Quem ganha com a política fracassada contra as drogas?

“Falando sério: alguém acredita que a atual política de combate às drogas traz algum benefício que justifique tantas mortes e violência? Se sim, que tal reintroduzir a Lei Seca americana dos anos 1920?”. A questão é colocada por Vera Iaconelli*, em sua coluna na Folha de S.Paulo.

#PraCegoVer: imagem traz ilustração que mostra uma pessoa negra ao chão, de costas, com as mãos algemadas e vestindo uma camiseta verde com a bandeira do Brasil nas costas, e, no segundo plano, um policial fardado que deixa o local, segurando uma pistola de onde sai fumaça; com um fundo branco. Ilustração: Carlos Latuff / D’Incao.

Opinião: Viva o combate às drogas

A pessoa bebe e sai por aí brigando com todo mundo, discutindo com o vizinho, batendo na mulher/marido e nos filhos. Causa acidentes, atropela inocentes. Tem a vida completamente destruída pelo vício. Perde emprego, amigos e família, que não suportam tanto sofrimento.

As doenças do bebedor inveterado custam uma fortuna para o serviço público e o privado:eles morrem de cirrose, perdem as faculdades mentais, têm delírios, se suicidam. O álcool induz a gravidezes indesejadas e filhos desassistidos, uma população inteira de crianças traumatizadas, negligenciadas, que serão um ônus para os demais familiares e para o Estado.

Filhos de gestantes alcoólatras têm síndrome de abstinência ao nascer e têm menos chance de receber cuidados adequados das mães viciadas ao longo da vida. Correm grande risco de se tornarem alcoólatras também.O álcool é um inferno para o indivíduo e para a sociedade.

Que tal combatê-lo usando as atuais políticas contra as drogas? Vejamos como seria.
A primeira coisa a fazer seria proibir terminantemente a produção, a comercialização, o porte e o consumo do álcool.

Se a proibição for desrespeitada, prendemos os portadores, os comerciantes e os produtores. Vamos encher a cadeia com eles.Cadeia neles e, se for necessário, bala na cabecinha.Afinal, as cadeias já estão implodindo de sujeitos que foram presos por sua ligação com outras drogas —quase 30% no geral, 70% no caso das mulheres— e sustentá-los custa uma fortuna ao país.

A alternativa é que sejam eliminados na guerra ao tráfico antes mesmo de criarem ônus para o Estado.O cara se envolve com droga, sai fazendo merda e ainda vamos ter que pagar a vida fácil dele na cadeia?Se as cadeias estiverem apinhadas, com motins periódicos, tanto melhor. Bandido bom é bandido morto, não é mesmo?

Detalhe:o comércio ilegal de drogas movimenta fortunas incalculáveis. Sabemos o problemão que era para o Pablo Escobar esconder a bufunfa que jorrava do tráfico. Ele enterrou tanto dinheiro e em tantos lugares, que até hoje existe caça ao tesouro na Colômbia. Esse rio de dinheiro permite que os meliantes comprem empresas lícitas, comprem políticos, comprem governos.

A disputa por essa fortuna promove a guerra das facções com seus tiroteios a céu aberto. O cidadão fica desprotegido diante do poder paralelo que domina a cidade.

Quem vai nos proteger? Se você mora nos Jardins, no Leblon ou similar, poderá blindar seu carro e contratar uma guarda particular, fazendo do seu lar a filial do Mossad.

Se você mora na periferia, terá a proteção compulsória das milícias a sua disposição.Elas dão um chega para lá nesses traficantes de merda e, de quebra, organizam os serviços necessários para a comunidade, onde o poder público desapareceu: gás, luz, internet, TV a cabo, água, transporte e segurança, claro!

Mas como o traficante de merda ganha muito mais do que o miliciano “vendendo serviços”, o miliciano logo passa ele mesmo a distribuir droga.Por fim, ele compra políticos e fuzila as Marielles que cruzam seu caminho.

Se morrerem mais alguns milhares de cidadãos, policiais e Ágathas, são apenas cadáveres do ofício, pois o que importa mesmo é acabar com esses traficantes de merda.

Falando sério:alguém acredita que a atual política de combate às drogas traz algum benefício que justifique tantas mortes e violência?Se sim, que tal reintroduzir a Lei Seca americana dos anos 1920?

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