O Google psicanalítico ou “Decifra-me ou te devoro”*

Uma reflexão sobre os trending topics do coração das pessoas

esfinge 1Foto: Fabio Penna

As pessoas gostam é disto

— “Baseado no quê?” – é a pergunta que se faz quando alguém diz a frase do título.

— “Na audiência!” – respondem muitas vezes.

— “Uma audiência alta significa que as pessoas gostaram?”

— “Lógico! Você acha que alguém faz o que não gosta?”

A resposta é “sim, muitas vezes”.

Os números longe do coração

Penso muito nas ideias erradas que temos ao ‘ler” nossa audiência apenas pelos números. Talvez aquela máxima do “falem mal, mas falem de mim” não valha tanto assim quando a consciência coletiva da rede aumenta, pois ela constantemente nos engana. Há gente que gosta de algo e diz que não gosta e vice versa. Como lidar com isso?

As redes sociais avançam para sua segunda década e com ela vem uma percepção: sem perceber, ao longo desse tempo todo, os usuários fazem uma espécie de “psicanálise”. Quanto mais se fala, seja de si, dos outros ou de algum programa de TV, mais se percebe o que se é. É um processo longo, mas que produz pouco a pouco uma maior consciência coletiva do que realmente se gosta e se quer.

Quer ver? Busque o histórico de cinco anos atrás do seu Facebook ou Twitter e veja como você está mais maduro hoje. Essas percepções ficam mais evidentes porque esses registros do passado vieram dos trending topics do coração de cada pessoa em uma determinada época. Faziam sentido naquele momento, mas hoje a sensação é de: “Como eu pude dizer isso!?”.

Fabio Penna @fabiopenna
Estou estudando os sonhos dos cineastas para entender meu próprio disco. Eis a primeira dúvida: por que Fellini sonhava com Picasso?
2:33 AM – 6 Mar 2009
Retweets 1 1 like

(Tentando entender meu primeiro tweet)

E é exatamente isso que os números não registram.

A conversa é fundamental

Vejo por aí muita gente dar receita do post perfeito para o blog, da foto perfeita para o Instagram, da melhor hora para a atualização da página no Facebook, mas textos que citam a “conversa” das redes sociais são mais raros.

É tanta receita que daqui a pouco vamos ver gente registrando esses modelos como propriedade intelectual e teremos que pagar para usar os templates. Sobre interatividade, o máximo que se fala nessas indicações é: “faça uma pergunta para estimular a reação do seu público”.

Quando as pessoas assistem à novela hoje em dia, por exemplo, elas querem comentar a respeito, twittar sua reação. Isso é uma conversa, logo, conhecer e estabelecer essa conexão é importante para qualquer trabalho de mídia atualmente.

Intercalar interesses (seja editando textos, fotos ou vídeos) é fundamental para manter contato com quem lê ou vê. Portanto, a interpretação das conversas se tornou fundamental, ou seja, precisamos cada vez mais que o Google Analytics evolua para um Google Psycanalytics.

esfinge 3http://timoelliott.com
No meu último texto (e em vários outros que já publiquei aqui), por exemplo, cometi um erro: coloquei um vídeo entre um parágrafo e outro. Ora, a pessoa vem ao Medium para ler, não para ficar tendo que clicar em um vídeo para entender um complemento do que eu tenho a dizer.

Esse entendimento, portanto, nos leva a valorizar o tempo das pessoas.

Do que será que as pessoas gostariam?

Quando se pensa cada palavra, é essa a pergunta que se responde. O foco muda totalmente, porque criamos uma “fala” analítica e reflexiva antes de chegar à “fala” informativa. E isso é bem diferente do que ser conclusivo sobre o abstrato e mutante “gosto” das pessoas.

Isso feito, automaticamente há uma economia maior de palavras, logo, poupa-se o tempo de quem lê e reduz o risco de cair na superficialidade dos achismos.

Portanto, talvez seja melhor acreditar em recomendações menos precisas, mas bastante poderosas como: seja interessante o tempo inteiro; coloque em cada trecho da ideia algo que faça uma conexão entre a parte anterior e a próxima; crie relações entre quem emite e quem recebe: a interação!

Essa é a receita de sucesso usada pela maioria dos blogueiros, youtubers e instagramers de sucesso. Eles estão conectados o tempo inteiro com quem mais interessa: seus seguidores. E é assim que eles conseguem responder melhor a respeito do gosto deles.

esfinge 4Foto: Fabio Penna

É disso que EU gosto

Aos poucos percebemos coisas que dão certo, mas continuar inovando (mesmo que isso leve ao erro) é importante para evoluir, pois algo que dá certo hoje não necessariamente dará amanhã. As coisas mudam rápido demais, por isso é importante se manter dentro das “conversas” em diversas redes sociais.

Uma coisa que percebo quando analiso as métricas dos meus textos do Medium é que o que mais teve repercussão foi justamente aquele que expus mais meu lado pessoal. Falar do que se gosta, sente ou quando se coloca uma visão pessoal sobre um determinado assunto pode interessar quem tem a mesma opinião ou agregar em quem a está formando. Porque aquilo que sai é muito verdadeiro e sincero. E as pessoas sentem isso. (Mais um ponto para os blogueiros, youtubes e instagramers, que fazem isso com maestria).

Isso vale sempre? Talvez sim, talvez não. Depende da tendência. O essencial estará sempre nos trending topics do coração das pessoas, do mais nobre ao mais rasteiro, nos resta decifrá-los ou acabar devorados por eles:

Amor. Alimento. Vestuário. Curiosidade. Dinheiro. Fofoca. Inveja. Ganância.

É disso que o povo gosta (João Nogueira)
Tem que comer
Tem que beber
Tem que poder acreditar
Que um dia vai mudar
Tem que comer
Tem que beber
Tem que poder acreditar
Que um dia vai mudar
É disso que o povo gosta
É isso que o povo quer
Poder jogar futebol
E sempre fazer amor
E nunca ter que assaltar
E nunca ter que implorar
Pra um dia poder chegar
A ser feliz
É disso que o povo gosta
É isso que o povo sente
É isso que o povo sempre quis

* Comentario do blog

Édipo, sem saber que tinha assassinado o próprio pai, foi para Tebas.   No caminho deparou-se com a Esfinge, um monstro metade leão metade mulher, que lançava um enigma aos viajantes.   E devorava quem não o decifrasse.   O enigma proposto pela Esfinge era o seguinte: “Qual o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio-dia e três à tarde?”.   Édipo respondeu: É o homem.   Pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos; ao meio-dia (na fase adulta) anda sobre dois pés; e à tarde (velhice) necessita das duas pernas e o apoio de uma bengala.

Fonte: TRENDR

Por Fabio Penna

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