“Mais Médicos” ou “Menos Médicos”?

O direito à saúde e os médicos: uma questão de interesses

Dados escancaram o fato de que grande parte da categoria médica brasileira não tem comprometimento com as demandas populacionais e que temem o avanço de uma saúde pública de qualidade

Por Bruna Silveira, médica de Família e Comunidade

O The New England Journal of Medicine, a mais antiga e uma das mais prestigiadas publicações científicas da área da saúde, divulgou o artigo de James Macinko e Matthew J. Harris sobre a Estratégia de Saúde da Família (ESF) brasileira.

Apesar de escancarar as principais falhas e contradições do sistema, o texto, publicado no último 4 de junho, pontua avanços do Sistema Único de Saúde (SUS), fala sobre o Programa Mais Médicos Para o Brasil, destaca o uso extensivo e eficaz dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e conclui: “o mundo pode aprender algumas lições da experiência brasileira”.

Os elogios ao SUS e ao Mais Médicos, além de um horizonte de esperança para uma saúde pública de qualidade, foram suficientes para desencadear uma furiosa reação de grande parte da categoria médica brasileira contra a revista científica inglesa nas redes sociais. Além de bradarem que o artigo é mentiroso, alguns médicos acusam os autores e o jornal de terem sido comprados pelo governo brasileiro.

Uma forte polarização e um clima de intolerância têm tomado conta do cenário político. Nem mesmo as ações mais bem sucedidas do governo merecem qualquer reconhecimento aos olhos de seus opositores. Isso se evidencia, com muita força, nas disputas políticas enfrentadas dentro da área da saúde nos últimos anos.

O SUS é fruto do movimento pela reforma sanitária e da luta pelos direitos de um povo até então negligenciado. Uma das principais perdas políticas à época de sua construção, no entanto, foi a aprovação do artigo 199 da Constituição Federal, referente ao SUS, que vigora até hoje: “a assistência à saúde é livre à iniciativa privada”.

É por isso que, apesar de haver dois setores bem distintos (público x privado), o SUS se denomina como um sistema “único” de saúde. Mas é desse ponto que se originam muitas das contradições desse sistema, e é exatamente de onde emerge todo esse incômodo da categoria médica.

Dados

O estudo “Demografia Médica do Brasil”, desenvolvido em parceria, pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), de fevereiro de 2013, aponta que o Brasil já conta com quase 400 mil médicos em atividade. Com esse número, o Brasil poderia atingir uma taxa de dois profissionais por 1 mil habitantes. No entanto, essa não é a realidade. Apesar de crescer de forma acelerada e constante, a população médica brasileira é mal distribuída pelo país e dentro das especialidades, com forte inserção no setor privado.

Seguem alguns dados importantes do estudo:

1. Há quatro vezes mais médicos no setor privado do que no setor público;

2. Dentre os 387.736 profissionais em atividade no país, 53,68% são especialistas e 46,32% não têm nenhum título de especialista;

3. Os especialistas em Atenção Primária à Saúde (APS) correspondem a apenas 1,21% de todos os especialistas. Em número absoluto são apenas 3.253 médicos com título em Medicina de Família e Comunidade, enquanto, por exemplo, a Anestesiologia conta com mais de 18 mil profissionais, a Radiologia com quase 8 mil, a Dermatologia com quase 6 mil e a Cirurgia Plástica com quase 5 mil.

4. Do total de médicos ativos no país, a região Sudeste tem 2,61 profissionais para cada 1 mil habitantes, enquanto o Norte do país tem menos de um (0,98) para cada 1 mil habitantes. Essa situação ainda é agravada pela concentração de profissionais nas capitais ou polos de grande porte. Enquanto a cidade de São Paulo tem 4,33 médicos por 1 mil habitantes, o estado de São Paulo tem 2,58.

O levantamento conclui que o Brasil é um país marcado pela desigualdade no que se refere ao acesso à assistência médica. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou outro estudo em julho de 2013 informando que medicina é a carreira que tem o melhor desempenho trabalhista no Brasil, sendo que, das carreiras analisadas, é a que tem mais escassez de mão de obra.

Assim, foi no intuito de reduzir essas desigualdades, que o Programa Mais Médicos foi criado. Todos os médicos que vieram pelo programa, formados em outros países, são especialistas em Atenção Primária à Saúde, ou seja, têm formação na especialidade correspondente em seu país em Medicina de Família e Comunidade. Esses médicos têm um contrato de intercâmbio de três anos, recebem formação semanalmente pela UNASUS e são supervisionados periodicamente.

Outros países

Segundo o artigo do New England Journal of Medicine, “a evidência sugere que as equipes de saúde da família e a Estratégia de Saúde da Família proporcionam um melhor acesso e com mais qualidade, e resultam em maior satisfação do usuário do que os postos e centros de saúde tradicionais ou até mesmo algumas unidades de cuidado de saúde do setor privado”.

Enquanto em outros países os profissionais de saúde têm um comprometimento ético e social com as demandas da população e a saúde é realmente um direito e uma questão de seguridade social, no Brasil, a saúde é tratada como mercadoria e a profissão médica é tratada como um bom negócio. No Canadá, por exemplo, o governo regula as vagas de residência (especialização) médica de acordo com as necessidades da população e, portanto, quase metade dos médicos são especialistas em Atenção Primária à Saúde.

No projeto inicial do Programa Mais Médicos, constava uma proposta de regulação das vagas de residência médica semelhante a do Canadá. Porém, essa proposta foi vetada por pressão da categoria médica e essa questão, que é de interesse social, continua reduzida às leis de mercado.

É certo que especialidades como dermatologia, cirurgia plástica, radiologia e anestesiologia são fundamentais e imprescindíveis à composição do sistema de saúde, não sendo possível afirmar que uma especialidade é mais importante que a outra. Mas é no mínimo curioso que a maioria dos profissionais se interessem mais por essas áreas de maior remuneração no setor privado, ao passo que há tão pouco interesse na área de Medicina de Família e Comunidade.

De qualquer modo, o Mais Médicos prevê a ampliação e a universalização da residência médica, e uma formação médica voltada às necessidades do povo brasileiro.

SUS

Os princípios norteadores do SUS são a universalidade, a equidade e a integralidade. Esses princípios garantem a toda população (inclusive a estrangeiros que estejam de passagem pelo país) o acesso universal e irrestrito ao sistema de saúde, bem como busca diminuir as desigualdades e disparidades e garante atendimento integral aos usuários (da promoção e prevenção à resolução das questões de saúde).

De fato, o SUS ainda tem muitas questões a melhorar, como o próprio artigo da revista científica inglesa aponta, principalmente no que se refere aos desafios financeiros e organizacionais. Embora a despesa total em saúde no Brasil seja semelhante à média de cerca de 9% do produto interno bruto (PIB) encontrada entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), menos da metade deste montante provém de fontes públicas – uma proporção que coloca o Brasil muito abaixo da média da OCDE na participação do governo dos gastos com saúde.

Ainda assim, o artigo aponta que o Brasil tem feito rápidos progressos rumo à cobertura universal da população. Os medicamentos mais comuns são universalmente acessíveis e gratuitos em muitos locais de atendimento para todas as cidadãs e todos os os cidadãos, mesmo aqueles 26% da população inscritos em planos de saúde privados. Das lições que o mundo pode aprender com a experiência brasileira, o artigo cita que os cuidados primários com base na comunidade podem funcionar se feitos corretamente.

Ao final, o artigo faz um importante alerta: “o futuro da estratégia de saúde da família do Brasil, sua expansão sustentada para os demais centros urbanos e para o acesso da categoria média, e sua integração efetiva na atenção secundária e terciária exigirá engajamento dos prestadores de cuidados de saúde e continuidade dos investimentos públicos financeiros, técnicos e intelectuais – todos os quais, em última instância, dependem de apoio político.”

Para que esse apoio político se concretize dentro da categoria médica, é fundamental que a medicina deixe de ser uma profissão tão elitizada e, para tal, é preciso, dentre outras ações, democratizar o acesso ao ensino médico e retomar a proposta de universalização e regulação das vagas de residência médica de acordo com as necessidades sociais. Além disso, são imprescindíveis os trabalhos de organização e mobilização dos usuários do SUS.

Fonte: Brasil de Fato

Nota: Leia artigos correlatos aqui no Saúde Publica(da) ou não em Atenção básica

A Psicanálise, as Discriminações e as Religiões

A defesa da “família tradicional” pelos evangélicos é uma perversão.

Por Fernando Dimer, psicólogo.

O cristianismo, desde tempos remotos, teve papel preponderante na história brasileira. O Brasil sempre foi (a partir dos colonizadores, que impuseram seu capital cultural ao país e aos povos subjugados) cristão. Ao longo da história, inclusive, a separação entre Estado e Igreja nunca foi cristalina, esse entrelaçamento, esse entrecruzamento foi uma constante.

A maioria cristã, na história moderna nacional, foi e continua sendo absoluta. Qualquer político com esperanças eleitorais, ainda hoje, tem calafrios ao sonhar que pode transparecer um certo ateísmo (para isso costumam ir, convenientemente, a igrejas em datas ainda mais convenientes). No entanto, a configuração, a distribuição dos cristãos vem paulatinamente mudando. O Censo de 2010 revelou que os católicos passaram de quase 83% da população em 1980 para 64,6%, enquanto os evangélicos cresceram de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010, o que representa, aproximadamente, 42,3 milhões de pessoas.

Diferentemente da católica, as igrejas evangélicas são um grupo multiforme e dividido em três grandes categorias: as protestantes históricas (Luterana, Presbiteriana, Anglicana, etc.), as pentecostais (Assembleia de Deus, Evangelho Quadrangular, Deus é Amor, etc.) e as neopentecostais (Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo, etc.) Basicamente, o pentecostalismo (e essencialmente o neopentecostalismo) distinguem-se do protestantismo histórico por pregar a crença na contemporaneidade dos dons do espírito, entre os quais se destacam o dom de línguas (glossolalia), cura e discernimento de espíritos e por defender a retomada de crenças e práticas do cristianismo primitivo, como a cura de enfermos, a expulsão de demônios, a concessão divina de bênçãos e a realização de milagres.

O neopentecostalismo é um fenômeno urbano crescente. Caracteriza-se, basicamente, por dar uma especial ênfase à teologia da prosperidade, originária dos Estados Unidos, a qual defende que o cristão deve ser próspero, feliz e vitorioso em sua vida terrena. Para tal, estabelece-se uma espécie de contrato com Deus, em que quanto mais se doa, para a igreja obviamente, mais se recebe. A prosperidade econômica é vista como sinal da graça divina. Além disso, outra grande característica dessas igrejas é o uso intensivo da mídia. Proliferaram-se programas em que aparecem testemunhos, milagres e mecanismos que permitem a expansão dessas igrejas.

Esse adiantamento de recompensas de um plano celestial para um plano terrestre somado à midiatização massiva explicam, de alguma maneira e em partes, o vertiginoso crescimento dessas igrejas. Não obstante, o avanço evangélico se dá em vários âmbitos, inclusive culturais. Há uma rede social cristã que cresce no número de adeptos: o Faceglória (que está sendo processado pelo Facebook por plágio e já passou por outra polêmica ao não permitir fotos de beijos homossexuais), bem como são detentores de ambições e aspirações de poder, políticas. A já famosa bancada evangélica tem agenda consolidada, um número crescente de parlamentares, uma atuação estrondosa, barulhenta e, agora, o Presidente da Câmara, que já garantiu isenção fiscal a igrejas com a anulação de autuações fiscais que passam dos 300 milhões de reais.

A ofensiva política e a intenção de legislar a partir da bíblia (e um código penal de 3.000 anos atrás!), impondo crenças religiosas e normatizando (ainda mais!) corpos, comportamentos e sexualidades é perigosíssima, mas não é o ponto em que me deterei. O assunto em questão, não menos chamativo, é o tratamento dispensado ao Outro, essa fábrica simbólica de contrastes, de diferenças e de mal-estar, para usar uma expressão freudiana.

A vida do homossexual, na sociedade brasileira, não é nada fácil, embora tenha melhorado um pouco. Estereotipado, é alvo de humor estigmatizante, discursos de ódio, discriminações, agressões e até assassinatos. Mas o que tanto incomoda nos homossexuais, o que tanto ódio desperta? Não creio que seja sua vida íntima, privada, trata-se do desconforto por romper com a heteronormatividade, do simbólico de andar de mãos dadas em locais públicos, de mostrar-se diferente em nossa sociedade de controle, da possibilidade de existência e visibilidade desse diferente residir em um universo padronizado.

Pois bem, é, no mínimo, curiosa e digna de nota a cruzada promovida por um número não irrelevante de evangélicos, mais precisamente neopentecostais (não todos, em absoluto. Afirmar tal coisa seria uma sandice) e de alguns pastores midiáticos bastante conhecidos. Com as estratégias já mencionadas para angariar fiéis, um crescimento constante e um poder econômico e midiático consolidados, o que justificaria a frequência e a virulência de tais discursos?

À primeira vista, a justificativa oficial é a defesa da “família tradicional”, um argumento tão vazio e carente de sentido quanto a ofensiva. Defesa de quê ou de quem? Quando a “família tradicional” esteve ameaçada? Aliás, de que família ou modelo de família se trata? O que é, em definitiva, essa “família tradicional”? Pois bem, essa narrativa vai ao encontro de uma outra narrativa conservadora repetida ad infinitum sempre que surge um problema social, sobretudo quando envolve adolescentes: aquela que responsabiliza a dissolução da família pelo quadro de degradação social em que vivemos, com a consequente decadência e/ou falência de instituições. A falta de famílias “estruturadas” seria a responsável pela delinquência juvenil, pela violência, pelas drogadições; não a desigualdade, não a degradação e paulatina privatização dos espaços públicos, senão esse núcleo de transmissão de poder que arcaria sozinho com a construção do edifício da moralidade e da ordem nacionais.

A psicanalista Maria Rita Kehl mostra em “Em Defesa da Família Tentacular” que esse modelo de família “tradicional” correspondeu às necessidades da sociedade burguesa emergente no século XIX e durou até metade do século XX (sim, apenas isso) e estava muito distante de ser perfeita. A fábrica de neuroses que permitiu a Freud criar a psicanálise, a origem do autoritarismo para Reich, era estruturada hierarquicamente, organizada em torno do poder patriarcal, na qual estavam justapostas a proteção e a opressão por parte do chefe de família, que controlava a sexualidade das mulheres e o destino dos varões. A esposa era submissa e dedicada inteiramente à família, sem vida pública; a vida conjugal dos filhos administrada como um pequeno negócio; as mulheres destinadas à submissão e dependência econômica, tudo cercado por aquela atmosfera de hipocrisia vitoriana da qual tão bem falou Machado de Assis.

As necessidades do próprio mercado emanciparam a mulher, bem como suas lutas, obviamente. Ela começou a se empoderar, a trabalhar, reduzindo, assim, sua dependência econômica (ainda hoje aqueles que têm por projeto o arcaísmo culpam a mulher por essa dissolução da família, por ter a petulância de querer existir fora das fronteiras familiares), o poder passou a ser mais horizontal e as configurações familiares mudaram drasticamente: hoje, as famílias, segundo a autora, são tentaculares: co-parentais, recompostas, agregando e legitimando uma pluralidade maior de experiências, como filhos de casamentos diferentes, de pais homossexuais, pais e mães solteiros, entre muitas outras. Mais arejada e menos rígida, diminuiu a dominação masculina e sepultou um padrão nuclear de família, normativo e que vinha em processo de erosão.

Assim sendo, essa defesa de uma instituição, que já não tem seu funcionamento normatizado, de um inimigo invisível e amorfo se aproxima dos moinhos de Dom Quixote e está longe de se sustentar minimamente. Também se pode analisar o fenômeno a partir de um viés psicanalítico, com todas as ressalvas que essa sistematização selvagem do social acarreta. Assim como Freud escreveu que a religião é a neurose coletiva originada do desamparo, pode-se dizer que esses ataques seriam mecanismos de defesa.

A formação reativa é uma forma de defesa contra impulsos inaceitáveis para o ego. O sofrimento psíquico gerado por esse impulso causaria uma repressão que resultaria na antítese, no oposto daquele impulso, de maneira definitiva na formação da personalidade do sujeito. É uma defesa frágil, pois o impulso está à espreita no inconsciente, ameaçador. Então, um sujeito com impulsos e desejos homossexuais se tornaria um homofóbico empedernido.

É uma maneira de enxergar as coisas, em termos psíquicos e individuais. Também se poderia relacionar, por exemplo, o sucesso de programas como Big Brother ou A Fazenda a uma perversão que seria um tanto quanto estendida como o voyeurismo.

Deixando a um lado a hipótese psicanalítica, os ataques homofóbicos também podem ser vistos desde uma perspectiva foucaultiana, e aqui creio haver mais sentido, como estratégias de sobrevivência, estratégias de poder, de biopoder, do poder que se exerce sobre a vida. Foucault propõe uma maneira diferente de se analisar o discurso histórico, surgida em fins do século XVI e começo do XVII, como uma contra-história ou história anti-romana: não mais centrado na soberania, na continuidade do poder através da continuidade da lei, enaltecendo feitos e conquistas para reforçar esse poder, mas na investigação sobre a guerra como princípio de análise das relações de poder.

A partir dessa análise, ele estabelece que o racismo vem para justificar o direito de morte que os Estados reivindicam, a partir de relações saber-poder que introduzem fissuras no continuum biológico que o biopoder estabelece. Também produz uma relação bélica, do tipo “quanto mais se matar, mais se viverá”, a mesma relação guerreira do tipo “para viver, deves massacrar o inimigo” que tantos povos antigos utilizaram. Permite, da mesma forma, uma relação de tipo biológico, na qual quanto mais anormais, quanto mais seres inferiores morrerem, mais pura será a raça.

Pois bem, qual a relação entre essa análise histórica, essa análise do racismo com o tema inicial, os ataques fundamentalistas contra a população LGBT? Tudo e nada. Para Foucault, era fundamental se pensar a atualidade, e estou de acordo com isso, de nada adianta teorizar sobre o passado e não se falar no presente. Assim, tem-se um movimento neopentecostal crescente e em expansão ao mesmo tempo em que os discursos homofóbicos se intensificam.

O sujeito homossexual é aqui, então, esse Outro portador de diferenças, que escapa à norma, desviante, anormal, a antítese da vida (aqui entra o simbólico de não gerar vida), esse que resiste e luta por seus direitos, esse que desafia a tradição, esse ser impuro e degenerado. A partir dessa lógica bélica e aqui, num campo simbólico e discursivo (embora os desdobramentos desses planos ocasionem tantas tragédias e violências), temos que: quanto mais seres anormais, impuros morrerem ou forem condenados à invisibilidade, quanto mais destes anômalos deixarem de existir, mais nós viveremos, mais puros seremos, mais pura será a sociedade. Dessa forma, garante-se a sobrevivência e a expansão.

Estou afirmando com isto que todos os pastores evangélicos, todas as instituições evangélicas funcionam dessa maneira? Nada mais distante da realidade. Há excelentes pessoas em todos os âmbitos, e nas igrejas não é diferente. Recentemente, o pastor José Barbosa Júnior, junto com um padre, lavaram os pés da transexual que apareceu crucificada na parada gay em forma de protesto. É líder do movimento Jesus Cura a Homofobia e transmite essa mensagem de tolerância. No entanto, esse movimento pacífico tem muito menos visibilidade e adesão (cerca de 12.000 fãs no Facebook) do que alguns pastores falastrões que movem multidões e possuem milhões de fãs.

É um problema grave que pode trazer consequências ainda piores. Não creio ter uma solução tirada da cartola, uma receita de bolo, uma sentença simplista adequada a todos os contextos. Contudo, creio que a problematização, o nomear, o trazer a público são, per se, formas de resistência e permitem trazer um pouco de frescura, um pouco de lucidez a um ambiente tão convulsionado nos últimos tempos. Logicamente, atuando dentro do plano do possível, sem incorrer em utopias impossíveis ou niilismos estéreis. Como disse Deleuze, “um pouco de possível, senão eu sufoco”.

Fonte: DCM
A seguir outras publicações sobre o mesmo tema, aqui no Saúde Publica(da) ou não:
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (7)
Encerrando o debate com Flávio Aguiar incluindo editorial do Charlie Hebdo sobre laicidade.

As Discriminações poderão ser enfrentadas pela política

Introdução (1)
Temos dito aqui no blog que uma das maneiras de enfrentar as Discriminações é tirar o Discriminador da invisibilidade, identificá-lo e defini-lo.(2)
Aqui no Brasil nos referimos, prioritariamente, às Discriminações que são consideradas, de direito e de fato, crime: machismo, racismo e homofobia.
Além disso, como também já fizemos, conceituar a Conduta Discriminatória (3) é também uma ação que auxilia este enfrentamento.
Sabe-se, por pesquisas, que países mais religiosos e com menos liberdades laicas apresentam piores indicadores de Discriminações.
Em nosso país sempre houve uma forte oposição ao pleno exercício do Estado Laico(4).
Nesta legislatura a situação piorou em função de haver um Congresso que radicalizou a questão.
Legitimamente eleitos e certamente com votos de pessoas pertencentes aos Grupos Discriminados referidos acima.
Diante desse quadro seria necessário, também, um posicionamento político partidário para modificar esta situação contraditória.
E foi nesse (mau) momento que surge a feliz idéia da criação de um movimento/partido feminista (5) que pretende focar sua atuação, genericamente, nos Direitos Humanos. Mas não só.

A seguir a entrevista concedida pela filósofa Marcia Tiburi (6) na qual ela apresenta o novo Partido.
Fonte: Blog Marcia Tiburi

A #partidA: uma aventura feminista na política nada tradicional

Entrevista que dei para a Isabela Fraga do Vozerio sobre noss@ #partidA!

Qual o lugar da #partidA como um partido em meio à crise da representação partidária?

Eu entendo que existem muitos afetos em jogo na política hoje em dia. E a política nem sempre foi construída na base de afetos, embora ela apareça para as pessoas como se uma construção puramente lógica, racional e estratégica. É claro que o caráter lógico e estratégico permeia os processos, mas a #partidA surge propondo outro afeto político, na contramão do afeto que sustenta, por exemplo, a estrutura autoritária na qual a gente vive e que faz parte da própria história do Brasil, que tem uma história bastante autoritária, escravocrata e cheia de ditaduras. O afeto que permeia o autoritarismo brasileiro é o ódio, que em certas épocas cresce e aparece com muita força. É o rechaço do outro, a negação do outro, a incapacidade de incluir o outro. Esse ódio sempre esteve latente, e eu acredito até que ele seja de fato estrutural da ordem política conhecida no Brasil e no mundo. Por isso, quando a #partidA surge, é movida por esse afeto “revolucionário” — entre aspas, porque não pretendemos destruir nem colocar uma outra estrutura em cena — digamos assim, trocar um poder por outro. O que eu vejo é que a gente transforma a ideia de partido numa outra coisa, a gente ressignifica a ideia de partido. E colocamos no lugar do termo poder — na história do patriarcado, da dominação masculina — a potência. Certo, vivemos numa crise de representação, mas, para as mulheres, essa crise sempre existiu. As mulheres nunca foram representadas na política. E, junto com as mulheres, todos os grupos oprimidos, toda uma população que deveria ser cidadã e que foi alienada dos seus direitos de cidadania. Chamar de feminismo já quer dizer que não somos tradicionais.
Justificativas de teor moral são muito mencionadas por quem prefere se manter fora da política tradicional, que seria “suja” e corrupta — como você mesma diz algumas vezes.

Quais os problemas dessa visão? A #partidA (ou, melhor, as mulheres até agora envolvidas) não vê problemas em sujar as mãos ou não há sujeira de fato?
Criou-se no Brasil uma cultura antipolítica. Associamos a política à corrupção, à sujeira, ao mal. Essa ideia de política serve a quem está no poder.

Criou-se no Brasil uma cultura antipolítica cujo discurso há muito tempo é: o poder corrompe, o poder é ruim, a política é um campo minado e um lugar terrível para se estar. Associamos a política à corrupção, à sujeira, ao mal. Essa ideia de política serve a quem?

Serve a quem está no poder. E, no caso, o nome concreto do poder que está em jogo hoje e no qual a #partidA quer intervir é o poder enquanto governo. Por isso nós precisamos da forma “partido”. Só que, por ser um partido feminista, ele já não é um partido como os outros — porque um partido feminista não é como os outros. Os valores, as práticas, os direitos desejados pelas mulheres são bastante diferentes dos valores, das práticas e dos modos de existir dos partidos tradicionais. Existem muitas pessoas ligadas à #partidA que convivem com instituições — seja algum partido de fato, universidades, poder judiciário ou a mídia. E essas pessoas não têm medo de viver em instituições. O partido é apenas mais uma instituição que deve nos servir como meio, e não como fim. Nisso, encontramos uma coisa muito bonita da #partidA: a ético-política feminista, um conceito que eu defendo teoricamente. E isso muda tudo, porque assim como as pessoas têm preconceito em relação a partidos, a esse “sujar as mãos”, pensam que a forma partido é a forma que fomenta essa corrupção toda. Não precisa ser assim, e é por isso que nós almejamos uma bancada feminista. E almejamos a forma partido, mesmo que nós não venhamos a formalizar formalizar a #partidA — porque é possível que a nossa #partidA se mantenha como movimento, como já é. Pode ser que nós não formalizemos um partido porque talves nós não precisemos da forma partido burocratizada e inscrita no TRE. Mas o que queremos é funcionar como um partido, pois o nosso movimento quer atingir a governalidade. Assim, propomos radicalmente uma democracia feminista, porque não acreditamos na existência de uma democracia que não contemple uma pauta, um projeto feminista. Gosto de citar a Mary Wollstonecraft, que no século XVIII brigava com Rousseau. Ela falava que o feminismo é uma luta pelos direitos da humanidade. Se a humanidade é de homens e as mulheres participam dela, então está errado. Queremos um feminismo que inclua todas as pessoas e singularidades. É por isso que a gente expande, aumenta, recria o feminismo — uma busca por singularidades, por uma democracia que, como escrevi esses dias, é uma democracia hard, não é a democracia de fachada.

Mas se a #partidA não se transformar num partido formalizado, como intervir no governo?

Uma das ideias que transitam hoje em certos grupos, sobretudo aqui em São Paulo (vamos ver como isso vai se constituir nas outras cidades), é que a gente apoie candidatos de outros partidos. A proposta da #partidA é empoderar mulheres e todos aqueles sujeitos que se reconhecem como mulheres e que desejam fazer política feminista. E também quem que não se diz mulher, mas que é feminista. Acreditamos também no feminismo dos homens — ele é mais complicado e precisa ser mais elaborado, inscrito dentro de um contexto. Hoje, vivemos num contexto de cotas para mulheres. Na nossa #partidA, teremos cotas para homens (risos). Brincando, mas também falando sério: é importante que os sujeitos dos privilégios na nossa cultura atual tenham a experiência das cotas. É provável que a gente não seja um partido formalizado para as próximas eleições. Mas a ideia é que a gente crie uma campanha — na minha cabeça, vamos ter todas as prefeitas do Brasil, as vereadoras etc. A gente quer a eleição, é nesse patamar de luta que a gente vai se inserir.
Para superar a questão da uniformidade necessária ao conceito de partido, Carla Rodrigues, no blog do IMS, propõe que o referencial da partidA seja vazio.

Como você entende essa proposta? Como levar isso para a construção do partido neste momento de sua formação?
Eu entendi que o referencial vazio é um espaço de criação da política. Acho que esse referencial vazio tem a ver com a potência de construção de uma nova história, de um novo — seja histórico, filosófico, do pensamento, político. Estamos construindo uma nova política real, concreta, hard. Então, ao mesmo tempo que a #partidA é um nome de acolhida, ela é um “lançar”, o #partiu. Partir rumo a uma aventura, no sentido de uma viagem, de explorar novas terras, o espaço desconhecido. Esse campo da política, tratado hoje em dia como uma selva cheia de monstros, é o espaço que a gente precisa atingir de maneira lendária. Entendo a #partidA como naqueles filmes de aventura, nos quais as pessoas vão para um lugar desconhecido. #partidA já virou o referencial, porque grafamos a hashtag que faz referência ao #partiu, e o A representa uma inversão, uma brincadeira. A gente leva tudo muito a sério, mas é num clima de criação.


Na Suécia, a Feminist Intitiative foi o primeiro partido feminista europeu a conseguir um assento no parlamento. Em maio deste ano, a Inglaterra oficializou seu primeiro partido feminista. Também há partidos feministas na Índia e nas Filipinas. Como a partidA se insere nesse cenário global? Quais as influências e inspirações?

Não teve essa influência direta. Eu sou muito brasileira e muito ligada no que acontece no Brasil. É claro que está todo mundo sentindo uma emoção radical desde 2013, desde os acontecimentos no Egito e na Grécia, tudo isso pegou muito a gente. Mas não há uma influência mais direta e estratégica. A #partidA é bem brasileiro, algo que vai ser construído do nosso jeito.


Num congresso brasileiro de conservadorismo inédito como o de hoje (assim como a população que o elegeu, em sua maior parte contrária à regulação do aborto), no qual pautas retrógradas têm ganhado cada vez mais espaço, como um partido feminista pode ganhar força?

Isso vai acontecer primeiramente em um nível de movimento — as coisas não são de um dia para o outro. E o Brasil precisa de uma bancada feminista forte, é por isso que vamos lutar. A bancada que temos hoje não é possível, não é justa, não é decente. Não é possível aceitar a política como ela está colocada ali. Essa bancada “BBB” [bancada do Boi, da Bíblia e da Bala] não faz sentido no nosso país. Esperamos que a nossa ético-político feminista seja tão forte e acolha de tal maneira os anseios e as potências brasileiras que a gente possa mudar justamente esse cenário. Os atores desse cenário precisam ser outros.

Muitos mencionam as disputas internas do feminismo como um problema na formação de uma organização “única”. A jornalista Yvonne Roberts disse no The Observer que “Uma aliança política de mulheres seria instável e eventualmente implodiria”. Alguns partidos feministas pelo mundo de fato tiveram vidas curtas (como a Austrália, Belarússia e Islândia). Como fazer durar a #partidA no jogo da política tradicional?
Existe uma afetividade que move todos os feminismos, mas não existe um feminismo como pensamento único. O feminismo é a construção dessa diferença.Isso precisa ser entendido dentro da história, da circunstância política de cada país. No caso do Brasil, também vamos precisar pensar.

Qual a característica do poder patriarcal, do poder enquanto dominação masculina?

A permanência no poder. O poder quer mais poder. O nosso poder é potência, é poder para fazer, para transformar — que vai servir à transformação da sociedade. Nesse sentido, se o partido realizar seu projeto e depois deixar de existir, eu não vejo mal algum. Ao mesmo tempo, enquanto as condições históricas que o obrigaram a existir não se transformarem, nós vamos querer continuar existindo. Nosso sonho é uma sociedade em que não exista mais autoritarismo, onde os direitos de todas as pessoas estejam realizados e que a gente não precise mais viver em luta. É claro que isso é uma utopia. Assim, em termos muito práticos, vamos precisar reproduzir nossa metodologia de atuação celular nesta construção da #partidA. Não podemos atuar como partidos atuam, de cima para baixo. Precisamos construir de maneira participativa e criativa as nossas demandas e decisões. Conversar com as pessoas, reconhecer as demandas singulares e coletivas num clima de sinceridade e respeito. Acreditamos de verdade que vamos crescer e avançar com uma operação política diferente, porque é dialógica. Existe uma afetividade que move todos os feminismos, mas não existe um feminismo como pensamento único — ele sempre foi diverso e complexo. Então não existe um feminismo que tenha mais razão do que o outro. Para mim, o feminismo é essa construção dessa diferença. O pensamento único tende ao autoritarismo, e o feminismo nunca poderia ser um autoritarismo.

E vocês pensam em se identificar com uma esquerda ou com uma direita ou isso não é importante?

Isso é muito importante, tanto quanto é desimportante. Os feminismos e a democracia feminista é uma superação da dicotomia direita-esquerda. Nós somos a superação disso.

Como?

A direita não reconhece a existência do feminismo. A esquerda também é conservadora perto do feminismo. Por isso eu costumo dizer que o feminismo é ainda mais à esquerda, mas na verdade ele é uma superação dessa dicotomia. Os partidos ainda acreditam que as mulheres possam estar ali na forma de cotas, que elas possam fazer o feminismo da mesma forma subalterna, secundária e inessencial em relação ao que significa a proposta socialista, por exemplo, no caso da esquerda. Então a gente não tem nenhum partido de esquerda que seja feminista. Pois nós teremos uma #partidA feminista de maneira essencial, prioritária e fundamental. E as questões concernentes aos direitos humanos, à solidariedade, à defesa das pautas do campo da esquerda, tudo isso entra no nosso feminismo. Mas numa inversão do jogo, o que é fundamental. Eu sou filiada ao PSOL, adoro as pessoas e as propostas, mas não é suficiente para aquilo que eu penso em termos de política. Em se propor feminista, a #partidA propõe um lugar de protagonismo das mulheres, próprio do feminismo em sua história.

Como têm sido os encontros da #partidA até agora?
Na verdade, ainda estamos no começo das nossas reuniões. Só tivemos três até agora, e o número de pessoas que aparecem nos encontros têm aumentado. As pessoas têm chegado na partidA com muita curiosidade, alegria e muito comprometimento. O desejo de fazer é muito emocionante. Uma coisa muito bonita que tem acontecido é o diálogo entre as gerações: feministas históricas e meninas mais novas que estão começando, é lindo.
Hoje (quinta-feira), vai acontecer um encontro no Rio de Janeiro.

Quais os próximos passos da #partidA?
Temos uma reunião marcada dia 25 em Porto Alegre, e dia 27 em Goiânia. Mas têm sido pensadas reuniões em Curitiba — que vai acontecer no final de julho —, Belo Horizonte, Palmas, Salvador e Brasília. A #partidA tem um desejo de espontaneidade, então a gente espera as pessoas — e as pessoas vêm. A gente espera as feministas e as feministas estão chegando! (risos) Isso é lindo, porque é uma nova onda, é uma outra história que estamos construindo. As meninas mais novas, sobretudo, dizem: “eu sinto que estou fazendo história!” E o legal é que tudo isso nasceu de uma ideia muito louca, a de criar um partido feminista. O feminismo é muito anárquico, um anarquismo que deu certo. Então a ideia de um partido provoca: as feministas se sentiram convocadas porque foram provocadas a pensar uma coisa meio contraditória — o oxímoro do partido feminista. A #partidA é meio absurda, uma torção do poder tradicional.

(1) Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

(2) Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.
A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.
(3) Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
(4) Debatendo o Estado Laico com Milton Ribeiro
Freud, tabu, laicidade e Charlie Hebdo
Debatendo Charlie Hebdo, tabu e laicidade com Flávio Aguiar
Continuando o debate com Flavio Aguiar sobre Charlie Hebdo, tabu e laicidade.
Encerrando o debate com Flávio Aguiar incluindo editorial do Charlie Hebdo sobre laicidade.
(5) Mulher é vítima e cúmplice na violência conjugal. Mas não culpada.
(6) Narcisismo, perversão e discriminação na política brasileira. Fonte: Blog Marcia Tiburi

Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (7)

Sexualidade, homossexualidade e a bíblia cristã

Por André Bessa, psicólogo especialista em Psicologia Comportamental pela Universidade de São Paulo – USP

Devido ao grande acesso de extremistas cristão dentro do sistema político brasileiro que se apoderam desse ambiente, usando-o como uma espécie de continuação dos cultos praticados dentro de suas igrejas. Vale ressaltar que estes indivíduos dentro dos seus interesses mais escusos, usam da má fé, homofobia ou por total desconhecimento do que a bíblia diz sobre sexualidade e homossexualidade, para justificar a exclusão ou ditar regras sobre esses comportamentos dentro da sociedade democrática e laica.

Por exemplo, muitos cristãos seguidores desses extremistas não sabem que: Jesus nunca disse nada sobre comportamentos sexuais entre o mesmo sexo. Os profetas judaicos têm uma postura silenciosa em relação à homossexualidade. Só seis ou sete versículos de entre cerca de um milhão de versículos bíblicos se referem ao comportamento sexual entre o mesmo sexo e nenhum deles se refere à relações homoafetivas como é entendida nos dias da hoje.

A maioria das pessoas que “têm a certeza” acerca do que a Bíblia diz sobre a homossexualidade, nem sabe onde podem ser encontrados os versículos que mencionam comportamentos sexuais entre o mesmo sexo. Essas pessoas não os leram e muito menos os estudaram. Elas não têm absolutamente noção alguma sobre o significado das palavras no original hebraico e grego, para além de nunca terem tentado compreender o contexto histórico no qual foram escritos.

No entanto, o pressuposto de que a Bíblia condena a homossexualidade é passado de geração em geração, com muito pouco estudo pessoal ou pesquisa cientifica. As consequências desta desinformação são desastrosas, não só para os homossexuais, mas também para todo o cristianismo.

A lógica na minha opinião deveria ser a seguinte:

1- A Bíblia é um livro sobre Deus para com a humanidade, e nunca deve ser usada como um livro sobre à sexualidade humana.

2 – Quando a Bíblia se atreve a falar em sexualidade, veja alguns exemplos bizarros e desastrosos:

DEUTERONÓMIO 22, 13-21
Se é descoberta a noiva que não é virgem, a Bíblia exige que ela seja executada por apedrejamento imediatamente.

MARCOS 12, 18-27
Se um homem morresse sem deixar filhos, a sua viúva era ordenada por lei bíblica a ter relações sexuais, com cada um dos irmãos do seu defunto marido, até que ela desse à luz um herdeiro do sexo masculino para que a genealogia do seu marido continuasse.

DEUTERONÓMIO 25, 11-12
Se um homem brigasse com outro homem e a sua esposa procurasse ajudar o marido agarrando os órgãos genitais do inimigo, a mão dela deveria ser cortada e nenhuma compaixão lhe deveria ser demonstrada.

LEVÍTICO 20:13
“Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte.

Finalizando: você pode usar a bíblia para exercer a sua fé, fazer orações pode até andar com ela no bolso como um manual de comportamento. Só reveja as páginas que tratam sobre a sexualidade e homossexualidade humana que são desastrosas e criminosas para os dias atuais.

Fonte: Pragmatismo Político.

(7) Sétimo de uma série.

(8) A seguir, no Saúde Publica(da) ou não, outras publicações sobre o tema:
Reconhecendo o discriminador
http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/05/11/conduta-discriminatoria-tentativa-de-conceituacao-motiva-correspondencia-entre-psiquiatras-2/
Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?
http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/10/10/a-eleicao-os-eleitores-os-politicos-os-debates-e-as-discriminacoes-3/
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (1)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (2)
http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/06/08/homossexualidade-religiao-psiquiatria-uma-evolucao-3/
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (4)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (5)
Homossexualidade, religião, psiquiatria: uma evolução. (6)
(9) Direitos homossexuais ganham o mundo