A homofobia enquanto não “sai do armário” e o sofrimento de uma vida dupla

#Psicologia: As neuroses de quem não “sai do armário”

saindodoarmario

Por Fabrício Viana*
Entre gays e “não gays” encontramos diversos indivíduos considerados “neuróticos” ou com algum desequilíbrio emocional. Infelizmente isso é “quase” comum nesta sociedade nem tão boa como imaginamos.

Claro que a homossexualidade, em si, não é o fato dessa desordem, afinal, hoje sabemos que ela não é considerada doença pela comunidade médica e científica (a homossexualidade é apenas uma expressão natural da sexualidade humana, e apenas isso!). O que causa a neurose são os conflitos que o indivíduo possui entre seus desejos (ID) e o que a sociedade impõe (superego), que faz com que o mesmo (ego) se torne fragilizado.

Se a sociedade não fosse tão preconceituosa e os homossexuais não aprendessem desde pequeno que seus desejos são “errados”, é muito provável que muitas neuroses deixariam de existir. Isto é, nem seriam criadas.

Entretanto, quanto maior o desejo e quanto mais reprimido ele for pela sociedade (ou mesmo pelos pais), mais forte se torna o ciclo “neurotizante”, ao ponto de, com o tempo, podendo apresentar reações psicossomáticas, psicomotoras (famosos “tiques nervosos”), de isolamento, confusões mentais e até psicoses (loucura). Entre outros sintomas de desequilíbrio mental, como um dos casos que cito no meu livro sobre a homossexualidade chamado O Armário:

“Para termos uma ideia mais precisa do quanto complicado é viver uma vida dupla, de mentiras e com grande desperdício de energia psíquica, vamos a um caso bem interessante de um rapaz. Noivo e com uma vida bastante conturbada, ele começou a criar – para sua futura esposa, amigos e familiares – desculpas para sair à noite, conhecer rapazes e ter seus encontros puramente sexuais (afinal, é a única coisa que poderia fazer nestas suas breves saídas – saciar seus desejos). Porém, a frequência com que saía aumentava ao ponto dele precisar criar histórias e personagens para suas desculpas, para que ninguém desconfiasse da verdade. A mais utilizada era a de que ele estava indo para a casa de um colega de trabalho resolver pendências, colega que só existia em sua mente. Para que a desculpa não fosse sempre a mesma, ele inventou uma filha desse colega, e que sempre o ajudava levando-a para o hospital (pois ela fazia um longo tratamento, segundo ele). Quando essa história também se saturava, ele criava outro personagem, um outro amigo de trabalho, um outro parente deste colega, uma tia com que tinha perdido contato desde pequeno, mas que morava em outra cidade, e por aí foi. Em apenas dois anos, esse rapaz se encontrava em uma situação muito complicada. Ele criou tantos personagens e tantas histórias em sua mente, para dar as desculpas, que foi parar em um tratamento psicológico em estado grave (quase de psicose) com o objetivo de tentar separar quem de sua vida era real e quem era imaginário (criado por sua mente), pois ele não sabia mais ‘quem era quem’.” (página 97 e 98, livro O Armário)

Logo, a matemática de uma vida dupla é simples: se você tem uma pilha e usar metade de sua energia para uma vida saudável e a outra metade com o objetivo de “esconder-se”, é diferente de usar a mesma pilha/energia 100% ao seu favor, isto é, “fora do armário” e sendo você verdadeiramente em qualquer lugar com todos os seus desejos e com uma vida afetiva e sexual plena e satisfatória. Algumas empresas já sabem disso, segue mais um trecho do meu livro:

“Algumas empresas de recursos humanos já sabem, por exemplo, que um rapaz no trabalho que não é assumido gasta muito mais energia escondendo seus desejos e vida homossexual do que outro – também homossexual – que não precisa escondê-los. Optam por aquele que é assumido, afinal, ele produzirá muito mais que o outro.”
Claro que chegar a este ponto não é algo inatingível, acredito que, se muitos conseguem, você e qualquer pessoa também pode conseguir. Tudo bem, sabemos que isso não acontece de um dia para outro. Tudo depende de você e do caminho “lento” ao objetivo final, mas se você não começar a batalhar por sua vida e por sua felicidade, quem irá? Lembre-se de que, a única pessoa que sabe o que é melhor para você é você mesmo. Se escolher “sair do armário“, ótimo, parabéns e ao mesmo tempo esteja preparado para as grandes dificuldades que irá encontrar. Se escolher continuar “no armário”, ótimo também. Mas você não acha que vai desperdiçar grande energia onde poderia investir?
Digo isso pois é comum homossexuais assumidos, quando chegam ao seu “último estágio de aceitação”, pararem e pensarem: “como é gostoso ser quem realmente eu sou, não ter que esconder minha orientação sexual para amigos, familiares, colegas de trabalho ou estudo”. Tiro isso por mim e por muitos amigos, de todas as idades, que vez ou outra, comentam sobre. Lembrando que, não basta apenas sair do armário, também precisa – e isso é muito importante – livrar-se completamente da homofobia internalizada, que muitos homossexuais, mesmo assumidos, carregam consigo. Falo também no meu livro. Lembrando que ele não é vendido em livrarias, apenas neste link (144 páginas) ou a versão digital no site da Amazon Brasil

Portanto, o que vale, realmente, é refletirmos sobre tudo isso. E divulgar essa matéria para o máximo de pessoas possíveis. Precisamos ter uma vida autêntica antes de tudo.

Abraços fraternos,

Fonte: Fabrício Viana* é jornalista, bacharel em psicologia com pós em marketing, autor de vários livros com temática LGBT

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O Rio Grande do Sul é um dos únicos Estados do país que nunca reelegeram um governador.

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O Parque da Harmonia, às margens do lago Guaíba, é um local simbólico em Porto Alegre para explicar uma divisão ideológica gaúcha muito bem marcada. Foi ali, em janeiro do ano 2000 que a cidade recebeu a primeira edição – e posteriormente todas as outras – do Fórum Social Mundial, um dos maiores eventos da esquerda e dos movimentos anti-globalização da contemporaneidade. Por uma semana o parque foi tomado por barracas de lona no chamado Acampamento da Juventude. Em agosto daquele mesmo ano, o que eram barracas viraram casas de alvenaria, as comidas orgânicas lá vendidas deram lugar ao churrasco, e famílias inteiras ocuparam o espaço do estudantes hippies que estiveram no Fórum em janeiro. Acontecia mais uma edição do Acampamento Farroupilha, um evento que dura um mês e acontece desde 1978 no Parque da Harmonia para celebrar a Revolução Farroupilha e as tradições gaúchas.

“Adoraria que esse acampamento fosse permanente, porque assim não teria mais espaço para aquela orgia vermelha aqui no parque”, disse o tradicionalista Evaristo Righetto, se referindo ao Fórum Social Mundial, enquanto me guiava pelo acampamento farroupilha que ainda estava em construção. “Não somos conservadores. Apenas ensinamos as meninas a serem mulheres e os meninos a serem homens”, disse. É quase impossível de acreditar que eventos tão opostos acontecem naquele mesmo chão de terra batida. Essa é uma das peculiaridades do Estado onde valores conservadores são tão fortes quanto os ideais progressistas.

Na política, o conservadorismo leva os eleitores a votarem em candidatos que já conhecem, ainda que sejam de esquerda. “Preferimos o que já conhecemos do que o progresso”, diz Ronald Hillbrecht, professor de economia da UFRGS.

A última pesquisa eleitoral, publicada pelo Ibope na sexta-feira 09, mostra o candidato do PMDB, Sebastião Melo, vice-prefeito da atual gestão, em primeiro lugar (22%), seguido de Raul Pont (PT), ex-prefeito da cidade, em segundo (19%). Em terceiro, está Luciana Genro (PSOL), com 17%.

Como uma capital conservadora pode votar em partidos de esquerda? O que pode parecer contraditório, para o Ronald Hillbrecht, professor de economia da UFRGS, é natural. De acordo com ele, lideranças de esquerda não significam progressismo. “Se você olhar para Porto Alegre, os principais candidatos que estão despontando nas pesquisas eleitorais são de partidos socialistas e quando a maioria da população prefere partidos socialistas, isso é um mau sinal”, diz. “O problema de partidos socialistas é que a plataforma econômica deles é conservadora, não leva ao progresso”.

A dicotomia segue na disputa do Estado. Conservador sim, pero no mucho. O Rio Grande do Sul é um dos únicos Estados do país que nunca reelegeram um governador. “Sempre houve alternância nas eleições do Governo do Estado, e sempre com um padrão de alternâncias opostas”, explica Rodrigo Gonzáles. Diferentemente de São Paulo, cujo Estado é comandado pelo PSDB há 17 anos, no Rio Grande do Sul nunca um governador foi reeleito desde a redemocratização do Brasil.

Gonzáles explica que na década de 1940, a alternância ocorria entre o PTB e aqueles que se diziam anti-PTB. “Nos últimos anos, esse padrão se tornou PT e anti-PT”, diz. Mesmo os partidos que nacionalmente se aliam ao PT, caso do PMDB nas últimas eleições presidenciais, no Rio Grande do Sul concorrem contra o partido de Lula. “Isso significa um padrão de menor tolerância para alianças”, diz Gonzáles. “E uma disponibilidade menor de diálogo com o diferente”.

Fonte: IHU

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“Comecem pela saúde mental dos políticos”

UE exige aos governos que tratem melhor a saúde mental

smp

Só metade dos doentes mentais graves que vivem nos países da União Europeia têm acesso a cuidados adequados. Os efeitos negativos destas doenças representam 450 mil milhões de euros/ano. Por isso, a Europa quer compromissos e atuação.

A União Europeia (UE) quer que os países europeus assumam um compromisso sério para garantir mais cuidados de saúde mental. Por isso os 25 Estados membros, mais a Islândia e a Noruega, reuniram-se para avaliar problemas e fazer propostas para dar mais tratamentos, consultas, prevenção e envolver mais áreas políticas. O retrato assim o exige: as doenças mentais são muito comuns e têm um efeito negativo na qualidade de vida pessoal e profissional (representam 22% da carga das incapacidades); são mais de 450 mil milhões de euros anuais os custos diretos e indiretos (cuidados médicos, faltas ao trabalho, etc.); só cerca de metade dos doentes mentais graves na UE têm acesso a tratamentos adequados e há infraestruturas institucionais ultrapassadas. A avaliação recaiu em cinco áreas, para as quais a UE faz propostas e pede aos países que implementem as recomendações, façam uma avaliação dos resultados e que mudem a legislação se preciso: são as Linhas de Ação Estratégica para a Saúde Mental e Bem estar da União Europeia. Os projetos inovadores vão ter apoio para que possam ser implementados nos restantes países.

Portugal tem legislação e um Plano de Saúde Mental que vai ao encontro das recomendações da UE. Mas como estamos neste retrato? “Numa situação pouco confortável. Temos seguido a um ritmo lento, influenciado pelas políticas nacionais e pela crise financeira. Entre 2012 e 2015 houve um retrocesso, com perspetiva de reativar a institucionalização”, disse ao DN Álvaro de Carvalho, diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, referindo que Portugal não precisará de grandes alterações legislativas para pôr em marchas as recomendações da UE. Precisa sim, de outra organização e financiamento, sobretudo para cumprir o objetivo da integração dos doentes na comunidade. “Sem uma mudança do modelo de financiamento e de governação para os serviços locais não podemos aprofundar muito o que quer que seja. A fonte de financiamento dos hospitais são as consultas e os internamentos. Há um modelo que está a ser estudado no âmbito dos EEA-Grants [programa de financiamento europeu] em que o dinheiro segue o doente, à semelhança do que acontece com a diabetes e VIH, em vez de ser um valor per capita. Se o doente precisar de cuidados na comunidade é acionado um financiamento especifico”, explica, referindo que é este o modelo que vai ser proposto ao Ministério da Saúde.

O modelo de organização teria por base os centros de responsabilidade integrada já previstos desde 1999, mas que não avançaram. “Os serviços locais de saúde mental seriam centros destes. O diretor estabelece um plano para determinado tempo, recebe o orçamento de acordo com os objetivos. Se não cumprir é penalizado”. O atual ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes, já disse que os centros de responsabilidade integrada são uma das áreas a apostar.

Mais cuidados na comunidade e menos nos hospitais

› Segundo a UE, ainda existe um longo caminho a percorrer na criação de uma rede de cuidados mentais na comunidade e na disponibilização de cuidados socialmente inclusivos e de boa qualidade na Europa. Defende-se, por isso, uma ligação mais próxima com os centros de saúde, a cooperação com os serviços sociais e de emprego para que existam projetos vocacionais ou residências acompanhadas. Um dos exemplos de boas práticas saiu de Portugal, que coordenou este grupo de trabalho na ação conjunta europeia. Aliás, o modelo de novo financiamento que está a ser estudado em Portugal tem por base um projeto desenvolvido em Oeiras, com uma equipa do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental que em 2009 recebeu financiamento por ser um programa inovador.

No terreno trabalha uma equipa com psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. Estão numa casa alugada em Caxias, onde os doentes mentais graves, que mais dificilmente iriam ao hospital, têm consultas e planos individuais. E onde a família destes também participam. “O facto de termos instalações nestes locais é socialmente mais inclusivo. Trabalhamos com o doente e apoiamos a família. Trabalhamos com as estruturas locais – Câmara de Oeiras, juntas de freguesia, associações recreativas, Instituto do Emprego – e em articulação com os Cuidados de Saúde Primários o que permite promover uma melhor integração para os nossos doentes. Após uma crise fazemos a reabilitação inicial e trabalhamos com instituições que promovem formação e emprego apoiado. Quando não é possível para o doente, existem os fóruns ocupacionais, onde têm atividades, relacionamento com outras pessoas, desenvolvem competências. Dá-lhes objetivos. Sem isto, a alternativa após internamento seria irem para casa, ficarem isolados, e ter consulta de dois em dois meses no hospital”, explicou ao DN Joaquim Gago, coordenador da equipa, que reconhece que o financiamento tem sido difícil e que projetos como este são ainda exceções e não a regra. Com este modelo de cuidados integrados, acrescenta, é possível diminuir os internamentos e as recaídas devido a prestação de cuidados diferenciados na comunidade e assim conseguir melhorar a inclusão social e a qualidade de vida destes doentes.

Prevenir as depressões e reduzir o risco de suicídio

› A UE quer que esta seja uma prioridade. “Agir contra a exclusão económica e social, a violência doméstica, o bullying, consumo de drogas e álcool”, pode ler-se nas linhas estratégicas europeias, que defendem ainda o apoio das redes sociais de proteção e o aumento do reconhecimento da depressão e o acesso a tratamentos com mais psicoterapia e ferramentas eletrónicas. No caso Portugal já foram implementados projetos que estão a chegar aos centros de saúde do país de formação de médicos e enfermeiros “para capacitação do diagnóstico da depressão e tratamento”, diz Álvaro de Carvalho, adiantando que “nos centros de saúde estão a ser incluídos indicadores de saúde mental na avaliação das grávidas”. O plano do Governo passa por ter também psicólogos nos centros de saúde. Aqui, fica um alerta. “Tem de ter formação em psicoterapias, que são intervenções mediadas pela palavra em que a medicação não é a componente principal”, defendeu o diretor do programa nacional de saúde mental.

Escolas: um aliado para promover a saúde mental

› A maioria das doenças mentais começa antes da idade adulta. Por isso a UE afirma que as escolas são fundamentais para prevenir as doenças mentais, reconhecimento da doença e informação sobre os tratamentos. Recomenda, pois, que haja formação a todos os funcionários e que as escolas sejam vistas como uma parte da rede. Portugal já está a agir. “Foram desenvolvidos dois projetos, um com equipas de saúde outra com equipas educativas [professores] que procura sensibilizar para a valorização dos sinais de sofrimento de crianças e adolescentes [por exemplo perturbações no sono ou lesões autoinfligidas]. Já está a ser estendido a todo o país”, disse Álvaro de Carvalho.

Promover melhor saúde nos locais de trabalho

› A principal recomendação da UE é a intensificação da colaboração política entre a saúde e o trabalho para a criação de estratégias que envolvam as empresas. É uma forma de combater as reformas antecipadas e faltas ao trabalho por doença mental, que aumentaram nos últimos anos. Querem que haja a identificação e combate aos fatores de risco psicossocial, promoção de vida saudável e serviços de saúde disponíveis para os trabalhadores que precisem. Em Portugal já existe um projeto que pretende avaliar a pressão que a crise criou nos locais de trabalho e o apoio dado aos grupos mais afetados.

Saúde mental tem de estar em todas as políticas

› Público, privado, políticas internacionais, nacionais, regionais. A UE quer que todas as decisões tenham em conta os efeitos que as medidas podem ter na saúde mental da população. Consideram que é fundamental que haja mais conhecimento sobre a saúde mental para que se reduza o fosso que existe entre as decisões e o impacto destas. No nosso país decorre um estudo sobre o impacto da crise na saúde mental.

Comentários:

Guilherme Gonçalves · Fisioterapeuta na empresa Hopital Meulan les Mureaux
Comecem pela saúde mental dos políticos ?
Gosto · Responder · 4 · 19 de Setembro de 2016 2:13

Alexandra Abreu · Gestao e coordenaçao na empresa Gestão e Coordenação Pedagógica
Ora aqui está uma boa exigência
Gosto · Responder · 1 · 19 de Setembro de 2016 8:51

Fonte: DN

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Reparando a escravidão com cotas na universidade

Universidades dos EUA começam a enfrentar seu passado escravocrata

A jesuíta Georgetown anuncia que dará facilidades de acesso aos descendentes de 272 escravos vendidos em 1838

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Joe Stewart posa ao lado de Patricia Bayonne-Johnson em Georgetown. Os dois descendem do grupo de escravos vendidos em 1838.

“Eu me chamo Joe Stewart e sou descendente de um dos 272. Vocês dizem que a única coisa que falta neste debate são os rostos dos afetados. São estes”, disse solenemente este homem afro-americano, indicando com a mão quatro mulheres que, ao lado dele, participavam de um ato cerimonioso na Universidade Georgetown (Washington). Os 272, seus ancestrais, eram os escravos que os jesuítas venderam em 1838 para saldar uma dívida e garantir a sobrevivência da que hoje é uma das melhores universidades do mundo: 115.000 dólares da época – 3,3 milhões de dólares atuais (10,8 milhões de reais)– por um grupo de famílias que foram separadas por seus compradores ao chegarem em Louisiana, ao contrário do prometido.

Os investigadores da universidade afirmam que os jesuítas possuíam mais de mil escravos nas plantações da região. Não eram os únicos. Brown, Princeton e Emory também os tiveram. Apesar de esse episódio ser amplamente conhecido pelos historiadores, o assunto é o centro de um intenso debate público desde o ano passado, quando o movimento estudantil contra a discriminação racial chamou a atenção para isso. E agora é parte do debate sobre a divisão racial do país.

Georgetown, a primeira instituição educacional católica dos EUA e uma das mais prestigiadas do país, deu um passo histórico na quinta-feira ao anunciar que oferecerá reparações aos descendentes dos 272 e lhes dará preferência para estudar em suas classes. A instituição também anunciou que um de seus edifícios se chamará Isaac, nome de um dos escravos vendidos, e outro será batizado em homenagem a uma professora afro-americana que pertenceu a uma ordem católica.

“O demônio que definiu os primeiros anos da república estava presente aqui”, afirmou na quinta-feira o presidente da Universidade Georgetown, John DeGioia, ao anunciar a decisão, que coincide com a publicação de um relatório realizado pela própria instituição sobre seu passado escravocrata. A universidade jesuíta celebrará também uma missa na qual “buscará o perdão por ter participado da instituição da escravidão, especificamente pela venda de 272 crianças, mulheres e homens que deveriam ter sido considerados membros de nossa comunidade”.

“Georgetown merece reconhecimento por ter tomado essa decisão que demonstra seu compromisso de participar de uma conversação de longo prazo sobre como curar as feridas”, afirma Craig Steven Wilder, autor do livro Ebony & Ivy, dedicado à herança escravagista das universidades dos Estados Unidos. “Mas os relatórios e as conversações não curam. Precisamos de ações concretas.” O especialista sente falta de um compromisso econômico mais sólido por parte da Georgetown e medidas que favoreçam a entrada de mais estudantes afro-americanos, que representam agora 6% de seus 18.500 alunos.

Karran Harper Royal também. Ela foi a encarregada na sexta-feira de ler o comunicado dos descendentes dos 272. Enquanto Georgetown investigava seu rastro com peritos em genealogia, esta trabalhadora da área social de Luisiana começou a fazer o mesmo pela Internet, prosseguiu nos arquivos dos museus e viajou a antigas plantações. “É uma descoberta que estou aprendendo em tempo real. Há milhares de pessoas conectadas”, explica. “E eu precisava saber por que sou quem sou.” Graças aos testes de DNA, sabe que seu marido e filhos descendem de um dos escravos que a universidade vendeu. “Georgetown deu um bom passo, mas queremos trabalhar com eles para que sigam ainda mais longe.”

Wilder afirma que os 272 pertenciam à última geração escravizada na universidade, onde fazia cinquenta anos eram empregados em serviços de construção, manutenção ou para atender funcionários e estudantes. Como Georgetown, a Universidade Brown anunciou em 2006 a criação de um instituto para o estudo da escravidão e um monumento em nome de suas vítimas. Outras instituições deram passos semelhantes, mas numa em forma de compensações econômicas.

“Eles têm medo do termo reparações e temem criar um precedente que teria um custo importante”, explica o historiador do Massachusetts Institute of Technology. “Estamos falando de algumas das instituições mais ricas do país.” O escritor documentou em seu livro como a época de maior crescimento nas universidades dos EUA, em meados do século XVIII, coincidiu com um dos picos históricos do tráfico de escravos. Na época somavam 400.000 pessoas escravizadas. Um século depois eram quatro milhões: a quinta parte da população.

A identificação dos descendentes diretos é praticamente impossível pela falta de registros oficiais. Universidades como Brown, Princeton e Emory não registraram a venda de escravos, já que isso correspondia às famílias às quais cada instituição pertencia na época. Em Georgetown, a história é diferente. “É mais fácil identificá-los porque os jesuítas guardavam arquivos de todas as suas atividades empresariais”, afirma Wilder.

Os protestos estudantis dos últimos anos, reivindicando gestos como o da Georgetown, coincidiram também com a publicação de novas pesquisas e trabalhos em torno da herança da escravidão em empresas, instituições e universidades de todo o país que escoraram seu sucesso econômico com o trabalho de mão de obra escrava.

É a última tentativa de recuperar o debate da reconciliação iniciado por Boris Bitker em 1971, com seu ‘Argumento pelas reparações a afro-americanos’ para “curar as feridas (…) de quem levará durante décadas as cicatrizes de séculos de escravidão”. Em termos semelhantes, Harper Royal explicou na sexta-feira em Georgetown que querem “romper as correntes dos corações e das mentes de quem nunca foi fisicamente escravizado, mas ainda assim trabalha sob os vestígios da escravidão em nosso país”.

Fonte: EL PAÍS

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14/09/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21
14/09/2016 – PORTO ALEGRE, RS – Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Telmo Kiguel: “se o discriminador faz mal ao outro, porque a ciência não pode pensar numa prevenção a esse modo de conduta?”.

Por Marco Weissheimer

No dia 8 de setembro, o Comitê Contra a Intolerância e a Discriminação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), promoveu um debate sobre os efeitos da discriminação na área da saúde. Participaram do debate Raquel Silveira, do Instituto de Psicologia da UFRGS, e Telmo Kiguel, médico psiquiatra e coordenador do Projeto Discriminação da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Esse projeto tem como objetivo básico a apropriação do estudo pela Psiquiatria da Conduta Discriminatória, cuja origem é basicamente psicológica e produz sofrimento mental e/ou físico no discriminado podendo chegar, em casos extremos, ao suicídio.

Em entrevista ao Sul21, Telmo Kiguel fala sobre esse projeto e defende a necessidade de uma maior mobilização dos profissionais da saúde mental no debate sobre esse tema. Hoje, na sociedade, assinala o psiquiatra, há somente duas instâncias que auxiliam a inibir as condutas discriminatórias: a ação organizada dos grupos discriminados e de seus apoiadores e o Direito que já tipifica como criminosa determinadas condutas como o racismo. No entanto, ressalta, o psiquismo presente em todo o processo discriminatório ainda requer um estudo mais aprofundado visando a busca de um diagnóstico compatível com a tipificação de um crime dada pelo Direito.

Sul21: Como nasceu o seu interesse por esse tema do papel da ciência na prevenção de condutas discriminatórias?

Telmo Kiguel: Eu sou psiquiatra e trabalho com psicoterapia de orientação psicanalítica. Tenho interesse neste tema desde o final da década de 60 quando me especializei em Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Naquela época, ainda vigia uma definição do doente mental como alguém que fazia mal para outras pessoas ou mal para si mesmo. Quando se descobriu o papel dos vírus e bactérias no surgimento de certas doenças, a ciência se preocupou em desenvolver procedimentos para detectar e neutralizar a ação desses microrganismos por meio de vacinas, abrindo a partir daí a possibilidade da prevenção. Isso mudou profundamente o mundo. Quando eu me formei, a especialidade mais procurada era a pediatria. Com o desenvolvimento das vacinas, ela foi se tornando uma das menos procuradas, pois os problemas de saúde das crianças diminuíram muito.

Pensando neste cenário, uma coisa sempre me intrigou: se o discriminador faz mal ao outro, porque a ciência não pode pensar numa prevenção a essa conduta? Há cerca de dez anos, consegui instalar na Associação Brasileira de Psiquiatria esse projeto sobre discriminação. A ideia é que, se não se definir e não se diagnosticar a conduta do discriminador, especialmente do racista, do machista e do homofóbico, continuaremos sem um trabalho de prevenção nessa área. Quando se isolou o vírus da gripe e se desenvolveu uma vacina para a doença, isso provocou uma grande mudança do ponto de vista da prevenção. Nunca mais tive uma gripe depois que passei a tomar uma vacina. Faz mais de dez anos que eu não tenho essa doença.

14/09/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21
14/09/2016 – PORTO ALEGRE, RS – Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

“O conhecimento de uma definição científica psiquiátrica ou jurídica pode inibir condutas sintomáticas ou criminosas”.

Em um mundo ideal se definiria/diagnosticaria o discriminador e, uma vez definido, ele sofreria o impacto desta definição e isso inibiria a sua conduta. Na década de 70, homossexuais e suas lideranças pressionaram a ciência, por meio da Associação Americana de Psiquiatria e a homossexualidade deixou de ser classificada como doença. Posteriormente, aqui no Brasil, grupos discriminados pressionaram a Ciência Jurídica e conseguiram, por exemplo, que a conduta discriminatória racista e machista passassem a ser definida como crime.

O conhecimento de uma definição científica psiquiátrica ou jurídica pode inibir condutas sintomáticas ou criminosas. Um exemplo disso aparece no trânsito. Os motoristas conhecem a lei que limita a velocidade: uns respeitam, outros não; na maioria das vezes respeitam, mas, eventualmente, não. E é assim porque os motoristas tomaram conhecimento desta lei.

Esse é o princípio que rege esse projeto sobre as condutas discriminatórias. Eu posso olhar para ti dizer que está com febre. Você me responde dizendo que não está com febre e eu insisto que está e proponho que usemos um termômetro para tirar a dúvida. Em três minutos a ciência decide se você está ou não com febre. Acabou a discussão.

Sul21: Na sua opinião, há algo como um termômetro que pode medir e definir condutas discriminatórias com essa precisão?

Telmo Kiguel: A aceitação de que o termômetro é o grande juiz levou muito tempo. Tiveram que descobrir o mercúrio, as suas propriedades, a capacidade de utilizá-lo como elemento para fazer determinadas medições, etc. Houve um caminho da ciência que foi percorrido aí. O que estou propondo é que a ciência seja acionada, como já foi em outros episódios, para prevenir condutas discriminatórias. Quando a ciência foi acionada por grupos discriminados, ela tomou iniciativas que ajudaram a melhorar determinadas situações como ocorreu no caso dos homossexuais e das mulheres. No entanto, como não há prevenção, o número de ocorrências discriminatórias não diminuiu.

Sul21: Quando você fala em ciência, aqui, está falando basicamente da Psiquiatria?

Telmo Kiguel: Já existem várias propostas de definições a esse respeito. Uma delas foi formulada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora do livro Americanah, romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. Ela escreve que a maneira como o racismo se manifesta nos Estados Unidos mudou, mas a linguagem não. Os autores de práticas racistas, diz ela, não são mais aqueles clássicos “brancos malvados de lábios de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis”. “Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista”. A partir dessa avaliação, ela propõe: “Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra ‘racista’. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda”. Essa é a hipótese diagnóstica que ela propõe.

A necessidade do diagnóstico deve-se ao fato de que essa é uma conduta que faz o outro sofrer. Na medicina ou na saúde pública de um modo mais geral o que faz o outro sofrer pode ser um vírus ou pode ser outra pessoa. Uma pessoa viciada em drogas sofre e faz sua família e amigos sofrerem muito. Isso é uma doença. Se a minha conduta faz outras pessoas sofrerem, ficarem deprimidas, etc., estamos lidando com uma conduta doentia. A ciência baliza a maior parte dos nossos comportamentos, mas não nos damos conta disso. Quem está no limite da doença ou no limite da lei, está pensando que tem sempre que driblar a lei e tentar esconder os sintomas da doença. Um diagnóstico pode interromper esse tipo de conduta. É muito comum pessoas que têm um diagnóstico de uma determinada doença mudarem de vida. Alguém passa a usar óculos porque teve um diagnóstico de algum problema de visão e teve que mudar sua conduta por causa dele. É assim. A gente tem um diagnóstico e muda.

Sul21: Além da dimensão individual de posturas discriminatórias como racismo, machismo e homofobia, não há também uma dimensão social desses problemas que deve ser levada em conta para a obtenção desse diagnóstico? Fala-se muito hoje que estamos vendo o crescimento de uma cultura do ódio no Brasil. Não estamos, neste sentido, também às voltas com uma espécie de enfermidade social?

14/09/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21
14/09/2016 – PORTO ALEGRE, RS – Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

“Tem gente que resolve pautar seu comportamento por um livro escrito há cerca de dois mil anos”.

Telmo Kiguel: Essa dimensão social, para os propósitos da questão que estou propondo, é secundária. A medicina não atacou a gripe, mas sim o vírus da gripe. Quem cria e mantém o racismo são os racistas. Eles seriam os vírus, os agentes causadores da doença. Mesmo no caso do racismo institucional, há pessoas que praticam determinados atos que fazem com que esse racismo exista. O meu foco é a práxis, é onde vou agir. Não estou dizendo que não pode haver todo um grupo contaminado. Pode. Há grupos assim. Mas precisamos definir uma unidade sobre a qual agir.

O discriminador, quando adulto, continua funcionando como uma criança imatura que rejeita comer determinado alimento que nunca experimentou, por puro preconceito. Esse discriminador pode ser um gênio em matemática ou física, pode ser o melhor jogador de futebol do mundo, mas ser imaturo. O ser humano não amadurece de forma homogênea, mas sim por ilhas. Todos nós temos essa característica: somos mais maduros em determinadas questões e menos em outras.

Sul21: A postura discriminatória então, na sua avaliação, estaria associada a uma espécie de imaturidade. Isso valeria para diferentes formas de discriminação como machismo, racismo e homofobia?

Telmo Kiguel: O imaturo ao qual estou me referindo aqui é uma pessoa que funciona segundo padrões da sua infância ou muito mais antigos. Tem gente que resolve pautar seu comportamento por um livro escrito há cerca de dois mil anos. Não é a toa que são chamados de fundamentalistas. A Bíblia é um grande livro que ajudou a ordenar o mundo e torná-lo mais civilizado, mas não é adequado hoje para ser adotado como um guia de comportamento. Tampouco é um acaso que alguns conservadores na política sejam discriminadores. Há pesquisas mostrando que países mais religiosos e menos laicos têm mais discriminação.

Sul21: Na psiquiatria, há certas condutas que já estão tipificadas como é o caso da psicopatia, por exemplo. Qual seria a fronteira, na sua opinião, entre um discriminador e um psicopata?

Telmo Kiguel: A psicopatia é considerada um distúrbio de personalidade anti-social. Um dos objetivos centrais desse projeto é obter um diagnóstico compatível com o crime. Não sei ainda qual será esse diagnóstico. Dizer que alguém é um discriminador não é um diagnóstico. A palavra “racista” está tão naturalizada que não é mais um diagnóstico compatível com o crime que ela expressa. Chamar alguém de psicopata já parece um diagnóstico mais compatível com o crime.

A ideia é investigar o agente causador, defini-lo e diagnosticá-lo. Creio que só quando se conseguir defini-lo começarão a diminuir as ocorrências. A educação, por si só, não é suficiente para prevenir. No Uruguai, uma pesquisa sobre a participação de mulheres na política mostrou que os homens com nível de educação superior são mais resistentes à participação feminina em cargos de decisão política. Enquanto 64% das mulheres, com ensino superior, responderam que deveria haver mais mulheres legisladoras e ministras, apenas 49% dos homens, com o mesmo nível de formação, manifestaram-se favoravelmente a essa proposta.

Aqui no Brasil, os conservadores não querem que se discuta questões de gênero nas escolas. No tempo da ditadura, uma das frases que era pichada nos muros era “A palavra cão não morde”. Se eu falar em gripe, você não ficará gripado por causa disso. Os conservadores acham que, se os professores falarem em homossexualidade nas escolas, os estudantes vão se tornar homossexuais. Isso é assim porque dentro dos templos religiosos que eles frequentam, a homossexualidade é definida como algo perverso e imoral e o papel das mulheres é ficar numa posição secundária em relação ao homem. Para muita gente, a homossexualidade ainda é um tabu que não pode ser objeto de conversas nas escolas.

A psiquiatria ainda não definiu nenhum diagnóstico para essas condutas discriminatórias. E, como já afirmei, esse diagnóstico só terá valor se ele for compatível com o crime. Alguém que é claustrofóbico, por exemplo, tem medo de andar de elevador e opta por subir as escadas quando precisa. Mas ele não sai dando pontapés no elevador, por ter medo de andar no mesmo. Por analogia, chamar determinada conduta de “homofobia” me parece uma denominação atenuada que acaba beneficiando o discriminador. No caso de alguém que ataca e é capaz de dar um tiro ou esfaquear um homossexual, isso está muito além de uma expressão de medo. Nós podemos ter medo de elevador e subir pelas escadas, como referi. O nome desse tipo de conduta é outro. Esse dito homofóbico acha que o problema está no homossexual e não reconhece que está nele próprio. Nós tempos problemas e doenças que reconhecemos e sabemos que temos, mas podemos ter doenças que não reconhecemos porque não conseguimos enxergá-las. No nosso psiquismo também temos situações, sintomas e doenças que a gente não reconhece que tem. Até o momento acreditamos que homofobia é o que se passa com o homossexual enquanto não se assume como tal ou “enquanto não sai do armário”. Este é realmente um tempo que há medo, de assumir a sua própria homossexualidade.

Tags: fundamentalismo, homofobia, machismo, psiquiatria, racismo, Síndrome do Distúrbio Racial, Telmo Kiguel, UFRGS

Fonte: Sul21

Textos correlatos que complementam esta entrevista:

1. Do Projeto Discriminação da Associação de Psiquiatria do RGS: Projeto Discriminação – APRS
2. Do evento na UFRGS
Painel discute os efeitos da discriminação na saúde — UFRGS …
3. Textos publicados no blog Saúde Publica(da) ou não que ilustram algumas idéias do PD:
3.1 Sobre definição/diagnóstico da Conduta Discriminatória:

Quem é o Discriminador Machista, Racista, Homofóbico, Antissemita, etc.: uma visão psicanalítica

As discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença

Uma nova entrevista sobre Discriminação: “O melhor caminho é a prevenção”

Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?
Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.
Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.

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Como prevenir o machismo com violência se ninguém entende o que é?

Antissemita esquizofrênico assassino ininputável

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Racista, doente mental, condenada e inimputável

3.2 Sobre Religião e Laicidade:

Religião e laicidade: discriminação e violência.

A Psicanálise, as Discriminações e as Religiões

Psicanálise, discriminação, publicidade e saúde mental

“A igreja hierárquica precisa lavar a boca antes de falar das pessoas LGBTQI”

As 10 maiores “machistadas” da Biblia

3.3 Sobre Educação:

Educação e criminalização não previnem discriminação

O que não quer mulher na política prova que educação não previne discriminação

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Terapeuta pedófilo abusa sexualmente de 35 crianças

Discriminadores: um grupo que aumentará enquanto não houver interesse em prevenção.

“Juizes e advogados não tem boa formação em violência de gênero”

O machismo e a medicina

Pessoas mais escolarizadas discriminam as menos escolarizadas

 

O guru do sexo

Ministerio de Salud Pública lanza la aplicación móvil “Gurú del sexo”

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Busca que los jóvenes se puedan informar sobre temas relacionados con la sexualidad y derechos en salud

“Gurú del sexo”, la aplicación creada por el Ministerio de Salud Pública (MSP) para informar a los jóvenes sobre sus derechos en salud sexual, fue presentada esta tarde por Agustín Casanova, líder de la banda de cumbia pop Márama.

Durante la jornada “Desempolvando el Derecho: jóvenes discutiendo la salud”, del que participaron 200 jóvenes de todo el país, Casanova sostuvo que la aplicación permite que los jóvenes sean los “encargados de hacer entender a otros” sobre temas de sexualidad y agregó: “Está bueno de que los jóvenes participemos en estas cosas no solo para mejorar el país, sino la situación de cada uno”.

El año pasado, durante la primera edición de ese evento, los jóvenes propusieron tener otras herramientas de acceso a la información, con lenguaje joven y adaptado a las nuevas tecnologías, manifestó a El Observador el director del Instituto Nacional de la Juventud (INJU), Santiago Soto.

Embarazos no deseados y suicidios en adolescentes son dos temáticas sobre las que el gobierno tienen especial preocupación. Sobre todo porque el 16% de los bebés que nacieron en Uruguay en 2015 tuvieron madres menores y la mitad de ellas manifestó que su embarazo no fue buscado. Y porque también el año pasado 96 jóvenes de entre 10 y 24 años se quitaron la vida.

“La idea es una aplicación en lenguaje joven, que trabaja sobre temas, mitos, realidades y cosas relativas a la temática de forma interactiva”, dijo Soto.

Vea también: Así funcional la aplicación “Gurú del sexo”

En ese sentido, la aplicación cuenta con un calendario donde los jóvenes pueden anotar las consultas con los médicos, la última menstruación en el caso de las mujeres, o apuntar que tuvieron una relación sexual sin usar preservativo. En esos casos, la aplicación móvil recomienda al usuario a realizarse una prueba del virus de inmunodeficiencia humano (VIH).

También cuenta con una parte de georeferenciación donde a través de la ubicación la aplicación muestra el centro de salud adolescente más cercano y los derechos o exigencias que pueden tener los jóvenes con los médicos, como que se les hable en un lenguaje entendible.

La aplicación muestra también un resumen de derechos de los adolescentes en salud, como la cantidad de preservativos que se pueden adquirir de manera gratuita en centros de salud, información sobre el VIH o del suicidio. Esta tecnología será utilizada por la cartera para enviar alertas y de esa manera llegar a ese grupo etario con información preventiva.

La aplicación está disponible para el sistema Android a partir de este lunes y para IOS el próximo mes. Este será un plan piloto, que si funciona tendrá una segunda fase con mayor interacción de los usuarios de la aplicación.

Fonte: El Observador

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O que não quer mulher na política prova que educação não previne discriminação

Hombres más educados muestran mayor reticencia a impulsar mujeres en política

Mayoría de la población es afín a incentivar la participación femenina

parlamento
Los hombres que alcanzaron la educación terciaria son los que se muestran más reticentes a la hora de promover la participación de las mujeres en los cargos de decisión política, según se desprende de un informe realizado por la consultora Cifra.

La encuesta denominada Actitudes hacia la participación de mujeres en política y mecanismos de acción afirmativa en Uruguay señaló que el 66% de la población considera que debería haber más mujeres en cargos políticos de los que hay en la actualidad y el 77% considera positivo que en los próximos 10 años haya una presidenta mujer.

Sin embargo, al desagregar los datos según nivel educativo y sexo, las mayores reticencias se encuentran en los hombres que aseguran haber alcanzado el nivel terciario de enseñanza. En ese caso, mientras que el 64% de las mujeres con esa formación considera que debería haber más mujeres legisladoras y ministras, en los hombres la respuesta alcanza el 49% de apoyo. Algo similar ocurre con la pregunta sobre la ley de cuotas aplicada en las elecciones nacionales de 2014, la cual obligaba a los partidos a que en en las listas hubiese cada dos personas de igual sexo una tercera con el sexo opuesto.
El 62% de los hombres con educación terciaria está en desacuerdo con la norma, mientras que en las mujeres esa postura la mantiene el 47%,

Luego, ante la pregunta de si en las próximas elecciones debía aplicarse el criterio de cuota, de paridad (misma cantidad de hombres que de mujeres) o ninguna de las dos, otra vez fueron los hombres con el nivel educativo más alto los más reticentes a impulsar estas normas: el 58% opina que no habría que aplicar ninguna de las dos, mientras que en las mujeres con el mismo nivel educativo esa respuesta alcanza el 42%.

Por otra parte, el 77% de los encuestados considera que sería positivo que de aquí a diez años hubiese una mujer presidenta en Uruguay. Al desagregar los resultados el menor apoyo se da entre los hombres de educación terciaria, en donde la respuesta positiva disminuye a 67%.

La directora de CIFRA, Mariana Pomiés, señaló que este grupo, que es “el que más se resiste a aumentar la participación de la mujer” también “es el público que está en las cúpulas de dirección de la política y de las empresas” y que, por tanto, “se ven amenazados por la participación de la mujer”.

El estudio concluye que si bien “la gran mayoría” de la población está de acuerdo con que debe haber más participación de las mujeres en política, hay dudas sobre cuál sería el mejor camino para lograrlo. Esto se debe a que luego de la aplicación de la ley de cuotas aumentó el escepticismo con respecto a esta medida en particular.

Por otra parte, la mayoría de quienes quieren que se apliquen medidas para fomentar la participación femenina, prefiere una ley de paridad antes que una de cuota.

Ley con resultados insuficientes

Luego de la aplicación de la ley de cuotas, las mujeres electas como titulares llegaron al 19,4% en el Parlamento, lo que implica el porcentaje más alto de participación femenina en la historia del país. Sin embargo, la presencia de las mujeres en las cámaras sigue siendo baja si se compara con la mayoría de los países de América Latina, advierte el proyecto Atenea, impulsado por ONU Mujeres y el Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD).

Fonte: El Observador

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USP um espaço educador que não previne o machismo

Os desafios que a USP terá de enfrentar para ser exemplo em igualdade de gênero

Instituição foi escolhida pela ONU para sediar campanha mundial de igualdade e, para isso, tenta encarar suas contradições internas. Evento feito no início do mês contribuiu para a visibilidade de algumas questões, mas são muitos os desafios….

Ketrin Cristina da Silva*, especial para o Saúde!Brasileiros

Muitos podem achar exagerado o que vou dizer: alunas da USP passam por situações similares aos episódios de violência doméstica. Mas não é. O nível de instrução não blinda as mulheres da violência. As pessoas não mudam apenas por entrarem na USP – e se a universidade quiser, de fato, exercer uma mudança cultural, ela terá que enfrentar suas contradições e ser ela mesmo um exemplo para os seus alunos. Por isso, a desigualdade de gênero e situações de violência precisam ser discutidas – e, aos poucos, elas estão saindo do silenciamento. Prova disso é o evento inédito “10 anos de Lei Maria da Penha: Avanços e Desafios na USP”, organizado pelo USPMulheres e realizado no dia 18 de agosto de 2016. É a primeira iniciativa oficial, com aval da reitoria, para uma discussão explícita da violência contra a mulher dentro da USP.

O USPMulheres é um escritório criado em junho de 2015 na Universidade de São Paulo e integra o movimento da Organização das Nações Unidas “ElesPorElas” [HeForShe]. A USP foi a universidade latino-americana escolhida para participar da campanha. A universidade, assim, deve ter um papel ativo na promoção da igualdade de gênero e exercer influência sobre as demais instituições. São muitos, no entanto, os desafios até lá.

usp1 Evento feito na USP debateu os 10 anos da Lei Maria da Penha e a violência de gênero dentro da universidade. Da esquerda para a direita Maria José Menezes, professora Eva Blay, Beatriz Mazzini, Ketrin Silva, Prof. Bete Franco, Sarah Botelho e moradoras do Crusp. Foto: Ketrin Silva

Desde a aluna de graduação até a pós-graduação, são diversas as circunstâncias que indicam negligência, opressão e situações em que a assimetria de poder é evidente. Explicito aqui o paralelo que fiz inicialmente com a violência doméstica. Muitas mulheres, por manterem uma relação de dependência econômica com o seu agressor, silenciam abusos. Na universidade, essa situação é expressa na relação professor-aluna. Se a agressão é perpetrada por um professor, a aluna fica em situação de vulnerabilidade e, como também mantém uma relação de dependência, pode igualmente silenciar. Na graduação, dependemos do professor para corrigir as provas, tirar dúvidas em aula, elaborar projeto de iniciação científica. Na pós-graduação, a dependência é ainda maior. É o orientador que efetua a matricula semestralmente em cada uma das disciplinas que queremos cursar. Também dependemos dele para elaborar e executar o projeto de pesquisa. E, por fim, há dependência econômica: é o professor que assina os pedidos de bolsa de pesquisa para o mestrado e doutorado.

USP2 Protestos contra assédio nas residências estudantis da USP, o Crusp. Foto: Página do Facebook Crusp/USP – O pesadelo das mulheres

A USP deve ter um papel ativo e criar um canal direto para denúncias. E está tentando fazer isso. Ano passado, a universidade passou a estimular a criação de Núcleos de Direitos Humanos em todas as unidades para lidar com questões como essa. Ainda, não oficialmente, há a Rede Não Cala!, um coletivo autônomo formado por mais de 250 professoras da universidade, que tem como objetivo combater a violência de gênero no ambiente universitário, tanto pela participação ativa no recebimento de denúncias e nas comissões de julgamento de casos, como execução de ações preventivas. Dentre elas, destacam-se as rodas de conversa promovidas nas diversas unidades a fim de abrir um debate sobre o tema e treinamento de funcionários que lidam diretamente com alunas vítimas. A expectativa é que esses núcleos, ao lado de outras iniciativas, sejam capazes de prestar a devida assistência para essas mulheres.

Superação da cultura misógina e Lei Maria da Penha na USP

“#MeuQueridoPolitécnico me ofereceu uma carona pra poli e na hora de descer do carro ele disse que eu poderia pagar com sexo”. Esse foi um dos depoimentos publicados na página Politécnicas Reexistem. Demonstra a cultura misógina dentre os futuros engenheiros formados na Faculdade Politécnica, onde apenas 20% do corpo discente é composto por mulheres. Não é um caso isolado e a rede DeFEMde (Rede Feminista de Juristas), presente no evento, verbalizou isso de maneira muito apropriada. Segundo a rede, os altos índices de violência contra a mulher na sociedade como um todo acontecem porque a mulher é vista muito mais como propriedade do homem do que como proprietária do próprio corpo, algo que precisa ser desconstruído dentro e fora das universidades.

Dentro esse contexto, desafio ainda maior, no entanto, são as denúncias de violência dentro do Conjunto Residencial da USP (Crusp). Não me encontro na posição de detalhar o que acontece lá dentro –não sou moradora – mas, a contar pelas denúncias (que, como sabemos, nunca representam a totalidade dos fatos), são muitas as contradições e opressões que ocorrem nas residências. Isso já começa pelo déficit de vagas que cria uma situação cruel: os moradores ilegais. A partir deles, um outro tipo de assimetria de poder ocorre dentro do Crusp. Se quem sofreu a violência é uma moradora ilegal, o agressor se utiliza dessa posição “não legítima” para destrinchar ameaças e a própria vítima acaba por silenciar abusos.

usp3 Campanha conta o assédio feita pelo Diretório Central dos Estudantes da USP. Divulgação

Fora isso, há as denúncias “oficiais” negligenciadas. Pelo descaso, alunas do Crusp chegaram a ocupar a Superintendência de Assistência Social (SAS) em abril deste ano e requereram a formação de uma comissão para apurar agressões feitas. Ainda, há a difícil situação das mães do Crusp: a residência possui 12 vagas oficiais para elas, mas há 72 mães lá dentro. Há também falta de vagas nas creches e alunas carregam seus filhos para as aulas. Além disso, elas enfrentam diariamente o medo de estupros e violência física dentro de sua própria casa, medo estendido às demais moradoras.

A violência sofrida também por professoras

Embora ocupem posição privilegiada, as professoras não ficam imunes do reflexo da sociedade patriarcal na universidade, haja visto o predomínio de figuras masculinas nas cadeiras de professores titulares, diretorias e conselhos universitários. De fato, a professora Eva Blay, fundadora da primeira Delegacia de Defesa da Mulher no Brasil e coordenadora do USPMulheres, diz que após alcançar o grau de titular, levou 16 anos para que o mesmo título fosse conferido a outra mulher da unidade. Ela ainda ressalta os esforços do USPMulheres junto ao reitor para a adoção de medidas em favor da comunidade uspiana, incluindo defesa dos diretos de transexuais e transgêneros.

A professora Bete Franco, da Rede Não Cala!, reitera que nem o silêncio e nem a impunidade devem ser admitidos na USP. Segundo ela, a universidade deve proporcionar um ambiente acolhedor e seguro a sua comunidade e, além disso, promover uma mudança de desnaturalização da violência dentro e fora de seus muros. Afinal, a USP é um espaço educador. Assumindo uma postura otimista, ela destaca os avanços obtidos através da luta de movimentos feministas anteriores e convida toda comunidade da USP para participar da elaboração de um centro de enfrentamento a violência dentro da USP.

O que precisa ser feito?

Um dos aspectos que não pode ser negligenciado pela universidade é a punição e a apuração de denúncias, bem como maior atenção à representatividade e visibilidade a grupos com necessidades específicas dentro da USP.

É consenso entre Jaqueline Valadares da Silva, delegada da 2ª­­ Delegacia de Defesa da Mulher, Fabiana Dal’Rocha Paes, promotora de justiça do Ministério Público de São Paulo e Tatiane Moreira Lima, juíza da Vara de Violência Doméstica do Fórum do Butantã (zona oeste de São Paulo, que estiveram presentes no evento, que a Lei Maria da Penha aplica-se a casos ocorridos dentro das moradias estudantis e a qualquer violência cometida por parceiro afetivo, parente ou qualquer homem que coabita com a vítima.

As especialistas também abordam a necessidade de medidas preventivas e não apenas punitivas, uma vez que o homem agressor é a exceção dentro da sociedade. Nesse cenário, a militante Maria José Menezes, membro do Núcleo de Consciência Negra e funcionária da USP, questiona a falta de eficiência da Lei Maria da Penha para as mulheres negras, uma vez que houve um aumento significativo nas taxas de feminicídio negro, enquanto o número de homicídios de mulheres brancas diminuiu. Ela finaliza pontuando a necessidade da USP abrir-se ao diálogo com a comunidade negra e com as funcionárias, a fim de entender suas especificidades. Alunas apontam outras minorias que merecem atenção, como as mulheres lésbicas e indígenas, e pedem que disciplinas sobre gênero sejam obrigatórias em todos os cursos da USP.

No evento, a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres na cidade de São Paulo e a Rede Oeste de enfrentamento a violência contra a mulher mostraram os serviços disponíveis na região, como assistência jurídica e psicológica gratuitas para a mulher vítima de violência. Eles podem ser consultados aqui. Também, segundo Gabriela Schmidt, aluna de Ciências Sociais e representante do DCE (Diretório Central dos Estudantes da USP), é urgente a atualização do regimento da universidade, que ainda não prevê punições para violência de gênero.

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No Dia Internacional da Mulher, a Universidade de São Paulo (USP) lançou a campanha “USP Mulheres – Elas podem”, que aborda os direitos das mulheres e o papel dos homens de apoiá-las. A campanha, que conta com apoio da Pró-Reitoria de Graduação da USP, foi um trabalho realizado dentro da disciplina de Arte Publicitária por três alunas do curso de Publicidade e Propaganda da Escola de Comunicações e Artes (ECA) – Angélica Souza, Márcia Shimabukuro e Vanessa Rondine – que tiveram suas propostas escolhidas em uma disputa entre nove equipes.

*Ketrin Cristina da Silva é doutora pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Ela também fez mestrado no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e se prepara para o pós-doutorado na mesma instituição

Fonte: Brasileiros

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