Despediu-se do psiquiatra deixando como lembrança um paralelepípedo em cima da mesa

Um mexicano em Paris

JG

Estou lendo um livrinho precioso. Em 68: Paris, Praga e México (editora Rocco, 2008), do escritor mexicano Carlos Fuentes, passeia pelos grandes movimentos insurrecionais libertários de 1968, todos vivenciados pessoalmente. Ainda estou a meio caminho, mas o que já li é suficiente para recomendá-lo fortemente. Não se trata de uma análise política acadêmica, mas reportagens emocionadas sobre o que ele chama de ano-constelação, no qual “sem razão aparente, imediatamente explicável, coincidem fatos, movimentos e personalidades inesperadas e separadas no espaço”. Como se franceses, tchecos e mexicanos tivessem marcado hora para a erupção de um vulcão, a partir de três bocas diferentes, geograficamente muito afastadas. A descrição está longe de ser neutra. Fuentes se apaixona pelo que vê e suas palavras dão vazão a este sentimento, com grande densidade literária.
Sei que internet em geral, Facebook em particular, não é território apropriado para textos extensos. Não à toa os grandes sucessos de audiência, que “viralizam”, são apenas imagens, no máximo comentários ligeiros, perecíveis. Vou remar contra a corrente. Gastei um tempinho digitando um pequeno trecho do livro, que reproduzo abaixo. Fala de Paris naquele ano agitado. Quem se dispuser a lê-lo, arrisco dizer, compartilhará algo escasso hoje em dia: gente identificada com a construção de um futuro mais fraterno, criativo, revolucionário. Todos aglutinados apesar de diferenças ideológicas e nutridos por essas mesmas diferenças. Alento nestes tempos de revitalização do fascismo.

Em tempo: comprei o livro no sebo Berinjela (avenida Rio Branco, 185 – loja 10, bem em frente à livraria Leonardo da Vinci). Não o estava procurando. A surpresa deste tipo de encontro é dessas coisas que a internet jamais proporcionará. Viva Berinjela !

Cafés, bistrôs, oficinas, aulas, fábricas, lares, esquinas dos bulevares: Paris se transformou em um grande seminário público. Os franceses descobriram que há anos não dirigiam a palavra uns aos outros, e que tinham muito a se dizer. Sem televisão e sem gasolina, sem rádio e sem revistas ilustradas, deram-se conta de que as “diversões” os tinham, realmente, distraído de todo contato humano real. Durante um mês, ninguém tomou conhecimento das gestações da princesa Grace ou dos amores de Johnny Halliday, ninguém se sentiu impelido pelos apelos publicitários para trocar de carro, relógio ou marca de cigarros. Em lugar das “diversões” da sociedade de consumo, renasceu de maneira maravilhosa a arte de as pessoas se reunirem para escutar e falar e reivindicar a liberdade de interrogar e duvidar.

Os contatos se multiplicaram, iniciaram-se, restabeleceram-se. Houve uma revolta – tão importante quanto as barricadas estudantis ou a Cartaz maio 68 1greve dos operários – contra a calma, o silêncio, a satisfação, a tristeza. Pais e filhos encontraram uma possibilidade de comunicação (ou se certificaram de que a haviam perdido). Maridos e mulheres se separaram por incompatibilidade política, moral e erótica (pois trata-se de sinônimos). Outros pares se conheceram nas barricadas, no debate permanente no Odéon, nas passeatas: o amor nasceu com a mesma velocidade dos acontecimentos. Flo é filha de uma montadora de filmes amiga minha; era a moça mais inibida do mundo; estuda em Nantes e ocupou a universidade com seus companheiros; Flo se libertou em uma cidade da qual despareceram os policiais, convocados com toda a urgência a Paris: Nantes, a cidade e sua universidade, e a linda Flo, foram verdadeiramente livres pela primeira vez. Madeleine é a inteligente editora de uma coleção de livros infantis em uma grande editora; seu marido é produtor de televisão. No momento mais tenso das barricadas, Madeleine transformou seu apartamento em refúgio e hospital para estudantes feridos; o marido reclamou que a atitude dela o comprometia: quando se trabalha na ORTF, tem-se de estar bem com o governo. “Escolha entre eu e Pompidou”, respondeu Madeleine. Jean-Jacques, um amigo psicanalista, queixa-se amargamente: “Os consultórios se esvaziaram, e muito. A revolução substituiu o psiquiatra. Nós nos sentimos inúteis. Ontem uma paciente minha esteve no consultório e disse: ‘Os senhores querem nos adaptar a essa sociedade idiota. Eu me nego a ser adaptada. Quero ser rejeitada e rejeitar o mundo atual’. E me deixou, como lembrança, um paralelepípedo em cima da mesa”.

Autor: Jacques Gruman
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