Discriminados reconhecem que também podem ser discriminadores

8 chacoalhões que nós LGBTQ precisamos

chaco 1

Fonte: Nikasucha / Pixabay

Sim, eu sei que nós, LGBTQs, somos minoria da sociedade e enquanto minoria sofremos opressões que só cada um de nós pode relatar. Contudo, isso não nos exime do fato de que também, enquanto oprimidos, podemos ser — e somos — muitas vezes também opressores, ainda que apenas nos nossos microcosmos.
Muitas vezes não reparamos, mas acabamos agindo de uma maneira muito próxima daquela que alguns agem conosco ainda hoje, apesar de ocuparmos posições diferentes com suas respectivas especificidades.
Nós, enquanto comunidade e sem a pretensão de sermos um grupo homogêneo, devemos aprender a também respeitarmos a nós mesmo. Justamente por isso, alguns pontos precisam ser ressaltados — ainda que aqui seja uma lista incompleta.
8 chacoalhões para que possamos viver ainda mais harmonicamente entre nós mesmos:

O mundo não gira em torno do G
Para falar a verdade, se formos olhar bem, os que sofrem menos opressões hoje, somos nós, os gays. Ainda mais se formos brancos, de classe média/alta e não afeminados. Logo, não reduza a sigla apenas a sua letra. E muito menos fale por nome das outras letras. Você pode até entender uma parte do que elas passam, mas a experiência e vivência delas são únicas e nada tem a ver com a sua própria.
Está na hora de olharmos para além de nosso umbigo e vermos que há letras precisando de muito mais socorro que nós, gays — ainda que também tenhamos muito pelo que lutar.

A bissexualidade existe — assim como a heterossexualidade
Se você se considera 100% homossexual, não se esqueça que nem todo mundo precisa ser igual a você. A bissexualidade existe e resiste, mesmo com alguns de nós agindo como se fosse apenas uma “indecisão”.
Além disso, nunca devemos esquecer que, de outro lado, heterossexuais não seguem uma forma pré-definida. Então, se um homem ou mulher heterossexuais apresentam um expressão de gênero — como essa pessoa se coloca na sociedade (roupas, gestos, etc) — diferente do padrão imposto pela sociedade, não significa que ela, necessariamente, seja gay, lésbica ou trans — embora possa muito bem também ser.
A vida não gira em torno de aparências.

chaco 2

Fonte: Ben_Kerckx / Pixabay
Respeite aqueles que lutaram por você
Já vi muito menosprezo, no seio da comunidade LGBTQ, por pessoas LGBTQs mais velhas. Não se esqueça que foram essas pessoas que lutaram para que você tenha muito do que tem hoje, inclusive coisas simples como andar de mão dada na rua com seu/sua parceiro/parceira ou se casar com essa pessoa.
Então, não menospreze àqueles que lutaram, mesmo indiretamente e involuntariamente, por você. Aprenda com elas, porque tenho certeza que essas pessoas têm uma enormidade de coisas a nos ensinar.

Reconheça seus privilégios dentro do próprio movimento
Eu, enquanto aqui falo, sei que estou em um posição relativamente confortável na estrutura social. Mesmo gay, nunca passarei por situações que muitos dos meus pares de movimento passam diariamente. Meus privilégios estruturais fazem com que as coisas sejam assim.
E não devo me culpar por ter nascido nessas condições. Mas, ao mesmo tempo, nunca devo deixar de ter em mente que ocupo esse lugar na sociedade, enquanto (muitos) outros não ocupam.
Não devo julgar então o que os outros passam, se eu não conheço de verdade essas realidades. E tenho que seguir minha vida com base no preceito de que eu não devo lutar unicamente para manter meus privilégios, mas sim para que eles sejam direitos de todos e não de poucos.
Logo, pense antes de falar sobre outras realidades que não a sua. Você, gay branco e de classe média, não sabe o que passa um negro em locais periféricos do Brasil, por exemplo. Muito menos as opressões que transsexuais estão sujeitos (as) todos os dias.

Não seja um abusador dentro do movimento
Eu sei que temos um pouco mais (ou muito mais) de liberdade sexual se compararmos com a sociedade engessada que impera ainda hoje — onde se uma menina quiser beijar vários meninos, ela é considerada puta, enquanto o homem que faz o mesmo é o garanhão -, mas isso não te dá o direito de ir contra a vontade dos outros. Isso inclui as mãos bobas, as cantandas e outras muitas coisas mais.
Você não pode tocar em mim, se eu não te dei o direito de fazer isso. E não sou obrigado a ficar com você só porque você acha que eu deveria.
Muitos de nós dizemos “sai hétero”, mas uma quantidade considerável de LGBTs ainda têm entranhado em seu interior práticas condenáveis desses mesmos.

Ser gay “padrãozinho” não é um problema
O problema é, na verdade, apenas olhar para o próprio umbigo e para a própria realidade, sem saber que o mundo não é daquele jeito para todos.
Também devemos entender que nem todo gay malhado, que frequenta determinados lugares, age de formas específicas e tem características entendidas como “masculinas” não estejam nem aí para as lutas diárias dos LGBTQs como um todo.
Há pessoas e pessoas. Há o “padrãozinho” que vive em seu mundo de mil maravilhas, fechando os olhos para tudo e todos, e o “padrãozinho” que sabe que a vida não se resume a só baladinha, academia e aplicativo de pegação com seus iguais. É a aquela mesma questão de reconhecer nossos próprios privilégios novamente.
Além disso, um problema grave nesse ponto e que não pode ser negligenciado é o perigo de se mostrar e representar a comunidade LGBT apenas pelos chamados “padrãozinhos” (como acontece muitas vezes na televisão ou nos próprios anúncios de baladas LGBT, por exemplo). Afinal, somos muito mais diversos do que isso.
Em nossa sociedade, o “padrãozinho” será sempre mais aceito porque ele é o que mais se aproxima do homem hétero, branco e rico, figura hegemônica ainda hoje em nosso mundo.
Por fim, da mesma forma, não é porque você não se encaixa no termo “padrãozinho” que você, necessariamente, seja mais desconstruído. É tudo mais complexo do que a superficialidade que muitas vezes impera nos debates dessas questões.

Cuidado com os termos que você utiliza
Não é porque somos LGBTQ que necessariamente não somos machistas. Muitas vezes conseguimos ser muito mais machistas que os próprios homens heterossexuais.
Também temos diversos preconceitos entranhados em nós, quanto à raça, gênero, identidade sexual, opção sexual, expressão de gênero, etc. Embora sejamos vítimas diárias de preconceito e LGBTfobia, não podemos negar nossos próprios preconceitos, muitas vezes dentro de nossa comunidade.
Justamente por isso, devemos pensar muito bem antes de utilizar palavras que trazem consigo uma carga preconceituosa e pejorativa. E são várias as palavras nessa categoria.

Se você não curte ser discriminado, não discrimine também
Se você não é afeminado, não seja babaca com quem é. Se você é branco, não seja babaca com quem é negro. E assim por diante.
Difícil? Nem um pouco. Principalmente, quando parte de alguém que busca todos os dias também não ser discriminado.
Falar “eu só namoro brancos” ou “eu só saio com discretos” não é apenas gosto: é preconceito oculto, entranhado. A partir do momento em que você limita sua opções, sem nem ao menos conhecer a pessoa, por atributos físicos, você está sendo preconceituoso sim, embora insista que não.
Às vezes, conseguimos ser grandes babacas tanto entre nós mesmo, como enquanto grupo na sociedade, e isso só tem a nos prejudicar. O que precisamos é de reflexão diária. Reconhecendo nossos erros, deslizes, privilégios e realidades.
Não podemos esquecer nunca que não há homogeneidade no movimento LGBTQ. Que há uma infinidade de crenças sobre formas de lutas, sobre como devemos nos portar e no que tange aos nossos ideias.
Isso nos enriquece, mas só a partir do momento que sabemos ouvir as vozes e jeitos discordantes dos nossos. E sem nunca esquecer nosso objetivo comum: termos os mesmos direitos daqueles que sempre nos privaram dos nossos.

Fonte: TRENDR
Por Vitor Garcia de Oliveira
Textos correlatos:
Pastor evangélico propõe que homossexuais usem roupas com cores especias para serem identificados
A verdadeira homofobia não é o ódio aos homossexuais
Pessoas imaturas, discriminadoras, facistas, nazistas, de sangue puro e o bode expiatório
Discriminados também discriminam
“A ditadura homossexual”: texto e comentário
YouTube discrimina homossexuais

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *