Educação e criminalização não previnem discriminação.

Para nós que pensamos no discriminador como agente causador de sofrimento psíquico e/ou físico não podemos deixar
de insistir que o fato de alguem ou um grupo ter uma educacão formal não irá impedi-la de ter uma Conduta Discriminatória. Portanto de agir como um machista, um racista, um homofóbico, etc.
Leiam mais este exemplo:
“Um grupo de estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi flagrado tendo uma atitude, ao menos, machista ao minimizar o estupro e ao não tratá-lo como crime. Em um bar na Savassi, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, na noite desse sábado (20), a turma cantava “não é estupro, é sexo surpresa”, dentre outras frases sexistas”.
Leia mais em:
http://www.otempo.com.br/cidades/estudantes-da-ufmg-fazem-apologia-ao-estupro-e-geram-revolta-em-bh-1.919877

E como vemos no texto abaixo, não basta todo aparato policial e jurídico para prevenir a ação do discriminador. Apesar de todas providencias legais, os números das ocorrências só comprovam que as ações dos discriminadores não são inibidas pela criminalização:
“Vejam se não é premiar o agressor a situação revelada pelos dados a seguir; somente em 2012, foram registrados 197 feminicídios, 9.716 lesões corporais, 24.500 ameaças e 1.492 estupros apenas aqui no Ceará. Infelizmente, o resultado dessas agressões foram 7.781 boletins de ocorrência registrados, onde apenas 2.019 resultaram em inquéritos policiais, 2.435 medidas protetivas, e pasmem, apenas 348 prisões”.
Leia mais em:
http://anaeufrazio.blogspot.com.br/

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O que não quer mulher na política prova que educação não previne discriminação
O machismo e a medicina

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?

A publicação de hoje consta de duas partes.

Inicialmente trechos do resumo do livro Americanah, reproduzido do blog da Editora Companhia das Letras.

E logo após nossos comentários sobre alguns conteúdos mencionados por Ifemelu, personagem do livro.

chimamanda-ngozi-adichieIfemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review.

Por Ifemelu

Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

6. Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional de decidir “quem é racista”

Nos Estados Unidos, o racismo existe, mas os racistas desapareceram. Os racistas pertencem ao passado. Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis. Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com família que o amam, pessoas normais que pagam impostos.

Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda.

7.
Querido Americano Não Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experiência de ser negro, por favor, não se anime e dê exemplos de sua própria vida. Não diga: “É igualzinho a quando eu…”. Você já sofreu. Todos no mundo já sofreram. Mas você não sofreu especificamente por ser um Negro Americano. Não se apresse em encontrar explicações alternativas para o que aconteceu. Não diga: “Ah, na verdade não é uma questão de raça, mas de classe. Ah, não é uma questão de raça, mas de gênero. Ah, não é uma questão de raça, é o bicho-papão”. Entenda, os Negros Americanos na verdade não querem que seja uma questão de raça. Para eles, seria melhor se merdas racistas não acontecessem. Portanto, quando dizem que algo é uma questão de raça, talvez seja porque é mesmo, não? Não diga: “Eu não vejo cor”, porque, se você não vê cor, tem de ir ao médico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televisão e eles dizem que ele é suspeito de um crime, você só vê uma figura desfocada,meio roxa, meio cinza e meio cremosa. Não diga: “Estamos cansados de falar sobre raça” ou “A única raça é a raça humana”. Os Negros Americanos também estão cansados de falar sobre raça. Eles prefeririam não ter de fazer isso. Mas merdas continuam acontecendo. Não inicie sua reação com a frase “Um dos meus melhores amigos é negro”, porque isso não faz diferença, ninguém liga para isso, e você pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer merda racista. Além do mais provavelmente não é verdade, não a parte de você ter um amigo negro, mas a de ele ser um de seus “melhores” amigos. Não diga que seu avô era mexicano e que por isso você não pode ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que Não há uma Liga Unida dos Oprimidos). Não mencione o sofrimento de seus bisavós irlandeses. É claro que eles aturaram muita merda de quem já estava estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas havia uma hierarquia. Há cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que tolerável, porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. Não diga que seu avô era um servo na Rússia na época da escravidão, porque o que importa é que você é americano agora e ser americano significa que você leva tudo de bom e de ruim. Os bens dos Estados Unidos e suas dívidas, sendo que o tratamento dado aos negros é uma dívida imensa. Não diga que é a mesma coisa que o antissemitismo. Não é. No ódio aos judeus, também há a possibilidade da inveja — eles são tão espertos, esses judeus, eles controlam tudo, esses judeus —, e nós temos de admitir que certo respeito, ainda que de má vontade, acompanha essa inveja. No ódio aos Negros Americanos, não há inveja— eles são tão preguiçosos, esses negros, são tão burros, esses negros.

Não diga: “Ah, o racismo acabou, a escravidão aconteceu há tanto tempo”. Nós estamos falando de problemas dos anos 1960, não de 1860. Se você conhecer um negro idoso do Alabama, ele provavelmente se lembra da época em que tinha de sair da calçada porque um branco estava passando. Outro dia, comprei um vestido de um brechó no eBay que é da década de sessenta. Ele estava em perfeito estado e eu o uso bastante. Quando a dona original usava, os negros americanos não podiam votar por serem negros. (E talvez a dona original fosse uma daquelas mulheres que se vê nas famosas fotos em tom sépia que ficavam do lado de fora das escolas em hordas, gritando “Macaco!” para as crianças negras pequenas porque não queriam que elas fossem à escola com seus filhos brancos. Onde estão essas mulheres agora? Será que elas dormem bem? Será que pensam sobre quando gritaram “Macaco”?) Finalmente, não use aquele tom de Vamos Ser Justos e diga: “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem os bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca, os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, os políticos negros não tentam fazer alguns truques para reduzir o poder de veto dos brancos através da manipulação dos distritos eleitorais e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas “aspiracionais” pelo “mainstream”.

Então, depois dessa lista do que não fazer, o que se deve fazer? Não tenho certeza. Tente escutar, talvez. Ouça o que está sendo dito. E lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua. Só estão dizendo como é. Se você não entende, faça perguntas. Se tem vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e faça assim mesmo. É fácil perceber quando uma pergunta está sendo feita de coração. Depois, escute mais um pouco. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas. Um brinde às possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.

O texto de hoje poderá ser melhor entendido acessando outras publicações abaixo.

Motivação para essa publicação:

“Ifemelu” postou em seu blog idéias semelhantes às já postadas por nós.

Textos correlatos:

1 – Propôs uma definição psiquiatrica para o racista: Síndrome do Distúrbio Racial.

Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra

Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

O antissemita seria um doente? E o racista?

É possível o diálogo entre discriminado e discriminador?

De onde partirá a iniciativa de prevenir a Conduta Discriminatória Racista
Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.

2 – Enfatizou a invisibilidade do racista: “os racistas desapareceram”.

Violência e racismo no futebol

Protegendo o discriminador

Proteja o discriminador e modifique o discriminado

Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.

A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.

3 – Lembrou que a conduta do antissemita pode vir acompanhada de inveja.

O antissemita seria um doente? E o racista?

O antissemita, o racista, o machista e a inveja

4 – “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos”…

Uma contribuição exploratória psicodinâmica para o estudo da etiopatogenia da Conduta Discriminatória.

Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

Discriminados também discriminam 

O Feminismo, seus mitos e as mulheres machistas

5 – “Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua”.

Progressos na inibição da Conduta Discriminatória

Projeto Discriminação – APRS

Agora uma possível discordância: diz respeito à conduta discriminatória racista que, segundo a personagem do livro, não viria acompanhada de inveja. Ela se refere aos Estados Unidos. Na nossa idéia, e o que temos acompanhado a respeito do racismo no futebol, os discriminados, também poderiam ser atacados por inveja: da sua fama (visibilidade) e de situação financeira invejável.

Esperamos que este livro estimule, aos brasileiro interessados em diminuir o sofrimento dos grupos discriminados, a procurar outras alternativas para prevenção das Condutas Discriminatórias além da educação e criminalização.

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Convertendo gente sadia em enferma e cronificando doenças ao invés de curá-las

Para o médico venezuelano Oscar Feo, a indústria que produz sementes transgênicas e agrotóxicos é a mesma que está produzindo medicamentos
Para o médico venezuelano Oscar Feo, a indústria que produz sementes transgênicas e agrotóxicos é a mesma que está produzindo medicamentos

“Os interesses da saúde são substituídos pelos do mercado”

Maíra Mathias e André Antunes.

Da EPSJV/Fiocruz

Expoente do pensamento da Medicina Social latino-americana, o médico venezuelano Oscar Feo visitou a Escola Politécnica no dia em que a instituição completou 29 anos. Coordenador nacional da Universidade de Ciências da Saúde da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), Feo tem um profundo conhecimento da dinâmica da cooperação internacional em saúde e alerta que o interesse privado tem tido participação crescente na elaboração das políticas de saúde em nível global.

Nessa entrevista, ele explica o que entende por Complexo Industrial Médico e Financeiro da Saúde, fala sobre o lobby em torno da construção da proposta de Cobertura Universal em Saúde recentemente criticada pelo Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) em manifesto publicado em seu site.

Feo defende que é necessário resgatar a potência do pensamento contra-hegemônico da Medicina Social e adotar um novo modelo de desenvolvimento.

EPSJV/Fiocruz – Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a influência do que chama de Complexo Industrial Médico e Financeiro sobre as políticas de saúde globais.

Oscar Feo – Entender o que acontece hoje no cenário das políticas internacionais da saúde implica compreender que a saúde passou a ser um espaço fundamental da economia. Hoje, a saúde é o local onde se jogam os interesses do lucro e da acumulação de um setor fundamental da economia mundial que é a indústria farmacêutica e a indústria técnico-médica. Trata-se da segunda indústria que mais lucra no mundo e isso faz com que as políticas de saúde sejam influenciadas pelos interesses do que estamos chamando na América Latina de Complexo Médico-Industrial e Financeiro da Saúde, conformado pelas grandes corporações privadas. Essas empresas não têm como interesse a saúde da população e, sim, a acumulação de capital e realização do lucro. O melhor exemplo disso é a criação da proposta de Cobertura Universal da Saúde.

Em sua conferência, o senhor resgatou o histórico de construção da proposta de Cobertura Universal em Saúde, que está sendo assumida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa proposta foi construída com uma participação importante de fundações filantrópicas privadas como a Fundação Rockefeller e organismos financeiros internacionais, como o Banco Mundial. Baseado na sua visão sobre o papel da saúde na economia hoje, o que faz com que essas organizações se articulem em torno desse tema agora?

A proposta de cobertura universal é funcional ao mercado e ao capital. Ela foi assumida pela OMS [Organização Mundial da Saúde] e Opas [Organização Pan-Americana da Saúde] depois de ser desenhada nos grandes centros financeiros internacionais. A Fundação Rockefeller tem uma longa história na saúde e temos que relembrá-la. A Fundação Rockefeller é o braço filantrópico da ExxonMobil, indústria petrolífera fundada por John Rockefeller. Ela é o instrumento filantrópico para concretizar os interesses econômicos da Exxon. Em 1978, em uma cidade da extinta União Soviética [Alma-Ata, no Cazaquistão], se realizou uma reunião que postulou a ‘Atenção Primária em Saúde para todos no ano 2000’. Que fez a Fundação Rockefeller? No ano seguinte, reuniu um grupo de especialistas em seu centro de formação em Bellagio, na Itália, e converteu a Atenção Primária, que era uma concepção integral da saúde, em uma APS seletiva, voltada para a prestação de um pequeno pacote de serviços para os pobres, como imunização, orientação à amamentação, etc. É isso o que querem fazer com a cobertura universal. E ainda por cima nos roubam a palavra universal. O mesmo poderíamos dizer da Fundação Bill e Melinda Gates ou do Banco Mundial: são instrumentos do grande capital. São essas organizações – que constroem a proposta da Cobertura Universal em Saúde para propiciar o asseguramento privado como instrumento fundamental de lucro desse complexo industrial e financeiro. Não sei bem se em português acontece o mesmo, mas em espanhol cobertura é uma palavra que diz respeito à quantidade de serviços cobertos, profundamente vinculada à indústria seguradora. Nós dizemos que esse foi um ato falho. Nós da Venezuela e do Brasil nos opomos à proposta da cobertura universal da saúde e defendemos o acesso universal através de sistemas de saúde públicos e universais.

O senhor relembrou Alma-Ata, uma conferência da Organização Mundial da Saúde. Este ano, na 67ª Assembleia Mundial da Saúde da OMS, vemos o lançamento de um documento que monitora o progresso da adoção global da Cobertura Universal em Saúde assinado conjuntamente pela OMS e pelo Banco Mundial. Existe um rebaixamento do papel dos organismos internacionais hoje?

Os organismos internacionais são um grande espaço de confronto hoje. Neles se dão as mesmas contradições que vemos no conjunto das sociedades, pois os organismos também foram penetrados pelos interesses do capital e do mercado. O Parlamento Europeu move um processo contra a OMS em razão de a Organização ter mudado os critérios de declaração de uma pandemia mundial a partir da [Gripe A] H1N1. São exemplos concretos de como muitas vezes os interesses da saúde são substituídos pelos do mercado. A publicação no ano 2000 de um documento da OMS que classifica os sistemas de saúde e coloca o Brasil em um dos últimos lugares, enquanto que eleva a Colômbia – onde a saúde é totalmente privada – é um claro sinal de como o mercado está penetrando nos organismos de saúde. Essa é uma briga que temos que comprar. Os organismos internacionais são formados pelos Estados nacionais, então devem seguir as políticas que esses países defendem, e não as políticas advogadas pela Fundação Rockefeller ou pelo Banco Mundial. Agora mesmo, na reunião do Conselho Diretivo da Opas, marcada para o final de setembro, vai haver uma discussão sobre Cobertura Universal onde países como Brasil, Equador e Venezuela contestarão essa proposta e defenderão os sistemas universais de saúde. Os organismos internacionais seguirão sendo cooptados pelos interesses do capital e do mercado na medida em que nós não sejamos capazes de defender com força – e ganhar – nossas posições.

Agora e na conferência o senhor cita a questão da H1N1 e a pressão para que a OMS a reconhecesse como pandemia para alavancar a venda de medicamentos que ficaram encalhados, sem uso. Neste caso mais uma vez os Estados nacionais se viram enfraquecidos frente ao lobby da indústria farmacêutica. Como o senhor vê essa indistinção entre interesses de mercado e de Estado?

Há muitas epidemias que são vistas pelo mercado como oportunidades para a comercialização de seus produtos. É ai que temos que ter cuidado, porque se surge uma epidemia, os interesses do Complexo Médico Industrial podem fazer como terminemos fazendo para a epidemia de H1N1 comprando medicamentos e vacinas que depois nunca utilizamos. Os governos terminam se transformando em instrumentos para satisfazer as necessidades de lucro da indústria. E, para isso, é preciso ter ciência e conhecimento independentes. Implica que não podemos permitir que a indústria farmacêutica siga determinando o que deve ser investigado. Nesse sentido, países como o Brasil, que tem um desenvolvimento científico e técnico avançado, têm um papel importantíssimo. Nós precisamos construir em nossos países soberania sanitária. E isso se faz com investigação, com inovação tecnológica convertida em instrumento que vise à saúde das pessoas e não o lucro do mercado. Lamentavelmente há muitas denúncias sobre isso. Hoje a indústria farmacêutica está pouco interessada em curar as enfermidades, ela quer clientes. E, para isso, está promovendo políticas para mudar os padrões de diagnóstico de algumas doenças ou mesmo inventando doenças que não existem. Isso permite com que convertam gente sadia em gente enferma ou pré-enferma, angariando mais clientes. É uma indústria interessada em cronificar as doenças ao invés de curá-las, garantindo consumo permanente de seus medicamentos.

Atualmente assistimos ao quadro lamentável da epidemia de Ebola nos países africanos e alguns analistas argumentam que essa epidemia foi potencializada, de um lado, pela adoção de um modelo de desenvolvimento baseado na expansão da agroindústria exportadora, que, ao desmatar a savana, contribuiu para que os animais silvestres que transmitem o vírus se aproximassem das populações humanas; por outro, pela falta de interesse da indústria farmacêutica em pesquisar sobre uma doença que atinge principalmente populações empobrecidas. Hoje há, inclusive, indústrias que atuam tanto no fomento ao modelo agroexportador, produzindo agrotóxicos e fertilizantes, quanto na produção de medicamentos, caso da Bayer. O que essas ‘ligações perigosas’ nos dizem sobre o mundo hoje?

Essa é uma clara demonstração da integração de interesses. Hoje já não é mais é possível diferenciar os interesses do capital financeiro daqueles interesses do capital industrial, ou dos interesses dos donos dos meios de comunicação, por exemplo. A General Electric é dona da NBC [emissora de rádio e TV baseada nos Estados Unidos], a Westinghouse por sua vez, é dona da CBS [idem]. A indústria que produz sementes transgênicas e agrotóxicos é a mesma que está produzindo medicamentos. E, em muitos casos, o dono da indústria farmacêutica é o mesmo dono dos meios de comunicação que alertam sobre possíveis enfermidades criando na população matrizes de opinião, às vezes simplesmente difundindo o pânico nas pessoas que prontamente pressionam seus governos a comprar coisas desnecessárias. O atual modelo de desenvolvimento capitalista propala o extrativismo intensivo, que deteriora profundamente o meio ambiente, o agronegócio, que também deteriora o ambiente e tem um impacto totalmente nocivo sobre a saúde e a vida. Há locais em nosso continente em que o aumento da incidência de câncer está diretamente vinculado a esse modelo agroexportador intensivo. Há alguns anos na América Central, ocorreu uma epidemia de insuficiência renal crônica terminal, vinculada fundamentalmente às condições de trabalho nos plantios da cana-de-açúcar para a produção intensiva de etanol ou açúcar. Há vinculação direta entre o modelo de produção que busca a extração máxima do lucro e a deterioração do ambiente e da vida. Hoje estamos diante de um nível de deterioração do mundo que nos obriga a pensar em um novo modelo de desenvolvimento, de produção e de consumo. Precisamos uma mudança de paradigma.

Esse paradigma seria o Bem Viver?

Sim, o novo paradigma é o Bem Viver, um modelo de produção baseado não na acumulação de riquezas, mas na satisfação das necessidades coletivas, em equilíbrio com o meio ambiente. Essa é a diferença entre o modelo de desenvolvimento capitalista e um modelo de desenvolvimento alternativo, que [o presidente] Evo Morales na Bolívia chama de socialismo comunitário, na Venezuela chamamos de socialismo do século 21, em outros países recebe outros nomes, mas para nossos povos originários era simplesmente o ‘viver bem’. Viver bem é satisfazer as necessidades de todos e todas em harmonia com o ambiente. Mas vivemos num mundo individualista, consumista, cravado pela necessidade do dinheiro, e estamos defendendo algo que rompa com esses interesses. Algo muito mais simples: produzir aquilo que precisamos para viver. Hoje, ao contrário, a produção tem em vista o consumo supérfluo, massivo para o intercâmbio comercial lucrativo. O melhor exemplo é o que acontece com os alimentos. O mundo produz alimentos que poderiam nutrir toda a população mundial, até mais. Imperam a desnutrição e a fome. Por quê? Os alimentos se converteram em mercadorias, em commodities que se vendem e se compram. O alimento não é para alimentar, compra quem pode. É um modelo absolutamente falido e fracassado.

O senhor, juntamente com Asa Cristina Laurell, Nila Heredia, dentre outros, construiu sua trajetória dentro desse movimento que ficou conhecido na América Latina como Medicina Social. O senhor define a Medicina Social fundamentalmente como um “pensamento contra hegemônico” em oposição ao que seria o pensamento que dominou a saúde pública. Como essa hegemonia se dá hoje?

Na década de 1990 houve uma mudança fundamental: desapareceu a bipolaridade que existia e que cindia o mundo em capitalista e socialista. A partir desse momento, falamos de algo que se chama hegemonia planetária do capital. O que é hegemonia, segundo Gramsci? É quando a classe dominante faz com que as classes subordinadas da sociedade assumam suas concepções – as da classe dominante – sem coerção. O que é mais eficaz: dominar alguém pela força ou pelo pensamento? Hoje a hegemonia planetária do capital faz com que as pessoas pensem segundo sua lógica através dos meios de comunicação. Há de se compreender que uma tarefa fundamental é quebrar essa hegemonia. Por isso falamos da necessidade de construir pensamento e ação contra-hegemônicos. Que diz a hegemonia? Ela defende que as funções dos sistemas de saúde são a gestão, o asseguramento, o financiamento e a prestação de serviços. Isso se estuda nas Escolas de Saúde Pública. Nós dizemos não. Não aceitamos essa abordagem. Para nós, a função fundamental do sistema de saúde é a garantia do direito à saúde, e para garantir o direito à saúde nós não devemos ter somente a gestão. Temos que ter o controle total do sistema de saúde.

Qual é o papel da educação nesse processo?

Boa parte dos centros de formação está cooptada pelo pensamento hegemônico. A Escola Politécnica, por exemplo, é uma escola que nasce como parte do pensamento contra-hegemônico. Quando vou ao pátio, leio nas paredes frases de Paulo Freire, Antonio Gramsci, Karl Marx, José Saramago. Gramsci diz que uma escola politécnica não deve ser um local para se aprender técnicas, mas para aprender a vida. Resgatar esses elementos é fundamental, fazer com que o ensino não se conforme em torno do positivismo, do academicismo, do cientificismo e, sim, vise o mais importante: formar homens e mulheres livres para a transformação social. Esse é o desafio que temos pela frente. O que fazemos hoje? Formamos médicos ou enfermeiras para o setor privado, profundamente desumanizados, mercantilizados. O desafio é romper com esse modelo de formação que visa o mercado, para o uso excessivo da tecnologia, e construir um novo modelo de formação de profissionais para a vida, profundamente humanos e solidários.

Reproduzido do blog Brasil de Fato

Texto correlato:

O neuropsiquiatra e o ditador

Orgulho de ser discriminador

Paul Weston
Paul Weston

Prezado leitor.

Gostaria muito de saber sua opinião sobre esta manifestação.
Já viu algo semelhante (e tão explícito), sobre questões nossas, aqui no Brasil?
Qual foi a reação ao fato na grande imprensa e na internet?
Se não viu, pensa que isto possa ocorrer, em relação a algum grupo em nosso país?
O que pensa que deva ser feito para evitar este tipo de conduta discriminatória?
Esta manifestação é, na sua forma, diferente das que ocorrem em campos de futebol.
E nas suas essências, são diferentes?
Na sua opinião qual delas é mais perigosa para sociedade como um todo?
Qual delas é mais fácil de punir? E de prevenir?

Sobre o uso da palavra “racista” no video (Inglaterra) e na tradução.
Aqui utiliza-se a palavra/expressão discriminador.
Em muitos países a expressão “racista” tem o significado que aqui atribui-se a “discriminador”.

Veja abaixo o vídeo “I am a racist”. O vídeo é falado em inglês. Ao lado tem uma tradução em francês. E, a seguir, a tradução para o português.

Olá, meu nome é Paul Weston e eu sou um racista. Eu sei que sou racista porque muitas pessoas me dizem que sou racista. A extrema esquerda pensa que sou um racista, o Partido dos Trabalhadores pensa que sou um racista, conservadores pensam que eu sou um racista, democratas liberais pensam que sou um racista, a BBC pensa que sou um racista. Portanto, devo ser racista. Por que sou racista? É muito simples: eu desejo preservar a cultura do meu país, o povo do meu país e ao fazer isso eu sou designado racista na sociedade atual.

Isso é algo que tem sido movido pela esquerda, o cursor do racismo mudou consideravelmente. Para se tornar racista 30 ou 40 anos atrás, teria que realmente desgostar de estrangeiros. Eu não desgosto de estrangeiros. O que eu gosto mesmo, o que eu amo é meu país, minha cultura e meu povo. E eu vejo isso sob uma terrível ameaça atualmente.

A Inglaterra é um país muito pequeno que abriu suas portas para uma massa de imigrantes do Terceiro Mundo e estamos sobrecarregados. Nossas escolas não conseguem lidar com isso, nossos hospitais não conseguem. Na verdade, muito poucos setores ainda conseguem lidar. O sistema de bem-estar social está afundando também. Então, se eu quero defender o lugar que nasci e cresci, meu país, minha cultura britânica, meu patrimonio e minha história eu sou, aparentemente, de acordo com todo mundo diz atualmente, um racista.

Mas não acho que seja o caso. Não que eu não seja racista, eu vou assumir isso completamente. Porque claramente eu sou. Eu ouvi isso de tantas pessoas que só pode ser verdade. Eu sou provavelmente também islamofóbico. Uma fobia é um medo irracional de alguma coisa, e eu não tenho um medo irracional do Islã. Eu olho para o mundo hoje, para a Síria, por exemplo, onde 100 mil pessoas morreram nos últimos 2 anos, onde muçulmanos xiitas estão matando sunitas e vice-versa. Eu olho para lugares como Indonésia, Egito e China e as Filipinas. Em todo lugar que se olha, se vê problemas com islamismo. Eles são violentos e são, me atrevo a dizer para reforçar meu caráter racista, profundamente selvagens em ideologias políticas e religiosas.

Agora, muitas pessoas descordarão disso. A extrema esquerda dirá que não se pode criticar o Islã porque Islã é uma religião e agora há regras nesse país que dizem que se você criticar religião, está incitando o ódio religioso. Mas o Islã não é apenas uma religião, é uma ideologia política também e precisamos chamar dessa forma. É uma cultura que é política e religiosa. E eu gostaria de saber se posso dizer algumas coisas sobre isso. Nós temos um grande problema nesse país que não irá embora, vai piorar cada vez mais. Nós, como povo, estamos decrescendo demograficamente, e a população islâmica está crescendo nove vezes mais rápido do que qualquer outra.

Quando eu olho para o futuro, vejo uma grande guerra civil religiosa ocorrendo nesse país. As coisas impensáveis que estão acontecendo na Síria atualmente irão acontecer aqui antes de 2040, certamente antes de 2050. E eu não quero que a Inglaterra se torne assim, então vou denunciar o Islã como uma ideologia religiosa e política retrógrada e selvagem. E que vá para o inferno o que as pessoas pensem sobre isso. Porque se não fizermos algo sobre isso, vamos nos envolver em algo que a maioria das pessoas nem consegue imaginar na Inglaterra.

Então, precisamos denunciar isso pelo que é e começar a montar alguma defesa contra isso. O problema de montar uma defesa é que deparamos com a acusação de racismo, com o “Eu não sou um racista, mas…” Bem, aqui está: eu sou um racista. Se eu quero evitar uma guerra civil em meu país, estou preparado para ser chamado de racista. E você deveria aceitar ser chamado de racista também.

Vamos apenas dizer que somos racistas detestáveis e começar a denunciar uma ideologia que é a mais primitiva, selvagem e retrógrada que foi importada para dentro desse país pela esquerda, por pessoas como Tony Blair, que fizeram isso deliberadamente para debilitar meu país, meu povo. Eles fizeram isso deliberadamente e depois disseram que não temos permissão de discutir sobre isso. Bem, eu discuto sobre isso, e eu vou lhe dizer que você denunciou e retirou a Lei da Traição logo que chegou ao poder. Eu acho que você cometeu traição quando disse que nós vamos importar o terceiro mundo para esfregar a diversidade na cara da direita (política). Para mim, isso é traição.

Sua missão foi esquecer do melhor interesse das pessoas desse país para deliberadamente nos menosprezar e nos subverter, e isso é um ato criminoso. Não importa que você repeliu a lei, as leis podem retornar e algum dia você será julgado por traição, junto com o resto de seu gabinete e todos os políticos em altos cargos que permitiram esse ato criminal. E eu vou lhe dizer isso: não importa que você possa me processar por racismo ou incitar violência religiosa, eu não acredito nisso. Acredito apenas na defesa de meu país, a defesa do meu povo e da minha cultura. Todo o resto pode ir para o inferno. Eu sou um racista.

Tradução: Débora Fogliatto.

Por: Telmo Kiguel, médico psiquiatra e psicoterapeuta
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