Sua Vida Daria Um Filme

 

Quantos o teriam conhecido? Muitos? Poucos? Na área da saúde publica brasileira e internacional, posso garantir que quase todos.

Médico, sanitarista, epidemiologista.

Uma personalidade inesquecível. Um humanista.

Estou me referindo a Claudio Marcos da Silveira

No dia de sua despedida, Marquinhos, seu filho, disse: a vida de meu pai daria um filme.

Cresceu na periferia de Porto Alegre, e desde jovem trabalhou para compor a renda familiar. Nos anos de 1960, começou seus estudos em medicina. Nessa época iniciou a fazer política estudantil e como vice-presidente do Centro Acadêmico XXII de Março (C.A) da então Faculdade Católica de Medicina é destituído de seu cargo e detido pelo golpe militar de 1964. Chegou a prestar depoimento no antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), passagem muito bem descrita no livro de Eduardo de Azeredo Costa (então o presidente do C.A.), “50 Anos Dessa Noite”. O Pai de Eduardo era o famoso médico e professor, Rubens Mena Barreto Costa, ex-militante do PCB e homem que desfrutava de grande amizade com Leonel Brizola. O Arcebispo Dom Vicente Scherer, era paciente do Dr. Rubens. Isso explicaria a liberação da dupla de estudantes progressistas das “garras” do DOPS.

Foguinho, esse o seu apelido na Faculdade. Os cabelos cor de fogo, que no futuro iriam rarear, o identificavam facilmente. Colega, amigo e solidário. A solidariedade é algo que o acompanharia por toda a vida. Cinco ou seis anos mais velho que a maioria dos seus colegas de turma e com alguma experiência de vida, lhe conferiram o merecido rótulo de paizão. Sempre disposto a ajudar e a participar das causas mais “cabeludas”.

Passado o “episódio DOPS”, o brizolista Claudio Silveira, não abandonou a participação política, sempre em busca de horizontes mais dignos que ajudassem a acabar com a ditadura militar implantada no Brasil.

No entanto, o Curso de Medicina aproximava- se de seu epílogo e havia que enfrentar uma nova realidade: a prática da medicina. Decidiu-se pela psiquiatria e cursou residência médica nessa especialidade no Hospital Psiquiátrico São Pedro em 1968 e 1969.

Mas, o seu comprometimento com o social       e a importância que dava à saúde coletiva,  e aos componentes sociais e econômicos na determinação da  saúde e da doença, o levaram para a Saúde Pública. A Campanha de Erradicação da Varíola no Brasil e especificamente no Rio Grande do Sul, como parte dos esforços mundiais para a Erradicação da Varíola foi um chamamento maior. Abandonou a psiquiatria e ingressou no quadro de funcionários da Secretaria da Saúde (SES) em um Convenio que o Estado realizava com A Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP) do Ministério da saúde.

Começava o que seria a grande meta de sua vida profissional: o trabalho de campo, junto às comunidades mais carentes sempre com a máxima de que “é melhor prevenir do que remediar”.

Como parte da política de capacitação de pessoal da SES cursa em 1970 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Ao regressar assume provisoriamente a  direção da Unidade de Vigilância Epidemiológica em substituição ao Dr. Clovis Heitor Tigre que realizava sua especialização no exterior.

Deixou então registrada sua primeira grande atuação na saúde pública: coordenou a primeira vacinação em massa contra a poliomielite no Rio Grande do Sul, e realizada em muito curto espaço de tempo. Os efeitos se fariam observar com a acentuada diminuição dos casos nos anos seguintes. Futuramente, essa atividade se transformaria nos “Dias Nacionais de Vacinação”.

Viajou por todo o Estado, inicialmente, investigando surtos de varíola e casos de poliomielite. Esse tipo de trabalho não tinha dia e hora para terminar. Acabava quando não havia mais pistas ou a fonte do surto era identificada.

Mais tarde, em 1975, assumiu a direção do Instituto de Pesquisas Biológicas, modernamente conhecido como Laboratório Central do Estado, onde permaneceu como diretor até 1978. Aqui vale a pena abrir um parêntesis: Claudio era um estudioso  e um consumidor voraz de livros. Ainda quando estudante  prestou concurso para o Estado e foi aprovado como Auxiliar de Laboratório de Toxicologia do Instituto Médico Legal. Essa familiarização com a bioquímica, farmacologia e citologia conhecimentos básicos para o entendimento da  toxicologia facilitaram a sua identificação com um perfil adequado ao cargo de Diretor de IPB, claro, somado as suas excelentes capacidades gerenciais. Não foi surpresa, que, embora militante da Saúde Coletiva, fizesse seu mestrado na UFRGS, em Ciências Biológicas.

Inicia sua experiência como consultor da OPS/OMS em países da América Latina, para avaliar a erradicação da varíola.

Ainda restavam vários países na África e na Ásia onde a doença era endêmica. A Organização Mundial da Saúde necessitava especialistas com experiência de campo e Claudio Silveira é contratado como consultor para trabalhar em Bangladesh e posteriormente na Somália. Nesses países viajou até os mais longínquos rincões, para a identificação de casos e vacinação de contatos, deslocando-se nas mais adversas condições, de jeep, a cavalo, barco e a pé. Futuramente, seria agraciado pela OMS com a honraria da “Ordem da Agulha Bifurcada”.

Politicamente engajado, coordenou a equipe que elaborou o Plano de Saúde da candidatura de Alceu Collares para a Prefeitura de Porto Alegre, sendo o seu Secretário Municipal de Saúde, no primeiro ano da administração.

Mas, enfrentar desafios era uma de suas muitas virtudes. Aceitou o convite da Organização Panamericana da Saúde (OPS), para prestar consultoria à Superintendência de Campanhas (SUCAM) do Ministério da Saúde, à época em que José Fiusa Lima era o diretor. Desta vez, a malária era o alvo. Entre idas e vindas, durante seis meses, embrenhou-se pela selva amazônica buscando elos na cadeia epidemiológica que explicassem melhor o comportamento da doença no ser humano, uma vez que toda a ênfase era dada somente à eliminação do mosquito. Como quase todos que se dedicavam a essa tarefa, adquiriu a doença, da qual se recuperou.

Sua experiência o levou a trabalhar como consultor permanente da OPS, com sede em Washington, como epidemiologista do Programa Ampliado de Imunizações (PAI). Além de assessorar na condução da erradicação da poliomielite, Claudio Silveira coordenou o Programa que visava à eliminação do tétano neonatal e de outras doenças abrangidas pelo PAI. Durante dez anos viajou pelo continente americano, apoiando os Ministérios de Saúde. Também foi consultor externo para a avaliação do Programa de erradicação da Poliomielite na Índia.

O jeito simples, o diálogo fácil, e o grande conhecimento técnico o tornaram um consultor altamente requisitado pelos governos latino-americanos e o anuncio de sua chegada aos países despertava uma expectativa muito favorável nos funcionários dos Ministérios de Saúde.

Mesmo depois de sua jubilação pela OPS, continuou sendo convidado para diversas consultorias de curto-prazo, tanto no Brasil, como no exterior. Em 2003 foi contratado pela OMS para revisão de dados clínicos e epidemiológicos na América Latina e no Caribe para a determinação da segurança clínica no diagnóstico da caxumba. Suas últimas consultorias internacionais foram no México e em Cuba para avaliação do Programa de Imunizações.

Há quase dois anos o Claudio nos deixou, quando o nosso grupo de antigos colegas e companheiros, aposentados, se reunia para discutir sobre políticas de saúde e, imodestamente, sugerir soluções para os intrincados meandros da política nacional e internacional. Ainda não havia sido lançado, pelo Ministério da Saúde, o “Programa Mais Médicos”, na defesa do qual estou certo que ele se engajaria.

Mais do que suas qualidades técnicas e humanas que tentei descrever de forma muito resumida, Claudio foi um pai maravilhoso, testemunha que sou do convívio de mais de 40 anos com sua querida esposa Rosilda e seus filhos Eduardo e Marcos.

Fica faltando o filme, para isso precisaremos de um cineasta.

O “trailler”, já o temos.

Extraído do site : http://imagempolitica.com.br/site/.

Airton Fischmann, médico,

Mestre em Saúde Pública,

Ex- consultor da Organização Panamericana da Saúde.

 

1 comentário em “Sua Vida Daria Um Filme”

  1. Caro Airton:
    Excelente texto que retrata fidedignamente as características pessoais e as qualidades desse valoroso nome da saúde pública em âmbito internacional.
    Sua trajetória profissional e social nos deixa orgulhosos de termos sido seu colegas e amigos.
    Parabéns por tua iniciativa de homenagear o nosso querido Foguinho.

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