Psicanálise, discriminação, publicidade e saúde mental

O psicanalista Jorge Bruce
O psicanalista Jorge Bruce

Apresentaremos entrevista com Jorge Bruce, psicólogo e psicoanalista.

As descrições são basicamente do Peru, seu país de origem.

Mas poderíamos encontrar muitas delas aqui no Brasil.

Objetivo: divulgar melhor a questão da Conduta Discriminatória como uma questão de Saúde Mental.

Quanto ao entendimento/compreensão das questões emocionais, pensamos que valem para qualquer local.

Jorge Bruce esteve em Porto Alegre para participar do evento abaixo:

http://www.aprs.org.br/agenda/icalrepeat.detail/2014/11/22/132/63/forum-interdisciplinar-de-discussao-sobre-a-maldade-a-etica-e-a-corrupcao-no-cotidiano

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta

Cartel de médicos é prejudicial à saúde

Gesner Oliveira, Roland Saldanha, Paolo Mazzucato e Marcela Altale: Cartel é prejudicial à saúde

O uso de cooperativas como disfarce para a organização de cartéis de médicos especialistas tem elevado os custos do SUS (Sistema Único de Saúde) e dos convênios médicos.

São muitas as vantagens do cooperativismo, mas elas degeneram em malefícios sociais quando a função principal dessas organizações for a de aglutinar médicos atuantes em certas regiões para impor honorários ou condições comerciais.

Nesse caso há uma transfiguração: cooperativas viram cartéis, tornando os serviços mais caros, escassos e de menor qualidade.

Alega-se que a criação de cartéis de médicos especialistas seria boa para compensar o poder de mercado das operadoras de saúde. Não é o caso. O grupo que tradicionalmente contrata médicos é amplo e desconcentrado: em setembro de 2014, 1.437 operadoras privadas –das quais 102 com mais de 100 mil beneficiários– e o SUS precisaram de médicos para honrar suas obrigações contratuais ou constitucionais.
Dada a conhecida escassez de médicos no país, o que existe é uma fragilização da negociação daqueles que demandam o serviço.

Recomendar redução na concorrência para tratar eventuais abusos competitivos é uma solução pouco racional, especialmente porque as dosagens e seus efeitos colaterais são pouco estudadas. Decisões recentes do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) confirmam a rejeição do argumento do poder compensatório na defesa de conluios médicos.

Planos mais caros induzem a redução de demanda pelos beneficiários mais jovens, saudáveis ou de menor renda. Sobrecarrega-se ainda mais o SUS e, no segmento privado, deteriora-se o perfil de risco da carteira e os custos das apólices, com pressão para novos reajustes nas mensalidades.

A maioria das cooperativas de especialidades condenadas por prática de cartel pelo Cade se localiza em capitais e no Distrito Federal. A elevação artificial dos honorários em poucas regiões desestimula o deslocamento de médicos a regiões menos densamente povoadas do país. Sob a sombra cooperativa, a oferta de especialistas pode se concentrar nos grandes centros urbanos sem forçar a queda de honorários.

Por mais polêmico que seja, ninguém discordaria do objetivo do programa Mais Médicos de assegurar uma oferta adequada de profissionais nas diferentes regiões. No entanto, um dos efeitos dos cartéis de especialidades é concentrar geograficamente a atuação dos especialistas, deixando as áreas recônditas carentes de médicos.

É difícil imaginar uma profissão mais nobre e importante para o bem-estar das pessoas do que a do médico. Nada mais justo do que reivindicar honorários e condições adequadas de trabalho.

É igualmente oportuno difundir a cultura da concorrência entre a classe médica. Isso, porém, não deve ser feito mediante a prática ilegal de cartéis, que beneficia algumas especialidades em detrimento do conjunto da sociedade.

O cartel é prejudicial à saúde.

GESNER OLIVEIRA, 58, ex-presidente do Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica (governo FHC), é professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas
ROLAND SALDANHA, 46, é chefe do departamento de economia da PUC-SP
PAOLO MAZZUCATO, 37, é presidente da Comissão Permanente de Estudos de Direito da Concorrência e Regulação Econômica da OAB-MG
MARCELA ALTALE, 28, advogada, é mestranda em direito do Estado pela USP

Fonte: Folha de São Paulo – Opinião – 13/11/14

Texto correlato:

O neuropsiquiatra e o ditador

Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?

O texto gira em torno do (mau) uso eleitoral das Discriminações por políticos e partidos.

As Discriminações enfocadas por nós são as que o discriminador pode ser criminalizado ou passível de criminalização:

O racista, o machista, o homofóbico, o antissemita, etc.

O advogado e militante político português João Lemos Esteves publicou em 29/10/2014:
PS: O Partido que é adversário da igualdade dos gays! – Sol

Em que aparece mais um obstáculo para o avanço do combate aos discriminadores, no caso em Portugal

Nosso maior interesse está na idéia que permeia as seguintes frases da matéria (integralmente copiada abaixo):

“É que o Partido Socialista não quer defender os direitos dos homossexuais – os socialistas pretendem, apenas, utilizar os homossexuais como arma de arremesso político.”
“…o que os socialistas fazem aos nossos concidadãos homossexuais: a utilizá-los como meios para os seus objectivos políticos.”
“…porquê tratar diferentemente os homossexuais? Só porque o PS acha que vai buscar alguns votos?).” 

Nos links abaixo já publicamos nossa opinião sobre algumas dificuldades para combater as Discriminações aqui no Brasil.

Não temos previsão de avançar no combate ao racismo
Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.

Até agora não tínhamos abordado, aqui no blog, esta possibilidade aventada pelo professor João Lemos.
Você conhece político ou partido, em função legislativa ou executiva, na esfera municipal, estadual ou federal que utiliza um grupo discriminado para fins eleitorais?
E de que maneira percebeu ou observou esta ação?
Já viu alguma denúncia com esse conteúdo?
Pensa que esse tipo de ocorrência deve ser comentada/denunciada aqui no Brasil?

PS: O Partido que é adversário da Igualdade dos gays!
 
1.    Um grupo de Deputados socialistas propôs que o dia 17 de Maio se tornasse o Dia Nacional contra a Homofobia. Porquê este dia? Porque foi precisamente no dia 17 de Maio de 1990 que a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças: até então, a homossexualidade era classificada como uma patologia mental/psiquiátrica.
2.    Pois bem, a Deputada Isabel Moreira – que muito estimamos e por quem temos uma elevadíssima consideração pessoal e intelectual – lá se lembrou de trazer novamente a homossexualidade para a agenda política. Note-se que não escrevemos “ Isabel Moreira voltou a trazer para a agenda política o tema da defesa dos direitos dos homossexuais”. Propositadamente. É que o Partido Socialista não quer defender os direitos dos homossexuais – os socialistas pretendem, apenas, utilizar os homossexuais como arma de arremesso político. 

3.    Para nós, qualquer forma de discriminação – quer seja fundada no sexo, na idade, na raça ou na orientação sexual – é um acto abjecto. Que nos repugna profundamente. Que nos revolta – como qualquer acto cobarde, a discriminação funda-se num sentimento de pretensa superioridade, apenas e só pelo facto de o indivíduo se integrar num grupo considerado como “padrão” num dado meio social. Como qualquer acto cobarde, a discriminação dos cidadãos homossexuais só deixa ficar mal quem a pratica. Urge, pois, lutar contra todas e qualquer forma de discriminação. Lutar contra a exclusão de qualquer cidadão da sociedade, contra a privação imposta a qualquer cidadão do exercício dos direitos que lhes são legal e constitucionalmente conferidos, contra a negação do direito de todos a nós, como ficou para a eternidade expresso na Declaração da Independência dessa enorme Nação Livre que é os Estados Unidos da América, de perseguir a felicidade pessoal – são imperativos categóricos dos defensores (como nós) intransigentes do Estado de Direito Democrático. 

4.    E como poderemos lutar contra a estigmatização dos cidadãos homossexuais? Através da prática, constante e diária, da tolerância, do respeito, de mostrar que não há diferenças na dignidade dos cidadãos. Todos os seres humanos são dotados da mesma dignidade. O PS não respeita o princípio da dignidade da pessoa humana! 

5.    O Partido Socialista faz precisamente o contrário. Ao propor a criação de um Dia Nacional contra a Homofobia, e ao fazer da sua criação um pretexto para a discussão e luta política, o Partido Socialista não trata os homossexuais como ser iguais, dotados da mesma dignidade, relativizando as diferenças entre seres humanos. Pelo contrário: os socialistas lembram que os cidadãos homossexuais são diferentes, são uma “categoria social” à parte, com limitações e restrições à sua capacidade jurídica e de autodeterminação. Consequência: os socialistas só perpetuam as diferenças e a estigmatização. O PS parece querer fazer subsistir (por muitos e longos anos) a ideia dos homossexuais como coitadinhos, como dotados de uma capitis diminutio, que merecem protecção especial. Porquê? 

6.    Por uma razão muito simples: a manutenção dos homossexuais como cidadãos a carecer de protecção é muito conveniente para o PS. Quando os socialistas não têm iniciativa política, quando não sabem o que propor quanto aos grandes temas que preocupam os portugueses – vai daí e recorrem ao cliché dos direitos dos homossexuais. É sempre o mesmo filme!

7.    Ora, esta postura dos socialistas viola o princípio da dignidade da pessoa humana: converte os cidadãos homossexuais em verdadeiras “marionetas”, instrumentos ou “muletas” das estratégias políticas do PS. O PS quer desviar as atenções do vazio programático de António Costa – e, para conseguir preservar o silêncio de Costa, os socialistas utilizam o “tema fracturante” (como os socialistas qualificam) dos homossexuais. Hoje é o Dia Nacional – amanhã, o que será? 

8.    Alguém deve recordar aos socialistas que todos os seres humanos são fins em si mesmos – não podem ser tratados como objectos, como meios para atingir certos fins. Não podemos ficar calados perante o que os socialistas fazem aos nossos concidadãos homossexuais: a utilizá-los como meios para os seus objectivos políticos. Triste. Muito triste. Lamentável. 

9.    Enfim, importa reter – e lembrar todos os dias – que os cidadãos homossexuais são indivíduos dotados de plena autonomia ética, que não precisam que certos partidos políticos interfiram a toda a hora na sua esfera privada. Que o Estado os considere como seres incapazes, que necessitam de protecção especial – a solução, para acabar com a discriminação, é precisamente a inversa. Os homossexuais são tão cidadãos como qualquer um de nós – há, pois, que deixá-los viver normalmente. Sem dias nacionais do homossexual (tanto quanto sabemos, não existe nenhum dia nacional do heterossexual: porquê tratar diferentemente os homossexuais? Só porque o PS acha que vai buscar alguns votos?). 

10.    Só mesmo um partido irresponsável, sem consciência social e humana como é o PS, é que propõe a criação de um Dia Nacional para defender os homossexuais – com a mesma leviandade com que se propõe o Dia nacional do gato ou o Dia Nacional da Árvore e da Floresta. Os homossexuais merecem mais – muito mais! – consideração. E respeito. 

Telmo Kiguel

Médico Psiquiatra

Psicoterapeuta

Mulheres e drogas: relações pessoais, sociais e tratamento.

Mulheres e Drogas. Confira as recomendações da ABEAD para o tratamento resolutivo 

 

Alessandra Diehl e Selene Barreto, Analice Gigliotti, José Mauro Braz, Luís Guilherme, Maria Ângela Madeira Ribeiro, Ana Cristina de Melo, Ana Carolina Schmidt, Thais Simões, Margarida Inocência Constâncio, Ana Cecilia Petta Roselli Marques

Os dois levantamentos nacionais recentes sobre Álcool e Drogas (I e II LENAD, 2006; 2013) mostraram que 29% e 39% das mulheres ingerem bebida alcoólica frequentemente no Brasil, respectivamente. O padrão de consumo em binge (quatro ou mais doses em um intervalo mínimo de duas horas, semanalmente ou mais), aumentou 36% entre as mulheres, especialmente entre as mais jovens, muito maior que aquele encontrado entre homens. Em relação ao tipo de bebida alcoólica mais consumida, a cerveja é a mais consumida pelos dois gêneros em todo o país. Porém, mulheres consomem mais vinho em relação aos homens, mais drogas lícitas, principalmente anfetamínicos e benzodiazepínicos, hoje um dos países que mais consome clonazepam no mundo (CARLINI et al., 2006; NAPPO et al., 1998; NOTTO et al., 2002; INCB, 2009).

Vulnerabilidades Físicas, Biológicas e Genéticas

Apesar das taxas de consumo de substâncias de abuso entre as mulheres se aproximarem cada vez mais dos homens, elas ainda bebem menos, mas adoecem mais cedo e de forma mais grave – o efeito telescópico (ZILBERMAN et al., 2003; LARANJEIRA et al., 2011; DAVIS, 1998). Algumas diferenças entre os gêneros podem ser relacionadas ao fenômeno, como o menor volume de água corporal, o aumento da razão corporal gordura/água, a menor quantidade da enzima álcool-desidrogenase, responsável pelo metabolismo do álcool no estômago, e a interface do álcool com os hormônios femininos (estrógenos e progesteronas), que aumenta o dano hepático (GIGLIOTTI et al., 2007; KANDALL,2010).

Os estudos genéticos sobre alcoolismo envolvendo gêmeos monozigóticos mostraram maior influência genética nos homens do que nas mulheres, com hereditariedade estimada em 11% para mulheres (TUCHMAN, 2010; Hesselbrock et al., 2013). Usuárias de drogas ilícitas são mais prováveis de apresentarem uma família mais disfuncional e falta de modelos parentais de identificação do que seus companheiros homens em tratamento (GUIMARAES et al., 2009).

Vulnerabilidades Psicológicas e Psiquiátricas

O início do uso entre mulheres tem sido associado a um mecanismo de enfrentamento da timidez, da ansiedade, de baixa autoestima (ZILBERMAN et al., 2003a). Meninas adolescentes estão sob a influência da mídia em relação ao álcool, tabaco e anorexígenos, que associam o consumo à beleza, riqueza e sucesso profissional (NAPPO et al., 2002; BRAILIANO et al., 2005).

Os transtornos psiquiátricos tendem a ser a morbidade primária e a dependência, a secundária, ao contrário dos homens (ELBREDER et al.,2008; KANDALL,2010; ZILBERMAN,TAVARES, BLUME, 2003). O consumo de álcool e drogas também se encontra mais associado à comorbidades psiquiátricas como os transtornos do humor (mania e depressão), de ansiedade (pânico, fobias e transtorno do estresse pós traumático) e transtorno de personalidade borderline, um preditor de pior desfecho nos tratamentos (ZILBERMAN et al., 2003b).

Vulnerabilidades Sociais e Culturais

Apesar das conquistas das mulheres em relação à sua emancipação, ainda sofrem com a desvantagem social devido a uma cultura ainda muito preconceituosa e discriminatória: “a mulher não pode se embriagar”. Falta de apoio do cônjuge para o início de um tratamento e o sistema de saúde carece de serviços especializados (BRAILIANO et al., 2006; OLIVEIRA et al., 2005; ALMEIDA et al., 2009; ROSA, 2008). Assim, buscam menos o tratamento, fazem segredo sobre ele, os estudos científicos são raros, e o medo em relação à perda de seu papel de mãe e esposa é frequente (ZILBERMAN et al., 2003a; ZILBERMAN et al., 2003b).

O I Levantamento Nacional do Consumo de Álcool na população Brasileira (I LENAD, 2006) mostrou que os homens consumiam álcool em 38,1% dos casos de violência entre parceiros íntimos (VPI) e as mulheres em 9,2%. Com relação à percepção de consumo de álcool pelo companheiro/a, o homem informou consumo de álcool pela parceira em 30,8% dos episódios de VPI, e a mulher informou que o seu parceiro ingeriu álcool em 44,6% desses episódios (ZALESKI, 2009).

A relação de gênero, violência doméstica e drogas é bem estreita (FONSECA, 2009; RABELLO et al., 2007). Cerca de 43.1% das mulheres brasileiras já sofreram violência doméstica, versus 12.3% dos homens (ALMEIDA et al., 2009). O uso de álcool tem relação com agressão/violência sexual dirigida a parceiros íntimos, cujos agressores homens que relataram níveis baixos de pleno estado de consciência durante o episódio. No caso das mulheres dependentes de álcool e outras drogas estudos mostram que muitas se relacionam com homens também usuários, aumentando o risco de conflitos e violência, podendo muitas vezes o próprio cônjuge ser o fornecedor da droga, ou utilizar a mulher como moeda de troca com traficantes ou ainda, os cônjuges e outros familiares muitas vezes não toleram a condição de dependência da mulher e as agridem (ALMEIDA et al.,2009; CAMPOS et al., 2010).

Pesquisas com profissionais do sexo revelam que um dos principais motivos do consumo de drogas é a emoção/situação negativa vivenciada na prática da profissão (BUNGAY et al., 2010; DEERING et al., 2011). No caso de usuárias que inicialmente não se prostituíam, a troca de sexo pela droga se tornou uma estratégia para obtenção da substância (SILVA, 2000). Verifica-se a expansão do consumo de crack entre profissionais do sexo justificado pelo fácil acesso e baixo custo da droga, pela aceitação da troca do sexo pela droga, e pela preferência de clientes usuários de substâncias (OLIVEIRA et al., 2007; NAPPO et al.,2011).

Vulnerabilidades durante a gestação

Qualquer consumo de droga durante a gestação, principalmente no primeiro trimestre, pode causar alguma alteração na formação do feto, provocando diferentes graus de lesões, abortos espontâneos ou mortalidade perinatal, pois tais substâncias atravessam todas as barreiras biológicas, como a placenta (vulnerabilidade fetal) (LIMA, 2008; LIMA, 2013).  O álcool e o tabaco são as drogas lícitas que mais estão associadas às malformações orgânicas, principalmente, as neurológicas (cerebrais), como por exemplo, a Síndrome Alcóolica Fetal (SAF). Segundo dados de estudos americanos e europeus, a incidência de SAF varia entre 2 e 10 casos por 1.000 (mil) nascimentos vivos (LIMA, 2013, LIMA, 2018). A situação no Brasil é preocupante, levando-se em conta que a cada ano surgem cerca de 3 milhões de mulheres grávidas no país, e que pelo aumento constante do número de consumidores de bebidas alcoólicas, e utilizando a incidência esperada, surgem no Brasil a cada ano, cerca de 30 mil casos de SAF (LIMA, 2008; LIMA, 2013).

Aspectos Relacionados à Sexualidade

Na sexualidade da mulher usuária de álcool e outras drogas há de se considerar ainda dois outros aspectos importantes: o aumento do número de parcerias sexuais sem proteção, e consequentemente, infecções pelo vírus HIV, gestação não desejada, principalmente entre adolescentes, trazendo um imenso ônus psicossocial tanto para meninos quanto para meninas (SANTORO & LOPES, 2013; NAPOLI et al., 2010; SANCHEZ et al., 2013). Gestantes usuárias de drogas têm prevalência de comportamentos de risco específico e o risco adicional de transmissão perinatal do HIV (NAPPO et al., 2011; NAPPO et al., 2001; BRASILIANO et al., 2006).

A prevalência de 34.2% sintomas de disfunção sexual em uma amostra nacional de mulheres com doença relacionada com a substância psicoativa foi comum e comparável a outros estudos relatados em todo o mundo, que relataram taxas de prevalência de sintomas de disfunção sexual feminina de 12-63%. (DIEHL et al., 2013). Apesar de que a disfunção sexual feminina foi investigada em grupos de mulheres com vários problemas de saúde (síndrome dos ovários policísticos, diabetes, HIV e câncer de mama), as mulheres com transtorno por uso de substâncias representam uma população única para fatores de vulnerabilidade e que continua a sofrer das baixas taxas de detecção e acesso limitado ao tratamento para questões relacionadas as disfunções sexuais (DIEHL et al., 2013). Com relação a orientação homoafetiva em mulheres cabe mencionar que várias pesquisas têm mostrado que lésbicas estão sob risco elevado para o beber nocivo ou perigoso, são menos prováveis de se manterem abstinentes do álcool e entrar em processo de recuperação comparada às mulheres heterossexuais, assim como, menos prováveis de diminuir o consumo de álcool quando envelhecem e mais propensas a apresentarem problemas relacionados ao consumo desta substância (DIEHL, 2010).

Tratamento

Levando em consideração as características específicas associadas às mulheres e sabendo que buscam menos ajuda para as questões relacionadas às drogas, espera-se que na elaboração de políticas preventivas e assistenciais se observe as seguintes recomendações (ASHLEY et al., 2003; GREENFILD et al., 2007; DIEHL et al., 2012; BRASILIANO et al., 2006; LIMA, 2013):

  1. Treinamento de equipes multidisciplinares de saúde e educação para abordagens específicas;
  1. Prevenção voltada às meninas na educação Infantil e Fundamental e na comunidade;
  1. A adoção de equipe feminina, pois facilita a identificação positiva (“female role models”);
  1. A realização da detecção precoce nos serviços de atenção primária à saúde, tanto nos programas de Ginecologia, como de Obstetrícia (pré-natal) e Psiquiatria;
  2. A Assistência deve incluir nos programas as necessidade das mulheres como os temas de economia doméstica, relacionamento familiar, entre outros, e preparar-se para o cuidado dos filhos;
  3. Incluir nos recursos ligados à assistência, o suporte jurídico e social;
  4. Não existe nenhuma terapêutica específica para a SAF, mas a criança afetada e sua família necessitam de: intervenção precoce e seguimento aprofundado no pré-natal, antes dos seis anos de idade; estabilização da família; orientação contínua para a manutenção de ambiente estável (sem interrupção do acompanhamento com mudanças de residência), a monitoração do abuso sexual e/ou violência física;

Referências

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Fonte: ABEAD – Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas