Sua Vida Daria Um Filme

 

Quantos o teriam conhecido? Muitos? Poucos? Na área da saúde publica brasileira e internacional, posso garantir que quase todos.

Médico, sanitarista, epidemiologista.

Uma personalidade inesquecível. Um humanista.

Estou me referindo a Claudio Marcos da Silveira

No dia de sua despedida, Marquinhos, seu filho, disse: a vida de meu pai daria um filme.

Cresceu na periferia de Porto Alegre, e desde jovem trabalhou para compor a renda familiar. Nos anos de 1960, começou seus estudos em medicina. Nessa época iniciou a fazer política estudantil e como vice-presidente do Centro Acadêmico XXII de Março (C.A) da então Faculdade Católica de Medicina é destituído de seu cargo e detido pelo golpe militar de 1964. Chegou a prestar depoimento no antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), passagem muito bem descrita no livro de Eduardo de Azeredo Costa (então o presidente do C.A.), “50 Anos Dessa Noite”. O Pai de Eduardo era o famoso médico e professor, Rubens Mena Barreto Costa, ex-militante do PCB e homem que desfrutava de grande amizade com Leonel Brizola. O Arcebispo Dom Vicente Scherer, era paciente do Dr. Rubens. Isso explicaria a liberação da dupla de estudantes progressistas das “garras” do DOPS.

Foguinho, esse o seu apelido na Faculdade. Os cabelos cor de fogo, que no futuro iriam rarear, o identificavam facilmente. Colega, amigo e solidário. A solidariedade é algo que o acompanharia por toda a vida. Cinco ou seis anos mais velho que a maioria dos seus colegas de turma e com alguma experiência de vida, lhe conferiram o merecido rótulo de paizão. Sempre disposto a ajudar e a participar das causas mais “cabeludas”.

Passado o “episódio DOPS”, o brizolista Claudio Silveira, não abandonou a participação política, sempre em busca de horizontes mais dignos que ajudassem a acabar com a ditadura militar implantada no Brasil.

No entanto, o Curso de Medicina aproximava- se de seu epílogo e havia que enfrentar uma nova realidade: a prática da medicina. Decidiu-se pela psiquiatria e cursou residência médica nessa especialidade no Hospital Psiquiátrico São Pedro em 1968 e 1969.

Mas, o seu comprometimento com o social       e a importância que dava à saúde coletiva,  e aos componentes sociais e econômicos na determinação da  saúde e da doença, o levaram para a Saúde Pública. A Campanha de Erradicação da Varíola no Brasil e especificamente no Rio Grande do Sul, como parte dos esforços mundiais para a Erradicação da Varíola foi um chamamento maior. Abandonou a psiquiatria e ingressou no quadro de funcionários da Secretaria da Saúde (SES) em um Convenio que o Estado realizava com A Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP) do Ministério da saúde.

Começava o que seria a grande meta de sua vida profissional: o trabalho de campo, junto às comunidades mais carentes sempre com a máxima de que “é melhor prevenir do que remediar”.

Como parte da política de capacitação de pessoal da SES cursa em 1970 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Ao regressar assume provisoriamente a  direção da Unidade de Vigilância Epidemiológica em substituição ao Dr. Clovis Heitor Tigre que realizava sua especialização no exterior.

Deixou então registrada sua primeira grande atuação na saúde pública: coordenou a primeira vacinação em massa contra a poliomielite no Rio Grande do Sul, e realizada em muito curto espaço de tempo. Os efeitos se fariam observar com a acentuada diminuição dos casos nos anos seguintes. Futuramente, essa atividade se transformaria nos “Dias Nacionais de Vacinação”.

Viajou por todo o Estado, inicialmente, investigando surtos de varíola e casos de poliomielite. Esse tipo de trabalho não tinha dia e hora para terminar. Acabava quando não havia mais pistas ou a fonte do surto era identificada.

Mais tarde, em 1975, assumiu a direção do Instituto de Pesquisas Biológicas, modernamente conhecido como Laboratório Central do Estado, onde permaneceu como diretor até 1978. Aqui vale a pena abrir um parêntesis: Claudio era um estudioso  e um consumidor voraz de livros. Ainda quando estudante  prestou concurso para o Estado e foi aprovado como Auxiliar de Laboratório de Toxicologia do Instituto Médico Legal. Essa familiarização com a bioquímica, farmacologia e citologia conhecimentos básicos para o entendimento da  toxicologia facilitaram a sua identificação com um perfil adequado ao cargo de Diretor de IPB, claro, somado as suas excelentes capacidades gerenciais. Não foi surpresa, que, embora militante da Saúde Coletiva, fizesse seu mestrado na UFRGS, em Ciências Biológicas.

Inicia sua experiência como consultor da OPS/OMS em países da América Latina, para avaliar a erradicação da varíola.

Ainda restavam vários países na África e na Ásia onde a doença era endêmica. A Organização Mundial da Saúde necessitava especialistas com experiência de campo e Claudio Silveira é contratado como consultor para trabalhar em Bangladesh e posteriormente na Somália. Nesses países viajou até os mais longínquos rincões, para a identificação de casos e vacinação de contatos, deslocando-se nas mais adversas condições, de jeep, a cavalo, barco e a pé. Futuramente, seria agraciado pela OMS com a honraria da “Ordem da Agulha Bifurcada”.

Politicamente engajado, coordenou a equipe que elaborou o Plano de Saúde da candidatura de Alceu Collares para a Prefeitura de Porto Alegre, sendo o seu Secretário Municipal de Saúde, no primeiro ano da administração.

Mas, enfrentar desafios era uma de suas muitas virtudes. Aceitou o convite da Organização Panamericana da Saúde (OPS), para prestar consultoria à Superintendência de Campanhas (SUCAM) do Ministério da Saúde, à época em que José Fiusa Lima era o diretor. Desta vez, a malária era o alvo. Entre idas e vindas, durante seis meses, embrenhou-se pela selva amazônica buscando elos na cadeia epidemiológica que explicassem melhor o comportamento da doença no ser humano, uma vez que toda a ênfase era dada somente à eliminação do mosquito. Como quase todos que se dedicavam a essa tarefa, adquiriu a doença, da qual se recuperou.

Sua experiência o levou a trabalhar como consultor permanente da OPS, com sede em Washington, como epidemiologista do Programa Ampliado de Imunizações (PAI). Além de assessorar na condução da erradicação da poliomielite, Claudio Silveira coordenou o Programa que visava à eliminação do tétano neonatal e de outras doenças abrangidas pelo PAI. Durante dez anos viajou pelo continente americano, apoiando os Ministérios de Saúde. Também foi consultor externo para a avaliação do Programa de erradicação da Poliomielite na Índia.

O jeito simples, o diálogo fácil, e o grande conhecimento técnico o tornaram um consultor altamente requisitado pelos governos latino-americanos e o anuncio de sua chegada aos países despertava uma expectativa muito favorável nos funcionários dos Ministérios de Saúde.

Mesmo depois de sua jubilação pela OPS, continuou sendo convidado para diversas consultorias de curto-prazo, tanto no Brasil, como no exterior. Em 2003 foi contratado pela OMS para revisão de dados clínicos e epidemiológicos na América Latina e no Caribe para a determinação da segurança clínica no diagnóstico da caxumba. Suas últimas consultorias internacionais foram no México e em Cuba para avaliação do Programa de Imunizações.

Há quase dois anos o Claudio nos deixou, quando o nosso grupo de antigos colegas e companheiros, aposentados, se reunia para discutir sobre políticas de saúde e, imodestamente, sugerir soluções para os intrincados meandros da política nacional e internacional. Ainda não havia sido lançado, pelo Ministério da Saúde, o “Programa Mais Médicos”, na defesa do qual estou certo que ele se engajaria.

Mais do que suas qualidades técnicas e humanas que tentei descrever de forma muito resumida, Claudio foi um pai maravilhoso, testemunha que sou do convívio de mais de 40 anos com sua querida esposa Rosilda e seus filhos Eduardo e Marcos.

Fica faltando o filme, para isso precisaremos de um cineasta.

O “trailler”, já o temos.

Extraído do site : http://imagempolitica.com.br/site/.

Airton Fischmann, médico,

Mestre em Saúde Pública,

Ex- consultor da Organização Panamericana da Saúde.

 

Mulher é vítima e cúmplice na violência conjugal. Mas não culpada.

 

 

 

“Vítima ou Cúmplice? Caraterização da mulher vítima de violência conjugal na região de Lisboa e Vale do Tejo”

Esse é o título da tese de mestrado do psicólogo forense Mauro Paulino pela Universidade Nova de Lisboa.

Foi realizado através de entrevistas com 76 mulheres e análise de 458 processos de violência doméstica do Instituto Nacional de Medicina Legal.

“Em média, as vítimas demoram 13 anos até conseguirem terminar uma relação agressiva “, disse M. Paulino em entrevista à Agência Lusa de Notícias.

“As crenças religiosas tem uma forte influência na forma como as vítimas percebem e vivem a relação”.

“Isto determina um maior tempo de permanência de uma mulher na relação”.

“As mulheres católicas facilitam, banalizam mais a violência dos que as restantes, aceitando o seu papel na relação agressora, como se o facto de serem católicas fizesse com que banalizassem a violência, atribuindo a culpa dessa violência a elas próprias”, apontou.

No entanto, para o investigador, a importância da crença diminui tanto mais quanto maior for o nível de escolaridade.

“A escolaridade influencia no sentido de haver menos tolerância a qualquer tipo de violência, não aceitando algumas desculpas que as vítimas com menos escolaridade tendem a aceitar”, explicou.

Em 81,6% dos casos, as mulheres admitiram que os filhos assistiram aos atos de violência de que foram alvo, sendo que os comportamentos mais frequentes dos filhos foram chorar (72%), apoiar e dar razão à vítima (48%) e incentivar a separação (37%).

Aliás, 26 mulheres (34,2%) revelaram que os filhos foram a razão para manter a relação conjugal, vindo em segundo lugar (18,4%) o facto de ainda gostarem do agressor.

Na maior parte dos casos que o investigador estudou, a violência começou no namoro e o casamento não revelou ser fator de mudança, muito pelo contrário, já que “as agressões continuaram a acontecer e tenderam a agravar”.

Sobre o grau de sofrimento provocado pelas agressões, apontou que são as psicológicas aquelas a que “as vítimas atribuem um maior nível de sofrimento”.

Em sua opinião, esta constatação deita por terra a “crença de que só aquilo que deixa marca física é que é uma lesão ou uma agressão grave”.

O investigador chegou também à conclusão de que as vítimas demoram muito tempo a pedir ajuda e que, num número significativo de casos, pedem ajuda à família, mas esta nem sempre apoia.

Em relação às 76 mulheres entrevistadas, a maioria (85%) era de nacionalidade portuguesa, com estudos ao nível do 3.º ciclo (35,5%), casadas ou em união de facto (40,8%), desempregadas (32,9%), com idades entre os 18 e 82 anos.

Mostraram dificuldade em tomar decisões sozinhas (57,9%), em iniciar projetos ou fazer coisas por sua conta e quase metade (48,7%) revelou não saber lidar com o facto de estar sozinha.

Em 93,4% dos casos foram agredidas repetidamente, entre agressões físicas (80,26%), agressões psicológicas (89,47%) e agressões sexuais (32,89%).

Foram 34 as mulheres agredidas fisicamente durante a gravidez e cinco acabaram abortando.

Em declarações à agência Lusa, Mauro Paulino defendeu que a mulher que é agredida tanto é vítima como cúmplice, mas fez questão de clarificar que isso não significa que esteja a defender que a mulher é de alguma forma culpada.

“Enquanto técnicos e profissionais temos de honrar a ciência e a ciência é fria ao ler os dados. Então, temos de responsabilizar uma mulher que fica 13 anos numa relação violenta”, disse.

“É claro que compreendemos o contexto violento, ameaças de morte, essas questões todas, mas ainda assim temos de mostrar a estas senhoras que existe um apoio social, técnicas de intervenção que lhes permitem sair daquela situação”, acrescentou.

Defendeu, assim, a necessidade de se ir além de uma intervenção do ponto de vista social, partindo para uma intervenção mais profunda, ao nível da parte psicológica.

“A investigação mostra-nos que todos temos determinados padrões de relacionamento que se não forem alterados, faz com que esta vítima saia de uma relação e muito provavelmente vá procurar um outro companheiro com as mesmas características”, explicou.

Essa intervenção passa por explicar à vítima que “o entendimento que ela tem de si e da situação potencializa a relação violenta e determina que volte a entrar numa outra relação violenta”.

“Aquilo que acontece num processo psicoterapêutico não é mudar o mundo, é transformar a forma como a pessoa entende a si, aos outros e aos eventos da sua vida. Quando isto se consegue alterar, vai mudar o tal padrão de relacionamento”, referiu.

Com base nos dados do estudo, Mauro Paulino concluiu que o que está a ser feito em matéria de intervenção “é pouco” e defendeu mais ação ao nível da prevenção, sustentando que a violência doméstica é um problema de Saúde Pública.

“Está comprovado que as vítimas vão mais vezes aos hospitais, estão mais tempo internadas, são pessoas que produzem menos e isto tem também uma vertente económica”.

No entender do investigador, há também um completo desfasamento entre os horários de funcionamento dos gabinetes e linhas de apoio, apontando que muitos funcionam das “nove à uma e das duas às cinco”, quando a maior parte das agressões acontecem ao fim-de-semana e à noite, principalmente entre as 19:00 e as 24:00.

Questionou igualmente a formação dos agentes públicos, dando como exemplo o caso de uma mulher que pede ajuda às autoridades, vai para uma casa abrigo e depois volta para o marido.

“Quando voltou a pedir ajuda, os polícias, à frente dela, fizeram apostas para ver quanto tempo é que ela permaneceria na casa abrigo”, contou.

Mauro Paulino defende, também, uma intervenção nas escolas porque o estudo permitiu constatar que muitas mulheres não se reconhecem como vítimas quando sofrem a primeira agressão, o que faz com que desvalorizem a situação e não solicitem ajuda.

* Matéria reproduzida, adaptada e “traduzida” parcialmente de vários jornais portugueses.

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Caro Telmo.

Obrigado pelos teus comentários sobre meu artigo na ZH de 5/4/14.

http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4466577.xml&template=3898.dwt&edition=24052&section=1012

Foste o responsável por ele (aliás como és pelo “tamanho do progresso publicado sobre o assunto”). Como idealizador e condutor do ‘Projeto Discriminação’ (ABP, 2007), solicitaste minha colaboração numa Mesa Redonda sobre o tema. Estudei e elaborei um trabalho, mas como a Mesa não saiu, não se concretizou minha contribuição.

O artigo teve essa intenção. Deu trabalho, pois o espaço era restrito. Mas deu para colocar os pontos psíquicos essenciais da Conduta Discriminatória e do teu Projeto. A começar por Freud, que foi o 1º a perceber e publicar tais aspectos: agressão narcisista/apocalíptica e a ‘denúncia’ da mesma como forma de inibi-la (fez o mesmo em relação ao suicídio e histeria).

Para finalizar (este e minha colaboração com teu Projeto, pois novos compromissos me chamam), eis, abaixo, outra solicitação tua (formular um conceito para CD):

CD: Ato maldoso e agressivo pelo qual o sujeito atua fantasias de destruição da totalidade dos outros com vistas a um mundo narcisista pleno.

Parabéns pelo Projeto e pela condução, estimulando colegas, trabalhos e instituições a se voltarem para o (grave) problema.

Caso tu consigas certa inserção governamental para o Projeto, além da psiquiátrica, acredito que terás melhores condições de desenvolvê-lo.

Um abraço do

Mabilde.

 

 

Mabilde

A tua sensibilidade e engajamento ajudarão a atenuar a repetição/manutenção do “grave problema” da Conduta Discriminatória.

E, possivemente, motivarão outros colegas a se interessarem pelo tema.

Freud foi, sem dúvida, um dos grandes inspiradores para pensarmos e desenvolvermos estas idéias.

O Projeto Discriminação tem como objetivo básico a criação de uma terceira instância inibitória da CD.

Gostei muito quando usastes, no artigo citado acima, a expressão “o homem é o lobo do homem”.

Cujo significado, em termos individuais, equivale a uma outra, mais ampla, de Freud.

“Todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização”.

Será que estas duas expressões ajudarão a pensar/ampliar/traduzir o conceito que sugeristes p. a CD?

O discriminador é o lobo do homem e inimigo da civilização?

Abraço

Telmo

 

Telmo

Em ‘“O mal-estar na civilização”, Freud (1930) culmina longo estudo sobre:

(1) o irremediável antagonismo entre nossos desejos e as restrições da civilização;

(2) agressão ou destruição.

Freud, então, afirma que a repressão contra os nossos desejos é o mais poderoso fator interno a favor da civilização, no que é auxiliada pela possibilidade do homem de descarregar agressão em atividades socialmente aceitas.

Quanto aos fatores externos, ele destaca os papéis decisivos de contemplar necessidades e amor como pilares da civilização. Em contraposição, por impedirem ou constrangerem o ser humano de gratificar, indistintamente, seus desejos, a cultura – como representante da repressão – é odiada por ele.

 

Em graus diferentes, portanto, todos odeiam a civilização, assim como todos discriminam uns aos outros. A questão da quantidade é, aqui, deveras importante, pois é a partir dela que as medidas inibitórias podem inicialmente agir.

 

No que se refere à inter-relação do discriminador com a civilização, é claro que as idéias apocalípticas do discriminador de existir uma só cultura (a dele) conduzem-no ao ódio contra as demais. Porém, se eu tivesse que escolher entre os dois outros fatores internos (sublimação e traços de caráter) responsáveis pelo maior ou menor equilíbrio entre civilidade X agressividade, diria ser o principal àquele relativo aos traços de caráter.

 

Basta pensarmos em líderes apocalípticos da história, tais como Mao Tsé-tung, Joseph Stalin, Adolf Hitler, Kublai Khan, Leopoldo II, Chang Kai-shek, Genghis Khan para melhor entendermos essa assertiva. Todos, sem exceção, exibiam  traços de caráter (paranóide, esquizóide, narcisista) dos mais regressivos e comprometedores para a personalidade.

 

Creio que a ideologia profunda  da mente – que abriga idéias patológicas de discriminação – seria produto desses traços, os quais, por sua vez, reforçam-na, num movimento dialético.  Nesse sentido, a CD seria mais ou menos destrutiva, conforme abriga traços de caráter mais ou menos patológicos.

Se quisermos introduzir a questão da agressão à civilização no conceito de CD, ficaria assim:

CD: Ato agressivo e contrário a civilização, pelo qual o sujeito atua fantasias apocalípticas de destruição, da totalidade dos outros, com vistas a um mundo narcisista pleno.

Um abraço do

Mabilde.

 

Luiz Carlos Mabilde

Médico psiquiatra.

Psicanalista

 

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

 Psicoterapeuta

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Notícia do evento da UNICEF sobre o Desenvolvimento Cerebral

Notícia do evento da UNICEF sobre o Desenvolvimento Cerebral
O Seminário sobre os fatores que influenciam o desenvolvimento cerebral realizou-se na sede da UNICEF em Nova York, no dia 16 de Abril passado, e procurarei resumir algumas das observações que foram realizadas pelos consultores e especialistas de vários países que participaram dos debates.
Inicialmente vale comentar que tratou-se da primeira reunião promovida pela UNICEF com o objetivo de abordar o tema do desenvolvimento cerebral na primeira infância, ou seja, no período compreendido de 0 a 6 anos.
Os comentários centraram-se principalmente nas crianças em condições de vida de extrema precariedade em locais onde ainda existem níveis elevados de desnutrição, negligência e abuso. Crianças que estão em áreas de guerra, conflitos territoriais, convivendo com situações diárias de extrema violência, como bombardeios frequentes, foi também um tema para o qual houve uma atenção especial.
Certamente, estas situações necessitam de cuidados e intervenções especiais permanentemente. Seu efeito sobre o desenvolvimento da criança, mais particularmente sobre o desenvolvimento cerebral é devastador. Salientou-se que as alterações neurobiológicas consequentes são de recuperação duvidosa, pois nem sempre a plasticidade cerebral é capaz de proporcionar um bom reestabelecimento funcional.
Outro aspecto levado à discussão foi a de que crianças nas quais as situações críticas antes apontadas não estavam presentes também apresentavam vulnerabilidade e dificuldades desenvolvimentais, mesmo vivendo em famílias de boas condições socioeconômicas.
Sendo assim, será necessário ampliar o olhar de modo mais universal para atender e buscar estratégias de promoção do desenvolvimento infantil que possam ser implementadas para as crianças em geral. A recomendação neste sentido foi a de promover programas de promoção do desenvolvimento que invistam na melhora da qualidade da parentalidade, oferecendo aos pais suporte para que possam assumir e exercer suas funções de modo adequado.
Acredito ter sido importante a participação no grupo de consultores deste evento e tenho a convicção de que uma semente bem fertilizada foi ali plantada. Com os auspícios da UNICEF teremos a possibilidade de prosseguir, divulgar e auxiliar para que o desenvolvimento nos primeiros anos receba o incentivo e os cuidados integrais e integrados que urgentemente necessita.

Saul Cypel, médico

Professor livre docente de neurologia infantil.

Faculdade de Medicina – UNIFESP

A genética e o eugenismo

As consequências das novas aplicações da genética moderna são perturbadas por estridentes clamores, ora de entusiasmo, ora de reprovação. Além disso, a genética humana está de muitas maneiras sob o domínio de grandes investimentos financeiros e muitas das descobertas ficam retidas sob registro de patentes, pois as empresas sendo de capital privado e tendo ações nas bolsas de valores, suas conquistas científicas são segredos comerciais, segregados por copy rihts. E tal situação pode se chamar de tudo, menos de autêntica ciência, a qual segundo Bertolt Brecht, só teria uma única finalidade:” A de estar a serviço da felicidade humana “.
Clonagens animais e humanas estão na ordem do dia.Em princípio ninguém deveria temer os benefícios da reengenharia humana que poderá eliminar terríveis doenças milenares. Todos darão as boas-vindas às terapêuticas genéticas corretivas a aos aperfeiçoamentos genéticos que poderão melhorar a qualidade de vida do gênero humano. Porém, devemos desconfiar de propostas que pretendem classificar e dividir as pessoas de acordo com a identidade genética, pois isto poderá discriminar certos segmentos populacionais. Se isso acontecer, a globalização, as leis do mercado, a economia pragmática voltada apenas para o lucro, poderão se tornar as forças que determinarão o destino genético da humanidade e decidir quem dominará e progredirá no mundo. A nova genética poderá seguir a mesma senda trágica ariana do século XX e poucos serão capazes de perceber as suas implicações devido à velocidade alucinante e alucinatória com que se darão os avanços científicos, elaborados em claustros corporativos dominados por interesses empresariais e pelos poderosos de turno.
O processo poderá desencadear uma gradual privação de direitos civis e de privilégios, provocados por uma genética baseada na economia, a qual criará uma subclasse de pessoas que não obterão emprego, assistência médica, escola, empréstimos bancários e seguros de vida.
E este processo já começou nos países do primeiro mundo.
Alguns desses países já estão discutindo a identificação genética não só para certas doenças, como para cidadãos comuns com a finalidade de prevenir a violência e o terrorismo (ou para aquilo que eles classificam como tal). Centros americanos de pesquisa sofisticada vêm discutindo um amplo espectro de sistemas de reconhecimento biológico e smart cards para aumentar a segurança dos EEUU. Bancos de dados biométricos que incluem impressões de DNA já são propostos para aeroportos, serviços de imigração, postos alfandegários, emissão de passaportes e até para programas destinados a alunos estrangeiros. E a mais avançada tecnologia e os melhores técnicos desse essencial e importante setor de vigilância e rastreio foram criados pela sofisticada tecnologia israelense.
A identificação genética também está se tornando um bem de consumo em processos de paternidade, pesquisas de linhagens familiares, disputas de heranças. Laboratórios privados anunciam seus testes genéticos e, em breve, as impressões de DNA se tornarão tão comuns quanto as digitais.
O Medical Information Bureau (MIB), da poderosa indústria americana de seguros, é um imenso banco de dados que fornece informações médicas e certas características do estilo de vida de milhões de pessoas que requerem seguros de saúde ou de vida. O ramo internacional de seguradoras considera a informação ancestral familiar genética como sua mais nova prioridade. Argumentam as seguradoras que, dentro da lógica do mercado, sua indústria não pode sobreviver sem essas informações e sem as resultantes restrições, exclusões e negativas de coberturas dos seguros que protegerão a liquidez das empresas. Famílias inteiras de seguráveis indesejados podem ser identificadas com a mesma sutileza e segredo com que os seguráveis indesejados étnicos eram identificados décadas atrás. A nova genética corporativa, é movida basicamente pelo lucro, obedecendo a lógica implacável do mercado mundializado.E assim, em breve, teremos tecnologias extremamente sofisticadas que propiciarão bebês mais saudáveis, fortes e lindos, indivíduos mais capazes intelectualmente e mais aptos a obter educação, proteção social, pessoal, empregos e enfim, a ter “sucesso na vida “ e a viver num Brave New World. Mas estas correções não serão baratas. Somente os ricos, que hoje pagam por serviços de saúde personalizados e eletivos, serão capazes de pagar as despesas de correção genética. Desse modo, a capacidade econômica dos indivíduos, será associada com o aperfeiçoamento genômico e com o prolongamento da vida de quem puder pagar por isso.
E o resto? Bom…. o resto é o resto !

Franklin Cunha
Médico