Discriminação racial: “a vítima é o culpado”

No Campeonato Italiano, caso de racismo termina em punição para a vítima

MuntariMuntari gesticula para torcedores do Cagliari ao deixar o campo no domingo (Foto: Reprodução/YouTube)

Aconteceu no último domingo: durante o jogo entre Cagliari e Pescara, em Cagliari, pelo Campeonato Italiano, o meia ganês Sulley Muntari foi alvo de ofensas racistas por parte de torcedores da equipe da casa. Revoltado, o jogador procurou o árbitro pedindo providências sobre o assunto, e providências foram tomadas. Só que contra o próprio Muntari. O árbitro mostrou cartão amarelo ao meia, que, mais revoltado ainda, abandonou o campo como forma de protesto. E recebeu um cartão vermelho por isso.

Mas a coisa não terminou por aí. O Comitê Disciplinar do Campeonato Italiano considerou o comportamento do jogador de Gana inaceitável e o puniu com um jogo de suspensão, que ele terá de cumprir no próximo fim de semana, quando sua equipe enfrentará o Crotone. Enquanto isso, o mesmo comitê, embora tenha afirmado que a atitude dos torcedores do Cagliari foi “deplorável”, decidiu não punir o clube da Sardenha por considerar que as ofensas a Muntari foram obra de apenas “aproximadamente dez pessoas”.

Temos, então, um caso de abuso racial em que apenas uma pessoa foi punida: a vítima. E isso causou um terremoto no futebol italiano. O Fifpro, sindicato mundial dos jogadores de futebol, manifestou-se para pedir que a suspensão de Muntari seja revogada. Segundo a associação, o meia do Pescara tinha todo o direito de se dirigir ao árbitro para pedir providências contra as ofensas. “Os jogadores deveriam se sentir confortáveis para levar qualquer problema ao conhecimento do árbitro, especialmente algo tão significativo quanto o racismo em seu local de trabalho”, disse o Fifpro em um comunicado. “Nós pedimos que as autoridades italianas ouçam a versão de Muntari, investiguem por que a situação foi mal administrada e cuidem para que isso nunca mais ocorra.”

Por sua vez, a associação Kick It Out, criada na Inglaterra para combater todos os tipos de discriminação no futebol, classificou a atitude do Comitê Disciplinar como “covarde” e se mostrou indignada com a falta de uma punição ao Cagliari. “É inacreditável que o clube não tenha sido punido porque ‘apenas dez’ torcedores estavam envolvidos.”

Um dos administradores da Kick It Out, o ex-jogador inglês Garth Crooks, que hoje atua como comentarista da BBC, foi mais longe. Segundo o ex-atacante de Stoke City e Tottenham, os negros que atuam no futebol italiano deveriam fazer uma greve na rodada do fim de semana, a menos que a punição a Muntari seja retirada.

Aos 32 anos, o meia tem no currículo três Copas do Mundo e passagens por clubes grandes como Internazionale e Milan. Ele recebeu apoio do compatriota Kevin-Prince Boateng, com quem jogou no Milan e na seleção de Gana, que se disse “orgulhoso” da atitude de Muntari. Os dois estavam juntos no time rubro-negro de Milão quando, em janeiro 2013, Boateng abandonou uma partida amistosa também por causa de ofensas raciais.

O caso de Muntari é o terceiro de abuso racial na Itália nos últimos meses. Antes dele, os zagueiros Koulibaly, do Napoli, e Ruediger, da Roma, foram agredidos com insultos racistas por torcedores de Inter e Lazio, respectivamente. Como neste novo episódio, o Comitê Disciplinar também não aplicou qualquer punição – apenas advertiu Inter e Lazio de que elas podem ter seus estádios parcialmente interditados se o mau comportamento de suas torcidas se repetir. De acordo com o Fifpro, atitudes como essa mostram que as autoridades da Itália não estão cumprindo sua obrigação de mandar aos torcedores a mensagem de que o racismo é intolerável – e, levando em consideração os acontecimentos recentes, fica difícil discordar disso.

Veja o momento em que Muntari deixa o campo em Cagliari após ser vítima de ofensas raciais:

Fonte: CHUTEIRA F. C.

Por Mateus Silva Alves

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