SUS faz mais e melhor com menos recursos que a saúde privada

Ricardo Rodrigues Teixeira é médico.
Prof. do Dpto de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Nova pesquisa DataFolha indica (publicada na Folha de São Paulo do dia 13 deste mês), mais uma vez, a péssima avaliação da saúde no país. Mas há aspectos importantes dessa pesquisa que, ao apresentar e analisar os dados, o jornal Folha de São Paulo faz contorcionismos para ocultar. Por exemplo, que a saúde privada é pior avaliada que o SUS. Vejamos.

Lendo os dados divulgados notamos que seis em cada dez brasileiros (ou seja, 60%), acham a saúde péssima. Quando só se avalia apenas o SUS, o numero cai para 54% de péssimo.

Quando se avalia a “saúde em geral”, 24% dá nota zero; quando se avalia apenas o SUS, 18% dá nota zero.

A matéria evita comentar (mas pode ser lido nos dados que disponibiliza) que 2% dá nota 10 para a “saúde em geral” e 3% dá nota 10 quando se avalia só o SUS.

E a diferença mais notável: 11% dá nota maior que 7 para a “saúde em geral” e 18% dá nota maior que 7 para o SUS.

Conclusão óbvia, cuidadosamente evitada pela Folha na análise dos resultados: a saúde privada puxa significativamente a avaliação da “saúde em geral” para baixo!

Mas, excetuando o esclarecimento no primeiro parágrafo de que o levantamento envolve a rede pública e privada, no resto da matéria a expressão “saúde privada” nem é mencionada. A comparação é sempre entre a “saúde em geral” e o SUS. Afinal, o objetivo é sempre o mesmo: associar a “péssima avaliação da saúde” ao nome SUS e evitar, a todo custo, de associá-la ao setor privado, mesmo quando é ele que mais contribui para a má avaliação da saúde no país.

Se fosse um jornalismo sério e honesto, lembraria ainda o quanto o setor privado gasta para prestar um mal atendimento a 25% da população (parcela aproximada da população brasileira que tem plano de saúde privado e que gasta 52,5% de todos os recursos gastos com saúde no país, segundo dados recentes da Organização Mundial de Saúde; ou ainda, cerca de R$ 2.200 per capita) e o quanto o setor público tem de recursos para dar atendimento a 83% da população (percentual que referiu ter utilizado o SUS segundo dados deste levantamento do DataFolha) e garantir a saúde coletiva através de medidas que beneficiam indistintamente toda a população (vacinas, vigilância epidemiológica etc.) e, mesmo assim, conseguir ser melhor avaliado (47,5% do total de recursos gastos com saúde no país ou aproximadamente R$ 1.000 per capita).

Outro fato que se pode deduzir dos dados, e que também não é destacado pela Folha, é que se 25% têm plano de saúde e 83% utilizaram o SUS, então o SUS acaba sendo utilizado por muita gente que tem plano de saúde. E aí, se fosse um jornalismo sério e honesto, ela também faria questão de destacar o conhecido calote que os planos de saúde aplicam no SUS, referente aos atendimentos de urgência e emergência, ao tratamento de câncer, transplantes, hemodiálise, entre outros, que os planos negam cobertura e o SUS acaba assumindo (apenas 25% dos valores devidos são ressarcidos ao Sistema Único de Saúde, dessa parte 20% se perde com recursos da justiça, tramitação, prescrição etc.).

Explicitar esses dados reais daria ainda maior dramaticidade à melhor avaliação do SUS comparada à avaliação geral da saúde no país. E nesse caso, a chamada mais justa para matéria seria: “SUS faz mais e melhor com menos recursos que a saúde privada”.

Mas, aparentemente, este jornalismo não é sério nem honesto. Ele não pode ser quando tem compromissos claros com os setores que fazem da saúde um lucrativo ramo de negócios e não um bem público e um direito universal.

Fonte: Carta Maior

Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.

Ex-supremacista branco relata transformação pela ‘bondade de quem odiava’

“Bondade de quem eu odiava mudou minha vida”. Ex-supremacista tocava canções racistas e tinha prazer em agredir pessoas desconhecidas que não fossem brancas. Arno Michaelis chegou a machucar muita gente gravemente. Hoje, ele lidera uma organização que trabalha para melhorar a relação entre as raças. Confira a seguir o seu relato

No entanto, sua vida começou a mudar e, em 2012, um massacre em um templo da religião sikh em Wisconsin fez com que ele abandonasse seu passado de ódio.

Hoje, aos 44 anos, Arno Michaelis lidera a ONG Serve 2 Unite, que trabalha para melhorar as relações entre as raças – atuando, inclusive, no Brasil.

Em depoimento ao programa Outlook, da BBC, ele compartilhou sua história.

“Meus pais brigavam muito porque havia problemas de alcoolismo na família”, disse Arno. “Mas os dois me amavam muito e fizeram (por mim) tudo o que puderam. Acho que a violência emocional, combinada com um certo vício nato em adrenalina, me levaram a agredir as pessoas.”

Arno contou que sempre que podia, escapava de casa e saía em busca de emoções perigosas.

“Quando me comportava de forma antissocial e agredia as pessoas, sentia um certo frisson.”

E foi também em busca dessa adrenalina que Arno aderiu ao movimento dos supremacistas brancos.

“Uma das coisas que me davam essa sensação era provocar raiva nas pessoas. E se você procura um jeito de fazer as pessoas ficarem com raiva, experimente uma suástica.”

“Fiz minha primeira tatuagem de suástica aos 17 anos. Eu entendia a ideologia por trás daquilo, mas o frisson daquela coisa proibida era o que mais me motivava.”

Aos poucos, explicou Arno, seu ódio se estendeu de minorias étnicas –negros, latinos, asiáticos – aos próprios brancos.

‘Traidores da raça’

“À medida que você se aprofunda na narrativa dos supremacistas brancos, começam a surgir as teorias conspiratórias. No final, eu acreditava que os judeus tinham colocado em ação um plano contra os brancos. Coloquei os judeus no topo da minha lista dos ‘não favoritos’. E mais acima nessa lista estavam os brancos que não eram violentamente racistas”, disse.

“Eram vistos como traidores da raça e estavam definitivamente no topo da lista das pessoas que eu odiava.”

Às vezes, pessoas que ele supostamente deveria odiar o tratavam com bondade. Nessas horas, disse Arno, era particularmente difícil continuar sentindo raiva delas.

“Era exaustivo ter pessoas que eu tentava odiar me tratando com bondade. Aquilo fazia buracos nas justificativas que eu criava para poder odiá-las.”

Esse foi o caso, por exemplo, de um judeu dono de uma estamparia de camisetas que deu emprego a Arno. “Apesar de eu estar portando uma suástica dentro da fábrica dele, e apesar de eu tentar recrutar todos os brancos que trabalhavam comigo, (o chefe) se recusava a me demitir e insistia que eu era um menino bom e só precisava de uma chance.”

“Saber disso, quando eu tentava promover essa narrativa antissemita era exaustivo. A bondade que ele demonstrava, a bondade de negros e latinos, isso me assombrava e me lembrava de que o que eu estava fazendo era errado.”

Arno contou que machucou gravemente muita gente.

“Atacávamos mais brancos, no final. Apesar da nossa conversa de durões, éramos covardes e não queríamos ir aos guetos, onde corríamos o risco de puxar uma briga de verdade. Então, acabávamos indo às partes mais afluentes da cidade. Mas se encontrávamos um negro ou um latino em uma área mais escondida, onde podíamos atacá-los, fazíamos isso.”

“Feri muita gente com minhas próprias mãos e vou ter de viver com isso para o resto da minha vida. Ainda penso no que fiz – ou no que lembro de ter feito. Eu bebia muito na época. Não quero usar isso como desculpa, mas muitas das minhas lembranças são vagas por causa disso.”

A virada na vida de Arno Michaelis aconteceu, literalmente, porque ele se cansou de odiar.

“(Foi) exaustão. Era exaustivo me fechar para o resto do mundo, algo que é necessário para se manter uma visão de mundo baseada em uma teoria conspiratória fundamentalista. Você tem de bloquear todas as informações que não sustentam a narrativa da supremacia branca.”

Arno contou que dentro de um ano passou de skinhead a raver. Agora, passava as noites dançando house music em festas underground, cercado de gays, lésbicas, pessoas transgênero, bissexuais – pessoas de todas as etnias possíveis, ele disse.

“Todos me aceitaram de forma incondicional e sem fazer perguntas. Mas eu continuava com um comportamento muito autodestrutivo. Além do álcool, usava muitas drogas.”

Um empreendimento que não deu certo e o fim de um relacionamento levaram Arno ao fundo do poço.

“Meu passado voltou para me assombrar . Sentia que merecia todas aquelas coisas ruins. Passei um ano me sentindo suicida. Minha filha me ajudou a sair daquilo. Se não fosse por ela, acho que teria me matado.”

Pacifista

Em 2012, um homem cometeu um massacre em um templo sikh em Wisconsin. Seis pessoas foram mortas. Mais tarde, descobriu-se que ele era membro do grupo supremacista branco que Arno havia integrado. O caso teve um efeito profundo sobre a vida de Arno.

“Foi devastador. Passei a noite acordado, me perguntando se seria alguém que eu tinha recrutado. No dia seguinte, descobri que eu não conhecia o atirador, mas ele tinha a minha idade, era membro da gangue de skinheads que eu tinha ajudado a fundar e também era cantor de uma banda de White Power, como eu tinha sido”, disse Arno.

“Então, de várias formas, esse era o homem que eu tinha sido. Ele tinha se colocado em uma situação de tanta infelicidade que só o homicídio seguido de suicídio pareciam fazer sentido para ele.”

Naquele mesmo ano, Pardeep Kaleka, que perdeu o pai, Satwant Kaleka, no massacre, entrou em contato com Arno. “Conversamos por quatro horas sem parar e, desde então, somos irmãos”, disse.

Hoje, o pacifista Arno Michaelis trabalha com várias ONGs, entre elas a Serve 2 Unite, fazendo palestras e mediando uma revista online.

Quando perguntado se existe alguma coisa que poderia ter evitado que ele seguisse pelo caminho que seguiu, ele respondeu:

“Bondade foi o que mudou o rumo da minha vida.”

“Ninguém teria sido capaz de se livrar do nazista que existia em mim na base da pancada. Eu apanhava com a mesma frequência com que batia nas pessoas. Foram as pessoas que me trataram com bondade, e que tiveram a coragem verdadeira de não devolver minha agressão, que ajudaram a mudar o rumo da minha vida.”

Fonte: Pragmatismo Político
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Prezada Bia Cardoso e demais Blogueiras Feministas

Parabens pela tradução e publicação do instigante Porque a interseccionalidade não pode esperar
Alguns trechos me inspiraram a escrever com o intento de poder complementar algumas aspectos.
Em especial o que entendi como “desesperança” em relação ao não progresso gerado pelas Condutas Discriminatórias (CD) relatadas.
Temos escrito sobre as discriminações no blog Saúde Publica(da) ou não considerando o problema como uma questão de Saúde Pública (SP).
Lembrando que SP e Prevenção devem andar juntas sempre que possível.
E como tal temos, de um lado, um agente causador de sofrimento humano que é o discriminador (no caso o racista e/ou o machista).
Do outro o grupo discriminado onde incide o sofrimento mental e/ou físico como consequência da CD .
A autora enfoca, basicamente, só um lado da questão: a do grupo discriminado.
E quando trata do discriminador, na nossa percepção, surge a “desesperança”. Vejamos exemplos:

“o tribunal indeferiu as suas reivindicações.”
“eu queria definir esta profunda invisibilidade em relação à lei.”
“realçar as múltiplas vias através das quais a opressão racial e de gênero são vivenciadas, para que os problemas possam ser discutidos e compreendidos de maneira mais fácil.”
“mas um termo não pode fazer mais do que aqueles que o utilizam têm o poder de exigir. Então, sem surpresas, a interseccionalidade gerou a sua cota de debate e controvérsia.”
“Os conservadores têm pintado aqueles que praticam a interseccionalidade como pessoas obcecadas com as “políticas de identidade””
“as instituições que usam a identidade para promover exclusão e privilégios.”
“Outros acusam a interseccionalidade de ser muito teórica, de ser “muita conversa e nenhuma ação”. Para essas pessoas, eu digo que temos proposto “conversar” sobre igualdade racial desde a época da escravidão e ainda não estamos nem perto de concretizá-la. Em vez de culpar as vozes que colocam luz sobre os problemas, precisamos examinar as estruturas de poder que resistem com tanto sucesso as mudanças.”
“muitas vezes as suas experiências são tidas como o único ponto de partida para todas as conversas sobre discriminação. Ser a frente ou o centro em “conversas sobre racismo ou sexismo é um privilégio complicado que muitas vezes é difícil de ver.”
“ações interseccionais exige medidas concretas para identificar as barreiras à igualdade enfrentadas por mulheres e meninas negras ou de outras raças/etnias na sociedade norte-americana.”
“A interseccionalidade por si só não tem o poder de trazer corpos invisíveis à vista. Meras palavras não vão mudar a maneira que algumas pessoas — os membros menos visíveis de círculos eleitorais políticos — devem continuar esperando por líderes, tomadores de decisão e outros que visibilizem suas lutas.”
“ativistas e outras partes interessadas devem aumentar a conscientização sobre as dimensões interseccionais da injustiça racial,”

Avanços em questões básicas das discriminações foram conquistados sem o diálogo (impossível no momento) entre o discriminado e o discriminador.
A Ciência foi a intermediária destes progressos quando solicitada pelos grupos discriminados.
A Ciência Médica (EUA) definiu, quando solicitada pelos homossexuais, que ser homossexual não é ser um doente.
A Ciência Jurídica (Brasil) definiu a Conduta Discriminatória Racista como crime, quando foi solicitada.
A Ciência Jurídica (Brasil) definiu a Conduta Discriminatória Machista como crime, também quando solicitada.
Sabemos que, muito antes que um discriminador seja considerado criminoso ele já está agindo como tal.
Obviamente que o ideal é que o pretendido diálogo discriminador/discriminado ocorra nesta fase, antes da criminalização.
Com o intuito de prevenir repetições da CD e suas nefastas complicações.
Mas para isto é necessário que a Ciência seja solicitada para definir o discriminador e a CD antes dele se tornar um criminoso.
E para quem nos acompanhou até aqui, sugerimos, para concluir, a leitura do nosso texto:
De onde partirá a iniciativa de prevenir a Conduta Discriminatória Racista
Onde abordamos questões que, no nosso entendimento, podem auxiliar no progresso da prevenção das discriminações referidas por Kimberlé Crenshaw.
Mesmo que na nossa abordagem a discussão seja feita de discriminações únicas, isoladas.
Mas que, talvez, possam ser aplicadas quando tenham as características de interseccionalidade.

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta

Por que cervejeiro é empresário e dono de “boca de fumo” é traficante?

A insustentável blindagem aos fabricantes de álcool.

A Revista Forbes apresentou uma lista dos 10 bilionários mais jovens do Brasil em 2015. Na lista tem o

Gilberto Schincariol – R$ 2,2 bi;
Adriano Schincariol – R$ 3,57 bi;
Alexandre Schincariol – R$ 3,57 bi.

Duas coisas me chamaram a atenção:

Como estes caras conseguiram ganhar tanto dinheiro? Esta cerveja é horrível ao ponto de eu preferir beber água mineral; e
que luta contra as drogas é esta onde os três jovens bilionários ficaram bilionários vendendo álcool – que é grande responsável por acidentes de trânsito e quase sempre presente em casos de violência doméstica?
É inadmissível que num país onde a guerra contra as drogas tire tantas vidas e jogue outras milhares em cadeias a gente aceite o sorriso na cara das pessoas que ficaram bilionárias com o fabrico, uso e consumo de uma droga. Pois, afinal de contas: a briga é contra as drogas ou para manter a droga X legalizada e a Y não?

Ainda não vi uma justificativa plausível para que o álcool seja legalizado e pessoas fiquem ricas com ele, e a maconha – e as demais outras drogas – seja criminalizada.

Assim, me parece que fabricante de cerveja é empresário e dono de “boca de fumo” é traficante. Por que não tratamos os dois como empresários ou os dois como traficantes? Certo, o dono da cervejaria não pode ser traficante porque a cerveja é legalizada. Aí voltamos ao ponto inicial: por que a cerveja é?

Resumo: o problema não é fabricar, vender ou consumir a droga; o problema é não ter o lobby. Mesmo porque, né? Não é raro a gente ver, com cara de ressaca, promotor denunciando e juiz aceitando a denúncia e mandando maconheiro pra cadeia.

cerveja-3

Fonte:
http://wagnerfrancesco.jusbrasil.com.br/artigos/237531442/por-que-cervejeiro-e-empresario-e-dono-de-boca-de-fumo-e-traficante

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