Seremos todos considerados doentes mentais II ?

Ampliando a reflexão.

Saul Cypel é médico neuropediatra em São Paulo

Ainda sobre o DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) referido no texto Seremos todos considerados doentes mentais?
Sobre esta recente publicação gostaria de agregar alguns comentários.

Como trabalho com crianças, será sobre os diagnósticos relacionados a esta faixa etária que estarei me reportando, em especial sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Penso que a organização do DSM 4 e do 5, mais recentemente, sofreu distorções em alguns de seus aspectos, possivelmente, pela composição dos profissionais participantes, cuja óptica de compreensão, de como se dá a organização e desenvolvimento do psiquismo, não contemplou as evidências mais atuais oferecidas pelas neurociências.
Na entrevista com Allen Frances, psiquiatra que foi o líder na organização do DSM 4, publicação a que me referi acima, ficou claro o seu desconforto com os diagnósticos de TDAH, Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) e Síndrome de Asperger, e que provocaram uma avalanche de crianças estigmatizadas como doentes cujo tratamento vinculava-se diretamente ao uso de psicofármacos para consertar os seus “desvios comportamentais”.
Criou-se uma concepção, nos casos de TDAH, de que estas crianças apresentavam um déficit de dopamina na fenda sináptica e de origem genética. Ou seja, de repente houve uma pioneira epidemia genético-psiquiátrica de algo que já era conhecido há pelos menos 60 anos e que “estaria latente”… Sim, porque não conheço outra epidemia nestes ramos da ciência. Allen Frances retratou-se e desculpou-se publicamente.
Então surgiu o DSM 5 lançado em evento da American Psychological Association (APA) em Maio de 2013. Três semanas antes Thomas Insel, renomado neurocientista e pesquisador e, desde 2002, Diretor do National Institute of Mental Health nos USA, escreveu em seu blog declarando o DSM 5 “como frágil e com validade limitada” visto que se baseava somente em consenso sobre um conjunto de sintomas. Talvez esta conduta diagnóstica pudesse ser utilizada em outras áreas da Medicina, porém para as doenças mentais não estaria adequada, não permitindo uma compreensão do processo fisiopatológico .
Insel disse mais, que orientaria as novas pesquisas não considerando o DSM e que as futuras investigações deveriam estar contemplando outras áreas do conhecimento como a fisiologia, genética, imagem, avaliação cognitiva, e não simplesmente o conjunto de sintomas e como estes se relacionam com o tratamento. Acrescentou que seria importante considerar as contribuições das multidisciplinas que estudam estas condições e buscar como participam na determinação/causas daqueles comportamentos.
Por exemplo, sabemos que no desenvolvimento da criança, a sua fase embrionária e fetal possui uma participação ponderável importante. Se considerarmos o que ocorre depois do nascimento passamos a valorizar as chamadas interações precoces, nas quais os pais são os principais envolvidos na relação com a criança. A partir dessas interações vai havendo uma moldagem do psiquismo do filho/a, seja para o bem ou não, constituindo o que atualmente se conceitua como Epigenética. Neste contexto as Neurociencias e os Programas de Intervenções com pais desde a gestação têm mostrado resultados entusiasmantes trabalhando com populações inteiras de cidades, mesmo em nosso país,
Ou seja, não é possível aceitar que se façam diagnósticos por questionários, como os recomendados para o TDAH, sem levar em conta, em momento algum, como se deu o desenvolvimento da criança e sua interação na família. Alias, numa reunião de discussão sobre este tema no qual o foco de doença estava centrado somente na criança, levou-me a fazer uma pergunta aos colegas participantes: “Voces pensam que pai e mãe ainda são pessoas importantes para o desenvolvimento dos filhos?”
A insatisfação de muitos profissionais com a não valorização do histórico do desenvolvimento da criança, sua lida com frustrações, a capacidade organizacional e de resolução de problemas, como se deu a participação dos pais nesse processo, tem conduzido a uma reflexão produtiva e a um ajuste de entendimento destas questões. Penso que estamos tendo mudanças significativas no diagnóstico e condutas/tratamento destes casos. Espero que aconteçam de modo significativo num futuro muito próximo.

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