Violência doméstica: do normal ao patológico

Comentário:
Sabemos que a violência doméstica já foi considerada uma conduta normal. O fato desta conduta machista com violência passar a ser considerada crime não determinou uma diminuição na sua frequência. Já publicamos aqui e aqui matérias enfatizando que estas ocorrências não diminuirão se não houver prevenção. No texto de hoje a autora, de origem portuguesa, também faz referência à necessidade de prevenção. E por coincidência, o também português, Secretário-Geral da ONU, António Guterres, ao participar da 34a sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, sugeriu que As discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença.

Entre um “dó maior” e um “sol menor”: sobre a banalização da violência

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Até há relativamente poucos anos, a violência doméstica povoava a vida quotidiana da comunidade de modo indelével mas sem gerar grandes manifestações de indignação.

A apresentação dos cônjuges como a cara-metade traduzia o índice de pertença a uma unidade maior mas, simultaneamente, a referência a uma perda de identidade após o casamento: cada cônjuge não seria senão a metade de um todo e esse todo indivisível constituía a finalidade da relação a dois. A educação, sobretudo das mulheres, dirigia-se a esse projecto comum no qual se realizariam, pelo que o fim da relação conjugal era frequentemente sentido como uma falha pessoal, um projecto de vida falhado, uma vez que os projectos individuais se diluíam no colectivo familiar.

Ensinavam-se alegremente às crianças histórias de um Sebastião que “come tudo tudo tudo chega a casa e dá pancada na mulher”, ou do “mar que também é casado com a areia, bate nela quando quer”, ou da amante do fado Valentim que clama pelo seu amor “quero o Valentim olaró laró, quero o Valentim, olaró meu bem” mas que, a determinado passo afirma “agora é que eu percebo o valor do pau de marmeleiro”. E não havia espanto que uma marca de farinhas usasse como slogan “Seu marido bate-lhe? Então tome farinha de fava, ou Favacau d’A Mariazinha … e verá como cria forças para até o atirar pela janela fora!”. Poderia pretender ser apenas um spot publicitário de (duvidoso) humor, se não correspondesse, infelizmente, a uma forma de olhar a realidade, sem empatia pelo sofrimento do outro.

Olhando para a sociedade em que foi educada a minha geração e as que a precederam, verifica-se que o mundo dos preceitos morais, que de modo afincado e rigoroso nos eram transmitidos, coabitava com um dispositivo lúdico tinha como matéria prima este tipo de violência.

A acriticidade com que estas cantigas se difundiam poderia traduzir, ora a insensibilidade, o alheamento, o “fingimos que não vemos” com que era sentida a violência doméstica, ora a constatação da impotência para agir numa sociedade em que todos – instâncias formais e comunidade – procuravam instintivamente detectar um comportamento da vítima que pudesse fundamentar, de alguma maneira, a reacção do agressor: o poder correctivo dos pais a tentar conduzir ao bom caminho um filho insurrecto, a paixão incomensurável do agressor imerso na sua dor de não ser querido por quem não o merece, a perturbação incontrolável do amante para quem qualquer conduta menos dependente do ser amado (que julga pertencer-lhe) era sentido como sinal de infidelidade; ou apenas demonstração da incapacidade de se imaginar sozinho num mundo desenhado para dois, ainda que fosse um mundo azedo, triste, violento. Por outro lado, capear com humor as situações desagradáveis foi sempre um artifício usado para permitir um convívio menos doloroso com a realidade.

As palavras traduzem conceitos e as palavras moldam comportamentos.

Os provérbios e frases populares constituem, igualmente, um bom manancial de exemplos que ilustram não apenas o que se constatava, mas os comportamentos aceitáveis (desejáveis ?) nestes contextos: “entre marido e mulher não metas a colher”, “casa que não é ralhada não é governada”, “amor querido, amor batido”, “quanto mais me bates mais gosto de ti”, ou o não menos elucidativo, “só se perdem as bofetadas que caem no chão” constituem bons exemplos.

Portugal tem construído, ao longo dos últimos anos, um sistema integrado dirigido à diminuição da violência familiar e à protecção das vítimas de que se pode orgulhar. Porém, nenhum sistema, por muito bem estruturado que seja, por muitos meios que coloque ao dispor da vítima e do agressor, poderá obter bons resultados por si só.

É indispensável que se mobilizem todos os actores e se convoquem todos os meios para combater e prevenir a violência familiar.

Porém, a principal força motriz da modificação de comportamentos será a educação. Aprender a compreender e dominar os sentimentos e as emoções, aprender a respeitar o outro incondicionalmente, ensinar a pedir ajuda. Fortalecer a autoestima (que não poderá confundir-se com sobranceria), torna-se uma exigência de modo a que se adquira a capacidade de compreender que não se é dono de ninguém e se aceite que o fim de uma relação, por muito dolorosa que seja, não é o fim da vida.

Fonte: Linked in e locus delicti
Por: Ana Paula Pinto Lourenço, Docente Universitária
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