar de congressos de ginecologia e obstetrícia nos quais participamos onde era freqüente o debate do tema “ Cesariana a pedido “. Perguntava-se então, se seria correto, sob o ponto de vista obstétrico, finalizar-se gestação por uma intervenção cirúrgica abdômino-uterina, tendo-se como único parâmetro a solicitação da gestante. O motivo da discussão prendia-se ao fato de que o PA rto por via vaginal seria mais doloroso, demorado, cansativo ( para a paciente e para o obstetra) e causador de alterações na elasticidade vaginal.
E, dizia-se então, que estes fatores induziam as gestantes solicitar a via alta do parto em detrimento da via baixa. Este tipo de indicação de cesariana, na verdade, era uma solução errônea sob o ponto de vista obstétrico, e só explicável pelo nível social das pacientes que a exigiam. Em geral, eram mulheres de classes altas, que ciosas de sua aparência corporal, da valorização de seus desempenhos sexuais que seriam preservados ao manter suas musculaturas perineal e vaginal em perfeita forma funcional. Tal raciocínio, era e é, embasado na idéia de que a satisfação sexual e a obtenção de afetos depende somente de um desempenho sexual de excelência máxima.
A afirmação de que as discussões nos fóruns médicos do tema “ cesariana apedido “ era problema de mulheres de elevada categoria sócio-econômica, está comprovado no fato de que na rede privada com ou sem planos de saúde, as taxas de cesariana chegam a 80%. Já nos hospitais e maternidades da rede pública, as taxas de cesariana caem para 27.5% em estudos realizados pela Agência Nacional de Saúde.
Estes dados configuram duas inevitáveis constatações:
a primeira é de que as gestantes provindas de famílias de maior renda, não somente são ouvidas em suas reivindicações como também dirigem e indicam o tipo de atendimento que desejam, mesmo sem critérios médicos adequados e corretos;
a segunda – e esta talvez de maior gravidade – é a de que no decorrer da gestação, no período pré-natal, não se estabelece um esclarecedor, didático e empático relacionamento médico-paciente. E na ausência deste relacionamento, as gestantes não são devida e adequadamente esclarecidas sobre vantagens, desvantagens , indicações e contra-indicações dos partos cirúrgicos-abdominais e dos nascimentos por via vaginal e portanto não cirúrgicos. E, principalmente dos respectivos riscos para as mães e para os nascituros. Diversos estudos efetuados em maternidades de vários países do mundo, provam à saciedade que a abordagem cirúrgica, as cesarianas enfim, são causadoras de maiores morbidade e mortalidade materno-fetais e suas consequências poderão ser estendidas por um longo e definitivo período de tempo.
Os gráficos a seguir, são deveras esclarecedores sobre a errônea e persistente conduta obstétrica adotada em nosso país.

Gráfico1cesarea

Gráfico2cesarea

Pela Organização Mundial da Saúde, a recomendação é de que as cesarianas representem 15% dos partos. Mesmo nos hospitais públicos, o Brasil tem um índice muito alto de partos cesáreos.
Este segundo gráfico nos deixa preocupados pelo fato de que no Brasil, 99% dos partos cirúrgicos são realizados por médicos e em ambiente hospitalar e , na outra extremidade, na Holanda, 50% dos partos são finalizados por via vaginal, realizados por parteiras e em ambiente caseiro. Diante dessa realidade a pergunta que deve ser feita é a seguinte: qual é a influência dos médicos nas decisões para que se execute tão altas taxas de cesariana?

Franklin Cunha, Médico gineco-obstetra, membro da Academia Riograndense de Letras
Airton Fischmann, médico de saúde pública, ex-consultor da Organização Panamericana da saúde

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