Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (2)

A revolução freudiana

Entrevista com a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco (1)

Ao longo de todo o século 19, primeiro com a aparição da psiquiatria, e depois, da psicologia clínica, o poder, confiado na Antiguidade ao padre, é progressivamente transferido ao médico…

O médico vai, com efeito, incumbir-se da sexualidade e do tratamento dos desvios. A sociedade se ocupa cada vez mais com a sexualidade, não do ponto de vista do julgamento divino, mas da reprodução, da biologia e do desejo. Sai-se, assim, de um mundo dominado pelo poder patriarcal e de um contexto onde os casamentos eram arranjados. Ao invés de tratar a questão moral no sentido da fé cristã, a burguesia se interessa pelo sexo biológico e re-injeta a questão sexual no cerne desta nova concepção científica do sexo, construída sobre a base do saber medicinal. Na segunda metade do século se expande um interesse particular pelo desenvolvimento da sexualidade infantil, da mulher histérica e do homossexual. Em outras palavras, a sociedade se ocupa da anomalia. A criança deve ser normalizada. Inventam-se aparelhos para impedi-la de se masturbar. É a moral médica que se situa, evidentemente, numa continuidade com a moral burguesa, ao mesmo tempo cristã e biológica.

E o que faz Freud?

A teoria freudiana é, do ponto de vista da sexualidade, uma revolução. Freud modifica o olhar sobre a sexualidade. Ele também será acusado por todas as religiões, e particularmente pelo catolicismo, de ser um profanador da família, um dinamitador da sociedade, um demônio darwiniano e um obsessivo sexual. Por quê? Porque ele considera que a sociedade burguesa freia o desejo sexual. Ao invés de apontar a anormalidade com o dedo, ele mostrará que todos os conflitos na origem do ser humano são, em seu início, sexuais e ligados ao desejo. Se as mulheres dessa época são histéricas, é porque elas têm frustrações, e não porque elas são anormais… Freud é um materialista que considera a sexualidade como um fenômeno simultaneamente psíquico e biológico. Ele não é um teorizador da liberdade sexual a qualquer preço, mas, um emancipador que luta contra a moral de sua época, demasiado patriarcal, com suas golilhas ligadas aos interditos religiosos. Até 1897, data na qual ele elabora sua primeira teoria sexual, ele vê muitas mulheres que dizem ter sofrido abusos. A neurose adulta, pensa ele primeiro, vem de traumatismos sexuais reais, e depois ele se apercebe que, se certas mulheres conheceram realmente um abuso, outras sinceramente o imaginaram; ele inventa, assim, a noção de fantasma. Ele demonstra depois que todos nós temos problemas sexuais na cabeça e não somente no corpo! Isto é muito mais subversivo! Também será muito desestabilizante para a civilização descobrir o que as crianças desejam verdadeiramente, quando elas elaboram “teorias” muito cruas sobre as relações sexuais e o nascimento. Assim, ele causará escândalo em 1905, afirmando que é perfeitamente normal para uma criança masturbar-se e que todas as crianças têm uma sexualidade pulsional. E isto se torna “anormal” quando se volta à mania fetichista.

A Igreja católica condena, até 1945, a obra de Freud, da mesma forma como a de Marx. Por quê?

Por que o comunismo e a psicanálise são os dois fermentos, para a Igreja, da liquidação da moral cristã: duas teorias materialistas elaboradas por Juízes hostis à religião. Da mesma forma, todas as ditaduras vão banir o freudismo como teoria da liberdade humana. A seguir, a Igreja católica romana mudará de doutrina, introduzindo a experiência psiquiátrica para o discernimento das vocações. A Igreja já não terá mais, então, vontade de acolher pervertidos sexuais e homossexuais recalcados em suas fileiras. Há, desde então, confiança nas teorias psiquiátricas, dominadas na época pelas de Freud, em favor desta introdução, e os jesuítas e dominicanos se apaixonarão pela exploração de si mesmos. E, no interior da experiência psiquiátrica para os noviços, eles introduzirão as curas psicanalíticas.

Sobre as questões sexuais, após ter sido por longo tempo inimiga dos dogmas religiosos, a psicanálise não tem a tendência, desde uns vinte anos, de se aproximar do conservadorismo da Igreja?
A transformação se operou em diversas etapas, junto a todas as tendências dos psicanalistas: kleinianos, lacanianos, os quais são os herdeiros de Freud. Com a criação da International Psychoanalytical Association (IPA) em 1910, este movimento de emancipação se transformou numa Igreja laica, com regras para a cura e uma nova moral ortodoxa… Após ter sido criticada pelas Igrejas por razões morais, a psicanálise foi violentamente atacada pelos cientistas, para os quais não existe psiquismo fora dos neurônios e do funcionamento cerebral. Quando a psiquiatria se torna comportamentalista, ela excluiu o inconsciente, a sexualidade, a transferência, o desejo, em favor de uma classificação dos comportamentos. A característica dos comportamentalistas é a detestação das religiões e, para eles, a psicanálise é uma religião e os psicanalistas são para eles padres mascarados. Eles aceitam certas formas de religiosidade que não são a religião, como, por exemplo, a meditação transcendental enquanto utensílio técnico.

Sentindo-se ameaçados, os psicanalistas teriam então se aproximado naturalmente da Igreja?

Sim e não. Não, pois em geral eles são ateus. Sim, porque o debate com os representantes das neurociências se tornou, infelizmente, inoperante à força de conformismo: falar unicamente de serotonina ou de circuitos cerebrais se torna muito aborrecido. Atualmente os psicanalistas correm o risco de ser destinados a servir de supletivos a tudo o que não se pode tratar pelos medicamentos. E isso não é nada interessante do ponto de vista da reflexão teórica. O problema é que a psicanálise é uma teoria filosófica e que não se fala a mesma linguagem que os cientistas, os quais, aliás, denunciam, eles próprios, os desvios científicos de suas disciplinas. A aproximação dos psicanalistas com os ideais da velha moral cristã, por causa da pobreza dos debates com as ciências, teve conseqüências dramáticas. Eles passaram ao largo dos grandes debates sobre as novas formas de sexualidade. Viu-se os psicanalistas se fecharem num conservadorismo muito tacanho, notadamente a propósito da homossexualidade, do Pacs e das novas formas de filiação: “Não se toca em nossa teoria do pai, é impossível que duas pessoas do mesmo sexo eduquem uma criança, necessita-se de um papai e de uma mamãe!”

Opostamente, os cognitivo-comportamentalistas são apolíticos, eles são favoráveis ao liberalismo absoluto em matéria de costumes, já que eles negam toda função simbólica. Sua filosofia espontânea é a de “desfrutar o melhor possível”, temperada pela avaliação: um pesadelo moderno que transforma os homens em “coisas.” Isso não é pensável com a psicanálise, a qual defende que o ser humano está submetido à Lei (no sentido jurídico e simbólico), a Lei enquanto ela garante a liberdade de cada um, sem, portanto, autorizar a barbárie do gozo pulsional ilimitado. Mas, numerosos psicanalistas confundiram esta concepção da Lei com a defesa de um velho soberanismo tacanho e fundado no culto do pai como equivalente do Estado-nação.

Fonte: IHU em 28/07/2009

(2) Segundo de uma série
(1) Reportagem de Jennifer Schwarz no “Le Monde des Religions” em 02-07-2009. Tradução de Benno Dischinger.
(3) A seguir no Saúde Publica(da) ou não publicações sobre o tema:
http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/03/27/reconhecendo-o-discriminador/

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)
(4) Direitos homossexuais ganham o mundo

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