Governo federal ideologiza assunto científico

Presidente da Anvisa,William Dib: “Eles estão ideologizando um assunto científico. Não dá para discutir ciência e religião. Ideologia e ciência não dá”

LUIS MACEDO/CÂMARA DOS DEPUTADOSWilliam Dib, presidente da Anvisa, critica forma como governo Bolsonaro trata de maconha medicinal.

‘Estão ideologizando um assunto científico’, diz presidente da Anvisa sobre maconha medicinal

Prestes a deixar a presidência da agência reguladora, William Dib critica postura de ministros de Bolsonaro ao misturar ideologia e ciência.

A dez dias de deixar a presidência da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), William Dib comemora a liberação da venda de produtos à base de Cannabis e critica a postura de integrantes do governo de Jair Bolsonaro sobre o uso da maconha medicinal. Para o médico e ex-deputado federal, a limitação do plantio no Brasil irá atrasar em duas décadas a pesquisa científica na área.

“Eles estão ideologizando um assunto científico. Não dá para discutir ciência e religião. Ideologia e ciência não dá”, afirmou Dib em entrevista ao HuffPost Brasil em seu gabinete nesta terça-feira (10), ao se referir à postura dos integrantes do primeiro escalão do Executivo.

Para o presidente da Anvisa, não há justificativa técnica para o argumento de que a permissão do plantio da Cannabis estimularia o consumo da erva para uso recreativo, conforme afirma o ministro da Cidadania, Osmar Terra, principal opositor da liberação do cultivo da planta no Brasil. “Não existe possibilidade de você imaginar que alguém vai plantar para fazer uso recreativo se no mercado do lado, na esquina, você compra por um preço irrisório para uso recreativo”, afirmou.

Dib também disse que o ministro mente ao afirmar que há registro de canabidiol sintético no Brasil e rebateu a ameaça feita por Terra de fechar a agência, caso o plantio fosse liberado. “Se fechar a Anvisa, para o País”, afirmou.

Em 3 de dezembro, a Anvisa aprovou normas para regular a venda em farmácias de produtos à base de maconha. No mesmo dia, contudo, o colegiado rejeitou proposta que permitia o cultivo da planta para fins medicinais. A resolução era restrita a empresas, com plantio feito em locais fechados e cujo acesso seria controlado por portas de segurança e com uso de biometria. Também seria exigida a apresentação de planos de segurança para evitar desvios, e as empresas seriam alvo de inspeções periódicas.

Apesar da derrota, Dib vê com bons olhos a permissão dos produtos em farmácias e aposta que o Congresso Nacional irá avançar na regulação. Na Câmara dos Deputados, o relator do projeto de lei sobre o tema, Luciano Ducci (PSB-PR), defende uma proposta de plantio similar à rejeitada pela Anvisa.

Desde 2017, a agência permite a produção e comercialização do Metatyl, medicamento à base de maconha, indicado para adultos com rigidez muscular excessiva relacionada à esclerose múltipla. A medicação é composta tanto pelo THC quanto CBD.

Hoje, o CFM (Conselho Federal de Medicina) só reconhece o uso medicinal da erva em casos de pacientes com epilepsia refratária e menores de idade. Estudos já mostram a eficácia dessa aplicação também para casos de autismo, dor crônica, mal de Parkinson e alguns tipos de câncer.

Com o avanço de evidências científicas dos benefícios da Cannabis para a saúde, têm crescido nos últimos anos decisões judiciais que permitem o cultivo ou a importação de substâncias. Segundo dados da Anvisa, mais de 7 mil pacientes conseguiram aval para importar esse tipo de produto, com base em laudos médicos.

HuffPost Brasil: Em vigor desde 2006, a Lei de Drogas prevê que a União pode autorizar o plantio de “vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas” exclusivamente para “fins medicinais ou científicos”. Em setembro, a Procuradoria-Geral da República enviou um parecer ao Supremo Tribunal Federal em que afirmou que houve “omissão inconstitucional” do poder público na implementação das condições necessárias ao acesso ao uso medicinal da Cannabis. O que impede a regulação do plantio?

William Dib: A agência trabalhou esses anos todos sob a seguinte métrica: o que a sociedade quer, o usuário, a classe científica, a academia, e o que a gente podia oferecer. A equipe técnica fez um desenho, visto que há cinco anos eram dezenas de casos de autorização judicial de plantio e hoje são milhares de casos. Antes eram entidades. Passou para indivíduos e agora teve até uma ação de uma empresa. Tudo que a sociedade quer e você não regulamenta vira um caos. A Anvisa se viu no dever, não só no direito – o direito estava na lei – de fazer algo que pudesse ser incorporado à legislação brasileira e aos compromissos internacionais que o Brasil tem de controle e prevenção de danos.

A gente estudo o modelo canadense, israelita, de Portugal, pouquíssimas contribuições americanas. Juntando isso a gente fez um projeto, que resultou num pedido de consulta pública aprovado por unanimidade. Foi para consulta e voltou. A gente fez uma redação final. Nisso aumentou muito a pressão do governo. Faz parte, eu acho, do processo democrático. O governo tem duas alegações. Uma de que a Anvisa não detém o direito de regulamentar, apesar de PGR ter dito que é obrigação. E outra de que não estava claro o grau de segurança desse plantio.

Para o senhor está claro que a Anvisa tem o poder legal de regulamentar o plantio [da erva]?

Para mim está claro, tanto que mantive meu voto. Acho que está claro também que o modelo proposto era seguro. A gente tem de respeitar as opiniões. Não passou, mas passou o registro mais ágil [de produtos à base da Cannabis]. Isso apaga um quase que totalmente a derrota [sobre o plantio]. É um grande avanço. A obrigação da agência é dar acesso a um produto de qualidade, segurança e eficácia. Isso a gente vai conseguir com produtos importados, seja o produto final ou o insumo produzido aqui que a gente vai poder fiscalizar, fazer análise.

Sem a permissão para o plantio, as empresas que podem vender esses produtos à base de Cannabis são obrigadas a importar esses insumos. É possível chegar a um valor acessível de fato, com essa limitação?

Não saberia dizer porque não há patente de Cannabis. Conforme aumenta o consumo, aumenta a produção. Ninguém produz para estocar. Quando isso existe, pode existir uma concorrência que vai reduzir o preço. Óbvio que no começo, primeiro, segundo ano, pode não haver nenhuma redução. Pelo contrário, vai haver um acréscimo porque não tem tabela. Então cada um vende seu produto pelo preço que quiser.

Ficamos à mercê do mercado internacional. E da boa vontade disso. Por exemplo, a legislação de Israel permite o cultivo, mas não permite a exportação. De alguns estados americanos você também não pode plantar.

A proposta de plantio feita pela Anvisa só permitia o cultivo por empresas, em ambientes fechados, com diversas limitações de segurança. Apesar disso, integrantes do governo disseram que ela poderia levar ao plantio para fins recreativos. Há argumentos concretos para esse tipo de argumento?
Eu não consigo absorver isso. A gente precisa partir de uma realidade. A realidade é que você acha Cannabis por um preço baratinho, irrisório, quando ela é de uso recreativo. A Cannabis medicinal, por uma série de motivos, de quantidade de CDB, de THC, ela já fica mais cara mesmo na produção outdoor. Na produção indoor, fica violentamente mais cara. E a produção indoor, monitorada 24 horas, com íris de reconhecimento digital, ainda mais cara.

Não sei quem consegue entender que isso vai estimular o consumo de Cannabis. A filosofia, a base científica disso, eu desconheço. Nunca ouvi uma justificativa técnica que pudesse me convencer de que isso era verdade. Seria capaz de mudar minha opinião. Não consigo mudar de opinião porque não consigo ver essa versão como passível de existência.

Há um discurso moralista que dificulta um debate com foco nos pacientes que precisam desse tipo de medicamento?

[Esse discurso] Inibiu o debate e uma coisa mais importante, que é aumentar a dependência brasileira para insumos. Isso é ruim demais. Mas eu insisto que a gente deve ter ficado feliz de ter passado a regulação da venda dos produtos. Acho que é de questão de dias, de meses, para o Congresso assumir esse papel de regular até porque o governo vai durar mais três anos. Isso não vai ficar assim.

E está havendo uma articulação no mundo para retirar a Cannabis da lista de drogas proibidas. Isso pode ocorrer ano que vem. Se isso acontecer, nem plantio indoor vamos precisar discutir.

Mas não precisaria de a Anvisa também retirar da lista de drogas proibidas no Brasil?

Seria uma decisão da ONU [Organização da Nações Unidas]. O Brasil é signatário de convenções internacionais. Se uma convenção tirar da lista, nós assinamos que ela saiu da lista. Acabou.

As pessoas poderiam plantar [maconha medicinal] então?

Igual à rosa, arroz, feijão.

O relator do projeto de lei na Câmara dos Deputados, Luciano Ducci (PSB-PR), é a favor do plantio em termos similares ao proposto pela Anvisa. Alguns deputados conservadores também, mas há resistência de integrantes da bancada evangélica. Ainda assim, o senhor acha que essa proposta será aprovada?

Alguma coisa será aprovada. O Congresso é mais liberal do que a Anvisa, com certeza. Todos os Congressos são mais liberais do que as agências. As agências são mais restritivas porque mexem com a segurança da saúde das pessoas. Os congressos são mais abertos. No governo da Dilma [Rousseff] a proposta era liberar o cultivo. Não era regulamentar o remédio. Dois anos depois, muda tudo.

A proposta da Anvisa liberava o cultivo só para empresas e houve críticas de que não atenderia às demandas das famílias de pacientes e associações. É viável liberar o plantio para atender a esses grupos?

O presidente da Anvisa tem de responder por leis específicas. As leis brasileiras são restritivas. A Anvisa faz regulamentações restritivas.

O senhor entende que para as pessoas poderem plantar em casa seria necessário mudar a lei então?

Isso. Quem tem que fazer isso é o Congresso. A Anvisa não discute o uso recreativo. Não discute liberação de droga de nenhuma ordem. A Anvisa discute o seguinte: tem uma doença que precisa de um remédio e eu preciso garantir o acesso a um produto de qualidade dessa pessoa.

Se fosse em outro governo, seria possível aprovar uma proposta mais liberal?

Se fosse no governo da Dilma, eles teriam ficado bravos de não ter liberado tudo.

Considerando a posição do presidente Jair Bolsonaro e de ministros como o da Cidadania, Osmar Terra, então foi uma vitória o que se conseguiu aprovar?

Foi uma grande vitória da sociedade. Não minha, muito menos da Anvisa, em regulamentar o uso medicinal. Isso é o produto final. Não adiantava liberar o plantio e não garantir o remédio de qualidade. O nosso papel era o remédio. Com certeza é mais importante que o plantio. O plantio só vinha organizar a sociedade.

Quase todas as sentenças de autorização de plantio o juiz escreve ‘autorizo o plantio até a regulamentação pela Anvisa’. A agência é um problema para a sociedade. Alguém pedia um remédio e demorava 9 dias. Agora demora 60. Por quê? Porque aumenta o número de receitas e não aumenta o número de funcionários [da Anvisa]. Não dá para fazer mágica.

Mas as pessoas ainda podem pedir para importar…

Mas aí é um pedido que não preciso mais regulamentar caso a caso. Aqui eu faço um por um porque é um pedido individual e dose individual. O grande foco dessa alteração é que mesmo que tiver um pedido de importação, ninguém vai importar mais um vidrinho. Vai pedir autorização para um contêiner.

O senhor sentiu diferença com a mudança de governo na postura de integrantes do Executivo sobre a Anvisa votar a regulamentação do uso medicinal da maconha?

Estou acostumado…

Mas houve uma grande mudança de 2016 para 2019?

Eu diria para prestar atenção nas votações. Se teve uma votação há 90 dias e todo mundo votou em conjunto, 60 dias depois votaram diferente, você conclui…

Houve algum pedido do governo para que a regulação não fosse votada?

Para mim, não.

O ministro Osmar Terra é crítico à liberação do plantio e defende o canabidiol sintético. Essa solução é viável?

Noventa e nove porcento dos medicamentos tiveram origem vegetal. Quando o consumo começa a crescer e é difícil plantar, vem um geniozinho da lâmpada e consegue sintetizar esse produto. Fica um pouco mais caro, mas quando todo mundo consome o sintético, fica mais barato. Essa é a história de praticamente todo medicamento. Óbvio que um dia vai ter o canabidiol sintético, só que o que tem hoje não serve para nada. A classe médica odeia. Não tem registro. Ele [Osmar Terra] diz que tem registro aqui no Brasil. É tudo mentira. Não sei de onde ele tira essas coisas da cabeça.

Não existe o produto sintético. Existe no laboratório. Tem o registro? Não. Por quê? Porque não funciona.  Por que não funciona? Segundo os israelenses que estão mais avançados na depuração dos canabinoides, é porque quando precisar tomar você precisa de 411 canabinoides e ninguém conseguiu sintetizar 411. Consegue sintetizar o CBD e mais alguns. Precisa tomar o xarope com o óleo total para provocar o efeito [medicamentoso] que precisa. A chance de ter um produto sintético em pouco tempo é muito remota porque é muito complexa a formulação.

O senhor entende que essa discussão sobre a separação do THC tem uma base científica ou também é um debate ideológico?

A Cannabis sem THC não tem nenhum efeito deletério, nem psicotrópico. Tanto é que o [Donald] Trump autorizou o plantio do que eles chama de hemp, o cannabidiol puro, com menos de 0,2% de THC. Não precisa de autorização; você planta. Assim como planta milho, planta Cannabis. Eles têm o cânhamo, indústria têxtil, agropecuária, serve para várias outras fontes. Esse plantio do canabidiol sem o THC nem isso nós conseguimos [aprovar no Brasil]. Agora, determinadas patologias precisam de uma quantidade de THC para ter efeito. Só em um remédio registrado no Brasil.

O Metatyl, que tem THC…

E não é pouco. É 50%. A maior parte dos remédios que circulam nos países que têm a cultura científica do uso, a proporção entre CBD e THC máxima é essa. Quase todos produtos com maior eficácia têm THC. Tirar todo THC limita muito o espectro da autorização.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o canabidiol pode ser incluído no SUS, mas criticou normas que permitem o registro de produtos que contenham THC. Sendo assim, na prática, a distribuição desses produtos pela rede pública seria inviabilizada?

Será que ele sabe que já tem um remédio que o Ministério da Saúde receita que já têm 50% de THC? Eu não sei se ele sabe. Não é vontade cultural. É um problema ideológico. Eles estão ideologizando um assunto científico. Não dá para discutir ciência e religião. Ideologia e ciência não dá.

É complicado demais. Eles querem [misturar os temas], mas não sei como eles conseguem. Desculpa. Com todo o respeito que tenho aos ministros – o ministro [da Saúde] é meu colega médico — mas não sei se ele sabe. Eu tenho dúvidas porque ele já autoriza [o uso de medicamento com THC]. Ele acha que não, mas já autoriza.

Daqui a três anos essa liberação da venda de produtos à base de Cannabis pode ser revisada pela Anvisa. O que pode acontecer? Voltar a proibir?

Acho que não. A ciência tem de estar de cabeça aberta se isso é bom mesmo. Se os resultados para sociedade vão ser positivos. O pouco que eu estudei, eu vejo um campo magnífico para desenvolvimento para o uso da Cannabis e acho que vai ser um sucesso. Mesmo assim, acho que tem de se revista a legislação. Estamos fazendo uma legislação em que a comprovação científica é o menos importante. Agora é a comprovação de que não têm efeitos deletérios. É garantir que você não está usando um remédio que vai te fazer mal. Se não resolver seu problema, daqui a três anos vou ter de tirar ele do mercado.

Pesquisadores apontam algumas dificuldades nas exigências de evidências científicas, como desenvolver os  chamados estudos multicêntricos randomizados duplo cego, o padrão mais elevado, por ser muito caro. A regulação da venda de produtos vai ter algum impacto nessa dificuldade de pesquisa?

A ideia do plantio era porque a convenção que assinamos era para produtos medicinais, mas o mais importante era para pesquisa. Retirando o cultivo, a pesquisa vai atrasar uns 20 anos. Não é função da agência produzir ciência, mas também não é dificultar. Quando a academia pede semente e planta para pesquisa, a gente autoriza, mas eles [pesquisadores] que pagam.

Acho que pode haver alguma facilidade porque os laboratórios que vão lançar seus produtos vão querer se associar à academia para fazer pesquisa para ganhar tempo e eficácia. Isso pode baratear a pesquisa.

E o laboratório pode fazer pesquisa para doença que não está registrada. Só precisa se cadastrar. Se o laboratório que vai produzir aqui vai ganhar mercado e reconhecimento científico, isso não tem preço. Então pode ser que esse seja um facilitador. É óbvio que não estamos falando de universidades. Universidades precisariam do plantio.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) só reconhece o uso medicinal da erva em casos de pacientes com epilepsia refratária e menores de idade. Com a regulação da venda de produtos, deve haver uma revisão desse entendimento?

Sou médico, não posso dar palpite. Mas acha que algum médico leva em consideração o que o CFM fala? Não há possibilidade de a Anvisa fazer receita. Quem prescreve é a classe médica, que responde ao Conselho. Mas alguém ouve o Conselho?

O ministro Osmar Terra chegou a falar em fechar a Anvisa, caso o plantio fosse liberado. O senhor acredita que haverá algum tipo de retaliação do governo, se a agência ampliar o acesso à maconha medicinal?

Se fechar, para o País. A Anvisa tem um reconhecimento no mundo, muito alto. E tem aqui dentro. Ela é fundamental para a indústria farmacêutica. Quando a Anvisa foi criada, a indústria farmacêutica tinha duas empresas brasileiras entre as vinte maiores. Hoje das dez maiores empresas [do mundo], sete são brasileiras. A Anvisa não atrapalha ninguém. Ela regulamenta mercado.

Os homens são mais espirituosos do que as mulheres?

Christopher Hitchens publicou um artigo sobre as mulheres não serem espirituosas. Veja uma pesquisa sobre o tema no Journal of Research in Personality.

¿Son los hombres más chistosos que las mujeres?

Antes de su prematura muerte, el gran Christopher Hitchens publicó un artículo sobre por qué las mujeres no son chistosas — aunque la indignación fue masiva (y dio lugar a un artículo de seguimiento en el que Hitchens se defiende de los ataques y dobla la apuesta), pocos se tomaron la molestia de ir más allá del título y ver que el argumento de Hitch era que hay una explicación plausible de por qué, en promedio, los hombres son más divertidos en su producción humorística que las mujeres: a saber, porque los hombres usamos la producción humorística para impresionar a las mujeres, mientras que este aspecto no hace parte del repertorio de cortejo de ellas. O, puesto de otra forma, mientras ser divertido es un rasgo que definitivamente puede acercar a un hombre a un encuentro sexual, los hombres en general no nos fijamos en qué tan chistosa es la producción humorística de una mujer a la hora de considerarla como una pareja sexual en potencia.

Los investigadores Gil Greengross, Paul Silvia y Emily Nusbaum acaban de publicar el primer metaanálisis cuantitativo sistemático sobre las diferencias de sexo en la capacidad de producción humorística en el Journal of Research in Personality, y parece que Hitchens no estaba demasiado equivocado.

Greengross explica en su blog en qué consistió el estudio y los resultados que obtuvieron:

En nuestro caso, sólo se incluyeron estudios que evaluaron objetivamente la capacidad humorística. Se excluyeron los estudios en los que las personas evaluaron su propia capacidad de humor, ya que la mayoría de las personas creen que tienen un sentido del humor por encima de la media. Tampoco se incluyeron los estudios en los que el evaluador conocía el sexo de la persona. Por ejemplo, el sexo de un profesor puede tener un efecto sobre qué tan gracioso se percibe que es.

Nos centramos entonces en estudios en los que se evaluó objetivamente la capacidad humorística de hombres y mujeres. ¿Qué significa esto? En un estudio típico que cumplía con nuestros criterios de inclusión, los sujetos fueron presentados con un estímulo, a menudo una caricatura sin texto. Luego se les pidió a los sujetos que le escribieran una frase divertida. Más tarde, los jueces independientes calificaron en una escala (por ejemplo, 1-5) qué tan divertidas eran las respuestas. La clave para estas tareas es que los calificadores no sepan nada sobre quiénes producen el humor, incluyendo su sexo. Tales comparaciones son más confiables y válidas, y elevaron nuestra confianza en que estamos midiendo la verdadera capacidad humorística con poca influencia de los estereotipos.

Pudimos encontrar 28 estudios con 36 muestras independientes que cumplieron con los criterios. La muestra combinada incluyó 5,057 participantes (67 por ciento mujeres). Los estudios fueron de varios países (EEUU, Reino Unido, Hungría, Alemania, Israel y más). La mayoría de los datos (60 por ciento) provenían de datos que nunca antes se habían publicado en una revista revisada por pares, lo que ayuda a minimizar el efecto del sesgo de publicación.

Luego calculamos las diferencias de sexo en la muestra combinada y encontramos que los hombres eran, en general, clasificados como más divertidos que las mujeres. ¿Qué tan grande fue la diferencia? En términos técnicos estadísticos, el tamaño del efecto fue de 0,32, o aproximadamente un tercio de la desviación estándar. En términos sencillos, esto significa que el 63 por ciento de los hombres obtienen una puntuación superior a la capacidad humorística media de las mujeres. Esto se considera una diferencia pequeña a media.

También buscamos una larga lista de posibles variables de confusión que pudieran explicar la diferencia. Los países de donde provienen los datos, el sexo de los autores que realizan la investigación, la edad de los participantes, si había más hombres o mujeres que juzgaban el humor — ninguno de estos hizo una diferencia en nuestro análisis.

¿Qué significa todo esto? Significa que, según nuestro leal saber y entender, en promedio, los hombres parecen tener una mayor capacidad de producción humorística que las mujeres.

[…]

¿Por qué los hombres tendrían mayor capacidad humorística promedio que las mujeres? Es posible que la opinión de que las mujeres son menos graciosas sea tan generalizada que las fuerzas sociales desalientan a las niñas y a las mujeres a desarrollar y expresar su humor, lo que hace que sea menos probable que una mujer sea percibida como graciosa. Sin embargo, hay poca evidencia que apoye la opinión de que nuestra sociedad suprime la producción y exhibición de humor por parte de las mujeres.

Por otro lado, la evidencia sugiere que el humor juega un papel importante en el apareamiento, con una fuerte base evolutiva. Como he explicado en posts anteriores, las mujeres, que asumen los costos más elevados de la reproducción (embarazo, lactancia materna), son más selectivas que los hombres a la hora de elegir una pareja. Las mujeres tienden a buscar varios indicadores de la calidad de las parejas, y uno de ellos es un gran sentido del humor. El humor está fuertemente correlacionado con la inteligencia, lo que explica por qué las mujeres valoran a los hombres con un gran sentido del humor, ya que la inteligencia fue crucial para la supervivencia a lo largo de nuestra historia evolutiva cuando vivíamos principalmente en grupos de cazadores-recolectores.

Los hombres, por otro lado, prefieren a las mujeres que se ríen de su humor. Esto significa que a lo largo de nuestra historia evolutiva, los hombres probablemente tuvieron que competir más duramente con otros hombres para impresionar a las mujeres con su sentido del humor. Mucha evidencia apoya este punto de vista, mostrando lo importante que es para las mujeres encontrar a un hombre con un gran sentido del humor, mientras que los hombres generalmente no dan un alto valor a la capacidad de producción humorística de las mujeres.
No está de más recordar que estos resultados son promedios, que son descriptivos y no prescriptivos, que no significan que no haya hombres cuya producción humorística deje bastante que desear, o que no haya mujeres con una producción humorística absolutamente maravillosa y por encima de la media de los hombres — estos resultados tampoco dicen nada sobre ningún hombre o ninguna mujer en particular.

La producción humorística de cada quién debe juzgarse por sus méritos individuales, en vez de aspectos sobre los cuales las personas no tenemos control, como el sexo con el que nacemos.

Fonte: De Avanzada

Por: David Osorio

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MADRID — A más de un año del asesinato de Marielle Franco, concejala de Río de Janeiro, aún no se conoce a sus asesinos. Durante este tiempo, tanta sospechosa desidia en la investigación solo ha alimentado la teoría de que detrás del crimen hay intereses muy poderosos: agentes del Estado, policía militar y hasta el propio presidente de Brasil, Jair Bolsonaro, y uno de sus hijos.

Marielle era un lastre para las aspiraciones del nuevo mandatario brasileño: afrodescendiente nacida en un favela, feminista y anticapitalista, tenía una agenda que consistía en pelear por los derechos de los oprimidos. En marzo de 2018, la mataron por ser una de las voces más persistentes en denunciar a grupos paramilitares que operan como crimen organizado en las favelas de Río. No le perdonaron querer cambiar la política desde adentro.

Las ejecuciones, amenazas y marginalización contra mujeres y disidencias funcionan como advertencias. El hecho de que las mujeres hayan pasado de la sumisión al cuestionamiento y a la acción en la vida pública de Latinoamérica hace que la violencia sea aún mas salvaje contra ellas. Denunciar, visibilizar y defender esas voces que son un peligro para el statu quo son hoy acciones urgentes y necesarias. Ante el avance de la diversidad, la reacción de quienes están en el poder —estatal o fáctico— se ha tornado cada vez más virulenta.

Es lo que tienen en común el asesinato de Franco, la amenaza y ejecución de defensores de la tierra como Berta Cáceres o el acoso a periodistas como Lydia Cacho, que denuncian crímenes como la trata de personas y confrontan al poder. Son operaciones diseñadas para acallarlas.

La violencia se ha ensañado con los nuevos sujetos políticos —las mujeres, los indígenas y las disidencias sexuales— porque han empezado a disputar y ocupar cuotas de poder para representar los intereses de sus comunidades y ponerlos en el centro de las políticas públicas. Pero quizás, en la política del siglo XXI, las mujeres sean uno de los principales objetivos de esta brutalidad.

Si Marielle cayó enfrentándose al poder político y militar de su país, la hondureña Berta Cáceres —quien se opuso a la construcción de un proyecto hidroeléctrico en el río Gualcarque— y otros cientos de luchadores medioambientales han sido asesinados en Latinoamérica por poner el cuerpo para alterar los planes de depredación de los grandes intereses económicos. Pese a la falta de protección de sus gobiernos, aún resisten mujeres como la campesina peruana Máxima Acuña, quien sigue defendiendo las lagunas del avance del proyecto minero Conga, que la intimida y ataca.

En el periodismo, las investigaciones de Cacho han señalado directamente a altos mandos políticos mexicanos en una red de trata de personas. Y eso no se lo perdonan. Tampoco que sea una mujer. Al poco tiempo de publicar sus investigaciones, Cacho fue detenida arbitrariamente, torturada y sus derechos, violados, según condenó la ONU. Eso no impidió que este año, entraran a su casa para saquearla y matar a sus perros.

Las formas de intimidar mujeres activistas son muy específicas, de ahí que tantos ataques a la libertad de expresión y asesinatos políticos sean a la vez feminicidios y casos de violencia de género. Durante las movilizaciones en Chile, se hicieron públicas decenas de casos de abusos y violación sexual a mujeres por parte de carabineros y militares.

El acoso es físico pero también político, laboral y económico; aquellas que confrontan a las fuerzas hegemónicas se arriesgan al desprestigio constante a través de las redes sociales, así como a intentos de silenciamiento que promueven los círculos machistas y el veto en sus profesiones, más aún si ostentan cargos públicos. Lo hemos visto con mandatarias como la brasileña Dilma Rousseff, destituida en un proceso muy cuestionado en 2016, pero ocurre en todos los sectores y escalafones. La última agredida por una turba afín a los ultraderechistas que han tomado el poder en Bolivia fue una alcaldesa del Movimiento al Socialismo (MAS), Patricia Arce, quien fue rapada y embadurnada de pintura roja antes de ser arrastrada por las calles.

La legisladora más joven de la historia de la Argentina, la recién electa Ofelia Fernández (de 19 años), una de las “pibas” artífices de la Marea Verde por el aborto legal, sufre hoy los embates de un sector de la prensa que ha lanzando contra ella bulos que involucran incluso a su madre. “Qué miedo les da una pibita”, respondió en sus redes.

Se ha declarado la guerra a esta nueva energía rebelde que defiende las lagunas, los bosques, la diversidad sexual y los cuerpos de las mujeres. En estas décadas, el activismo femenino ha hecho de Latinoamérica un lugar un poco más progresista y justo: de Argentina a Chile —fueron mujeres las primeras en ocupar el metro en Santiago—, las pibas han liderado una pequeña revolución que consiste en no conformarse.

Esta es la hora en que esas otras, otros y otres se levanten también para repensar el poder. Se trata de imaginar otras alternativas de movilización, de participación y de gobierno.

Quizás una solución sería forjar, como dice la académica Rita Segato, una “politicidad en clave femenina”. Ejemplo de ello es el flamante Parlamento de Mujeres en Bolivia, un espacio autónomo para la reflexión y la búsqueda de soluciones democráticas, promovido por el colectivo Mujeres Creando, en plena ola de violencia institucional y en la zozobra de la crisis social y política boliviana. Esos espacios de debate brotan y se multiplican también de Santiago a Quito, de Río de Janeiro a Puerto Príncipe, de Ciudad de México a Lima. Y ya corren llamamientos a la creación de un gran proyecto de organización global entre mujeres y disidencias, una especie de Internacional Feminista que luche por frenar el avance de la ultraderecha.

No sabemos si es la solución a tantas amenazas a las mujeres que le hablan de frente al poder y lo cuestionan y desnudan, pero es un primer paso esperanzador para cambiar de una política de unos cuantos a una de todos los ciudadanos.