O antissemita seria um doente? E o racista?

ILUSÃO E VERDADEO nosso último texto “Não temos previsão de avançar no combate ao racismo” provocou alguns comentários pessoais.

Os que mais repercutiram dentro de mim iam no sentido do pessimismo à falta de sugestões / alternativas / propostas.

Mais práticas, imediatas, palpáveis.

Alguns dias depois leio a publicação sobre o antissemitismo: “Uma doença sem cura” do escritor português e doutor em ciências políticas João Pereira Coutinho.

Ela pode ser vista com seus comentários no link abaixo .

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2014/06/1471253-uma-doenca-sem-cura.shtml

E sua repercussão com muitas outras publicações caso o leitor se disponha a procurar na internet.

É o tipo da ideia / publicação que pode ajudar a inibir a conduta discriminatória.

Certamente muitos dos conteúdos expostos com a finalidade de inibir o antissemitismo poderiam ser veiculados em matérias para inibir os racistas em sua ações discriminatórias.

Muitos negros (e seus simpatizantes) poderiam descrever sofrimentos por atos de racistas, sempre acompanhada de sua percepção em relação às características emocionais dos racistas.

E estes sentimentos talvez sejam semelhantes aos dos judeus em relação aos antissemitas.

Numa perspectiva otimista, se mais grupos discriminados passassem a divulgar esses mesmos tipos de idéias, “definindo” seus discriminadores como doentes mentais, provavelmente outros segmentos da sociedade poderiam se sensibilizar e ajudar a pressionar a ciência a definir o discriminador como agente causador de sofrimento mental.

Para que essa idéia/possibilidade não pareça algo fantasioso/utópico vamos a um exemplo de fato real entre um grupo discriminado e a ciência.

Até os anos 70 o homossexual era definido pela ciência médica como doente mental.
Na época em que essa questão ia ser revista pelos responsáveis pela Classificação Internacional das Doenças, grupos de homossexuais pressionaram, concretamente e presencialmente, para que esta definição fosse modificada.

E conseguiram.

Portanto, nessas questões, a participação de todos segmentos da sociedade pode ser decisivo.

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

Psicoterapeuta

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Não temos previsão de avançar no combate ao racismo

Prezado Professor Hélio Santos

A sua bela explanação tem muito valor pela sua legítima e nobre preocupação pelo não avanço no combate ao racismo.

(Vejam em http://www.youtube.com/watch?v=BOVGrYcY7cw&feature=youtu.be ).

Aliás, essa percepção é a mesma que já expusemos em vários posts aqui no blog.

A criminalização das condutas discriminatórias e os avanços nas políticas públicas a favor dos grupos discriminados não conseguem ter efeito de prevenção.

Existem três tipos de prevenção: primária, secundária e terciaria.

Quando falamos em prevenção, estamos nos referindo àquela que se antecipa a instalação do preconceito, a primária.

Só teremos avanços verdadeiros e consistentes no combate ao racismo quando consigamos preveni-lo primariamente.

E a prevenção em saúde só é possível quando se consegue conhecer, definir, entender o funcionamento do agente causador do sofrimento humano.

No caso da conduta discriminatória racista, o sofrimento infringido no discriminado é mental, sendo a ação somente verbal.

E quando a ação, além de verbal, é também física, teremos sofrimento mental e físico.

Em medicina, sabe-se que o causador de sofrimento mental e/ou físico pode levar o outro ao suicídio.

Sabe-se, também, que essa conduta não será modificada somente pela educação, pois esta corresponderia à prevenção secundária.

Ao menos, não pela educação formal, rotineira, às quais estamos acostumados em todas as sociedades contemporâneas.

Seria, mais ou menos, como dizer a um drogado que ele não deve se drogar.

Se ela evitasse esse sofrimento, países com melhores indicadores de educação do que os nossos não teriam a ocorrência de condutas discriminatórias.

Inclusive em escalas crescentes.

E, aqui, no Brasil, não teríamos manifestações discriminatórias originadas de pessoas com educação formal avançada/completa.

Quanto a sua interessante hipótese de que crianças nascidas numa ilha, na qual os educadores seriam “instrutores especiais, tais como judeus, ciganos, índios, negros, orientais” e que, em conseqüência, essas mesmas crianças não poderiam ser pessoas discriminadoras, leva-nos a concluir que educadores, de diferentes etnias e não discriminadores, não formariam filhos discriminadores.

 

Porém, constata-se que filhos de casamento “misto” (branco/negro; religioso x não religioso; ocidental/oriental) não ficam imunes de serem discriminadores.

A sua afirmação de que “ninguém nasce racista” é muito pertinente para um bom debate.

Nossa ideia é que, obviamente, o ser humano nasce psicobiologicamente imaturo e sem idéias pré-concebidas.

As primeiras ideias ou conceitos – adequados ou não – são formados em casa e não nas escolas.

E, se não amadurecer em casa para a aceitação/reconhecimento do outro diferente/diverso dele, poderá tornar-se um discriminador.

Um adequado amadurecimento mental de pais/educadores/sociedade, nessa ordem, certamente, pode ajudar a prevenir a formação de discriminadores.

Quanto a sua afirmação que o racismo é a instituição mais antiga do Brasil, caberia salientar o seguinte:

Caso consideremos a imagem da Primeira Missa como uma desconsideração com a religião dos índios, podemos entender aquele ato como uma imposição colonialista e discriminatória.

E, talvez, a conduta discriminatória mais antiga conhecida no Brasil!

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

Psicoterapeuta

Zero Hora distorce novamente conteúdo de pesquisa com que finalidade?

Lições da Zero Hora Para o Rio Grande do Sul?

Estava no acabamento final desse texto, quando li a excelente matéria de Marco Weissheimer no SUL21 “O IDH da RBS e a vida real: escolhas e omissões”, que, felizmente, para mim, reforçam as considerações que faço a seguir e que, pretensiosamente, entendo que  complementam as ideias por ele expostas. Baseei-me bastante na minha experiência adquirida na área de saúde pública e epidemiologia para elaborar o texto a seguir :

Agora, ZH busca dar lições ao Rio Grande do Sul, baseando-se nos resultados    de um novo indicador elaborado pela PUC, o Índice de Desenvolvimento Estadual- iRS, em parceria com Zero Hora, na reportagem à página oito da edição de 30 de maio, com o título: “Lições de Estados que mais avançaram”.(Escrevi a palavra agora, porque  ano passado ZH já “pisou na bola” em texto que publiquei nesse blog “Zero Hora distorce conteúdo de pesquisa com que finalidade?”)

 

Segundo os autores o iRS foi criado para medir desempenhos e mediria melhor a situação de desenvolvimento de uma região do que o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH.

O que sei da construção desse novo índice é o que li no jornal. Não tenho maiores conhecimentos sobre a metodologia para sua elaboração, mas acho que tais iniciativas são bem-vindas, afinal a ideia de aprimoramento  de avaliações deve ser estimulada.

A crítica que faço é referente à interpretação que ZH dá ao comportamento do indicador no período de sete anos de análise (2005 a 2012).

“Enquanto o Rio Grande do Sul permanece em quarto lugar, outras unidades da federação conseguiram dar um salto nos quesitos que compõem o resultado”. Cita que “ Rio de Janeiro, Roraima, Ceará e Pernambuco evoluíram mais” (mas não ultrapassaram o RS). Ou seja, na visão do meio copo d´agua, ZH preocupa-se com a metade vazia.

Nesse tipo de análise, o que ocorre é que os estados com índices mais baixos têm mais espaço para avançar. Explico: usando um dos indicadores que compõem o iRS: mortalidade infantil. O Coeficiente de Mortalidade Infantil (CMI) é medido pelo número de mortes de menores de um ano para cada 1000(mil) nascidos vivos. Pode ser dividido em duas partes: neo-natal (mortes ocorridas no primeiro mês de vida) e infantil tardio ( mortes ocorridas do segundo ao 11º mês de vida).

Quando esse indicador é alto, a proporção maior das mortes ocorre no período infantil tardio, onde as crianças sofrem mais a “agressão” das doenças relacionadas ao meio ambiente, principalmente as diarreias e infecções pulmonares. No período neonatal as mortes estão relacionadas à atenção pré-natal e ao parto. Aqui aparecem as anomalias congênitas, asfixia do recém-nascido, muito baixo peso ao nascer, ou seja, causas de morte cuja eliminação é bem mais complicada.

Quando o CMI baixa para a casa de um dígito -menor que 10 mortes para cada 1000 nascidos vivos- caso dos Estados que estão nas primeiras colocações, reduzir mais ainda é tarefa árdua, que pode ser executada, mas a diminuição é bem mais lenta e somente pequenas frações de redução podem ser obtidas, a cada ano. Quando o CMI é alto, a atuação dos serviços de saúde acessíveis à população mais pobre e medidas sanitárias adequadas como a água potável para todos, podem reduzir mais drasticamente o indicador. É o que provavelmente ocorreu em Estados como Rondônia e Ceará, para mencionar os mesmos  citados por ZH. É o que referi  anteriormente : têm mais “espaço” para avançar. Ainda assim no índice Longevidade onde foi utilizada a mortalidade infantil, o RS está em segundo lugar. Esta seria visão da metade cheia do copo.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao quesito padrão de vida, que avalia o número de trabalhadores com carteira assinada. Quanto menor o número de carteiras de trabalho assinadas, mais rápido pode ocorrer sua duplicação, no caso Roraima. Quando se tem muito pouco, é claro que a chance de aumentar é maior. Num momento em que os índices de desemprego estão baixíssimos é impossível, no RS,   obter-se um aumento tão grande como o ocorrido em Roraima.

A comparação que é feita com o Rio Grande do Sul é válida para Santa  Catarina e São Paulo, pois nesses a evolução do indicador também foi mais lenta, se comparada com os Estados antes citados. Portanto, a “admoestação” de ZH também deveria servir à Santa Catarina e São Paulo, pois outros estados  também deram um salto maior que SC e SP.

Outro aspecto a considerar é a introdução do Distrito Federal na comparação. Evidentemente, trata-se de uma Unidade Federada. No entanto, se diferencia das demais que são Estados da Federação com características geográficas, ambientais, econômicas, demográficas e culturais, completamente diferentes. Os Estados têm área rural e urbana, produção agrícola e industrial com grandes distâncias a percorrer, problemas com transporte rodoviário, etc .  e são comparáveis entre si,  mas completamente diferentes do DF, uma região urbana onde a maioria dos habitantes é vinculada ao serviço público e com características semelhantes as nossas grandes capitais. Como comparar as características demográficas, sociais  econômicas e  culturais de Estados como O Rio Grande do Sul Santa Catarina e São Paulo, com o Distrito Federal? Desta forma, excluindo-se o DF da comparação, o RS estaria em terceiro lugar entre seus pares, o que, convenhamos é uma boa classificação.

Entendo  que as lições sugeridas por ZH deveriam  ser avaliadas dentro do contexto de uma análise epidemiológica e social, e não somente do ponto de vista jornalístico, para serem melhor compreendidas. Partindo de uma análise equivocada, ZH procura dar uma ideia de estagnação para o RS enquanto outros estados estariam num processo de desenvolvimento. Omitiu que essas Unidades Federadas estão num estágio de desenvolvimento pelo qual  nosso Estado já passou e que, a medida que ocorrem avanços, vão aumentando as  dificuldades para alcançar índices cada vez melhores.

 

 

Airton Fischmann, Médico, Mestre em Saúde Pública, Ex-consultor da Organização Panamericana da Saúde.

Philip Morris quer mandar no Uruguai e no seu pulmão.

caganchaProcesso no Uruguai pode mudar luta contra o fumo

Uma enorme cicatriz atravessa o peito de Carlos Bove, um professor uruguaio de 67 anos. Lembrança deixada por uma cirurgia cardíaca a que acaba de ser submetido.

Ele se move lentamente para se levantar da cama no hospital da Asociación Española, em Montevidéu, porque além dos problemas cardíacos, também luta há anos contra complicações respiratórias.

Segundo seus médicos, o caso de Bove é um exemplo das consequências, para o Uruguai, de o país ter sido, historicamente, um dos maiores consumidores de tabaco da América Latina. Na virada do milênio, o Uruguai já apresentava o maior índice de casos de câncer de pulmão da região.

“Sonho muitas vezes, quando estou com os pulmões atacados, que rasgo as caixas de cigarros e jogo tudo fora”, ele conta.

“Durante muitos anos, não me dei conta de que me faziam mal, até que comecei a ter problemas, foi quando me disseram que os cigarros estavam me matando”.

Bove fumou um maço de cigarros por dia durante quase quatro décadas. Ele deixou de fumar há dez anos.

Foi também nessa época, há cerca de uma década, que o Uruguai, pequeno país sul-americano com apenas 3,3 milhões de habitantes, adotou uma série de restrições ao tabaco que hoje o colocam na vanguarda mundial em políticas antitabagistas.

Algumas dessas medidas colocaram o país em confronto direto com a maior fabricante de cigarros do mundo, a Philip Morris International, dona de marcas como MarlboroFortuna e L&M.

Um embate que pode reverberar em outros países.

Restrições

Em 2006, entrou em vigor no país uma proibição ao fumo em espaços públicos fechados. O Uruguai foi o quinto país no mundo a adotar essa medida. A iniciativa partiu do então presidente, o oncologista Tabaré Vázquez.

Também naquele ano, autoridades de saúde iniciaram as primeiras campanhas advertindo a população sobre as consequências do fumo para a saúde.

Alguns dos anúncios eram chocantes. Imagens de uma boca onde os dentes são substituídos por cinza de cigarro. A foto retocada de um menino fumando, seu rosto pálido e doentio. Ou a foto de um bebê prematuro, minúsculo, na mão de um ginecologista.

Em 2009, essas advertências chegaram a cobrir 80% de todos os maços de cigarro – mais do que em qualquer outro país. Também foram retiradas das embalagens palavras como “light”, “mentolado” ou “gold”, permanecendo apenas a marca do produto.

Foram essas duas medidas que colocaram o Estado uruguaio em rota de choque com a Philip Morris, que as considera um ataque aos seus investidores.

International Centre for Settlement of Investment Disputes (ICSID), organização internacional de arbitragem ligada ao Banco Mundial, declarou-se competente para decidir sobre uma ação movida em 2010 pela empresa.

Em março desse ano, o ICSID ouviu os argumentos da Philip Morris e, em setembro próximo, ouvirá a posição do Uruguai. O caso pode influenciar a jurisprudência em disputas similares em outras partes do mundo.

Segundo a Philip Morris, “essas medidas vão além de todos os regulamentos sobre o tabaco que já existem em praticamente todos os países e não demonstraram ter conseguido reduzir os índices de consumo de cigarro”.

“Além disso”, disse a empresa em um comunicado, “não fazem nada para chamar a atenção para a proliferação do mercado negro de cigarros e, inclusive, poderiam promover o contrabando” de tabaco.

O argumento da gigante do tabaco é que o Uruguai, com suas medidas para cobrir 80% das caixas e a proibição de várias embalagens diferentes, está violando um tratado de proteção a investidores que o Uruguai e a Suíça – países onde a Philip Morris é sediada – assinaram em 1998.

A companhia não respondeu aos pedidos de entrevista feitos pela BBC Mundo.

No entanto, segundo a revista uruguaia Búsqueda, a executiva da Philip Morris Julie Soderlund teria dito que a corporação está pedindo US$ 25 milhões em indenização por perdas comerciais.

“A essência desse caso se foca sobre princípios fundamentais do Estado de direito e sobre se o Uruguai deve ou não manter as promessas que faz”, argumenta a Philip Morris.

Saúde x comércio

Carlos Bove gostaria que os anúncios contra o tabaco tivessem chegado antes.

Mas para o governo uruguaio, essa disputa vai além da questão comercial.

“Não pode haver nenhum tribunal que, ao buscar priorizar direitos, não priorize o direito à vida e à saúde, acima do direito ao comércio, à indústria e ao trabalho”, respondeu o senador e médico Luis Gallo, do partido governista Frente Amplio.

Gallo, que agora promove uma mudança na legislação para restringir ainda mais a propaganda do tabaco, quer que os produtos fiquem fora do campo de visão do público, inclusive em pontos de venda. Ele está convencido de que o tribunal decidirá a favor do governo.

Poder da Imagem

O Uruguai optou por fotos menos agressivas do que as usadas em outros paises (onde aparecem órgãos danificados).

“Nos demos conta de que, às vezes, a gente necessita de sutileza para pensar. O desafio é fazer as pessoas pensarem sobre o tabaco, não simplemente chocá-las com uma imagem que pode ser muito grosseira e grotesca”, disse à BBC o presidente da agência, Selva Andreoli.

Uruguai conta com o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS) e de outras entidades privadas, como a fundação do ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg.

Recentemente, em visita à Casa Branca, o presidente uruguaio, Jose “Pepe” Mujica, argumentou contra o tabaco e pediu o respaldo de outros países.

“Os governos não têm de participar de disputas privadas, mas aqui há uma batalha pela vida”, disse Mujica, em conversa com Barack Obama acompanhada por jornalistas.

Impacto Mundial

A decisão do centro de arbitragem pode levar anos para ser tomada, mas outros países estarão observando com atenção.

Em vários países em desenvolvimento, como UgandaNamíbia e Togo, as leis contra o cigarro foram rechaçadas por grandes fabricantes de tabaco que denunciaram a violação de seus direitos comerciais.

Segundo a Philip Morris, “buscamos apenas uma compensação justa pelos danos causados por estas medidas”.

Mas Eduardo Bianco, cardiologista à frente do Centro de Investigação da Epidemia do Tabagismo no Uruguai, disse que na realidade o mercado uruguaio gera muito pouco dinheiro.

“A verdadeira razão para que eles (a Philip Morris) tenham decidido atacar o Uruguai foi uma decisão estratégica para assustar o resto dos países, especialmente os não desenvolvidos, para que não adotem medidas similares”.

Esse é um argumento compartilhado pela Organização Mundial de Saúde, que vê esse enfrentamento como uma guerra do tipo Davi e Golias, na qual uma pequena força representada por um pequeno país enfrenta o poder gigante de uma das maiores multinacionais que existem.

Se países pequenos como o Uruguai decidirem agora jogar a toalha temendo processos legais caríssimos e longos contra corporações multimilionárias – adverte a OMS – outros perderão a vontade de abandonar para sempre o tabaco.

O Grande Médico que saiu de Rio Pardo para o Mundo.

 Aos 74 anos, Ciro Carlos de Araujo Quadros, esse pequeno grande gaúcho, natural de Rio Pardo, faleceu dia 29 de maio de 2014 em Washington D.C, onde residia. Veio jovem ainda para Porto Alegre, tendo ingressado na Faculdade Católica de Medicina no ano de 1961(Hoje Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde) e fez parte da primeira turma de formandos no ano de 1966.

Em 1967, decidiu-se pela Saúde Pública e contratado pela Fundação de Serviços de Saúde Pública foi trabalhar como médico-chefe da Unidade Sanitária da Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP) em Altamira, interior do Pará.

Em 1968 pós graduou-se  como Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.

Em 1969 implantou a Unidade de Vigilância Epidemiológica do  Paraná , responsável para investigação e bloqueio de surtos de varíola, como parte da Campanha de Erradicação.

Em 1970 , foi contratado como “Chief Epidemiologist” pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para coordenar a erradicação da varíola na Etiópia . A partir daí o  Dr. Ciro de Quadros, como ficou mundialmente conhecido, começa sua trajetória para o reconhecimento mundial como um dos maiores nomes da área de saúde pública. Foram sete anos de trabalho na Etiópia e apoiando outros países africanos e asiáticos, como a Somália e Bangladesh.

 

O Dr. D.A, Henderson que foi o chefe na Organização Mundial da Saúde(OMS), da campanha de erradicação da varíola no mundo, declarou para o Washington Post no dia 30 de maio: “Na Etiópia, os obstáculos foram inacreditáveis – o imperador assassinado, dois grupos revolucionários em luta, nove de suas próprias equipes sequestradas, até um helicóptero capturado e mantidos como reféns. Ciro manteve as equipes em campo – e o piloto do helicóptero saiu para vacinar todos os rebeldes. “

Em 1977, em função de seu exitoso trabalho na África e Ásia foi contratado como Assessor do programa de imunizações e assumiu a chefia do Programa Ampliado de imunizações (PAI), em Washington. Viajou por todos os países latino-americanos  para  estabelecer protocolos de vacinação, universalmente reconhecidos. Dentre os inúmeros acertos do PAI, está a realização da  Campanha de Erradicação da Poliomielite  em todos os países latino-americanos com base no exitoso modelo brasileiro de Campanha de Vacinação contra a Poliomielite .

“”Eu acho que o Ciro realizou nas Américas foi nada menos que um milagre”, disse Henderson. “Eu nunca vi qualquer outra pessoa fazer o que Ciro fez.”

Em 1994 foi nomeado diretor do Programa Especial de Imunização e Vacinas da OPS e entre 1999 e 2002, ano de sua jubilação, foi diretor da Divisão de Vacinas e Imunização da Organização.

Em 2003 assume o cargo de Vice-Presidente executivo do Sabin, Vaccine Institute.

O sucesso do modelo de campanha de vacinar toda a população menor de cinco anos em um dia, levou à erradicação da poliomielite da Região das Américas e os programas de vacinação ao controle ou eliminação de todas as doenças, principalmente as da infância, passíveis de prevenção pelo uso de vacinas.

Se o mundo flerta com a erradicação da poliomielite, doença que provoca a paralisia infantil e faz você correr com seu filhinho aos postos de saúde para “tomar a gotinha”, saiba que por trás disso está um homem nascido há 72 anos, em Rio Pardo, às margens do Rio Jacuí. Ciro de Quadros, epidemiologista formado na atual Universidade Federal de Ciências da Saúde, hoje, 99% do planeta está livre da doença — incluindo toda a América Latina”. Um dos líderes da campanha mundial pela erradicação da pólio, Quadros é vice-presidente do Instituto Sabin e morou em Washington. A cada frase ele demonstra, no conteúdo, a humildade de quem não sente necessidade de alardear conquistas. Na forma, o sotaque, especialmente nos finais das frases, indica: já faz décadas que vive nos EUA, onde teve suas duas filhas.

 
Força de Gates

O milionário e filantropo americano Bill Gates, fundador da Microsoft, sensibilizou-se pela causa de Quadros e abriu a carteira. O anúncio foi feito na casa onde um dos mais importantes líderes da história mundial, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt, tratou-se da pólio. Roosevelt, aliás, foi uma exceção: pegou a doença aos 39 anos. Na maior parte das vezes, quem a contrai são crianças, o que a leva a ser conhecida também pelo nome de paralisia infantil — sua letalidade alcança entre 5% e 10% dos infectados pelo vírus.

A entrada de Gates na campanha elevou o otimismo do gaúcho, que teve um encontro com o “mecenas da pólio”. Por essas e por outras, a previsão de dois anos para a erradicação. Depois, mais alguns anos, segundo ele, para a tal da gotinha se tornar página virada da história familiar de cada um de nós. (Trecho de entrevista concedida à ZH em 2012)

 

O Dr. de Quadros , o homem que saiu de Rio Pardo para o mundo, liderou o desenvolvimento da vigilância epidemiológica e estratégias bem sucedidas para a erradicação da varíola no mundo, e erradicação da poliomielite e do sarampo na Região das Américas.

O ser humano

            Desde os tempos da Faculdade Católica de Medicina na década de 1960, em Porto Alegre, Ciro manteve seu jeito simples e brincalhão. Sempre com o sorriso aberto e uma incrível disposição para o trabalho. Agregador por natureza, por onde andou deixou amigos e reconhecimento. Volta e meia nos pagos reunia-se com seus colegas de turma e o destino era um bate-papo descontraído,  para matar a saudade, acompanhado do churrasco, do qual não abria mão.

Na Organização Pan-americana da Saúde, comandou desde Washington uma equipe de consultores sediados em quase todos os países latino-americanos, envolvidos em atingir as metas do Programa Ampliado de Imunizações. Conhecedor profundo da área e com grande capacidade de liderança tinha o respeito e a admiração de seus comandados.

Seu imenso saber o levou a conquistar reconhecimento acadêmico.

Foi Professor Adjunto Associado da Escola Johns Hopkins de Higiene e Saúde Pública, em Baltimore , e Professor Adjunto do Departamento de Medicina Tropical da Faculdade Universidade George Washington de Medicina e Ciências da Saúde em Washington, DC

Participou de mais de 100(cem) conferências em todo o mundo e recebeu inúmeros prêmios internacionais, alguns aqui mencionados:

Recebeu o Prêmio Príncipe Mahidol da Tailândia (1993)

Medalha de Ouro Albert B. Sabin (2000).

Prêmio Fundação BBVA Fronteiras do Conhecimento na categoria de Cooperação e Desenvolvimento, por liderar a eliminação da poliomielite e sarampo das Américas e por ser um dos cientistas mais importantes na erradicação da varíola em todo o mundo.

No Brasil foi premiado com a mais alta láurea concedida a civis, a Ordem do Rio Branco.

Recebeu, o Título de Doutor Honoris Causa pela Fundação Oswaldo Cruz e o mesmo título pela Faculdade de Medicina da Universidade de Ciências da Saúde em Porto Alegre.

Condecorado com a Medalha Oswaldo Cruz na categoria Ouro.

No Rio Grande do Sul foi agraciado com a medalha “Negrinho do Pastoreio”

Citações em revistas de Saúde Pública

“A varíola foi talvez a doença mais terrível que assolou a humanidade até que, em uma obra mestre de coordenação e esforço internacional, ela foi erradicada. O Dr. Ciro de Quadros teve um papel muito importante neste processo, pelo qual poderemos aprender não somente os fascinantes aspectos históricos desta experiência, mas também os  ensinamentos para as campanhas em curso de controle e erradicação de outras doenças”. Ciro de Quadros citado em a Saúde do Mundo em 1980.

Citações de Ciro Quadros

“O que se sente ao contribuir para erradicar uma doença que causou milhões de mortes é indescritível. Se tem a sensação do dever cumprido e anima a continuar trabalhando para melhorar a saúde global”, declarou em 2012 ao receber o prêmio da Fundação BBVA.

“O século XXI será conhecido como o século das vacinas.  Às muitas que já temos é preciso somar as que estão sendo pesquisadas como, por exemplo, contra o câncer de estômago ou de fígado. Há doenças que consideramos crônicas ou degenerativas e que começamos a descobrir que são devidas a agentes infecciosos contra os quais podem ser criadas vacinas”.

“Se o campo da epidemiologia fosse o da música, a equipe que trabalhou para a erradicação da varíola seria nada menos que os Beatles”.

Citações de colegas:

“Uma figura merecedora de todas as homenagens, como o maior líder da Saúde Pública de nossa geração”. João Baptista Risi Jr.

“Fico muito triste com esta notícia. Desde então minha memória, seguidamente, tem trazido  imagens do Ciro em vários momentos da nossa convivência. Sempre o mesmo, afetuoso, sorridente, orgulhoso com o seu trabalho na   prevenção de doenças e feliz com sua família. Choro quieto a dor desta perda e me sinto privilegiado por ter sido contemplado pela sua amizade.” Saul Cypel

“A Saúde Pública está de luto.”  José Fiusa Lima

 

Fica a lembrança do grande médico que foi, orgulho para nossa medicina, faculdade e AD66. Edmundo Laranja

 

O falecimento do Ciro me entristece muito. Guardarei algumas lembranças que o distinguia entre nós. Mauro Keiserman.

 

Não conheço médico brasileiro que tenha recebido esta distinção. Leopoldo Piegas, referindo-se à página inteira de entrevista concedida por Ciro Quadros à Revista The Lancet, em 2001, uma das mais importantes revistas de medicina do mundo).

Grande figura. Eu me orgulho de ter sido influenciado e depois ter passado a pertencer à geração de sanitaristas que ele tão bem representava. Jair Ferreira.

Ciro Carlos de Araujo Quadros, deixou um legado de liderança e simplicidade,  afável e decidido, um mestre na formação e no exemplo, um homem a serviço da humanidade.

 Airton Fischmann, médico

Mestre em Saúde Pública

Ex-consultor da Organizacão Panamericana da Saúde