Podemos gastar menos em Saúde e melhorar a saúde da população?

Desigualdade, prioridades e política

Não Por Acaso. Existe uma lógica

No ano de 1981 participei na Universidade de Sussex, na Inglaterra , de um curso com o título “Saúde para Todos, Políticas e Planejamento”, juntamente com outros brasileiros e representantes de países africanos, todos ligados ao setor saúde. O enfoque do curso era o da importância da identificação de desigualdades sociais capazes de determinar diferentes situações de saúde em uma mesma região. Usam-se indicadores para auxiliar na identificação de problemas sociais e de saúde e sabe-se que esses problemas não se distribuem uniformemente por toda uma determinada população, mas que há regiões, onde os problemas são mais intensos que em outras e que existem grupos populacionais onde são mais graves ou ocorrem com maior frequência que em outros. Uma vez conhecidas essas populações socialmente deprimidas, elas devem ser consideradas prioritárias para o desenvolvimento das ações sociais pontuais, necessárias. A identificação das prioridades implicará reconhecer maior importância àquele fato do que a outros. Priorizar significa creditar maior importância a determinados problemas que a outros.

No retorno do curso procurei aplicar os conhecimentos lá adquiridos em companhia do José Guimarães, amigo e colega na Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul. O objetivo era o de determinar desigualdades na mortalidade infantil. Um mapa da cidade foi utilizado, (nem pensar em computadores ou geoprocessamento naqueles tempos), e manualmente, os óbitos de menores de um ano foram localizados, de acordo com o endereço dos pais, em áreas consideradas como favelas, ou não favelas.[1] Os resultados mostraram numericamente, o que de certa forma se esperava: uma incrível diferença entre a probabilidade de morrer sendo morador de uma favela, em comparação com outras áreas da cidade. Posteriormente, calculou-se o risco que isso implicava.[2] Nos próximos anos outros estudos, geralmente acadêmicos, inclusive mais aprofundados seriam realizados em diversas regiões do país. O nosso trabalho foi por muitos, considerado como pioneiro na identificação de desigualdades no setor saúde, no Brasil.

No entanto, mais importante que o diagnóstico é caracterizá-lo como prioridade política, pois para o desencadeamento das ações decorrentes da identificação dos problemas será necessária a destinação dos recursos financeiros. A prioridade tem de sair do discurso e significar aplicação de recursos. Durante anos vivi com a esperança que o Brasil pudesse determinar uma política de atuação sobre os grupos menos privilegiados. Destinar mais recursos a quem mais necessita. Pois, a partir de 2003 isso ocorreu. Os programas de inclusão social, como o Bolsa-Família (BF), ao beneficiarem as populações mais desfavorecidas, melhoraram as condições alimentares das famílias pobres, permitiram a permanência de seus filhos na escola, colocaram a moeda corrente em circulação, aumentando as vendas no comércio, gerando mais impostos e, indiretamente melhorando os indicadores sociais e de saúde. A grande maioria dessas pessoas vivia em áreas deprimidas, como aquelas que, lá na década de 1980 identifiquei como faveladas. Agora transformadas em prioridade. Além do que, o BF não é um simples programa de transferência de renda. Visa a estabelecer parcerias com órgãos e instituições municipais, estaduais e federais, governamentais e não-governamentais, para oferta de programas sociais complementares, com vistas a criar meios e condições de promover a emancipação das famílias beneficiárias.

Exemplo disso é a autonomia conquistada por quatro mil famílias que dependiam do BF, no Rio Grande do Sul[3]. E milhares de outras em todo o território nacional.

Poderia me alongar trazendo outros exemplos de políticas sociais e educacionais prioritárias como o Pronatec, o Prouni e o “ Mais Médicos”. Comento algo sobre esse último: motivou-nos a criar esse site, em sua defesa, pois entendemos que a presença de médicos nos locais mais afastados, onde, na maioria dos casos, a população a eles não tinha acesso, caracteriza uma política de saúde que vai ao encontro das reais necessidades de atenção à saúde.

Sendo assim, fico surpreso com o levantamento de críticas e contrariedades a tais iniciativas. Ao notar que a população apoia essas medidas, um candidato, antes crítico do “Bolsa-Família”, agora reivindica como sendo do governo de seu partido a autoria do Programa.

Muitos anos foram necessários para que os diagnósticos de problemas sociais e de saúde das populações mais pobres contribuíssem para decisão política de transformá-los em prioridades. Hoje são realidade. Não por acaso.

[1] http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=35513&indexSearch=ID

[2]http://www.revistas.usp.br/rsp/article/viewFile/23353/25382

[3] http://www.sul21.com.br/jornal/quatro-mil-familias-conquistam-autonomia-e-abrem-mao-do-bolsa-familia-e-rs-mais-igual/


Airton Fischmann
Médico especialista e mestre em Saúde Pública pela USP.
Ex consultor da Organização Panamericana de Saúde.
Médico aposentado da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul

Reproduzido do blog Imagem Política

A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.

Prezado professor Douglas Belchior

Sou seu leitor e temos objetivos em comum: o enfrentamento das Condutas Discriminatórias (CD). (1)

No seu blog está clara a preocupação, também, com o machismo e a homofobia.

No seu texto “Para os presidenciáveis, os negros não existem” encontrei muitos trechos fundamentais para um bom debate. (2)

http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/10/03/4026/

Bom debate é o que ocorre entre os que estão ativamente empenhados em enfrentar os discriminadores.

Inicio com sua muito procedente preocupação com a invisibilidade do negro. (3)

Na condição de médico psiquiatra tenho um enfoque complementar ao seu.
Diante de um agente causador de sofrimento humano temos a obrigação de descobrir/definir o mesmo.

Lá no nosso blog (1) enfatizamos como o discriminador é mantido, confortavelmente, invisível. (3)

E o desinteresse em definir, deixar a descoberto, o racista torna quase impossivel prevenir a sua ação. (4)

É por isso, no nosso entendimento, que as “declarações racistas proliferam” porque o seu agente não é reconhecido.

Mas,de qualquer maneira, o que fazer para o negro deixar de ser invisível?

Propugnamos que lute para que a ciência defina o seu inimigo: o racista invisível. (5)

Durante este movimento, que seria um avanço no combate ao racismo, o negro e o racista se tornarão visíveis.

Vejamos o trecho em que você aborda indiretamente a questão acima onde o negro ficou visível:

“Pergunto aos mais velhos: qual foi a última vez ou o último período em que o debate sobre racismo foi tão presente e evidente no Brasil? Talvez no auge do debate sobre cotas raciais há uns 10 anos? No centenário da abolição, em 1988? Na transição do trabalho escravo para o trabalho livre no final do século 19?”

Daí decorre a ideia que há dois tipos de debate/divulgação na imprensa.

Ao primeiro podemos chamar de ocorrência conservadora.

Quando o negro é vítima de algum tipo de CD do tipo “racismo no futebol”. (6)

Segue-se uma revolta, a repercussão na imprensa, a tentativa de indiciamento, etc…

E o segundo tipo é o desejado e descrito nos exemplos da sua frase acima.

O racista só pode ser enfrentado, pelo negro e por suas lideranças, porque foi reconhecido.

Esta é uma ocorrência progressista por enfrentar a estrutura construída pelos racistas.

E o que tenho proposto não é nenhum enfrentamento físico ou parlamentar.

A proposta é que, assim como propuseram à Ciência Jurídica que criminalizasse a CD.

Sugiro que proponham tornar visível o discriminador antes dele agir de forma criminosa. (4)

Reivindicando que a Medicina e a Psicologia definam a CD.

Sabemos que o discriminador age e causa sofrimento mesmo antes de ser definido como criminoso.

E para terminar, a sua referência ao “racismo estrutural e institucionalizado”.

Quem estrutura e institucionaliza o racismo?

São pessoas, racistas que agem livremente por não serem conhecidas, definidas, caracterizadas como tal.

Creio que enfrentar o racista, definido, é um bom caminho para enfrentar a questão racial no Brasil.

Textos correlatos:

A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações

Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.

Educação e criminalização não previnem discriminação

Progressos na inibição da Conduta Discriminatória

Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

O antissemita seria um doente? E o racista?

Racista: uma definição que compete à Saúde Mental

Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?

Violência e racismo no futebol

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

Psicoterapeuta

A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações

Não lembro de uma eleição em que as discriminações mais conhecidas fossem tão usadas como argumento.
Sabemos que na vigência de enfrentamentos/disputas, o seu uso, como ataque ou defesa, é mais freqüente.
Como temos visto ocorrer também no futebol, aqui e no exterior.
“Discriminação na política, na imprensa, no judiciário e na medicina”.
Foi o título do evento que organizamos em 2010 no auditório da AMRIGS.
Veja em: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=30197
Já na naquela época detectávamos pequenos sinais do que hoje cresceu muito.
A nossa percepção é que as discriminações estão invadindo, e muito, o espaço público e político.
Como consequência a dedicação da imprensa ao tema também aumentou.
Já publicamos, em 18/07, que não temos previsão de avançar no combate às discriminações.
As eleições, os debates e a repercussão na imprensa, ao que parece, confirma isso.
Depois de ler todas as notícias abaixo, agrupadas por categorias, repito:
Educação e criminalização não previnem a discriminação.
Em medicina quando um sofrimento humano não melhora/diminui temos que repensar a nossa conduta.
Vejamos como exemplo três frases do texto publicado por Erick Andrade em:
http://juntos.org.br/2014/10/ser-lgbtt-ser-lgbttfobico-nao/
“Fico imaginando quantos mais serão necessários para que o Brasil reaja…”
“…grandes canais de mídia, que preferem se omitir…”
“Sigamos na luta por direitos. Sem retrocessos e sem omissão!”

Todas verdadeiras e importantes mas, infelizmente, não estão funcionando.
Penso que os Grupos Discriminados (GD) não podem, na situação atual, esperar pelo Brasil…
Pelas profissões citadas no título do nosso evento, descrito acima, não se pode esperar muito deles nesta questão.
Talvez o melhor seja os GD mudarem suas estratégias de prevenção/enfrentamento dos discriminadores.

Homofobia:
http://blogay.blogfolha.uol.com.br/2014/09/30/levy-fidelix-a-liberdade-de-expressao-e-o-discurso-de-odio/
http://www.onortao.com.br/noticias/vivemos-estigma-diz-wyllys-sobre-baixa-votacao-de-lgbts,25160.php
http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,debate-de-candidatos-no-rio-tem-bate-boca-entre-crivella-e-malafaia,1573530
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/07/politica/1412684374_628594.html
http://extra.globo.com/noticias/brasil/eleicoes-2014/deputado-eleito-racista-do-ano-o-mais-votado-no-rio-grande-do-sul-14158727.html
http://www.dw.de/elei%C3%A7%C3%A3o-deixa-congresso-mais-conservador/a-17981539

Xenofobia em relação aos nordestinos:
https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/156204/Blog-da-Cidadania-entrevista-de-FHC-estimulou-ataques-a-nordestinos.htm
http://www.valor.com.br/politica/3728162/navegacao-no-preconceito
http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2014-10-08/medica-de-grupo-anti-pt-minimiza-holocausto-a-nordestinos-e-revolucao-do-agir.html

Racismo:
http://www.cartacapital.com.br/politica/brancos-serao-quase-80-da-camara-dos-deputados-3603.html
http://extra.globo.com/noticias/brasil/eleicoes-2014/deputado-eleito-racista-do-ano-o-mais-votado-no-rio-grande-do-sul-14158727.html
http://www.dw.de/elei%C3%A7%C3%A3o-deixa-congresso-mais-conservador/a-17981539

Antissemitismo
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-discurso-do-medo-versao-etnica/4/31944

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapêuta

Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.

Hoje vamos debater a matéria publicada por Danilo Santos:
“O papel da mídia na difusão do racismo e o silêncio acadêmico”.
Em http://camanducaiahistory.blogspot.com.br/2014/09/o-papel-da-midia-na-difusao-do-racismo.html
Em primeiro lugar quero cumprimentar o autor e todos que reproduziram a matéria.
Alai Online, Geledés e muitos outros.
Na minha opinião ela contem alguns elementos para um bom debate.
Exatamente por explicitar o desejo e as dificuldades para debater a discriminação racial.
A invisibilidade do discriminador, no caso o racista, é um aspecto decisivo para a dificuldade.
Podemos dizer, simplificando, que a questão das discriminações seria um tipo enfrentamento.
O discriminador ataca o discriminado através da Conduta Discriminatória (CD).
E consequentemente o discriminado passa a ter um sofrimento mental e/ou fisico.
Constatamos que o discriminado, até agora, reagiu a este ataque criando duas instâncias de defesa.
Organizou-se em grupos ao qual se juntaram seus simpatizantes:
Organizações governamentais e Organizações não governamentais.
E conseguiu, através de pressão social e política, que o direito criminalizasse algumas CD.
Como em qualquer enfrentamento é necessário conhecer o oponente.
Sem essa premissa, o debate é praticamente impossivel.
E também só o (re)conhecendo, ele poderá ser enfrentado, neutralizado, denunciado.
Mas até agora não se tem um perfil/definição de quem é o discriminador.
Antes de agir (CD) de forma criminosa ele consegue se manter invisivel.
Não é conhecido pela sociedade e pode ter uma aparência de uma pessoa insuspeita.
Mas já é um discriminador.
E enquanto ele não for conhecido/definido pelo meio acadêmico não teremos um debate razoável, sério.
E não poderemos prevenir as ações dos discriminadores.
Como agir contra um agente de sofrimento humano que se mantém invisível?
A CD e o conseqüente sofrimento mental e/ou físico do discriminado é uma questão de Saúde Pública/Mental.
E prevenção faz parte do enfrentamento a qualquer agente causador de sofrimento humano.
Creio que a discussão do tema seria melhor se todas as mídias interessadas introduzissem uma nova pauta.
Pressionar o meio acadêmico, as ciências médicas, psicológicas, psicanalíticas, etc., para definir o discriminador.
Para que elas se apropriassem do estudo das Condutas Discriminatórias como a Ciência Jurídica já o fez.
E todas mídias inclui as ligadas aos grupos discriminados: numerosas, combativas e bem organizadas.
Agindo assim ainda enfrentariam a falácia do “coitadismo exacerbado”.
Nada melhor, para isso, do que uma atitude pró-ativa contra o discriminador.

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta