Imigrantes muçulmanos também discriminam europeus

Alemanha, Áustria: Imãs Advertem Muçulmanos a Não se Integrarem

Na celeuma que gira em torno dos migrantes na Alemanha e na Áustria, nenhum outro termo é usado com mais frequência do que “integração”. Contudo, a instituição mais prestigiada por muitos migrantes muçulmanos, via de regra, não colabora muito nesse empreendimento e não raramente se opõe a ele, qual seja: a mesquita. Essa é a conclusão de um estudo oficial austríaco, bem como de um levantamento do setor privado realizado por um jornalista alemão.

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Centro Islâmico de Viena. (Imagem: Zairon/Wikimedia Commons)

No final de setembro, o Austrian Integration Fund (ÖIF), órgão do Ministério das Relações Exteriores , publicou o estudo: “o papel da mesquita no processo de integração”. Para efeitos do estudo, funcionários do ÖIF estiveram em dezesseis mesquitas em Viena, participaram de diversos sermões das sextas-feiras e conversaram com os imãs ao pé do ouvido, isto é, quando os imãs se disponibilizavam a conversar, o que amiúde não era o caso. A conclusão, de acordo com o ÖIF, é que apenas duas das associações de mesquitas fomentam a integração de seus membros. O estudo aplaude uma associação de mesquitas da Bósnia que também dirige um clube de futebol. Durante a conversa, o imã salientou: “qualquer país, como a Áustria por exemplo, tem suas leis e seus costumes, eu não me canso de dizer, é nosso dever religioso respeitar as normas e se integrar como manda o figurino”.

No tocante aos papéis de gênero, em todas as mesquitas em que estiveram, os autores foram surpreendidos pela quase total ausência de mulheres nas rezas das sextas-feiras:

“Apenas três das mesquitas percorridas… proporcionam espaço reservado para as mulheres, reservado e ocupado por elas. Caso haja esse tipo de acomodação, a maioria das mesquitas também transforma esses espaços às sextas-feiras em lugares para os homens”.

Separação por Etnia

Salvo raríssimas exceções, as mesquitas de Viena são divididas de acordo com a etnia:

“Há mesquitas turcas, albanesas, bósnias, árabes, paquistanesas e outras, nas quais os sermões são, via de regra, proferidos exclusivamente no respectivo idioma da terra natal. Somente em casos excepcionais, trechos do sermão, e mais excepcionalmente ainda, todo sermão, é traduzido para o idioma alemão”.

Portanto as associações de mesquitas são “espaços fechados em termos de etnia e idioma”. Essa diferenciação estimula a “integração social em um ambiente étnico próprio e, consequentemente, a segmentação étnica”. Em oito das dezesseis mesquitas avaliadas, essa propensão é ainda mais reforçada pelo “nacionalismo predominante, flagrantemente difundido”.

A mesquita gerida pelo movimento turco Milli Görüs se destacou pelo alto grau de radicalismo. Milli Görüs é uma das organizações islâmicas da Europa mais influentes e está intimamente ligada ideologicamente ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan. De acordo com o estudo, o imã da mesquita de Milli Görüs “defende abertamente o estabelecimento de uma Ummah (nação muçulmana) politicamente unida regida por um califado”. Ele atribui a instabilidade no Islã à fitna (“revolta”) trazida para a comunidade islâmica de fora para dentro. Segundo os autores do estudo, o imã “se vê cercado em todos os lugares pelos inimigos do Islã que querem impedir a comunidade islâmica de dominar o mundo conforme previsto nas profecias”. Nos três serviços religiosos dos quais participamos, o tema crucial era a unidade dos muçulmanos: muçulmanos de um lado, “infiéis” de outro. De acordo com o estudo, algumas das declarações do imã indicaram uma “pesada visão de mundo impulsionada por teorias da conspiração”, como por exemplo: “as forças que estão fora da Ummah fizeram tudo que estava ao seu alcance para minar a percepção da Ummah pela própria Ummah”.

A conclusão do estudo assinala:

“Em síntese, poder-se-ia dizer que das dezesseis associações de mesquitas avaliadas neste estudo, com exceção das mesquitas D01 (uma das poucas mesquitas de língua alemã) e B02 (a mesquita da Bósnia mencionada acima), que elas não promovem diligentemente a integração social de seus membros. Na melhor das hipóteses elas não impedem que isso ocorra. Na maioria das vezes elas têm em si um efeito inibitório no processo de integração”.

Conforme a matéria, seis das dezesseis mesquitas avaliadas (37,5%) cortejam “uma política que impede diligentemente a integração dos muçulmanos na sociedade e, até certo ponto, manifestam propensões fundamentalistas”. Metade das dezesseis mesquitas examinadas “pregam uma visão de mundo dicotômica, cujo princípio central é a divisão do mundo em muçulmanos de um lado e o restante do outro”. Constatou-se que seis das mesquitas praticavam o “enxovalhamento explícito da sociedade ocidental”.

Recriminação ao Estilo de Vida na Alemanha

Observações parecidas foram feitas pelo jornalista alemão Constantin Schreiber que em 2016 passou mais de oito meses assistindo serviços religiosos das sextas-feiras em mesquitas alemãs. Schreiber, fluente em árabe, é conhecido como moderador de programas de televisão em árabe, nos quais ele explica como funciona a vida na Alemanha aos imigrantes. Ele publicou suas experiências nessas mesquitas em um livro que esteve na lista de best sellers na Alemanha por meses a fio: Dentro do Islã: O que está Sendo Pregado nas Mesquitas da Alemanha.

Schreiber se apresentou às associações de mesquitas como jornalista, revelando que pretendia escrever um livro de não ficção sobre mesquitas na Alemanha. Pouquíssimos imãs se dispuseram em aceitar conceder uma entrevista. Em uma ocasião, ele foi informado de que era “proibido” falar com ele. Normalmente os imãs com os quais era permitido conversar não falavam praticamente nada de alemão. “Ao que tudo indica, é possível viver na Alemanha por anos a fio, com esposa e filhos e sequer ser capaz de comprar pão em alemão”, ressalta Schreiber.

Um assunto habitual nos sermões que Schreiber assistiu nas mesquitas consistia em recriminações ao estilo de vida na Alemanha.

“Vira e mexe, como acontece na mesquita Al-Furqan (mesquita árabe sunita em Berlim), os muçulmanos parecem estar comprometidos com a ideia de que eles são uma espécie de comunidade com um destino em comum: ‘vocês são a diáspora! Nós somos a diáspora! Eles (alemães) se assemelham a uma torrente que aniquila vocês, que destrói vocês e tira de vocês seus valores e os substitui pelos valores deles’.”

Na mesquita sunita/turca Mehmed Zahid Kotku Tekkesi em Berlim, no sermão das sextas-feiras, no dia anterior à véspera de Natal, o imã alertou para a ameaça do “maior de todos os perigos”, o “perigo do Natal”: “todo aquele que imita outra tribo se torna membro dela. É a nossa Passagem do Ano Novo? As árvores de natal têm algo a ver com a gente? Não, nada a ver com a gente!”

O imã da mesquita de Al-Rahman em Magdeburg comparou a vida na Alemanha com um caminho através de uma floresta sedutora, realça Schreiber. Seus encantos têm o poder de desviar os muçulmanos, de afastá-los do caminho da virtude, de perderem o caminho na “mata densa” até serem “devorados pelos animais selvagens que vivem na floresta”.

O Estado Não Tem Um Panorama Claro

O que chamou a atenção de Schreiber, ainda no estágio de planejamento das visitas às mesquitas, foi a falta de transparência envolvendo as mesquitas na Alemanha. Para começar, não existe um diretório oficial de mesquitas. Ninguém sabe quantas mesquitas existem na Alemanha. O Website Moscheesuche.de, mantido pela iniciativa privada, é o único cadastro dessa natureza. “De modo que as autoridades alemãs”, salienta Schreiber, “dependem de cadastros compilados por um particular, que obviamente é caracterizado por um determinado posicionamento ideológico”. Além disso, como a inserção de dados no cadastro é voluntária, é incerto se as mesquitas que desejam permanecer na surdina estejam lá cadastradas. Schreiber considera improvável que o cadastro esteja perto de ser concluído ou atualizado:

“Eu me deparei com mesquitas que constam do cadastro, mas não existem mais, pelo menos por enquanto. Ou então mesquitas recém inauguradas que não estão registradas em nenhum lugar, nem os serviços de inteligência nem as autoridades regionais sabem de sua existência”.

Além disso, o pedido de Schreiber à prefeitura de Hanover revelou que as autoridades alemãs se sentem constrangidas no tocante ao fornecimento de informações sobre as mesquitas de sua própria cidade. Um funcionário da administração local escreveu em um e-mail: “por gentileza, forneça informações mais detalhadas sobre a finalidade do cadastro. Não queremos que essas instituições estejam sob suspeição generalizada”.

Medo e Silêncio

Schreiber foi tomado de surpresa com a reação defensiva daqueles cujas profissões exigem transparência e cooperação. Como Schreiber queria certificar-se de que, na tradução dos sermões, não haveria nenhuma interpretação equivocada, ele contatou o que afirma ser uma das agências de tradução mais conceituadas da Alemanha:

“A agência solicitou o envio da transcrição de um dos sermões para análise e estimativa de precificação. A agência recusou o trabalho. O texto foi considerado ‘fora da alçada habitual de trabalho’ dos tradutores, uma vez que não havia ninguém seguro de si o suficiente para traduzir corretamente este tipo de texto.”

Achar um tradutor dos sermões proferidos no idioma turco também foi difícil: “o simples fato de eu estar interessado neste assunto resultava na imediata acusação de que o que eu realmente queria era instigar “atacar o Islã”.

Schreiber também se viu diante de forte resistência ao procurar estudiosos alemães especializados em Islã para conversar com eles sobre o conteúdo dos sermões. Professores universitários, cujos salários são pagos pelos contribuintes alemães, se recusaram em providenciar informações sobre matéria relacionada à sua própria especialidade.

“Por meses a fio, enviei consultas a diversas faculdades de estudos islâmicos com as quais trocávamos ideias na nossa função de editores. Uma universidade ficou me enrolando durante meses com a desculpa de que ainda estavam procurando a pessoa certa. Em 16 de dezembro, isto é, três meses depois do meu primeiro pedido, o professor de estudos islâmicos me escreveu que já não havia tempo suficiente para marcar uma reunião. Quando respondi que, se necessário fosse, poderíamos marcar outra reunião no início de janeiro, não recebi mais nenhuma resposta . Vários professores da universidade me pediram para que eu lhes enviasse os sermões, o que eu fiz de imediato. Após enviá-los não recebi mais nenhum e-mail, sequer uma confirmação de recebimento”.

Segundo Schreiber, todo esse trabalho mostrou ser uma “experiência interessante”, a despeito do fato de estudiosos de estudos islâmicos e especialistas em Islã “serem por demais prestativos em se disponibilizarem em conceder entrevistas sobre questões de política atual”. Entretanto, essa abertura não existe, quando se trata de sermões em mesquitas alemãs: “inúmeros especialistas me evitam após receberem minhas perguntas, sem responderem, de forma consistente, aos meus e-mails”. Um estudioso do Islã me aconselhou, indiretamente, a abandonar o projeto, porque isso poderia, ‘hipoteticamente’, “aumentar ainda mais o abismo”. Por quê isso? Porque, segundo esse estudioso de estudos islâmicos, “mesmo leitores liberais e tolerantes poderiam facilmente achar esses textos extremamente incompreensíveis e estranhos, bem como grosseiros”.

Políticos Ingênuos

A conclusão de Schreiber sobre os sermões que presenciou:

“Após 8 meses de pesquisa devo dizer que as mesquitas são espaços políticos. A maioria dos sermões que eu participei visava resistir à integração dos muçulmanos na sociedade alemã. Quando o assunto se voltava para o estilo de vida na Alemanha, isso acontecia primordialmente em contexto negativo. Normalmente os imãs retratavam a vida cotidiana na Alemanha como ameaça e exortavam suas comunidades a resistirem. A característica comum de quase todos os sermões é o apelo aos fiéis para se fecharem e não compartilharem”.

Em “praticamente todas as mesquitas”, Schreiber notou a presença de “dezenas de refugiados que não estavam há muito tempo na Alemanha”. Eles também haviam sido alertados para o perigo da integração: “fora da mesquita há muita conversa sobre integração, o contrário é pregado dentro dela”.
O perigo dessa abordagem fica evidente pelo assassinato de Farima S., uma afegã que foi assassinada na cidade bávara de Prien. Há oito anos ela abandonou o Islã, se converteu ao cristianismo e, dois anos depois, fugiu para a Alemanha. Em 29 de abril, ela foi assassinada por um muçulmano afegão em plena luz do dia. Inúmeros muçulmanos que moram na cidade foram ao funeral, ao passo que as associações de mesquitas faziam de conta que o assassinato não lhes dizia respeito. Karl-Friedrich Wackerbarth, pastor da igreja evangélica de Prien, onde Farima S. era afiliada, pediu às associações que condenassem o crime. Em outubro, meio ano após o assassinato, ele respondeu a uma consulta do Gatestone Institute: “lamentavelmente, até hoje”, salientou ele, “ninguém se manifestou”.

Wackerbarth acha que as associações islâmicas não querem emitir um comunicado contra as fatwas emitidas pela Universidade Al-Azhar do Cairo e de outras, segundo as quais os “apóstatas” (aqueles que abandonam o Islã) devem ser mortos.

Esse quadro levanta a questão da razão do governo alemão acreditar que as associações de mesquitas o ajude a resolver problemas. Não faz muito tempo, a consagrada ativista de direitos humanos e crítica do Islã, Necla Kelek salientou:

“Os políticos que enfatizam repetidamente a intenção de cooperarem com as mesquitas, que convidam seus integrantes a conferências sobre o Islã, não fazem ideia de quem está pregando o quê naquelas mesquitas”.

Fonte: Gatestone
Por: Stefan Frank, jornalista sediado na Alemanha
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