Violência doméstica: do normal ao patológico

Comentário:
Sabemos que a violência doméstica já foi considerada uma conduta normal. O fato desta conduta machista com violência passar a ser considerada crime não determinou uma diminuição na sua frequência. Já publicamos aqui e aqui matérias enfatizando que estas ocorrências não diminuirão se não houver prevenção. No texto de hoje a autora, de origem portuguesa, também faz referência à necessidade de prevenção. E por coincidência, o também português, Secretário-Geral da ONU, António Guterres, ao participar da 34a sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, sugeriu que As discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença.

Entre um “dó maior” e um “sol menor”: sobre a banalização da violência

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Até há relativamente poucos anos, a violência doméstica povoava a vida quotidiana da comunidade de modo indelével mas sem gerar grandes manifestações de indignação.

A apresentação dos cônjuges como a cara-metade traduzia o índice de pertença a uma unidade maior mas, simultaneamente, a referência a uma perda de identidade após o casamento: cada cônjuge não seria senão a metade de um todo e esse todo indivisível constituía a finalidade da relação a dois. A educação, sobretudo das mulheres, dirigia-se a esse projecto comum no qual se realizariam, pelo que o fim da relação conjugal era frequentemente sentido como uma falha pessoal, um projecto de vida falhado, uma vez que os projectos individuais se diluíam no colectivo familiar.

Ensinavam-se alegremente às crianças histórias de um Sebastião que “come tudo tudo tudo chega a casa e dá pancada na mulher”, ou do “mar que também é casado com a areia, bate nela quando quer”, ou da amante do fado Valentim que clama pelo seu amor “quero o Valentim olaró laró, quero o Valentim, olaró meu bem” mas que, a determinado passo afirma “agora é que eu percebo o valor do pau de marmeleiro”. E não havia espanto que uma marca de farinhas usasse como slogan “Seu marido bate-lhe? Então tome farinha de fava, ou Favacau d’A Mariazinha … e verá como cria forças para até o atirar pela janela fora!”. Poderia pretender ser apenas um spot publicitário de (duvidoso) humor, se não correspondesse, infelizmente, a uma forma de olhar a realidade, sem empatia pelo sofrimento do outro.

Olhando para a sociedade em que foi educada a minha geração e as que a precederam, verifica-se que o mundo dos preceitos morais, que de modo afincado e rigoroso nos eram transmitidos, coabitava com um dispositivo lúdico tinha como matéria prima este tipo de violência.

A acriticidade com que estas cantigas se difundiam poderia traduzir, ora a insensibilidade, o alheamento, o “fingimos que não vemos” com que era sentida a violência doméstica, ora a constatação da impotência para agir numa sociedade em que todos – instâncias formais e comunidade – procuravam instintivamente detectar um comportamento da vítima que pudesse fundamentar, de alguma maneira, a reacção do agressor: o poder correctivo dos pais a tentar conduzir ao bom caminho um filho insurrecto, a paixão incomensurável do agressor imerso na sua dor de não ser querido por quem não o merece, a perturbação incontrolável do amante para quem qualquer conduta menos dependente do ser amado (que julga pertencer-lhe) era sentido como sinal de infidelidade; ou apenas demonstração da incapacidade de se imaginar sozinho num mundo desenhado para dois, ainda que fosse um mundo azedo, triste, violento. Por outro lado, capear com humor as situações desagradáveis foi sempre um artifício usado para permitir um convívio menos doloroso com a realidade.

As palavras traduzem conceitos e as palavras moldam comportamentos.

Os provérbios e frases populares constituem, igualmente, um bom manancial de exemplos que ilustram não apenas o que se constatava, mas os comportamentos aceitáveis (desejáveis ?) nestes contextos: “entre marido e mulher não metas a colher”, “casa que não é ralhada não é governada”, “amor querido, amor batido”, “quanto mais me bates mais gosto de ti”, ou o não menos elucidativo, “só se perdem as bofetadas que caem no chão” constituem bons exemplos.

Portugal tem construído, ao longo dos últimos anos, um sistema integrado dirigido à diminuição da violência familiar e à protecção das vítimas de que se pode orgulhar. Porém, nenhum sistema, por muito bem estruturado que seja, por muitos meios que coloque ao dispor da vítima e do agressor, poderá obter bons resultados por si só.

É indispensável que se mobilizem todos os actores e se convoquem todos os meios para combater e prevenir a violência familiar.

Porém, a principal força motriz da modificação de comportamentos será a educação. Aprender a compreender e dominar os sentimentos e as emoções, aprender a respeitar o outro incondicionalmente, ensinar a pedir ajuda. Fortalecer a autoestima (que não poderá confundir-se com sobranceria), torna-se uma exigência de modo a que se adquira a capacidade de compreender que não se é dono de ninguém e se aceite que o fim de uma relação, por muito dolorosa que seja, não é o fim da vida.

Fonte: Linked in e locus delicti
Por: Ana Paula Pinto Lourenço, Docente Universitária
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Publicitários também definem o discriminador como um doente

Introdução:

Já apresentamos neste espaço o Projeto Discriminação (PD) da Associação de Psiquiatria do RGS – APRS que tem como um dos seus objetivos a definição do(s) Discriminador(es) como um doente e a Conduta Discriminatória como uma conduta doentia.
Para um melhor entendimento do PD vejamos outras publicações aqui do blog:
Uma hipótese para definição da Conduta Discriminatória (CD) e as características emocionais do Discriminador.
Duas entrevistas sobre o PD: aqui e aqui.                                                                             Duas propostas “leigas” que tem afinidade com o PD:                                                     Uma formulada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, no premiado livro Americanah.                                                                                                               E a do secretario-geral da ONU, sugerindo que as discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença.
As expressões abaixo, da publicação de hoje, seguem a linha do PD:                             o  Discriminador é um doente. /
#HomofobiaÉdoença /
“homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”.O que precisa de cura é o preconceito” /
#trateoseupreconceito /
o preconceito é que é a doença /
Doença é o preconceito, a homofobia e a violência que mata milhares de pessoas no mundo todo. Isto sim precisa de cura./                   #HomossexualidadeNãoÉDoença      #DoençaÉoPreconceito /
TrateSeuPreconceito   #CombateÀHomofobia  #HomofobiaÉDoença /

 

        Cura gay? Marcas se posicionam contra decisão de juiz do DF

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No último dia 15, o juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho da 14ª Vara do Distrito Federal concedeu uma liminar que, na prática, proíbe o Conselho Federal de Psicologia de impedir que psicólogos ofereçam “terapias” alternativas de reorientação sexual, popularmente conhecidas como “cura gay”. Diante de títulos sensacionalistas de diversos portais e memes (que muitas vezes reduziam o assunto a um entendimento raso), não só o assunto gerou um importante buzz de discussão sobre o tema, como também trouxe para o Facebook um colorido especial de volta a muitas fotos de perfil, com filtros em apoio à causa LGBT.

Personalidades como Anitta, Paulo Gustavo e Fernanda Gentil e marcas como Jardim da Ressureição, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Absolut, Google, o Detran SP, Museu do Amanhã, além do próprio Facebook entraram na conversa. Diversos governos também se posicionaram e a hashtag #TrateSeuPreconceito também subiu no Twitter juntamente com #AmorNãoÉDoença, #HomofobiaÉdoença e outras. Veja alguns deles:

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O Governo do Rio Grande do Sul relatou em sua página: “Não há cura para o que não é doença. Desde 1990, homossexualidade não é mais classificada como transtorno mental pela Organização Mundial da Saúde. Naquele ano, o órgão declarou que “homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”.O que precisa de cura é o preconceito” e esta imagem:

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A Revista Estilo publicou: “Repudiamos a decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho que concedeu uma liminar que permite a terapia de reversão sexual aos homossexuais, a cura gay. A comunidade LGBT não precisa de cura, precisa de respeito.”

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A Galileu também deu seu posicionamento online: “Na última segunda-feira (18), o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho da Justiça Federal do DF liberou psicólogos a tratarem gays e lésbicas como doentes. A decisão é um retrocesso, já que a OMS deixou de considerar a homossexualidade uma doença em 1990. #trateoseupreconceito”

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Assim como a Prefeitura de Recife, que disse: Quando se trata de amor, o preconceito é que é a doença. #maisamorporfavor”

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E o Governo da Bahia: “Homossexualidade é simplesmente o amor que uma pessoa sente por outra do mesmo sexo. Doença é o preconceito, a homofobia e a violência que mata milhares de pessoas no mundo todo. Isto sim precisa de cura. #HomossexualidadeNãoÉDoença    #DoençaÉoPreconceito  #Bahia #GovernoDaBahia”

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Minas também participou do movimento: “Desde o ano passado, os formulários dos REDS (Registros de Eventos de Defesa Social) – nome dado aos antigos boletins de ocorrência – permitem que a homofobia seja apontada como motivação presumida de um crime. Também foram predefinidas outras opções de preenchimento mais precisas, como lesbofobia, bifobia e transfobia. A medida adotada em Minas Gerais ajuda a elaborar um diagnóstico mais detalhado da violência relacionada a preconceitos e, assim, embasar políticas de combate a esses crimes. ?️‍?     #TrateSeuPreconceito     #CombateÀHomofobia #HomofobiaÉDoença  #MG — com SESP – Secretaria de Estado de Segurança Pública e Secretaria de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania.”

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Fonte: Adnews
Por: Redação Adnews
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Pedofilia católica: o celibato é a causa principal

Celibato es factor determinante de pederastia católica

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Durante los últimos cinco años, los exsacerdotes australianos Des Cahill y Peter Wilkinson revisaron la literatura especializada relacionada con la pederastia al interior de la Iglesia Católica.

El resultado de su investigación es un reporte de casi 400 páginas publicado por el Centro para la Investigación Global de la RMIT University de Australia.

Entre sus múltiples hallazgos se encuentra que las políticas de la Iglesia Católica sobre el celibato obligatorio son un factor determinante en que los sacerdotes terminen violando niños — otros factores son la homofobia y el machismo institucionales:

• Aunque no es la causa directa, el celibato obligatorio ha sido y sigue siendo el principal factor de riesgo precipitante para el abuso sexual infantil. Los mejores estudios en todo el mundo muestran que uno de cada 15 sacerdotes cometió el delito, aunque los índices difieren entre las diócesis y las congregaciones religiosas.

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• Los niños católicos jóvenes y vulnerables, especialmente los varones, eran y siguen siendo víctimas de la falta de intimidad de los sacerdotes y hermanos religiosos psicológicamente inmaduros, sexualmente privados y profundamente frustrados, en particular los que no han resuelto su propia identidad sexual y cuyo pensamiento está profundamente distorsionado y mutado hacia los niños.

• Aunque la homosexualidad no es una causa directa de abuso, el ambiente profundamente homofóbico dentro de la Iglesia y sus seminarios, basada en la enseñanza de que la homosexualidad es un estado intrínsecamente desordenado y que todos los gays deben llevar una vida de celibato, contribuye a la inmadurez psicosexual.

• Si bien hay otros factores, el riesgo de delito ha sido mucho mayor entre los hermanos religiosos con poco contacto con mujeres —educados en escuelas sólo para hombres y formados para la vida religiosa en instituciones sólo para hombres— antes de ser asignados a escuelas sólo para hombres y vivir en comunidades de hombres. La ausencia de lo femenino y la denigración de las mujeres dentro de las estructuras eclesiásticas es un factor de riesgo clave y subyacente en el abuso.

• Los sacerdotes y los depredadores religiosos se han beneficiado del fácil acceso a los niños en parroquias y escuelas, particularmente aquellos que viven en los presbiterios de un solo sacerdote y con acceso a un automóvil. El riesgo fue especialmente alto en países como Australia e Irlanda, donde históricamente ha habido un gran número de orfanatos y escuelas residenciales.

• El riesgo de depredación es mayor en entornos residenciales. Ese riesgo continúa hoy en día, particularmente en la India e Italia, que tienen una proporción significativa de los 9.500 orfanatos restantes de la Iglesia.

• La decisión del Papa Pío X de 1910 de reducir la edad a la que los niños se confiesan por primera vez a los siete años contribuyó indirectamente a poner a más niños en peligro.

• Los Papas y obispos crearon una cultura del secreto que condujo a una serie de graves fracasos en la transparencia, la rendición de cuentas, la apertura y la confianza, en su empeño por proteger la reputación de la Iglesia como una institución sagrada por encima de todo, incluso a expensas de la seguridad de los niños.

Desde hace unos años venimos abogando por prohibir que los menores de edad sean expuestos a la religión, porque eso es aprovecharse de que los niños —¡muchas veces con apenas días de nacidos!— no pueden tomar una decisión informada, lo que constituye una violación efectiva de su libertad de conciencia y de cultos — vamos, que es un lavado de cerebro en toda regla.

Aunque me parece terrible, entiendo que incluso en el mundo civilizado aún les cuesta trabajo ver a los niños como personas con DDHH que ni siquiera sus padres pueden violar, por más convicción que tengan y convencidos que estén. Ante este tenebroso panorama, no creo que sea mucho pedir que, por lo menos, se prohíba dejar niños solos con representantes religiosos a quienes les exigen celibato.

Fonte: De Avanzada
Por David Osorio
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Escutar o paciente ou receitar drogas?

 Notícias da psiquiatria e seu mal-estar na terra de Trump

 

Chama atenção que o programa não faz nenhum incentivo à escuta ou terapias não medicamentosas, simplesmente a prescrição, daí que ele vem sendo ironicamente chamado, ao invés de Educação Médica, de Programa de Promoção de Drogas.

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O que podemos esperar da troca do mais alto posto da psiquiatria americana, a direção do National Institut of Mental Health (NIMH)? Por treze anos a entidade foi comandada pelo notório Dr. Thomas Insel. Insel ganhou repercussão mundial quando a esperada quinta edição do DSM, que vinha sendo organizada pela Associação de Psiquiatria Americana, não foi referendada pelo NIMH no exato momento de seu lançamento. O DSM5 foi elaborado em meio a grandes polêmicas e resistências, principalmente quando o mundo descobriu o alto grau de comprometimento dos psiquiatras responsáveis com a indústria farmacêutica. Quando o NIMH desautorizou o DSM5 muitos comemoraram, pois a expectativa era de um manual ainda mais repleto de transtornos, aumentando enormemente o que poderia ser considerado uma patologia mental. Contudo, como chamou atenção Eric Laurent, em um artigo escrito logo após o anúncio do NIMH, não haveria muito o que comemorar, já que a crítica de Insel era precisamente que o DSM5 não era suficientemente “científico”, deixando entrever que o futuro da psiquiatria seria seu desaparecimento no oceano das pesquisas em neurociências[1].

As pesquisas translacionais

Efetivamente, a gestão Insel priorizou a neurociência e estrangulou progressivamente o orçamento para a pesquisa clínica. Afinal, com toda a crítica feita ao DSM, este era ainda um instrumento conectado à experiência clínica de profissionais que recebiam pacientes todos os dias. A partir de 2010, o NIMH instalou um novo critério para aprovação de pesquisas , chamado de RDC (Research Domain Criteria), que atrelava qualquer solicitação de financiamento à pesquisa translacional. O que é a Pesquisa Translacional? Trata-se de uma tendência mundial, crescente na pesquisa de doenças de todos os tipos, que visa agilizar a transferência de resultados da pesquisa básica à pesquisa clínica, afim de produzir benefícios para a comunidade como um todo. Em princípio a ideia é muito boa, pois visa reduzir o hiato entre a ciência pura e a prática clínica. As pesquisas translacionais no caso da psiquiatria envolvem sempre, em uma mesma pesquisa, tanto os genes, moléculas produzidas, células, e circuitos cerebrais, quanto o comportamento e os resultados clínicos obtidos.

Contudo, a crença de que o futuro da psiquiatria está no cérebro é tão consolidada, que solicitações de financiamento de pesquisas puramente clínicas passaram a ser sistematicamente negadas a partir dos novos RDC. A alegação do NIMH é sempre de que faltam nas propostas simplesmente clínicas uma “neurosignature”, espécie de selo de qualidade que implica a presença no projeto encaminhado de procedimentos atrelados aos pilares das neurociências. Em uma recente carta ao Times, o psiquiatra John Markowitz relata como ficou difícil propor uma pesquisa puramente clínica auspiciada pelo NIMH, já que, progressivamente, os fundos foram todos dedicados às pesquisas que incluem as neurociências. Atualmente apenas dez por cento do bilionária verba do NIMH é dedicada à trabalhos puramente clínicos[2].

Remédios para todos

Quem então se interessa pelos ensaios clínicos? Percebe-se que o espaço deixado vago foi fartamente ocupado pela indústria farmacêutica. Enquanto os neurocientistas se dedicam às pesquisas translacionais, a clínica psiquiátrica, na ponta, passa a ser orientada de modo cada vez mais explícito por protocolos duvidosos que levaram o consumo de medicamentos à patamares sem precedentes.

Dentre os projetos mais controversos encontra-se o Practice Support Program for Child and Youth Mental Health (PSP-CYMH), coordenado pelo Dr. Stan Kutcher. Trata-se de um programa que visa identificar patologias psiquiátricas entre os jovens em idade escolar. O programa foi largamente impulsionado por alguns crimes e suicídios cometidos por adolescentes em suas escolas, e que ganharam grande repercussão na imprensa. Nele, médicos generalistas recebem 2600 dólares por 10 horas de capacitação, para identificar precocemente possíveis distúrbios psiquiátricos em jovens em idade escolar. Assim, durante as visitas rotineiras para vacinação e demais check-ups anuais, os jovens pacientes passaram a responder a um questionário protocolizado visando identificar possíveis situações de depressão, ansiedade ou outro sintoma psiquiátrico.

A constatação foi que, com o questionário, o número de jovens diagnosticados e tratados com medicamentos aumentou para proporções muito acima da realidade. Um dos mais preocupantes métodos para identificar distúrbios de ansiedade entre os jovens é o SCARED, Screen for Child Anxiety Related Disorders[3]. Enquanto a maioria dos dados conhecidos indicava que não mais que 10 por cento dos jovens apresentam distúrbios de ansiedade, com o SCARED o numero de jovens diagnosticados e tratados foi simplesmente o triplo[4]. O questionário, elaborado pelo Dr. Kutcher, vem sendo questionado por inúmeras entidades. A crítica é que ele induz os generalistas a aumentarem ou persistirem com a prescrição de Fluoxetina em jovens que muito provavelmente não possuem patologia alguma, simplesmente problemas cotidianos do enfrentamento de situações escolares difíceis.

Chama ainda atenção que o programa não faz nenhum incentivo à escuta ou terapias não medicamentosas, simplesmente a prescrição, daí que ele vem sendo ironicamente chamado, ao invés de Educação Médica, de Programa de Promoção de Drogas.

Como então encontrar o sujeito do sofrimento psíquico? O país está dividido. Há os que apostam milhões de dólares na elucidação biológica precisa das doenças psiquiátricas, em pesquisas cuja duvidosa comprovação pode levar décadas até produzir algum sentido prático na clínica, mas há igualmente os que desenvolvem sua prática clínica em um meio completamente distorcido pelo charme da indústria farmacêutica[5].

Os devaneios podem ir mais longe. Um experimento recente[6]] permitindo que adultos pudessem atingir o ouvido absoluto[7], condição que normalmente somente se adquire na infância, levantou a hipótese de que é possível recuperar a neuroplasticidade neuronal da juventude. A partir desses dados alguns pesquisadores já cogitam uma intervenção muito mais ousada, se não seria possível apagar os traumas infantis e permitir ao sujeito um novo ponto zero em sua própria história[8]. Ignora-se completamente que nossos traumas, assim como os sintomas decorrentes, são constitutivos de nossa própria existência.

Uma bilionária foraclusão do sujeito

“Os avanços na genética humana estão remodelando a maneira como entendemos muitas doenças mentais, incluindo a esquizofrenia. Sabemos infinitamente mais sobre as mudanças de DNA… O próximo passo crítico é aprender como eles produzem a doença.”[9] Esse comentário da Dra Pamela Sklar compõe uma matéria com as expectativas de seis grandes pesquisadores no domínio das doenças psiquiátricas publicado recentemente na Revista Cell, uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo. Os comentadores estão todos muito otimistas e pedem ainda mais fundos para continuar a desenvolver suas pesquisas: “Precisamos declarar guerra à doença mental, que afeta a vida de uma em cada quatro pessoas, e priorizar o financiamento de pesquisas neurobiológicas inovadoras para uma melhor prevenção, diagnóstico, intervenção precoce e tratamento.”, alega no mesmo artigo Jeffrey Borenstein, daBrain & Behavior Research Foundation.[10]

Não é provável que o orçamento anual de 1,5 bilhões de dólares do NIMH tenha destino muito diferente nas mãos de seu novo diretor. Joshua Gordon assume o novo posto após uma larga experiência como professor no Columbia University Medical Center, onde é o responsável pelo currículo de neurociências[11]. Suas pesquisas, focadas na atividade neural de camundongos portadores de mutações com relevância em doenças psiquiátricas, deixam entrever que não é para breve uma reconciliação entre a Associação de Psiquiatria Americana e o Instituto Nacional de Saúde Mental. São dois gigantes de peso. Se o orçamento do NIMH é gigantesco, o aumento no consumo de medicamentos psiquiátricos no Estados Unidos tem as mesmas proporções. Enquanto em 1987, quando o Prozac foi lançado, os americanos consumiam 800 milhões de dólares em medicamentos psiquiátricos, em 2010 essa cifra subiu para 40 bilhões de dólares/ano. E assim a máquina anda muito bem. O NIMH, preocupado com suas pesquisas em neurociências, parece não ter nenhum papel regulador sobre o consumo em proporções abissais de medicamentos prescritos no cotidiano da clínica. Há cifras bilionárias para ambos na terra de Trump. Somente a clínica do sujeito continua proletária

***

Em um ambiente tão inóspito, de que modo a psicanálise pode ser ouvida? Como mostrar uma face muito pouco conhecida da psicanálise em território americano, a psicanálise aplicada? Entre genes e ratos de laboratório por um lado, e uma venda crescente de medicamento por outro, poucas vozes se levantam contra essa bipolaridade obcecada em isolar o sofrimento psíquico no corpo cadaverizado da ciência ou rentabilizado pela indústria farmacêutica. Dentre as resistências mais ativas, podemos destacar o papel atual da organização não governamental MAD IN AMERICA[12]. Capitaneada pelo jornalista americano Robert Withaker, autor do best seller Anatomy of an Epidemic, a MAD se tornou uma das mais importantes associações contra os abusos e distorções da Saúde Mental americana. Sem dúvidas é necessário conhecer e interagir com essas resistências. Nas últimas décadas, a psicanálise acumulou uma enorme experiência em hospitais, serviços substitutivos e demais projetos sociais. Essa prática mostra que o mal-estar contemporâneo pode ter outro destino que não seja o entorpecimento. O sonho americano tem demonstrado seu amargo despertar, trata-se de um mal-estar que não será tratado por nenhuma droga, tampouco por promessas genéticas que podem beirar a eugenia. A psicanálise com certeza tem algo a dizer sobre os restos que nenhum muro consegue segregar.

[1] Laurent E., DSM 5, O fim de uma era, boletim Diretoria na Rede da Escola Brasileira de Psicanálise, link para acesso: http://www.ebp.org.br/dr/ebp_deb/ebP_deb001/laurent.html

[2] Markowitz J., There’s Such a Thing as Too Much Neuroscience, NYT de 14 outubro 2016 – http://www.nytimes.com/2016/10/15/opinion/theres-such-a-thing-as-too-much-neuroscience.html?emc=edit_tnt_20161014&nlid=67084594&tntemail0=y

[3] Sensitivity and Specificity of the Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders (SCARED): A Community-Based Study – Child Psychiatry & Human Development: June 2013, Volume 44, Issue 3, pp 391–399

[4] Wipond R., The Proactive Search for Mental Illnesses in Children, no site: https://www.madinamerica.com/2014/07/proactive-pursuit/

[5] Alison Bass, em seu livro Side Effects (Efeitos Colaterais), faz uma detalhada incursão no universo da indústria farmacêutica e suas tramas.

[6] Gervain J, Vines BW, Chen LM, Seo RJ, Hensch TK, Werker JF and Young AH (2013) Valproate reopens critical-period learning of absolute pitch. Front. Syst. Neurosci. 7:102. doi: 10.3389/fnsys.2013.00102

[7] Ouvido absoluto é capacidade que uma pessoa tem de formar uma imagem auditiva interna de qualquer tom musical marcado por um símbolo apropriado (nota, letra) de modo que se possa naturalmente identificar qualquer tom acusticamente apresentado

[8] Richard Friedman – Return to the Teenage Brain NYT de 8 outubro 2016 – http://www.nytimes.com/2016/10/09/opinion/return-to-the-teenage-brain.html

[9] “Developing Effective Treatments for Psychiatric Diseases” – Cell 165, June 2, 2016 1309

[10] idem

[11] NIH names Dr. Joshua Gordon director of the National Institute of Mental Health – www.nih.gov – new releases em 28 de julho 2016

[12] www.madinamerica.com

Fonte: Subversos
Por: Marcelo Veras, psicanalista
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“Transe mais e encha menos o saco”

                                           Artesexo 

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Uma das mais fantásticas exposições que já vi foi a exposição do Marquês de Sade no Grand Palais, em 2014. Devo dizer que visitei a exposição com minha filha, sem nenhuma preocupação com o fato de que a profusão de pénis e vaginas, cenas eróticas a 2, a 3 ou a 20, fossem deturpar seu profundo sentimento ético, uma das qualidade que mais admiro nela. Da blasfêmia à pornografia o que está em jogo? Embora elementos da pornografia estejam presentes na cultura desde seus primórdios, é possível localizar no Renascimento as bases das questões que norteiam o estudo da pornografia atual. Sade teve bons precursores.

Para a maioria dos estudiosos da pornografia, esta é indissociável da tensão provocada entre o realismo do coito e a moral civilizada. Tomemos uma definição universitária clássica da pornografia: expressões escritas ou visuais que apresentam, sob a forma realista, o comportamento genital ou sexual com a intenção deliberada de violar tabus morais e sociais . Eis o problema para os psicanalistas. Como falar de realismo sexual se a relação sexual não existe?

Paula Findlem , historiadora de Stanford, afirma que a pornografia dentro do contexto ocidental tem suas bases no comércio surgido a partir das novas técnicas de impressão de histórias e desenhos obscenos. Com o renascimento, a escrita deixa de ser um privilégio dos ricos. Mais atrativo do que a Bíblia de Gutemberg, os contos e poesias obscenos passam a ser consumidos em escala cada vez maior pelas populações das novas cidades renascentistas. Dentre tantos textos, os Sonetos Luxuriosos de Pietro Aretino se destacam como os mais representativos de sua época. Aretino pode ser considerado o primeiro pornógrafo moderno. Contudo, se pornografia e comércio caminharam lado a lado – obviamente uma questão de oferta e procura – a internet com seu império das imagens, introduziu uma verdadeira revolução do conceito. Passamos da pornografia como tecnologia a serviço da fantasia para uma tecnologia do gozo masturbatório, sem outro.

Agora, um movimento conservador conseguiu impedir que uma exposição interessantíssima sobre o universo Queer (pude ver o catálogo) pudesse ser vista pelos que se interessam. Percebam que esses conservadores bloquearam meu acesso sem me consultar. Naturalmente, podemos por a culpa na empresa que sucumbiu às exigências desse grupo. Mas, hello?! Alguém realmente acha que a exposição foi proposta por essa empresa pela admiração ao Universo Queer?

Tenho uma teoria e, até agora, com quase quatro décadas de clínica, ainda não consegui remover. Para mim, a obstinação em bloquear meu acesso à essa exposição só pode ter sido o sucesso de pessoas com grandes – e graves – problemas sexuais. Meu conselho aos que tiveram tanta vontade de bloquear essa exposição é simples: muito cuidado, é possível que boa parte da libido que vocês reprimem em seus próprios filhos os transformem em pequenos monstros intolerantes. Até aí tudo bem. E quando eles perceberem que o Queer está do outro lado do espelho?

Fonte: Facebook
Por: Marcelo Veras, psicanalista.
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Cristãos especialistas em ética: racismo e supremacia branca são “um problema cristão”

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Em 1934, um grupo de cristãos na Alemanha nazista assinou a “Declaração de Barmen”, se opondo à ideologia nazista e considerando-a contrária ao Evangelho. Oitenta anos depois, os cristãos dos Estados Unidos sentem a necessidade de fazer o mesmo.

O comentário é de Heidi Schlumpf, publicado por National Catholic Reporter, 17-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Mais de 400 especialistas em ética cristãos e outros teólogos assinaram o documento “A Statement from Christian Ethicists Without Borders on White Supremacy and Racism”, uma declaração do grupo de especialistas em ética cristãos sem fronteiras sobre supremacia branca e racismo. Organizada por quatro professores de ética e datada de 14 de agosto, a declaração considera a “ideologia racista, antissemita, antimuçulmana e neonazista como um pecado contra Deus que divide a família humana criada à imagem de Deus”.

A principal preocupação dos organizadores eram – assim como na Alemanha nazista – os envolvidos em movimentos de supremacia branca, entre outros movimentos, que afirmam ser cristãos. “É uma versão distorcida do cristianismo”, disse Tobias Winright, professor de ética em saúde da Universidade de St. Louis e fundador do grupo “Ethicists without Borders” (Especialistas em Ética sem Fronteiras), que organizou o comunicado.

A declaração se concentra nos especialistas em ética cristãos “porque é um problema cristão”, disse ele.

“A supremacia branca e o racismo negam a dignidade de cada ser humano revelada através da Encarnação. O mal da supremacia branca e do racismo deve ser encarado diante da figura de Jesus Cristo, que não pode ser confinado a nenhuma cultura ou nacionalidade”, diz a declaração.

Ela associa o antissemitismo e o racismo ao nacionalismo, incluindo a doutrina “America First” (Estados Unidos em primeiro lugar), que ele chama de “erro grave de idolatria” porque “pede, de forma absurda, para que os estadunidenses substituam o culto a Deus pelo culto à nação”.

“Gostaríamos de afirmar claramente que esses pontos de vista são heréticos para o evangelho cristão”, disse Anna Floerke Scheid, professora de teologia na Universidade Duquesne, em Pittsburgh, uma das organizadoras.
Ela e outros do grupo ficaram decepcionados com a resposta morna do clero e de outros líderes religiosos após eventos de carga racista, até mesmo antes de Charlottesville. “Há uma separação do que está acontecendo nas ruas e o que está acontecendo nas igrejas”, afirmou.

Mesmo a reação dos líderes católicos à violência em Charlottesville não corresponde à força do ensino anterior da Igreja contra o racismo e o antissemitismo, disse Matthew Tapie, diretor do Centro de Estudos Católico-Judeus na Universidade St. Leo, na Flórida, e também organizador da declaração. “Acredito que estamos numa situação de emergência e precisamos de uma denúncia mais forte”, disse.

A declaração sugere respostas ativas contra o racismo e a supremacia branca por parte de todos os cristãos, especialmente pastores, incluindo orações, trabalhando em várias tradições religiosas, participando de protestos e desobediência civil e se envolvendo em ações políticas.

Uma pesquisa informal nas redes sociais em 13 de agosto revelou que poucas igrejas abordaram os eventos em Charlottesville ou o racismo em geral, principalmente em paróquias predominantemente brancas, de acordo com MT Dávila, professor de ética cristã na Escola de Teologia Andover Newton, outro organizador.

Ele espera que a declaração – assinada por cristãos em um amplo espectro denominacional e até mesmo ideológico – dê aos pastores “permissão para pregar uma palavra fiel ao Evangelho, denunciando o racismo por ser uma violação do bem comum e da dignidade humana”.

Em igrejas de maioria negra, no entanto, Charlottesville estava na cabeça de todos.

“É só mais uma indicação de algo que já sabemos”, disse Reggie Williams, professor de ética cristã no Seminário Teológico McCormick, em Chicago, que assinou a declaração.

Ele disse que sua linguagem forte “coloca no papel o significado de ser moralmente fiel a Cristo neste momento”.

Mas outros signatários e organizadores esperam que ela vá além.

“Precisamos falar mais alto e ser mais pró-ativos na denúncia ao racismo em todas as suas formas”- Anna Floerke Scheid

“Se não conseguirmos, seremos irrelevantes como Igreja.”

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU
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“Pretas e pretos discriminam outros pretas e pretos”

“PRETAS E PRETOS DISCRIMINAM OUTROS PRETAS E PRETAS?”

Bob

Companheiros e companheiras; na minha opinião, esta é a razão capital de grande parte dos nossos fracassos em “reunir pretos e pretas” em torno de ideias e propostas para serem discutidas, sem retiradas de conclusões que levem ao estabelecimento de prioridades grupais com base no maior número de participantes que apoiam determinadas ideias dentro desses citados grupos…

É difícil não se impressionar com a quantidade de lideranças de militâncias pretas que não disfarçam suas preferências por terem suas ideias aceitas e referendadas pelos demais companheiros e companheiras sem nenhuma forma de crítica…

Ironicamente, repetidas vezes, são essas mesmas pessoas que aderem às falas de lugares comuns relacionadas com “preto e pretas descriminam outros pretos e pretas”…

Em raríssimas ocasiões, porém, tais lideranças estão dispostas a abrirem mãos das suas certezas ideológicas, na maioria das vezes mal assimiladas, em nome de quaisquer possibilidades concretas de reunirem o maior número possível de pessoas dentro dos grupos aos quais pertencem estimulando tais participantes a participarem das construções dessas mesmas ideias e/ou propostas.

Assim, como líderes, não conseguem perceber que dentro de grupos é mais fácil conseguir apoios entre pessoas que também se sintam responsáveis por ações onde, também, ajudaram nas suas formulações.

Enquanto isso, sem perceberem as razões desses fracassos, estão sempre chegando às mesmas conclusões pessoais: “PRETAS E PRETOS DISCRIMINAM OUTROS PRETAS E PRETOS”…

Assim fica difícil não se destacarem como pessoas que sempre querem ter a última palavra nas decisões grupais…

Fonte: INVISIBILIDADE NEGRA
Por: José Teodoro Costa
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O lado da imprensa no caso Roger Abdelmassih “o maior predador sexual que a história deste país conheceu”*

Introdução
O texto de hoje tem como fonte o Jornal da Universidade de São Paulo – USP.
Consta de um resumo da dissertação de mestrado *Estupro na imprensa – O processo de trabalho de jornalistas e profissionais de direito na cobertura do caso Roger Abdelmassih pelo jornal Folha de S.Paulo (2009-2015), na perspectiva de estudos de jornalismo, da legislação e das práticas do Poder Judiciário e dos estudos feministas.
A tese foi apresentada na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em março de 2016, pela pesquisadora Lieli Karine Vieira Loures Malard Monteiro, sob a orientação da professora Alice Mitika Koshiyama.
“Esta pesquisa nos mostrou que, ao descolar-se dos fatos jurídicos, a cobertura jornalística confinou no universo privado a violência sexual. Deixando de tratá-la como questão de saúde pública, não promoveu a divulgação de informações que poderiam contribuir para a construção da cidadania das mulheres.”

Estudo analisa cobertura de jornal no caso Roger Abdelmassih

Nas reportagens, as mulheres eram tratadas como acusadoras. Mas, para o Ministério Público, elas eram vítimas

abdelmassif 1Uma pesquisa realizada na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP analisou as reportagens do jornal Folha de S. Paulo sobre o caso Roger Abdelmassih, publicadas entre janeiro de 2009 e maio de 2015. De acordo com o estudo, o discurso jornalístico usado estava em desacordo com o discurso jurídico do Ministério Público Estadual (MP).

“O jornal se referia às mulheres como acusadoras. Porém, quem estava acusando era o Ministério Público. A Folha de S. Paulo somente começou a chamá-las de vítimas após Abdelmassih ser condenado e fugir do Brasil”, conta a autora da pesquisa, a jornalista Lieli Karine Vieira Loures Malard Monteiro.

abdelmassif 2O ex-médico Roger Abdelmassih, preso no Paraguai com apoio da Polícia Federal brasileira –
Foto: Secretaria Nacional de Antidrogas do Paraguai

Roger Abdelmassih, ex-médico especialista em reprodução humana assistida, foi condenado a 278 anos de prisão por cometer crimes contra a dignidade sexual de 37 pacientes. Posteriormente, a pena foi reduzida para 181 anos.

A Folha de S. Paulo foi escolhida por ter sido o primeiro jornal do País a publicar uma reportagem sobre o assunto e a cobrir todo o caso. Lieli analisou 48 reportagens veiculadas no caderno Cotidiano e dois artigos assinados. Também entrevistou duas jornalistas da Folha e algumas das mulheres vítimas do ex-médico. Conversou com profissionais do Judiciário, alguns deles envolvidos diretamente no caso, e pôde discutir, com esses especialistas, o conteúdo das reportagens publicadas pelo jornal.

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Análise da cobertura

Lieli analisou as reportagens e dividiu a cobertura jornalística nas seguintes fases: investigação (de 9 de janeiro a 28 de fevereiro de 2009); indiciamento e condenação (24 de junho de 2009 a 24 de novembro de 2010); e fuga e captura (7 de janeiro de 2011 a 31 de maio de 2015). Segundo a pesquisadora, o discurso utilizado para denominar as mulheres coincidia com as palavras dos advogados de defesa.

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“Quando se tem um volume grande de textos dizendo que essas mulheres são acusadoras, cria-se a ideia de que elas não são confiáveis. A imagem que se criou delas é condizente com a cultura do estupro, que sempre coloca dúvida sobre a palavra das vítimas. Quanto a Abdelmassih, foi apresentado como médico renomado”, destaca.

Para Lieli, o jornal se deu o direito de usar termos jurídicos de uma forma leiga e isso pode confundir o leitor, pois não esclarece questões jurídicas importantes. Com isso, formou-se uma falsa impressão sobre o que estava acontecendo, pois parecia que as mulheres estavam acusando injustamente.

“Quando a Folha não usa claramente os termos corretos, ela acaba fazendo o que não quer fazer: serve de tribuna, julga as mulheres. Não houve um pensamento crítico do que estava ocorrendo, nem contextualização dos estupros, nem questionamentos sobre como uma vítima se comporta, quais os danos psicológicos, ou mesmo como culturalmente as mulheres são educadas para não reconhecerem o estupro”, aponta. “Isso empobreceu a discussão porque se perdeu a dimensão do contexto social do estupro. Era algo que poderia ter sido feito dentro de um veículo de porte como a Folha de S. Paulo.”

Lieli considera ainda que a cobertura do jornal também perdeu a oportunidade de discutir as alterações da Lei de Estupro no Código Penal, ocorridas em agosto de 2009. “Antes, estupro era considerado ‘crime contra os costumes’: quando um homem constrangia uma mulher à conjunção carnal (penetração da vagina exclusivamente pelo pênis). Era preciso que os agressores fossem apenas homens e as vítimas apenas mulheres. Se a agressão fosse sexo anal, seria enquadrado como ‘atentado violento ao pudor’”, explica a pesquisadora. “Com a alteração da lei, estupro passa a ser considerado ‘crime contra a dignidade sexual’. O ‘atentado violento ao pudor’ deixa de existir e é incorporado à nova definição de estupro. As discussões envolvendo essas mudanças poderiam ter sido feitas, mas foram perdidas”, lamenta.

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Da imprensa para o Ministério Público

Segundo a pesquisadora, o Ministério Público tomou conhecimento do caso por intermédio de um produtor da TV Globo, que procurou os promotores e mostrou um vídeo com a denúncia anônima de algumas mulheres. O MP começou a investigar o caso. Os promotores conseguiram o contato de algumas e conversaram com elas. Eles perceberam indícios que apontavam Abdelmassih como autor dos crimes. Foi quando o MP apresentou a denúncia e passou a acusá-lo formalmente. “Era, portanto, o Ministério Público que acusava Abdelmassih de ser o autor dos crimes e não as mulheres”, ressalta Lieli.

A promotoria convidava Abdelmassih para ir lá falar com eles mas, ou ele não comparecia, ou mandava o advogado em seu lugar. O processo chegou a desaparecer do Fórum e reapareceu tempos depois, dentro de um banheiro. “O promotor me contou que decidiu procurar a imprensa pois, sem ela, o caso não iria para a frente devido à gigantesca influência do médico. Porém, a TV Globo recuou e desistiu de dar a matéria. Então o promotor falou com a revista Veja, mas eles analisaram o caso e optaram por também não divulgar nada”, conta Lieli.

abdelmassif 6Atualização do status do foragido na Interpol. Abdelmassih foi condenado a 181 anos de prisão pelo estupro de suas pacientes. Ele chegou a cumprir prisão domiciliar, mas retornou à cadeia – Foto: Divulgação/Polícia Federal

Foi nesse momento que o promotor foi procurado por uma jornalista da Folha de S. Paulo que, coincidentemente, havia recebido uma denúncia contra Abdelmassih e estava apurando a informação. Foram cerca de dois meses de apuração da Folha até a publicação da primeira matéria, em 9 de janeiro de 2009.

Depois da publicação da primeira matéria, a Folha de S. Paulo e o Ministério Público começaram a receber dezenas de ligações de outras mulheres contando que também foram vítimas do ex-médico. Quanto mais matérias eram publicadas, mais novas denúncias surgiam. “Segundo as jornalistas da Folha, a redação recebia e-mails com denúncias anônimas envolvendo Abdelmassih. E antes disso já existia um boato dentro da redação sobre um médico muito famoso de São Paulo que ‘cantava’ as pacientes”, finaliza.

Fontes: Jornal da USP e Biblioteca Digital USP
Por: Valéria Dias
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