Uma possibilidade de progresso para enfrentar os racistas

Ação de médicos contra Ministério da Saúde solicita definição de “ações racistas”.

O Ministério da Saúde, em 25/11, lançou uma campanha contra o racismo no SUS com o slogan “Racismo faz mal à saúde”. Ver abaixo:

Campanha mobiliza a população contra o racismo no SUS

O Conselho Federal de Medicina, em 27/11, contestou a campanha e repudiou o “tom racista” do MS como pode ser visto abaixo:

CFM repudia campanha do governo sobre preconceito no SUS

A Associação Piauiense de Medicina (Aspimed), em dia 17/12, entrou com uma ação na Justiça Federal contra o Ministério da Saúde por prevaricação, desqualificação do trabalho médico e solicitando a interrupção de veiculação de todo o material publicitário da campanha. Ver abaixo:

Aspimed entra com ação na Justiça contra o Ministério da Saúde.

Eis o que diz um dos trechos da ação: “o vídeo coloca em risco a segurança de profissionais da saúde em seus postos, podendo gerar tumulto, uma vez que não deixa claro que tipo de ações possam ser consideradas racistas“.

Esperamos que esta ação progrida e, finalmente, possamos encontrar uma definição para a Conduta Discriminatória ou “ações racistas”.

Sem esta definição, como foi solicitado na petição, não conseguiremos prevenir o racismo.

Se este objetivo for atingido neste processo, estaríamos encaminhando, também, uma definição do racista.

Prevenção em Medicina, sabemos, se consegue ao definir o agente causador do sofrimento humano. E como é sua ação.

Infelizmente nenhum grupo discriminado luta pela prevenção da discriminação da qual é vítima.

Até hoje, em nosso país, não conhecemos uma proposta que encaminhe a questão desta forma.

Portanto o nosso desejo é que a ação chegue a termo e leve a esta definição.

E que não haja acordo para continuar mantendo o racista invisível antes que atue de forma criminosa.

O racista já é racista antes de ser criminalizado.

Todos conhecem pessoas que agem como discriminadores e que não foram criminalizados.

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Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Médica diz: o Conselho Federal de Medicina não me representa.

 

Qual é a parte do racismo na saúde que o CFM não enxerga?

A saúde da população negra é um campo construído com subsídios da medicina baseada em evidências, de bases científicas irrefutáveis. Negá-la é ignorância científica!

Sou uma das sistematizadoras de tais saberes construídos fora da universidade, a muitas mãos, com o empenho de professores como Marco Antônio Zago, atual reitor da USP, e Elza Berquó, demógrafa da Unicamp e do Cebrap, como consta em meu livro “Saúde da População Negra no Brasil 2001” (Opas, www.twixar.me/Xm4).

A quase totalidade dos médicos brasileiros desconhece a saúde da população negra porque as faculdades de medicina não lhes ensinam (e por que não ensinam?). Num país racista, a categoria médica e as faculdades de medicina não são ilhas sem racismo.

É cruel esperar que a saúde esteja 100% em excelência de funcionamento para que profissionais da saúde se apropriem de tais saberes e das repercussões do racismo na saúde, como propugna o Conselho Federal de Medicina (CFM) em “Nota à Sociedade”, só porque o Código de Ética Médica diz que médico não pode discriminar. Hein… Hein…

Sou médica negra, formada na Universidade Federal do Maranhão em 1978. Pertenço a uma geração médica que tem no CFM a sua grande referência para fazer medicina. Pelo apreço ao CFM, no entrevero gerado pelo programa Mais Médicos, ao perceber que o conselho estava perdendo o eixo, conversei por telefone com o presidente Roberto D’Ávila, avaliando aquele momento político.

Sugeri que eram emergenciais para o CFM duas consultorias: uma de imagem e outra de mídia para se posicionar adequadamente no debate em curso. Ninguém em sã consciência é contra acesso real à atenção médica, e o CFM não conseguia dizer que não era contra o povo ter médico, mas contra a admissão de médicos estrangeiros à margem da lei!

Em comum com o CFM, defendo o Revalida, controle básico de qualidade científica, norma do governo. Reafirmo que o CFM quase nada fez contra a precarização do trabalho médico que o Estado brasileiro continua abençoando. Defendo uma carreira de Estado para médicos do SUS. Era preciso mais médicos? Era, e o Brasil não os possuía! Mas é imoral que o governo não dê solução à precarização do trabalho médico, como eu disse em “Os bastidores, a charlatanice e o escárnio da importação de médicos” (Portal do CFM, 14.6.2014, www.twixar.me/hm4).

O CFM caiu numa teia de confronto desnecessário com o governo e se perdeu, deixando de saldo o desabrochar de posturas conservadoras e até fascistas no meio médico, sobre as quais o governo também tem responsabilidades, pois criou uma peleja equivocada e abriu a caixa de Pandora, soltando os espíritos maus que se aninharam nas mentes que odeiam o PT. O governo tem poder, bastava tê-lo usado para trazer os médicos de que necessitava, sem rodeios e sem satanização da categoria médica nacional.

Mas o que está ruim sempre pode piorar, e o CFM, mais uma vez, “meteu os pés pelas mãos”, após a Campanha de Combate ao Racismo, lançada em 25.11.2014, sob a subjetiva alegação de um “tom” racista! Disse tudo: não conhece a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra (2009), e o “tom” deve ser uma subjetividade de quem assina a nota, da qual exijo ser excluída, pois diz falar em nome de mais de 400 mil médicos. O CFM não me representa quando nega o racismo insidioso e cotidiano nos serviços e nos profissionais de saúde porque falta com a verdade, segundo várias pesquisas sobre a temática! Como autarquia federal, o CFM perdeu o rumo. O que é muito grave.

Fonte: Jornal O Tempo
Por: Dra. Fátima Oliveira é médica e escritora.
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Médico branco racista e médica negra discriminada

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Uma “historinha” sobre falta de caráter, xenofobia e racismo de um médico idoso, que em nada difere de gente desprezível de outras profissões, pois o microcosmo das categorias profissionais é revelador das ideias dominantes numa sociedade de “racismo cordial”, onde ninguém se diz racista, só os outros são!

Na manhã de 1º de agosto passado, fui aos Correios do meu bairro com uma grande caixa para ser despachada. Como não havia lugar no balcão para a caixa de preciosidades para minha neta Clarinha, avisei a funcionária de que seria a próxima. Aguardei ao lado. Chegou a minha vez. Ao dizer: “Encomenda PAC”, um senhor todo pimpão, cabelos menos brancos que os meus, mas aparência de 70 e cacetada, fez de conta que eu não existia e entregou um envelope. Negra, aprendi a reagir quando fazem de conta que sou invisível.

Na maciota, mas firme, disse: “Senhor, é a minha vez! Estava na fila!”. E ele: “Isso aqui é rápido. É meu voto para o Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo. Sabe o que é isso?”. Eu: “Senhor, espere! Estou sendo atendida!”. Ele: “Desculpe-me, não a vi! Sou muito educado! Pode passar, madame! Nordestino não respeita fila!”.

E o muito educado foi esbravejar no fim da fila: “Esse povo do Nordeste nem sabe o que é fila. Lá não existe isso. Conheço essa gente do meu consultório de ajudar pobres ali na favela. Há muitos desses nordestinos lá que eu ajudo! Favela não, que esse nome é discriminação e tá errado, da comunidade da Barragem Santa Lúcia. Sou caridoso. Atendo de graça lá. Ora, não vou me trocar com qualquer uma, sou médico, sou rico!”.

Gargalhei e, com o sangue fervendo, detonei: “E moleque, safado, xenófobo e racista. E cale a boca: sou tão médica quanto o senhor, há quase 40 anos…”. Ele (mirando a negra que vos fala): “Será? Então sou médico há mais anos que você!”. Eu: “E daí? Tá pensando que medicina nasceu só para o senhor, que é branco e do Sudeste? Deixe de bestagem e de xenofobia. Vou chamar a polícia para o senhor deixar de ser safado. Suma daqui, seu moleque, se não quiser sair algemado. Chispa!”.

Assustadíssimo, tropeçou nos próprios pés e, tremendo como vara verde, saiu feito um azougue… “Já vai? Espera a polícia, quero ver tua riqueza te safar!”. Mas ele fugiu! O único temor foi de o sujeito ter ou simular uma “sapituca” e eu ter de socorrê-lo ali…

Quando um médico setentão diz o que disse, demonstra que há caráter de todo tipo em qualquer profissão. Não é surpresa que médicos jovens portem cartazes “sou médico, sou culto, sou rico”, que evidenciam uma faceta da desfaçatez reinante; nem é coisa de outro mundo, é daqui mesmo, a exibição do corredor polonês do banditismo do racismo ocorrido em Fortaleza, uma criminosa intimidação a médicos cubanos. E Juan Merquiades Duvergel Delgado, médico, negro, cubano, tirou de letra: passou por ele – eternizando numa foto, que ganhou o mundo, a naturalização e a banalização do racismo brasileiro! Aliás, o maior mérito da importação de médicos, que oficializa a precarização do trabalho médico – pois até o governo solapa direitos trabalhistas e ainda quer aplausos –, é comprovar a falta de vergonha de ser racista sem medos!

Negro no Brasil vive num corredor polonês racista. Mas só negros percebem e sentem, como o aceite ou a omissão diante de práticas racistas institucionais, a exemplo do engavetamento da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra, que não andou um milímetro em sua implementação no atual governo. “Pra quem sabe ler, um pingo é letra”.

Fonte: Jornal O Tempo
Por: Dra. Fátima Oliveira
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Maconha ou narcotráfico: o que é pior? E o aborto?

“Narcotráfico está rindo da repressão às drogas”, diz presidente do Uruguai.
Se continuarem respondendo ao narcotráfico pela via da repressão, os governos latino-americanos estarão cultivando “uma esplêndida derrota”.

É a opinião do presidente uruguaio José “Pepe” Mujica, 79, que, entre outras leis de cunho liberal, aprovou durante sua gestão a regulação da produção e do consumo da maconha. “Se você quer mudar uma situação, não pode seguir fazendo a mesma coisa, tem que buscar outro caminho. Eu não sei por que o mundo não vê o que está acontecendo.”

O partido de Mujica, a esquerdista Frente Ampla, é o favorito para vencer as eleições do próximo domingo no Uruguai, reconduzindo ao cargo o antecessor do presidente, o também líder socialista Tabaré Vázquez. As pesquisas apontam uma vitória do médico oncologista por 52% a 42%. O segundo colocado é Luis Lacalle Pou, do partido Nacional.

Mujica, que deixará o cargo em março, recebeu a Folha em seu sítio, em Rincón del Cerro, nos arredores de Montevidéu. “Balanço de governo? Não sou dono de armazém, não faço balanços, é preciso olhar para a frente”, disse, bem humorado, no banco do jardim da modesta casa em que vive com a mulher e os cães.

Leia, abaixo, os principais trechos da conversa.

Folha – Como avalia a implementação da lei da maconha no Uruguai?

José “Pepe” Mujica – Nós não gostamos da maconha nem de nenhum vício. Mas pior que a maconha é o narcotráfico. O que está acontecendo é que, pela via repressiva, o narcotráfico está se matando de rir. Cada vez se trafica mais, se gasta mais dinheiro em polícia, em colocar gente nas prisões. Estamos cultivando uma esplêndida derrota.

Todos os governos da América Latina, desde esse ponto de vista, parecemos estados falidos. Cada vez armamos aparatos maiores para reprimir, cada vez temos mais gente presa, e cada vez há mais tráfico de drogas!

Nós queremos achar um outro caminho. Se você quer mudar, não pode seguir fazendo a mesma coisa, tem que buscar outra maneira. Eu não sei por que o mundo não vê o que está acontecendo, parece que colocamos uma venda sobre os olhos, como se a droga fosse uma coisa feia que não se pode mencionar.

Mas, e o cigarro, é bom? Por que não proibimos o cigarro? Porque não podemos, se fizermos isso, o mercado clandestino vai ser atroz. Essas coisas precisam ser discutidas de modo mais sério.

[O pintor espanhol Francisco ]Goya [1746-1828] disse que pintava seus monstros sob efeito da droga. Claro, não quero dizer que se tomarmos droga vamos pintar como Goya [risos], mas quero dizer que há muito que isso existe.

A legalização parcial nos permite identificar os consumidores e assim aconselhá-los e tratá-los. Aqui, nós temos um problema de dose. Se eu tomo uns três copos de uísque por dia, talvez não me faça bem, mas é suportável. Se eu tomo um litro, vão ter de me internar. É isso que queremos identificar. Hoje, como está tudo no mundo clandestino, quando identificamos o problema, é tarde demais.

O sr. também considera positivo o saldo da legalização do aborto? Por que é um tema tão difícil de ser discutido em tantos países?

Existe uma tradição política no Uruguai de colocarmos os problemas sérios sobre a mesa, e não escondê-los. Aqui neste país, em 1914/15 [gestão do colorado Battle y Ordóñez], o Estado reconheceu a prostituição e fundou uma universidade feminina para que as famílias conservadoras se animassem a mandar suas filhas estudarem, entre outras coisas. Naquela época, se pensava que a sociedade ia dissolver-se se as mulheres fossem estudar. O Estado também nacionalizou o álcool, e durante 50 anos era o único a produzir aguardente.

Assim estamos encarando esse tema. Ninguém está a favor do aborto, mas por muitas razões as mulheres, sozinhas, ou com problemas, continuam realizando-o. Se as deixamos sozinhas, isoladas, é uma covardia, uma irresponsabilidade. Muito mais se ela é pobre.

Nós oferecemos o serviço, mas a primeira ação é tratar de dissuadi-la e de oferecer apoio. Assim salvamos mais vidas. Se as mulheres persistem em sua decisão, nós o realizamos, e assim lidamos melhor com os problemas que ocorrem se o aborto se faz de modo incorreto. Ou seja, há um custo humano menor.

Isso quer dizer que essa política dá resultado desde o ponto de vista do princípio da defesa da vida, exatamente ao contrário do que dizem os opositores. Quando deixamos o assunto do aborto no mundo clandestino, a única coisa que estamos fazendo é colocar em maior risco as mulheres. A deixamos sozinha. E isso é uma covardia, uma irresponsabilidade. Sobretudo nas famílias pobres. Creio que acontece por preconceito religioso. Mas o Uruguai é o país mais laico da América Latina.

O que funcionou e o que não funcionou, nesses dez anos de Frente Ampla?

Bom, as pessoas continuam tendo o péssimo vício de morrer, e não podemos consertar isso (risos). Mas, agora falando sério, o mais importante é que tínhamos 39% de pobreza há dez anos, e agora temos 11%. Tínhamos 5% de indigência, agora temos 0.5%.

Fizemos um avanço considerável nesse ponto, mas não foi o suficiente para eliminar a pobreza e a indigência num pequeno país rico em recursos naturais e que não tem justificativa de ser tão pobre nem indigente. Não chegamos aonde deveríamos ter chegado.

Também demos resposta parcial a problemas importantes do porvir. Desde o ponto de vista energético, o Uruguai terá, em dez ou 15 anos, solucionado problemas de energia elétrica. Vamos ter em excesso para vender aos vizinhos. Por outro lado, estamos atrasados em infraestrutura, porque a economia, o transporte e o movimento portuário cresceram muito e não fizemos investimento a altura que facilite o fluxo de mercadorias. Estamos atrasados nisso.

Como foi a conversa com Dilma, há duas semanas, em Brasília?

Nossa relação com o Brasil é muito boa, sobretudo com governo federal. Às vezes aparece algum obstáculo com um Estado, sempre acudimos ao governo federal.

Algum Estado específico?

Depende das estações [risos]. Mas o governo federal sempre nos ajuda. Nossa preocupação é o que vai acontecer, quais são as perspectivas da discussão que temos com a Europa com relação a tratados de comércio.

Me preocupam os anúncios de acordos que os países do Pacífico estão fazendo na Ásia. Desde que falei com Dilma, China acertou um acordo importante com certos países da região eagora temos que nos posicionar frente a isso.

Minha preocupação é que aqui há um jogo de grandes potências que não podemos ignorar. Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia, nós temos um comprador cada vez mais forte que é a China. Se qualquer acordo que se faça desde essa costa do Pacífico ameace isolar a China, para nós será um problema difícil de resolver. Porque, sinceramente, não creio que os EUA vão comprar soja do Brasil nem de nós, por exemplo. Já não podemos renunciar à China, e por outro lado precisamos aumentar nossas relações de mercado. Temos um problema.

As medidas protecionistas de Brasil e Argentina prejudicam o Mercosul?

O Brasil sempre nos dá um lugar. A Argentina é mais esquemática. O Brasil é protecionista com o resto do mundo, mas não tanto conosco, com os integrantes do Mercosul. Já a Argentina é protecionista para todos. Por outro lado, a Argentina está passando por uma conjuntura econômica difícil.

E eu não concordo com essa análise apocalíptica de que a Argentina vai se derrubar. Eu fiquei velho ouvindo essa análise e a Argentina segue. No mundo, é preciso ter duas economias. Uma para o resto do mundo. E outra para a Argentina. É um país muito rico, de repente arranca. Sempre foi assim.

O baixo crescimento de Brasil e Argentina neste ano preocupam o Uruguai?

Preocupam, mas nós estamos com margem de flexibilidade para respirar. Por exemplo, nós procuramos ter um acordo especial em um setor, o de lácteos, com a China. É um setor chave de nossa economia e precisamos da compreensão dos vizinhos grandes, para que ajustemos uma esquininha da nossa economia. Não vamos prejudicar o Mercosul.

O que explica a longevidade de projetos políticos como a Frente Ampla, o PT (Brasil), a Alianza País (Equador), o MAS (Bolívia)?

Significa que as maiorias estão comendo melhor e dormindo melhor. Por isso votam neles. É uma resposta muito lógica. E o que mudará no dia em que nós, forças progressistas, dermos as costas a nossa razão de ser, a lutar por sociedades mais equilibradas, o dia em que fracassemos nisso, a história vai mudar, e as pessoas vão votar em outra coisa.

O que o sr. acha da reeleição?

Não gosto e sempre me opus. Não pelo presidente, mas sim pela corte a seu redor. Não sou reeleicionista porque os presidentes emanam uma atmosfera de poder. E abaixo dessa atmosfera se cultiva um afã de poder e de estabilidade das pessoas que compõem o governo. É bom varrer, passar a vassoura colocar outros.

O sr. é um defensor dos partidos.

Sim, o partido é algo muito mais coletivo, por isso não simpatizo com os “outsiders” da política. Os partidos têm muitos defeitos, mas por enquanto é a melhor ferramenta que temos para decidir a marcha de um país.

Sempre terão a vantagem de ser um coletivo. O presidente pesa muito, claro.

Mas se tem atrás um partido, tem um elemento de sobrepeso, de controle.

Creio que qualquer construção política precisa de mais prazo, tempo e vai além da vida ativa que pode ter uma pessoa, um personagem forte. Os personagens passam, as causas ficam. Por isso, me parece mais lógico que tenhamos um partido que nos suceda e não nomes próprios que nos sucedam.

Essa é a razão pela qual surgiram as repúblicas. As repúblicas foram um grito negando a monarquia e o direito de sangue feudal, e vieram ao mundo para proclamar que homens e mulheres somos basicamente iguais. Portanto, quando escolhemos um presidente, escolhemos um administrador, não um rei, não um monarca.

É bom que exista uma força coletiva que o respalde, mas que também que o contenha.

O que o sr. acha do fato de sua vida humilde ter ganhado tanta projeção internacional?

Me entristece. Porque nas repúblicas, em última instância, as decisões fundamentais são da maioria. E portanto, os governantes devemos responder às maiorias, não às minorias.

Se minha forma de vida for a forma de vida dos círculos economicamente privilegiados de meu país, não tenha dúvida de que minha forma de viver não está de acordo com a forma de viver da maioria do meu país.

Eu vivo como vive a imensa maioria do povo uruguaio. Eu não tenho a culpa se outros governantes, sem dar-se conta parece, mudam de quadro. Eu não mudei de quadro, pertenço a uma determinada classe social, represento essa classe social, tenho seus valores.

Por outro lado, pessoalmente, luto pela liberdade. E o que isso significa do ponto de vista pessoal? Ter tempo. Ter tempo para as coisas de que gosto. Se tenho uma vida muito complicada, muitas casas, muitos empregados, muitos carros, muito chofer, muita segurança, então vivo gastando tempo para atender a todas essas coisas. E eu quero uma vida sóbria, não pobre, com o imprescindível e necessário para que me sobre tempo para fazer as coisas de que gosto. Sou presidente porque sou um lutador social. Amanhã não serei presidente, mas enquanto os ossos me respondam, vou seguir lutando, assim até o caixão, não me aposento.

Como tenho minha vida comprometida, preciso do maior tempo da minha vida dedicado a isso. Isso pode surpreender, mas não é improvisado. É largamente pensado. Tenho um discurso de mais de 30 anos, de quando saí da cadeia, em que mais ou menos disse essas coisas que te estou dizendo agora.

O sr. vê no que faz hoje uma continuidade com sua atuação como guerrilheiro?

Em termos de objetivos, sim. De lutar para tentar conformar uma sociedade mais justa. Quando éramos mais jovens, éramos mais ingênuos. Pensávamos que podíamos mudar o mundo. Na medida em que fomos envelhecendo, o objetivo de justiça e equidade segue sendo o mesmo, mas nos damos conta de que o caminho é muito mais longo e mais difícil.

Não podemos mudar o mundo, mas sim melhorar um pouquinho o bairro onde vivemos. Depois virão outros, e outros e outros.

O sr. se arrepende da opção pela luta armada?

Cada coisa tem seu tempo. A América era outra América, o mundo era outro mundo. E éramos funcionais à época em que vivíamos. Hoje sou um pacifista extremo. Porque antes podíamos pensar que havia guerras justas e injustas. Hoje, quando contemplamos os fatos, sabemos que todas as guerras são injustas, porque os que pagam o maior preço, sem ter nada que ver com a guerra, são os mais humildes.

Em todas as partes da Terra é preciso lutar para diminuir os conflitos. Ainda que isso suponha andar muito mais devagar.

No Brasil, estamos a vésperas da entrega do relatório da Comissão da Verdade. Como o sr. vê a diferença com que Brasil, Argentina e Uruguai encaram o assunto? A Argentina está julgando amplamente, o Uruguai julgou parte, no Brasil, é difícil que caia a Lei de Anistia.

A ditadura argentina teve um grau de violência e de abusos que deixou provas contundentes por todos os lados. A ditadura uruguaia não escreveu tantos papéis. É um país mais pequeno e os que têm as fontes da verdade as guardam. E não podemos torturá-los. Na Argentina, teriam guardado, mas como cometeram muitos abusos, há provas por todos os lados. Nós condenamos àqueles sobre quem tínhamos provas. E não podemos condenar a quem não temos prova, também não podemos torturar. Nem inventar evidências.

Somos prisioneiros de nossa própria tradição institucional, essa é a diferença. O Brasil teve seu processo, acho que cada sociedade faz o que pode. Admiro o que fez a África do Sul. Tomara que a Colômbia possa beber dessa fonte. Porque ter 50 anos de conflito armado e depois colocar-se a fazer Justiça aí, pode não acabar nunca. Foi muito inteligente o que fez a África do Sul, a confissão social dos que tinham alguma responsabilidade eximia de culpa jurídica, mas se assumia a culpa social. É de uma maturidade notável para uma sociedade.

Mas nós seguimos investigando, buscando desaparecidos, analisando DNA, e de vez em quando encontramos algo.

O sr. pensa naqueles que o torturaram?

Não, eu não cultivo isso. Não me dedico a viver escravizado, nem pela Justiça nem pelo ódio, porque minha vida segue adiante, mas reconheço que sou bastante excepcional, sou um lutador social e um lutador político.

Aqueles que me torturaram e me detiveram encarcerado, se não fossem eles, teriam sido outros. Eles estavam cumprindo uma função de poder reacionário nesse momento. Não posso me agarrar a isso até a morte. E não posso tentar ganhar a um torturador. Tento ganhar a família, os filhos, todo o mundo que o rodeia.

Se apareço com uma cara vingadora, para ajustar velhas contas, não vou estar em condições de ganhar politicamente o que vem adiante. Em minha luta política adoto a tática mais conveniente para avançar no porvir.

Mas reconheço que tem gente que não vê essas coisas politicamente e pensam de uma forma diferente. Aspiro para que, no futuro, existam oficiais e soldados das Forças Armadas que pertencem às minhas filas, para que pensem parecido a como eu penso. E trabalho para isso no longo prazo.

Mas isso não significa que eu me esqueça do que aconteceu comigo. Há coisas que não podemos esquecer, mas temos que carregar na mochila e aprender a andar com elas.

Fonte: Folha de São Paulo em 26/11/2014

Psicanálise, discriminação, publicidade e saúde mental

O psicanalista Jorge Bruce
O psicanalista Jorge Bruce

Apresentaremos entrevista com Jorge Bruce, psicólogo e psicoanalista.

As descrições são basicamente do Peru, seu país de origem.

Mas poderíamos encontrar muitas delas aqui no Brasil.

Objetivo: divulgar melhor a questão da Conduta Discriminatória como uma questão de Saúde Mental.

Quanto ao entendimento/compreensão das questões emocionais, pensamos que valem para qualquer local.

Jorge Bruce esteve em Porto Alegre para participar do evento abaixo:

http://www.aprs.org.br/agenda/icalrepeat.detail/2014/11/22/132/63/forum-interdisciplinar-de-discussao-sobre-a-maldade-a-etica-e-a-corrupcao-no-cotidiano

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta

Cartel de médicos é prejudicial à saúde

Gesner Oliveira, Roland Saldanha, Paolo Mazzucato e Marcela Altale: Cartel é prejudicial à saúde

O uso de cooperativas como disfarce para a organização de cartéis de médicos especialistas tem elevado os custos do SUS (Sistema Único de Saúde) e dos convênios médicos.

São muitas as vantagens do cooperativismo, mas elas degeneram em malefícios sociais quando a função principal dessas organizações for a de aglutinar médicos atuantes em certas regiões para impor honorários ou condições comerciais.

Nesse caso há uma transfiguração: cooperativas viram cartéis, tornando os serviços mais caros, escassos e de menor qualidade.

Alega-se que a criação de cartéis de médicos especialistas seria boa para compensar o poder de mercado das operadoras de saúde. Não é o caso. O grupo que tradicionalmente contrata médicos é amplo e desconcentrado: em setembro de 2014, 1.437 operadoras privadas –das quais 102 com mais de 100 mil beneficiários– e o SUS precisaram de médicos para honrar suas obrigações contratuais ou constitucionais.
Dada a conhecida escassez de médicos no país, o que existe é uma fragilização da negociação daqueles que demandam o serviço.

Recomendar redução na concorrência para tratar eventuais abusos competitivos é uma solução pouco racional, especialmente porque as dosagens e seus efeitos colaterais são pouco estudadas. Decisões recentes do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) confirmam a rejeição do argumento do poder compensatório na defesa de conluios médicos.

Planos mais caros induzem a redução de demanda pelos beneficiários mais jovens, saudáveis ou de menor renda. Sobrecarrega-se ainda mais o SUS e, no segmento privado, deteriora-se o perfil de risco da carteira e os custos das apólices, com pressão para novos reajustes nas mensalidades.

A maioria das cooperativas de especialidades condenadas por prática de cartel pelo Cade se localiza em capitais e no Distrito Federal. A elevação artificial dos honorários em poucas regiões desestimula o deslocamento de médicos a regiões menos densamente povoadas do país. Sob a sombra cooperativa, a oferta de especialistas pode se concentrar nos grandes centros urbanos sem forçar a queda de honorários.

Por mais polêmico que seja, ninguém discordaria do objetivo do programa Mais Médicos de assegurar uma oferta adequada de profissionais nas diferentes regiões. No entanto, um dos efeitos dos cartéis de especialidades é concentrar geograficamente a atuação dos especialistas, deixando as áreas recônditas carentes de médicos.

É difícil imaginar uma profissão mais nobre e importante para o bem-estar das pessoas do que a do médico. Nada mais justo do que reivindicar honorários e condições adequadas de trabalho.

É igualmente oportuno difundir a cultura da concorrência entre a classe médica. Isso, porém, não deve ser feito mediante a prática ilegal de cartéis, que beneficia algumas especialidades em detrimento do conjunto da sociedade.

O cartel é prejudicial à saúde.

GESNER OLIVEIRA, 58, ex-presidente do Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica (governo FHC), é professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas
ROLAND SALDANHA, 46, é chefe do departamento de economia da PUC-SP
PAOLO MAZZUCATO, 37, é presidente da Comissão Permanente de Estudos de Direito da Concorrência e Regulação Econômica da OAB-MG
MARCELA ALTALE, 28, advogada, é mestranda em direito do Estado pela USP

Fonte: Folha de São Paulo – Opinião – 13/11/14

Texto correlato:

O neuropsiquiatra e o ditador

Políticos e partidos usam grupos discriminados para fins eleitorais?

O texto gira em torno do (mau) uso eleitoral das Discriminações por políticos e partidos.

As Discriminações enfocadas por nós são as que o discriminador pode ser criminalizado ou passível de criminalização:

O racista, o machista, o homofóbico, o antissemita, etc.

O advogado e militante político português João Lemos Esteves publicou em 29/10/2014:
PS: O Partido que é adversário da igualdade dos gays! – Sol

Em que aparece mais um obstáculo para o avanço do combate aos discriminadores, no caso em Portugal

Nosso maior interesse está na idéia que permeia as seguintes frases da matéria (integralmente copiada abaixo):

“É que o Partido Socialista não quer defender os direitos dos homossexuais – os socialistas pretendem, apenas, utilizar os homossexuais como arma de arremesso político.”
“…o que os socialistas fazem aos nossos concidadãos homossexuais: a utilizá-los como meios para os seus objectivos políticos.”
“…porquê tratar diferentemente os homossexuais? Só porque o PS acha que vai buscar alguns votos?).” 

Nos links abaixo já publicamos nossa opinião sobre algumas dificuldades para combater as Discriminações aqui no Brasil.

Não temos previsão de avançar no combate ao racismo
Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.
A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações
A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.

Até agora não tínhamos abordado, aqui no blog, esta possibilidade aventada pelo professor João Lemos.
Você conhece político ou partido, em função legislativa ou executiva, na esfera municipal, estadual ou federal que utiliza um grupo discriminado para fins eleitorais?
E de que maneira percebeu ou observou esta ação?
Já viu alguma denúncia com esse conteúdo?
Pensa que esse tipo de ocorrência deve ser comentada/denunciada aqui no Brasil?

PS: O Partido que é adversário da Igualdade dos gays!
 
1.    Um grupo de Deputados socialistas propôs que o dia 17 de Maio se tornasse o Dia Nacional contra a Homofobia. Porquê este dia? Porque foi precisamente no dia 17 de Maio de 1990 que a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças: até então, a homossexualidade era classificada como uma patologia mental/psiquiátrica.
2.    Pois bem, a Deputada Isabel Moreira – que muito estimamos e por quem temos uma elevadíssima consideração pessoal e intelectual – lá se lembrou de trazer novamente a homossexualidade para a agenda política. Note-se que não escrevemos “ Isabel Moreira voltou a trazer para a agenda política o tema da defesa dos direitos dos homossexuais”. Propositadamente. É que o Partido Socialista não quer defender os direitos dos homossexuais – os socialistas pretendem, apenas, utilizar os homossexuais como arma de arremesso político. 

3.    Para nós, qualquer forma de discriminação – quer seja fundada no sexo, na idade, na raça ou na orientação sexual – é um acto abjecto. Que nos repugna profundamente. Que nos revolta – como qualquer acto cobarde, a discriminação funda-se num sentimento de pretensa superioridade, apenas e só pelo facto de o indivíduo se integrar num grupo considerado como “padrão” num dado meio social. Como qualquer acto cobarde, a discriminação dos cidadãos homossexuais só deixa ficar mal quem a pratica. Urge, pois, lutar contra todas e qualquer forma de discriminação. Lutar contra a exclusão de qualquer cidadão da sociedade, contra a privação imposta a qualquer cidadão do exercício dos direitos que lhes são legal e constitucionalmente conferidos, contra a negação do direito de todos a nós, como ficou para a eternidade expresso na Declaração da Independência dessa enorme Nação Livre que é os Estados Unidos da América, de perseguir a felicidade pessoal – são imperativos categóricos dos defensores (como nós) intransigentes do Estado de Direito Democrático. 

4.    E como poderemos lutar contra a estigmatização dos cidadãos homossexuais? Através da prática, constante e diária, da tolerância, do respeito, de mostrar que não há diferenças na dignidade dos cidadãos. Todos os seres humanos são dotados da mesma dignidade. O PS não respeita o princípio da dignidade da pessoa humana! 

5.    O Partido Socialista faz precisamente o contrário. Ao propor a criação de um Dia Nacional contra a Homofobia, e ao fazer da sua criação um pretexto para a discussão e luta política, o Partido Socialista não trata os homossexuais como ser iguais, dotados da mesma dignidade, relativizando as diferenças entre seres humanos. Pelo contrário: os socialistas lembram que os cidadãos homossexuais são diferentes, são uma “categoria social” à parte, com limitações e restrições à sua capacidade jurídica e de autodeterminação. Consequência: os socialistas só perpetuam as diferenças e a estigmatização. O PS parece querer fazer subsistir (por muitos e longos anos) a ideia dos homossexuais como coitadinhos, como dotados de uma capitis diminutio, que merecem protecção especial. Porquê? 

6.    Por uma razão muito simples: a manutenção dos homossexuais como cidadãos a carecer de protecção é muito conveniente para o PS. Quando os socialistas não têm iniciativa política, quando não sabem o que propor quanto aos grandes temas que preocupam os portugueses – vai daí e recorrem ao cliché dos direitos dos homossexuais. É sempre o mesmo filme!

7.    Ora, esta postura dos socialistas viola o princípio da dignidade da pessoa humana: converte os cidadãos homossexuais em verdadeiras “marionetas”, instrumentos ou “muletas” das estratégias políticas do PS. O PS quer desviar as atenções do vazio programático de António Costa – e, para conseguir preservar o silêncio de Costa, os socialistas utilizam o “tema fracturante” (como os socialistas qualificam) dos homossexuais. Hoje é o Dia Nacional – amanhã, o que será? 

8.    Alguém deve recordar aos socialistas que todos os seres humanos são fins em si mesmos – não podem ser tratados como objectos, como meios para atingir certos fins. Não podemos ficar calados perante o que os socialistas fazem aos nossos concidadãos homossexuais: a utilizá-los como meios para os seus objectivos políticos. Triste. Muito triste. Lamentável. 

9.    Enfim, importa reter – e lembrar todos os dias – que os cidadãos homossexuais são indivíduos dotados de plena autonomia ética, que não precisam que certos partidos políticos interfiram a toda a hora na sua esfera privada. Que o Estado os considere como seres incapazes, que necessitam de protecção especial – a solução, para acabar com a discriminação, é precisamente a inversa. Os homossexuais são tão cidadãos como qualquer um de nós – há, pois, que deixá-los viver normalmente. Sem dias nacionais do homossexual (tanto quanto sabemos, não existe nenhum dia nacional do heterossexual: porquê tratar diferentemente os homossexuais? Só porque o PS acha que vai buscar alguns votos?). 

10.    Só mesmo um partido irresponsável, sem consciência social e humana como é o PS, é que propõe a criação de um Dia Nacional para defender os homossexuais – com a mesma leviandade com que se propõe o Dia nacional do gato ou o Dia Nacional da Árvore e da Floresta. Os homossexuais merecem mais – muito mais! – consideração. E respeito. 

Telmo Kiguel

Médico Psiquiatra

Psicoterapeuta

Mulheres e drogas: relações pessoais, sociais e tratamento.

Mulheres e Drogas. Confira as recomendações da ABEAD para o tratamento resolutivo 

 

Alessandra Diehl e Selene Barreto, Analice Gigliotti, José Mauro Braz, Luís Guilherme, Maria Ângela Madeira Ribeiro, Ana Cristina de Melo, Ana Carolina Schmidt, Thais Simões, Margarida Inocência Constâncio, Ana Cecilia Petta Roselli Marques

Os dois levantamentos nacionais recentes sobre Álcool e Drogas (I e II LENAD, 2006; 2013) mostraram que 29% e 39% das mulheres ingerem bebida alcoólica frequentemente no Brasil, respectivamente. O padrão de consumo em binge (quatro ou mais doses em um intervalo mínimo de duas horas, semanalmente ou mais), aumentou 36% entre as mulheres, especialmente entre as mais jovens, muito maior que aquele encontrado entre homens. Em relação ao tipo de bebida alcoólica mais consumida, a cerveja é a mais consumida pelos dois gêneros em todo o país. Porém, mulheres consomem mais vinho em relação aos homens, mais drogas lícitas, principalmente anfetamínicos e benzodiazepínicos, hoje um dos países que mais consome clonazepam no mundo (CARLINI et al., 2006; NAPPO et al., 1998; NOTTO et al., 2002; INCB, 2009).

Vulnerabilidades Físicas, Biológicas e Genéticas

Apesar das taxas de consumo de substâncias de abuso entre as mulheres se aproximarem cada vez mais dos homens, elas ainda bebem menos, mas adoecem mais cedo e de forma mais grave – o efeito telescópico (ZILBERMAN et al., 2003; LARANJEIRA et al., 2011; DAVIS, 1998). Algumas diferenças entre os gêneros podem ser relacionadas ao fenômeno, como o menor volume de água corporal, o aumento da razão corporal gordura/água, a menor quantidade da enzima álcool-desidrogenase, responsável pelo metabolismo do álcool no estômago, e a interface do álcool com os hormônios femininos (estrógenos e progesteronas), que aumenta o dano hepático (GIGLIOTTI et al., 2007; KANDALL,2010).

Os estudos genéticos sobre alcoolismo envolvendo gêmeos monozigóticos mostraram maior influência genética nos homens do que nas mulheres, com hereditariedade estimada em 11% para mulheres (TUCHMAN, 2010; Hesselbrock et al., 2013). Usuárias de drogas ilícitas são mais prováveis de apresentarem uma família mais disfuncional e falta de modelos parentais de identificação do que seus companheiros homens em tratamento (GUIMARAES et al., 2009).

Vulnerabilidades Psicológicas e Psiquiátricas

O início do uso entre mulheres tem sido associado a um mecanismo de enfrentamento da timidez, da ansiedade, de baixa autoestima (ZILBERMAN et al., 2003a). Meninas adolescentes estão sob a influência da mídia em relação ao álcool, tabaco e anorexígenos, que associam o consumo à beleza, riqueza e sucesso profissional (NAPPO et al., 2002; BRAILIANO et al., 2005).

Os transtornos psiquiátricos tendem a ser a morbidade primária e a dependência, a secundária, ao contrário dos homens (ELBREDER et al.,2008; KANDALL,2010; ZILBERMAN,TAVARES, BLUME, 2003). O consumo de álcool e drogas também se encontra mais associado à comorbidades psiquiátricas como os transtornos do humor (mania e depressão), de ansiedade (pânico, fobias e transtorno do estresse pós traumático) e transtorno de personalidade borderline, um preditor de pior desfecho nos tratamentos (ZILBERMAN et al., 2003b).

Vulnerabilidades Sociais e Culturais

Apesar das conquistas das mulheres em relação à sua emancipação, ainda sofrem com a desvantagem social devido a uma cultura ainda muito preconceituosa e discriminatória: “a mulher não pode se embriagar”. Falta de apoio do cônjuge para o início de um tratamento e o sistema de saúde carece de serviços especializados (BRAILIANO et al., 2006; OLIVEIRA et al., 2005; ALMEIDA et al., 2009; ROSA, 2008). Assim, buscam menos o tratamento, fazem segredo sobre ele, os estudos científicos são raros, e o medo em relação à perda de seu papel de mãe e esposa é frequente (ZILBERMAN et al., 2003a; ZILBERMAN et al., 2003b).

O I Levantamento Nacional do Consumo de Álcool na população Brasileira (I LENAD, 2006) mostrou que os homens consumiam álcool em 38,1% dos casos de violência entre parceiros íntimos (VPI) e as mulheres em 9,2%. Com relação à percepção de consumo de álcool pelo companheiro/a, o homem informou consumo de álcool pela parceira em 30,8% dos episódios de VPI, e a mulher informou que o seu parceiro ingeriu álcool em 44,6% desses episódios (ZALESKI, 2009).

A relação de gênero, violência doméstica e drogas é bem estreita (FONSECA, 2009; RABELLO et al., 2007). Cerca de 43.1% das mulheres brasileiras já sofreram violência doméstica, versus 12.3% dos homens (ALMEIDA et al., 2009). O uso de álcool tem relação com agressão/violência sexual dirigida a parceiros íntimos, cujos agressores homens que relataram níveis baixos de pleno estado de consciência durante o episódio. No caso das mulheres dependentes de álcool e outras drogas estudos mostram que muitas se relacionam com homens também usuários, aumentando o risco de conflitos e violência, podendo muitas vezes o próprio cônjuge ser o fornecedor da droga, ou utilizar a mulher como moeda de troca com traficantes ou ainda, os cônjuges e outros familiares muitas vezes não toleram a condição de dependência da mulher e as agridem (ALMEIDA et al.,2009; CAMPOS et al., 2010).

Pesquisas com profissionais do sexo revelam que um dos principais motivos do consumo de drogas é a emoção/situação negativa vivenciada na prática da profissão (BUNGAY et al., 2010; DEERING et al., 2011). No caso de usuárias que inicialmente não se prostituíam, a troca de sexo pela droga se tornou uma estratégia para obtenção da substância (SILVA, 2000). Verifica-se a expansão do consumo de crack entre profissionais do sexo justificado pelo fácil acesso e baixo custo da droga, pela aceitação da troca do sexo pela droga, e pela preferência de clientes usuários de substâncias (OLIVEIRA et al., 2007; NAPPO et al.,2011).

Vulnerabilidades durante a gestação

Qualquer consumo de droga durante a gestação, principalmente no primeiro trimestre, pode causar alguma alteração na formação do feto, provocando diferentes graus de lesões, abortos espontâneos ou mortalidade perinatal, pois tais substâncias atravessam todas as barreiras biológicas, como a placenta (vulnerabilidade fetal) (LIMA, 2008; LIMA, 2013).  O álcool e o tabaco são as drogas lícitas que mais estão associadas às malformações orgânicas, principalmente, as neurológicas (cerebrais), como por exemplo, a Síndrome Alcóolica Fetal (SAF). Segundo dados de estudos americanos e europeus, a incidência de SAF varia entre 2 e 10 casos por 1.000 (mil) nascimentos vivos (LIMA, 2013, LIMA, 2018). A situação no Brasil é preocupante, levando-se em conta que a cada ano surgem cerca de 3 milhões de mulheres grávidas no país, e que pelo aumento constante do número de consumidores de bebidas alcoólicas, e utilizando a incidência esperada, surgem no Brasil a cada ano, cerca de 30 mil casos de SAF (LIMA, 2008; LIMA, 2013).

Aspectos Relacionados à Sexualidade

Na sexualidade da mulher usuária de álcool e outras drogas há de se considerar ainda dois outros aspectos importantes: o aumento do número de parcerias sexuais sem proteção, e consequentemente, infecções pelo vírus HIV, gestação não desejada, principalmente entre adolescentes, trazendo um imenso ônus psicossocial tanto para meninos quanto para meninas (SANTORO & LOPES, 2013; NAPOLI et al., 2010; SANCHEZ et al., 2013). Gestantes usuárias de drogas têm prevalência de comportamentos de risco específico e o risco adicional de transmissão perinatal do HIV (NAPPO et al., 2011; NAPPO et al., 2001; BRASILIANO et al., 2006).

A prevalência de 34.2% sintomas de disfunção sexual em uma amostra nacional de mulheres com doença relacionada com a substância psicoativa foi comum e comparável a outros estudos relatados em todo o mundo, que relataram taxas de prevalência de sintomas de disfunção sexual feminina de 12-63%. (DIEHL et al., 2013). Apesar de que a disfunção sexual feminina foi investigada em grupos de mulheres com vários problemas de saúde (síndrome dos ovários policísticos, diabetes, HIV e câncer de mama), as mulheres com transtorno por uso de substâncias representam uma população única para fatores de vulnerabilidade e que continua a sofrer das baixas taxas de detecção e acesso limitado ao tratamento para questões relacionadas as disfunções sexuais (DIEHL et al., 2013). Com relação a orientação homoafetiva em mulheres cabe mencionar que várias pesquisas têm mostrado que lésbicas estão sob risco elevado para o beber nocivo ou perigoso, são menos prováveis de se manterem abstinentes do álcool e entrar em processo de recuperação comparada às mulheres heterossexuais, assim como, menos prováveis de diminuir o consumo de álcool quando envelhecem e mais propensas a apresentarem problemas relacionados ao consumo desta substância (DIEHL, 2010).

Tratamento

Levando em consideração as características específicas associadas às mulheres e sabendo que buscam menos ajuda para as questões relacionadas às drogas, espera-se que na elaboração de políticas preventivas e assistenciais se observe as seguintes recomendações (ASHLEY et al., 2003; GREENFILD et al., 2007; DIEHL et al., 2012; BRASILIANO et al., 2006; LIMA, 2013):

  1. Treinamento de equipes multidisciplinares de saúde e educação para abordagens específicas;
  1. Prevenção voltada às meninas na educação Infantil e Fundamental e na comunidade;
  1. A adoção de equipe feminina, pois facilita a identificação positiva (“female role models”);
  1. A realização da detecção precoce nos serviços de atenção primária à saúde, tanto nos programas de Ginecologia, como de Obstetrícia (pré-natal) e Psiquiatria;
  2. A Assistência deve incluir nos programas as necessidade das mulheres como os temas de economia doméstica, relacionamento familiar, entre outros, e preparar-se para o cuidado dos filhos;
  3. Incluir nos recursos ligados à assistência, o suporte jurídico e social;
  4. Não existe nenhuma terapêutica específica para a SAF, mas a criança afetada e sua família necessitam de: intervenção precoce e seguimento aprofundado no pré-natal, antes dos seis anos de idade; estabilização da família; orientação contínua para a manutenção de ambiente estável (sem interrupção do acompanhamento com mudanças de residência), a monitoração do abuso sexual e/ou violência física;

Referências

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DAVIS, S. Effects of chemical dependency in parenting women. In: Watson RR.(ed.) Addictive behaviors in women. New Jersey: Humana Press; 1994.

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Fonte: ABEAD – Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas

Podemos gastar menos em Saúde e melhorar a saúde da população?

Desigualdade, prioridades e política

Não Por Acaso. Existe uma lógica

No ano de 1981 participei na Universidade de Sussex, na Inglaterra , de um curso com o título “Saúde para Todos, Políticas e Planejamento”, juntamente com outros brasileiros e representantes de países africanos, todos ligados ao setor saúde. O enfoque do curso era o da importância da identificação de desigualdades sociais capazes de determinar diferentes situações de saúde em uma mesma região. Usam-se indicadores para auxiliar na identificação de problemas sociais e de saúde e sabe-se que esses problemas não se distribuem uniformemente por toda uma determinada população, mas que há regiões, onde os problemas são mais intensos que em outras e que existem grupos populacionais onde são mais graves ou ocorrem com maior frequência que em outros. Uma vez conhecidas essas populações socialmente deprimidas, elas devem ser consideradas prioritárias para o desenvolvimento das ações sociais pontuais, necessárias. A identificação das prioridades implicará reconhecer maior importância àquele fato do que a outros. Priorizar significa creditar maior importância a determinados problemas que a outros.

No retorno do curso procurei aplicar os conhecimentos lá adquiridos em companhia do José Guimarães, amigo e colega na Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul. O objetivo era o de determinar desigualdades na mortalidade infantil. Um mapa da cidade foi utilizado, (nem pensar em computadores ou geoprocessamento naqueles tempos), e manualmente, os óbitos de menores de um ano foram localizados, de acordo com o endereço dos pais, em áreas consideradas como favelas, ou não favelas.[1] Os resultados mostraram numericamente, o que de certa forma se esperava: uma incrível diferença entre a probabilidade de morrer sendo morador de uma favela, em comparação com outras áreas da cidade. Posteriormente, calculou-se o risco que isso implicava.[2] Nos próximos anos outros estudos, geralmente acadêmicos, inclusive mais aprofundados seriam realizados em diversas regiões do país. O nosso trabalho foi por muitos, considerado como pioneiro na identificação de desigualdades no setor saúde, no Brasil.

No entanto, mais importante que o diagnóstico é caracterizá-lo como prioridade política, pois para o desencadeamento das ações decorrentes da identificação dos problemas será necessária a destinação dos recursos financeiros. A prioridade tem de sair do discurso e significar aplicação de recursos. Durante anos vivi com a esperança que o Brasil pudesse determinar uma política de atuação sobre os grupos menos privilegiados. Destinar mais recursos a quem mais necessita. Pois, a partir de 2003 isso ocorreu. Os programas de inclusão social, como o Bolsa-Família (BF), ao beneficiarem as populações mais desfavorecidas, melhoraram as condições alimentares das famílias pobres, permitiram a permanência de seus filhos na escola, colocaram a moeda corrente em circulação, aumentando as vendas no comércio, gerando mais impostos e, indiretamente melhorando os indicadores sociais e de saúde. A grande maioria dessas pessoas vivia em áreas deprimidas, como aquelas que, lá na década de 1980 identifiquei como faveladas. Agora transformadas em prioridade. Além do que, o BF não é um simples programa de transferência de renda. Visa a estabelecer parcerias com órgãos e instituições municipais, estaduais e federais, governamentais e não-governamentais, para oferta de programas sociais complementares, com vistas a criar meios e condições de promover a emancipação das famílias beneficiárias.

Exemplo disso é a autonomia conquistada por quatro mil famílias que dependiam do BF, no Rio Grande do Sul[3]. E milhares de outras em todo o território nacional.

Poderia me alongar trazendo outros exemplos de políticas sociais e educacionais prioritárias como o Pronatec, o Prouni e o “ Mais Médicos”. Comento algo sobre esse último: motivou-nos a criar esse site, em sua defesa, pois entendemos que a presença de médicos nos locais mais afastados, onde, na maioria dos casos, a população a eles não tinha acesso, caracteriza uma política de saúde que vai ao encontro das reais necessidades de atenção à saúde.

Sendo assim, fico surpreso com o levantamento de críticas e contrariedades a tais iniciativas. Ao notar que a população apoia essas medidas, um candidato, antes crítico do “Bolsa-Família”, agora reivindica como sendo do governo de seu partido a autoria do Programa.

Muitos anos foram necessários para que os diagnósticos de problemas sociais e de saúde das populações mais pobres contribuíssem para decisão política de transformá-los em prioridades. Hoje são realidade. Não por acaso.

[1] http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=35513&indexSearch=ID

[2]http://www.revistas.usp.br/rsp/article/viewFile/23353/25382

[3] http://www.sul21.com.br/jornal/quatro-mil-familias-conquistam-autonomia-e-abrem-mao-do-bolsa-familia-e-rs-mais-igual/


Airton Fischmann
Médico especialista e mestre em Saúde Pública pela USP.
Ex consultor da Organização Panamericana de Saúde.
Médico aposentado da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul

Reproduzido do blog Imagem Política

A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.

Prezado professor Douglas Belchior

Sou seu leitor e temos objetivos em comum: o enfrentamento das Condutas Discriminatórias (CD). (1)

No seu blog está clara a preocupação, também, com o machismo e a homofobia.

No seu texto “Para os presidenciáveis, os negros não existem” encontrei muitos trechos fundamentais para um bom debate. (2)

http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/10/03/4026/

Bom debate é o que ocorre entre os que estão ativamente empenhados em enfrentar os discriminadores.

Inicio com sua muito procedente preocupação com a invisibilidade do negro. (3)

Na condição de médico psiquiatra tenho um enfoque complementar ao seu.
Diante de um agente causador de sofrimento humano temos a obrigação de descobrir/definir o mesmo.

Lá no nosso blog (1) enfatizamos como o discriminador é mantido, confortavelmente, invisível. (3)

E o desinteresse em definir, deixar a descoberto, o racista torna quase impossivel prevenir a sua ação. (4)

É por isso, no nosso entendimento, que as “declarações racistas proliferam” porque o seu agente não é reconhecido.

Mas,de qualquer maneira, o que fazer para o negro deixar de ser invisível?

Propugnamos que lute para que a ciência defina o seu inimigo: o racista invisível. (5)

Durante este movimento, que seria um avanço no combate ao racismo, o negro e o racista se tornarão visíveis.

Vejamos o trecho em que você aborda indiretamente a questão acima onde o negro ficou visível:

“Pergunto aos mais velhos: qual foi a última vez ou o último período em que o debate sobre racismo foi tão presente e evidente no Brasil? Talvez no auge do debate sobre cotas raciais há uns 10 anos? No centenário da abolição, em 1988? Na transição do trabalho escravo para o trabalho livre no final do século 19?”

Daí decorre a ideia que há dois tipos de debate/divulgação na imprensa.

Ao primeiro podemos chamar de ocorrência conservadora.

Quando o negro é vítima de algum tipo de CD do tipo “racismo no futebol”. (6)

Segue-se uma revolta, a repercussão na imprensa, a tentativa de indiciamento, etc…

E o segundo tipo é o desejado e descrito nos exemplos da sua frase acima.

O racista só pode ser enfrentado, pelo negro e por suas lideranças, porque foi reconhecido.

Esta é uma ocorrência progressista por enfrentar a estrutura construída pelos racistas.

E o que tenho proposto não é nenhum enfrentamento físico ou parlamentar.

A proposta é que, assim como propuseram à Ciência Jurídica que criminalizasse a CD.

Sugiro que proponham tornar visível o discriminador antes dele agir de forma criminosa. (4)

Reivindicando que a Medicina e a Psicologia definam a CD.

Sabemos que o discriminador age e causa sofrimento mesmo antes de ser definido como criminoso.

E para terminar, a sua referência ao “racismo estrutural e institucionalizado”.

Quem estrutura e institucionaliza o racismo?

São pessoas, racistas que agem livremente por não serem conhecidas, definidas, caracterizadas como tal.

Creio que enfrentar o racista, definido, é um bom caminho para enfrentar a questão racial no Brasil.

Textos correlatos:

A eleição, os eleitores, os políticos, os debates e as discriminações

Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.

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Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

O antissemita seria um doente? E o racista?

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Violência e racismo no futebol

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

Psicoterapeuta