Encerrando o debate com Flávio Aguiar incluindo editorial do Charlie Hebdo sobre laicidade.

Flávio e eu estamos encerrando o debate com a publicação dos nossos comentários feitos no último post. (*)

E com o editorial (1178) do Charlie Hebdo de 14/01/2015 escrito por Gérard Biard onde ele afirma:

…”todos os que, nesta semana, proclamaram “Eu sou Charlie” devem saber que isso quer também dizer “Eu sou a laicidade”.(**)
Felizmente, a significância que atribuimos, ao longo do debate, à laicidade, nos atentados de Paris, confirmou-se pelo editorial.
 
Caro Telmo

O caso que mais me intriga nisto tudo é o de Amédy Coulibali. Ele gravou um macro-selfie, em vt, confessando sua filiação ao Estado Islâmico. Se ele foi financiado pela Qaïda, foi uma heresia. Um modo de afirmar a sua “individualidade”. Ele sabia que ia morrer, ao contrário da maioria de nós, que sabe que vai morrer… um dia. Não, ele tinha data marcada. Ainda não estava na agenda, mas era para o que ele estava se preparando. Digamos, um suicídio controlado, levando muita gente com ele, como de fato ele fez.

Dentre as teorias que citam a introjeção da inferioridade e a educação para ser um teocrata, fico com a hipótese – quase certeza – de que vivemos a “era dos selfies”, dos “individualismos exacerbados”. Assim como, segundo o Hobsbawm, já vivemos a “Era das Revoluções”, a “Era dos Extremos”, etc. Ele quis sair do anonimato. Conseguiu. Teve seus vários minutos de fama.

Hoje em dia o indivíduo, ou seu simulacro, se olha na tela, telinha ou telão, e vê o mundo à sua frente: sua imagem, para a efêmera eternidade. Isto acontece com o Amédy e também com o cidadão (?) que se olha embaçado no reflexo da tela e se põe a insultar (ao invés de criticar) o governante, o desafeto, a namorada, etc. É o suprassumo do isolamento.

Agora, alguém pôs as armas nas mãos do Amédy. Ele não as conseguiu sozinho. Alguém lhe deu dinheiro para tanto, outro alguém fez a entrega. Outro mais adiante entregou os documentos, e mais ainda um outro fêz vista grossa, ou seja, alguém e alguéns lucraram muito com isto. Dentro e fora do Estado laico. E vão ficar impunes.

Antigamente se dizia, para resolver um crime: “cherchez la famme”. Hoje, se pode dizer: “cherchez la grana”.

Já o caso dos irmãos Couachi é um pouco diferente. Órfãos, fizeram um pacto de morte. Só faltou (talvez, vá se saber) aquele ritual de cortar os pulsos e misturar os sangues, coisa hoje evitada pelo temor de doenças várias. Conseguiram: morreram como a dupla de pistoleiros ao final de “Butch Cassidy”, com o Redford e o Paul Newmann. Correndo e atirando sobre o exército contrário. Pelo menos esta é a versão oficial. Vá se saber quem imitou o filme, se a dupla ou a versão oficial. Ou ambos. Porque depois daquele atirar no policial inerme eles estavam condenados à morte. Extra-oficialmente. (E não estou justificando a covardia deles, quero deixar bem sublinhado).

O que quero sublinhar é que o Estado laico às vêzes não é tão laico assim. É laico na letra da lei, e assim deve ser de fato, mas como o Estado é a ponta (grossa, muito grossa) do iceberg que de fato governa o mundo, há gente na parte visível do iceberg e outros na parte invisível que às vezes se acha e se dá os poderes de Deus. Ou do Diabo, não sei muito bem. Mas tanto faz.

 

Comentário de 22 de janeiro de 2015

Este comentário do Flávio confirma como esta questão é complexa, multicausal e multifacetada.

Pode-se abordar sob os mais diversos ângulos e só o futuro poderá nos dizer como eles se relacionam.

E cada um ainda pode escolher comentar o que lhe parece mais importante e sobre o que mais entende da questão.

Como médico psiquiatra com interesse pelas discriminações e laicidade, acabo escrevendo com esse foco.

Consigo organizar os episódios de Paris como uma crise.

Com antecedentes, personagens em várias posições, instituições participantes, etc. e consequências.

E usando o conhecimento de algumas pesquisas que envolvem laicidade, discriminação, violência, indicadores de saúde, etc..

Os assassinatos como os de Paris ocorrem, rotineiramente, em países muçulmanos entre as diversas correntes religiosas.

E nos enfrentamentos de grupos e/ou países muçulmanos com seus vizinhos.

Sabe-se, por pesquisas, que países mais religiosos são mais discriminadores.

E a discriminação religiosa é uma das mais importantes.

Esta é a discriminação em relação a outras religiões, aos que não tem crença e aos estados laicos.

Os chargistas seriam ateus e defendiam o estado laico com charges antiteístas.

Satirizando as tres religiões monoteístas.

Algum dia ainda saberemos melhor o porque do tipo de reação de cada grupo religioso.

E aproveitando o “cherchez la grana” do Flávio.

O que esperar de um grupo que numa teocracia tem, ao mesmo tempo, a grana, o controle do poder politico e da religião?

Que tolerem a contestação de seus dogmas religiosos, que saibam conviver com a laicidade, com outras crenças ou com os sem crença religiosa?

Exemplo: no Egito há 866 ateus ( maior número no oriente médio) e um deles foi condenado à prisão por 3 anos.

Por ser ateu.

 

 

 

(**) Editorial por Gérard Biard

Tradução de Alexandre Andrade (para Portugal).
Será que ainda haverá muitos «sim, mas»?
Na semana que agora termina, o Charlie, jornal ateu, realizou mais milagres do que todos os santos e profetas reunidos. Aquele que nos faz sentir mais orgulhosos é o facto de o leitor ter entre as mãos o jornal que sempre fizemos, na companhia daqueles que sempre o fizeram. O que mais nos fez rir foi os sinos da Notre-Dame terem tocado em nossa homenagem… Na semana que agora termina, o Charlie ergueu por esse mundo fora muito mais do que montanhas. Na semana que agora termina, como o desenhou magnificamente Willem, o Charlie fez muitos amigos novos. Anónimos e celebridades planetárias, humildes e abastados, incréus e dignitários religiosos, sinceros e jesuítas, aqueles que ficarão connosco para toda a vida e aqueles que estão só de passagem. Hoje, nós aceitamos todos, não temos tempo nem coragem para escolher. Mas não somos ingénuos. Agradecemos do fundo do coração àqueles milhões, simples cidadãos ou representantes de instituições, que estão verdadeiramente ao nosso lado, que, sincera e profundamente, «são Charlie» e que se reconhecerão. E estamo-nos nas tintas para os outros, que de qualquer modo não se importam…
Há uma questão que, ainda assim, nos atormenta: será que vai finalmente desaparecer do vocabulário político e intelectual o detestável qualificativo «laicistóide integrista»? Será que se vai deixar enfim de inventar sábias circunvoluções semânticas para classificar de forma equivalente os assassinos e as suas vítimas?
Nestes últimos anos, temo-nos sentido um pouco sós na tentativa de rejeitar à força do lápis as sabujices explícitas e as bizantinices pseudo-intelectuais que arremessavam à nossa cara e à dos nossos amigos que defendiam convictamente a laicidade: islamófobos, cristianófobos, provocadores, irresponsáveis, lançadores de achas para a fogueira, racistas, estavam-a-pedi-las… Sim, nós condenamos o terrorismo, mas. Sim, ameaçar de morte os desenhadores não está certo, mas. Sim, incendiar um jornal está errado, mas. Nós ouvimos de tudo, e os nossos amigos também. muitas vezes rir do assunto, porque é o que sabemos fazer melhor. Mas gostaríamos muito, agora, de rir de outra coisa. Porque isto está a recomeçar. Numa altura em que o sangue de Cabu, Charb, Honoré, Tignous, Wolinski, Elsa Cayat, Bernard Maris, Mustapha Ourrad, Michel Renaud, Franck Brinsolaro, Frédéric Boisseau, Ahmed Merabet, Clarissa Jean-Philippe, Philippe Braham, Yohan Cohen, Yoav Hattab e François-Michel Saada não tinha ainda secado e Thierry Meyssan explicava aos seus fãs no Facebook que se tratava, evidentemente, de uma conspiração judaico-americano-ocidental. Já se viam, aqui e ali, nalgumas bocas mais delicadas, caretas de cepticismo a propósito da manifestação do domingo passado, assim como, em surdina, os eternos argumentos que visam justificar, aberta ou implicitamente, o terrorismo e o fascismo religioso, e ainda a indignação por, entre outras coisas, termos homenageado agentes da polícia = SS. Não, neste massacre não há mortes mais injustas do que outras. Franck, morto nas instalações do Charlie , e todos os seus colegas abatidos durante esta semana de barbárie, morreram em defesa de idéias que talvez nem sequer fossem as suas.
Vamos mesmo assim tentar ser optimistas, embora os tempos não estejam para isso. Vamos esperar que, a partir deste 7 de Janeiro de 2015, a defesa convicta da laicidade passe a ser um dado adquirido para todos e que se deixe de, por postura, por cálculo eleitoralista ou por cobardia, legitimar ou mesmo tolerar o comunitarismo e o relativismo cultural, que abrem a porta a uma e uma só coisa: o totalitarismo religioso. Sim, o conflito israelo-palestiniano é uma realidade, sim, a geopolítica internacional é uma sucessão de manobras e golpes baixos, sim, a situação social das, como se costuma dizer, «populações de origem muçulmana» em França é profundamente injusta, sim, o racismo e as discriminações devem ser combatidas sem descanso. Existem felizmente diversas ferramentas para tentar resolver estes problemas graves, mas elas são todas ineficazes se faltar uma delas: a laicidade. Não a laicidade positiva, não a laicidade inclusiva, não a laicidade-sei- lá-o-quê, a laicidade ponto final. Só ela permite, uma vez que preconiza o universalismo dos direitos, o exercício da igualdade, da liberdade, da fraternidade, da sonoridade. Só ela permite a plena liberdade de consciência, liberdade essa que é negada, de forma mais ou menos aberta em função do seu posicionamento de “marketing”, por todas as religiões a partir do momento em que abandonam o terreno da intimidade estrita para descer ao terreno da política. Só ela permite crentes e aos demais, ironicamente, viver em paz. Todos aqueles que afirmam defender os muçulmanos ao aceitar o discurso totalitário religioso estão na realidade a defender os seus carrascos. As primeiras vítimas do fascismo islâmico são os muçulmanos.
Os milhões de anónimos, todas as instituições, todos os chefes de Estado e de governo, todas as personalidades políticas, intelectuais e mediáticas, todos os dignitários religiosos que, nesta semana, proclamaram «Eu sou Charlie» devem saber que isso quer também dizer «Eu sou a laicidade». Estamos convencidos de que, para a maioria daqueles que nos apoiam, isso é óbvio. Deixamos os outros desenrascarem-se.
Uma última coisa, mas importante. Queríamos enviar uma mensagem ao papa Francisco que, também ele, «é Charlie» esta semana: só aceitamos que os sinos da Notre-Dame toquem em nossa homenagem se forem as Femen a fazê-los soar.

 

Textos correlatos publicados aqui no blog:
http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/01/19/continuando-o-debate-com-flavio-aguiar-sobre-charlie-hebdo-tabu-e-laicidade/

http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/01/16/debatendo-charlie-hebdo-tabu-e-laicidade-com-flavio-aguiar/

http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/01/12/freud-tabu-laicidade-e-charlie-hebdo/

 

Fonte do editorial: Associação República e Laicidade

http://www.laicidade.org/
Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta
 

Continuando o debate com Flavio Aguiar sobre Charlie Hebdo, tabu e laicidade.

Estamos nos “provocando” como os que pretendem atacar a laicidade ou como os chargistas franceses?
Espero que a nossa posição seja a dos que acreditam que uma crise possa gerar um bom e novo debate.
O da defesa dos estados laicos.
 
Vejam o comentário do Flávio Aguiar no nosso último post:
Há muitas diferenças entre o debate da laicidade na Europa e a inexistência do mesmo no Brasil
Certamente este é um tema de política suprapartidária.
Mesmo sabendo que os acontecimentos possam ocorrer no espaço público/político.
Seria interessante termos líderes e partidos políticos interessados no debate público da questão.
Não temos, infelizmente, estas personalidades públicas.
Em nenhum dos poderes republicanos, sejam os de direito e os de fato.
E para confirmar isto, a Zero Hora, representante de um poder de fato, entrevistou há poucos dias um ex-ministro da Educação.
Da França.
Para falar de laicidade… na França.
Vejamos alguns pensamentos de Luc Ferry sobre os últimos acontecimentos em seu país: 
 
“é o país da laicidade por excelência, nenhum país do mundo tendo sido mais militante que o nosso em relação à separação da religião e do Estado”.
…”devemos ter o direito de criticar as religiões, todas as religiões, mas também todos os filósofos”.
“Tem-se o direito de criticar as religiões, como todas as outras visões do mundo, o liberalismo, o comunismo, não? Ou então é o fim de toda liberdade!”
“Nunca gostei particularmente de Charlie, mas, por tomar uma frase que se atribuiu a Voltaire (equivocadamente, mas pouco importa), eu faria tudo por lhes permitir que continuem a publicar, e inclusive contra mim”.
“O Islã é o problema?”
“Não. É o islamismo fanático, o Estado Islâmico, a Al-Qaeda. Não se deve confundir muçulmano e islamista, religião e fundamentalismo fanático, e um dos desafios de hoje é justamente evitar o amálgama. Dito isso, o islamismo fanático se parece muito com o nazismo, ao menos em pontos fundamentais”.
 
O leitor tem o direito de argumentar, com toda razão, que o entrevistado tem preferência político partidária.
Portanto o debate ideal sobre o tema teria representantes de todos os ângulos da questão.
Inclusive os que são contra o estado laico e a favor das teocracias.
Algo que me intriga em toda esta questão da xenofobia em relação aos muçulmanos na França e em toda Europa.
Já vi algumas pesquisas sobre estas populações de imigrantes muçulmanos.
Alguém sabe de alguma que investigou suas posições em relação às teocracias e ao estado laico francês?
Muçulmanos na França mais apoiaram ou criticaram os episódios de 7 de janeiro?
 
Flávio: quanto aos “caras pálidas” suiços e a proibição da construção de novos minaretes.
Houve um plebiscito que foi antecedido por muitos debates públicos sobre laicidade.
Logo após ocorreram previsões (desejos de alguns?) de possíveis retaliações por parte de muçulmanos.
E nada ocorreu por lá.
Penso que o debate aberto, democrático sobre a laicidade ainda é o melhor caminho para paz.
Sabemos que o voto da maioria.. agrada a maioria. 
Resta às minorias civilizadas, democráticas, progressistas aceitar os resultados das votações.
 
Quanto a hipótese dos terroristas internalizarem uma identidade de “inferiores” e isso determinar sua ação criminosa.
É uma hipótese arriscada pois um grande número (talvez o maior?) de atos terroristas, atualmente, ocorre entre muçulmanos.
Uma outra seria que, tendo sido educados para serem teocratas, a imigração não os transformaria em democratas laicos.
Ou conheces mais alguma?
Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Debatendo Charlie Hebdo, tabu e laicidade com Flávio Aguiar

Há pouco espaço para aumentar as liberdades laicas aqui em nosso país e na Europa.
Somente com o diálogo e governantes interessados poderíamos progredir na questão.
De qualquer maneira sabe-se que lá já houve muito mais avanços do que aqui.

Escrevi no post anterior sobre o tema:
Muito foi e ainda será escrito sobre os assassinatos de Paris.
E quem escreve se depara com uma questão complexa, multifacetada, multicausal.
E com inúmeras consequências possíveis e imprevisíveis.
Seria bom que uma das consequências fosse o aumento dos debates sobre a laicidade.
Como pretendo continuar agora com o amigo, colunista e escritor Flávio Aguiar.
Em função de um comentário que fiz sobre o tema no seu post:
O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu, um continente em explosão
Ele utilizou meu questionamento para escrever:
O Charlie Hebdo, o Islã, os preconceitos discriminatórios e o Estado laico
De início ao fim ele escreve, também, como um bom psiquiatra.
A verdade é que nascemos imaturos a nossa educação vai ou não nos ajudar a amadurecer.
E faz parte do amadurecimento a aceitação do outro, do diferente.
E este processo nem sempre ocorre de forma homogênea.
E é nessas “ilhas” imaturas que conservamos os preconceitos.
E quando não lidamos bem com isto podemos nos deparar com uma Conduta Discriminatória.
Neste trecho do texto, parece que o discriminador e o inimigo do estado laico tem as mesmas características.
E está é uma ideia que defendo há um bom tempo.
Conheço uma pesquisa feita na Alemanha que serviu como reforço desta hipótese.
E talvez o Flávio pudesse entrevistar os autores da mesma.
Sabemos que o proselitismo é uma das características das religiões monoteístas.
Penso que a ostentação pública de seus símbolos religiosos é uma questão delicada.
Mas passa do limite se a motivação é hostilizar o estado laico ou a implantação de uma teocracia.
Como a Suíça interpretou e proibiu a construção de minaretes em 2009.
Mesmo liberando a construção de mesquitas e prática religiosa nas mesmas. É como se os minaretes invadissem o espaço laico.

Ao que parece, na Europa, dentre os monoteístas, os muçulmanos é que tem o estereótipo de teocratas.
E isto acaba sendo reforçado no texto abaixo:
Eu não sou Charlie. Sou Maomé. É impossível ser os dois
Por que não quebrar o tabu e colocar a laicidade como uma terceira opção tão importante quanto?
Talvez lá, como aqui, a questão não seja esclarecida/debatida de forma aberta e transparente.
Quando muito discute-se sobre os símbolos religiosos em repartições públicas ou os que as pessoas fazem questão de ostentar.
Se o debate do tema não fosse tabu poderíamos descobrir quando os símbolos são apenas símbolos.
Ou se seriam um tentativa de ataque/desafio/provocação à laicidade do país.
Israel: felizmente há muita oposição dentro e fora do país para evitar mais um estado teocrático no Oriente Médio.

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Freud, tabu, laicidade e Charlie Hebdo

Um novo tabu: como defender o Estado Laico.

Muito foi e ainda será escrito sobre os assassinatos de Paris.

E quem escreve se depara com uma questão complexa, multifacetada, multicausal.

E com inúmeras consequências possíveis e imprevisíveis.

Freud fez algumas afirmações que devem ser lembradas no momento:

Uma das características/objetivos das religiões é normatizar a conduta humana.

A liberdade religiosa, na intimidade e nos templos apropriados, deve ser defendida.

Todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização.

O homem é o lobo do homem.

Aqui no blog debatemos sobre o que foi ou não publicado.

Já nos referimos a pesquisas sobre indicadores de saúde, discriminação, violência, etc. em Estados Laicos (EL).

Este o foco do texto de hoje.

As abordagens, até agora, evitaram a questão de como deve/pode ser feita a defesa da laicidade pelos que a ameaçam.

Tangenciavam a questão se referindo a eles como radicais/fanáticos religiosos.

E o que interessa é se sua ação religiosa pública/política é a favor ou contra o EL.

Vi entrevistas com líderes religiosos islâmicos na França.

Que diziam o óbvio: eram contra assassinatos por atos terroristas.

Jornalistas não perguntaram sobre suas posições em relação ao EL.

Seja em relação a França ou a estados teocráticos árabes.

Os motivos para um líder religioso não tocar no assunto é fácil de imaginar.

Mas e os dos jornalistas de não tocar no assunto como se fosse tabu?

A impressão é que, para alguns religiosos, fanáticos radicais são sempre os outros.

Por acaso os que são contra as liberdades laicas ou a favor da implantação das teocracias agem abertamente?

O desprezo/discriminação pelo EL nunca é frontal/transparente/explícito.

Os inimigos da laicidade se mantém tão invisíveis, dissimulados e indefinidos como os discriminadores.

O que pode determinar que a defesa do mesmo seja, também, de uma forma indireta, sutil, irônica, satírica.

Como as charges da Charlie Hebdo.

Ou como a proibição da construção dos minaretes na Suiça, em 2009.

Ou como disse José G. Temporão, ministro da Saúde, que o planejamento familiar é questão de Saúde Pública e não
religiosa (2007).

A impressão é que os inimigos do EL não aceitam oposição às suas ações.

Nem admitem que estão atacando, desprezando, discriminando, afrontando a Constituição do país.

E no caso, os chargistas não tinham o direito de escolher sua forma de defender a Constituição Francesa?

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta

Médicos com problemas: jornalistas “criam” e “curam” câncer de Lula

Conceição Lemes destroi câncer de Lula: “Mentira e desrespeito”, diz assessor

Por Conceição Lemes*

Nesse domingo, 4 de janeiro de 2015,  o jornalista Leandro Mazzini publicou em sua Coluna Esplanada, no UOLLula fez tratamento sigiloso e controlou novo câncer.

Na reportagem, ele diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

“combateu de um ano para cá um novo câncer e o controlou”;

“foi acometido de um câncer no pâncreas, que teria sido descoberto no início de 2014”;

“passou a visitar esporadicamente o Hospital Sírio Libanês em São Paulo durante a madrugada, entrando de carro pela garagem privativa do corpo clínico para evitar boataria. E tomou um forte medicamento para evitar a quimioterapia”.

“estaria tomando diariamente um medicamento importado dos Estados Unidos, que custa cerca de R$ 30 mil por mês (ainda não comercializado no Brasil). Seria sob o princípio do Bevacizumab, com uma versão mais recente e potente do popular Avastin, que ameniza o quadro clínico e a dor, e evita a quimioterapia”.

“Isso é mentira e um desrespeito com o ex-presidente”, rebate, indignado, José Chrispiniano, assessor de imprensa do Instituto Lula, em conversa com o Viomundo.

“Lula sempre tratou dos seus problemas de saúde com total transparência”, reforça. “Quando ele teve diagnosticado o câncer na laringe, a imprensa soube no mesmo dia. O próprio ex-presidente fez questão de que tudo fosse divulgado.”

O diagnóstico foi tornado público em 29 de outubro de 2011. Durante cinco meses, Lula submeteu-se a quimioterapia e radioterapia. Em 28 de março de 2012, os exames revelaram que o tumor havia desaparecido por completo.

Desde então, como todo paciente que teve câncer, Lula faz avaliações oncológicas de rotina no Hospital Sírio-Libanês, onde ele se tratou.

A última foi em 15 de novembro de 2014. Portanto, há 50 dias. Na ocasião, o Sírio-Libanês divulgou uma nota. E republicou-a no último domingo, 4 de janeiro de 2015, quando a reportagem de Mazzini foi veiculada.

lula-sírio

Diante dessa nota que informa que não se detectou nada de errado com a saúde de Lula, eu pergunto:

1) Por que, apesar de há mais de um mês a assessoria de imprensa do Instituto Lula ter negado veementemente o novo câncer e de a nota do Sírio-Libanês dizer que estava tudo normal com Lula, Mazzini publicou a matéria? Lembrem-se de que ele disse que o “tumor de pâncreas teria sido descoberto no início de 2014”.

2) Ao observar que o “tumor de pâncreas teria sido descoberto no início de 2014” e que a nova doença não consta da nota do Sírio-Libanês, o jornalista deixa subentendido que a equipe médica que cuida do ex-presidente e a assessoria de imprensa do Instituto Lula estão mentindo. Não caberia aí um processo?

3) Por que as supostas “fontes” do jornalista (“um médico do Sírio, que não compõe a equipe que cuida de Lula; um diretor do PT; um assessor especial do Palácio do Planalto; e um parlamentar amigo de Lula”) “escolheram” justamente um dos tipos de câncer mais agressivos e letais? De antemão, aviso: no PT, não há a figura do diretor.

4) Quem merece mais crédito: os oito médicos envolvidos na avaliação oncológica de Lula, cujos nomes aparecem na nota do Sírio-Libanês, ou um suposto médico anônimo, que prefere não se identificar? Lembro ao doutor hipotético que ele, de cara, está infringindo o Código de Ética Médica.

5) Que mão ou mãos estão por trás dessa falsa, cruel e malévola notícia?

NÃO HÁ TRATAMENTO QUE EVITE A QUIMIOTERAPIA NO CÂNCER PANCREÁTICO

Do ponto de vista de informação médica, a reportagem de Mazzini tem imprecisões e erros. Ela desmorona, não fica em pé, se for lida com atenção por alguém que lida com a área de saúde.

Primeiro: a matéria não diz se o tumor de pâncreas é uma metástase do câncer na laringe ou se ele é originário do próprio pâncreas.

O câncer de laringe pode dar metástase localmente, mais precisamente nos gânglios cervicais. Mas suas células malignas podem se disseminar à distância para fígado, ossos, sistema nervoso central e, principalmente, pulmão.

Assim, considerando-se que tumor de laringe habitualmente não dá metástase em pâncreas, supõe-se que Mazzini quis dizer que o novo câncer seria um tumor primário do pâncreas.

Segundo: ao contrário do que diz Mazzini, não existe tratamento – nem aqui nem no exterior — para evitar a quimioterapia e a radioterapia no câncer do pâncreas.

Terceiro: tampouco é um tumor “bonzinho”, que pode ser tratado facilmente com uma “aspirina”, como faz parecer nas entrelinhas, permitindo que Lula exercesse normalmente as suas funções não apenas durante todo o ano de 2014 como em 2013.

pâncreas, como todos sabem, é uma glândula localizada na parte superior do abdômen, atrás do estômago, colada ao duodeno. A sua principal função é a produção de insulina, hormônio responsável pela manutenção dos níveis adequados de glicose ( “açúcar”) no sangue. Mas ele também produz a enzima pancreática, fundamental no processo digestivo. É dividido em três partes: cabeça, corpo e cauda.

Pâncreas

Segundo o Instituto Nacional do Câncer  (Inca),  no Rio de Janeiro, 90% dos casos diagnosticados são do tipo adenocarcinoma, ou seja, se originam no tecido glandular do pâncreas. A maioria afeta a cabeça do órgão.

Os sintomas mais perceptíveis da doença são perda de apetite e de peso, fraqueza, diarreia e tontura.

Os tumores de cabeça do pâncreas provocam icterícia: pele e olhos ficam amarelados devido à obstrução do canal pancreático.

Há casos em que a doença se “esconde” na forma de dor na região das costas, e o paciente é tratado como tivesse um problema muscular ou de coluna. Outro sinal de alerta é o aumento do nível de glicose (açúcar) no sangue.

Pelo fato de os seus sinais (aquilo que o médico vê) e sintomas (aquilo que você sente) se confundirem com os de outras doenças, o câncer de pâncreas é de difícil detecção na fase inicial. Em consequência, seu diagnóstico tende a ser tardio.

O câncer de pâncreas é considerado um dos mais letais e destrutivos. O seu comportamento agressivo e a baixa eficácia das terapias atuais fazem com que seja muito alta a sua taxa de mortalidade.

Normalmente, os seus portadores morrem entre o primeiro e o segundo ano devido a recidivas e metástases (disseminação de células malignas do pâncreas para outros órgãos) no fígado ou no peritônio.

A sobrevida após 5 anos é inferior a 5% (Hospital de Câncer de Barretos). Ou entre 5% a 20% (Inca). E depende do tipo de tumor do pâncreas. Por exemplo, se ele é responsivo ao tratamento.

BEVACIZUMABE E VERSÕES MAIS NOVAS NÃO AUMENTAM SOBREVIDA 

“Quando o tumor de pâncreas está no início, o tratamento é cirúrgico”, explica a médica oncologista Solange Moraes Sanches, do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo. “São cirurgias grandes, que exigem prolongada recuperação.”

“Nos casos avançados, o tratamento baseia-se em quimioterapia e a radioterapia também pode ser necessária”, afirma a oncologista. “São esquemas pesados, que produzem muitos efeitos colaterais.”

Ainda não há uma droga específica para o câncer de pâncreas. Usam-se quimioterápicos utilizados para combater outros tumores.

Há três opções aceitáveis.

1. Apenas o quimioterápico gencitabina.

2. A combinação de gencitabina com oxaliplatina ou outra platina.

3. Ou, então, o esquema conhecido como folfironox. Consiste na associação das drogas fluorouracil, oxaliplatina e irinotecano.

A opção por um ou outro esquema, depende de cada caso.

“Consequentemente, uma pessoa submetida a um tratamento para neoplasia de pâncreas necessita de certos cuidados que impediriam uma jornada exaustiva de trabalho”, enfatiza a doutora Solange Sanches.

Ou seja, se o ex-presidente tivesse feito um desses tratamentos, ele não teria condições de participar da campanha eleitoral de 2014 como participou. Pelo que todos nós vimos na televisão, ele estava bem disposto, com bom peso, com cabelo.

– E no primeiro semestre quem garante que ele não se tratou do suposto câncer de pâncreas? – alguém deve estar achando que nos pegou na curva.

Quer melhor prova de que tudo estava bem com Lula do que a coletiva que ele concedeu aos blogueiros, em 8 de abril de 2014? Confiram aqui como ex-presidente estava todo lépido e faceiro.

Ex-PR-LULA-encontro-com-blogueiros-TROCA-CAPA

Depois, em 16 de maio de 2014, Lula participou do IV Encontro Nacional de  Blogueiros e Ativistas Digitais, em São Paulo. Querem mais? Acessem o site do Instituto Lula para acompanhar a maratona do ex-presidente.

– E o bevacizumabe, mencionado pelo jornalista?

O bevacizumabe é o princípio ativo do Avastin, medicamento fabricado pela Roche. Não se trata de um quimioterápico clássico, mas de um anticorpo monoclonal. Ele reduz a chegada de sangue ao tumor, fazendo com que diminua a proliferação de suas células por falta de nutrição.

Segundo a sua bula, é indicado no tratamento de câncer colorretal, pulmão, mama, rim, ovário, tuba uterina e peritônio.

O bevacizumabe é comercializado no Brasil. Habitualmente, é utilizado em doses 5mg/kg a cada duas semanas. Normalmente sua aplicação é hospitalar por se tratar de medicação que é injetada na veia junto com soro.

“Só que o bevacizumabe não é usado sozinho, mas sempre associado à quimioterapia”, cientifica o oncologista Munir Murad, coordenador do Programa de Residência Médica em Cancerologia Clínica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em 2009, o prestigiado Journal of Clinical Oncology publicou um estudo realizado com 607 pacientes portadores de câncer metastático, onde o bevacizumabe foi usado em combinação com os quimioterápicos gencitabina e erlotinibe.

Eles foram divididos em dois grupos: 301 tomaram os quimioterápicos mais placebo (remédio com aparência do verdadeiro, mas que não tem qualquer ação terapêutica);  e 306 usaram quimioterápicos mais bevacizumabe.

A associação de medicamentos não mudou a sobrevida dos pacientes. O grupo que tomou bevacizumabe teve uma sobrevida média de 7,1 meses. E o grupo que usou placebo teve sobrevida média de seis meses.

Portanto, é mais um equívoco da matéria de Mazzini, já que o bevacizumabe não é usado da maneira que a matéria indica.

O jornalista se refere ao medicamento “milagroso” de Lula desta forma: “Seria sob o princípio do Bevacizumab, com uma versão mais recente e potente do popular Avastin, que ameniza o quadro clínico e a dor, e evita a quimioterapia”.

Só que o bevacizumabe é o próprio Avastin. Talvez as drogas que se enquadrariam nesse perfil  impreciso descrito por ele sejam as versões mais novas do bevacizumabe: o axitinibe ou o aflibercept, que já foram testadas para câncer de pâncreas avançado.

“Só que elas não são consideradas tratamento padrão para o adenocarcinoma de pâncreas nem evitam a quimioterapia”, atenta Murad. “Além disso, os estudos publicados até agora mostram resultados negativos.”

A adição do axitinibe ou do aflibercept à gencitabina não melhorou a sobrevida dos pacientes com câncer avançado de pâncreas em comparação com aqueles que só receberam o quimioterápico mais placebo. Ou seja, a estratégia de acrescentar uma dessas medicações se revelou ineficaz até agora.

“Por que então alguém que, como o ex-presidente Lula, pode ter acesso aos melhores tratamentos abriria mão do tratamento padrão para câncer de pâncreas por um que não funcionou em ensaios clínicos criteriosos?” questiona o oncologista Munir Murad. “A versão contada pelo jornalista não fecha, não tem sentido.”

Eunice G. acompanhou o caso do seu pai, que sobreviveu sete anos depois do diagnóstico de adenocarcinoma na cabeça do pâncreas com uma peculiaridade raríssima: o tumor não se disseminou para outros órgãos, ficou restrito ao pâncreas.  Ou seja, um caso extraordinário não apenas no Brasil mas no mundo.

“Foram vários ciclos de quimioterapia durante um ano e meio na fase inicial do tratamento, mais 28 aplicações de radioterapia, seguido de cirurgia, sem contar o restritíssimo regime alimentar, que é uma loucura”, nos conta Eunice.

“Na metade do caminho, foram mais sessões de quimioterapia e mais cirurgia. Houve a retirada total do pâncreas e meu pai ficou diabético, dificultando ainda mais a sobrevida”, prossegue.

“A cada tratamento, ele ficava um bagaço. Quem conhece pessoas que tiveram câncer no pâncreas sabe que o tratamento é uma paulada. A maioria não aguenta sequer completá-lo. Logo, Lula não estaria inteiraço durante 2014, como o Brasil inteiro pode ver que ele estava.”

Seria desinformação?  Ou pura e simplesmente má-fé?

Uma coisa é certa. Não se deseja câncer para o pior inimigo. Muito menos o de pâncreas, cujo diagnóstico representa praticamente uma sentença de morte. As supostas fontes do jornalista sabiam disso. Não à toa “escolheram” a dedo o novo tumor.

O objetivo é político: deixar a dúvida no ar, visando minar Lula com vistas às eleições presidenciais de 2018.

O que as supostas fontes talvez desconheçam é que, pelo menos segundo os hindus, o que desejamos de mal para outros, volta para a gente. É a lei do retorno. Aliás, qualquer um de nós pode ter um câncer.

“O que foi feito com ex-presidente Lula nessa matéria é cruel e desumano. Uma canalhice sem tamanho”, arremata Eunice G. “Os responsáveis por isso deveriam ser presos ou tratados apenas com bevacizumabe. Talvez para eles isso desse certo. Um verdadeiro ‘milagre’.”

*Conceição Lemes é a mais premiada repórter de Saúde do Brasil.

PS do Viomundo: Já imaginaram se a “reportagem” tivesse sido publicada no Reino Unido? O que aconteceria com o repórter e com o UOL? Quer saber? Clique aqui.