“Nossos preconceitos nos deixam cegos e burros”

Não aceitar as diferenças entre as pessoas é não ter o mínimo poder de reflexão.
Se você pensa algo diferente de outra pessoa existem sempre dois caminhos: o da argumentação e o do ataque. Quem não está disposto a aceitar que talvez sua verdade não seja tão verdadeira assim já começa perdendo. Quem não se questiona não evolui.

burro

                           A opinião alheia sobre a sua vida
e por que você também deve parar de questionar as escolhas dos outros
Para vocês que não me conhecem de forma íntima, pode até ser um baque o que vou dizer agora, mas eu fui nascida e criada em um lar evangélico, onde a conduta social e o estilo e vida eram coisas muito importantes.
Sim, eu defendo os umbandistas, as prostitutas, os gays. Eu leio sobre poliamor, signos e consigo tranquilamente aceitar que, embora as pessoas não tenham uma vida como a minha, não pensem como eu e não sejam da maneira que eu sou, elas sejam pessoas incríveis — que por muitas vezes me ensinam mais que eu a elas.

A religião ainda faz parte, de certa forma, da minha vida, mas aprendi a observá-la e segui-la com outros olhos, que funcionaram bastante para mim: os do amor. Percebi que por muitas e muitas vezes, em um universo evangélico, era mais importante o que você bebia, o que você vestia, as tatuagens que você tinha ou a família de onde você vinha, que a pessoa que você era — e isso me incomodava um bocado. Me incomodava ao fato das pessoas não questionarem sobre tudo que as cercava. Os julgamentos sempre se faziam presentes e o lance dos cristãos acharem que estão absolutamente certos sobre tudo me deixava transtornada. Aliás, até hoje. Não saber dialogar e apenas atacar é um desserviço para qualquer religião, mas enfim, minha relação com a igreja, embora seja importante, não é exatamente o assunto principal nesse post, então vamos por partes.

Não importa o quanto as pessoas sejam diferentes de mim, ajam diferente de mim ou tenham atitudes completamente fora daquilo que acredito. Sempre que me proponho a conhecer alguém novo e a inserir essa pessoa na minha vida, tiro a máscara do preconceito e dos julgamentos e busco enxergar o que existe de melhor e mais rico nela.

Veja bem, não vivemos, fisicamente, em uma bolha. Somos obrigados, diariamente, a nos confrontar com tantas realidades e histórias, que acho um absurdo perdermos tempo querendo provar nossos pontos de vista — cada um tem seus filtros, sua essência e suas justificativas. Não aceitar as diferenças inerentes a isso é não ter o mínimo poder de reflexão.

Existem muitos jeitos de falar sobre qualquer assunto, aprender sobre o outro e entender a vida alheia sem as críticas. A fofoca e o blá blá blá xiita sobre qualquer tópico, seja político, sexual, futebolístico ou religioso é cansativo demais. E, se não for construtivo, não vale de nada. Quem não está disposto a aceitar que talvez sua verdade não seja tão verdadeira assim, já começa perdendo. Quem não se questiona, não evolui. E, francamente, a arte e a própria vida já não sinalizaram tantas e tantas vezes que quem enxerga tudo quadradinho acaba machucado em algum momento? Tanto que precisa sempre cutucar quem está feliz para se sentir menos miserável? Por favor.

Vivemos tempos difíceis. Tradicionalistas. Machistas. Vivemos um momento em que a discussão sobre toda e qualquer coisa pode destruir uma família, afastar amigos, demitir pessoas. Não fortaleça a fofoca sobre nenhum assunto dentro do ambiente de trabalho, não incentive a discórdia dentro de nenhum local, aliás. Se você pensa algo diferente de outra pessoa existem sempre dois caminhos: o da argumentação e o do ataque. E ainda que os seus argumentos não sejam ouvidos, que você seja minoria, que de nada transforme a opinião alheia, é muito mais sábio, educado e construtivo tentar conversar. A imposição é a arma dos fracos — e não existem absolutas certezas nem sobre a morte nessa vida.

Como profissional senti e vivi isso na pele, como gestora, mais ainda. Os melhores e mais cabulosos projetos foram feitos por muita gente diferente junta, com muitas ideias distintas, com muita treta boa, se é que isso aí ainda existe e com muito, muito respeito. É mais difícil? É. Mas é muito mais saboroso também.

Eu acho que nossos preconceitos deixam a gente cego. Deixam a gente burro. Fazem com que nos aproximemos de quem é parecido com a gente — e quem é parecido ensina bem menos sobre as coisas que precisamos aprender do que aqueles que são diferentes.

Esse texto pode estar saindo óbvio demais, clichê demais, mas a verdade é que em pleno século XXI, com toda a revolução das redes sociais e toda a enxurrada de informações que recebemos todos os dias, nunca estivemos tão estúpidos. Nunca fomos tão intolerantes. Nunca tanta gente perdeu seus cinco minutos online para transmitir ódio, para atacar o outro e tudo isso, obviamente, reflete nas nossas relações dentro da vida real. Tudo isso deixa nosso ambiente de trabalho mais pesado, nos faz sentir que falar mal é normal, nos dá o argumento de que preconceito é opinião própria — e não é.

Quero viver em um mundo de pessoas diferentes e fortes. De pessoas que não se sintam inadequadas, mas acolhidas. Quero sempre olhar para outras realidades e encontrar um ponto no qual podemos nos enxergar, ainda que seja na total discrepância de conceitos sobre a vida. E segue a velha máxima: não concorda? Não faça. Não acha certo? Não se contamine. Mas chega de falar mal do coleguinha no café numa tentativa desesperada de ser valorizado. Que os atos sempre falem mais que as palavras — e que a gente consiga reconhecer na diferença a magia de uma vida menos entediante.
Não vim aqui pra concordar sempre, mas vim pra aprender. E, mais que isso, para espalhar o que restou de bom dessa equação. Ouça mais que diga, entenda mais que julgue, seja mais que pareça: a vida fica bem mais suave. Eu juro.

Fonte: Trendr
Por: Ericka Moderno Rocha
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