É possível o diálogo entre discriminado e discriminador?

Prezada Bia Cardoso e demais Blogueiras Feministas

Parabens pela tradução e publicação do instigante Porque a interseccionalidade não pode esperar
Alguns trechos me inspiraram a escrever com o intento de poder complementar algumas aspectos.
Em especial o que entendi como “desesperança” em relação ao não progresso gerado pelas Condutas Discriminatórias (CD) relatadas.
Temos escrito sobre as discriminações no blog Saúde Publica(da) ou não considerando o problema como uma questão de Saúde Pública (SP).
Lembrando que SP e Prevenção devem andar juntas sempre que possível.
E como tal temos, de um lado, um agente causador de sofrimento humano que é o discriminador (no caso o racista e/ou o machista).
Do outro o grupo discriminado onde incide o sofrimento mental e/ou físico como consequência da CD .
A autora enfoca, basicamente, só um lado da questão: a do grupo discriminado.
E quando trata do discriminador, na nossa percepção, surge a “desesperança”. Vejamos exemplos:

“o tribunal indeferiu as suas reivindicações.”
“eu queria definir esta profunda invisibilidade em relação à lei.”
“realçar as múltiplas vias através das quais a opressão racial e de gênero são vivenciadas, para que os problemas possam ser discutidos e compreendidos de maneira mais fácil.”
“mas um termo não pode fazer mais do que aqueles que o utilizam têm o poder de exigir. Então, sem surpresas, a interseccionalidade gerou a sua cota de debate e controvérsia.”
“Os conservadores têm pintado aqueles que praticam a interseccionalidade como pessoas obcecadas com as “políticas de identidade””
“as instituições que usam a identidade para promover exclusão e privilégios.”
“Outros acusam a interseccionalidade de ser muito teórica, de ser “muita conversa e nenhuma ação”. Para essas pessoas, eu digo que temos proposto “conversar” sobre igualdade racial desde a época da escravidão e ainda não estamos nem perto de concretizá-la. Em vez de culpar as vozes que colocam luz sobre os problemas, precisamos examinar as estruturas de poder que resistem com tanto sucesso as mudanças.”
“muitas vezes as suas experiências são tidas como o único ponto de partida para todas as conversas sobre discriminação. Ser a frente ou o centro em “conversas sobre racismo ou sexismo é um privilégio complicado que muitas vezes é difícil de ver.”
“ações interseccionais exige medidas concretas para identificar as barreiras à igualdade enfrentadas por mulheres e meninas negras ou de outras raças/etnias na sociedade norte-americana.”
“A interseccionalidade por si só não tem o poder de trazer corpos invisíveis à vista. Meras palavras não vão mudar a maneira que algumas pessoas — os membros menos visíveis de círculos eleitorais políticos — devem continuar esperando por líderes, tomadores de decisão e outros que visibilizem suas lutas.”
“ativistas e outras partes interessadas devem aumentar a conscientização sobre as dimensões interseccionais da injustiça racial,”

Avanços em questões básicas das discriminações foram conquistados sem o diálogo (impossível no momento) entre o discriminado e o discriminador.
A Ciência foi a intermediária destes progressos quando solicitada pelos grupos discriminados.
A Ciência Médica (EUA) definiu, quando solicitada pelos homossexuais, que ser homossexual não é ser um doente.
A Ciência Jurídica (Brasil) definiu a Conduta Discriminatória Racista como crime, quando foi solicitada.
A Ciência Jurídica (Brasil) definiu a Conduta Discriminatória Machista como crime, também quando solicitada.
Sabemos que, muito antes que um discriminador seja considerado criminoso ele já está agindo como tal.
Obviamente que o ideal é que o pretendido diálogo discriminador/discriminado ocorra nesta fase, antes da criminalização.
Com o intuito de prevenir repetições da CD e suas nefastas complicações.
Mas para isto é necessário que a Ciência seja solicitada para definir o discriminador e a CD antes dele se tornar um criminoso.
E para quem nos acompanhou até aqui, sugerimos, para concluir, a leitura do nosso texto:
De onde partirá a iniciativa de prevenir a Conduta Discriminatória Racista
Onde abordamos questões que, no nosso entendimento, podem auxiliar no progresso da prevenção das discriminações referidas por Kimberlé Crenshaw.
Mesmo que na nossa abordagem a discussão seja feita de discriminações únicas, isoladas.
Mas que, talvez, possam ser aplicadas quando tenham as características de interseccionalidade.

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta

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