“Não somos conservadores. Apenas ensinamos as meninas a serem mulheres e os meninos a serem homens”

Alternância política e o conservadorismo no RS

O Rio Grande do Sul é um dos únicos Estados do país que nunca reelegeram um governador.

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O Parque da Harmonia, às margens do lago Guaíba, é um local simbólico em Porto Alegre para explicar uma divisão ideológica gaúcha muito bem marcada. Foi ali, em janeiro do ano 2000 que a cidade recebeu a primeira edição – e posteriormente todas as outras – do Fórum Social Mundial, um dos maiores eventos da esquerda e dos movimentos anti-globalização da contemporaneidade. Por uma semana o parque foi tomado por barracas de lona no chamado Acampamento da Juventude. Em agosto daquele mesmo ano, o que eram barracas viraram casas de alvenaria, as comidas orgânicas lá vendidas deram lugar ao churrasco, e famílias inteiras ocuparam o espaço do estudantes hippies que estiveram no Fórum em janeiro. Acontecia mais uma edição do Acampamento Farroupilha, um evento que dura um mês e acontece desde 1978 no Parque da Harmonia para celebrar a Revolução Farroupilha e as tradições gaúchas.

“Adoraria que esse acampamento fosse permanente, porque assim não teria mais espaço para aquela orgia vermelha aqui no parque”, disse o tradicionalista Evaristo Righetto, se referindo ao Fórum Social Mundial, enquanto me guiava pelo acampamento farroupilha que ainda estava em construção. “Não somos conservadores. Apenas ensinamos as meninas a serem mulheres e os meninos a serem homens”, disse. É quase impossível de acreditar que eventos tão opostos acontecem naquele mesmo chão de terra batida. Essa é uma das peculiaridades do Estado onde valores conservadores são tão fortes quanto os ideais progressistas.

Na política, o conservadorismo leva os eleitores a votarem em candidatos que já conhecem, ainda que sejam de esquerda. “Preferimos o que já conhecemos do que o progresso”, diz Ronald Hillbrecht, professor de economia da UFRGS.

A última pesquisa eleitoral, publicada pelo Ibope na sexta-feira 09, mostra o candidato do PMDB, Sebastião Melo, vice-prefeito da atual gestão, em primeiro lugar (22%), seguido de Raul Pont (PT), ex-prefeito da cidade, em segundo (19%). Em terceiro, está Luciana Genro (PSOL), com 17%.

Como uma capital conservadora pode votar em partidos de esquerda? O que pode parecer contraditório, para o Ronald Hillbrecht, professor de economia da UFRGS, é natural. De acordo com ele, lideranças de esquerda não significam progressismo. “Se você olhar para Porto Alegre, os principais candidatos que estão despontando nas pesquisas eleitorais são de partidos socialistas e quando a maioria da população prefere partidos socialistas, isso é um mau sinal”, diz. “O problema de partidos socialistas é que a plataforma econômica deles é conservadora, não leva ao progresso”.

A dicotomia segue na disputa do Estado. Conservador sim, pero no mucho. O Rio Grande do Sul é um dos únicos Estados do país que nunca reelegeram um governador. “Sempre houve alternância nas eleições do Governo do Estado, e sempre com um padrão de alternâncias opostas”, explica Rodrigo Gonzáles. Diferentemente de São Paulo, cujo Estado é comandado pelo PSDB há 17 anos, no Rio Grande do Sul nunca um governador foi reeleito desde a redemocratização do Brasil.

Gonzáles explica que na década de 1940, a alternância ocorria entre o PTB e aqueles que se diziam anti-PTB. “Nos últimos anos, esse padrão se tornou PT e anti-PT”, diz. Mesmo os partidos que nacionalmente se aliam ao PT, caso do PMDB nas últimas eleições presidenciais, no Rio Grande do Sul concorrem contra o partido de Lula. “Isso significa um padrão de menor tolerância para alianças”, diz Gonzáles. “E uma disponibilidade menor de diálogo com o diferente”.

Fonte: IHU

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