Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)* (4)

Resumo
Esta publicação * objetiva introduzir o leitor na forma como Freud construiu – metapsicologicamente – seu entendimento ateísta sobre os conflitos existenciais do homem. Utiliza, para tanto, um resumo de quatro de seus trabalhos.

Introdução
Disse Freud (1930) na tradução hebraica de “Totem e Tabu”:
“Nenhum leitor (da versão hebraica) deste livro achará fácil colocar-se na posição emocional de um autor que é ignorante da linguagem da sagrada escritura, completamente alheio à religião de seus pais – bem como de qualquer outra religião – e não pode partilhar de ideais nacionalistas, mas que, no entanto, nunca repudiou seu povo, que sente ser, em sua natureza essencial, um judeu e não tem desejo de alterar essa natureza. Se lhe fosse formulada a pergunta: ‘Desde que abandonou todas essas características comuns a seus compatriotas, o que resta em você do judeu?’, responderia: ‘Uma parte muito grande e, provavelmente, a própria essência’. Não poderia hoje expressar claramente essa essência em palavras, mas algum dia, sem dúvida, ela se tornará acessível ao espírito cientifico”.
“Assim, constitui experiência de um tipo muito especial para esse autor um livro seu ser traduzido para a língua hebraica e colocado nas mãos de leitores para quem esse idioma histórico é uma língua viva; um livro, alem disso, que trata da origem da religião e da moralidade, embora não adote um ponto de vista judaico e não faça exceções em favor do povo judeu. O autor espera, contudo, estar de acordo com seus leitores na convicção de que a ciência sem preconceitos não pode permanecer estranha ao espírito do novo judaísmo”.
Isaac Bashevis Singer em 1958 (Premio Nobel de Literatura em 1978) por sua vez arremata no seu romance “O Solar”, através de um personagem: “Posso negar a existência de Deus, mas não posso deixar de ser judeu, por mais contraditórias e estranhas que sejam essas palavras”.

Atos obsessivos e práticas religiosas (1907)

Freud, aos 51 anos, faz a primeira incursão na psicologia da religião, e essa se constituiu num passo decisivo em direção a uma abordagem mais extensiva, cinco anos depois, em Totem e Tabu. O que lhe chamou a atenção foi a semelhança entre os atos obsessivos e as práticas pelas quais os fiéis expressavam sua devoção.

Em primeiro lugar:
As pessoas que praticam atos obsessivos ou cerimoniais pertencem à mesma classe das que sofrem de ou com pensamento obsessivo, idéias obsessivas e impulsos obsessivos. Os cerimoniais neuróticos consistem em fazer pequenos ajustamentos a determinados atos cotidianos, pequenos acréscimos, restrições ou arranjos que devem ser executados da mesma maneira ou com uma variação regular. Qualquer atividade pode se tornar um ato obsessivo se for complicada por pequenos acréscimos ou se tiver um caráter rítmico.

Em Segundo lugar:
Nos atos obsessivos tudo tem significado e pode ser interpretado. Num sentido estrito, o mesmo é verdadeiro para os cerimoniais. O cerimonial começa como um ato de defesa ou de segurança, como uma medida protetora. O sentimento de culpa dos neuróticos corresponde à convicção dos indivíduos religiosos de que, no íntimo se sentem pobres pecadores. As práticas religiosas com que tais indivíduos precedem suas ações diárias parecem ter o valor de uma medida defensiva ou protetora.

A neurose obsessiva é considerada como a contrapartida patológica da formação de uma religião. A neurose é descrita como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal.
Por fim as semelhanças e as diferenças entre cerimoniais neuróticos e atos sagrados do ritual religioso:
As semelhanças:
Os escrúpulos de consciência que a negligência dos mesmos acarreta;
A completa exclusão de todos os outros atos (revelada na proibição de interrupções) e na extrema consciência com que são executados em todas as minúcias;
As diferenças:
A grande diversidade individual dos atos cerimoniais (neuróticos) em oposição ao caráter estereotipado dos rituais religiosos, p.ex: as orações, o se curvar para o leste;
O caráter privado dos atos cerimoniais em oposição ao caráter público e comunitário das práticas religiosas;
Acima de tudo o fato de que, enquanto todas as minúcias do cerimonial religioso são significativas e possuem um sentido simbólico, as dos neuróticos parecem tolas e absurdas.

Totem e Tabu – (1913)

Aos 57 anos Freud escreve esta que é uma de suas maiores obras. Nela parte da hipótese de que certamente houve uma época sem religião e sem deuses. Nesta época chamada de Animista, quando os homens desejavam algo da Natureza, utilizavam-se de uma técnica – a magia – que influenciava diretamente a Natureza: p. ex., em caso de seca, eles mesmos faziam algo que se assemelhasse à chuva.
A partir daí surge uma questão: o que teria causado a transição do animismo para a religião? Resposta: uma revolução na organização familiar.
Num tempo primitivo, os homens viviam em pequenas hordas, cada qual sob o poder de um macho que se apropriava de todas as fêmeas. Um dia, os filhos desta pequena horda primitiva rebelaram-se contra o pai, mataram-no e comeram o seu cadáver. Em seguida criaram uma nova ordem social: proibição do incesto e proibição de matar o pai-totem.
Surgiu, a partir dai, uma nova organização social, as restrições morais e a religião.
Vejamos a descrição de alguns termos básicos para o entendimento da origem das religiões:
Totem: geralmente o totem é um animal, mais raramente uma planta ou um fenômeno natural que o selvagem encara com um respeito supersticioso, acreditando existir entre ele e todos os membros do clã uma relação íntima e especial. Em quase todos lugares onde existem Totens há também uma lei contra relações sexuais entre pessoas do mesmo Totem e, conseqüentemente, contra o seu casamento. A violação desta lei é castigada energicamente.
A exogamia vinculada ao Totem tem um efeito maior que o de impedir o incesto de um homem com sua mãe e irmãs. Ela torna impossíveis as relações sexuais de um homem com todas as mulheres de seu próprio clã, considerando-as parentes consangüíneas. A exogamia totêmica parece ter sido o meio para impedir o incesto grupal.
Tabu: traz em si o sentido de algo intocável e é expresso principalmente por proibições e restrições. Pode ser uma pessoa, um lugar, uma coisa ou uma condição transitória. As restrições do tabu são diferentes das proibições morais ou religiosas. Seria o mais antigo código de leis não escritas do homem. A sua origem está na base do mais primitivo e ao mesmo tempo mais duradouro dos instintos humanos: o medo dos poderes demoníacos.
A característica original do tabu (a de que um poder demoníaco jaz oculto num objeto que se for tocado se vinga lançando uma maldição sobre o transgressor) era o “medo objetivado” e que posteriormente se transforma em veneração e horror.
No início não havia distinção entre o sagrado e o impuro. O tabu se aplica tanto ao sagrado quanto ao que é impuro através do contato com ele.
Feitiçaria é essencialmente a arte de influenciar os espíritos tratando-os do mesmo modo que se tratariam os homens, em circunstâncias semelhantes: apaziguando-os, fazendo-lhes correções, tornando-os propícios, intimidando-os, roubando-lhes seu poder, subjugando-os à própria vontade, etc…
Magia: fundamentalmente desconsidera os espíritos e faz uso de procedimentos especiais e não dos métodos psicológicos do dia a dia. Tem que servir aos mais diversos propósitos: deve submeter os fenômenos naturais à vontade do homem, proteger o indivíduo de seus inimigos e perigos, bem com dar-lhes poderes para prejudicar o inimigo.
Um dos métodos mágicos mais difundidos para prejudicar um inimigo é fazer uma efígie com qualquer material adequado. A crença é que o que for feito à efígie acontecerá também ao odiado original. A magia é a técnica do animismo.
Espíritos e demônios: são apenas projeções dos impulsos emocionais do próprio homem. Ele transforma seus investimentos emocionais em pessoas, povoa o mundo com elas e mais uma vez enfrenta seus processos mentais internos fora dele mesmo.
Portanto, a primeira realização teórica do homem, a criação dos espíritos, parece ter surgido das observâncias do tabu. A principal realização da religião, quando comparada ao animismo, está na vinculação psíquica do temor aos demônios. Não obstante, um vestígio dessa era primitiva, o Espírito do Mal, manteve um lugar no sistema religioso.
Superstição: no homem primitivo, a superstição não é necessariamente a única e real razão para um costume ou observância em particular o que não nos dispensa do dever de procurar seus motivos ocultos. No animismo é inevitável que toda observância e toda atividade tenham uma base sistemática, que a partir daí passou a ser descrita como supersticiosa.
Pai: o assassinato do pai primitivo leva (alem da criação do totem e da proibição do incesto – não ter relações com uma mulher do mesmo totem) à tentativa de apaziguar o sentimento de culpa com o pai (atraves do totem, substituto do pai). É uma tentativa de provocar uma reconciliação com o pai.
A religião totêmica surgiu deste sentimento filial de culpa. Todas as religiões posteriores são vistas como tentativas de solucionar esta mesma questão.

O futuro de uma ilusão – 1927

Com este trabalho Freud inicia una série de estudos que vieram a constituir seu principal interesse pelo resto da vida.

Inicia ressaltando características da civilização humana que por um lado inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das necessidades humanas e por outro, inclui todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível.

Um aspecto não é independente do outro:
Em primeiro lugar porque as relações mútuas dos homens são profundamente influenciadas pela quantidade de satisfação dos instintos que a riqueza existente torna possível;
Em segundo, porque individualmente um homem pode, ele próprio, vir a funcionar como riqueza em relação a outro homem, na medida em que a outra pessoa faz uso de sua capacidade de trabalho ou a escolhe como objeto sexual;
Em terceiro, porque todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização, embora se suponha que esta constitui um objeto de interesse humano universal.

A civilização tem de ser defendida contra o indivíduo. Seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa. Fica-se com a impressão de que a civilização é algo que foi imposto a uma maioria resistente por uma minoria que compreendeu como obter a posse dos meios de coerção e poder.
Por indivíduos que possam fornecer um exemplo e que sejam reconhecidos como líderes, as massas podem ser induzidas a efetuar o trabalho e a suportar as renúncias necessárias ao processo de civilização.
E para melhor entendimento da questão, Freud denomina de:
Frustração o fato de um instinto não poder ser satisfeito;
Proibição o regulamento pelo qual esta frustração é estabelecida;
Privação a condição produzida pela proibição.
A partir desta idéias chega ao que constituem o item mais importante do inventário psíquico de uma civilização que são suas idéias religiosas, ou em outras palavras, em suas ilusões. A civilização não se detém na tarefa de defender o homem contra a natureza, mas simplesmente a persegue por outros meios. Trata-se de uma tarefa múltipla. A auto-estima do homem, seriamente ameaçada, exige consolação; a vida e o universo devem ser despidos de seus terrores e sua curiosidade pede uma resposta.
O desamparo do homem (frente às forças da natureza) permanece e junto com ele seu anseio pelo pai e pelos deuses.
Os últimos mantêm sua tríplice missão:
1 – exorcizar os terrores da natureza.
2 -reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte.
3 – compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs.
Foi assim que se criou um cabedal de idéias, nascido da necessidade que tem o homem de tornar tolerável seu desamparo
, construído com o material de lembranças do desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana.
Percebe-se claramente que a posse dessas idéias o protege em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana.
E é aqui que surge a questão: o que são essas idéias à luz da psicologia? De onde derivam a estima em que são tidas? E, para dar mais um tímido passo, qual é o seu valor real?
O que primeiro chamou a atenção foi o fato que esse corpo de idéias religiosas ser geralmente apresentado como revelação divina.
Contudo, essa própria apresentação faz parte do sistema religioso e ignora inteiramente o desenvolvimento histórico conhecido dessas idéias e suas diferenças em épocas e civilizações diferentes.
As idéias religiosas são ensinamentos e afirmações sobre fatos e condições da realidade externa e interna que nos dizem algo que não descobrimos por nós mesmos e que reivindicam nossa crença. Visto nos fornecerem informações sobre o que é importante para nós, elas são particular e altamente prezadas.

Quando indagamos em que se funda sua reivindicação a ser acreditada, deparamo-nos com três respostas, que se harmonizam de modo excepcionalmente mal umas com as outras.
Em primeiro lugar, os ensinamentos merecem ser acreditados porque já o eram por nossos antepassados.
Em segundo, possuímos provas que nos foram transmitidas desde esses mesmos tempos primitivos.
Em terceiro, é totalmente proibido levantar a questão de sua autenticidade.
Esse terceiro ponto está fadado a despertar nossas mais fortes suspeitas. Nenhuma proposição pode ser prova de si mesma. É com uma sensação de desconfiança difícil de apaziguar que passamos a examinar os dois primeiros fundamentos de prova. Nossos ancestrais eram muito mais ignorantes do que nós. Acreditavam em coisas que hoje não nos é possível aceitar, e ocorre-nos a possibilidade de que as doutrinas da religião possam pertencer a essa classe. As provas que nos legaram estão registradas em escritos que, eles próprios, não são fidedignos. Estão cheios de contradições, revisões e falsificações e, mesmo onde falam de confirmações concretas, acabam não se confirmando.

Ainda na questão de provar o valor das idéias religiosas cabe mencionar duas tentativas que foram feitas. A primeira de natureza violenta é antiga: “creio porque é absurdo”, do primeiro Padre da Igreja (Tertuliano) que sustenta que as doutrinas religiosas estão fora da jurisdição da razão. Na verdade, acima dela. Sua verdade deve ser sentida interiormente e não precisam ser compreendidas. Mas esse Credo só tem interesse como uma confissão. Como declaração autorizada, não possui força obrigatória. Devo ser obrigado a acreditar em todos os absurdos? E caso não, porque nesse em particular?
Se a verdade das doutrinas religiosas depende de uma experiência interior, o que fazer com as muitas pessoas que não dispõem dessa rara experiência?
Se determinado homem obteve uma convicção inabalável a respeito da verdadeira realidade das doutrinas religiosas, a partir de um estado de êxtase que o comoveu profundamente, que significação isso tem para os outros?

A segunda tentativa é a efetuada pela filosofia do “como se”, que assevera que nossa atividade de pensamento inclui grande número de hipóteses cuja falta de fundamento e até mesmo o absurdo, compreendemos perfeitamente. São chamadas de “ficções”, mas, por várias razões práticas, temos de nos comportar “como se” nelas acreditássemos. Tal é o caso das doutrinas religiosas. Para um homem cujo pensamento não se ache influenciado pelos artifícios da filosofia, nunca poderá aceitá-la porque é absurdo ou contrário à razão.
E continua o enigma psicológico: onde reside a força interior dessas doutrinas e a que devem sua eficácia, independente, como é, do reconhecimento pela razão.
As idéias religiosas,
proclamadas como ensinamentos, não constituem precipitados de experiência ou resultados finais de pensamento. São ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos. O desamparo na infância despertou a necessidade de proteção através do amor proporcionado pelo pai. O reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai mais poderoso. Assim o governo benevolente de uma Providência divina mitiga o temor dos perigos da vida; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a realização das exigências de justiça, que com tanta freqüência permaneceram irrealizadas na nossa civilização; e o prolongamento da existência terrena numa vida futura fornece a estrutura local e temporal em que as realizações de desejo se efetuarão.
Constitui alívio enorme para a psique individual se os conflitos da infância que nunca foram superados inteiramente, sejam dela retirados e levados a uma solução universalmente aceita. Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro; tampouco é necessariamente um erro. O que é característico das ilusões é o fato de derivarem dos desejos humanos. As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a realidade.
Chama-se uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação
e, assim procedendo, despreza suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação.
As doutrinas religiosas são ilusões e insuscetíveis de prova. Ninguém pode ser compelido a achá-las verdadeiras, a acreditar nelas. Do valor de realidade da maioria delas não podemos ajuizar: assim como não podem ser provadas, também não podem ser refutadas. Assim como ninguém pode ser forçado a crer, também ninguém pode ser forçado a descrer.

Conferência XXXV – A questão de um weltanschauung – 1933

Weltanschauung (uma visão do universo ou cosmovisão) é uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente, com uma base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que interessa encontra seu lugar fixo. Ela situa-se entre os desejos ideais dos seres humanos.

A Psicanálise é incapaz de construir uma para si e deve aceitar uma cosmovisão científica. Essa é diferente daquela porque se limita aquilo que é cognoscível no presente, de rejeitar determinados elementos que lhe são estranhos. E a única fonte de conhecimento se origina da elaboração intelectual de observações cuidadosamente escolhidas. Isto é a pesquisa.

E que não existe forma válida de conhecimento derivada da revelação, da intuição ou da adivinhação. Portanto ela despreza e/ou não contempla, de imediato, algumas reivindicações da mente tais como a origem e o futuro do homem e do universo.
Ao mesmo tempo a ciência se apercebe do fato de que a mente humana tem estas exigências emocionais e está pronta a examinar suas origens, inclusive as respostas dadas a estas questões baseadas em desejos ou ilusões.
Isto não significa que se deva subestimar o valor dos desejos para a nossa vida
principalmente em função da importância que tem, p. ex., para a arte, a filosofia e a religião; porém não podemos desprezar o fato de que seria ilícito e muito impróprio permitir fossem essas exigências transferidas para a esfera do conhecimento. A verdade não pode ser tolerante, admitir conciliações ou limitações.
A pesquisa considera como propriedade sua todas as esferas da atividade humana, e deve exercer uma crítica incessante se algum outro poder tenta arrebatar-lhe alguma parte.
A religião é um poder imenso que tem a seu serviço as mais fortes emoções dos seres humanos. Sabe-se muito bem que, em períodos anteriores, abrangia tudo o que desempenhava um papel intelectual na vida do homem e que ela assumia o lugar da ciência ali onde mal havia algo que se assemelhasse à ciência.
Se quisermos ter uma noção da natureza grandiosa da religião, devemos ter em mente o que ela se propõe a fazer pelos seres humanos. Dá informações a respeito da origem do universo, assegura proteção e felicidade definitiva nos altos e baixos da vida e dirige seus pensamentos e ações mediante preceitos, os quais estabelece com toda sua autoridade.
Com isto ela preenche três funções:
Com a primeira
satisfaz a sede de conhecimento do homem: faz a mesma coisa que a ciência tenta fazer, com seus próprios meios, e nesse ponto entra em choque com ela;
Com a segunda conquista a maior parte de sua influência. A ciência não pode competir com a religião quando esta acalma o medo que o homem sente em relação aos perigos e vicissitudes da vida, quando lhe garante um fim feliz e lhe oferece conforto na desventura.
Com a terceira, estabelece preceitos, proibições e restrições e vai muito alem da ciência. Isso porque a ciência se contenta em investigar e estabelecer fatos, embora seja verdade que de suas aplicações se derivam normas e orientações quanto à conduta de vida. Em algumas circunstâncias, estas coincidem com aquelas que a religião oferece; mas, quando tal fato se verifica, os motivos de uma e de outra são diferentes.
A notável combinação de ensino, consolo e exigências, que se verifica na religião, pode ser compreendida apenas quando submetida a uma análise genética. Esta pode ser abordada desde o ponto mais surpreendente do conjunto, ou seja, do seu ensino acerca da origem do universo; pois podemos perguntar por que uma cosmogonia faz parte, regularmente dos sistemas religiosos?
Assim a doutrina afirma que o universo foi criado por um ser semelhante ao homem, contudo magnificado em todos os aspectos, em poder, sabedoria e força de suas paixões – um super-homem idealizado. É interessante constatar que esse criador quase sempre é um único ser, geralmente é homem e esse criador-deus é abertamente chamado de “pai”.
A psicanálise infere que realmente é o pai, com toda magnificência em que, durante determinada época, ele aparecia para a criancinha. Um homem religioso imagina a criação do universo assim como imagina sua própria origem. A mesma pessoa, à qual a criança deveu sua existência, o pai (ou, mais corretamente, sem dúvida, a instância parental composta do pai e da mãe), também protegeu e cuidou da criança em sua debilidade e desamparo, exposta como estava a todos os perigos que a esperavam no mundo externo; sob a proteção do pai, a criança sentiu-se segura.

Quando um ser humano se torna adulto, ele sabe, na verdade, que possui uma força maior, mas sua compreensão interna dos perigos da vida também se tornou maior, e com razão conclui que fundamentalmente ainda permanece tão desamparado e desprotegido como era na infância; ele sabe que na confrontação com o mundo, ainda é uma criança. Mesmo agora, portanto, não pode prescindir da proteção que usufruía na infância. Também reconheceu, desde então, que seu pai é um ser que possui um poder muito limitado e não está dotado de todas as virtudes. Por esse motivo, retorna à imagem mnêmica do pai, a quem , na infância, tanto supervalorizava. Exalta a imagem transformando-a em divindade, e torna-a contemporânea e real. A força afetiva dessa imagem mnêmica e a persistência de sua necessidade de proteção, conjuntamente, sustentam sua crença em Deus.
Retornando à terceira função, a exigência ética, também se adapta facilmente a essa situação de infância: o mesmo pai (ou instância parental) que deu a vida à criança e a protegeu contra os perigos. Ensinou-lhe também o que podia fazer e o que devia deixar de fazer, instrui-a no sentido de adaptar-se a determinadas restrições em seus desejos instituais. Fê-la compreender o respeito que devia ter com os pais e irmãos, se quisesse tornar-se um membro tolerado e benquisto no círculo familiar e, posteriormente, de associações mais amplas.
A criança é educada no sentido de conhecer os seus deveres sociais mediante um sistema de recompensas carinhosas e de punições; é-lhe ensinado que sua segurança na vida depende de que seus pais (e, depois, de que outras pessoas) a amem e de que eles possam acreditar que a criança os ama.
Todas essas relações são posteriormente introduzidas, inalteradas, pelo homem, na religião. A quantidade de proteção e de satisfação destinada a uma pessoa depende do seu cumprimento das exigências éticas; seu amor a Deus e sua consciência de ser amado por Deus são os fundamentos da segurança que adquire contra os perigos do mundo externo e do seu ambiente humano. Finalmente, pela prece assegura para si uma influência direta sobre a vontade divina, e com isto compartilha da onipotência divina.
O espírito científico, reforçado pela observação dos processos naturais, começou, no decorrer do tempo, a tratar a religião como um assunto humano e a submetê-la a exame crítico.
A religião não podia suportar isto devido a suspeita e ao ceticismo em relação as suas lendas de milagres, as doutrinas da origem do universo que evidenciava uma ignorância que trazia a marca de épocas antigas. Os pronunciamentos da religião, prometendo aos homens proteção e felicidade, bastando que estes cumprissem determinados requisitos éticos, também começaram a se mostrar indignos de crédito.
Parece não ser verdade que existe um Poder no universo que vela pelo bem-estar dos indivíduos com desvelo parental e conduz todas as coisas a um desfecho feliz.
Pelo contrário, o destino dos homens não pode ser harmonizado, nem pela hipótese de uma Benevolência Universal, nem pela hipótese parcialmente contraditória de uma Justiça Universal. Terremotos, maremotos, conflagrações não fazem nenhuma distinção entre o virtuoso, o piedoso, o patife e o descrente. Mesmo ali onde o que está em questão não é a natureza inanimada, mas onde um destino individual depende de suas relações com outras pessoas, de modo algum se verifica a regra segundo a qual a virtude é recompensada e o mal é punido. Na maioria das vezes, o homem violento, ardiloso, implacável agarra as coisas boas que o mundo cobiça, e o homem piedoso fica de mãos vazias. Poderes obscuros, insensíveis, cruéis determinam o destino do homem; o sistema de recompensas e punições que a religião atribui ao governo do universo parece não existir.
Nesta conferência, Freud usa do recurso da hipotética controvérsia de argumentos entre religião e psicanálise e cita a objeção que seria feita a uma impertinência, da parte da ciência, fazer da religião um objeto de suas investigações, pois a religião é algo sublime, superior a qualquer operação do intelecto humano, algo que não deve ser abordado mediante críticas excessivamente sutis.

Em outras palavras, a ciência não teria competência para investigar a religião: seria muito útil e respeitável em outros aspectos, desde que se mantenha dento de sua própria esfera. Se indagarmos qual a base desta pretensão da religião a uma posição excepcional entre todos os assuntos humanos, a resposta seria que a religião não pode ser medida por critérios humanos, visto ter origem divina e nos haver sido dada como uma revelação por um Espírito que o espírito humano não consegue compreender. A questão real que surge é saber se existe um espírito divino e uma revelação a atribuir-lhe, dizendo-se que essa questão não pode ser respondida, uma vez que a divindade não pode ser colocada em questão.
Aqui a questão é a mesma observável em um tratamento de orientação psicanalítica. Se um paciente, geralmente inteligente, rejeita uma determinada sugestão, com base em motivos especialmente tolos, essa debilidade da lógica é prova da existência de um motivo especialmente forte para ele fazer a rejeição – um motivo que só pode ser de natureza afetiva.

O que fazemos é enfatizar o fato de que, de modo algum, está sendo cogitada uma invasão da área da religião pelo espírito científico; pelo contrário uma invasão pela religião, na esfera do pensamento científico. Qualquer que seja o seu valor e importância, ela não tem o direito, em nenhum sentido, de limitar o pensamento – não tem o direito, portanto de se furtar à eventualidade de o pensamento tentar investigá-la.
A proibição do pensamento, estabelecida pela religião para assegurar sua preservação, também está longe de ser isenta de perigos, seja para o individuo, seja para a sociedade humana. A experiência com tratamentos nos ensinou que uma proibição como esta, embora originalmente limitada a apenas uma determinada área, tende a alastrar-se e, daí, a se tornar causa de graves inibições na conduta de vida da pessoa. Tudo aquilo que, à semelhança das proibições da religião contra o pensamento, se opõe a uma evolução nesse sentido, é um perigo para o futuro da humanidade.
Para concluir: todo ser humano que está insatisfeito e exige mais do que a ciência pode dar para seu consolo momentâneo, haverá de procurá-lo onde possa encontrar. Não o levaremos a mal, não podemos ajudá-lo, mas nem podemos, por causa disso, pensar de modo diferente.

* Versão ampliada e modificada do trabalho apresentado no Curso “Psicoterapia: Religião e Religiosidade”, no XXIV Congresso Brasileiro de Psiquiatria (2006) e no Simpósio do Departamento de Psicoterapia no XXVII Congresso de Psiquiatria (2009).

(4) Edição final

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta

3 comentários em “Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)* (4)”

  1. Telmo

    Belo trabalho.
    Apesar do rico conteúdo, é extremamente didático beneficiando aqueles não familiarizados com o assunto. Não que se excluam mas é uma situação que a miúde ocorre quando o tema é técnico. A pátina da erudição geralmente borra a compreensão.

    Um abraço do
    Moacir

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