As Ciências Humanas avançam lentamente numa sociedade conservadora

Comentários do blog:
A propósito das dificuldades das Ciências Humanas avançarem em certas áreas devido ao conservadorismo/imaturidade de parte da sociedade.
Estamos de pleno acordo com o texto de hoje em função de uma idéia muito exposta neste blog de que Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra .
Apesar de já encontrarmos publicado por pessoas ou instituições “leigas” aqui e aqui que o discriminador (racista, machista, homofóbico, etc.) é um doente mental, a maioria da nossa sociedade parece não ter interesse neste avanço.
Apesar destas resistências esperamos anunciar, em breve, importantes novidades nesta área.

chPhoto by madamepsychosis — Flickr

                                        A ciência e a sociedade

Um desabafo contra a intolerância e o preconceito

É muito comum que a ciência venha, de tempos em tempos, a quebrar paradigmas muitas vezes profundamente enraizados na nossa sociedade. O seu desenvolvimento traz com certa frequência novos conhecimentos que se chocam com os fatos e dados que aprendemos nas escolas ou nos meios sociais, causando muitas vezes perplexidade, outras vezes até mesmo uma aversão.

Não me parece errado dizer que toda sociedade, dentro de certos parâmetros, é um tanto quanto conservadora. Não à toa, é muito comum caricaturar os cientistas como pessoas não convencionais, depravados, imorais ou só “malucos” mesmo.

Muitas vezes, quando surgem novas evidências, ou que novos conceitos acabem se tornando um fato razoavelmente estabelecido dentre determinadas comunidades científicas, ainda assim é possível ver o quanto a sociedade em geral teima em refutar ou em negar tais condições.

Eu não saberia dizer sobre os porquês destes acontecimentos, mas o que mais temos, são exemplos dessas situações. Há pessoas — comunidades inteiras, em alguns casos— de “céticos” que creem no “terraplanismo”, enquanto muitos outros estão convencidos de que há raças humanas superiores. Há quem difunda tratamentos alternativos para o câncer, e outros creem que a homossexualidade é uma doença e precisa ser tratada.

E estes fatos, por mais que sejam sistematicamente e cientificamente desconstruídos, continuam sendo calorosamente defendidos. Tem até os que matam por tais “superstições”. E os argumentos que eles usam para “refutar” as novidades muitas vezes são construções argumentativas rasas, falhas e desprovidas de evidências, ou então baseadas em evidências meramente anedóticas, quase sempre publicadas em livros patrocinados ou artigos em revistas sem nenhuma reputação.

Ah, e claro, sempre com muita falácia, principalmente a ad hominem, quando as discussões chegam nas redes sociais. Por tal razão, posicionar-se cientificamente embasado sobre determinados temas, muita vezes, acaba nos levando à embates, à uma situação conflituosa. E o que não falta, nestas horas, são acusações que vão do extremo “fascista” à preocupante “esquerdopatia”.

Os últimos textos deste que vos fala (ou melhor, escreve) foram publicados no Ciência Descomplicada e renderam boas — e às vezes não tão boas assim — discussões. Em especial no Youtube, onde também divulgo um pouco mais da ciência do Direito. Mas, quando se propõe a divulgar cientificamente determinados conteúdos, é preciso estar pronto para o embate contra o moralismo e a ignorância vigente.

Posso dizer, por exemplo, que é assustador, para não dizer alarmante, ver a quantidade de pessoas que se manifestaram à favor do tratamento para a cura gay, partindo da premissa (completamente absurda) de que a homossexualidade é uma doença — para muitos, mental (!).

Ao posicionar-se tecnicamente contra tal a decisão (da “reorientação sexual) eu tinha ciência de que enfrentaria uma boa quantidade de críticas ou de pessoas que defenderiam tais tratamentos. Em especial, os mais devotos cristãos. Só não esperava que fosse uma enxurrada de agressões e de rotulações, especialmente de natureza ideológica.

Pois é. É preciso salientar que os fatos científicos são “amorais”. Não há moralidade em uma pedra que cai, quando jogada pra cima. Morais somos nós, humanos, que valoramos as descobertas como boas ou ruins. Como aceitáveis ou repugnantes. E isso, diga-se de passagem, é fundamental — os cientistas e a ciência precisa, sim, de limites e de controle. De debates éticos. Mas as descobertas, as constatações, elas são o que são.

Por isso que é frustrante ver muitas pessoas, partindo de um ponto de vista ideologicamente ou moralmente viciado, que querem refutar, à todo custo, uma realidade já desvendada pela ciência. E nesse desespero, vale tudo, inclusive atacar os cientistas ou mesmo os entusiastas, divulgadores ou qualquer um que conviva bem com as (nem sempre) novas descobertas.

Como “divulgador científico” do Direito, eu tenho a exata noção de que, por se tratar de ciência humana, é plenamente aceitável a existência de conceitos duais, muitas vezes somando-se (as conhecidas teorias ecléticas), em outras situações rejeitando-se. O Direito não é exato, matemático. Ele está sempre sendo operado sob uma ótica subjetiva, assim como a sociologia, a psicologia e antropologia, por exemplo.

Mas, mesmo possuindo seus subjetivismos, ele ainda é uma ciência, com procedimentos e técnicas peculiares à sua natureza. Muitas vezes, os textos ou artigos jurídicos são apenas técnicos e pedagógicos, e em outras, há também a exteriorização de pontos de vista pessoais ou ideológicos — pois, é claro, uma das funções do Direito é construir normas que, invariavelmente, refletem conceitos morais ou éticos de uma determinada sociedade.

Um bom exemplo é a questão das armas de fogo, que abordei neste texto. A permissividade ou não é uma questão sociológica, ideológica e que guarda diversos aspectos subjetivos, morais e éticos. Mas uma vez inserida no ordenamento, a análise ou a orientação de como se deve proceder para possuir uma é uma questão técnica derivada da norma. Ainda assim, quando à abordamos, estamos sujeitos à sermos tachados de fascistas ou de estar, de certa forma, à serviço da indústria bélica.

No entanto, expor esses questionamentos morais ou éticos não é um problema — pelo contrário — precisamos cada vez mais de debates e diálogos, abertos e respeitosos, sobre nossos direitos e sobre nosso Estado, nossa política, nossa educação e nossa ciência. Precisamos baixar a nossa guarda ideológica para ouvirmos e refletirmos sobre as novas descobertas, sob novos pontos de vista, sob novas opiniões.

Não devemos ter medo de conversarmos sem pudor sobre a ciência, sobre o direito, sobre nós. E não devemos, por outro lado, nos omitirmos de expor o preconceito e as maleficências destes paradigmas ultrapassados, tampouco deixarmos de combatê-los. E a melhor forma de se combater a ignorância, a desinformação e o preconceito é transmitindo o conhecimento.

Vamos, então, informar!

Fonte: Trendr
Por: Tássio Denker
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