Por que mulheres, negros e homossexuais não se unem contra todos discriminadores?

Introdução
Para quem tem interesse em entender e definir as Condutas Discriminatórias, o texto abaixo segue a linha de outros já publicados aqui.
Algumas destas matérias indicam um movimento no sentido de:
1. Admitir, lendo aqui e aqui, que pessoas pertencentes aos Grupos Discriminados (GDs) também discriminam.
2. Que a origem das discriminações pode ter mais de uma causa como vemos aqui, aqui e aqui.
3. Que será necessário um esforço importante dos GDs para reconhecer que dentro deles também há pessoas discriminadoras
4. Que tudo isto possa explicar porque os GDs ainda não conseguiram se unir para enfrentar os discriminadores
5. Entender porque os GDs lutam pela criminalização e não pela prevenção, para diminuir as ocorrências de condutas doentias como vemos aqui e aqui.
El movimiento LGBT también debe ser antirracista

Las críticas se desataron cuando se añadieron los colores café y negro a la bandera del orgullo LGBT para representar a negros y latinos, durante un evento en Filadelfia, Estados Unidos (EUA).

Pero hoy, más que nunca, necesitamos que el movimiento de la diversidad sexual también incluya a la diversidad racial.

Bandera-LGBT-con-negro-y-cafeBandera LGBT con negro y cafe

Manifestaciones de supremacistas blancos en EUA, la creciente criminalización de los migrantes en Norteamérica y el empoderamiento de grupos que promueven la discriminación exponen el actual fortalecimiento del odio.

Por ello, es más importante que nunca recordar que el movimiento LGBT es interseccional.

Es decir, la orientación sexual y el género convergen con otras identidades, como la raza, la etnicidad, la religión y hasta la condición migratoria.

Por desgracia, no es inusual encontrar muestras de racismo en la comunidad LGBT.

La figura del hombre blanco homosexual y de clase media alta o alta se ha apoderado del simbolismo del movimiento.

Basta ver las imágenes que suben las redes sociales y sitios web de información LGBT para percatarse de ello.

Las aplicaciones de citas, los personajes gay de series y películas, y las celebridades homosexuales fomentan una imagen ideal que no concuerda con la gran diversidad de la comunidad.

Pero, sobre todo, hay que entender que las barreras discriminatorias que afrontan las personas LGBT que no encajan en este prototipo son mayores.

Las políticas antiinmigrantes pueden ser una sentencia de muerte para aquellos que huyen de México y Centroamérica, donde sufren, por igual, la violencia de asociaciones criminales y grupos ultraconservadores.

Las personas de color, mestizos e indígenas que no son heterosexuales deben afrontar el racismo y la homofobia.

Las personas trans de escasos recursos son vulnerables a sufrir de exclusión, violencia y a caer en las redes de la trata de personas.
Y aquellos que viven en las zonas marginadas de las ciudades padecen el doble yugo del clasismo y la LGBTfobia.

Al igual que ser lesbiana, gay, bisexual y transgénero, hay que acoger a las demás identidades marginadas y entender cómo su situación converge con la sexualidad.

El movimiento de la diversidad sexual no será realmente incluyente e igualitario hasta que esto no suceda.

Fonte: ClósetLGBT
Por: Pedro Pablo Cortés
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Estado Unidos: 10% da população apoia os neonazistas

22 millones de estadounidenses tienen opiniones nazis

nazi Rally Nazi en Massachussets – Foto Ilustración Flickr – Elvert Barnes

Uno de cada diez estadounidenses encuestados por ABC News en todo el país apoya a los neonazis;        y          poco más de un cuarto aprueba la ambigua respuesta de Trump a los acontecimientos de Charlottesville.

Esta cifra, aplicada a toda la población estadounidense, equivale a aproximadamente 22 millones de simpatizantes neonazis estadounidenses.

El treinta y nueve por ciento de los encuestados creen que el denominado movimiento nacionalista blanco “alt-right” sostiene puntos de vista neonazis, mientras que el 10 por ciento expresó su apoyo a la alt-right.

Sin embargo, el 83 por ciento dijo que los puntos de vista neonazis eran inaceptables, mientras que el ocho por ciento no tenía opinión.

No hubo cambios en la calificación de 37 por ciento de aprobación general de Trump desde los resultados de julio, pero sólo el 28 por ciento de los encuestados dijo que aprobó su respuesta ambigua a los hechos violentos de Charlottesville. (La calificación general de desaprobación de Trump permanece en 58 por ciento.)

De los encuestados a la encuesta, que se realizó por teléfono con más de 1.000 adultos en todo el país, el 33 por ciento eran demócratas, el 22 por ciento eran republicanos y el 42 por ciento eran independientes.

Fonte: Aurora
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Uma visão psicanalítica do Brasil em 2017

As gerações futuras sentirão vergonha de nós.

Brasil
Sentirão vergonha de nosso silêncio e de nossa apatia. Não haverá certamente nenhum espanto, posto que a brutalidade que estamos permitindo tomar conta do mundo há também de eliminar a possibilidade de espanto e indignação. A brutalidade elimina qualquer espasmo de surpresa. Casos como o da deputada que tem recebido sistematicamente ameaças pela internet, pelo whatsapp e também pessoalmente, não nos indignam porque estamos atolados, sem perceber, na mais absoluta falta de empatia.

Num dos áudios, o sargento da aeronáutica a ameça “vou rasgar você no meio” e avisa que o clã Bolsonaro faz parte do grupo. Os xingamentos e ameaças que se ouve no áudio são dignos de uma sessão de tortura.

O neto do ex presidente Figueiredo, aquele que dizia que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo, postou nesta semana no facebook um efusivo agradecimento ao governador do RJ por ter deixado falir a UERJ.
No texto, ele vibra diante da possibilidade dos professores (sem salários) morrerem de inanição. Mas como estamos cindidos psicoticamente, não nos afetamos.
Do salário mínimo para 2018, será tirado 10 reais. Enquanto isso, um magistrado do Mato Grosso recebeu em julho salário de mais de 500 mil e outros dezoito, receberam mais de 300 mil.
Ao ser indagado sobre o valor, muitíssimo acima do teto, o primeiro responde “tô nem aí”. Assim como a excelência de Mato Grosso, nós também não “estamos nem aí.”

O prefeito da maior cidade do país xinga, humilha e ofende políticos e militantes do PT, enquanto abandona a periferia sem saúde, enquanto corta parte da merenda das crianças com a justificativa de combate a obesidade, enquanto deixa aumentar o número de moradores de rua, enquanto trama vender o patrimônio público de olho no financiamento de sua campanha para presidente em 2018.

Não precisamos olhar para Barcelona ou para Charlottesville para vislumbramos a face do horror. Os massacres à população negra, LGBT e indígena ocorridos aqui apenas neste ano, nos dão a dimensão do nosso horror caseiro.

A sanha demolidora do governo golpista que nos desgoverna com as reformas que vem fazendo desde que assumiu, nos promete um país arrasado para os próximos anos. Com saúde, segurança e educação sucateados, a miséria e a violência aumentarão. Mas não nos abalamos porque, afinal, não sabemos de nada.
A extrema direita e suas personas, nazistas, fascistas, homofóbicas, machistas, xenófobas, pretendem dilacerar todas as possibilidades de uma sociedade mais justa e mais humana. A prova evidente é a adesão em massa até dos mais “letrados” e dos mais jovens, às ideias de políticos e de grupos que propagam diuturnamente o ódio.

Ainda assim não reagimos porque, afinal, a liberdade de expressão é um bem precioso.

Nos espaços onde divido com colegas os meus afazeres profissionais, vejo alguns absolutamente indiferentes diante do sofrimento deste presente tenebroso e diante da promessa de mais sofrimento que um futuro sombrio nos acena.
Estão totalmente incapazes de dimensionar suas responsabilidades éticas diante deste estado de coisas.

Estamos falhando absurdamente. Tínhamos a obrigação moral, ética, instintiva até, de deixarmos um mundo melhor para os que virão.

Os incautos e hoje privilegiados, os brancos, os da classe média, os que não sentiram ainda o corte na carne, não tardarão a reconhecer que ficaram do lado errado da luta.

Mas os seus filhos e netos saberão, ainda que não seja pelos livros de história, ainda que seja pelos resíduos inconscientes a eles transmitidos, saberão da covardia de seus antepassados que preferiram a inércia, a preguiça e a covardia ao invés do trabalho árduo, duro e sofrido de denúncia e combate a todas essas formas de ódio, pois é de ódio que se trata tudo isso. Ódio ao próximo, ao diferente, ao povo, à justiça, ao elemento humano.

As gerações futuras sentirão vergonha de nós e tomara que assim seja. Se forem capazes de sentir vergonha, é porque talvez tenham compreendido um pouco daquilo que hoje a grande maioria não está compreendendo, que tudo isso é muito vergonhoso. Por ignorância, má fé ou cinismo, a verdade é que a maioria não está compreendendo.

A psicanálise nos ensina que a pulsão de morte opera em silêncio. Eu diria que no nosso silêncio diante de tanta brutalidade, opera a pulsão de morte na sua forma mais destrutiva e mais avassaladora, que é o desligamento. Desligamento da nossa própria fragilidade e desamparo, cujo reconhecimento seria a única possibilidade de nos aproximarmos como gente, que ainda somos.

Fonte: Facebook Helenice Rocha
Por: Helenice Rocha, psicanalista e Professora de Psicanálise na Universidade Guarulhos
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“A saúde é um negócio para que poucos se enriqueçam”

La salud como negocio privado

“Nosotros tenemos una economía social de libre mercado que está consagrada en el artículo 59 de la Constitución. El mandato constitucional es que todos seamos ricos. Existe lo que se llama libre mercado. Aquí no hay regulación de precios. Y si (varias clínicas) se ponen de acuerdo en que un medicamento cuesta 10 soles, yo nada puedo hacer. Ni yo ni el presidente de la República ni el presidente de la Corte Suprema. Aquí hay libre mercado”.

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Quien afirma esto es la médico Flor de María Philipps, superintendente de la Superintendencia de Salud (Susalud), en una polémica entrevista dada a Ojo Público (17 jun. 2015). Esta superintendencia es la encargada de fiscalizar y sancionar los abusos contra los pacientes, sean estos de establecimientos públicos o privados.
La doctora Philipps proviene del sector privado. Ha sido gerente de Pacífico Seguros y Pacífico Salud EPS, directora médica de la clínica Ricardo Palma y gerente administrativa del complejo hospitalario San Pablo, “justamente el grupo al que luego le tocaría supervisar por la muerte de los recién nacidos debido a malas prácticas”. Como informa Ojo Público y para sorpresa de muchos ya que se trató de una abdicación de sus funciones, el caso no fue visto por Susalud y “se derivó a la Dirección de Salud de Lima Sur, que solo impuso el cierre temporal del servicio por dos meses” cuando, por la gravedad de los hechos, bien se pudo clausurar dicho establecimiento de salud.

También, según esta misma fuente, Flor Philipps participó como representante del sector privado en los grupos de trabajo que discutieron con el sector público las primeras reformas de salud. Se podría decir que el caso de la superintendente de salud es el típico ejemplo de la llamada “puerta giratoria”. Es decir, trabaja para el sector privado y como representante de dicho sector discute con el Estado las nuevas normas y luego se traslada al Estado para dirigir el organismo que supuestamente fiscalizará a los privados.

Por eso no nos debe extrañar lo afirmado por la funcionaria respecto a que la salud se rige por el libre mercado. Es tal su ideología neoliberal y privatista que no solo comete equivocaciones como decir que “si un grupo de empresas se ponen de acuerdo en fijar un precio determinado a los medicamentos, el Estado nada puede hacer (ya que). Aquí hay libre mercado”, porque olvida que ello está prohibido en el país ya que se trata de un abuso de dominio y de concertación de precios; también agrega disparates como cuando dice que según “el mandato constitucional” todos debemos ser ricos con lo cual justificaría que la  salud antes que un servicio público, un derecho humano y ciudadano, es un negocio para que algunos pocos se enriquezcan.

Por otro lado, algunos expertos señalan que el crecimiento de Susalud ha sido tan exagerado que ha convertido a la institución en una hipertrofia ya que su funcionamiento, finalmente, beneficia a los privados porque para presentar una queja es tanto el número de instancias y barreras que se deben sortear que hace prácticamente imposible una sanción en el corto plazo. La “tramitología” al servicio de los privados.

A ello se suma otro hecho. Susalud, según ley, tiene la potestad de acreditar a los establecimientos de salud. Nos preguntamos cómo un organismo que avala puede, al mismo tiempo, controlar lo que el mismo acredita. Es más, se dice que se está creando un organismo privado, también supervisado por Susalud, para este fin. El problema, señalan los mismos expertos, es el apremio. Hoy se está convocando a concurso el puesto de acreditador cuando todavía no existe la norma que fija los parámetros de la función. La urgencia tendría relación, según fuentes confiables, no solo con el corto tiempo que tiene el gobierno para implementar esta reforma privatista sino también con otro apuro, el de la mismísima doctora Philipps quien tendría intenciones de dirigir este nuevo organismo privado de acreditación. Así, un organismo privado con escasa o débil fiscalización pública terminará por acreditar a los privados. El resultado será un sector de salud disminuido y un servicio de salud dominado por los privados y al servicio del “mercado”. Es decir, un negocio que poco o nada tiene que ver con los pacientes y con la salud de los peruanos.
(*) Parlamentario Andino
(*) “Jefa de Susalud: clínicas y pacientes se rigen por el libre mercado”. OjoPúblico, Lima, 17 Junio 2015 http://ojo-publico.com/69/Jefa-de-Susalud-cl%C3%ADnicas-y-paciente-se-ri…
Fonte: OtraMirada
Por Alberto Adrianzén
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A violência está nos genes da religião?

Religião em tempos de terrorismo: a violência está nos genes da religião?

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Para alguns, a religião é quem nos salva nos momentos trágicos. Para outros, é um poder perigoso. A religião pode resolver conflitos? Um debate entre a pastora protestante alemã Antje Vollmer, ex-vice-presidente do Bundestag alemão, o cientista político alemão-egípcio Hamed Abdel-Samad e o jesuíta alemão Klaus Mertes, diretor do colégio St. Blasien e ex-reitor do colégio Canisius.

A reportagem é de Britta Baas, publicada na revista Publik-Forum, n. 14, 21-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Sra. Vollmer, Sr. Abdel-Samad, Sr. Mertes, quase todas as semanas, vemos imagens de bairros incendiados, de pessoas chorando, de hospitais transbordando, de mortes em tantas partes do mundo. Muitas vezes, diz-se que o Estado Islâmico reivindicou certos ataques. Em outros lugares, outros grupos religiosos estão envolvidos em guerras e terrorismo. A violência está nos genes da religião?

Hamed Abdel-Samad – Pelo menos está nos genes do Islã político. Se levarmos os muçulmanos de volta ao exemplo do profeta e à palavra do Alcorão, teremos o salafismo ou o Estado islâmico. Por isso, eu não acredito na frase “voltar ao verdadeiro Islã” ou “voltar à essência do Alcorão”. Eu acho que precisamos nos libertar do poder dos textos e do exemplo de Maomé.

A religião em tempos de terrorismo: uma parte da solução? Ou uma parte do problema?

Klaus Mertes – A tarefa que se apresenta a todos, também às pessoas religiosas, é uma reflexão sobre o próprio papel. Não fazemos parte da solução de um problema se não reconhecemos que fazemos parte do problema. Sempre podemos ceder ao perigo da violência. Não é uma especificidade do Islã ou dos muçulmanos. É problemático lidar com pessoas que afirmam que elas absolutamente não fazem parte do problema…

Antje Vollmer – E também não é uma solução simplesmente abrir mão da história da própria religião. Muitas vezes, eu encontro a expressão: “A religião é boa se for individual e, possivelmente, humanista”. Mas, assim, ignoramos o fato de que estamos inseridos em sociedades, em histórias, em relações familiares. Eu vivo da tradição do protestantismo e vejo que Martinho Lutero não é alheio à história do cristianismo. Ele leu os textos fundamentais e se confrontou com a práxis daquele tempo da sua Igreja. Ele viu que as coisas não iam bem, que havia um vínculo negativo entre religião e poder. Era esse vínculo que ele queria desfazer. Apesar da separação – que inicialmente parecia que funcionava –, depois ele fez a experiência de que a violência voltava. No desejo de reformar a sua Igreja, ele jogou um continente inteiro em uma história de violência de 100 anos, na qual, em essência, tratava-se sempre de “ter razão”. Por isso, a separação entre religião e poder simplesmente não é a solução. É preciso também refletir sobre a história da própria instituição. Quem diz que não tem nada a ver com a religião dos seus ancestrais é vítima de uma ilusão.

Abdel-Samad – Mas também é verdade que as religiões e as suas instituições nunca se transformaram voluntariamente. Elas tiveram que ser violentamente criticadas e pressionadas por parte daqueles que saíram delas para poderem ser reformadas. E nunca fizeram isso no ápice do seu poder, mas em fases de fraqueza. Também foi assim em 2010, quando se descobriu o escândalo da pedofilia na Igreja Católica. Isso também foi mantido às escondidas por anos, até que a opinião pública disse “chega”, e se seguiu uma onda de desistências da Igreja. Só então é que as pessoas de dentro da Igreja aceitaram ter que enfrentar o problema. E a mesma coisa acontece com o Islã. Não podemos esperar que a Universidade de Al-Azhar, ou os muftis sauditas, ou as organizações xiitas no Irã reformem o Islã. É preciso esperar que os próprios fiéis mudem a sua atitude mental em relação aos textos e à sua religião.

Mertes – Não há dúvida de que sempre deve haver também uma pressão de fora. Mas, quanto à questão dos abusos, pode-se ver que também deve haver uma mudança a partir de dentro. Os primeiros a falar foram as vítimas. Que fazem parte do sistema! Só depois é que a opinião pública se apropriou do assunto. Eu conheço pessoas que deixaram a Igreja em um período doloroso. Com boas razões. Mas, apesar disso, elas sempre têm a ver com esse “dentro”. Elas não podem fazer com que essa parte da sua biografia desapareça. Então, se eu considero a palavra religiosa que existe dentro apenas como objeto de crítica, se eu a pressiono, a avalio, a critico, então eu reforço o problema da violência.

Abdel-Samad – Por quê?

Mertes – Eu a reforço porque, naquele momento, eu não me comunico com aqueles que estão dentro do sistema, mas apenas falo deles. Por isso, também é necessária a discussão com quem está dentro para evitar que se criem espirais de violência.

Abdel-Samad – Você descreve como é doloroso se distanciar das estruturas religiosas e depois voltar a olhar para a religião a partir de fora. Eu conheço bem esse caminho. Eu me pergunto: por que é assim? Porque fomos infectados pela religião quando crianças. Antes de sermos capazes de manter distância e de reconhecer como verdadeiro ou falso aquilo que é transmitido. A religião, assim, torna-se uma parte da identidade, uma couraça de identidade da qual não é nada fácil sair.

Mertes – Mas nem toda a marca que é deixada pelos pais é um ato de violência. Se os pais rezam à noite com o seu filho, isso é violência? Se uma criança me pergunta em que eu acredito, a resposta já é violência? Não podemos considerar qualquer ato educativo como um ato de violência! Como as grandes perguntas da religião também são as grandes perguntas das crianças, uma educação sem deixar marcas não é possível. Os pais não dizem aos seus filhos: “Vou responder às suas perguntas somente quando você tiver aprendido a avaliar todos os prós e os contras”. Não é bom um individualismo que requeira uma total ausência de marcas. Além disso, o individualismo só é uma libertação quando eu o entendo como algo que pode me libertar de uma situação vinculante inevitável, e se eu a quiser. Mas, caro Abdel-Samad, eu também gostaria de ser, como crente, um sujeito no debate sobre a religião e quero poder dizer que sou uma parte da sociedade. Não devem me livrar do jugo da minha marca religiosa. Posso lhe dizer de bom grado como eu me vejo.

Abdel-Samad – Estou plenamente de acordo. Mas eu também tive a experiência de como a religião pode agarrar com os seus tentáculos de polvo. E como nos sentimos culpados ao ir embora.

Sra. Vollmer, na sua biografia, a religião e a política tiveram um papel importante. Você é teóloga evangélica e pastora, mas, por muitos anos, também esteve envolvida na política. Foi importante para você separar o papel político do religioso. Por quê?

Vollmer – Porque eu entendi que, se a pessoa política e a pastora se tornam uma mesma coisa, há uma sobreposição equivocada. Fazer política envolve sempre uma ponderação entre possibilidades diferentes de solução de problemas práticos. Nunca deve faltar uma alternativa. Muitas vezes é preciso também aceitar compromissos. Se dermos uma importância excessiva à nossa própria opinião, acreditando que somos uma figura moral importante que não pode ser contradita, arrogamo-nos mais poder do que nos cabe. A religião tem em si a sedução para essa presunção. É preciso se dotar de defesas contra isso. É perigoso quando uma pessoa que trabalha no campo político não o faz.

Abdel-Samad – E quanto mais a religião é poderosa como entidade política, mais ela se empobrece espiritualmente. As Igrejas alemãs são ricas, influenciam a política, os conselhos diretivos de rádios e televisões – e as suas igrejas estão vazias. Ao contrário, na China, o cristianismo está vivendo um renascimento. Onde as pessoas não aguentam mais uma religião política como o comunismo, onde tudo é decidido de cima, onde cresce o materialismo, as pessoas buscam justamente aquele acesso à religião que, na Europa, parece estar perdido.

Vollmer – Nós aprendemos no século XX, como a excessiva importância da política no religioso pode levar ao engano, pode se tornar uma loucura coletiva. O nazismo e o stalinismo eram sistemas de poder mascarados de religião. Não tendo textos de origem para poderem fazer referência, para poderem se deparar, não tendo uma história em relação à qual pudessem aprender a renúncia, tiveram aquela louca pretensão de onipotência.

Houve muito poucos cristãos que, na época, se opuseram àquela excessiva importância da política no religioso. Aqueles que fizeram isso tiveram que fazer as contas com a perseguição, às vezes até por parte dos seus correligionários. No cristianismo, continua havendo muitos conflitos não resolvidos, não elaborados. Tanto política quanto teologicamente.

Vollmer – Eu acho que nós, cristãos europeus, não estamos em uma boa posição para o diálogo com as outras religiões. Não só por causa do consumismo sem alma – que constrange espiritualmente as nossas igrejas e que, politicamente, não nos deixa nos colocarmos do lado dos pobres –, mas também porque ainda não chegamos ao fim da superação da nossa violência. Vemos isso ao observarmos a história contemporânea. E sentimos isso na falta de um sinal no presente, até mesmo com atraso: nem mesmo neste ano de Lutero, 500 anos depois da divisão da Igreja, conseguimos dar um sinal, um símbolo de superação da violência. Esse sinal seria a Ceia do Senhor juntos, a hospitalidade eucarística. Eu sempre sofro muito com isso, pelo fato de que as hierarquias eclesiásticas ainda impedirem isso. Se nem mesmo entre nós, cristãos, encontramos um sinal de mudança real, não estamos prontos para um diálogo com as outras religiões, que têm os seus próprios problemas históricos.

Sr. Abdel-Samad, você acredita na força espiritual que pode nascer da “autodesautorização” da religião. Sra. Vollmer, você está convencida de que a paz deve começar a partir das diferentes confissões, para que possam ser credíveis no diálogo inter-religioso, afirmando estarem livres da violência. A pessoa religiosa, então, é um pacificador em tempos de terrorismo, Sr. Mertes?

Mertes – Não faz sentido agir como se não tivéssemos nenhum poder para combater os abusos de poder. Precisamos de emancipação para enfrentar os conflitos internos das nossas religiões e instituições, para torná-los públicos, para curá-los. Se estivermos dispostos a isso, poderemos também falar com os outros, sem violência. Mas isso não significa resolver todos os problemas internos antes de enfrentar qualquer coisa a mais.

Abdel-Samad – Se deve haver menos violência, uma coisa deve ficar clara: “Antes de tudo, seja um ser humano! Depois, escolha a sua religião!”. Esse é um princípio humanístico em que eu acredito. Infelizmente, o que acontece na maioria dos casos é algo diferente. As poderosas Igrejas alemãs se tornam sustentadoras do Islã político. Elas se preocupam que ele tem cada vez mais privilégios. O Islã quer estar na mesma posição que as Igrejas. Se o Islã político conseguir isso, será uma catástrofe!

Mas há também um Islã diferente, liberal, democrático, um movimento que se baseia na busca livre na religião. Você não o vê?

Abdel-Samad – Você tem uma visão de futuro que ainda não existe. Há reformadores individuais, mas não há um movimento de reforma.

Mas justamente você acaba de publicar um livro com Mouhanad Khorchide sobre a reforma do Islã! Khorchide é um dos inúmeros muçulmanos de primeiro plano, na Alemanha, que não ensinam um Islã inimigo da democracia.

Abdel-Samad – Mouhanad Khorchide, a quem eu estimo muito, quer libertar o Islã da violência, fala de um “Islã da misericórdia”. Ele diz que os trechos de violência que existem no Alcorão não dizem respeito ao nosso tempo. As associações islâmicas dizem que ele segue uma doutrina equivocada e pedem que lhe seja removida a permissão de ensinar. Algo que vimos na Igreja Católica com Hans Küng. Isso significa que o Islã não quer nenhuma reforma e nenhum movimento de reforma. Ele os sufoca na raiz. As associações islâmicas na Alemanha são círculos étnico-nacionais, que levam em frente a política dos seus países de origem, em primeiro lugar a política turca. Essas instituições se fortalecem e tiram credibilidade de pessoas como Khorchide.

Vollmer – Devemos levar muito a sério a sua advertência, caro Abdel-Samad. Mas eu digo que, mesmo que tirássemos da religião tudo o que ela tem de institucional e deixássemos o indivíduo sozinho com a sua orientação religiosa, veríamos que a violência está no homem, não na instituição. Os homens devem se exercitar para dominar as próprias paixões e as próprias fantasias de poder para viverem em harmonia com a criação.

Mertes – A resposta do cristianismo à pergunta sobre a violência é pôr no centro da própria religiosidade uma vítima da violência: Jesus. A resposta ao problema da violência é o Crucificado. Essa é uma mensagem radical! Se nós nos identificamos com uma vítima não violenta da violência e da arbitrariedade, o que isso significa? Não estaria, talvez, na essência profunda da religião a força para a superação de qualquer tipo de violência?

Vollmer – Se olharmos para a história do cristianismo, a mensagem da não violência logo se perdeu. O cristianismo se tornou a religião de um império…

Abdel-Samad – E na história do Islã, infelizmente, não se encontra nenhum princípio de não violência. Exceto na fase inicial, quando Maomé ainda não tinha nenhum exército, quando ele pregava a não violência. Mas, quando chegou ao poder, ele usou violência. Se, para o cristianismo, a solução da questão da violência está no Crucificado, então, para o Islã, devo dizer que, de acordo com o ensinamento do Alcorão, Deus é superior e espera que os homens se sacrifiquem por ele. Mas, sobre isso, não podemos construir nenhum princípio de não violência, embora eu conheça muitas pessoas que vivem o Islã de maneira pacífica.

Uma pessoa religiosa, portanto, não pode mudar o seu papel? Não pode aprender a ver as coisas de uma maneira nova e ser, ela mesma, vista de uma maneira nova?

Mertes – Certamente sim! No cristianismo, há exemplos desse tipo. Pensemos em Paulo. Nas origens do cristianismo, está a escolha desse homem que, inicialmente, pensava que devia matar pessoas por ordem de Deus, fazendo, assim, uma obra que agradasse a Deus. Ver o processo da sua transformação é importante. Ver como os parentes daqueles que anteriormente tinham sido mortos por ele começam a aceitá-lo no seu novo papel, como pregador da não violência. Essa é a resposta do cristianismo ao terrorismo no mundo. É possível se converter. Mudar tudo. A qualquer momento.

Vollmer – Quem é cristão e faz política deve refletir sobre o pacifismo política. Isto é, deve refletir se o seu tipo de reação aumenta ou diminui a violência. Se aumenta ou reduz sentimentos de impotência. É um problema fundamental.

Abdel-Samad – Desde o 11 de setembro de 2001, procuramos respostas: de onde vem o terrorismo? Certamente, as estruturas socioeconômicas têm o seu peso, assim como as experiências de discriminação. Mas tudo isso não estaria unido sem uma ideologia que justifique o ódio. Vem de uma determinada forma de ler o Alcorão. Por isso, para mim, é difícil imaginar como possa vir do Islã institucionalizado um contra-modelo que seja contra a violência. Porque não temos esse ensinamento da não violência. Não temos o convite a amar os nossos inimigos! Temos um modelo de sucesso do Islã que, quase desde o início, foi político. E é um modelo para os islamistas hoje. Naturalmente, existem trechos do Alcorão que falam da paz. Mas não podemos avançar com esses trechos de paz contra os trechos de violência no Alcorão. Senão, transformamos esse livro em um manual político, em um instrumento político, e isso não deve acontecer. O que podemos fazer é combater a ideologia. Chamemos as coisas pelo nome. E critiquemos aqueles que cortejam o Islã político. Quando a chanceler [alemã] faz negócios bilionários com a Arábia Saudita vendendo armas, quando Trump faz a mesma coisa, e ambos dizem que estão combatendo o terrorismo e as causas da emigração, estão brincando conosco.

Fonte: IHU
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Polícia religiosa?

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Leio que a prefeitura do Rio de Janeiro está realizando uma espécie de “censo religioso” junto à Guarda Municipal. O questionário tem apenas três perguntas: se o servidor professa alguma religião; se sim, se é católico, evangélico, espírita ou “outro”; se é ou não praticante. A justificativa dada para a ação, segundo a comandante da Guarda Municipal, é criar uma assistência religiosa aos servidores e que, após a consolidação dos dados do censo, a ideia é estabelecer uma capelania. A iniciativa foi criticada pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio, que interpreta o levantamento como limitação e constrangimento dos profissionais, além de não incluir outras religiões como a Umbanda e o Candomblé, consideradas patrimônio imaterial da cidade.

Um breve parêntese no estilo “advogado do diabo”.

Quando matriculamos nosso filho numa escola municipal, nos foi perguntado se professávamos alguma religião dentre uma lista pré-estabelecida de meia dúzia de denominações, incluindo a categoria “outra”. Não me senti ofendido com a pergunta, porque a ideia é possibilitar o ensino religioso aos alunos fora do horário escolar regulamentar. Tendo a concordar, embora por motivos diversos, com a o mantra usado por muitos defensores da mistura entre Estado e religião que diz que “o Estado é laico, mas a sociedade não o é”. Apenas um Estado laico é capaz de garantir a diversidade religiosa, portanto, fortalecer a laicidade do Estado é garantir o respeito à identidade religiosa dos cidadãos. O Estado não pode ter religião, mas deve fornecer os meios para que os cidadãos exerçam sua religiosidade, inclusive seu ateísmo, se for o caso. O Estado laico nos resguarda do fundamentalismo, de polícias religiosas ao estilo saudita ou iraniano. Falo da garantia à cidadania cultural, entendendo cultura, aqui, de modo amplo, o que inclui as manifestações religiosas.

Fecha parênteses.

A questão que se coloca, conforme a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio, é a real motivação do censo religioso. Por que incluir esta religião e não aquela outra? Como foi definida a lista de parcas três denominações? O Censo 2010 do IBGE identificou mais de duas dezenas de religiões, portanto, e a despeito da Guarda Municipal não ter as pretensões científicas e metodológicas dos técnicos do IBGE, é inexplicável a simplicidade do questionário aplicado aos servidores municipais. Ou se colocam todas as categorias ou não se coloca nenhuma. Ou melhor: deixe-se um espaço em branco para o preenchimento voluntário, sem categorias pré-estabelecidas. E por que não uma capelania ecumênica?

Relegar à categoria “outras” religiões seguidas por milhões de pessoas, além dos que se consideram sem religião ou simplesmente ateus (os espíritas somavam, em 2010, cerca de quatro milhões de adeptos, enquanto os sem religião, em torno de quinze milhões), invisibilizando seus adeptos, é diminui-los, deslegitima-los no mapa religioso da cidade, desrespeitá-los como portadores de uma identidade historicamente importante na sociedade brasileira. O poder de nomear ou não carrega em si o poder simbólico de reconhecer ou não o “outro” e, uma vez não reconhecido, deixa de ser objeto de políticas públicas democráticas.
Não quero desconfiar dos reais propósitos deste censo religioso, mas que é estranho, ah, isso é…

Fonte: Des-Construindo Marcelo
Por Marcelo Gruman
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Drogas psiquiátricas podem piorar a doença mental

Editora Fiocruz lança ‘Anatomia de uma Epidemia’ de Robert Whitaker em português

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Com a tradução para o português recém lançada pela Editora Fiocruz, Anatomia de uma Epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental parte da constatação de que desde os anos 1990 houve um aumento expressivo de doenças mentais nos EUA, justamente quando os meios científicos e órgãos governamentais da área da saúde festejavam o surgimento de drogas psiquiátricas supostamente mais eficientes (e também mais caras). Jornalista experiente e premiado por seus artigos sobre temas médicos, Robert Whitaker investiga os efeitos da abordagem medicalizante dos transtornos mentais, do uso crescente de “pílulas mágicas” agravando ou simplesmente criando falsos quadros patológicos. Livro premiado e traduzido em diversos idiomas, Anatomia de uma Epidemia aborda a contravertida questão das drogas e tratamentos psiquiátricos, que o autor considera “um tremendo campo minado político”.

Whitaker foi impulsionado pela leitura de uma matéria que denunciava maus-tratos em pesquisas com pacientes psiquiátricos. Entre eles, experiências financiadas pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, como o uso de medicamentos para exacerbar sintomas em esquizofrênicos, ou ao contrário, privando-os de antipsicóticos. Sempre com riscos para os pacientes-cobaias, até com a ocorrência de mortes durante os testes. Ao iniciar uma série de reportagens sobre esses experimentos, o autor confessa que estava convencido de que estavam sendo desenvolvidas novas drogas psiquiátricas que ajudavam a “equilibrar” a química cerebral, e que seria antiético retirar a medicação dos pacientes experimentalmente. Seria como retirar a insulina de diabéticos, para ver com que rapidez eles adoeceriam, pensava.

No entanto, ao concluir as reportagens, restava um certo incômodo os resultados de duas pesquisas com que havia deparado em sua investigação. A primeira era da Faculdade de Medicina de Harvard, que, em 1994, anunciara que “os resultados observados nos pacientes de esquizofrenia nos Estados Unidos haviam piorado durante as duas décadas anteriores, e não estavam melhores agora do que tinham sido cem anos antes”. A segunda era da Organização Mundial da Saúde, que contatara que os resultados sobre a esquizofrenia eram muito melhores em países pobres do que em países desenvolvidos. Consultando especialistas a este respeito, Whitaker ouviu que os maus resultados nos EUA, por exemplo, tinham origem em “políticas públicas e valores culturais” e que nos países pobres os pacientes tinham mais apoio das famílias.

Insatisfeito com a explicação, o autor reviu seu material de pesquisa e ficou sabendo que nos países pobres apenas 16% dos pacientes eram tratados com antipsicóticos. Seguindo em frente na investigação, esbarrou com descobertas da OMS, “que parecia haver encontrado uma associação entre os resultados positivos (no tratamento de esquizofrênicos) e a não utilização contínua desses medicamentos”. A partir daí dedicou-se a “busca intelectual” que originou este livro, que, segundo Whitaker, “conta uma história da ciência que leva os leitores a um lugar socialmente incômodo (…) estas páginas falam de uma epidemia de doenças mentais incapacitantes induzidas pelos fármacos”.

O livro analisa e questiona o resultado de pesquisas que sustentam a aprovação, comercialização e prescrição desses medicamentos em escala alarmante, não só nos EUA, mas no Brasil e em diversos outros países. Traz depoimentos de vários pacientes submetidos a tratamentos medicamentosos de longo prazo, para mostrar a consequência no funcionamento do cérebro e questionar a eficácia das drogas psiquiátricas. O jornalista detalha o conluio entre empresas farmacêuticas, instituições e formadores de opinião para garantir a disseminação dos psicofármacos, mas também aponta alternativas terapêuticas, nas quais os medicamentos não são o centro do tratamento e sim um recurso a que se pode lançar mão de forma consciente e cuidadosa.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias
Por Gustavo Mendelsohn Carvalho
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Masturbação: tabu e mitos

Ocho cosas que hay que saber sobre la masturbación
Masturbarse no significa estar insatisfecho.mast

Onanismo, masturbación, digiturbación, darse amor propio… Da igual cómo lo llames, todo el mundo lo hace (sí, tú también, no te escondas).

La masturbación, que implica excitarse uno mismo tocándose los genitales, es un asunto tan importante en la vida sexual de la gente que hasta el Servicio Nacional de Salud del Reino Unido (NHS por sus siglas en inglés) le ha dedicado una entrada en su página web.

No existe una forma correcta o incorrecta de masturbarse, pero el NHS lo describe del siguiente modo: “Los hombres suelen hacerlo mediante el frotamiento del pene, mientras que las mujeres suelen acariciarse el clítoris y la zona que rodea la vagina”.

Aunque es un hecho totalmente normal, el tema sigue siendo un gran tabú y todavía existen muchos mitos que hay que corregir.

1. Casi todo el mundo se masturba.
El 95% de los hombres y el 89% de las mujeres se masturban, al menos en el Reino Unido. Por lo tanto, no hay ningún motivo por el que avergonzarse.

2. Masturbarse teniendo pareja no implica nada malo.
Existe mucho debate en Internet sobre si tendrían que preocuparse aquellas personas cuyas parejas siguen buscando pasar esos ratos a solas.

Suzi Godson, columnista de asuntos sexuales en el periódico The Times y bloguera de la edición británica del HuffPost, escribió: “Algunas personas sienten su relación en peligro por el hecho de que su pareja tenga la necesidad de buscar satisfacción sexual por su cuenta. Al fin y al cabo, si pueden tener sexo, ¿para qué necesitan masturbarse? Este argumento pasa por alto la obviedad de que el sexo y la masturbación son experiencias completamente diferentes”.

3. Masturbarse no significa estar insatisfecho.
Tal y como dice Suzi Godson en el punto anterior, no hay ningún motivo por el que masturbarse signifique algo malo sobre tu relación o sobre tu vida sexual con otras personas. Los estudios científicos han descubierto que la gente que practica sexo regularmente suele masturbarse más que aquellas personas que llevan un tiempo sin acostarse con nadie.

De modo que no pienses que la masturbación es un sustituto del sexo, sino más bien una forma de matar el gusanillo de vez en cuando.

4. No eres la única persona que se siente culpable cuando acaba.
Pese a que masturbarse no es algo de lo que haya que avergonzarse, hay un montón de razones personales, religiosas y culturales por las que una persona se puede sentir un poco sucia al terminar. No te pasa solo a ti.

De hecho, según un estudio, la mitad de las personas que se masturban experimentan dudas por lo que han hecho: “Aproximadamente el 50% de las mujeres y el 50% de los hombres que se masturban se sienten culpables por ello”. Así que no te sientas excluido ni pienses que es una razón para dejar de masturbarte. Estamos todos en el mismo barco.

5. Las mujeres que se masturban suelen estar más satisfechas en sus relaciones.
Un estudio de febrero de 2017 descubrió que las mujeres que se masturban con frecuencia suelen recibir más sexo oral, tener relaciones sexuales más largas, pedir más a menudo que les hagan lo que les gusta en la cama, elogiar a su pareja tras el acto, probar nuevas posiciones, intercambiar palabras eróticas y expresar su amor durante el coito.

6. A los hombres les sirve como escudo contra el cáncer de próstata.
Parece el típico argumento de adolescente, pero es cierto: masturbarse al menos 21 veces al mes puede ayudar a reducir un 33% las probabilidades de sufrir cáncer de próstata. Los investigadores realizaron el seguimiento de 30.000 hombres durante casi 20 años para llegar a estas conclusiones.

7. Es bueno para la salud.
La masturbación también ha demostrado producir beneficios en la salud tanto de hombres como de mujeres. Aparte de reducir el riesgo de cáncer de próstata en hombres, sirve para reducir la tensión arterial y para relajarse.

8. No conlleva ningún riesgo de contraer enfermedades de transmisión sexual ni de embarazos indeseados.
El sexo está muy bien, pero siempre hay que acordarse de tomar precauciones, ya que puede acarrear sus riesgos. En cambio, con la masturbación tienes la seguridad de que estás a salvo.

Este artículo fue originalmente publicado en el ‘HuffPost’ Reino Unido y ha sido traducido del inglés por Daniel Templeman Sauco.

Fonte: HuffPost Es
Por Sophie Gallagher
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Efeitos da hipersexualização: meninas transformadas em ‘Lolitas’

Roupas, brinquedos e séries de TV inoculam de forma sutil a erotização precoce no universo infantil

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Em 2007, a Associação Norte-americana de Psicologia (APA na sigla em inglês) publicou um documento em que denunciava a tendência sexualizadora das crianças nas sociedades modernas. O documento apontava que o fenômeno abrange desde roupa, brinquedos e videogames até séries de TV, inoculando de forma sutil o erotismo prematuro no universo das meninas. O estudo mostrou que meninas a partir de quatro anos são bombardeadas com modelos de sucesso que triunfam graças a seus atributos físicos, às medidas que o mercado impõe, mas não por suas qualidades pessoais e profissionais. Dez anos mais tarde essa tendência, longe de ser corrigida, cresceu.

É um fenômeno tão crônico, tão incorporado que às vezes os adultos nem se dão conta: sutiãs com ou sem recheio para meninas de oito anos, saltos, tops e minissaias, heroínas de séries com corpos esculturais, bufês infantis que propõem concursos de beleza e desfile na passarela em festinhas de aniversário… Fala-se, inclusive, de uma chegada precoce à adolescência, uma etapa desconhecida há poucas gerações chamada de pré-adolescência que vai encolhendo tristemente a infância, reduzindo-a a anos cada vez mais escassos.

As razões fundamentais são, como quase sempre, de consumo: a moda, principal artífice da utilização de meninas em anúncios publicitários como Lolitas cada vez mais jovens, impulsiona esta imagem como um potente gancho comercial para vender seus produtos. Tudo está à venda numa sociedade ultramaterialista, tudo pode ser usado para gerar dinheiro, até mesmo a infância.

Por outro lado, vivemos em uma sociedade com profundas contradições e com grandes doses de moral ambígua. O sexo vende sempre, e a atitude da sociedade sobre a sexualidade feminina é no mínimo confusa e ancorada em padrões machistas. Por um lado se critica uma mulher que se veste de forma provocante, mas, por outro, se aceitam tanto uma menina vestida de mulher, maquiada, de saltos e minissaia, como uma mulher vestida de menina, beirando os limites da pedofilia. É o sintoma de uma cultura que flerta desde a infância com o mercado do sexual e que continua ancorada em padrões que enquadram o gênero feminino no acessório’.

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Efeitos da hipersexualização: meninas transformadas em ‘Lolitas’

O verdadeiro veneno de tudo isso é que a maioria das meninas vai crescer sem o espírito crítico necessário para sair desse roteiro e passará grande parte de sua vida tentando se encaixar em medidas físicas, num roteiro unilateral que não foi decidido nem negociado por elas porque vem do mercado e do gênero masculino. Depois passarão outra parte de sua vida tentando preservar o que puderem dessas medidas e submetendo-se a cirurgiões plásticos, a dietas e à ansiedade de uma corrida contra o tempo que invariavelmente perderemos.

Os efeitos no desenvolvimento normal de uma menina são os que derivam de quebrar o equilíbrio e pular etapas. Por exemplo, temos dados de que, na França, 37% das meninas afirmam estar fazendo dieta, as conversas sobre moda e peso ideal aparecem cedo, as meninas são constantemente estimuladas pela televisão e pelas revistas juvenis, e vão assumindo com uma naturalidade perversa sua condição de objetos sexuais, vão adquirindo a crença de que a sociedade vai valorizá-las em função de sua aparência mais ou menos atraente para os homens. Um exemplo muito claro é que um presente cada vez mais frequente dos pais antes dos 18 anos é um aumento de seios. Outro sintoma alarmante e derivado desse desajuste é o arrepiante aumento nas percentagens de meninas afetadas por transtornos alimentares, principalmente anorexia e bulimia, que já estão sendo detectados entre os 5 e os 9 anos.

Além disso, ou sobretudo, essa hipersexualização do universo infantil acarreta uma aproximação muito violenta e distorcida do mundo da sexualidade adulta, perdendo-se experiências imprescindíveis que vão introduzindo de forma saudável e gradativa uma parte essencial do que depois será sua vida conjugal e sua forma de entender as relações sociais, não só sexuais. O erotismo, a sensualidade, a sexualidade são capacidades que se desenvolverão paulatinamente, assumindo uma forma específica em cada etapa do desenvolvimento e aproximando-se dos padrões adultos na adolescência. Há sexualidade nas crianças, é óbvio, porque é condição humana, mas muito diferente da que a mídia mostra a elas e a nós. Expressa-se na consciência de identidade de gênero, em saber que é homem ou mulher, nos jogos de papéis (quando brincam de casinha), na curiosidade saudável de conhecer as diferenças no corpo do outro, mas não há erotização alguma nisso. Trata-se de um processo que, se não for adulterado por interesses comerciais e tóxicos, levará a uma sexualidade adulta livre.

Nós, os pais, temos a responsabilidade neutralizar, o quanto possível, toda essa influência externa, para isso precisamos estar muito atentos e muito presentes, acompanhar com interesse o que leem e assistem, filtrar e canalizar o que chega a eles de todos os lados, dosar as mídias. Não permitir que frequentem lugares nem façam atividades que não sejam condizentes com sua idade, unicamente pelo fato de que as outras crianças fazem. Ser parte da solução, não do problema. Educar em valores que priorizem o esforço, o ganho, o espírito cooperativo e a igualdade. E, sobretudo, oferecer um referencial sólido através do exemplo.

Assim, quando chegarem os anos difíceis, a adolescência, precoce ou não, terão raízes. Terão critério. Não serão invulneráveis, obviamente estarão sujeitas às pressões sociais, mas teremos deixado uma base sólida em sua personalidade que lhes ajudará a saber diferenciar e sair ilesas dessa etapa tão difícil como imprescindível.
Fonte: EL PAÍS – BRASIL
Por Olga Carmona
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