E a ciência desmoralizou a homofobia

A revista Nature publicou uma revisão da literatura com o título: O Sexo Redefinido. Nela, explica que o binário XX/XY caiu em descrédito na genética moderna…

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Preconceito contra a diversidade sexual é atestado de ignorância

                       Batalhas sexuais
O binário XX/XY caiu em descrédito na genética moderna. E a ciência desmoralizou a homofobia

Se você tem cromossomo Y é homem, se não tem é mulher, diziam os antigos. Hoje, sabemos que a biologia sexual é muito mais complexa. Na primeira metade do século XX, foram descritos transtornos de desenvolvimento sexual em que havia disparidade entre os cromossomos e a anatomia dos órgãos sexuais. Em alguns deles, a distinção entre masculino e feminino era tão imprecisa que gerava dúvidas nos médicos, e nas famílias sobre a forma de educar a criança.

Alguns autores calculam que exista um caso desses transtornos em cada cem nascimentos. A revista Nature publicou uma revisão da literatura com o título: O Sexo Redefinido. Nela, explica que o binário XX/XY caiu em descrédito na genética moderna, quando foram identificadas mutações de certos genes envolvidos no desenvolvimento, responsáveis por modificações sutis na anatomia e na fisiologia sexual.

E o conceito mais surpreendente: quase todos nós somos uma colcha de retalhos de células distintas, algumas das quais não combinam geneticamente com as do resto do corpo, ou seja, células XX em tecidos de homens e XY em mulheres. O sexo de cada célula do organismo é definido por uma rede de interações de altíssima complexidade.

O especialista John Achermann, do London College, diz: “Existe grande diversidade genética tanto no sexo masculino quanto no feminino, e há áreas de interseção com algumas pessoas que não se enquadram na estrutura binária (homem/mulher)”.

A rigidez do modelo binário não deixa espaço para explicar esses casos intermediários, em que fica impossível definir limites exatos de separação entre os sexos. Na vida intrauterina os limites são ainda mais nebulosos. Até a quinta semana de gestação, o embrião tem potencial para dar origem à anatomia sexual masculina ou feminina. É só a partir da sexta semana que as gônadas começam a se diferenciar na direção de testículos ou ovários.

Se houver formação de testículos, eles secretam testosterona e outros hormônios que forçam a atrofia das tubas e do útero. Na situação oposta, a secreção de estrogênio pelos ovários e a falta de testosterona atrofiam os dutos espermáticos e o epidídimo.

Os mesmos hormônios controlam a formação dos genitais externos e, na puberdade, o aparecimento dos caracteres sexuais secundários. Pequenas alterações em algum desses passos podem ter consequências radicais. Mutação num único gene às vezes é suficiente para que uma pessoa XX desenvolva características masculinas e vice-versa.

Durante muitos anos, a ciência acreditou que o desenvolvimento masculino era consequência da ativação de um programa disparado pelo cromossomo Y. O feminino resultaria da falta de competência para a ativação desse cromossomo. A descoberta de genes que promovem a formação de ovários e suprimem a ação daqueles responsáveis pelo desenvolvimento testicular levou ao abandono da simplicidade do binário e ao entendimento do sexo como um sistema biológico complexo, mediado por uma disputa entre redes de genes com interesses opostos.

Fonte: CartaCapital
Por: Dr. Drauzio Varella
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Educando para a felicidade: a experiência dinamarquesa

O método dinamarquês de educar é marcado por condutas que afirmam uma ética orientada para a integridade e a interação. Uma delas é o “elogio ao processo”. A ideia básica é a de elogiar o esforço das crianças e não suas qualidades pessoais.

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Montagem sobre fotos/ Freepik

Educando para a felicidade: a experiência dinamarquesa

Brincar é uma das primeiras condições da aprendizagem, porque decisiva para o desenvolvimento de habilidades sociais

Há vários indicadores que medem o desenvolvimento das sociedades. Um deles, proposto pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) das Nações Unidas, mede o nível de bem-estar em uma amostra de 38 países (Better Life Index). O estudo é feito anualmente com 11 indicadores: moradia, renda, empregos, comunidade, educação, meio ambiente, engajamento cívico, saúde, satisfação pessoal, segurança, vida/trabalho. No cômputo geral de bem-estar, o Brasil ocupa a 34ª posição, superando apenas África do Sul, México, Turquia e Grécia. Nas primeiras posições estão Noruega, Dinamarca, Austrália e Suécia (https://goo.gl/6knFAm). O indicador de satisfação pessoal do estudo procura medir a perspectiva mais ampla de felicidade, para além dos sentimentos momentâneos das pessoas. O Brasil, nesse ponto, situa-se na média. O maior índice de felicidade é manifesto na Dinamarca, Finlândia, Islândia, Suíça e Noruega (https://goo.gl/E4tozG).

Desde 1973, a Dinamarca lidera o ranking de felicidade, o que desperta o interesse dos pesquisadores. Por que razão os dinamarqueses se destacam nesse indicador? Para além da efetividade dos direitos humanos que marcam o modelo nórdico de Welfare State, haveria algo na educação dinamarquesa que poderia explicar a maior satisfação das pessoas? Para Jessica Alexander e Iben Sandahl, autoras do livro Crianças Dinamarquesas, o que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes (editora Fontanar, 2017, 142 p.), é exatamente disso que se trata. Para elas, os dinamarqueses educam seus filhos de uma forma específica, cujos valores e condutas estão na origem da felicidade geral.

Brincar é uma das primeiras condições da aprendizagem e os dinamarqueses entendem que ela é decisiva para o desenvolvimento de habilidades sociais. A interação com outras crianças, de idades diferentes, inclusive, desenvolve as habilidades de negociação e de autocontrole. “Quanto mais brincarem, mais resilientes e socialmente capazes serão”, afirmam Alexander e Sandahl. As crianças devem brincar sozinhas também. O “faz de conta”, a criação de personagens e vozes permitem que as crianças reinterpretem suas experiências. Não por acaso, um dos brinquedos mais conhecidos do mundo, o Lego, foi inventado por um dinamarquês, em 1935. “Lego” é a abreviação para leg godt que significa “brincar bem”.

O método dinamarquês de educar é marcado por condutas que afirmam uma ética orientada para a integridade e a interação. Uma delas é o “elogio ao processo”. A ideia básica é a de elogiar o esforço das crianças e não suas qualidades pessoais. Ao invés de “Nossa, como você é inteligente! Ninguém resolve um quebra-cabeças assim tão rápido”, o pai ou a mãe dinamarquesa dirá: “Nossa, essa era uma tarefa bem difícil e você chegou ao fim dela. Adorei a forma como você manteve a concentração e não parou de trabalhar. Muito bem”! Crianças que não são elogiadas pelos pais tendem a ser pouco confiantes em si mesmas, mas crianças que são elogiadas como se fossem portadoras de qualidades especiais tendem a imaginar que não precisam se esforçar tanto, já que seriam “melhores” do que as outras. Essas crianças podem, inclusive, evitar desafios mais complexos, temendo que eventual fracasso revele que não são tão inteligentes ou habilidosas quanto seus pais sempre disseram. Elogiar o processo, ao invés de qualidades inatas, transmite uma mensagem totalmente diversa. Com ela, as crianças começam a firmar a noção de que podem alcançar muito quando perseveram na busca de seus objetivos.

Na mesma linha, os dinamarqueses lidam com uma técnica que as autoras chamam de “reenquadramento”. Trata-se de estimular as crianças a perceber a realidade sob múltiplos ângulos, evitando a redução de uma experiência, por exemplo, a uma dimensão negativa. Isso produz um uso cuidadoso da linguagem, para não reproduzir estereótipos. O desafio é separar os indivíduos dos seus atos. Se o coleguinha fez uma coisa ruim, é aquele ato que é ruim, não o coleguinha. Pessoas erram e devem corrigir seus erros. O mundo, em síntese, não está dividido entre os que erram e os que acertam. Essa compreensão evita que a linguagem se transforme em uma sentença. Crianças que ouvem seus pais dizerem coisas do tipo: “você é egoísta”, “você é preguiçoso” ou “nosso filho detesta matemática”, “nossa filha não gosta de ler”, terão, seguramente, uma boa chance de acreditar nisso, caminho pelo qual tais frases se transformam em profecias que se autocumprem.

Esses são apenas alguns dos temas abordados por Alexander e Sandahl. No Brasil, não temos uma formação especial para paternagem/maternagem, o que significa que os adultos costumam agir em relação as suas crianças de forma instintiva e, muito frequentemente, repetindo os padrões pelos quais eles mesmos foram educados. Essa característica integra a receita pela qual os padrões de desigualdade são reproduzidos e perpetuados. Também por essa razão, o livro mencionado pode cumprir um importante papel entre nós, não apenas para pais e mães, mas também para professores.

Fonte: Jornal Extra Classe
Por: Marcos Rolim
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“É hora de colocar a indústria de alimentos ultraprocessados nos trilhos”

O discurso da indústria de que a conscientização do consumidor tratará de resolver o problema é simplista. A indústria do cigarro se valeu disso durante muito tempo, e agora a indústria de alimentos se tornou especialista em semear a dúvida na ciência.

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Foto Rafael Rioja Arantes. Idec.

  ‘O produto que a indústria de alimentos vende é a dúvida’

O pesquisador Boyd Swinburn diz que pressão dos fabricantes atrasa políticas públicas para conter obesidade e doenças crônicas

Boyd Swinburn entende que passou da hora de colocar a indústria de alimentos ultraprocessados nos trilhos. O professor de Nutrição Populacional e Saúde Global da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, usa a expressão “sindemia” para descrever o que está ocorrendo. Não estamos mais falando de uma epidemia de obesidade, mas da junção de uma série de problemas que passam a agravar um ao outro.

Diabetes, doenças do coração, câncer: três dos maiores fatores de mortalidade no mundo têm associação com a obesidade – embora possam também estar ligados a outros fatores. Para ele, o discurso impulsionado pela indústria de que a conscientização do consumidor tratará de resolver o problema é simplista. E desigual, na medida em que quem pode mais passa a comprar alimentos de melhor qualidade.

Em abril, o professor passou por Brasília para participar do Congresso Brasileiro de Nutrição (Conbran). Ele falou sobre um de seus interesses fundamentais: formular, identificar e monitorar políticas públicas que funcionem. Swinburn é um dos nomes à frente do INFORMAS, uma rede de organizações e pesquisadores voltados a essa finalidade. Afinal, se a obesidade se tornou um problema global, se as empresas são as mesmas mundo afora, é possível que a solução aplicada aqui também faça sentido acolá, ainda que com adaptações.

Uma das possibilidades no momento é usar a rotulagem frontal dos alimentos para desestimular o consumo de produtos não saudáveis. Há uma série de modelos, mas Swinburn reiterou em Brasília o apoio ao sistema defendido pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. A ideia é colocar sinais que alertem o consumidor sobre o excesso de sal, açúcar, gorduras e gorduras saturadas, além de acusar a presença de edulcorantes e gorduras trans.

O INFORMAS criou modelos de avaliação dessas políticas públicas pensando em quais argumentos conseguem persuadir formuladores e políticos. A rede conta com pesquisadores de 22 países interessados em desenvolver estratégias comuns quanto a temas como publicidade, rotulagem, composição dos alimentos, tributação e logística.

Swinburn deixa claro: é inútil procurar por uma bala de prata. E a tarefa de convencimento dos formuladores de políticas se torna mais difícil quando há um interesse que se sobrepõe à saúde pública. “O produto que eles vendem é a dúvida. A indústria do cigarro se valeu disso durante muito tempo, e agora a indústria de alimentos se tornou especialista em semear a dúvida na ciência”, critica.

Confira a seguir os principais trechos da conversa.

Você disse que não há uma solução mágica. Mas sabemos o que pode ser mais efetivo em lidar com a epidemia de obesidade?

A análise do que foi feito até aqui sobre modelos mostra que o mais eficiente são políticas públicas. Impostos sobre bebidas adoçadas, restrições na publicidade de alimentos, políticas alimentares em escolas e ambientes públicos. Geralmente, políticas públicas custam muito menos do que programas governamentais. E, no nível de política pública, você atinge toda a população, enquanto um programa é direcionado a um segmento.

Esse debate sobre políticas regulatórias está avançando rapidamente no mundo. O que tem promovido essa aceleração?

Há um enorme impulso da OMS e da sociedade civil, de acadêmicos, de formuladores de políticas públicas. Mas também há uma enorme reação da indústria de alimentos. Eles têm bolsos muito profundos e habilidade para converter poder econômico em poder político para garantir que as políticas implementadas não prejudiquem seus lucros. Isso é o que temos no momento.

É2Foto: Jéssica Ribeiro. Idec

Os políticos estão espremidos no meio, com um grupo dizendo que precisamos de políticas públicas e outro grupo dizendo que não. Os políticos tendem a ficar assustados quando há dois grupos muito significativos batendo à porta, e acabam por congelar a ação. Então, quase nenhum país tem avançado rapidamente no campo político. O Chile fez o maior progresso porque tinha um ministro e um senador dando realmente duro para fazer a política ser implementada.

Já que você falou do Chile, temos visto um grande esforço da indústria em mostrar que essas políticas não estão funcionando. Como você vê esses esforços?

Essa é uma tática clássica das indústrias. Desacreditar as evidências. O produto que eles vendem é a dúvida. A indústria do cigarro se valeu disso durante muito tempo, e agora a indústria de alimentos se tornou especialista em semear a dúvida na ciência. As linhas clássicas que usam são de dizer que não existe evidência de que determinada política será efetiva em reduzir a obesidade.

O que fizeram no México, por exemplo, foi selecionar alguns dados para dizer que a taxação de refrigerantes não está funcionando. Não importa que os dados completos nunca tenham sido divulgados, nem que esse tipo de conclusão não tenha sido submetido a uma revisão pelos colegas. No Chile estão fazendo o mesmo. E no Brasil.

Você falou algumas vezes sobre o Guia Alimentar brasileiro. Qual sua opinião geral sobre o Guia? O que poderia ser melhor?

Quando eu vivia na Austrália, tínhamos um trabalho sobre sustentabilidade e colocamos no guia alimentar. Houve uma grande briga por alguns anos e a indústria ganhou. Todo o trabalho sobre sustentabilidade foi jogado fora, não foi incluído. Tentamos e perdemos. Os Estados Unidos tentaram e perderam. Mas o Brasil venceu. E agora é um modelo mundial para guias alimentares.

O desafio é implementar e levar todas as políticas públicas na direção de incluir as dimensões social e ambiental. Falar sobre educação alimentar. Fazer publicidade social voltada à alimentação saudável.

No Brasil e em outras partes do mundo há uma demanda crescente por alimentos frescos, mas muitas vezes isso acaba por não ser acessível a classes baixas. Como fazer com que essa demanda não crie uma nova faceta da desigualdade?

Se você não faz nada, e a obesidade continua nas manchetes dos jornais, as pessoas que ganham dinheiro suficiente, que têm bom acesso a informação, que têm tempo para lidar com isso, vão procurar um estilo de vida mais saudável. Isso fará crescer a desigualdade.

Então, para evitar que isso aconteça, é preciso ter políticas específicas pró-igualdade, como subsídios para os mais pobres e impostos sobre bebidas adoçadas. Esses impostos atingem de maneira mais dura os mais pobres porque têm um impacto maior no bolso. Políticas que restringem o marketing de fast-food e a oferta de fast-food no entorno das escolas. Você pode decidir que não haverá McDonald’s próximo a uma escola de baixa renda. As políticas precisam facilitar às pessoas pobres fazer escolhas saudáveis.

Fonte: O joio e o trigo
Por: João Peres
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E os psicanalistas foram impedidos de entrar no evento…

Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. Negócio é negócio.

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Imagem por Alpino

A medicalização da experiência humana

Variação do humor ou momentos de tristeza e tensão são sempre sinais de doença? Por muito tempo a psiquiatria europeia soube avaliar a gravidade e definir uma prescrição apropriada, da droga ao tratamento psicanalítico. A indústria farmacêutica incita, contudo, à transformação de dificuldades normais em patologias, às quais ela oferece uma solução

Diante da realidade do “sofrimento psíquico” – uma das mais importantes patologias modernas –, entrou em ação, há algumas décadas, uma maquinaria diagnóstica nunca antes vista, cujo objetivo é explorar esse enorme mercado potencial. Para isso, foi necessário primeiro substituir a grande psiquiatria europeia, que, graças a observações clínicas múltiplas e coerentes, reunidas durante os dois últimos séculos, havia repertoriado os sintomas, classificando-os em grandes categorias: neuroses, psicoses e perversões. Munido desses conhecimentos, o especialista podia dar um diagnóstico e distinguir os casos graves dos causados por circunstâncias passageiras. Ele separava então o que exigia o uso de medicamentos daquilo que poderia ser solucionado melhor com a conversa.

A psiquiatria clássica e a psicanálise haviam chegado às mesmas conclusões. Essas duas abordagens tão distintas se auxiliavam e se enriqueciam mutuamente. O mercado de medicamentos ainda guardava proporções razoáveis, o que deve ter dado o que pensar à “Big Pharma” – apelido conveniente para o enorme poder dos laboratórios farmacêuticos, que fazem uma corte assídua tanto aos clínicos gerais quanto às mais altas instâncias do Estado e dos serviços de saúde, com os quais sabem se mostrar bem generosos (oferecendo, por exemplo, cruzeiros de “formação” aos jovens psiquiatras).

A jornada de conquista desse grande mercado começou nos Estados Unidos, com a Associação dos Psiquiatras Americanos (APA) e seu primeiro manual de diagnóstico e estatística dos problemas mentais, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, ou DSM), em 1952.1 Em 1994, a Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou no capítulo “Psiquiatria” da Classificação Internacional das Doenças as nomenclaturas do DSM-IV, o que levou vários países a fazer o mesmo. Seguiu-se uma inflação de patologias repertoriadas. Havia sessenta em 1952, mas 410 em 1994, no DSM-IV.

Extinguir o vulcão

Negócio é negócio. O método DSM tem de ser simples: não se cogita buscar a causa dos sintomas nem saber a que estrutura psíquica eles correspondem. Basta encontrar o caso que se conforme ao comportamento visível do paciente. Essa prática esquece que um sintoma não é jamais uma causa. A conversa com o psiquiatra mal pode ser considerada necessária, pois serve apenas para repertoriar os “transtornos” superficiais: “transtornos” do comportamento, da alimentação, do sono… enfim, “transtornos” de todos os tipos, até a recente invenção dos “transtornos” pós-atentados. A cada um corresponde – maravilha! – um medicamento. Foi nessas águas perturbadas que naufragaram os antigos diagnósticos. O lobby da Big Pharma conquistou também as faculdades de Medicina, onde só se ensina o DSM. Mais: os próprios laboratórios transmitem os ensinamentos – numerosos conflitos de interesses foram denunciados. A grande cultura psiquiátrica acabou esquecida, de sorte que, diante de um paciente, o novo clínico made in DSM não sabe mais se está lidando com uma psicose, uma neurose ou uma perversão. Ele não distingue um problema grave de um estado circunstancial. E, na dúvida, receita psicotrópicos…“Depressão”, por exemplo, é palavra que faz parte do vocabulário corrente. O blues (tristeza) pode dominar qualquer pessoa, a qualquer momento da vida. Mas por que dar esse sentido ao conceito de “depressão”? Ela foi elevada à dignidade de uma doença à parte. Contudo, a tristeza pode ser um sintoma tanto de melancolia – acarretando risco elevado de suicídio – quanto de um estado passageiro e mesmo normal, como o luto. Confúcio recomendava ao filho um luto de três anos após a morte do pai; hoje, se você continua triste depois de quinze dias, está doente. Vão lhe dar antidepressivos, que podem temporariamente aliviar o problema, mas não o resolverão. Entretanto, como não convém interromper o tratamento de repente, a prescrição dura às vezes a vida inteira.

O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo. É necessário chorar antes de rir. Estamos à beira de um vulcão: extingui-lo com medicamentos que não passam de drogas é extinguir uma vida, porquanto viver é correr riscos o tempo todo. “O patológico só tem sentido para o improdutivo”, dizia o escritor Stefan Zweig.2 O nome de alguns medicamentos parece corroborar essa ideia, mas em uma acepção no mínimo discutível: em certas formas agudas de psicose, os psicotrópicos são imprescindíveis para acalmar as alucinações e os delírios. Tais medicamentos são chamados de antipsicóticos. Na cabeça do fabricante, essas moléculas estariam então destinadas a acabar de vez com a pessoa que sofre de psicose? O fabricante esquece uma coisa: o “paciente” é sempre maior que seu padecimento. Esses remédios deviam chamar-se de preferência “pró-psicóticos” ou “filopsicóticos”, pois um psicótico libertado de seus delírios é frequentemente um grande inventor (o matemático Georg Cantor), um grande poeta (Friedrich Hölderlin), um grande pintor (Vincent van Gogh) ou um grande filósofo (Jean-Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma pouco se importa com a liberdade reencontrada pelo paciente, que no fim poria em causa sua empresa. Ela prefere o ópio. E seus vapores se instalam com facilidade, porque o “transtorno” é associado às manifestações efetivas do sofrimento psíquico.

Não bastasse isso, mais vale que o número de “transtornos” cresça e se multiplique. Entre os mais recentes, o “transtorno bipolar” se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: este se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. Enquanto a vida segue seu curso, nós todos somos normalmente “bipolares”, hoje alegres, amanhã tristes. Acontece, porém, que nas psicoses melancólicas o objeto de desejo é a própria morte ou a explosão de um surto maníaco. O diagnóstico de “bipolaridade” se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses. Essa distinção, riscada dos DSMs, provoca inúmeras situações dramáticas.3

O “transtorno” mais comum e inquietante, pois diz respeito às crianças, que sofrem sem saber o motivo e não podem se queixar, é sem dúvida o “transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade” (TDAH). Essas dificuldades da infância vêm sendo enfrentadas há tempos por psiquiatras infantis e psicanalistas, pioneiros na matéria. Mas, como se trata de problemas peculiares a cada criança, eles não ousaram rotulá-los sob um “transtorno” geral. Graças a isso, são hoje acusados de não propor medidas, principalmente pelas associações de pais, algumas delas subvencionadas por laboratórios farmacêuticos (por exemplo, a associação Hypersupers TODA/H France, apoiada pelos laboratórios Mensia, Shire, HAC Pharma e NLS Pharma).

A imprecisão desse pretenso diagnóstico equivale a dizer, por exemplo, que a tosse é uma doença. E o exemplo vem de cima: em 29 de setembro de 2017, houve na Universidade de Nanterre uma conferência em favor do diagnóstico de TDAH sob o patrocínio do presidente francês, Emmanuel Macron, e da ministra da Saúde, Agnès Buzyn. Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. O TDAH não existe nas classificações francesas, seja a Classificação Francesa dos Transtornos da Criança e do Adolescente (CFTMEA), fiel à psiquiatria francesa, ou mesmo a Classificação Internacional das Moléstias (CIM-10), que acolhe as opções do DSM. Elas descrevem apenas os problemas de agitação. E agitação não é doença. Pode ter várias causas (problemas familiares, dificuldades na escola etc.); exige primeiro que as crianças e a família sejam ouvidas, e isso muitas vezes basta para resolver tudo. Com o TDAH, o sintoma se transforma em doença e, mais grave ainda, atribuem-lhe causas “neurodesenvolvimentistas”. Essa afirmação não repousa sobre nenhuma base científica, ao passo que provas não faltam das dificuldades causadas por problemas no seio da família ou na escola…

Jerome Kagan, professor de Harvard, declarou em uma entrevista de 2012: “O TDAH não é uma patologia, mas uma invenção. […] Oitenta por cento dos 5,4 milhões de crianças tratadas com Ritalina nos Estados Unidos não apresentam nenhuma anormalidade metabólica”.4 Na França, Patrick Landman mostrou em seu livro Tous hiperactifs? [Todos hiperativos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH não tem nenhuma causa biológica identificável: seus sintomas não são específicos e não apresentam indicadores biológicos. Nenhuma hipótese neurobiológica foi validada. Leon Eisenberg, inventor da sigla “TDAH”, declarou em 2009, sete meses antes de falecer: “O TDAH é o exemplo típico de uma doença inventada. A predisposição genética para o TDAH é totalmente superestimada”.5 Todavia, com a ajuda do lobby, cerca de 11% das crianças com idade entre 4 e 17 anos (6,4 milhões) receberam o diagnóstico de TDAH desde 2011 nos Estados Unidos, segundo os Centros de Prevenção e Controle das Doenças norte-americanos. Segue-se quase sempre uma prescrição de Ritalina (metilfenidato), que contém moléculas consideradas estupefacientes nas classificações francesas. A prescrição dessa anfetamina em grande escala poderia provocar um escândalo sanitário semelhante aos do Mediator e do Levothyrox. Essas substâncias viciam, e não se exclui – possibilidade ainda em discussão – uma correlação entre as crianças que tomaram Ritalina e os adolescentes que se drogam.

As crianças não são poupadas pelos transtornos da sociedade, que lhes impõe o imperativo do sucesso rápido, da competitividade, da obediência a normas que não se aplicam à sua idade. As recalcitrantes são facilmente consideradas hoje “deficitárias”. É, portanto, inquietante ver surgir em um site do Ministério da Educação Nacional da França uma mensagem endereçada aos professores afirmando, sem provas, que o TDAH é uma “doença neurológica” e fornecendo uma receita detalhada para o estabelecimento de diagnósticos prévios. Os “sinais indicativos” propostos poderiam se aplicar a quase todas as crianças. Sempre a mesma mistura de problemas normais e patologia…

A infância na linha de frente

Há tempos, Michel Foucault pôs em evidência a repressão, notadamente pelos Estados e as religiões, desse “mal-estar na cultura” que é a sexualidade. Hoje, a camisa de força de um patriarcado de direito divino está em via de marginalização. Como a repressão vai se organizar daqui por diante, supondo-se que o termo “sexualidade” deva ser entendido em sentido amplo? A indústria farmacêutica é que pretende tomar as rédeas da ciência. A mensagem é clara: “Não vos inquieteis, ó vós que tendes insônias, momentos de desconsolo, excitação exagerada, ideias suicidas! A culpa não é vossa, é de vossos genes, de vossos hormônios; sofreis de um déficit neurodesenvolvimentista, e nossa farmacopeia vai consertar tudo”. Trata-se de fazer crer que tudo se resume a problemas de neurotransmissores e de mecânica, nos quais o humano não entra. Seria necessário esquecer que as mazelas deliciosas e cotidianas das relações entre homens e mulheres, as questões jamais resolvidas de filhos com pais, as relações de forças angustiantes com a hierarquia e o poder deitam raízes nas profundezas da infância.

Por todos os lados, a infância está na linha de frente, o que torna o caso do TDAH ainda mais “perturbador” que os outros. Em todos os tempos e lugares, a criança é a primeira a ser reprimida, espancada, formatada. Quando um professor da velha escola puxava as orelhas de um aluno agitado, isso era – por mais chocante que pareça – quase mais humano do que exigir-lhe um diagnóstico de deficiência. Preservava-se uma relação pessoal, que a pseudociência elimina. Pela primeira vez na história, é em nome de uma pretensa ciência que as crianças são “espancadas”. Todos os anos o Papai Noel, esse mito de múltiplas estratificações (como bem mostrou o etnólogo Claude Lévi-Strauss),6 traz para as crianças presentes a fim de consolá-las. Hoje, a Big Pharma pretende vestir o capuz do Papai Noel. Mas não nos esqueceremos de que, sob a roupa vermelha, esconde-se uma sombra muito parecida com o Açougueiro da Festa de São Nicolau.7

*Gérard Pommier é médico psiquiatra, psicanalista, professor universitário emérito e diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. Autor, principalmente, de Comment les neurosciences démontrent la psychanalyse [Como as neurociências dão suporte à psicanálise], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, révolution sans fin [Feminino, revolução sem fim], Pauvert, Paris, 2016.

1 Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A bíblia americana da saúde mental], Le Monde Diplomatique, dez. 2011.

2 Stefan Zweig, Le Combat avec le démon: Kleist, Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, Hölderlin, Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 2004 (1. ed.: 1925).

3 Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um paciente melancólico a que um psiquiatra, ignorante de tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suicidou. Vi inúmeros casos semelhantes.

4 “What about tutoring instead of pills?” [Que tal monitoramento em vez de pílulas?], Spiegel Online, 2 ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>.

5 “Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergonha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev. 2012.

6 Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël supplicié [Papai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994.

7 Na França, é bastante difundida a lenda de São Nicolau, precursor do Papai Noel. Durante o inverno, três crianças bateram à porta do açougueiro Pierre Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. Porém, assim que elas entraram, ele as matou. Em outra noite, São Nicolau passava pela região e buscou abrigo na mesma casa. Enquanto dormia, ele sonhou com o assassinato das crianças e rezou até que elas ressuscitassem, tornando-se assim protetor das crianças.
Fonte: Le monde diplomatique
Por: Gérard Pommier
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Indústria do álcool não quer a concorrência da maconha legalizada

A cervejaria norte-americana Molson Coors divulgou no começo do ano que considerava o advento da maconha legalizada um grave risco para seus negócios.

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Quando a cervejaria norte-americana Molson Coors divulgou no começo do ano que considerava o advento da maconha legalizada um grave risco para seus negócios, o que a empresa estava fazendo era marcar posição em um dos lados de um debate acirrado, que vem acompanhando o movimento pela retirada da maconha da obscuridade para o mundo dos bens de consumo tributados e regulados.

No Colorado, o estado norte-americano pioneiro na legalização, os defensores centralizaram sua campanha no argumento de que a maconha seria muito mais segura que o álcool, e por isso deveria ser tratada pelo menos de forma semelhante.

O argumento, no entanto, se torna inócuo se a maconha for um complemento para o álcool em vez de um substituto, isto é: se fumar fizer você beber mais, não faz diferença se ficar doidão for mais seguro que ficar bêbado.

Como o governo federal dos EUA vem há bastante tempo negando recursos para pesquisas sobre a cannabis, ainda há muito a se aprender, mas os resultados iniciais parecem indicar que o que se intuía era verdade: a maconha é um substituto não apenas para o álcool, mas também para os opiáceos.

“Embora ainda não se conheça o impacto final disso, o surgimento de cannabis legalizada em alguns estados dos EUA e do Canadá pode resultar em um afastamento da renda discricionária em relação aos nosso produtos ou em uma mudança nas preferências dos consumidores em prejuízo da cerveja”, alertou em seu documento a Molson Coors Brewing Company.

Mas a indústria de bebidas alcoólicas tampouco está ignorando a ameaça. Diversas empresas da área de bebidas, além de organizações do setor, ajudaram a financiar campanhas contra as iniciativas de legalização da maconha, o que indica que devem estar suficientemente convencidas dessa teoria para gastar dinheiro com ela.

Fiz uma análise preliminar sobre a venda de bebidas alcoólicas no Oregon, e os resultados indicam que as preocupações da indústria podem ter seus méritos, e que a maconha legalizada pode realmente estar fazendo as pessoas consumirem menos álcool.

A forma como o uso recreativo da maconha impacta o consumo de álcool pode ser a consequência mais importante da legalização em termos financeiros e de saúde pública. Embora o uso de maconha não esteja isento de problemas, o álcool é responsável por aproximadamente 88 mil mortes por ano nos Estados Unidos, e estima-se que o consumo excessivo crie um custo econômico de cerca de 250 bilhões de dólares.

Os eleitores do estado do Oregon decidiram pela legalização da maconha em 2014, por meio da Medida 91. Em outubro de 2015 o estado começou a permitir vendas para uso recreativo a adultos maiores de 21 anos, mas as cidades e os condados tinham a prerrogativa de impedir esse tipo de comércio; por isso, em alguns lugares essa modalidade de venda continuou proibida. Tal fato possibilita comparar as vendas de bebida alcoólica entre as partes do estado onde há lojas de maconha para uso recreativo e aquelas onde elas não existem, com base em dados da Comissão de Controle de Bebida do Oregon (Oregon Liquor Control Commission, OLCC).

Nessa análise, os municípios do Oregon foram divididos em dois grupos: cidades onde havia pelo menos uma loja que vendia maconha para uso recreativo durante o ano fiscal de 2017 da OLCC (do meio de 2016 ao meio de 2017), e cidades onde nunca havia sido vendida maconha para uso recreativo até julho de 2017. Os dados das lojas se baseiam nas informações obtidas da Autoridade de Saúde do Oregon e da OLCC.

Nos anos fiscais de 2016 e 2017, o total das vendas de bebidas alcoólicas nas cidades onde havia também venda de maconha para uso recreativo aumentou apenas 4,17%. Em comparação, nas cidades onde não havia lojas de maconha, o total das vendas de bebidas alcoólicas aumentou 5,86%. Embora a diferença absoluta seja pequena, foi a maior distância entre as taxas desses dois grupos ao longo de quatorze anos. Nos anos anteriores, o crescimento havia sido bastante próximo.

É claro que outros fatores podem ter estado em jogo, e trata-se apenas de dados relativos ao período de um ano. As cidades que permitem a venda de maconha tendem a ser mais liberais. Além disso, um grande número de habitantes do Oregon vivem perto da fronteira com o estado de Washington, que privatizou a venda de bebida alcoólica em 2012 e deu início à venda de maconha para uso recreativo em 2014. Ainda assim, a nítida divergência que se mostrou depois do primeiro ano fiscal completo de venda de maconha para uso recreativo é um resultado intrigante – em especial quando combinado com outros estudos que mostram que as pessoas podem estar substituindo outras drogas por maconha.

Embora os esforços para estudar esse assunto estejam intrinsecamente limitados pelo fato de que a maconha só foi legalizada recentemente e em poucos lugares, já existem estudos indicando que a aprovação estadual do uso da maconha para fins medicinais esteve associado a uma redução de 15% nas vendas de álcool. A pesquisa examinou as vendas de álcool em condados antes e depois da adoção da maconha para uso medicinal e as comparou com as vendas em condados vizinhos e em outros estados. Um relatório recente da Cowen Research concluiu, de forma semelhante, que os episódios de consumo excessivo de álcool eram menos comuns nos estados que haviam legalizado a maconha.

Outras pesquisas sobre o tema tiveram resultados mais variados. Um estudo da organização Rand concluiu que a maconha para uso medicinal estava associada a um discreto aumento nas mortes relacionadas à intoxicação por álcool em pessoas abaixo de 21 anos, mas também a uma redução de maior proporção da mortalidade relacionada ao álcool e aos opiáceos em adultos mais velhos.

Alguns estudos também concluíram que os estados onde existe distribuição de maconha para uso medicinal tiveram uma redução relativa no número de mortes ligadas ao uso de opiáceos. Isso parece indicar que a maconha também substitui outras substâncias mais perigosas, além do álcool. Apenas este mês, dois novos estudos foram publicados na revista JAMA Internal Medicine. Um deles constatou que a existência de legislação regulando o uso de maconha por adultos estava associada a uma taxa de prescrição de opiáceos 6,38% menor entre os pacientes com Medicaid (programa de saúde americano para pessoas de baixa renda). Os demais detectaram uma redução no número de receitas de opiáceos registradas pelos pacientes com Medicare (seguro de saúde público destinado a idosos dos EUA) depois que a maconha para uso medicinal passou a ser distribuída em seus estados.

Importante destacar que no estado do Oregon só existem dados referentes ao período de um ano, e que seria razoável imaginar que o efeito de substituição fosse relativamente pequeno, a princípio. Hábitos e vícios são por essência comportamentos refratários à mudança. Na hipótese de que haja um efeito de substituição em curso, não seria exatamente de se esperar que consumidores de álcool em grande doses imediatamente se tornassem usuários de cannabis. O mais provável, na verdade, é que algumas pessoas com potencial para se tornarem grandes consumidores de álcool passem, em vez disso, a usar cannabis.

Essa análise se baseia apenas em dados preliminares, mas destaca uma questão de grande interesse. Serão necessários muitos anos para reunir dados suficientes para atingir conclusões definitivas sobre o impacto da plena legalização, mas a comparação entre as cidades nos estados de Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts que decidiram permitir a venda de maconha para uso recreativo, e aquelas que não o fizeram pode se mostrar uma fonte muito útil de informação.

Embora os estados do Colorado e de Washington tenham sido tecnicamente os primeiros a legalizar a maconha, ambos já possuíam há anos sistemas de distribuição de maconha para uso medicinal, que facilitavam o acesso pela população por meio de jardins coletivos ou dispensários. Seria difícil separar o impacto de uma legislação já muito liberal em relação à maconha de uso medicinal do impacto da maconha de uso recreativo. Já Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts tinham distribuição muito restrita de maconha de uso medicinal, ou apenas por curtos períodos, antes da legalização.

Em vários estados, os governos que estão decidindo como lidar com a maconha de uso recreativo estão indiretamente fazendo parte de um enorme experimento natural. O potencial resultado pode impactar as políticas relativas à maconha, ao álcool e à saúde pública ainda por muitos anos.

Fonte: Outra Saúde
Por: Raquel Torres Gurgel
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Atalhos para memória com uma pequena ajuda de amigos

Los humanos hemos utilizado este tipo de extensiones mentales desde siempre. La transmisión de información de mente a mente de forma oral era la norma mucho antes de que naciera la escritura. Somos animales sociales y formamos redes sociales desde mucho antes de que existieran las virtuales. Estamos acostumbrados a depender tanto unos de otros para guardar información como para todo lo demás. Así que recordar quién dijo qué o quién sabe qué resulta natural.

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Tim Enthoven

          Atajos para la memoria, con un poco de ayuda de tus amigos

A mi madre le gusta decir: “Siempre recuérdalo todo”.

Por supuesto, como ella sabe, es imposible, incluso con técnicas avanzadas de memoria. Por eso tomamos notas y usamos calendarios. Son componentes de nuestra memoria externa, que son parte de nuestra mente expandida.

El hecho de que tu mente no esté completamente confinada a tu cráneo puede ser una idea difícil de asimilar. En un trascendental artículo, los filósofos Andy Clark y David Chalmers defendieron la idea de que algunas funciones que logramos llevar a cabo con otros objetos deberían ser consideradas como equivalentes a los pensamientos que ocurren en nuestros cerebros. Utilizar lápiz y papel para ayudarnos a hacer un cálculo es un ejemplo. Mucha gente —me incluyo— manipulamos palabras en una página (o el equivalente digital) para dilucidar cómo pensamos un asunto o para darle forma a un argumento.

No existe ninguna diferencia entre el hecho de que los canales de comunicación entre el papel (o la pantalla) y el cerebro involucren la visión y el movimiento de los dedos en lugar de que solo se enciendan las neuronas, según defienden Clark y Chalmers. El resultado final es el mismo que si hubiéramos hecho todos los cálculos o escrito todo el ensayo tan solo en nuestra cabeza.

“Lo que importa no es dónde se codifica la información, ni en qué medio, sino los usos que puede tener en el momento”, dijo Clark. Trabajar en una computadora ofrece una analogía. “No importa en realidad si una porción de la información se guarda en tu disco duro o en la nube, siempre y cuando esté disponible cuando lo necesites”.

Esto nos conduce a la extensión de la memoria, que es más claro y simple. Para mejorar la memoria biológica, todo el mundo consulta materiales y fuentes externas. Tomamos fotografías –que después volvemos a ver— para tener recuerdos de las vacaciones, bodas y otros sucesos. Guardamos en la memoria lo que nos vamos a poner mañana cuando sacamos nuestra ropa la noche anterior. Hacemos listas para ir al supermercado.

Podrías decir que las cosas en las que esta información se guarda –esas fotografías, el lugar donde pusimos la ropa, un pedazo de papel— no se parecen a la mente. Quizá bajo ese fundamento te opones a decir que lo que nos transmiten sean “recuerdos”. Quizá solo las mentes pueden recordar cosas y el resto son simplemente apoyos para recordar.

Sin embargo, este argumento se desmorona cuando consideramos la gran cantidad de información que no guardamos en la cabeza pero que podemos recuperar fácil y confiablemente de otro lado. Por ejemplo, quizá no sabemos y nunca retendremos en la memoria todo el elenco de Game of Thrones, pero sabemos dónde podemos encontrarlo. No necesitamos encomendárselo a nuestra memoria (biológica) porque siempre podemos buscarlo.

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Tim Enthoven

Cuando lo hacemos, no estamos utilizando la fuente de información para recordarnos lo que ya tenemos guardado en la memoria. La información no está ahí y quizá nunca lo esté. Aún así, como si lo estuviera, podemos rescatarla siempre que nos plazca por otros medios. Eso es la memoria extendida.

Estamos tan acostumbrados a depender de la memoria extendida en nuestros teléfonos inteligentes que guardamos menos en nuestra cabeza de lo que haríamos en otra circunstancia. Un estudio mostró que somos menos capaces de recordar información que creemos poder buscar en internet —y en lugar de eso recordamos mucho mejor cómo podemos encontrarlo en línea—.

Otro estudio descubrió que la gente que tomó fotografías de las pinturas en un museo fue menos capaz de recordar las obras y sus ubicaciones que aquellos que visitaron el museo sin sacar fotografías. Aquellos de nosotros que somos lo suficientemente viejos para recordar el mundo sin celulares inteligentes solíamos memorizar números telefónicos importantes. Pocos ahora lo hacemos o ni siquiera lo intentamos. Podríamos, pero ¿para qué molestarse?

Existe otro tipo de memoria extendida que es incluso más parecida a la mente. De manera rutinaria extendemos nuestra memoria al utilizar la de otras personas y la nuestra sirve como memoria extendida para otros. Cualquiera que tenga hijos está constantemente recordando cosas para ellos: a qué hora necesitan llegar al entrenamiento de fútbol, dónde es y qué necesitan llevar. Mis hijos ahora se saben el nombre de otros niños y de sus padres, y así constituyen una fuente a la que recurro con regularidad en reuniones sociales porque casi siempre olvido –o nunca me aprendo— sus nombres.

Poner atención a este tipo de memoria extendida tiene valor profesional. Hace algunos años, el exceso de trabajo comenzó a tener un efecto negativo en mi capacidad para recordar información importante. Utilizar algunos trucos mentales me ayudaba, pero de cualquier manera no podía estar al corriente.

Así que cambié de estrategia. Me di cuenta de que era redundante recordar algunas cosas que otros ya sabían, y me rendí. En lugar de eso, hice un esfuerzo en tener un registro de las áreas en las que mis colegas eran expertos. Si tenían la información guardada en sus mentes y si podía tener acceso a su conocimiento de manera sencilla –por ejemplo, con un correo electrónico breve o incluso un tuit— no había necesidad de que yo recordara esa información.

Por ejemplo, si requiero saber qué estudios sobre nutrición son confiables, puedo simplemente preguntarle a mi colega Aaron Carrol, quien acaba de escribir un libro sobre el tema.

Sin embargo, ¿qué pasa si me topo con otro colega que está utilizando la misma táctica y los dos pensamos que el otro es el que está guardando la información? Cuando presiento que ese puede ser el caso, pregunto: “¿Me toca acordarme de esto en tu lugar?”. Eso lo resuelve. De hecho, suelo finalizar muchas de mis reuniones o intercambios de correo electrónico laborales de esta manera. Una vez que un plan de acción o la solución a un problema se establece, me aseguro de que quede claro quién es responsable de que cierta información crucial no se pierda.

En casa, mi esposa y yo somos explícitos sobre quién es responsable del seguimiento de la diversidad de necesidades asociadas con las actividades escolares y extracurriculares de nuestros hijos. Lo que sea que esté en sus manos (es decir, en su cabeza), yo lo elimino de mi mente. Lo que sea que esté en la mía, ¡más me vale recordarlo!

Los humanos hemos utilizado este tipo de extensiones mentales desde siempre. La transmisión de información de mente a mente de forma oral era la norma mucho antes de que naciera la escritura. Somos animales sociales y formamos redes sociales desde mucho antes de que existieran las virtuales. Estamos acostumbrados a depender tanto unos de otros para guardar información como para todo lo demás. Así que recordar quién dijo qué o quién sabe qué resulta natural.

Aprovechar esto estratégicamente para guardar y recuperar de la mente de otras personas recuerdos no es un gran paso. Te libera de tratar de hacer lo que de todos modos no puedes: siempre recordarlo todo.

Fonte: New York Times
Por: Austin Frakt
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Científicamente comprovado: és uma pessoa melhor quando estás enamorado(a)

“Enamorarse activa no solo el cerebro emocional, sino las regiones involucradas con actividades intelectuales y de cognición de alto nivel. “Eso significa que es posible que el amor tenga una función real: no solo poderse conectar emocionalmente con las personas, sino mejorar nuestro comportamiento”

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Stephanie Cacioppo y su esposo, John Cacioppo, son neurocientíficos de la Universidad de Chicago. Whitten Sabbatini para The New York Times

 Científicamente comprobado: eres una mejor persona cuando estás enamorado

“Durante años, la ciencia ha relegado al amor a un instinto básico, casi como una adicción que no tiene cualidades que la compensen”.

Así lo dice Stephanie Cacioppo. No es una evangelista del movimiento New Age predicando enfrente de parejas durante un retiro espiritual, sino una neurocientífica de la Universidad de Chicago que ha dedicado buena parte de su carrera a mapear las interacciones que provoca el amor en el cerebro. Sus investigaciones y algunas otras teorías que ha desarrollado la han confrontado con otros científicos que describen el amor romántico como una emoción o impulso primitivo, incluso una droga.

Con el uso de escaneos cerebrales, la Dra. Cacioppo ha recopilado datos que sugieren que enamorarse activa no solo el cerebro emocional, sino las regiones involucradas con actividades intelectuales y de cognición de alto nivel. “Eso significa que es posible que el amor tenga una función real: no solo poderse conectar emocionalmente con las personas, sino mejorar nuestro comportamiento”, dijo.
La Dra. Cacioppo afirma que hay beneficios mentales y físicos de todo tipo que provienen de estar enamorado. Dice que puede ayudarnos a pensar más rápido, a anticipar mejor los pensamientos y comportamiento de los otros o a recuperarnos con mayor rapidez de una enfermedad. “Las pruebas empíricas que he hecho en mi laboratorio sugieren que, de muchas maneras, cuando estás enamorado eres una mejor persona”, dijo.

Hablar por solo un rato con la Dra. Cacioppo es suficiente para comprender lo optimista que es respecto al romance tradicional, sobre todo en un mundo en el que el divorcio es común, las tasas de casamiento han bajado y cada vez hay más formas de relacionarse, como el poliamor. Aunque reconoce que es saludable que haya muchas maneras de estar en relaciones, cree que todos estamos en busca de ese “amor verdadero” que nos va a completar, que los humanos estamos predispuestos a la monogamia y que hay evidencia biológica indirecta de cosas sacadas de los cuentos de hadas como el amor a primera vista.

El primer caso que estudió fue el de sus propios padres. Creció a las afueras de Chambéry en los Alpes franceses y recuerda que sus padres se quedaban viendo con ensueño a los ojos y que siempre estaban agarrados de las manos. Cuando era niña pensaba que el vínculo entre sus padres era casi mágico, como si hubieran desarrollado una conexión telepática.

Y después estudió la biología detrás de ese comportamiento, que también es bastante mágica: hay maneras, dijo, en las que el sistema de neuronas espejo nos ayuda a predecir lo que va a hacer una pareja antes de que lo haga, mientras que verse a los ojos o darse las manos aumenta los niveles de oxitocina, un neuropéptido que incrementa los sentimientos de empatía y confianza hacia alguien.

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En un experimento de la Dra. Cacioppo y de su equipo, los participantes usan capuchas con sensores para electroencefalogramas mientras ven diferentes imágenes y se estudian sus movimientos oculares con un sistema infrarrojo. Stephanie Cacioppo

Su primer gran hallazgo en temas del amor surgió a principios de su carrera, cuando era una investigadora de posdoctorado en Dartmouth College. En varios experimentos le mostró a los participantes imágenes y nombres de personas –de desconocidos, de amigos neutros y de sus parejas– y usó técnicas de resonancia magnética para ver qué secciones del cerebro se activaban al verlas.

Utilizó los datos para diferenciar el amor pasional y romántico –de otras emocionas más básicas (como la felicidad) y de otros tipos de amor (el maternal, por ejemplo)–, pero también para identificar doce diferentes regiones cerebrales que eran activadas por este tipo de amor.

“Lo que se me hizo fascinante es que podías ver que el amor tiene su propio patrón cerebral, como un plano”, dijo la doctora. (Según algunos investigadores, otras emociones como el enojo y el desagrado también muestran oscilaciones eléctricas cerebrales propias).

Después utilizó electrodos para medir qué tan rápido se activaba esta “red neuronal del amor” cuando los participantes veían a alguien de quien estaban enamorados. El resultado la sorprendió: “Tardó menos de medio segundo, lo que es preconsciente. Entonces tu cerebro ya sabe que amas a esa persona antes de que tú mismo lo sepas”.

Claro que el ambiente estéril de un laboratorio de neurociencias es muy distinto al del mundo real. Pero estos experimentos permitieron que la Dra. Cacioppo y sus colegas pudieran identificar un área específica del cerebro –el giro o circunvolución angular– que parece ser más sensible al amor. Mientras más apasionadamente enamorada decía estar una persona, más se prendía esta zona.

Ubicado detrás de la oreja, el giro angular solo se encuentra en simios y humanos, lo que significa que se desarrolló durante una etapa tardía de la evolución, y ha sido vinculada a la creatividad y el pensamiento abstracto.

A la Dra. Cacioppo le gusta llamar a esta zona “el pequeño robot en tu cabeza”: aquel que nos ayuda a procesar los idiomas y números y que gestiona datos autobiográficos complejos y profundos, como la percepción de uno mismo y la “teoría de la mente”, la capacidad para reconocer y atribuir ciertos estados mentales (como los deseos y pensamientos) a uno mismo o a otros.

Así que enamorarse, según la Dra. Cacioppo, es como ejercitar intensamente el giro angular. “La manera en la que lo fortaleces es al formar nuevas asociaciones… aprender, viajar, explorar nuevos conceptos y culturas y, sí, enamorándote”, dijo. “Y dado que el giro angular está conectado a tantas partes integrales del cerebro, el hacer conexiones ahí te ayuda a ser más sagaz para otras situaciones que no necesariamente tienen que ver con tu pareja sentimental”.

Espera que su investigación invite a la gente a tener un punto de vista más abarcador sobre el valor del amor romántico.

“La gente tiene esta idea equivocada de que, cuando estás en las primeras etapas del amor, estás distraído y no te concentras en el trabajo, pero al contrario”, dijo. “Con base en esta ciencia, quizá queramos contratar a personas que están apasionadamente enamoradas porque probablemente estarán más motivadas y serán más creativas en el aspecto laboral”.

Amor o lujuria

La neurociencia involucra algo de trabajo de detective; hay que seguir corazonadas, revisar mucha evidencia y eliminar pistas falsas. Para dilucidar bien cómo influye el amor en el cerebro, la Dra. Cacioppo necesitaba hacer más que identificar las regiones cerebrales que se activan con estar enamorado: tenía que separar el amor de su compañera cercana, la lujuria.

Una zona del cerebro que tiene algo de pistas sobre la relación entre el romance y el deseo se llama la ínsula, dentro de la corteza cerebral. Se divide en dos partes: una ínsula posterior más pequeña (que registra el dolor, el calor y el contacto sensual) y una ínsula anterior algo más grande que puede ayudarnos a entender esos sentimientos y que, se cree, está involucrada en el pensamiento abstracto.

En sus estudios con resonancia magnética funcional (fMRI, por su sigla en inglés), la Dra. Cacioppo halló que la ínsula posterior se estimulaba más por sentimientos de deseo sexual y la ínsula anterior, por los de amor. Esta investigación apuntaba a que la ínsula está relacionada, de alguna manera, con nuestra capacidad de formar y mantener relaciones amorosas.

En vez de ver el deseo sexual como un opuesto total al amor, la investigación de la Dra. Cacioppo la ha llevado a pensar en ambos como parte de un espectro. Las sensaciones más viscerales relacionadas a la lujuria a veces pueden llevar a sentimientos más abstractos de amor. “Un deseo sexual fuerte, cuando es correspondido y coactivado con el amor, puede promover la fidelidad, un amor duradero y la monogamia”, dijo.

Pero, aunque el amor y la lujuria se complementan, la doctora advierte que no son requisitos previos el uno para el otro y que son sentimientos complejos que pueden cambiar con el paso del tiempo: el amor puede profundizarse y el deseo sexual desvanecerse.

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The Cacioppos share the same office and even the same desk. “I wouldn’t necessarily try this at home,” John joked. Whitten Sabbatini for The New York Times

Resultados a partir de la ciencia

Cacioppo, de 43 años, ha dedicado buena parte de su vida académica al amor, pero por mucho tiempo no tuvo un contacto personal con el fenómeno. Salía con personas de vez en cuando y nunca tuvo un novio en serio.

“Parecía que estaba casada con mi trabajo”, dijo.

Hasta hace seis años cuando, durante una conferencia en Shangái, terminó sentada junto al neurocientífico de la Universidad de Chicago John Cacioppo.

Él dedicaba su investigación a lo opuesto que ella: la soledad. En un principio, no tenían en mente estar juntos; incluso cada uno llegó a decir que nunca tendría planes de casarse. Aunque la investigación de ambos demuestra la importancia de establecer conexiones humanas y del posible daño al no hacerlo. Algunos de los datos de los estudios de John Cacioppo mostraban que quienes sufren de soledad son más propensos a morir de manera prematura.

Aun así, ambos pensaban que estaban felices con sus vidas académicas solitarias y ninguno se sentía solo. “Uno de los secretos para una buena relación es que te atraiga alguien por elección y no por necesidad”, dijo John, de 66 años. “No estábamos corriendo de algo, sino moviéndonos a algo que sería único”.

Las primeras citas fueron durante las conferencias científicas, pues él estaba en Chicago y ella en la Universidad de Ginebra, en Suiza. Pero cada vez se volvía más difícil separarse. Se casaron en 2011 en París y Cacioppo dejó atrás su apellido de soltera, Ortigue, y se sumó al equipo de la Facultad de Medicina Pritzker de la Universidad de Chicago, donde ahora dirige el Laboratorio de Dinámica Cerebral.

Ahí comparten oficina –la señalización de la puerta dice “Los Cacioppos”– y hasta escritorio.

“No recomiendo intentar esto en casa”, bromeó John, al decir que la sinergia que tiene con su esposa no necesariamente es la idónea para otras parejas ni la típica para todos los romances pasionales.

Retos no anticipados

Una enfermedad grave es la pesadilla de cualquier pareja y algo que enfrentaron los Cacioppo en 2015, cuando a John lo diagnosticaron con una forma agresiva y poco común de cáncer de las glándulas salivales. Se sometió a una cirugía, seguida de siete rondas de un tratamiento de quimioterapia y radiación, de catorce días de duración cada una. No podía comer por sí solo y tuvo que recibir alimentos por un tubo durante meses.

Mientras más se debilitaba, más se respaldaban él y la Stephanie. Compartían la cama del hospital, caminaban de la mano hacia la sala de tratamiento cada día y, según el oncólogo Everett Vokes, coordinaban sus atuendos.

“Tenemos muchos pacientes en los que una de las personas está involucrada y es servicial, hasta demasiado, mientras espera que la otra mejore”, dijo el Dr. Vokes. “Pero John y Stephanie eran otra cosa. Era casi como si le estuviéramos dando tratamiento a dos personas”.

El Dr. Vokes y sus colegas lograron que el cáncer estuviera en remisión total, con lo que John pudo regresar a dar clases e investigar a tiempo completo.

Para su esposa, fue un recordatorio de la capacidad del amor no solo de expandir nuestras mentes, como muestra su investigación, sino de, en algunos casos, ayudar a sanar nuestros cuerpos. Incluso citó estudios de que las personas casadas, en comparación con individuos solteros, tienen menos problemas físicos y sufren menos enfermedades de largo plazo, además de que la tasa de mortandad es menor y la tasa de supervivencia en caso de enfermedad es mayor.

Aunque la Dra. Cacioppo enfatizó que no se trata del tipo de relación, sino de la calidad de esta, lo que puede traer estos resultados. “El estado civil –si estás ‘casado’ o no– no es ni necesario ni suficiente para que haya estos beneficios de salud”, dijo.

“Se trata más bien de qué tan conectado o desconectado se siente uno de su pareja”.

Fonte: New York Times
Por: Stephen Heyman
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“Numa perspectiva psicodinâmica, um possível ponto de partida para o estudo da etio-patogenia da Conduta Discriminatória, com vistas a eventual proposição de elementos diagnósticos, implica em considerar a natureza das relações de objeto presentes na mente do sujeito discriminador, fato que, por sua vez, nos leva a considerar o gesto discriminatório como, além das suas importantes motivações conscientes, também expressão da satisfação de necessidades primitivas inconscientes”.

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CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONDUTA DISCRIMINATÓRIA

Por Carlos Augusto Ferrari, psiquiatra e psicanalista

Discriminação: S.F.. Segregação; ação de segregar alguém, tratando essa pessoa de maneira diferente e parcial, por motivos de diferenças sexuais, raciais, religiosas; ato de tratar de forma injusta: discriminação racial.

Dicio – Dicionário on line de Português acesso realizado no dia 15/11/2017
https://www.dicio.com.br/discriminacao/

O que leva o indivíduo com determinadas características emocionais, em ocorrências que independe da condição sócio-cultural, a dirigir-se agressiva e preconceituosamente em relação a outro, em situações nas quais as barreiras do comportamento civilizado rompem-se, e emerge uma face primitiva e cruel?

Importante distinguir que se está expondo aqui, dois tipos de situações: aquelas que frequentemente geram atritos interpessoais ou coletivos, no limite que antecede a violência explícita, ou naquelas em que, de fato, às vezes muito rapidamente, se passa do pensamento discriminatória à ofensa e mesmo ao ataque violento contra o outro discriminado.

Típico do primeiro estágio seriam aquelas conversas sobre corrupção na politica, quando ancoradas no debate maniqueísta entre esquerda e direita, em situações nas quais a partir de narrativas aparentemente racionais, muitas vezes torna-se difícil, segundo o ponto do vista de um hipotético observador neutro, deixar de identificar no conteúdo discursivo dos debatedores evidentes elementos discriminatórios em relação ao posicionamento do oponente.

Exemplar em relação ao segundo estágio são as lutas entre torcidas organizadas dos clubes de futebol, o fundamentalismo pseudo religioso ou a ação dos grupos neonazistas. Caberia ainda lembrar que o exame das causas nesse tema é necessariamente tarefa ambiciosa que não prescinde do viés interdisciplinar. Estudar a complexidade das relações na dimensão da cultura, entre grupos, agrupamentos, bandos e indivíduos, é desafio que evidentemente não cabe dentro do escopo dessa ou daquela disciplina ou campo teórico.

Assim sendo, pensando preliminarmente, e apenas como contribuição exploratória, dentro de uma perspectiva psicodinâmica, um possível ponto de partida para o estudo da etiopatogenia da Conduta Discriminatória (CD), com vistas a eventual proposição de elementos diagnósticos, implica em considerar a natureza das relações de objeto presentes na mente do sujeito discriminador, fato que, por sua vez, nos leva a considerar o gesto discriminatório como, além das suas importantes motivações conscientes, também expressão da satisfação de necessidades primitivas inconscientes.

Independentemente do conteúdo dessa manifestação, que pode ser de natureza racista, sexista, religiosa, politica, etc, quando se tenta compreender o fenômeno como um todo, a CD nos faria pensar em algo como uma descarga, como movimentos de expulsão de conteúdos afetivo-emocionais intoleráveis de natureza destrutiva, em direção ao indivíduo discriminado. Dito em outras palavras, dir-se-ia que, do ponto de vista do sujeito discriminador, essas descargas – movimento projetivo – serviriam para aliviar elementos tóxicos intoleráveis.

Lembro a definição proposta por Mabilde sobre Conduta Discriminatória (CD): “ato maldoso e agressivo pelo qual o sujeito atua fantasias de destruição da totalidade dos outros com vistas a um mundo narcisista pleno.

”(Mabilde, L.C., contribuição pessoal, publicada neste blog em 11/05/2014, Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

Proponho uma releitura desse sucinto e abrangente enunciado, destacando alguns elementos que me parecem ter decisiva importância em uma possível definição psicodinâmica para CD: trata-se de ato maldoso e agressivo, através do qual o sujeito, ao atacar a integridade do objeto, submetendo-o sadicamente, tenta recriar (quase delirantemente) uma indiferenciação narcísica em bases sádico-masoquistas. Nesse movimento de natureza projetiva (colocar a ideia no outro), o objeto é, primariamente desumanizado e, em um segundo tempo, transformado em depositário de fantasias destrutivas.

PENSAMENTO DISCRIMINATÓRIO

Entendo que a CD é expressão cognitivo-comportamental de um estado da mente onde há o predomínio do pensamento discriminatório, condição que poderia ser esquematicamente descrita como uma forma operativa do pensamento, “tipo pensamento fixo”, ou ideia pré-concebida, desencadeada por uma situação vivencial que evoca agudamente no sujeito intensa reação de natureza preconceituosa em direção ao outro. Estaremos nos referindo a seguir sobre três instâncias mentais daquele que discrimina, a saber, o sujeito discriminador (a noção de si mesmo), o outro, ou seja, aquele que é a vítima da discriminação (noção do objeto interno) e o conteúdo dessa discriminação (conjunto de representações mentais).

Na medida em que esse outro é co-partícipe da mesma situação vivencial, ele é sentido conscientemente como o causador dessa reação emocional fortemente negativa. Se esta intoxica, é natural que acione uma resposta projetiva em direção ao discriminado, supostamente percebido como agente causal dessa dor psíquica. Caberia acrescentar, que havendo em grande parte uma motivação inconsciente para essa reação, do ponto de vista do sujeito discriminador, o fenômeno é percebido, ou chega à consciência, como se fosse resposta à uma ação provocativa do outro. Sendo matizada pelo (pré)conceito, dir-se-ia que a força geradora dessa resposta, aparentemente conceitual, vem imantada por elementos inconscientes.

O conteúdo formal do que é discriminado (conjunto de representações mentais), que se contrapõe conscientemente a uma determinada posição, ou atitude do outro, é de fato um conceito, mas carregado por emoções (primitivas), onde o que menos conta são as palavras. Ou seja, nessa situação, o embate é apenas, em sua superfície, no campo das ideias. Essa aparente diferença conceitual, amparado na lógica do “eu discrimino porque tenho razões para fazê-lo”, do ponto de vista do inconsciente, é apenas movimento homeostático, ou seja, uma tentativa de retornar ao equilíbrio anterior (desintoxicação), desfazendo-se projetivamente de emoções intoleráveis, em fato que dificulta, ou impede, a troca de ideias com aquele que pensa diferente.
Do ponto de vista da noção freudiana de surgimento do aparelho psíquico, que privilegia a importância dos instintos, pulsão de vida e de morte, como elemento sempre presente no nascimento da noção subjetiva do Eu, em termos da constituição do sujeito, e da noção do outro, enquanto um objeto interno, separado do sujeito, dir-se-ia que a historia pessoal de qualquer um é expressão da sucessão de vivências, e aquilo que acontece na vida interpessoal – cuidados que aconteceram, ou faltaram – vai constituindo um entremeado entre boas e más experiências, colorido pelo impacto simultâneo do acontecer instintual. A descrição do desenvolvimento inicial do ego feita por Freud em 1915 (Instintos e suas vicissitudes) e, portanto, ainda dentro da primeira tópica, refere-se à capacidade de que, através de uma incipiente estruturação psíquica, desenvolva-se ativamente, não só a distinção entre o interno e o externo, como, também, a possibilidade de processar, via identificação e projeção, as primitivas experiências de prazer-desprazer.

Proponho pensar, como possível categoria conceitual, que a presença do pensamento discriminatório poderia ser expressão, e também consequência, em termos do modelo freudiano, do ódio à diferença, ou do desprazer causado pela diferenciação entre o sujeito e o objeto. Assim, nesse sentido, a intolerância do discriminador não poderia ser entendido como expressão dessa aversão pelo objeto? Ou, olhando através do seu contrário, a repulsa ao diferente, uma evidência do apego à imaturidade? E, nesse caso, não seria essa a dor psíquica na mente do discriminador, aquela provocada pela diversidade de pensamento, que atua como motor desse mecanismo projetivo protetor?

Dentro dessa perspectiva, dir-se-ia que o ódio permeia as relações matizadas pela discriminação. Ódio ao outro, aos direitos e a natureza do outro e, em especial, ao direito deste de pensar diferente. Se fossemos colocar em palavras a intenção (inconsciente) discriminatória, dir-se-ia: não tens o direito de existir, de ser diferente, e muito menos o direito de dizer o que pensas, pois odeio perceber que pensas diferente. Não amadureci a ponto de poder aceitar como minhas, as tuas ideias, enfim, para aceitar as nossas diferenças! É o meu ódio, autocentrado, que me legitima, quando ajo para eliminar-te. A tua destruição me faz bem, porque reafirma a minha posição no mundo. Aniquilando-te, garanto a minha sobrevivência, ou a sobrevivência da minha fé, a fé na minha convicção, na certeza de que a minha cor de pele, minha sexualidade, a minha ideologia política, são a expressão da verdade absoluta.

Referências bibliográficas

Freud, S. (1915). Os instintos e suas vicissitudes. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

_______ (1920,A). Além do princípio do prazer. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 18). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

_______ (1920,B). Psicologia de grupo e análise do ego. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 18). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

_______ (1924). O problema econômico do masoquismo. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 19). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Ferrari,C.A (2017). Odeio, então existo! Fanatismo, uma linguagem (possível?) ao narcisismo de morte. Revista de Psicanalise da SPPA, v.24, n.3, p.571-585, dezembro 2017.

Green,A. (2010). O trabalho do negativo. Porto Alegre: Artmed.

_______ (2014). Por qué las pulsiones de destrucción o de muerte? Buenos Aires: Amorrortu.
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Por que alguns são amigos próximos e outros são só conhecidos?

Si necesitas mover muebles, dice el dicho, llama a un amigo; si requieres mover un cadáver, contacta a un buen amigo. Y es que, si ponemos de lado escrúpulos morales, ese buen amigo sin duda estará de acuerdo en que la víctima era un patán intolerable que se lo merecía y, caray, no debiste hacerlo, pero ¿dónde guardas las palas?

ami

Keith Negley

       En las mejores amistades se comparten hasta las ondas cerebrales

Desde hace tiempo, los investigadores saben que elegimos amigos que son muy parecidos a nosotros en una amplia gama de características: edad, religión, nivel socioeconómico, educativo, preferencias políticas, grado de pulcritud e, incluso, la fuerza de agarre al dar la mano. El impulso hacia la homofilia —es decir, a vincularnos con quienes son, en la medida de lo posible, lo menos diferentes a nosotros— ha sido hallado por igual entre grupos de cazadores y recolectores que en sociedades capitalistas más modernas.

Según nuevas investigaciones, las raíces de la amistad se extienden incluso más profundo de lo que se sospechaba. Los científicos han descubierto que los cerebros de los amigos cercanos responden de maneras sorprendentemente similares al observar videos cortos: los mismos reflujos y oleadas de atención y distracción, el mismo punto máximo de procesamiento de la recompensa por aquí y las mismas alertas de aburrimiento por allá.

Se comprobó que los patrones de respuesta neuronal evocados por los videos —sobre temas tan diversos como los peligros del fútbol americano colegial, cómo se comportan gotas de agua en el espacio exterior y Liam Neeson tratando de hacer comedia de improvisación— coincidían tanto entre amigos, comparados con patrones entre personas que no lo eran, que los investigadores podían predecir qué tan fuerte era el vínculo social entre dos personas únicamente con base en sus lecturas cerebrales.

“Me sorprendió la excepcional magnitud de la similitud entre amigos”, comentó Carolyn Parkinson, científica cognitiva de la Universidad de California en Los Ángeles. Los resultados “fueron más convincentes de lo que había imaginado”. Parkinson y sus colegas, Thalia Wheatley y Adam M. Kleinbaum, de Dartmouth College, dieron a conocer sus resultados en la revista Nature Communications.

Los hallazgos ofrecen evidencia prometedora para sustentar la vaga idea que tenemos acerca de que la amistad es más que intereses compartidos o de tener ciertas coincidencias en nuestros perfiles de Facebook. Se trata de lo que denominamos buena química.

“Nuestros resultados sugieren que los amigos son similares en cuanto a la forma en que ponen atención y procesan el mundo que los rodea”, explicó Parkinson. “Ese procesamiento compartido podría hacer que la gente se vincule más fácilmente y tenga el tipo de interacción social sin roces que puede ser tan gratificante”.

El nuevo estudio es parte del auge del interés científico en la naturaleza, la estructura y la evolución de la amistad. Detrás del entusiasmo hay una montaña virtual de evidencia demográfica que muestra que la carencia de amigos puede ser sumamente dañina; cobra un precio físico y emocional comparable con el de factores de riesgo más conocidos como la obesidad, la hipertensión, el desempleo, la falta de ejercicio y el tabaquismo.

Los científicos quieren saber exactamente qué hace a la amistad tan saludable y al aislamiento tan nocivo, y están recabando pistas provocadoras, aunque no necesariamente definitivas.

Nicholas Christakis, autor de Connected: The Power of Our Social Networks and How They Shape Our World y biosociólogo de la Universidad de Yale, y sus colegas demostraron recientemente que la gente que tiene fuertes vínculos sociales tiene, en comparación, bajas concentraciones de fibrinógeno, una proteína asociada con el tipo de inflamación crónica que se cree origina muchas enfermedades. Sigue siendo una incógnita por qué la sociabilidad podría ayudar a bloquear la inflamación.

Los investigadores también se han mostrado intrigados por las evidencias de amistad entre los animales y no solamente en aquellos conocidos por su sociabilidad, como los primates, los delfines y los elefantes.

Gerald G. Carter, del Instituto Smithsonian de Investigaciones Tropicales, en Panamá, y sus colegas reportaron el año pasado que los murciélagos vampiro hembra cultivan relaciones estrechas con otras hembras con las que no tienen parentesco y comparten dosis de sangre con ellas en tiempos difíciles, un acto que les salva la vida a estos animales, que no pueden pasar más de un día sin alimento.

No obstante, si se trata de la profundidad y complejidad de los vínculos, los humanos no tienen igual. Parkinson y sus colegas habían demostrado previamente que la gente tiene un entendimiento automático y profundo de cómo encajan los actores en su esfera social, y los científicos querían saber por qué algunos integrantes de una red son amigos cercanos y otros son solo conocidos.

Por eso decidieron explorar las reacciones neurales a los estímulos cotidianos y naturales. En estos días, eso significa ver videos.

Los investigadores comenzaron con una red social definida: una generación de 279 estudiantes universitarios en una universidad que el estudio no nombra, pero los neurocientíficos reconocen fue la Escuela de Negocios de Dartmouth. A los estudiantes, que se conocían entre sí y en muchos casos compartían dormitorios, se les pidió que llenaran cuestionarios. ¿Con cuáles de sus compañeros de estudio socializaban (compartían alimentos, iban al cine, invitaban a sus casas)? A partir de esa encuesta, los investigadores hicieron un mapeo de una red social con distintos grados de conexión: amigos, amigos de amigos, amigos en tercer grado.

Después se les pidió que participaran en un escaneo cerebral; 42 de ellos aceptaron. Mientras un dispositivo de resonancia magnética funcional rastreaba el flujo sanguíneo en sus cerebros, los estudiantes observaron una serie de videos de varias extensiones, una experiencia que Parkinson comparó con ver distintos canales de televisión cuando alguien más tiene en sus manos el control remoto.

Al analizar los escaneos de los estudiantes, Parkinson y sus colegas encontraron fuertes concordancias entre los patrones de flujo sanguíneo —una medida de actividad neural— y el grado de amistad entre los participantes, incluso después de controlar otros factores que podrían explicar similitudes en las respuestas neuronales, como la etnicidad, la religión o el ingreso familiar.

Los investigadores identificaron patrones particularmente reveladores de concordancia entre amigos en zonas como el núcleo accumbens, que es clave para procesar la recompensa y la motivación, y el lóbulo parietal superior, donde se decide cómo distribuir la atención que se presta al entorno externo.

Con ayuda de los resultados, los investigadores pudieron crear un algoritmo de computadora para predecir, según una tasa muy por encima de la casualidad, la distancia social entre dos personas con base en la similitud relativa de sus patrones de respuesta neuronales.

Parkinson enfatizó que el estudio era un “primer paso, una prueba de concepto” y que ella y sus colegas todavía no saben qué significan los patrones de respuesta neuronal: qué actitudes, opiniones, impulsos o jugueteo mental derivado del ocio podrían estar detectando los escaneos.

Ahora planean hacer el experimento a la inversa: escanear a estudiantes que todavía no se conocen y ver si los que tienen patrones neuronales más coincidentes acaban volviéndose buenos amigos.

“Me parece que es un artículo increíblemente ingenioso”, comentó Christakis, biosociólogo de la Universidad de Yale. “Sugiere que los amigos se parecen no solo de manera superficial, sino también en su estructura cerebral”.

Fonte: New York Times
Por: Natalie Angier
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