Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (6)

Os médicos também estão de acordo

Por Vittorio Lingiardi, psiquiatra e analista de formação junguiana, professor de Psicopatologia na “Sapienza” de Roma.

The New England Journal of Medicine (NEJM) é uma das mais importantes e influentes revistas científicas no campo médico. Publicada pela Massachusetts Medical Society, tem um fator de impacto igual a 54,42, o mais alto entre as revistas médicas. É também a mais antiga revista de medicina do mundo, publicada ininterruptamente há mais de dois séculos (é bom que estes poucos dados não escapem a quem, em qualquer contexto, se encontrar a dizer o que pensa sobre o tema das uniões civis e dos matrimônios entre pessoas do mesmo sexo). Porque a mais importante revista de medicina não assume a briga de escrever um editorial que se intitule A favor do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo? Um primeiro motivo é que em breve, provavelmente em junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos se pronunciará de modo definitivo sobre a constitucionalidade do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo em todo o país.

“Esperamos – escreve a NEJM – que a Corte resolva a questão a favor do pleno reconhecimento do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo em todos os Estados Unidos”. E uma expectativa, um augúrio e uma esperança. Mas, por que a medicina se ocupa deste tema, quem sabe social ou político ou, para alguns, religioso? Estamos diante de uma invasão de campo? Realmente não, e também Hipócrates estaria de acordo. Se prosseguirmos na leitura do editorial, poderemos facilmente captar o segundo e mais importante motivo: “Um princípio fundamental de todos os cuidados médicos é a aceitação dos pacientes assim como são, por aquilo que são, com respeito e sem preconceitos ou interesses pessoais. Na maior parte do mundo, incluindo os Estados Unidos, a história dos maus tratos contra as pessoas homossexuais e da incompreensão da homossexualidade, que é uma expressão normal da sexualidade humana, é longa e triste. As violências têm divagado da falta de respeito à ridicularização, do ostracismo ao genocídio. No passado, a medicina e a psiquiatria têm considerado a homossexualidade um comportamento desviante e têm produzido um número infinito de teorias loucas e privadas de fundamento para explicá-la. A homossexualidade permaneceu incluída no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais (DSM), embora perdendo progressivamente relevância, até 1987, não obstante as crescentes provas a favor de uma exclusão sua. Ainda há operadores sanitários que oferecem “curas” para a homossexualidade, como se fosse uma doença.

Em anos passados, muitos de nós conheceram pessoas que sentiam não terem outra escolha do que esconder a própria homossexualidade por trás do matrimônio de cobertura ou outras ficções. O preço pago pelos pacientes pela falta de aceitação social da homossexualidade é bem conhecido pelos médicos. O estigma e a vergonha produzem estresse, ânsia, comportamentos disfuncionais, depressão e até suicídio. Para cada um de nós, a identidade sexual é uma parte essencial daquilo que somos. Ser homossexual numa sociedade que não oferece aceitação e respeito significa sofrer um ataque constante à identidade e determina a impossibilidade de viver uma vida normal. Nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo, as coisas estão mudando. Assistimos a uma maior aceitação e a um maior respeito das pessoas, independentemente de sua sexualidade”.

O editorial termina assim: “O matrimônio entre pessoas do mesmo sexo deveria ser aceito tanto por uma questão de justiça como também enquanto instrumento que promove saúde e bem-estar… Todos os profissionais da saúde sabem que a cura de pacientes com doenças crônicas e graves se baseia em grande parte no apoio da família. Quando as coisas se tornam realmente difíceis, como quando devem ser tomadas decisões referentes à vida ou à morte, os médicos sabem muito bem que falar com o parceiro de um paciente não é, de um ponto de vista jurídico, o mesmo que falar com um cônjuge. Muitas crianças crescem em famílias com progenitores homossexuais, e para sua saúde é necessário que os genitores tenham todas as tutelas e direitos fornecidos pelo matrimônio. Na nossa sociedade, o matrimônio é frequentemente essencial para obter e manter uma adequada cobertura asseguradora sanitária para ambos os membros de um casal e para os seus filhos… A Corte Suprema deveria requerer o pleno reconhecimento do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo em todo o país. Se a Corte declarar de outro modo, prescindindo da lógica jurídica, será promulgada uma evidente injustiça. Uma injustiça que prejudica a saúde e o bem-estar de milhões de americanos”.

Há algo a acrescentar? Não deveríamos, talvez, considerar este editorial escrito por médicos como uma receita que promove uma vida, individual e coletiva, mais justa e mais sadia?

In Support of Same-Sex Marriage,
Edward W. Campion, M.D., Stephen Morrissey, Ph.D., and Jeffrey M. Drazen, M.D.
New England Journal 01 Medicine, 2015, 372, pagg.1852-1853.

Fonte: IHU em 29/05/2015 traduzido do jornal Il Sole 214 Ore, 24-05-2015
Tradução: Benno Dischinger.
(6) Sexto de uma série

7) A seguir, no Saúde Publica(da) ou não, outras publicações sobre o tema:
RECONHECENDO O DISCRIMINADOR
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (2)

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (3)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (4)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (5)
(8) Direitos homossexuais ganham o mundo

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (5)

Casamento gay e uniões entre pessoas do mesmo sexo: desafios à Igreja

George Ripon (6)

O movimento rumo ao casamento gay

O movimento para legalizar a relação de casais do mesmo sexo e para descrevê-la como “casamento” está bem encaminhado.

Desde já, digo que não tenho problema com o fato de que casais gays formalizem seu compromisso entre si em um processo definido e apoiado pela lei terrena, estabelecendo direitos e obrigações entre si, comparáveis àqueles desfrutados por mulheres e homens casados.

Meu problema com o movimento do casamento gay é o uso e o significado da palavra “matrimônio”. Alguns anos atrás, a Lei do Casamento foi alterada pelo governo de Howard, apoiada pela oposição especificamente relacionada com a união entre um homem e uma mulher. Isso se seguiu ao entendimento de vários milhares de anos de que o termo “matrimônio” se aplica às relações heterossexuais. Isso também se aplica, a meu ver, ao termo “casamento”, em que o compromisso é feito diante de testemunhas e amigos e muitas vezes é celebrado em um serviço religioso em uma igreja.

Antes de continuar, é preciso falar sobre os relacionamentos hoje, neste momento, entre homens e mulheres. Alguns realmente não se casam, simplesmente moram juntos, sendo que muitos constroem uma família e permanecem juntos por toda a vida. Outros se casam em um cartório, onde, tendo declarado as suas intenções e feito o seu compromisso, seu matrimônio é registrado na lei. Condições similares são aplicáveis quando os casais usam um celebrante civil, designado pela lei, para se casar em um local de sua escolha, muitas vezes em um parque ou um jardim. Muitos ainda se casam em uma igreja onde, sujeito à conclusão dos papéis, o matrimônio também é válido perante a lei: todos os casamentos da igreja e, na ausência de formulações diferentes, os serviços públicos preveem um compromisso vitalício “até que a morte os separe” ou “enquanto ambos viverem”.

Infelizmente, neste momento, muitos compromissos fracassam com uma taxa de separação de mais de 40%. Em vista disso, com tantos casamentos fracassando por falta de estabilidade ou de permanência, alguns podem perguntar: por que fazer um alarido com relação a manter o significado tradicional? Por que não apenas alterar a Lei do Casamento para incluir casais do mesmo sexo?

Deve-se permitir que os gays se casem?

Ao propor o casamento gay, os apoiadores apontam as pesquisas e as enquetes que indicam que a maioria dos australianos são a seu favor. Eu acho que se eu pegasse uma prancheta, um crachá e um lápis e perguntasse aos transeuntes em um centro comercial local: “Deve-se permitir que os gays se casem?”, eu receberia uma resposta “sim” majoritária. Isto confirma a ideia de que, se você faz a pergunta certa, você obtém a resposta que quer. Aqui, a inferência em questão é que os gays não estão autorizados a entrar em um relacionamento comparável ao casamento heterossexual.

Como indiquei acima, muitos casais heterossexuais simplesmente vivem juntos, criam seus filhos e permanecem juntos por toda a vida. Da mesma forma, eu suspeito que muitos casais homossexuais vivem juntos ao longo dos anos, desfrutando sua sexualidade sem o desejo da paternidade. Então, agora, chego às minhas duas preocupações sobre a pergunta acima: “Deve-se permitir que os gays se casem?”. Minha primeira pergunta é: o que os simpatizantes gays querem dizer com o termo “matrimônio” e como ele deveria ser celebrado? Minha próxima pergunta: quem disse que os gays não podem se casar?

Ao longo dos últimos milhares de anos, o matrimônio claramente se referia à relação entre homens e mulheres. Dessa união, nascem os filhos, que são criados para formar a próxima geração. Sem ser muito fisiológico, o fato de ter filhos segue a alegria do encontro sexual, que, por sua vez, leva à grande responsabilidade, ao longo de muitos anos, da criação das crianças. No entanto, isso não pode ocorrer em uma união gay, em que a desvantagem dessa união é que, por si só, ela não pode gerar filhos. Embora existam “formas e meios” para que casais do mesmo sexo tenham filhos – que eu comentarei em breve –, estou certo de que muitos casais homossexuais estão felizes com suas vidas sem filhos. Seria interessante ver, estatisticamente, a porcentagem de casais homossexuais que desejam ter filhos, contra uma estimativa do número total de uniões gays permanentes. Talvez esse seja um item para o Censo Nacional em algum momento no futuro.

Quanto ao fato de casais gays terem filhos, eu vejo alguns problemas em todas as opções disponíveis. O mais simples para um casal de homens, com o consentimento de ambas as partes, envolve que um dos homens faça sexo com uma amiga ou com uma parceira voluntária. Aqui, como os casais irão confirmar, nem todo encontro, mesmo entre casais férteis, irá resultar em gravidez, por isso a perseverança pode ser necessária. No entanto, a criança que nascesse seria dada aos parceiros homens para adoção.

Poderiam surgir problemas se a criança nascesse com defeitos graves ou se a mãe natural que criou a criança em seu útero tenha dificuldades para dá-la para o casal gay. Como estamos lidando aqui com um casal masculino, devo comentar sobre a relação entre adultos e crianças. A maternidade é a relação natural entre uma mulher e seu bebê. Tendo feito nascer a criança, o instinto maternal é alimentá-la no peito (ou na mamadeira) e atender suas outras necessidades íntimas. Aqui, devo dizer que os homens podem ser pais muito bons, mas não mães, no sentido comumente aceito.

Para casais do sexo feminino, a opção acima seria mais fácil. Sujeita à concepção como no caso acima, uma das parceiras seria a mãe, e, com “duas” mães, o bebê não ficaria sem amor materno. O pai biológico pode querer manter o interesse ou querer entrar em contato com a criança. Essa é uma questão a ser resolvida entre as partes. Uma segunda opção para os casais femininos seria a fertilização in vitro, usando esperma de um doador conhecido ou não identificado. O processo pode ser complexo, sem garantia de sucesso na primeira ocasião. Assim, para os casais aceitos para a fertilização in vitro, o processo pode ser longo e caro. Outra opção é a adoção. Isso pode depender da disponibilidade de crianças no programa. Hoje, com os modernos meios de contracepção e, infelizmente, com o aborto, os números disponíveis para adoção são insuficientes para atender a demanda.

Para a adoção, assim como para a fertilização in vitro, os casais gays terão que competir com os casais heterossexuais que, apesar de todos os esforços, fracassaram em conceber. Esse fracasso pode ser uma causa de grande angústia, especialmente para uma mulher desesperada por um bebê. Assim, é compreensível que a preferência seja dos casais casados heterossexuais. Há também a relutância de alguns órgãos da Igreja para permitir a adoção por casais do mesmo sexo.

O que se entende por “casamento gay”?

Diante do exposto, reforço o ponto de que as uniões do mesmo sexo são tão diferentes das uniões heterossexuais que o uso do termo “casamento” é inadequado. Além disso, levanto a questão sobre o significado de “casamento gay”. Os casais gays esperam se aproximar de um ministro da Igreja e obter o consentimento para um casamento na Igreja? Um completo “não, não” em nossa Igreja Católica. Alguns anglicanos (episcopalianos) norte-americanos e bispos canadenses têm permitido o casamento gay, mas eles são a exceção em uma Igreja dividida nessa e em outras questões sexuais.

Assim, a inferência de que os casais gays não podem se casar deve estar ligada ao direito civil. Aqui, como indicado acima, eu não teria nenhuma objeção que uma Lei de União Civil [Civil Partnership Act] fosse aprovada pelo Parlamento Federal. Enquanto isso, os casais gays são livres para construir um lar juntos, fazer testamentos favorecendo um ao outro e acordos juridicamente vinculantes em torno da propriedade, do controle e da alienação de bens e outros ativos.

Em tempos recentes, esforços por parte de casais homossexuais para adotar crianças atraíram a atenção da mídia. Comentários do tipo “negação de direitos humanos” e “discriminação contra gays” caracterizaram as discussões. Antes de abordar mais profundamente esse aspecto, gostaria de lidar com um assunto que, na minha opinião, muitas vezes recebe pouca atenção. Ele se relaciona com os possíveis efeitos sobre as crianças criadas por casais gays. Isso só pode ser determinado conforme a criança amadurece e cresce até a idade adulta e faz sua própria avaliação pessoal da sua criação.

O mundo em que vivemos não é perfeito, mas devo começar com o ideal, isto é, que as crianças deveriam ser criadas por pais amorosos, um pai e uma mãe. Um menino precisa de um Pai para jogar bola no quintal ou para fazer coisas no “galpão”. Uma menina precisa de uma Mãe para as coisas de meninas, como se vestir, enfeitar-se e amadurecer como mulher. Além disso, é claro, uma menina precisa de um pai, e um menino precisa de uma mãe. Esse é o ideal, mas ele nem sempre é possível devido a morte, a graves problemas de saúde de um dos pais ou a outras circunstâncias inevitáveis, sendo a mais triste de todas a separação, agora um grande problema, que deixa a muitos genitores solitários a tarefa de criar os filhos.

Voltando aos efeitos sobre os filhos de pais do mesmo sexo, a pré-escola pode ser um lugar desafiador e às vezes cruel. Como alguém de sete anos de idade responde a uma pergunta de um colega sobre “como é ter dois pais ou duas mães?”. Ou, na sala de aula, quando os assuntos familiares são discutidos? Ao longo da vida, indivíduos criados por pais gays podem enfrentar dificuldades quando surgem questões de origem. Tal como acontece com todos os pais, uma afirmação como “eu não pedi para nascer” pode vir dos próprios filhos, muitas vezes de forma dolorosa.

Hoje, com muitos indivíduos, não com aqueles que nascem de relações heterossexuais, há uma demanda crescente para identificar os pais biológicos. Na fecundação in vitro, isso foi apresentado em dois artigos recentes do jornal The Age, um de Leslie Cannold, no dia 31 de janeiro: Por que a confiança supera o conhecimento [disponível aqui, em inglês]; o outro de Selma Milovanovic, do dia 3 de fevereiro: Papai, eu nunca lhe conheci [disponível aqui, em inglês].

Ambos abordaram a demanda crescente de adultos concebidos por doação para identificar o doador. As alterações da lei em Victoria, em 1997, deram aos receptores, aos 18 anos, o direito de identificar os doadores, e estes devem concordar com isso antes da doação. Eu não pesquisei a posição daqueles que foram adotados ou concebidos sob outras modalidades, mas suspeito que não haja leis que impeçam amplas investigações.

Ao preparar o presente artigo, tive o benefício do post de CathyT, no Fórum do Catholica, de 18 de janeiro [Eu acho que posso explicar, disponível aqui, em inglês]. Ela destaca a preocupação que muitos de nós sentimos com relação à utilização do termo “casamento gay”. Apesar de apoiar o direito dos casais homossexuais de desfrutar sua sexualidade, não é simplesmente a mesma coisa. A responsabilidade de manter os filhos até os 15-25 anos não se aplica aos parceiros homossexuais, a menos que tomem uma decisão independente de ter filhos, envolvendo alguns dos complexos procedimentos acima mencionados. Assim, não serve usar um conceito “tamanho único” para alterar a Lei do Casamento para incluir casais do mesmo sexo. Diferentes considerações se aplicam e, em vista delas, gostaria de ver uma Lei de União Civil sendo aprovada pelo Parlamento. Ela identificaria as intenções das partes e estabeleceria o processo para legalizar a união. O compromisso seria por toda a vida, e a lei definiria claramente os direitos e as obrigações entre as partes. Disposições especiais protegeriam os direitos de qualquer criança envolvida no relacionamento. Tendo em conta as fragilidades das relações humanas, a lei precisaria prever que, eventualmente, algumas uniões civis acabariam nos tribunais de divórcio.

Se os defensores do “casamento gay” abandonassem a sua referência ao matrimônio e apoiassem o termo uniões civis, eu suspeito que isso seria um grande apoio para a comunidade e até mesmo para um voto de consciência no Parlamento. Neste momento, tanto o primeiro-ministro quanto o líder da oposição apoiam o status quo. É preciso aguardar a introdução de uma nova lei ou, mais provavelmente, uma emenda à Lei do Casamento. Insisto que, pelo fato de duas questões semelhantes – o casamento heterossexual e a união gay – serem diferentes, não significa que uma delas esteja errada. No entanto, em minha opinião, a distinção deveria ser claramente definida por lei.

Pode-se obter alguma coisa de uma forma não discriminatória?

Em qualquer discussão que envolva dois pontos de vista opostos, deve haver escuta e respeito em ambos os lados. Termos como “negação dos direitos humanos” e “discriminação” apontados contra os apoiadores do casamento tradicional são, em minha opinião, falsos, injustos e incorretos. No direito, nunca existiu um direito dos gays a se casarem, por isso um direito inexistente não pode ser negado. Isso poderia muito bem mudar no futuro. Da mesma forma, acredito que muitos defensores do conceito tradicional do casamento não se oporiam à legislação que legaliza o direito a uniões civis. Então, onde está a discriminação?

Eis aqui, talvez, uma nota mais positiva. Concordo com a esperança de CathyT para uma forma de “cerimônia de aliança”. Eu vejo isso como uma “bênção”. Casais gays unidos por uma união civil e legal vitalícia deveriam ter o direito de buscar a bênção da Igreja para a sua união se um dos parceiros é católico com algum envolvimento nos assuntos da Igreja. Isso poderia ocorrer na casa ou privadamente na igreja. Seria insensato que ocorresse em uma cerimônia pública autônoma na igreja, o que pode acabar sendo um casamento de facto. Por outro lado, o casal poderia receber sua bênção depois da missa dominical. No domingo anterior, a bênção proposta seria anunciada, deixando os paroquianos livres nesse dia para permanecer ou ir embora, como quiserem. Exigir-se-ia sensibilidade para todos os envolvidos.

Neste momento, estou como que soltando uma pipa ao vento, mas espero que, uma vez que as uniões gays sejam legalizadas, nossa Igreja possa conceder-lhes o respeito e a dignidade que agora são dados aos casais heterossexuais.

Tendo iniciado este artigo antes do Natal, é hora de concluir. O assunto não é tão fácil como pode parecer, mas ele precisa ser examinado da forma como será levantado no Parlamento, em um futuro não muito distante.

Fonte: IHU em 11/03/2011.

Tradução: Moisés Sbardelotto.

(5) Quinto de uma série

(6) Leigo australiano da arquidiocese de Melbourne, que há mais de 40 anos atua em movimentos de diálogo inter-religioso. O artigo foi publicado no sítio Catholica, 05-03-2011.

7) A seguir no Saúde Publica(da) ou não publicações sobre o tema:
RECONHECENDO O DISCRIMINADOR
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: evolução. (2)

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (3)

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (4)
(8) Direitos homossexuais ganham o mundo

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (4)

Diversidade sexual e Igreja, um diálogo possível.

Entrevista especial com Luís Corrêa Lima (5)

IHU On-Line – Qual é a importância de a Igreja abordar temas como a diversidade sexual, nos dias de hoje?

Luís Corrêa Lima – A diversidade sexual é um dado da realidade. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Escondiam-se em uniões heterossexuais e, quando muito, formavam guetos. Hoje, tornam-se visíveis, fazem imensas paradas, junto com travestis e transexuais, exigem respeito e reconhecimento, e reivindicam direitos.

Para a Igreja, a lei de toda a evangelização é pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada à realidade dos povos, como lembra o Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, nº 44). Deve haver um intercâmbio vivo e permanente entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos. Para viabilizar este intercâmbio – sobretudo hoje, em que tudo muda tão rapidamente, e os modos de pensar variam tanto – ela necessita da ajuda dos que conhecem bem a realidade atual, sejam eles crentes ou não. O laicato, a hierarquia e os teólogos, prossegue o Concílio, precisam saber ouvir e interpretar as várias linguagens ou sinais do nosso tempo, para avaliá-las adequadamente à luz da Palavra de Deus, de modo que a Revelação divina seja melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente.

A correta evangelização, portanto, é uma estrada de duas mãos, do intercâmbio entre a Igreja e as culturas contemporâneas. Nós só podemos saber o que a Palavra de Deus significa para nós hoje, e que implicações ela tem, com um suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilização da população LGBT.

IHU On-Line – Que elementos de discussão a diversidade sexual propõe para setores da sociedade como a família, a igreja e a escola? Quais são os desafios no que se refere à cidadania?

Luís Corrêa Lima – Por muitos séculos, o homoerotismo foi visto no Ocidente como um pecado nefando (que não deve nem ser nomeado) e como um crime gravíssimo que atrai o castigo divino para a sociedade. Igreja e Estado estiveram unidos. Tribunais eclesiásticos julgavam os acusados de “sodomia”, e os culpados eram entregues ao poder civil para serem punidos. Em casos extremos, a punição chegava à pena de morte.

O homoerotismo foi descriminalizado, e a condição homossexual foi despatologizada. Desde o final do século XX, esta condição não é mais considerada doença. Atualmente o Conselho Federal de Psicologia proíbe as terapias de reversão. Ou seja, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda vida. Elas estão em toda parte. Quem não é gay, tem parentes próximos ou distantes que são, bem como vizinhos ou colegas de trabalho que também são, manifesta ou veladamente. Eles compõem a sociedade, visibilizam-se cada vez mais e não aceitam mais serem tratados como doentes ou criaturas abomináveis. Querem ser cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

IHU On-Line – O que a fé cristã, na sua opinião, tem a dizer sobre a diversidade sexual?

Luís Corrêa Lima – O mais importante é algo que foi dito numa carta do Vaticano aos bispos, em 1986: nenhum ser humano é mero homossexual ou heterossexual. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o torna filho Seu e herdeiro da vida eterna. E acrescenta que toda violência física ou verbal contra é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifiquem. A oposição doutrinária que possa haver às práticas homoeróticas não elimina esta dignidade fundamental do ser humano. Deus criou a todos. O Cristo veio para todos e oferece o seu jugo leve e o seu fardo suave. Cabe a nós, com fidelidade criativa, conhecermos e darmos a conhecer estes dons divinos.

IHU On-Line – Como a Igreja, a partir da fé e das ciências, pode dialogar com a diversidade sexual?

Luís Corrêa Lima – Certa vez o Papa Bento XVI afirmou que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciarmos isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente. É muito bom que um Papa tenha reconhecido isto. Há no cristianismo uma tradição multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na condenação e no medo. O historiador Jean Delumeau fala de uma “pastoral do medo”, que com veemência culpabiliza e a ameaça de condenação para obter a conversão. Isto não se deu somente no passado distante. Também no presente, alguns interpretam a doutrina da maneira mais restritiva e condenatória possíveis, com obsessão pelo pecado, sobretudo ligado a sexo.

Sem a obsessão pelo pecado, o caminho do diálogo se abre. É preciso também respeitar a autonomia das ciências e da sociedade, como determina o Concílio. Não cabe hoje encaminhar os gays a terapias de reversão ou a “orações de cura”, que frequentemente são formas escamoteadas de exorcismo. No diálogo ecumênico e inter-religioso da Igreja, recomenda-se conhecer o outro como ele quer ser conhecido, e estimá-lo como ele quer ser estimado. O conhecimento e a estima recíprocos são também o melhor caminho para o diálogo entre a Igreja e o mundo gay.

IHU On-Line – A Igreja, no Brasil, tem, por meio de publicações, cursos, seminários, proposto o diálogo sobre a diversidade sexual. O que isso significa? Há aí um interesse legítimo dos diversos membros da Igreja, ou esta é uma necessidade da Igreja de se inserir em um novo contexto contemporâneo, em que gays e lésbicas ganham mais espaço? Como interpreta a posição da Igreja nesse contexto?

Luís Corrêa Lima – Constata-se que há no Brasil várias publicações, e de qualidade, sobre diversidade sexual feitas por religiosos ou por editoras católicas. Também há cursos e mesas redondas. Pode-se notar que o interesse é crescente, afinal o contexto da sociedade é inevitável. Em vários ambientes católicos, sejam paróquias, escolas ou centros de pastoral, pode-se tratar do assunto com liberdade. De um modo geral, as eventuais resistências não são barreiras intransponíveis.

IHU On-Line – Os homossexuais já conquistaram o direito de manterem uma união estável no Brasil. Como avalia a luta pela cidadania religiosa no Brasil?

Luís Corrêa Lima – Na verdade, há decisões judiciais que favorecem os conviventes homoafetivos, bem como normas de instituições públicas e privadas no mesmo sentido. Casais homossexuais podem obter em cartório um documento declaratório de convivência homoafetiva. Recentemente o Imposto de Renda e os planos de saúde contemplam estes casais com os mesmos direitos dos casais heterossexuais em união estável. Sobre a cidadania religiosa, nos ambientes religiosos católicos, de um modo geral, muitos gays estão presentes mas não manifestam a sua condição para evitar discriminação. É algo semelhante à escola e ao mundo do trabalho.

IHU On-Line – O que podemos entender por diversidade sexual? Quais os principais desafios da diversidade sexual?

Luís Corrêa Lima – A visibilização dos homossexuais, e a sua organização como movimento social, já usou diversas siglas: Gay (termo anterior a homossexual, que evoca alegria e autoestima), MHB (Movimento Homossexual Brasileiro), HSH (Homens que fazem sexo com homens – sigla ainda utilizada em saúde pública), GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes – sigla adotada pelo mercado) e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), a mais recente. Há tendências de se acrescentar o ‘I’, de intersexual, para os hermafroditas. O termo diversidade sexual é uma maneira de englobar esta crescente pluralidade, embora com imprecisão.
O grande desafio da diversidade sexual é fazer-se compreender pela sociedade, não como uma ameaça, mas como uma pluralidade existente na condição humana que enriquece o mundo. No fundo, as pessoas querem ser elas mesmas, reconhecidas e aceitas pelos outros.

IHU On-Line – Como o senhor avalia o posicionamento da Igreja em relação à diversidade sexual na sociedade contemporânea?

Luís Corrêa Lima – A Igreja, antes de tudo, está alicerçada na milenar tradição judaico-cristã, ao mesmo tempo em que está presente em diversas partes do mundo, interagindo com a cultura ocidental moderna e com culturas não ocidentais. No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. O homoerotismo era considerado uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, inclusive pela proibição do homoerotismo. A Igreja herdou esta visão antropológica com sua interdição.
Alguns conteúdos doutrinais mudam ao longo dos séculos, como é o caso da legitimidade da escravidão e da proibição do empréstimo a juros. Isto mostra que eles não comprometem o núcleo da fé. Outros conteúdos também podem mudar, mas não há como prever. De qualquer maneira, a consciência individual tem um peso decisivo em questões complexas como esta. Este papel não deve ser omitido ou subestimado. O Concílio reconheceu o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência, e o dever de não agir contra ela. Nela está o “sacrário da pessoa”, onde Deus está presente e se manifesta. A fidelidade à consciência une os cristãos e os outros homens no dever de buscar a verdade, e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (Gaudium et Spes, nº 16). Nenhuma palavra externa substitui o juízo e a reflexão da própria consciência.

IHU On-Line – Entre os evangélicos também há discordância em relação à homossexualidade. Entretanto, qual sua opinião sobre a Igreja Cristã Contemporânea, coordenada pelo casal de pastores homossexuais Fábio Inácio de Souza e Marcos Gladstone?

Luís Corrêa Lima – Entre os evangélicos, a oposição à homossexualidade em geral é mais intensa, com práticas frequentes de exorcismo para expulsar o demônio que supostamente toma conta da pessoa. Os que continuam a cometer atos homossexuais são muitas vezes expulsos de suas igrejas, ou sofrem um assédio moral devastador que os faz sair. Como o mundo protestante é fragmentado em diversas denominações, gays evangélicos fundaram igrejas inclusivas para acolherem crentes repelidos por suas igrejas de origem.
As igrejas inclusivas nasceram nos Estados Unidos, na ampla constelação do movimento gay. A Igreja Cristã Contemporânea é um rebento brasileiro com notável difusão no Rio de Janeiro. Os pastores Fábio e Marcos protagonizaram o primeiro casamento público entre dois pastores gays, com grande repercussão na mídia, muita simpatia da militância LGBT e forte execração dos evangélicos tradicionais.

IHU On-Line – Quais são, no seu entendimento, as razões que dificultam o consentimento das religiões aos homossexuais?

Luís Corrêa Lima – As grandes religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – enraízam-se em tradições milenares consignadas em textos sagrados antigos, situados em horizontes socioculturais bem diferentes do nosso. Estas religiões se vincularam a uma suposta heterossexualidade universal, expressa no imperativo “crescei-vos e multiplicai-vos’” do livro de Gênesis. Por outro lado, há religiões de matrizes africanas que aceitam os gays. Na verdade, a heterossexualidade não é universal, nem na espécie humana, nem entre os animais. No mundo animal, já se conhecem atualmente mais de 450 espécies com indivíduos homossexuais.
Certa vez um rabino disse que a tradição não é um bastão de uma corrida de revezamento. O bastão é sempre mesmo, passando de mão em mão. A imagem correta da tradição é uma casa em que vivem sucessivas gerações. Cada uma delas pode dar o seu toque peculiar e até fazer reformas internas. Mas a casa é sempre reconhecível por quem passa na rua. Assim é a tradição: um legado vivo, constantemente enriquecido para ser fiel a si mesmo. O teólogo Yvez Congar afirmou que a única maneira de se dizer a mesma coisa em um contexto que mudou, é dizê-la de modo diferente. A mensagem cristã precisa se reinventar sempre se quiser ser Boa Nova.

IHU On-Line – As uniões homoafetivas representam uma ameaça à tradição?

Luís Corrêa Lima – Não, pelo contrário. A união entre o homem e a mulher conserva seu valor e função social, e permanece como sinal bíblico do amor entre o Senhor e o seu povo eleito, e do amor entre Cristo e a Igreja. As uniões homoafetivas não ameaçam as uniões heterossexuais, pois estes não são gays enrustidos prestes a debandarem diante da possibilidade de união homossexual. E nem os gays têm obrigação de se “curarem” e de se casarem com pessoas de outro sexo. Até porque, para o direito eclesiástico, este casamento é nulo. Uniões gays e uniões heterossexuais são de naturezas distintas e não concorrem entre si.
Um documento do Vaticano de 2003, sobre o reconhecimento civil da união entre pessoas do mesmo sexo, fez severa oposição à equiparação ou equivalência desta forma de união àquela entre homem e mulher. No entanto, ele afirma que, mesmo assim, podem-se reconhecer direitos decorrentes da convivência homossexual. Este é um passo muito importante. Se não houver nenhum reconhecimento social ou proteção legal às uniões gays, o preconceito homofóbico difuso na sociedade vai pressionar os gays a contraírem uniões heterossexuais. O que já acontece há séculos continuará acontecendo. É lastimável, pois isto traz enorme sofrimento a muitas pessoas.

IHU On-Line – O que deve fazer parte de uma reflexão moral sobre o amor homossexual?

Luís Corrêa Lima – Antes de tudo, a vocação fundamental do ser humano é amar e ser amado. O amor é a plenitude da lei e da vida em Cristo. E o próprio Cristo ensina que a lei foi feita para o homem, e não o homem para a lei. Para a reflexão moral, convém escutar a Palavra de Deus e buscar uma teologia que supere a leitura ao pé da letra; e que leve em conta a Tradição, o ensinamento da Igreja, os sinais dos tempos e os saberes seculares.
A moral não deve se limitar ao ideal, mas deve estar atenta ao possível, à situação em que cada um se encontra e aos passos que pode dar. O papa tratou recentemente do uso da camisinha, e afirmou que em algumas circunstâncias ele representa o primeiro passo para uma humanização da sexualidade. É preciso buscar sempre os caminhos de humanização.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Luís Corrêa Lima – Sim. Jesus afirmou que há eunucos de nascença, eunucos feitos pelos homens e eunucos que assim se fizeram pelo Reino dos Céus (Mt 19,12). Esta frase, um tanto estranha, tem um sentido literal e um sentido não literal. No caso de eunucos feitos pelos homens, trata-se de castração. No caso de eunucos pelo Reino dos Céus, trata-se do próprio Jesus e dos que renunciaram ao casamento para se dedicarem inteiramente à obra de Deus. Não há propriamente castração. E quem são os “eunucos de nascença”? Para os primeiros leitores do Evangelho, talvez fossem pessoas com um defeito físico que impossibilita o casamento. Mas para nós, hoje, é indispensável considerar aqueles que por natureza, em razão de sua libido, não se destinam ao casamento tradicional. São os gays. Eles têm seu lugar no plano divino. E também devem tê-lo na sociedade e na Igreja.

Fonte: IHU em 06/03/2011
(4) Quarto de uma série
(5) Graduado em Administração, Filosofia e Teologia, mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio, doutor em História pela UnB, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro -PUC-Rio. É autor de Teologia de Mercado – uma visão da economia mundial no tempo em que os economistas eram teólogos (Bauru: EDUSC, 2001).
(6) A seguir no Saúde Publica(da) ou não publicações sobre o tema:
RECONHECENDO O DISCRIMINADOR
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: evolução. (2)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (3)
(7) Direitos homossexuais ganham o mundo

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (3)

A Igreja e os homossexuais.

Entrevista com Luís Corrêa Lima (4)

IHU On-Line – O senhor trabalha a questão da homossexualidade e religião em suas pesquisas. Como é tratar desses assuntos sendo professor e pesquisador de uma universidade católica?

Luís Corrêa Lima – A questão da homossexualidade é multidisciplinar, conectando-se com vários âmbitos, incluindo o religioso. A religião traz consigo uma visão de mundo e tem importante incidência na sociedade. Ela pode ser fonte de homofobia e de hostilidade à diversidade sexual, e também pode ser benéfica, ajudando as pessoas a amarem a si mesmas como criação divina e a darem um sentido amoroso e transcendente às suas vidas.

A universidade católica é, antes de tudo, “universidade”, ou seja, um universo onde diversos saberes podem se encontrar, um espaço aberto à totalidade. No ambiente acadêmico é natural a pluralidade ideológica, que permite pensar a complexidade da realidade e a sua conflitividade. A universidade católica não é um setor de uma paróquia, onde pessoas piedosas estudam autores edificantes. A pluralidade ideológica é constitutiva da vida acadêmica, e é também a sua riqueza. Aliás, “católica” significa universal, o que remete à mesma totalidade e abertura. O que mais se opõe à catolicidade é o espírito de seita, isto é, a crença que indevidamente exclui, tornando-se bitolada e arrogante.

A homossexualidade é um assunto delicado, na sociedade e em diversas instituições. Não é raro encontrar resistências ou temores. Mas com firmeza e delicadeza, este assunto pode ser pautado. Na universidade, mesmo católica, a dimensão acadêmica dá respaldo à pesquisa, bem como a publicações, teses, grupos de estudo, cursos e eventos.

IHU On-Line – A Igreja de hoje consegue trabalhar a partir do caráter histórico e cultural próprio da experiência humana?

Luís Corrêa Lima – Na Igreja há uma multidão de povos e culturas. Na sua história bimilenar, há uma grande riqueza em processos de adaptação, inculturação da fé e fomento de transformações. O risco de se afastar do caráter histórico e cultural da experiência humana, existe de fato ao se adotar uma concepção de lei natural entendida como um código detalhado, universal e imutável, reconhecido e ratificado pela autoridade eclesiástica. Aí, sim, há risco de engessamento.

Outra maneira de se conceber a lei natural é como uma racionalidade presente na natureza, obra do Criador. Racionalidade esta que é compreensível pela reta razão em diferentes culturas e contextos. O entendimento desta lei e da responsabilidade humana, afirmou certa vez o papa Bento XVI, requer um “diálogo fecundo entre crentes e não-crentes; entre filósofos, juristas e homens de ciência”. Desta maneira, prossegue ele, pode-se oferecer também aos legisladores um material precioso para a vida pessoal e social. Neste caso, no entanto, não se trata de questões fechadas e de conclusões definitivas. O próprio crente, incluindo o papa, é um interlocutor do diálogo. E para que este diálogo seja fecundo, é preciso ouvir com atenção vozes diversas. A tarefa não é fácil e nem sempre o magistério consegue.

IHU On-Line – Como o senhor vê os novos modelos de “família” de hoje e como essas famílias se relacionam com a religião?

Luís Corrêa Lima – A família e o casamento mudaram bastante ao longo da história. Nos tempos bíblicos, a mulher era propriedade do marido ou do pai, assim como a casa, o escravo e o jumento. O casamento era um acordo entre famílias, prescindindo do consentimento dos cônjuges. A função da esposa era gerar descendentes para a família do marido. Caso ficasse viúva e sem filhos, ela teria que se casar com o cunhado para cumprir esta função. No século XII, a tradição ocidental introduziu o consentimento dos cônjuges como condição necessária e suficiente para a validade do casamento. No século XX, o modelo patriarcal de família declinou em todo o mundo. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabeleceu o livre consentimento e direitos iguais entre marido e mulher. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, louva as nações que promovem a igualdade do homem e da mulher na sociedade. A mudança é enorme e o processo continua.

Desde o final do século passado, há um número considerável de divorciados recasados formando um novo modelo de família. Em uma região da Alemanha, os bispos escreveram uma carta pastoral sobre este assunto mostrando abertura. Hoje aumentam as famílias homoparentais, que têm como responsável um casal gay. Os bispos norte-americanos se depararam com esta questão. Eles são contra a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. No entanto, aprovaram o batismo de crianças sob a responsabilidade destes casais, desde que haja o propósito de educar as crianças no catolicismo. E muitas escolas católicas nos Estados Unidos recebem estas crianças. Em vários lugares, elas convivem com outras crianças sem problemas ou reclamações dos pais. As mudanças na sociedade contribuem para a boa aceitação e convivência. As mudanças na Igreja, por sua vez, dependem em grande parte do contexto social das comunidades locais e de sua abertura pastoral.

IHU On-Line – Por que grande parte dos católicos não encoraja as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo, quando temos exemplos tão claros de que essas relações são mais leais dos que as relações heterossexuais?

Luís Corrêa Lima – Comecemos pelo inverso, que é menos conhecido. No ano passado, o novo presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, Robert Zollitsch, declarou-se a favor da união civil homoafetiva. Ele considera uma questão da própria realidade social: se há pessoas com orientação homossexual, o Estado deve adotar uma legislação correspondente. E efetivamente a Alemanha reconhece esta união desde 2002. Convém notar que um presidente de uma conferência nacional de bispos não faria uma declaração destas sem o respaldo dos outros bispos do país, e sem um amplo consenso da igreja local. E isto se dá na terra do papa.

Já na Itália, um importante grupo de jesuíta apóia as uniões gays. Em junho de 2008, a prestigiosa revista da Companhia de Jesus, Aggiornamenti Sociali, publicou o estudo de um núcleo católico de bioética com sede em Milão. Este núcleo defende que a convivência entre duas pessoas do mesmo sexo é benéfica para a vida social. E em uma relação duradoura, devem-se reconhecer direitos e deveres a quem oferece cuidado e sustento ao companheiro, independentemente de que a intimidade entre eles seja sexual ou não. Ao político católico, acrescenta, é justificável votar a favor deste reconhecimento.

Na verdade, nós estamos vivendo uma mudança de paradigma antropológico. Havia uma heterossexualidade universal, ou heteronormatividade, uma suposição de que todo ser humano é feito para o sexo oposto, de que só com alguém de outro sexo se pode constituir uma união sadia, base de uma família respeitável. A homossexualidade foi considerada doença até o início dos anos 1990. Isto ainda está arraigado na sociedade e nas estruturas mentais, que incidem na religião. A Igreja tem dois mil anos, e o peso da tradição é muito forte.

O cardeal Carlo M. Martini, fazendo um balanço de sua vida, declarou: “Entre os meus conhecidos há casais homossexuais, homens muito estimados e sociáveis. Jamais me foi perguntado e nem me teria vindo em mente condená-los”. Demasiadas vezes, prossegue ele, a Igreja tem se mostrado insensível, principalmente com os jovens nesta condição. Certamente Martini foi formado em uma outra mentalidade bem diferente. Ele mudou ao encontrar estes casais, ao ver que eles não são uma ameaça para a sociedade. Isto é que pode fazer as pessoas mudarem, e verem que também as instituições devem mudar.

IHU On-Line – Como o senhor vê a fé de uma pessoa homossexual?

Luís Corrêa Lima – É uma fé que rompe barreiras. Conheço pessoas gays que estão profundamente convencidas de que Deus as fez assim, e não se envergonham do que são. A barreira a ser vencida é a heteronormatividade, a suposição de que só os héteros correspondem ao desígnio divino e que só eles podem ser aceitos socialmente. Muitas vezes a aversão aos homossexuais, a homofobia, não só está disseminada nos ambientes mas também internalizada nos próprios gays. Daí decorre uma baixa autoestima e uma enorme culpabilização, que não são raras e podem levar os gays à depressão e mesmo ao suicídio.

Quando a pessoa se aceita como ela é, Deus pode ser conhecido e amado como fonte do amor incondicional. E aí um novo caminho se abre. O jugo leve e o fardo suave oferecidos por Cristo podem ser carregados, e os que estão cansados e sobrecarregados podem ser aliviados. Quando a diversidade sexual é reconhecida não como um desvio, mas como um aspecto da realidade humana (e mesmo animal), pode-se ter uma outra compreensão da própria criação. As diversidades, que são tantas na criação sob as mais diferentes formas, apontam para a diversidade existente no próprio criador, no ser divino que não se vê. No Deus único há diferentes pessoas em comunhão: Pai, Filho e Espírito Santo profundamente unidos desde toda a eternidade. A diversidade na Santíssima Trindade se reflete na variedade da criação.

IHU On-Line – O vice-presidente da CNBB, Luís Soares Vieira, afirmou que homossexuais podem ser padres desde que sejam celibatários. Como o senhor vê essa questão?

Luís Corrêa Lima – A aptidão de pessoas homossexuais para o sacerdócio é corroborada pelo ex-superior geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe. Ele trabalhou em todo mundo com bispos e padres, diocesanos e religiosos. Radcliffe não tem dúvidas de que Deus chama gays ao sacerdócio. E afirma que eles estão entre os sacerdotes mais dedicados e impressionantes que encontrou. Por isso presume que Deus continuará chamando ao sacerdócio tanto gays, quanto heterossexuais, porque necessita dos dons de ambos.

As reticências no acesso dos gays ao sacerdócio decorrem da homofobia presente na sociedade e na Igreja, que gera desconfiança. Um documento romano de 2005 determina o veto dos candidatos que apresentam “tendências homossexuais profundamente enraizadas”. Não se define o que sejam estas tendências, mas se afirma que elas são um grave obstáculo para um correto relacionamento com homens e mulheres. Convém lembrar que a última palavra sobre a ordenação cabe ao bispo local ou ao superior religioso, depois de ouvir os encarregados da formação.

Alguns bispos entendem que não se trate de quaisquer tendências homossexuais, mas apenas daquelas que sejam um grave obstáculo para o correto relacionamento de um padre celibatário com os fiéis. Outros afirmam que a vocação presbiteral contém o senso de uma paternidade humana e espiritual que um homossexual não possui. Por isso ele não deve ser admitido mesmo que viva uma castidade perfeita e uma conduta exemplar. Felizmente o vice-presidente da CNBB adota a primeira posição. Um novo documento romano, de 2008, retoma a questão suavizando a resistência: o candidato deve ser vetado se não “enfrentar de modo realista” suas tendências homossexuais. A postura intransigente perde terreno.

De qualquer maneira, a auto-estima do seminarista ou sacerdote homossexual é muito bombardeada em meio a esta polêmica. É preciso que haja um ambiente de confiança onde ele possa admitir a sua condição, ainda que apenas para si mesmo, para seu orientador espiritual e para seu superior. E que possa conversar, refletir e orar sobre isto. Caso contrário, a homossexualidade enrustida terá efeitos devastadores em si mesmo e nos outros. Faltam modelos explícitos de santidade homossexual, nos quais as pessoas possam se inspirar.

IHU On-Line – É possível entender a homossexualidade a partir de uma visão que não esteja vinculada ao desejo?

Luís Corrêa Lima – O conceito de homossexualidade é do século XIX. Na antiguidade, um indivíduo que tinha relações com pessoas do mesmo sexo não constituía uma categoria, não era classificado segundo esta prática. Isto se dá no Ocidente com a associação das relações entre pessoas do mesmo sexo e o pecado de Sodoma. O indivíduo que praticava este tipo de relação foi designado como “sodomita”. Esta classificação é intrinsecamente religiosa e moral, pois se trata do autor de um pecado gravíssimo e abominável que clama por punição divina. Já “homossexualidade” é um conceito moralmente neutro, pois desloca o homoerotismo do campo religioso condenatório para o campo médico, ainda que da patologia. O pecado abominável se torna antes de tudo uma doença. E assim permanece até o final do século XX.

Nesse meio tempo o movimento social homossexual adotou o termo “gay”, que já existe há alguns séculos, e significa alegre. É uma maneira positiva de se ver e de se enunciar. O amor entre pessoas do mesmo sexo também pode ser entendido como “homoafetividade”. Já se fala em direito homoafetivo, e muitos cartórios emitem um documento declaratório de convivência homoafetiva. A vantagem sobre o termo homossexualidade é que sexo frequentemente enfatiza a genitalidade, enquanto afetividade é bem mais ampla, incluindo o relacionamento com o outro e o seu bem.

Fonte: IHU em 05/08/2009
(3) Terceiro de uma série
(4) Graduado em Administração, Filosofia e Teologia, mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio, doutor em História pela UnB, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro -PUC-Rio. É autor de Teologia de Mercado – uma visão da economia mundial no tempo em que os economistas eram teólogos (Bauru: EDUSC, 2001).
(5) A seguir no Saúde Publica(da) ou não publicações sobre o tema:

RECONHECENDO O DISCRIMINADOR
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)

Homossexualidade, religião, psiquiatria: evolução. (2)
(6) Direitos homossexuais ganham o mundo

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (2)

A revolução freudiana

Entrevista com a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco (1)

Ao longo de todo o século 19, primeiro com a aparição da psiquiatria, e depois, da psicologia clínica, o poder, confiado na Antiguidade ao padre, é progressivamente transferido ao médico…

O médico vai, com efeito, incumbir-se da sexualidade e do tratamento dos desvios. A sociedade se ocupa cada vez mais com a sexualidade, não do ponto de vista do julgamento divino, mas da reprodução, da biologia e do desejo. Sai-se, assim, de um mundo dominado pelo poder patriarcal e de um contexto onde os casamentos eram arranjados. Ao invés de tratar a questão moral no sentido da fé cristã, a burguesia se interessa pelo sexo biológico e re-injeta a questão sexual no cerne desta nova concepção científica do sexo, construída sobre a base do saber medicinal. Na segunda metade do século se expande um interesse particular pelo desenvolvimento da sexualidade infantil, da mulher histérica e do homossexual. Em outras palavras, a sociedade se ocupa da anomalia. A criança deve ser normalizada. Inventam-se aparelhos para impedi-la de se masturbar. É a moral médica que se situa, evidentemente, numa continuidade com a moral burguesa, ao mesmo tempo cristã e biológica.

E o que faz Freud?

A teoria freudiana é, do ponto de vista da sexualidade, uma revolução. Freud modifica o olhar sobre a sexualidade. Ele também será acusado por todas as religiões, e particularmente pelo catolicismo, de ser um profanador da família, um dinamitador da sociedade, um demônio darwiniano e um obsessivo sexual. Por quê? Porque ele considera que a sociedade burguesa freia o desejo sexual. Ao invés de apontar a anormalidade com o dedo, ele mostrará que todos os conflitos na origem do ser humano são, em seu início, sexuais e ligados ao desejo. Se as mulheres dessa época são histéricas, é porque elas têm frustrações, e não porque elas são anormais… Freud é um materialista que considera a sexualidade como um fenômeno simultaneamente psíquico e biológico. Ele não é um teorizador da liberdade sexual a qualquer preço, mas, um emancipador que luta contra a moral de sua época, demasiado patriarcal, com suas golilhas ligadas aos interditos religiosos. Até 1897, data na qual ele elabora sua primeira teoria sexual, ele vê muitas mulheres que dizem ter sofrido abusos. A neurose adulta, pensa ele primeiro, vem de traumatismos sexuais reais, e depois ele se apercebe que, se certas mulheres conheceram realmente um abuso, outras sinceramente o imaginaram; ele inventa, assim, a noção de fantasma. Ele demonstra depois que todos nós temos problemas sexuais na cabeça e não somente no corpo! Isto é muito mais subversivo! Também será muito desestabilizante para a civilização descobrir o que as crianças desejam verdadeiramente, quando elas elaboram “teorias” muito cruas sobre as relações sexuais e o nascimento. Assim, ele causará escândalo em 1905, afirmando que é perfeitamente normal para uma criança masturbar-se e que todas as crianças têm uma sexualidade pulsional. E isto se torna “anormal” quando se volta à mania fetichista.

A Igreja católica condena, até 1945, a obra de Freud, da mesma forma como a de Marx. Por quê?

Por que o comunismo e a psicanálise são os dois fermentos, para a Igreja, da liquidação da moral cristã: duas teorias materialistas elaboradas por Juízes hostis à religião. Da mesma forma, todas as ditaduras vão banir o freudismo como teoria da liberdade humana. A seguir, a Igreja católica romana mudará de doutrina, introduzindo a experiência psiquiátrica para o discernimento das vocações. A Igreja já não terá mais, então, vontade de acolher pervertidos sexuais e homossexuais recalcados em suas fileiras. Há, desde então, confiança nas teorias psiquiátricas, dominadas na época pelas de Freud, em favor desta introdução, e os jesuítas e dominicanos se apaixonarão pela exploração de si mesmos. E, no interior da experiência psiquiátrica para os noviços, eles introduzirão as curas psicanalíticas.

Sobre as questões sexuais, após ter sido por longo tempo inimiga dos dogmas religiosos, a psicanálise não tem a tendência, desde uns vinte anos, de se aproximar do conservadorismo da Igreja?
A transformação se operou em diversas etapas, junto a todas as tendências dos psicanalistas: kleinianos, lacanianos, os quais são os herdeiros de Freud. Com a criação da International Psychoanalytical Association (IPA) em 1910, este movimento de emancipação se transformou numa Igreja laica, com regras para a cura e uma nova moral ortodoxa… Após ter sido criticada pelas Igrejas por razões morais, a psicanálise foi violentamente atacada pelos cientistas, para os quais não existe psiquismo fora dos neurônios e do funcionamento cerebral. Quando a psiquiatria se torna comportamentalista, ela excluiu o inconsciente, a sexualidade, a transferência, o desejo, em favor de uma classificação dos comportamentos. A característica dos comportamentalistas é a detestação das religiões e, para eles, a psicanálise é uma religião e os psicanalistas são para eles padres mascarados. Eles aceitam certas formas de religiosidade que não são a religião, como, por exemplo, a meditação transcendental enquanto utensílio técnico.

Sentindo-se ameaçados, os psicanalistas teriam então se aproximado naturalmente da Igreja?

Sim e não. Não, pois em geral eles são ateus. Sim, porque o debate com os representantes das neurociências se tornou, infelizmente, inoperante à força de conformismo: falar unicamente de serotonina ou de circuitos cerebrais se torna muito aborrecido. Atualmente os psicanalistas correm o risco de ser destinados a servir de supletivos a tudo o que não se pode tratar pelos medicamentos. E isso não é nada interessante do ponto de vista da reflexão teórica. O problema é que a psicanálise é uma teoria filosófica e que não se fala a mesma linguagem que os cientistas, os quais, aliás, denunciam, eles próprios, os desvios científicos de suas disciplinas. A aproximação dos psicanalistas com os ideais da velha moral cristã, por causa da pobreza dos debates com as ciências, teve conseqüências dramáticas. Eles passaram ao largo dos grandes debates sobre as novas formas de sexualidade. Viu-se os psicanalistas se fecharem num conservadorismo muito tacanho, notadamente a propósito da homossexualidade, do Pacs e das novas formas de filiação: “Não se toca em nossa teoria do pai, é impossível que duas pessoas do mesmo sexo eduquem uma criança, necessita-se de um papai e de uma mamãe!”

Opostamente, os cognitivo-comportamentalistas são apolíticos, eles são favoráveis ao liberalismo absoluto em matéria de costumes, já que eles negam toda função simbólica. Sua filosofia espontânea é a de “desfrutar o melhor possível”, temperada pela avaliação: um pesadelo moderno que transforma os homens em “coisas.” Isso não é pensável com a psicanálise, a qual defende que o ser humano está submetido à Lei (no sentido jurídico e simbólico), a Lei enquanto ela garante a liberdade de cada um, sem, portanto, autorizar a barbárie do gozo pulsional ilimitado. Mas, numerosos psicanalistas confundiram esta concepção da Lei com a defesa de um velho soberanismo tacanho e fundado no culto do pai como equivalente do Estado-nação.

Fonte: IHU em 28/07/2009

(2) Segundo de uma série
(1) Reportagem de Jennifer Schwarz no “Le Monde des Religions” em 02-07-2009. Tradução de Benno Dischinger.
(3) A seguir no Saúde Publica(da) ou não publicações sobre o tema:
http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/03/27/reconhecendo-o-discriminador/

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)
(4) Direitos homossexuais ganham o mundo

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)

A ânsia de sentirem-se normais.

Um artigo sobre a homossexualidade

Luciana Sica em artigo publicado no jornal La Repubblica. (2)

“Porque somos heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, na realidade ninguém pode dizê-lo e, quem presume fazê-lo, é com toda a probabilidade presa de um delírio de onipotência. Nos gostos eróticos há um pouco de tudo: histórias individuais, desejos, ternuras, tormentos, “afetos” que fogem às explicações generalizadas, àquela tentação de construir estruturas identitárias baseadas sobre um modo já não proponivel de explicar a diferença entre os sexos – o masculino e o feminino como equivalentes de ativo e passivo – sem ter em nenhuma conta a “variedade” sempre mais vistosa na declinação dos gêneros.

A criar inquietude são ainda os homossexuais – os eternos “desviantes” falsamente tolerados, primeiro oprimidos pela vergonha e pelo escândalo, hoje pela impossibilidade de ser normais. A “patologização” das suas orientações é apenas em parte uma história não edificante do passado, e por longo tempo o mundo psicanalítico não se subtraiu de alimentar ondas por vezes cruéis de homofobia.

Mas hoje, haverá ainda alguém que presuma saber como deva ser a sexualidade de uma pessoa normal?

Sobre este “ponto”, muito num odor de moralismo, interrogamos Vittorio Lingiardi, psiquiatra e analista de formação junguiana, professor de Psicopatologia na “Sapienza” de Roma. É ele a dizer: “A psicanálise contemporânea é caracterizada por um panorama teórico variegado e atravessado por perguntas sem resposta. Não sabemos, por exemplo, como as forças biológicas, as identificações, os fatores cognitivos, o uso que a criança faz da sexualidade para resolver os conflitos do desenvolvimento, as pressões culturais à conformidade e a necessidade de adaptação contribuam para a formação do sujeito e para a construção da sua sexualidade. Nem sabemos se jamais será possível responder a estas perguntas. Aquilo de que seria oportuno partir, sempre e de qualquer modo, é uma declinação plural das sexualidades: um pouco de cada vez, é a tendência que vai prevalecendo, embora com alguma carga de resistência”.

Também se pode dizer que no passado os analistas tenham sido mais realistas do que o rei. Freud, que por mais vezes se referiu à homossexualidade como a “um mistério” ou também como a “um problema”, e na celebre Carta a uma mãe americana escrevia: “a homossexualidade não é, por certo, uma vantagem, mas não é nada de vergonhoso, não é um vício, nem uma degradação, e não pode ser classificada como doença: nós a consideramos uma variante da função sexual causada por certo retardo do desenvolvimento sexual”. E certamente mais conformistas do que Jung, tão atento aos percursos simbólicos da sexualidade, que na conferência sobre o Problema amoroso do estudante pronunciou uma de suas célebres frases: “Não pergunteis jamais o que alguém faz, nem como o faz”.

– Lingiardi: “Quando falamos de “como são” e de “como amam” os homens e as mulheres, encontramo-nos inevitavelmente no território da cultura, do relato e da língua. A teoria psicanalítica excedeu-se, ao invés, em generalizar e universalizar, pressupondo que masculinidade e feminilidade fossem categorias, em vez de dimensões. Por muitos anos o discurso psicanalítico sobe a homossexualidade considerou sua etiologia, referível a uma parada ou a uma regressão à fase edípica ou pré-edípica, levantando a hipótese da existência de uma linha de desenvolvimento e atingimento de um cume de heterossexualidade que assegurava a maturidade e a saúde mental. É claro que a etiqueta da imaturidade, como aquela do narcisismo, para as orientações homossexuais foi sempre mais revelando uma folha de figo pseudocientífica usada para cobrir o preconceito”.

Pesquisa psicanalítica

De resto, quanto à psicanálise – a pesquisa psicanalítica – pode ela não ser influenciada por valores culturais dominantes, pelo espírito do tempo, e, enfim, pode ela realmente evitar os preconceitos? Não se subtrai a esta pergunta, que nos parece de bom senso e ele julga “insidiosa”, Sarantis Thanopulos, grego de origem, brilhante qüinquagenário da Sociedade psicanalítica italiana: “O trabalho do analista é construído em torno da necessidade de suspender seu juízo, para restituir a palavra à interioridade dos seus pacientes: as mudanças na sociedade e na cultura tendem a entrar na psicanálise sobretudo através dos seus “casos”.

E já que a interioridade, em cada um de nós, encontra sua dimensão mais privada nos desajustes com os tempos da vida, a psicanálise está dentro e fora do seu tempo, permanece sempre “intempestiva”. De resto, se até as idéias dos físicos e dos matemáticos estão em estreita relação com a cultura do seu tempo, como poderia a psicanálise estar imune às mudanças culturais, não ser influenciada”?

O que Thanopulos, no entanto, exclui é uma ausência suspeita de “problematização” quando se fala de sexualidade em geral, e de homossexualidade em particular. Aquele politicamente correto que tende a banalizar e, sobretudo dissimular as desconfianças, o sarcasmo, certas formas mais ou menos sutis de recusa. Diz ele: “Considero infundada a idéia de que o erotismo homossexual seja patológico, mas não me parece o caso de empenhar-se para fazer as contas entre os “inovadores” e os “conservadores”, porque na realidade cada posição é legítima e problematiza a outra. Acima de tudo, não esquecerei que certo aspecto “herético”, certo “desvio” da homossexualidade sempre teve uma função muito importante: a de desestabilizar o estatuto normativo da sexualidade. Por certo, não é possível fixar eternamente os homossexuais ao polo transgressor da sexualidade, mas é preciso estar atentos – na passagem para a “normalização” – a não perder de vista o sentido profundo das diferenças, a cancelar as tensões que existem. O nosso mundo interno é habitado por fantasias heterossexuais e homossexuais – por aquela bissexualidade psíquica de que falava Freud. Creio que deixar de promover esta dialética dentro de nós, também com os conflitos que comporta, seria uma simplificação e um empobrecimento da vida interior”. Muito interessante é a posição de Thanopulos sobre aquele que define o componente homossexual nas relações entre homem e mulher, “lá onde – lê-se em hipótese gay – a diferença dos sexos é ao mesmo tempo desejada e repudiada”. Quem explica “O estatuto da sexualidade é sempre antinômico, porque o encontro com um outro corpo consente, tanto em perder a si póprio como em reencontrar-se. Aqui uma corrente “homofílica” vem em socorro da heterossexualidade, porque atenua e ao mesmo tempo protege o encontro com o outro sexo. Quando, no entanto, na vida adulta permanece a ferida da adolescência, no encontro erótico entre homem e mulher um certo componente homossexual pode dominar a cena”.

Mais em geral, diz Thanopulos – o verdadeiro perigo hoje “é a sempre mais difusa presença de “auto-erotismo” destacado do resto da sexualidade, que golpeia em igual medida relações homossexuais e heterossexuais. Nesta deriva, o outro torna-se um instrumento de prazer: não é mais um sujeito, não é uma pessoa inteira e autônoma, na realidade não te envolve, não pode entrar na tua vida”.

O verdadeiro divisor de águas

O verdadeiro divisor de águas na sexualidade humana não seria, então, entre heterossexualidade e homossexualidade, mas antes entre um auto-erotismo de sinal narcisóide e a capacidade de reconhecimento profundo do outro: aquela que os analistas definem como “escolha objetal” e nós, mais simplesmente, diremos: amar verdadeiramente alguém, seja homem ou mulher.

Em todo o caso, os analistas de hoje parecem agora muito longe de considerar os homossexuais como “doentes”. Talvez um pouco perversos, compulsivos, imaturos, narcisóides, regressivos, talvez sim, ainda. E talvez não possa fazer sucesso a citação de um grande autor como Christopher Bollas, que já em 1992 escrevia: “toda tentativa de construir uma teoria geral da homossexualidade pode ser satisfeita somente ao preço de graves distorções das discretas e importantes diferenças entre homossexuais, ato que poderia constituir um “genocídio intelectual”.

Como que a dizer: se apostamos na qualidade e nas dinâmicas das relações, ainda se pode falar de homossexualidade no singular? Serão os homossexuais capazes de amar e aqueles que saltitam de um corpo ao outro, talvez mais desesperados do que “gay”: no fundo, nada há de tão diverso daquilo que acontece nos encontros raramente idílicos dos heterossexuais, em tantas histórias dos quais não se sabe se mais áridas ou mais desconjuntadas.

Fonte: IHU em 09/01/2007

(1) Primeiro de uma série
(2) L’ ansia di sentirsi normali
(3) A seguir publicações sobre o mesmo tema do blog:
http://saudepublicada.sul21.com.br/
http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/03/27/reconhecendo-o-discriminador/
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
(4) Direitos homossexuais ganham o mundo