Médica diz: o Conselho Federal de Medicina não me representa.

 

Qual é a parte do racismo na saúde que o CFM não enxerga?

A saúde da população negra é um campo construído com subsídios da medicina baseada em evidências, de bases científicas irrefutáveis. Negá-la é ignorância científica!

Sou uma das sistematizadoras de tais saberes construídos fora da universidade, a muitas mãos, com o empenho de professores como Marco Antônio Zago, atual reitor da USP, e Elza Berquó, demógrafa da Unicamp e do Cebrap, como consta em meu livro “Saúde da População Negra no Brasil 2001” (Opas, www.twixar.me/Xm4).

A quase totalidade dos médicos brasileiros desconhece a saúde da população negra porque as faculdades de medicina não lhes ensinam (e por que não ensinam?). Num país racista, a categoria médica e as faculdades de medicina não são ilhas sem racismo.

É cruel esperar que a saúde esteja 100% em excelência de funcionamento para que profissionais da saúde se apropriem de tais saberes e das repercussões do racismo na saúde, como propugna o Conselho Federal de Medicina (CFM) em “Nota à Sociedade”, só porque o Código de Ética Médica diz que médico não pode discriminar. Hein… Hein…

Sou médica negra, formada na Universidade Federal do Maranhão em 1978. Pertenço a uma geração médica que tem no CFM a sua grande referência para fazer medicina. Pelo apreço ao CFM, no entrevero gerado pelo programa Mais Médicos, ao perceber que o conselho estava perdendo o eixo, conversei por telefone com o presidente Roberto D’Ávila, avaliando aquele momento político.

Sugeri que eram emergenciais para o CFM duas consultorias: uma de imagem e outra de mídia para se posicionar adequadamente no debate em curso. Ninguém em sã consciência é contra acesso real à atenção médica, e o CFM não conseguia dizer que não era contra o povo ter médico, mas contra a admissão de médicos estrangeiros à margem da lei!

Em comum com o CFM, defendo o Revalida, controle básico de qualidade científica, norma do governo. Reafirmo que o CFM quase nada fez contra a precarização do trabalho médico que o Estado brasileiro continua abençoando. Defendo uma carreira de Estado para médicos do SUS. Era preciso mais médicos? Era, e o Brasil não os possuía! Mas é imoral que o governo não dê solução à precarização do trabalho médico, como eu disse em “Os bastidores, a charlatanice e o escárnio da importação de médicos” (Portal do CFM, 14.6.2014, www.twixar.me/hm4).

O CFM caiu numa teia de confronto desnecessário com o governo e se perdeu, deixando de saldo o desabrochar de posturas conservadoras e até fascistas no meio médico, sobre as quais o governo também tem responsabilidades, pois criou uma peleja equivocada e abriu a caixa de Pandora, soltando os espíritos maus que se aninharam nas mentes que odeiam o PT. O governo tem poder, bastava tê-lo usado para trazer os médicos de que necessitava, sem rodeios e sem satanização da categoria médica nacional.

Mas o que está ruim sempre pode piorar, e o CFM, mais uma vez, “meteu os pés pelas mãos”, após a Campanha de Combate ao Racismo, lançada em 25.11.2014, sob a subjetiva alegação de um “tom” racista! Disse tudo: não conhece a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra (2009), e o “tom” deve ser uma subjetividade de quem assina a nota, da qual exijo ser excluída, pois diz falar em nome de mais de 400 mil médicos. O CFM não me representa quando nega o racismo insidioso e cotidiano nos serviços e nos profissionais de saúde porque falta com a verdade, segundo várias pesquisas sobre a temática! Como autarquia federal, o CFM perdeu o rumo. O que é muito grave.

Fonte: Jornal O Tempo
Por: Dra. Fátima Oliveira é médica e escritora.
Textos correlatos:

 

Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra
As discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença
Discriminação racial: “a vítima é o culpado”
Por que não mencionar o racista numa entrevista sobre racismo?
Por que mulheres, negros e homossexuais não se unem contra todos discriminadores?
As Discriminações são abordadas de forma diferente nas “paróquias brancas e negras”
Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?

1 comentário em “Médica diz: o Conselho Federal de Medicina não me representa.”

  1. Parabéns pela reprodução deste artigo. Dr. Fátima é um exemplo de profissional. A publicação dela, “Saúde da População Negra no Brasil 2001″ deveria ser reproduzida aos milhares e entregue gratuitamente para que, principalmente na Área da Saúde”, profissionais de todos os níveis entendessem um pouco mais o que é esta coisa do preconceito latente de que muitos são possuídos e não admitem.

Deixe uma resposta para OSCAR RISSIERI PANIZ Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *