Abusos psiquiátricos em crianças e adolescentes

Por Alessandre de Argolo, no Jornal GGN

A página da CCHR International (sigla em inglês para Comissão dos Cidadãos para os Direitos Humanos; clique aqui) relançou no início deste mês, no Facebook, um vídeo que faz crítica aos diagnósticos psiquiátricos abusivos em crianças e adolescentes.

Entidade sem fins lucrativos com sede em Los Angeles, EUA, e filiais espalhadas pelo mundo, a CCHR se dedica principalmente a combater os abusos cometidos pela psiquiatria em associação com a indústria farmacêutica, no que diz respeito ao grande volume de diagnósticos pouco embasados que recaem sobre menores que se vêem obrigados a tomar medicamentos que afetam consideravelmente a saúde.

O ponto crucial na crítica feita pela CCHR contra os diagnósticos feitos em crianças e adolescentes é que eles seriam confeccionados apenas com base num checklist comportamental, sem qualquer base científica sólida. Não há nada, nenhum exame além da análise dos comportamentos das crianças e adolescentes, que muitas vezes são diagnosticados com doenças mentais como Transtorno Bipolar, Transtorno de Conduta (Conduct Disorder), Transtorno Desafiador de Oposição (Oppositional Defiant Disorder), Transtorno de Personalidade (Personality Disorder), Transtorno de Ansiedade Social (Social Anxiety Disorder), e um dos mais comuns diagnósticos dos últimos anos, o chamado Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (Attention Deficit Hyperactivity Disorder), dentre outros. Muitas dessas doenças são tratadas com medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos, psicoestimulantes (como a Ritalina), quando não com neurolépticos (antipsicóticos, a exemplo do Haldol), os quais geram vários efeitos colaterais, que, a longo prazo, podem afetar severamente não só a saúde das crianças e dos adolescentes, mas também a própria formação de suas personalidades, o que é o mais grave.

Essa é uma causa que eu sempre apoiei. Nunca concordei com a forma como as escolas, professores, psicólogos, fonoaudiólogos e psiquiatras em geral lidam com os múltiplos e distintos comportamentos infantis. Sou terminantemente contra qualquer diagnóstico psiquiátrico definitivo que se sustente em bases frágeis e pouco convincentes.

A campanha veiculada no vídeo relançado recentemente pela CCHR é injustamente criticada por meio da acusação de que ela desacreditaria a psiquiatria, principalmente a psiquiatria que cuida de crianças e adolescentes. Chegam a citar até as ligações da CCHR com a religião que se chama Scientologia, o que é irrelevante quando analisamos o problema tratado no vídeo, que é real e não é uma invenção. O fundamento da crítica é falso. O vídeo não trata disso, exatamente. Trata primordialmente de criticar uma tendência atual e que vem de um certo tempo já de diagnosticar crianças e adolescentes de forma prematura e pouco segura, com consequências nefastas para as vidas delas. É principalmente contra esse tipo de postura da psiquiatria e dos demais profissionais envolvidos no diagnóstico que o vídeo se volta. Não me pareceu uma crítica cega a todo e qualquer diagnóstico, mas sim à forma irresponsável com que isso vem sendo feito, muitas vezes com escusos interesses econômicos e financeiros da indústria farmacêutica, que é quem ganha muito dinheiro com um mercado consumidor cada vez maior dos medicamentos que são ministrados pelos médicos.

Concordo com essa causa, justa, correta. Parem de rotular as crianças, de forma pouco ou nada científica, com fundamentos muitas vezes abstratos, nada objetivos ou definitivos, como psiquiatricamente portadoras de doenças mentais. Isso só interessa à indústria farmacêutica. Liberdade e dignidade para as crianças, que devem ser protegidas de todo e qualquer tipo de abuso.

* Esta matéria complementa as duas anteriores:

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Seremos todos considerados doentes mentais II ?

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1 comentário em “Abusos psiquiátricos em crianças e adolescentes”

  1. Como eu gostaria que na minha infância eu pudesse ter tido acesso aos diagnósticos e medicamentos atuais… Tenho 60 anos e uma série de problemas psicológicos que hoje tem nome e um medicamento que dá alivio e até cura. Quem se trata na infância tem uma chance de ter uma vida normal. Com a idade o processo se cristaliza. Fiz vinte anos de terapia e só tive uma melhora quando tomei meu primeiro antidepressivo. Mas sei que não se pode generalizar.

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