“Comia-te toda”; “ó borracho, queres por cima ou queres por baixo?

Piropos já são crime e dão pena de prisão até três anos

Piropos

Alteração a Código Penal em agosto passou despercebida. As “propostas sexuais” não desejadas têm pena de prisão até três anos.

“Comia-te toda”; “ó borracho, queres por cima ou queres por baixo?/ queres pela frente ou queres por trás?”; “dava-te três sem tirar”; “ó estrela, queres cometa?”; “ó joia, anda cá ao ourives”. Exemplos banais, deixando de lado os mais cabeludos (e não menos comuns, pelo contrário), do que se costuma apelidar de “piropo” e que as mulheres, desde o início da adolescência, ouvem nas ruas portuguesas. E que desde agosto têm, pelo seu caráter de “propostas de teor sexual”, relevância criminal, por proposta do PSD, com pena de prisão até um ano, ou três caso sejam dirigidas a menores de 14. Trata-se de um aditamento ao artigo 170º do Código Penal, “importunação sexual”, o qual criminalizava já o exibicionismo e os “contactos de natureza sexual”, vulgo “apalpões”.

Esta alteração legislativa, efetuada no âmbito da transposição para o ordenamento jurídico nacional da Convenção de Istambul – a Convenção do Conselho da Europa para a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica assinada em 2011 em Istambul – passou completamente despercebida, apesar de o tema ter sido muito debatido nas redes sociais e profusamente comentado nos media. Consistentemente ridicularizada como “exagero”, “histeria feminista” e até “atentado à liberdade de expressão” e “fim da sedução”, a criminalização do assédio sexual, quer na rua quer no trabalho, foi proposta primeiro pelo coletivo feminista UMAR [União de Mulheres Alternativa e Resposta], em 2011, e depois pelo BE, que em 2013 apresentou um projeto de lei nesse sentido, o qual acabaria por “cair” nos trabalhos na especialidade.

A ideia que ficou foi portanto de que o assédio sexual se mantinha fora do Código Penal (está apenas penalizado no Código do Trabalho). Mas Cecília Honório, a deputada do Bloco que deu a cara pelo projeto do seu partido, admite que a alteração ao artigo 170º, em relação à qual se absteve na votação (todos os outros grupos parlamentares votaram a favor), criminaliza mesmo uma parte considerável dos assédios, apesar de usar outro nome. “Foi uma alteração que surgiu nas propostas finais que a maioria PSD/CDS apresentou. E realmente depois de toda a discussão que houve sobre o assunto passou entre os pingos da chuva, ninguém falou disso. Mas sendo um eufemismo, porque não fala de assédio, o que ficou consignado é muito bom, a todos os níveis. Prova que toda a pressão que houve e o debate que decorreu, apesar de toda a ridicularização, deram resultado.” E conclui: “Nisto a maioria [PSD e CDS] portou-se muito bem.”

Carla Rodrigues, deputada do PSD na última legislatura, era a coordenadora do grupo de trabalho parlamentar que tratou do pacote legislativo relativo à Convenção de Istambul. E assume a maternidade da iniciativa. “A alteração surgiu por proposta nossa. Visava dar resposta a uma situação que não estava prevista no Código Penal. Percebi, fruto das audições e de debates em que participei, incluindo uma conferência sobre assédio promovida pela UMAR, que havia situações que não estavam previstas como crime e que deviam estar. Havia o projeto do BE com o qual eu não concordava, e entendemos que não resultava da Convenção a obrigatoriedade da penalização do assédio, até porque não havia consenso nesse sentido. Aliás mesmo no meu grupo parlamentar houve algumas resistências. Mas dei alguns exemplos e consegui convencer as pessoas.”

Os assédios às adolescentes parecem ter sido decisivos para tal: “Falei de casos como o de uma jovem de 15 anos que vai na rua e vem um velho e diz “fazia-te isto fazia-te aquilo”. Isso sensibilizou-os mais. O insulto ou injúria estão desde sempre previstos no Código Penal, mas um homem a importunar, a amedrontar uma miúda não estava a cometer um crime. E um dos argumentos contra criminalizar é que as mulheres têm de saber lidar com isso, responder – mas as adolescentes também? Tenho uma filha de três anos e falei disto com o meu marido, sobre como nos sentiríamos com isto a suceder-lhe, como se podia protegê-la. E cheguei a esta formulação.”

Carla Rodrigues considera que o conceito tipificado “se aplica em qualquer circunstância: no local de trabalho, na rua, em grupos sociais, em qualquer situação em que um agressor pratique qualquer desses atos. Acho que as mulheres e as meninas estão muito mais defendidas com esta formulação. Praticamente todas as coisas que são ditas na rua para importunar as mulheres, tudo aquilo que é ordinarice, fica assim criminalizado. Agora é preciso é que tenham consciência disso e denunciem. É preciso divulgar a existência deste novo crime.”

A deputada do PS Isabel Moreira assente. “Muito do que as pessoas queriam que fosse criminalizado através da criação do novo artigo do Código Penal e que estava mal formulado na proposta do BE, a qual no meu entender nunca passaria no Tribunal Constitucional, está previsto na alteração ao 170º e no novo tipo penal de perseguição [154º A: “Quem, de modo reiterado, perseguir ou assediar outra pessoa, por qualquer meio, direta ou indiretamente, de forma adequada a provocar-lhe medo ou inquietação ou a prejudicar a sua liberdade de determinação, é punido com pena de prisão até 3 anos ou pena de multa, se pena mais grave não lhe couber por força de outra disposição legal”].”

“Intimidação machista é grave”

Mas o impacto pedagógico da criminalização – para as vítimas e para os perpetradores – no sentido de vincar a inadmissibilidade de uma determinada conduta e de a retirar da “aceitabilidade cultural” só existe se houver consciência da existência do tipo criminal e se começar a haver queixas, operacionalizando o conceito. Como, se a mudança foi varrida para debaixo do tapete, até pelos proponentes? “É verdade que não puxámos muito por isso, no PSD”, admite Carla Rodrigues. “Falou-se de tudo o resto que veio no pacote – criminalização do casamento forçado, da perseguição/stalking, da mutilação genital feminina, das alterações ao crime de violação – mas disto não.”

Falemos então. E mais concretamente do que muda, na prática. A penalista Inês Ferreira Leite, que apresentou, a pedido do PS, um parecer sobre as várias propostas de alteração do pacote da Convenção de Istambul, incluía neste a possibilidade de se alterar o crime de importunação sexual da forma que veio a ser aprovada (proposta que, curiosamente, o PS não apresentou). O que correspondeu a uma evolução da sua posição, expressa num texto publicado no início de 2015 no site da associação Capazes (antes Maria Capaz), em que reconhecia a gravidade do assédio de rua mas concluía que o que nele tem relevância penal já estava previsto em vários tipos criminais – a injúria, por exemplo.

“Compreendo a gravidade do problema da intimidação machista, mas como penalista sou da corrente minimalista”, explica a jurista. “Fui sempre contra a criação de um novo tipo criminal mas acabei por achar que fazia sentido incluir expressamente os comentários de teor sexual no crime de importunação.” Todos os comentários? “Todos aqueles que sejam afirmativos, e incluam teor sexual, implicando fazer qualquer coisa sexualmente. Os comentários mais subtis, com referência à roupa, por exemplo, não estão abrangidos.” E tudo dependerá, claro, da forma como os juízes interpretarem a lei e as situações que forem surgindo. “É um problema quando se fazem normas com as quais os juízes não concordam.”

Juíza no Supremo Tribunal de Justiça, Clara Sottomayor defende a autonomização do crime de assédio. E um dos motivos é precisamente o conservadorismo dos juízes. “Esta alteração do crime de importunação, sendo um passo na direção correta, não é o que é preciso. Interpretado em termos literais abrange uma intenção de proposta ou revelação ou intenção, de forma que nem todos os assédios sexuais estão englobados. Duvido que abranja todas as situações de assédio de rua, parece-me mais adequado às propostas de assédio sexual no trabalho. Com uma interpretação lata poderia abranger outras coisas, mas com o conservadorismo da nossa magistratura…”

Considera também uma falha a inexistência de uma agravação do crime no caso de a vítima ter entre 14 e 17 anos. “Equipara-se uma menina entre os 14 e os 18 a uma mulher de 25, 30. Deve haver uma especial proteção para menores.” Ainda assim, acolheu com agradável surpresa a mudança: “Sinto isto como uma meia vitória. Nunca pensei que acontecesse, achei que havia uma posição inflexível no grupo de trabalho, e surpreendeu-me muito que fosse o PSD a avançar. Mas sabe-se que este tipo de coisas progride aos poucos. E é preciso continuar a pugnar pela eliminação deste obstáculo à liberdade e autodeterminação das mulheres, que ficam inibidas de participar no espaço público ao serem desde muito miúdas submetidas a este condicionamento. Muito do que é a ausência de vontade das mulheres de intervir publicamente e que se apresenta como uma característica feminina é assim construído, culturalmente.”

Vai aliás nesse sentido o artigo 40º da Convenção de Istambul, intitulado “assédio sexual”, que obriga os estados a “adotar as medidas legislativas ou outras que se revelem necessárias para assegurar que qualquer tipo de comportamento indesejado de natureza sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o intuito ou efeito de violar a dignidade de uma pessoa, em particular quando cria um ambiente intimidatório, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo, seja passível de sanções penais ou outras sanções legais.” Uma redação que a Associação das Mulheres Juristas, assim como a sua presidente, a juíza do Tribunal da Relação Teresa Féria, já vieram certificar publicamente como obrigando o Estado português a penalizar especificamente o assédio sexual. Entendimento que a maioria dos deputados não tiveram e permitiu deixar de fora das alterações alguns comportamentos típicos do assédio.

“Não, o crime de importunação sexual não inclui tudo o que é dito às mulheres na rua com intenção de as amedrontar, vexar, humilhar, provocar”, admite Isabel Moreira, embora “seja difícil dizer o que está ou não integrado porque ainda não houve jurisprudência. Mas houve uma evolução clara no que respeita aos crimes contra a autodeterminação sexual e portanto a própria jurisprudência tem de dar um passo nesse sentido. Portanto, tudo o que seja, e são estas coisas que as mulheres e miúdas ouvem na rua, “fodia-te toda, comia-te toda” está incluído, claro. E parece-me que outras coisas também, porque do ponto de vista da interpretação teleológica e da tutela da liberdade das mulheres dizer “comia-te toda” ou “tens boca de broche” é a mesma coisa.” Na dúvida, conclui, aconselhável é que quem tem o hábito de se dirigir na rua a mulheres e meninas desconhecidas com comentários sexuais se abstenha: “Como não podem saber o que vai ou não ser considerado crime, calem-se.”

Nova redação

Crime de importunação sexual

“Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.” Esta é a nova redação do artigo 170.º do Código Penal. No artigo 171.º (Abuso sexual de crianças) agrava-se a moldura penal para a importunação sexual quando cometida sobre menor de 14 anos, passando o máximo da pena a três anos e sendo a tentativa punível.

Fonte: DN

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“Dopasmina”: o machismo no nome da turma de medicina da UFPB.

Por Luísa Gadelha

DOPASMINA

Em entrevista concedida em junho ao jornal L’humanité, o médico e romancista francês Martin Winkler declarou que “na França, a seleção dos estudantes de medicina ocorre sobretudo entre os jovens das classes mais favorecidas. E esses estudantes são educados para tratar pacientes de sua própria classe e não de setores operários nem sub-proletariados. É por isso que a formação medica deixa a entender, para os estudantes, que dentro da própria medicina existe uma elite, e que isso os motiva a tornarem-se parte dessa elite. Pensando nesse sentido, isso significa que ‘alguns’ valem mais que ‘outros’.”

A situação francesa parece se repetir no Brasil. Além dos absurdos do dia-a-dia e da notícia assombrosa divulgada no mês passado, de um médico brasileiro que fez chacota de um paciente  que não sabia pronunciar corretamente “pneumonia”, uma turma de alunos de medicina da Universidade Federal da Paraíba se auto-intitulou “dopasmina”, numa incontestável referência à cultura de estupro, e utilizou a alcunha para seu time de futebol.

A polêmica veio à tona depois que, criticados pelo nome da turma e do time, os alunos ainda tentaram defender seu direito de escolha, o que gerou uma nota de repúdio do Coletivo Feminista Nise da Silveira (UFPB), assinado também por mais outros 37 coletivos.

Em sua nota de esclarecimento, publicada ontem, a turma “dopasmina” insiste que o epíteto é uma referência ao neurotransmissor dopamina, sem a “intenção de fazer apologia ao estupro ou de desrespeitar as mulheres”.

Embora o grupo dopasminas, agora intitulado “turma 99”, tenha pedido desculpas, não deixa de ser preocupante a atitude de continuar negando o caráter extremamente machista e incitador de violência do nome da turma, que claramente não se refere apenas à substância. Segundo o Coletivo Nise da Silveira, “o trocadilho dopasmina é um termo bastante utilizado pelos estudantes de medicina de todo o país ao nomear festas e eventos, onde ocorrem diversas tentativas e abusos sexuais às mulheres, a maioria realizada por futuros médicos e acobertada pela própria universidade e centros acadêmicos. É notável a falta de empatia da turma com diversas vítimas e também com as colegas que, mais uma vez, se encontram a mercê do machismo e da cultura do estupro”.

Quando a própria classe médica, que supostamente deveria proteger e informar a população dá rédeas à cultura de estupro, reproduzindo comportamentos intolerantes, preconceituosos e machistas, torna-se difícil ter referências seguras daqueles que cuidam de nossa saúde.

É necessário repensar a formação de médicos no Brasil, visando sobretudo a construção de empatia e solidariedade entre médico e paciente, e não apenas uma mera marionete da indústria farmacêutica ou a escolha mais fácil de profissão para aqueles que visam estritamente o lucro.

Como bem disse Martin Winkler em sua entrevista, de maneira sucinta e direta, infelizmente “os preconceitos dos médicos são os preconceitos de classe”.

FONTE: DCM

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Jornalismo machista

As críticas à cobertura machista da participação das atletas olímpicas

JorMach

Quando se referem às competidoras de elite nos Jogos Olímpicos, os discursos jornalísticos se inclinam mais a destacar ou avaliar sua beleza, sexualizar a visão sobre seus corpos e não valorizar seus méritos.

A reportagem é de Sonia Santoro, publicada por Página/12, 16-08-2016. A tradução é do Cepat.
A cobertura destes Jogos Olímpicos destaca que quando falam de esportistas mulheres e de suas conquistas, os meios de comunicação não fazem o mesmo que quando falam de esportistas varões. “A cobertura dos meios de comunicação esportivos é majoritariamente machista, homofóbico e esconde conquistas, resultados, marcas, abusos, violências, destrato, falta de apoio que as mulheres vivem no esporte. Graças a estes Jogos isso foi evidenciado. Seria bom que dure e se siga com o mesmo olhar sobre as coberturas”, destaca a especialista em Esporte e Gênero, Marta Antúnez.

Manchetes dos meios de comunicação de todo o país e da região concordam em aplicar esses critérios. Desde Cuyo, uma logo adiantou suas preferências: “As guerreiras argentinas: mais sexys que nunca”. Uma portenha se inclinou pelos “Dez rostos bonitos que serão vistos na Rio 2016”. “A sexy esgrimista mexicana que tem um corpo escultural”, apontou outra do mesmo grupo. E, ao mesmo tempo, da América Central se expressaram a favor da “Linda do futebol que caiu na Rio 2016”, outra retrucava, de Rio de la Plata, pelas “Bonecas suecas”. O diálogo é um pouco monotemático: corpos belos (de mulheres), dependências femininas, amores que conquistam medalhas.

Antúnez observa que, desta vez, há “muita mais cobertura que outros Jogos e com a mesma misoginia”. “Ocorre que se conseguiu uma maior cobertura. Em muitas olimpíadas nem se sabia dos Jogos, a cobertura ocupava um espaço reduzido nos meios de comunicação. Ao crescer a cobertura, cresce a visibilidade e se notam mais os comentários espantosos que cotidianamente os meios de comunicação fazem das mulheres esportistas”.

“Agora, parece que todos nós estamos apreendendo que a cobertura dos meios de comunicação é machista. No entanto, pouco ou nada se fala da capa de algum suplemento esportivo, nem da quantidade de espaço que o esporte feminino normalmente ocupa nos meios de comunicação, dos títulos das notas e dos comentários dos usuários de internet sob as mesmas, sem falar das redes sociais. A cobertura dos meios de comunicação esportivos é majoritariamente machista, homofóbica e esconde conquistas, resultados, marcas, abusos, violências, destrato, falta de apoio vivido pelas mulheres no esporte. Graças a estes Jogos isso foi evidenciado. Seria bom que dure e se siga com o mesmo olhar sobre as coberturas”, acrescenta a especialista.

Barbara Duhau, da organização unpastiche.org, disse que os Jogos Olímpicos funcionam como uma lupa: “há uma quantidade suficiente ou um foco colocado nas mulheres que em outros momentos não ocorre e que permite analisar este escrutínio constante que se faz dos corpos, da invisibilização de seus méritos esportivos. É um tratamento usual que se dá às mulheres, mas neste tempo específico há uma grande necessidade de falar sobre isto. Então, muitas vezes, por nunca se tratar destes temas, porque o esporte e as mulheres quase não são abordados nos meios de comunicação, acredito que por um lado não sabem como tratá-lo e acabam ficando no ranking das mais sexys”.

Duhau acompanha este discurso midiático machista em torno das atletas, desde que sua sócia Taluana Wenceslau, que vive no Brasil, viu o que vinha com semelhante evento esportivo internacional. Por isso, decidiram encarar um Observatório de Gênero dos Jogos Olímpicos – Rio 2016, junto à organização Grow, para focar o “problema de representação, invisibilização e tratamento sexista que as mulheres recebem, neste caso específico, no esporte”.

Antes dos jogos, revisaram mais de 300 notícias publicadas nos meios de comunicação on-line. Das notas focadas nos atletas, apuraram que 61% se referiam só a homens, 22% exclusivamente às mulheres, e 17% a ambos. Isto significa uma diferença importante, já que hoje a participação de mulheres quase se equiparou a dos homens. “Desde Sydney, quando foram equiparadas as provas com as dos homens, e com a ação do Comitê Olímpico Internacional para que os esportes que sejam agregados ao programa olímpico tenham obrigatoriamente as duas categorias, a quantidade de mulheres subiu 45% nestes jogos”, explica Antúnez.

Das notícias que só falaram de mulheres, quase 27% enfatizaram a beleza das atletas. O estereótipo das mulheres não só se centra em ressaltar seu atrativo físico, como também em sempre conceder suas conquistas a fatores externos, em geral masculinos: um treinador, um amor. Exemplo disto é o monólogo de um jornal portenho sobre a nadadora que ganhou uma medalha de ouro: “A história de amor da nadadora húngara Katinka Hosszu e seu treinador, que os levou ao ouro na Rio 2016” e “A estranha relação de Katinka Hosszu com seu treinador, que a levou ao ouro e ao recorde mundial”. Mas não é único e nem novo. Quando, em 2009, a primeira mulher argentina escalou o Monte Everest, um jornal intitulou: “A argentina que conseguiu chegar ao cume do Everest, fez isto por amor”.

É que a história do sexismo e o esporte não começa, nem terminará com os Jogos do Rio, nem tampouco nos meios de comunicação de fala espanhola. Uma pesquisa de Cambridge University Press, publicada no dia 6 de agosto, analisou mais de 160 milhões de palavras de jornais, blogs e postagens em redes sociais – entre outras fontes – relativas aos esportes olímpicos e verificou que as palavras mais usadas em diversas combinações em relação às mulheres são “idade”, “grávida”, “solteira”. Ao contrário, as palavras mais utilizadas em relação aos homens foram: “rápido”, “forte”, “grande”, “real”, “fantástico”.

Quando se fala de seu rendimento, parece que os homens têm de antemão o triunfo de seu lado. Predominam palavras como “gênio”, “ganhar”, “dominar” e “batalha”, ao passo que quando se fala das mulheres aparecem “competir”, “lutar” ou “participar”. Também há uma infantilização da mulher. Muitas esportistas são chamadas de “pequena”, se fala muito das “pequenas”, frente aos pouquíssimos homens que receberão o apelido de “pequeno”. Também são utilizados termos mais tradicionais. A pesquisa diz que há duas vezes mais probabilidades que uma esportista seja chamada de “senhora”, que um atleta de “cavalheiro”. A linguagem que utilizamos pode condicionar nossas atitudes de gênero para o esporte? O estudo parece indicar que sim.

“Compreendo que o esporte é uma questão cultural, no qual os homens continuam mandando e nós, mulheres, somos esportistas de segunda e, claro, colocando-o no foco, seria estupendo que os meios de comunicação, com sua sensibilidade de gênero, possam difundir o que ocorre no esporte. Alucinar-se com os Jogos Olímpicos a cada 4 anos e perder o alvo depois é avançar como o caranguejo, para o lado”, disse Antúnez.

Depois, acrescenta: “E quando digo fazer a cobertura do que acontece no esporte não é atuar como o jornalismo machista, com os resultados das partidas e as conquistas de um campeonato, mas colocar o olhar justamente naquilo que os meios de comunicação não veem: no que acontece com nós, mulheres, no esporte, como chegam, como as federações, associações e estado fazem as políticas. Mostrar as diferenças de apoios econômicos, mecanismos de discriminação. É extenso o tema porque o esporte é muito amplo”.

Fonte: IHU

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Blog terapia, catarse e empatia

Escribir para existir: ¿Qué es la blogterapia?

Una tendencia que no solo se extendió con la explosión de las redes sociales: la necesidad de expresarse se plasma también en talleres que incluyen técnicas para escribir pero también reflexión

Blogterapia

Por Katya Nantez, de la redacción de
El Observador

Muchos comienzan en las redes sociales. Otros con el tiempo se animan a pasarse a otras plataformas más completas. Unos se basan en material fotográfico, otros le dan más peso a la escritura. Pero lo que tienen en común la mayoría de los casos es que todo empieza con una necesidad de hacer catarsis, de expresar sentimientos y de plasmar una idea o compartir con otros una realidad.

Alfonsina Almandoz, mamá de Candelaria, una niña con síndrome de Down, creó un blog llamado “Cande Down Side Up”, en el que cuenta el día a día de su hija y cómo la pequeña y su familia sobrellevan, de una forma natural, la vida con síndrome de Down. Almandoz afirmó que todo comenzó como una catarsis involuntaria: “Me resultaba sano contar lo que estaba viviendo en mi vida y enviar ese mensaje de positivismo a la gente. Es una catarsis que, en cierta medida, es difícil porque tenés que transmitir positivismo de algo que para muchos puede ser negativo”. Comenzó a escribir en las redes sociales y en su blog para, como dice en su fan page de facebook, “descubrir que la vida con Síndrome de Down es una vida up” y poder compartir este mensaje con los demás.

Mariana Olivera, comunicadora, actriz y bloguera, comenzó a escribir por una necesidad de conexión con ella misma; quería aclarar sus ideas, necesitaba encontrar un rumbo. “Escribir me salvó la vida”, contó a El Observador. Con el paso del tiempo descubrió que al compartir sus vivencias con otras personas, todos los efectos positivos de la escritura se potenciaban. Hoy, luego de haber escrito un libro sobre la maternidad (Madrecoco), el cual surgió a raíz de uno de sus blogs, Mariana se dedica a brindar talleres de, como ella misma llama, Blogging Therapy (en español sería algo así como “terapia de blogueo” o “blogterapia”). Son espacios de escritura en los que el objetivo no es solamente que los alumnos se creen un blog, sino que también se genere un momento de reflexión, de introspección y a la vez de compartir lo que se piensa.

Para Olivera, la clave para una escritura exitosa es dar rienda suelta sin censura a la imaginación y por sobre todas las cosas ser honestos y desprejuiciados, tanto con nosotros mismos como con los demás. “El objetivo es conectar con nuestro ser a través de la escritura. Es impresionante el valor que tiene un texto, un relato o un post cuando sale de mi honestidad máxima y desde la misión de desprejuiciarme en serio”, explicó. Olivera prioriza una escritura libre, que sea transparente y que permita generar empatía, más allá de las técnicas y métodos estrictos. “No creo que haya un virtuosismo literario o poético al que eventualmente accedo si soy talentoso o no. Para mí es una cuestión de libertad, de hacerlo y de conectar con uno. Todos, absolutamente todos, somos creativos, y por el hecho de estar alfabetizados todos podemos escribir y leer”, afirmó.

Alfonsina Almandoz sostuvo que cuando una persona escribe en un blog o en las redes sociales tiene que ser consciente y estar dispuesto a exponerse, pero que a pesar del precio de hacerlo y lo que eso conlleva, es de los aspectos más valorables de la experiencia, ya que con esa exposición es que justamente se logran cosas muy positivas. “Yo expongo a mi familia con un fin. Y es el fin lo importante, no la exposición. Es un costo real pero el beneficio es mucho mayor”, añadió. Además aconseja que, una vez que la persona acepta exponerse, lo mejor es entregarse de lleno a esa apertura y contar tanto las cosas buenas como las malas, y no a medias.

Catársis y empatía

Una tendencia que no solo se extendió con la explosión de las redes sociales: la necesidad de expresarse se plasma también en talleres que incluyen técnicas para escribir pero también reflexión

Tanto Olivera como Almandoz sostienen con firmeza que uno de los principales beneficios de la escritura es el “soltar”, plasmar lo que se piensa y luego poder recurrir a eso cuantas veces se desee para reflexionar o recordar. “A las palabras se las lleva el viento cuando son orales; en cambio lo escrito sentencia. Y salió de vos, lo soltaste, eso que estaba en tu cabeza ahora está ahí, y te sentís más liviana”, compartió Olivera. En la misma línea, Almandoz dijo que “la escritura regala tener para siempre ese minuto reflexivo ahí, plasmado. Me pasa que cuando escribo puedo volver a ese minuto reflexivo y releerlo”.

Asimismo, ambas recalcaron que el mejor fruto de compartir la escritura es la empatía que se genera. Señalaron que, cuando la persona escribe desde su honestidad, muchos lectores se van a sentir fuertemente identificados con su experiencia, con sus sentimientos, con su óptica y con su historia. “Cuando lo compartís, estás diciéndole a otro allá afuera que no está solo y eso es lo más valioso de la blogterapia. Su poder está en lo que genera en la comunidad, en ese poder de encontrarnos con personas que están atravesando una situación igual o semejante. Lo bueno es generar redes humanas con esto”, sentenció Alfonsina.

El miedo a la hoja en blanco

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“No existe esa cosa de ‘no tengo nada para contar’. Tú sos un ser humano, tenés una historia, te pasaron cosas, tenés mucho para decir. Es un tema de libertad, de darse el permiso para hacerlo”, aseguró la creadora de Blogging Therapy. Según ella, el bloqueo tiene mucho que ver con la desvalorización, con el “para qué me voy a animar si lo que voy a hacer va a ser una porquería, si nunca va a ser tan bueno como lo hace otro”, comentó tras asegurar que estas son excusas para “no hacerse cargo de uno mismo”.

Desde los dibujos en las cavernas de los neandertal y desde las primeras escrituras de los humanos civilizados, el gran protagonista de las historias transmitidas ha sido el hombre. Olivera está convencida de que “a la inspiración la encontramos en nosotros y que el personaje, por más que tenga otro nombre, somos nosotros mismos”. Así, todo lo que nos rodea a la vida de una persona la condiciona, y a su vez todo lo que vemos es una potencial historia. Por eso, para inspirarse tan solo hay que detenerse y observar. “El pez gordo está dentro de cada uno”, concluyó.

Consejos para crear un blog – por Mariana Olivera

– “Lo más importante es conectar con nosotros mismos y eliminar los prejuicios. Contar una idea o tema encarada desde nuestra honestidad y sin prejuzgarnos”.

– “Ser contundente. Menos es más, cada palabra que elegimos está ahí por algo. El lector de internet es muy disperso, necesita la información digerida y precisa”.
– “No es imprescindible, pero es muy recomendable escribir en papel. No dejarse devorar por la vorágine de las tecnologías y no olvidar que hay una conexión muy importante entre el cerebro y la hoja papel”.

– “No releer y corregir más de 3 veces. Luego del papel pasarlo a una versión más correcta en digital, y darle otra revisión cuando lo voy a postear, pero no más para que no comience a actuar la censura”.

– “El título y bajada del blog son muy importantes, ya que son el ‘qué’. Es importante pensarlos bien y es atractivo que no haya una literalidad estricta, sino abrirse a jugar con las palabras y mezclar conceptos”.

– “Las fotos son muy importantes para ilustrar el post. Si son sacadas por nosotros, mejor”.

– “Plataformas más recomendadas para armar un blog: Tumblr, WordPress y Blogger”.

O papel dos pais na violência dos adolescentes

Nivel de violencia en jóvenes uruguayos, similar al de Zúrich

Viol.Juv

Factores de riesgo, como el contexto o relación con los padres, son los mismos

EstatísticaTasas de victimización violenta en Montevideo y en Zúrich, en los últimos 12 meses*
Un estudio publicado por la Facultad de Ciencias Sociales, con apoyo de la ANEP, que se basó en una investigación de los criminalistas uruguayos Nicolás Trajtenberg y Manuel Eisner, reveló que los grados de violencia juvenil en Mointevideo y Zúrich (Suiza) no difieren sustancialmente.
El informe de los uruguayos –que cursaron en la Universidad de Cambridge esa carrera, inexistente en Uruguay– fue financiado por Optimus Foundation, y contó también con el aporte del Ministerio de Desarrollo Social. Si bien no tuvo una gran difusión, el objetivo de sus realizadores es que sirva para aplicar políticas públicas en materia de adolescencia.

Para el estudio se trabajó sobre una muestra de 2.000 adolescentes de liceos públicos y privados. Eso equivale a uno de cada ocho alumnos de Montevideo. Tuvo lugar sobre fines de 2013 y se basó en un cuestionario del llamado estudio z-proso, que buscó medir los niveles de violencia y victimización de jóvenes en la ciudad Suiza de Zúrich.

Cuando el estudio fue replicado en Uruguay, el Producto Interno Bruto (PIB) per cápita de Suiza era de US$ 53.000 y el uruguayo de US$ 18.000.

El estudio reveló que el robo en la vía pública y el arrebato se denuncian mucho más a menudo en Montevideo que en Zúrich. “De hecho, las tasas de robo en la vía pública en Montevideo son al menos cinco veces más altas (1.044 por cada 100.000 habitantes) que las de Zúrich (192 por cada 100.000 habitantes)”.

El 17% de los adolescentes admite haber cometido al menos un acto de violencia durante el último año.

Sin embargo “la exposición de los jóvenes a distintos tipos de violencia es sorprendentemente similar en las dos sociedades. Los niveles generales de experiencia de castigos abusivos por parte de los padres en casa, agresión y lesiones por parte de personas de la misma edad o bullying crónico son muy comparables”.

Probablemente los robos (con una tasa cuatro veces superior a Zúrich) marquen una diferencia significativa entre ambas ciudades.

En el ítem violencia grave “no se hallaron diferencias significativas para hombres ni mujeres entre las dos ciudades. De hecho, resulta llamativo lo similares que son las tasas de prevalencia de violencia autorreportada en las dos ciudades, dado que están a 11.000 kilómetros de distancia una de otra, que tienen estructuras económicas, sociales y políticas distintas, y una mezcla étnica y cultural muy distinta en sus poblaciones jóvenes”, dice el estudio.

En la perpetración de bullying, sobre todo insultos y burlas, son los adolescentes de Zúrich quienes admiten estas conductas con mayor frecuencia que los de Montevideo.

“Este es especialmente el caso para los hombres, cuyas tasas de perpetración en Zúrich son casi el doble de las de Montevideo. Este resultado contrasta llamativamente con los datos sobre victimización, donde los hombres uruguayos reportaron sustancialmente más victimización por bullying que los hombres suizos. En la actualidad, no tenemos una buena explicación de esta inconsistencia”, admiten los investigadores.

Los resultados indican que hay, en cierto modo, más jóvenes en Montevideo que están involucrados en actividades de grupo que implican el uso de violencia. “Sin embargo, en ambas ciudades la inmensa mayoría de los adolescentes no está involucrada en ninguna actividad grupal violenta”.

Los mismos

El estudio concluye que Zúrich y Montevideo podrán ser distintas en el plano económico, social y cultural, pero la mayoría de los factores de riesgo asociados con la violencia juvenil son los mismos en ambas ciudades.

“De hecho, para 21 de los 25 factores de riesgo el tamaño de la asociación estadística no difiere en ambos contextos. Aquellos factores fuertemente asociados con la violencia juvenil en un contexto también tienen una correlación alta en el otro. En el ámbito de las características individuales, la falta de autocontrol, la debilidad de las creencias en las reglas y normas convencionales, ser cínico respecto a la ley y tener pocas habilidades de resolución de conflictos están asociados con un alto índice de violencia, tanto en Zúrich como en Montevideo. En ambas ciudades, las mismas variables relacionadas con el centro educativo al que concurren los jóvenes están asociadas con la violencia: el poco compromiso con la institución tiene la correlación más alta con la violencia juvenil, seguido de una mala relación con los profesores, una mala percepción de las futuras ventajas del aprendizaje y una alta tasa en términos de escaparse del centro educativo”.

Casi dos de cada diez adolescentes reporta estar involucrado en un grupo que amenaza, roba o agrede.

Sostiene además que “las asociaciones más fuertes con la violencia en ambas ciudades son con la débil supervisión de los padres y la falta de implicación de los padres en actividades compartidas. Se ven asociaciones muy fuertes entre las conductas violentas y las actividades de rutina. En ambas ciudades, los adolescentes que pasan mucho tiempo con pares delincuentes, que consumen muchos contenidos violentos en los medios de comunicación y que pasan mucho tiempo libre a la noche con personas de su edad tienen una probabilidad mucho mayor de agredir a otros. En ambas ciudades hallamos que la violencia está fuertemente asociada con tipos no violentos de conductas problemáticas que incluyen robo, vandalismo, consumo de alcohol y consumo de cannabis”.
“Conviene señalar que dentro del ámbito de las actividades de rutina fuera de la institución educativa, los adolescentes de Montevideo tienen mayor probabilidad de pasar mucho tiempo jugando a juegos violentos de computadora que los adolescentes de su edad en Zúrich. Por ejemplo, se preguntó a los adolescentes de cada ciudad cuánto jugaban a juegos recomendados para mayores de 18 años en sus computadoras o consolas. En Zúrich, 8 % de los adolescentes señaló que jugaba esos juegos a diario. En Montevideo, la proporción era tres veces mayor, concretamente 24 %”.

Sin causa única para la violencia

“Los resultados de más de 70 años de investigaciones empíricas sobre las causas de la agresión y la violencia indican que la violencia juvenil no tiene una causa única. En lugar de eso, parece ser el resultado de la confluencia y la interacción de distintos factores de riesgo, procesos evolutivos y dinámicas de toma de decisiones a corto plazo”, señala el informe.

*Las tasas significativamente más altas en Montevideo se escriben en negrita; las tasas significativamente más bajas en Montevideo se escriben en cursiva.

**Cifras en cursiva: niveles significativamente más altos en Zúrich que en Montevideo. Cifras en negrita: valores significativamente más altos en Montevideo que en Zúrich.

Fonte: El Observador

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Sou racista, mas estou pronto para mudar

Sou racista, mas estou pronto para mudar

“Sou branco, casado com uma loira de olhos verdes e tenho dois filhos de olhos azuis. Cresci em uma família sólida, tive oportunidades e sempre contei com o benefício da dúvida”. Homem que sempre se sentiu à vontade com as desigualdades raciais explica por que (e como) decidiu mudar

souracistaFamília americana (Imagem: Beyondtheglasswall)

por Jeff Cook*

Eu sou um branco americano. Sou casado com uma linda loira de olhos verdes e tenho dois filhos loiros de olhos azuis. Fui uma criança loira de olhos azuis que cresceu nos subúrbios de Nova Jersey, em uma família sólida, com mãe, pai, um irmão e dois cães. Tive uma vida marcada pela oportunidade e pelo perdão; embora nem sempre tenha tido “muito“, sempre contei com o benefício da dúvida.

Aprendi a tratar a todos igualmente, independentemente de raça ou qualquer outro identificador demográfico. E, embora minha cidade fosse predominantemente branca, certamente não cresci isolado de outras raças e culturas.

Mesmo com a educação e a exposição com que fui abençoado, provavelmente sou racista. Não quero dizer racista como um fanático cheio de ódio que desumaniza e menospreza a vida alheia com base na cor da pele. Quero dizer que estou distante e me sinto pouco à vontade com as desigualdades raciais que existem no meu país.

É OK para mim admitir isso. Não quer dizer que eu seja má pessoa. Só que estou pronto para mudar. Admitir exigiu duas coisas: pesquisa e honestidade. Ao longo dos últimos anos, li, assisti, ouvi e participei de inúmeras discussões sobre o tema, vindas de várias fontes diferentes. Por meio desse processo, fui capaz de perceber as realidades que mencionei acima. O que é ótimo para mim, mas, para os fins deste post, vamos analisá-las um pouco mais a fundo.
Me sinto pouco à vontade com as desigualdades raciais que existem no meu país.

Raramente sou forçado a confrontar essas realidades. Certamente a mídia, social e tradicional, destaca a questão, mas não é isso o que quero dizer. Lendo um post poderoso num blog ou um tweet inspirador não significa confrontar nada. O que quero dizer é que quando a polícia me para, quando vou às compras, quando faço uma entrevista de emprego, conheço alguém etc… espero ser julgado por quem sou.

Sim, tenho tatuagens e barba, e com certeza às vezes fazem generalizações sobre mim, mas não me preocupo com isso porque sei que esses julgamentos serão esquecidos uma vez que a pessoa me conhecer. E pressuponho que isso vá acabar acontecendo, porque, mesmo com os julgamentos, terei o benefício da dúvida. Vivo minha vida me aproveitando das paredes de vidro dos outros. Isso simplesmente não é verdade para as pessoas de cor. Elas são forçadas a confrontar julgamentos todos os dias. Talvez não de maneira abertamente intolerante e odiosa (embora tenha certeza de que isso também aconteça). Mas elas têm o “déficit da dúvida”.

O vigia que faz uma nota mental de que eles por ali, a mulher que trava a porta do carro quando eles se aproximam e, sim, todas as vezes que eles são parados pela polícia só porque são negros e estão dirigindo um carro. (Não importa se você acha que isso acontece poucas ou muitas vezes, todos nós sabemos que acontece.) Então veja: enquanto eu fico muito pouco à vontade quando sou forçado a enfrentar uma realidade terrível que posso geralmente evitar, meus amigos e vizinhos de cor são forçados a enfrentá-las todos os dias.

Consequentemente, eles desenvolveram uma certa resistência em relação a esse assunto e são mais livres para discuti-lo. Isso pode ser facilmente mal interpretado como impetuosidade ou agressividade. Deixe-me colocar da seguinte maneira: todos temos em nossas vidas uma pessoa que consegue dizer a coisa que deixa todo mundo pouco à vontade. Talvez seja um amigo ou colega de trabalho, talvez seja o seu primo ou sua cunhada; quem quer que seja, a nossa atitude é geralmente achar que o problema é deles. Achamos que eles estão fazendo algo com a gente, porque estamos nos sentindo pouco à vontade com o que eles estão dizendo ou fazendo, em vez de assumir a responsabilidade pelos nossos próprios sentimentos.

Até o dia em que eu admitir que me sinto menos à vontade para falar de desigualdade racial do que as pessoas que são forçadas a lidar com isso todos os dias de suas vidas, nunca serei capaz ser parte da solução. E, se não sou parte da solução, sou parte do problema.

Não conheço as desigualdades raciais que existem no meu país.

Recentemente estava assistindo a um culto de domingo da Igreja North Point. O pastor principal, Andy Stanley, convidou dois homens negros que também eram líderes cristãos a participar de uma discussão sobre os acontecimentos recentes e o racismo em geral no país. Ambos explicaram que aprenderam como se comportar se fossem parados pela polícia. Falaram como se fosse algo perfeitamente normal. Uma lição óbvia como não beber e dirigir, ou sempre pagar suas contas. Pode não parecer tão estranho, até que eles descreveram exatamente o que queriam dizer com “como se comportar se fossem parados pela polícia”.

Uma das coisas que eles disseram foi que você nunca deve tentar pegar a carteira. Eu entendo que, se você está sendo abordado por um policial, não deve fazer movimentos bruscos, mas foi surpreendente perceber como essa lição é incutida nos jovens negros. Era algo tão profundo que, quando ele ouviu falar sobre os incidentes recentes, admitiu ter pensado: “Por que você tentou pegar a carteira? Você sabe que não deve fazer isso”.

Vou ensinar meus filhos a sempre respeitar a polícia. Vou ensiná-los a não resistir ou fugir se forem abordados, e a serem sempre abertos e honestos. Mas não vou ter de ensinar-lhes a não tentar pegar a carteira. É inimaginável ter de ensinar meus filhos como se proteger das pessoas que deveriam protegê-los.

Se ignorância é definida como falta de conhecimento, educação ou consciência, então sou certamente ignorante das desigualdades raciais que existem em nosso país. A coisa bela da ignorância, porém, é que ela é facilmente remediada — mas não sem vontade e intenção.

Um vídeo que tem circulado recentemente mostra várias pessoas sentadas num restaurante. Todas são brancas, exceto uma. A garçonete traz pizza para todos os clientes brancos. O negro então pergunta para a garçonete: “Onde está minha pizza?”. Os outros clientes respondem: “Por que você está implicando tanto? Todas as pizzas são importantes”. A ideia é ilustrar a tensão entre o movimento #blacklivesmatter (as vidas dos negros são importantes) e #alllivesmatter (todas as vidas são importantes). Acho que é uma excelente ilustração, mas deixa de fora um dos fatores mais importantes. Ela teria sido muito mais precisa se os homens brancos estivessem de olhos vendados. Porque, queiramos ou não, a maioria de nós está de olhos vendados em relação às coisas que as pessoas de cor enfrentam todos os dias. Não é culpa nossa, mas se as coisas vão mudar um dia, depende da gente.

Meu desconforto e minha ignorância podem ser atribuídos principalmente a uma coisa:

Estou distante das desigualdades raciais que existem no meu país.

Moro em Nova Jersey. Não passei vida inteira sem interagir com pessoas de cor. Não me informo só pela mídia sobre as outras culturas e raças que não a minha. Tenho amigos, colegas de trabalho, vizinhos, mentores e parentes que são pessoas de cor, mas ainda estou distante das desigualdades raciais que marcam suas vidas. Nunca foi segredo que fui “jovem rebelde”. E com isso quero dizer que eu era um criminoso. Tomei decisões muito erradas e fiz um monte de coisas horríveis. Coisas que jamais serei capaz de reparar plenamente.

Mas nunca passei mais que um fim de semana na cadeia. Sempre atribuí a realidade de ser um homem livre a Deus me protegendo e me permitindo aprender as lições sem passar tempo na cadeia. Entretanto, tenho de reconhecer que minha carta de “saída livre da prisão” veio, pelo menos em parte, devido à minha capacidade de me queimar no sol em apenas 15 minutos. Também expresso regularmente minha gratidão por todas as oportunidades que me deram para fazer coisas para as quais eu não era qualificado. Me deixaram ficar nos bastidores várias vezes, e isso formou quem sou e me desenvolveu em minha área, sem nenhuma explicação razoável.

Nunca saberei com certeza, mas tenho de me perguntar se minha experiência seria diferente se eu fosse diferente. O “déficit da dúvida” enfrentado pelas pessoas de cor ao longo das suas vidas é algo que estou apenas começando a entender. E essa compreensão é apenas intelectual. Diz-se frequentemente que a maior distância no mundo é de 46 centímetros, a distância entre a cabeça e o coração. Sempre estarei distante do déficit da dúvida até que eu permita que ele se aproxime do meu coração. A questão então é: como?

Conhecer alguém.

Não estou dizendo conhecer alguém como os brancos costumam dizer quando o assunto racismo vem à tona: “Um dos meus melhores amigos é negro”. Quero dizer que tenho de entrar. Superar meu desconforto. Tenho de ter a intenção de me educar e aumentar minha conscientização para diminuir minha ignorância. Tem de ser algo pessoal.

Tenho deixar meu coração se cortar com o fato de que há pessoas neste país que nunca, jamais recebem o benefício da dúvida. Tenho de me importar o suficiente para fazer algo. Algo mais que só escrever um post de blog ou compartilhar um vídeo. Tenho de construir relações genuínas com pessoas de cor e parar com essa idiotice de “não enxergo cores”.

Tenho de enxergar cores e aprender a apreciá-las pelo que elas são. Tenho de me permitir participar e curtir uma cultura que não é a minha. Uma cultura que tem seus prós e contras, como todas as outras. Tenho de estar disposto a estar perto o suficiente para aplaudir quando há uma vitória, lamentar quando há uma perda e denunciar quando há injustiças. Tenho de enxergar meus irmãos e irmãs de cor como família.

Tenho um certo grau de poder e privilégio por causa da cor da minha pele. Não me sinto culpado. Não pedi nem procurei, mas tenho. A responsabilidade por ter esse privilégio não é minha; mas a responsabilidade do que faço com ele privilégio, sim.

*Jeff Cook é apaixonado pela mudança de uma perspectiva única sobre cultura, fé e humanidade, HuffPost US

Fonte: Pragmatismo Político

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Deus decide

Bebês pecadores

des

Por Marcelo Gruman

Já carecas de saber, pelo menos assim espero, peço desculpas por repetir-lhes algumas informações referentes à microcefalia. Há um motivo para isso.

A microcefalia é uma condição neurológica rara em que a cabeça e o cérebro da criança são significativamente menores do que os de outras da mesma idade e sexo, condição esta normalmente diagnosticada no início da vida. Crianças com microcefalia têm problemas de desenvolvimento. Não há uma cura definitiva, mas tratamentos realizados desde os primeiros anos melhoram o desenvolvimento e qualidade de vida. A microcefalia pode ser causada por uma série de problemas, dentre as quais: malformações do sistema nervoso central; diminuição do oxigênio para o cérebro fetal; exposição a drogas, álcool e certos produtos químicos na gravidez; desnutrição grave na gestação; rubéola congênita na gravidez; toxoplasmose congênita na gravidez; infecção congênita por citomegalovírus.

Sabe-se, hoje, que a microcefalia pode ser consequência do zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti, o mesmo que transmite dengue e chikungunya.

A criança com microcefalia pode apresentar as seguintes complicações: déficit intelectual; atraso nas funções motoras e de fala; distorções faciais; nanismo ou baixa estatura; hiperatividade; epilepsia; dificuldades de coordenação e equilíbrio; alterações neurológicas.

O inferno na terra, não? Para os pais, para os filhos, para os parentes próximos, para amigos da família.

Pois bem. Foram divulgados dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão, com 3.155 gestantes de todas as regiões do país no intuito de mapear as demandas das grávidas brasileiras e identificar como elas têm lidado com o vírus zika, que motivou a declaração de emergência internacional em saúde. O projeto tem o apoio da ONU Mulheres e da Fundação Ford. A informação que mais me chamou a atenção foi o fato de cerca de um quarto das entrevistadas acreditar que a prevenção não é de grande valia, pois é Deus quem decidirá se o bebê terá microcefalia. 41% das entrevistadas têm, no mínimo, ensino superior, prova de que o alienamento da realidade não tem relação direta com o menor ou maior grau de educação formal.

É revoltante testemunhar o quanto a sociedade brasileira, no rastro do que vem acontecendo em outras partes do mundo, mergulha cada vez mais profundamente em narrativas sacralizadas descoladas da realidade sensível. De nada adiantam os avanços no conhecimento científico aplicado à medicina porque, ao fim e ao cabo, o arbítrio está nas mãos de alguém ou algo que não se vê e a quem é dado o poder de vida e morte. De nada adiantam campanhas de prevenção e profilaxia, responsabilizando a cada um nós por atitudes que contribuem ou não para o controle ou descontrole da epidemia de uma doença, a zika, que há muito deveria estar extinta. Lavar as mãos em nome da tutela de um pai-padrasto que pune ou recompensa de acordo com critérios obscuros, infantilizar-se é, no mínimo, expressão de covardia atroz com quem ainda não pode se defender.

Ouvi, certa vez, um rabino dizer que mesmo os bebês judeus assassinados nas câmaras de gás dos campos de extermínio nazistas mereciam, de uma forma ou de outra, a partir do julgamento “divino”, a punição. As razões serão para sempre desconhecidas, mas o ditador celestial (magnífica expressão de Christopher Hitchens) não se equivoca, manda quem pode, obedece quem tem juízo. As gestantes que responderam não acreditar muito na prevenção humana contra a aquisição de microcefalia pelos próprios filhos têm, se não com as mesmas palavras e o mesmo teor ideológico, o mesmo discurso do rabino. Não há o que fazer, o destino já foi traçado, só nos resta a resignação.

Quem, conscientemente, dotado de todas as faculdades mentais, sem microcefalia, ESCOLHE abdicar do livre-arbítrio em nome de um poder sobrenatural opressor?

Quem está mais doente: a mãe que acredita ser o sofrimento terreno uma espécie de provação a caminho do paraíso, ou o filho que terá de conviver, se assim deus ou que outro nome tiver esta eminência parda determinar, com todo tipo de dificuldades físicas e psicológicas fruto da miséria intelectual de quem o concebeu?

Que Deus nos proteja…

Links:

http://www.minhavida.com.br/saude/temas/microcefalia

http://oglobo.globo.com/rio/um-quarto-das-gravidas-atribui-microcefalia-deus-diz-pesquisa-19834338

Fonte: Des-Construindo Marcelo

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