Mulheres denunciam ginecologista por abuso sexual. Mas ele tem um promotor amigo.

O promotor e o médico são amigos. Por causa da agilidade incomum no arquivamento do caso, o promotor Raulino Neto está sendo investigado pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

Ilustração: Ana Persona/The Intercept Brasil

MULHERES DENUNCIAM GINECOLOGISTA DO PIAUÍ POR ABUSO SEXUAL. MAS ELE TEM UM PROMOTOR ‘AMIGO’.

VANESSA* PARALISOU NA CONSULTA. Ela estava sendo atendida pelo ginecologista Felizardo Batista, um médico conhecido de Teresina, no Piauí, quando ele teria apertado seus seios, coxas e nádegas. Ao final, ela conta que Batista perguntou: “quem foi o sortudo que tirou sua virgindade?”.

Quando tudo acabou, Vanessa entrou no carro e chorou. Só conseguiu reagir no dia seguinte, 17 de janeiro de 2017, quando registrou boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher e denunciou o médico ao Conselho Regional de Medicina do Piauí, o CRM. No depoimento à polícia, ela diz que Batista teria lhe apalpado com “expressão de tarado” e que teria ficado “gelada, em choque, queria gritar e não conseguia”.

Felizardo Batista nega o abuso.

caso repercutiu na imprensa local, depois que Vanessa denunciou o abuso na Delegacia da Mulher. Estela* e Sílvia* leram a notícia. Sem nunca terem se conhecido, mas motivadas pela coragem de Vanessa, as duas mulheres decidiram contar para a polícia casos semelhantes contra Batista.

Desde então, a Polícia Civil do Piauí recebeu 10 acusações contra o ginecologista – que também atua como mastologista e obstetra – em dois inquéritos diferentes. O primeiro, que tem nove denúncias (incluindo as de Estela, Sílvia e Vanessa), foi arquivado em tempo recorde pelo promotor Francisco Raulino Neto, do Ministério Público Estadual do Piauí. Raulino alegou que não havia provas suficientes dos abusos.

O promotor e Batista são amigos, segundo a denúncia feita pelo delegado-geral de Polícia Civil do Piauí, Riedel Batista, à Corregedoria do MP do Piauí. Por causa da agilidade incomum no arquivamento do caso, o promotor Raulino Neto está sendo investigado pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

Enquanto o médico era inocentado, mais uma possível vítima de Batista quebrou o silêncio e foi à polícia. O caso, denunciado em outubro, está sendo investigado pela delegada Adriana Xavier.

Exame para ‘verificar a lubrificação’

No primeiro inquérito, nove mulheres narraram cenas quase idênticas durante os exames no consultório do médico. Batista, de acordo com os relatos da investigação, teria acariciado a virilha e depois tocado no clitóris das pacientes. Ele introduzia os dedos na vagina com força, o que machucaria as mulheres. Ele também teria apertado nos seios delas e passado a palma da mão nos mamilos.

A delegada responsável pelo caso, Carla Brizzi, também obteve laudos psicológicos que constataram estresse pós-traumático em duas mulheres e mensagens de áudio de uma vítima contando o abuso para uma amiga, no momento em que saiu da clínica chorando.

Os relatos de Sílvia, Estela e Vanessa no inquérito são semelhantes aos das outras vítimas.

Trecho do inquérito da delegada Carla Brizzi. Foto: reprodução

 

O caso de Sílvia ocorreu em 26 de janeiro de 2016. Ela relatou, no boletim de ocorrência e no inquérito policial, que estava na posição para o exame ginecológico quando Batista teria pedido que a auxiliar saísse da sala e disse à paciente que “iria fazer um procedimento para verificar a sua lubrificação”. Sílvia relatou para a polícia que o médico passou a acariciar sua coxa esquerda, introduziu os dedos em sua vagina e tocou o seu clitóris fazendo movimentos circulares. Sílvia diz que se afastou e protegeu a genitália com a mão, o que levou o médico a encerrar o “exame”. Depois disso, ela contou que ele prescreveu alguns medicamentos e pediu que voltasse quando acabassem os remédios. Ela nunca retornou.

O que aconteceu a Estela foi parecido e se repetiu por várias consultas entre dezembro de 2014 e março de 2015, de acordo com o depoimento que está no inquérito policial. Ela estranhava a forma como Batista lhe tocava, mas ia a cada 15 dias no consultório dele porque precisava tratar o colo do útero dilatado.

Ela concluiu que estava sendo assediada quando o médico, de acordo com o relato de Estela à polícia, a convidou para tomar uma cerveja fora do consultório e anotou o número do celular que constava na ficha médica. Ele ainda mandou mensagem pedindo que Estela voltasse ao consultório para pegar um creme vaginal. Ela não respondeu e bloqueou Batista no WhatsApp.

Estela e Vanessa afirmaram ter ficado traumatizadas com o que aconteceu e precisaram de tratamento psicológico. Os laudos foram incluídos no inquérito contra o médico. Segundo o documento, Estela “apresentou sintomas de psicossomatização”. Já Vanessa, que começou o tratamento psicológico em fevereiro de 2017, sentia medo constante de encontrar Felizardo Batista na rua. Também tinha insônia, falta de apetite, delírios, taquicardia, pesadelos envolvendo o abuso ou o médico e “crises de ansiedade que caracterizavam um possível transtorno de estresse pós-traumático, mas poderia evoluir para uma depressão ou síndrome do pânico”, de acordo com o laudo. A psicóloga que assinou o documento concluiu que a situação sofrida por Vanessa “foi considerável e pode ser prejudicial para o seu desenvolvimento biopsicossocial”.

Com base nessas evidências, Brizzi indiciou o médico e a assistente dele, Rosa Moraes de Lima, pelo crime de violação sexual mediante fraude. Segundo as vítimas, a assistente era conivente, pois presenciava os abusos e virava as costas.

Os defensores do médico

As mulheres que se calaram durante muitos anos disseram à polícia que tinham medo do julgamento das pessoas, inclusive dos maridos e das outras mulheres da família que eram atendidas por Felizardo Batista. Elas achavam que as pessoas não iriam acreditar e nem iriam apoiá-las.

De certa forma, isso aconteceu. Quando os casos começaram a ser divulgados pela imprensa, muitas pessoas saíram em defesa do médico. Mulheres atendidas por ele alegavam que nunca tinha acontecido nada a elas e homens garantiam que suas esposas, mães ou filhas sempre foram respeitadas. Os médicos e os membros do CRM também se mobilizaram para proteger o colega.

Uma das defesas mais enfáticas veio do promotor Raulino Neto, que recebeu o inquérito no dia 30 de maio de 2017. Ele precisou de apenas 24 horas para escrever um parecer de 37 páginas e arquivar o caso. Duzentos e sessenta e quatro casos mais antigos estavam na mesa de Raulino.

Parecer Promotor Raulino37 pages

“Houve excessiva pressa em indiciar um médico renomado e uma de suas assistentes”, disse o promotor em seu parecer, após receber o inquérito. Para ele, a investigação não colheu provas suficientes. Ele considerou que havia encerrado o prazo para que a maioria das vítimas tivesse denunciado o abuso sexual. Os casos mais recentes, como o de Estela, foram questionados. “Foi relatado que ele é o médico de mulheres da família dela. Por que somente a ela teria agredido? Por que a mãe sabendo do ‘assanhamento’ do médico não se propôs a conversar com ele?”. O promotor ainda sugeriu uma acareação, ou seja, uma audiência que reunisse as vítimas, as testemunhas e o acusado (que nunca ocorreu).

Ele também questionou o motivo pelo qual as mulheres não procuraram a direção das clínicas para denunciar o abusador, desconsiderando o fato de que o médico é sócio de uma delas. Para o promotor, é injustificável que as vítimas tenham dado declarações à imprensa ou postado denúncias nas redes sociais antes de procurar a polícia.

Raulino Neto também sugere que as denúncias contra o médico foram “orquestradas” por mim, que fui uma das primeiras jornalistas a relatar o caso na imprensa local, e pela advogada de uma das vítimas. O meu nome surgiu no inquérito porque fui chamada pela delegada Carla Brizzi pra dar depoimento sobre os casos que acompanhei.

O juiz Luiz de Moura acatou o pedido de arquivamento da denúncia em junho de 2017, e Felizardo Batista se livrou de responder pelas acusações.

O arquivamento expresso do promotor foi divulgado pela imprensa do Piauí. Alguns meses após o inquérito ser encerrado, Raulino Neto processou a delegada Carla Brizzi e mais três jornalistas, incluindo eu. Ele se incomodou com críticas da delegada ao arquivamento e com uma reportagem que fizemos sobre o seu parecer. Raulino perdeu todas as ações.

Amizade

A decisão de Raulino sobre o arquivamento chamou a atenção do delegado geral da Polícia Civil do Piauí, Riedel Batista, que denunciou o promotor à Corregedoria do Ministério Público do Piauí. De lá, o caso foi para a Corregedoria Nacional do MP. Riedel alegou que Raulino não poderia ter analisado o inquérito porque era amigo do médico. Os indícios estavam nas redes sociais: Felizardo Batista e mais quatro pessoas da família dele eram os amigos do promotor no Facebook. Além disso, uma investigação mais detalhada, feita pela Corregedoria do MP do Piauí, descobriu outras informações relevantes.

De acordo com Erick Venâncio, relator do processo que investiga o promotor, houve “certa incoerência na manifestação de arquivamento, especialmente em se tratando de questão de elevada gravidade”, disse em seu relatório. Venâncio avalia, por exemplo, que Raulino Neto foi estranhamente ágil na análise do processo contra o médico.

Causou suspeita também a informação de um dos servidores do MP do Piauí, em depoimento à corregedoria local. Ele disse que Raulino Neto foi até a Central de Inquéritos, perguntou sobre o processo do médico e afirmou que “este rapaz está sendo injustiçado”. Para o relator, é “incomum o fato de um membro buscar informações acerca de processo específico que ainda não havia sequer chegado à promotoria”.

Em sessão em novembro, no Conselho Nacional do Ministério Público, a maioria dos conselheiros seguiu o voto do relator e confirmou a necessidade da investigação contra Raulino, que tem prazo para encerrar até 16 de janeiro e pode ter como desfecho a suspensão do promotor por 90 dias.

Tentei contato com Raulino Neto através da assessoria de imprensa do Ministério Público do Piauí, mas o assessor disse que ele não atendeu às ligações. Enviei algumas perguntas para o e-mail institucional do promotor e ele não respondeu. Também mandei mensagem pelo WhatsApp. Ele disse apenas que não iria se pronunciar a respeito disso e nem sobre o processo que está respondendo.

Em seu depoimento, que consta no relatório do conselheiro Erick Venâncio, o promotor nega todas as acusações. Ele disse que não conhece Felizardo Batista e reafirmou que o inquérito não tinha provas que sustentassem a denúncia. Sobre o acúmulo de processos, ele disse que houve um erro no sistema do MP e, por isso, recebeu mais demanda do que o normal.

Consultas de R$ 350

Felizardo Batista exerce a medicina há mais de 30 anos e é um dos poucos médicos do Piauí que realiza procedimentos cirúrgicos e exames delicados para detectar doenças no colo do útero. Por causa das suas especialidades, muitos médicos encaminham as pacientes para fazerem tratamento com o especialista.

Batista é também um dos sócios da Clínica Santa Fé, que até pouco tempo atrás era a única maternidade particular de Teresina. Lá, o médico atende mulheres com maior poder aquisitivo e cobra R$ 350 pela consulta. Ele também atende na Clínica Batista por um valor mais acessível. As mulheres que o denunciaram relatam abusos ocorridos nos dois consultórios.

À polícia, Batista se defendeu alegando que os procedimentos realizados fazem parte da consulta e que, diferente da declaração de todas as vítimas, as suas atendentes sempre ficam na sala e o auxiliam durante o exame.


Clínica Santa Fé em Teresina: um reduto de mulheres com maior poder aquisitivo. Reprodução/Google Street View

Ele admite que tocou na parte interna da coxa de Vanessa e que pegou nas nádegas dela, mas diz que o fez porque a paciente havia se retraído e impossibilitado o procedimento. Sobre o toque excessivo no seio, Batista disse que “eventualmente pode ocorrer de a palma da mão encostar na mama, mas isso não é proposital e pode acontecer em razão do tamanho do seio ou da posição”. Ele negou qualquer toque no clitóris das vítimas. Todas essas declarações do médico constam no inquérito policial.

Conversei com o ginecologista e obstetra Juvenal Barreto, diretor de defesa profissional da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, para entender qual é o procedimento adequado em uma consulta.

Barreto, que tem 40 anos de profissão, disse que a boa prática do exame ginecológico não inclui toque na parte interna da coxa, no clitóris e nem qualquer movimento que sugira algum tipo de estímulo. A apalpação das mamas é feita com a ponta dos dedos e não com a palma da mão. A presença de uma assistente, acrescenta, também é uma recomendação importante.

Entrei em contato com o médico Felizardo Batista por telefone e também mandei mensagem no WhatsApp, mas ele não respondeu. Por meio da assessoria de imprensa, a direção da Clínica Santa Fé informou que não vai se manifestar até o final do inquérito “para não haver julgamento precipitado”.

Eu liguei para sete mulheres que fizeram a denúncia em 2017, mas só três atenderam à ligação. Nenhuma quis falar sobre o caso. Quando falei que uma nova denúncia de abuso foi registrada na delegacia recentemente, as três lamentaram. “Ele não vai parar nunca”, disse uma das mais antigas vítimas do médico, que relata um abuso sexual de 1996.

* Os nomes das vítimas foram modificados para preservar suas identidades.

Permitir aos padres apaixonados que se casem. Francisco pondera uma grande virada

“…o papa Francisco teria dito que entre as mudanças que mais lhe interessavam introduzir havia a abolição do vínculo do celibato para os padres”

Não se trata de vê-lo como remédio contra a pedofilia, mas como uma escolha para garantir sacerdotes apaixonados por sua vocação em tempo integral com outros casados em apoio do ministério e da própria família. Um livro deixa entender que, talvez, tenha chegado à hora certa para uma decisão do papa esperada por todos. O problema será abordado em 2019 no Sínodo sobre a Amazônia

A reportagem é de Carlo Di Cicco, vaticanista, publicada por Tiscali, 22-10-2018.

Poderia ser Francisco o papa que irá desatar o intrigado nó do celibato obrigatório para os padres na Igreja Católica do rito latino. Essa é, de fato, uma grande questão que vem atravessando toda a história da Igreja, especialmente a partir do século IV e a atitude escolhida em relação ao celibato dos padres amadureceu ou entrou em crise, segundo que a Igreja vivesse com mais força o valor da espiritualidade ou se adequasse ao modo de vida mundano.

A questão do celibato obrigatório para os sacerdotes na Igreja adquiriu novo vigor neste momento em que a opinião pública mundial está chocada pela revelação dos muitos casos de pedofilia do clero que, embora em percentual mínima em relação ao conjunto dos sacerdotes, está causando dor e desorientação entre os fiéis laicos. Pedofilia e celibato não têm nada em comum e um não é causa da outra, mas como ambos tocam a sexualidade e seu exercício, no sentido comum das pessoas são confusamente associados, multiplicando o escândalo.

O celibato para os padres decidido pela Igreja

Na verdade, desde a Segunda Guerra Mundial, a questão do celibato obrigatório como condição para se tornar padres na Igreja Católica Latina, a mais difundida no mundo e especialmente no Ocidente, começou a ser criticada, discutida, revista em círculos cada vez mais amplos. E um número crescente de vozes a partir de baixo e da própria hierarquia se pronunciaram em favor de uma revisão da lei que prevê a possibilidade de ser padre tanto a solteiros como a casados. Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), as vozes favoráveis a uma mudança aumentaram continuamente. Tanto a sugerir que poderia ser o próprio Francisco o papa que, com prudência e visão do conjunto, poderia iniciar uma experimentação prática nessa direção. Imagina-se que a ocasião para uma abertura como essa poderia surgir no outono de 2019, no Sínodo sobre a Amazônia, uma região imensa onde a escassez de padres e as dimensões gigantescas e complicadas em que estão dispersas as comunidades cristãs, torna difícil, quase impossível as suas celebrações religiosas, às quais eles também têm direito incontestável.

O problema dos padres destituídos

Uma das fontes à disposição de Francisco para tomar com toda a seriedade uma decisão desse tipo revelou-se um belo livro sobre a questão do celibato na igreja publicado recentemente. Foi escrito pelo jornalista Enzo Romeo, um especialista em Vaticano que estuda, se atualiza e verifica a confiabilidade de suas fontes. O resultado foi um livro interessante e confiável introduzido por uma minuciosa panorâmica do problema da destituição dos padres, assinada por Gianni Gennari, teólogo conhecido e padre romano, que teve que deixar o ministério depois de se apaixonar por uma mulher com quem se casou quando chegou a dispensa do celibato.

O livro de Romeo, confiável e excelente síntese sobre toda a questão do celibato, é resumida no título: “Lui, Dio e Lei” (Ele, Deus e Ela, 254 páginas), publicado pela Rubettino. Uma mina de informações, notícias, depoimentos, detalhes, citações estendidas em forma de narrativa que contam a evolução histórica de uma questão cada vez mais importante para compreender o cerne do problema do evangelho. Não que o celibato seja o coração do Evangelho, que continua sendo, é claro, o amor de Deus pelos homens, manifestado em Jesus e a missão de anunciar a misericórdia de Deus, que quer que todos os homens sejam salvos e conhecedores da verdade.

Amor, sexo e sacerdócio

Mas o celibato é uma perspectiva importante em pensar a fé e, portanto, a compreensão que foi se acumulando nos séculos de celibato levou a considerá-lo uma questão de amor. Enquanto nos séculos passados tratava-se de esclarecer a relação entre os eclesiásticos com as mulheres, após o Concílio Vaticano II tornou-se insistente, até mesmo no magistério da Igreja, enfrentar o problema do celibato como um problema de amor, ao invés de sexualidade. De fato, o amor representa a capacidade e a disponibilidade da pessoa de doar-se totalmente, enquanto a sexualidade pode ser vivida mesmo em uma condição de grande egoísmo que reduz as outras pessoas a instrumentos do próprio prazer. A obra de Romeo é valiosa pela simplicidade e clareza e coloca em foco essa grande verdade, levando, sem intenções apologéticas tendenciosas, a concluir que resolver a questão do celibato obrigatório não é uma concessão para a mundanidade, mas a demanda por uma responsabilidade e coerência mais radical com as escolhas da vocação de cada um. As citações do livro sobre o ensinamento dos papas do pós-concílio não por acaso colocam em paralelo a vida matrimonial e a vida missionária dos sacerdotes: nem uma nem a outra têm uma solução humana e não trazem felicidade para a pessoa se não forem vividas por amor. Para ambas as escolhas é preciso estar preparados, não é possível improvisar.

Por que impor uma regra nunca escrita na Bíblia

O sacerdócio, em particular, não tem o celibato como um elemento constitutivo, no sentido de que o ministério também pode ser exercido por padres casados. Não há uma ordem divina para ser padres celibatários, mas existe uma disposição vinculante da Igreja, plenamente legítima e racional pela qual aos padres se pede a fidelidade ao celibato, que garante alta qualidade no desempenho da missão. Por esse motivo, o celibato será frutífero e um real distintivo somente se livremente escolhido e não imposto como lei obrigatória para aqueles que queiram responder à sua vocação ao sacerdócio. Qualquer um que queira atualmente se tornar padre sabe que terá que respeitar o celibato. Mas se uma vez padre as circunstâncias da vida o levassem a quebrar esse compromisso, todos os padres sabem que a penalidade é a renúncia obrigatória ao ministério. Portanto, se pensa sobre a possibilidade de tornar a escolha do celibato opcional, prevendo padres celibatários e padres casados com um regulamento prático ainda totalmente a ser elaborado.

O que o papa pensava antes de se tornar sacerdote

E o que Francisco tem a ver com tudo isso? O livro de Romeo esclarece bastante o que Francisco pensava antes de se tornar padre, antes de se tornar bispo, antes de se tornar papa e, consequentemente, o que pensa agora que é papa. “No verão de 2015, o pastor pentecostal argentino Norberto Saracco, amigo de velha data de Bergoglio – como pode ser lido, entre outros exemplos, na página 63 – relata ao “National Geographic” uma longa conversa confidencial que teve com Francisco em Santa Marta dois meses após a sua eleição. Naquela ocasião, o papa teria dito que entre as mudanças que mais lhe interessavam introduzir havia a abolição do vínculo do celibato para os padres”.

Devemos acreditar? Talvez sim, talvez não, mas certamente está de acordo com a coerência com que Francisco está pedindo a cada cristão que viva o próprio livre testemunho do evangelho. Sua revolução e sua reforma da Igreja baseiam-se na conversão espiritual, a única que pode garantir o sucesso da reforma das estruturas e das leis. Só aparentemente a abolição da obrigação do celibato para os padres e a introdução de livre escolha da opção celibatária ou como casados pode ser considerada menos exigente. Na realidade, operar em liberdade é a forma mais exigente possível de assumir para si a responsabilidade e coerência na vida.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU

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O celibato na Igreja Católica e os abusos sexuais

As crises na vida sacerdotal não surgem por razões de fé, mas por razões afetivas…. pode levar um padre a abusar, porque não consegue conciliar a vida celibatária com as necessidades que brotam.

O padre jesuíta alemão Hans Zollner

“Uma vida celibatária não sadia pode levar aos abusos”. Entrevista com Hans Zollner

Acrise dos abusos sexuaiscriou uma verdadeira tempestade noVaticano. Se há alguém especialista neste campo é o padre jesuíta alemãoHans Zollner, psicólogo e teólogo, professor naUniversidade Gregorianae membro daPontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, instituída peloPapa Franciscoem 2014. Agora, liderou o projeto que resultou na criação do primeiro mestrado para prevenir este flagelo.

A entrevista é deAnna Buj, publicada porLa Vanguardia, 15-10-2018. A tradução é deAndré Langer.

Eis a entrevista.

Que erros a Igreja cometeu com os abusos sexuais?

Os erros e crimes que se encontram há setenta anos em todo o mundo são os mesmos: não acreditar nas vítimas, não ouvi-las,proteger os abusadorespor uma dificuldade de acreditar que um sacerdote possa ter cometido esses crimes e transferi-los de paróquia com suas promessas de não repeti-los.

NaEuropa, algumas famílias das vítimas pediam ao bispo para que não o tornasse público, porque as envergonhava. A culpa era considerada da vítima e não do sacerdote. O papel do poder era mais importante, e aIgrejapreferia proteger sua fama do que seguir os ditames do direito canônico. Houve pouca seriedade na seleção dos sacerdotes.

Você disse que os seminários precisam deixar de ser centros fechados à sociedade.

As diretrizes daIgrejachamam os responsáveis para dar uma formação humana, emocional e sexual. Em muitos seminários, esta não é a realidade. Durante muito tempo pensava-se que o simples fato de estar no seminário e rezar resolvia o problema. Não é assim. Os bispos sabem disso muito bem. As crises navida sacerdotalnão surgem por razões de fé, mas por razões afetivas.

O que você recomenda?

Escolher pessoas que sejam capazes. Para um professor de teologia, os responsáveis investem entre cinco e sete anos; para um formador, nem cinco semanas. Há uma grande desproporção entre a importância da formação intelectual e afetiva.

No final dos anos de seminário não há acompanhamento. Há algum choque?

Exatamente. Muitos sacerdotes deixam o sacerdócio nos primeiros cinco anos. O trabalho de um padre hoje não é o mesmo de cinquenta anos atrás, mas o modelo de formação continua o mesmo. Os sacerdotes que querem ser pastores de almas muitas vezes são administradores de bens ou de instituições e não estão preparados. Eles estudamteologiae acabam sendo gestores de escolas. Aordenação sacerdotalnão dá essas capacidades.

Acabar com o celibato resolveria o problema dos abusos sexuais?

Todos os relatórios oficiais científicos e encomendados por governos como dosEstados Unidos,AustráliaouAlemanha, críticos com aIgreja, negam que ocelibatopor si só leve aosabusos. O que eles dizem, e isso também eu digo, é que umavida celibatáriaque não é ajudada por uma formação humana sólida e que não vem acompanhada por um estilo de vida integrado, saudável, de trabalho em equipe… pode levar um padre a abusar, porque não consegue conciliar avida celibatáriacom as necessidades que brotam.

Ele não encontra satisfação suficiente, nem espiritual, nem humana, nem profissional, em seu trabalho. Muitos abusaram de crianças e adolescentes porque imaginavam um sentido de importância. Oabuso sexualé, sobretudo, umabuso de poderde alguém que não tem a força física, nem mental para resistir. Ocelibatonão é a causa, mas umavida celibatáriadoentia pode ser um fator de risco.

5% dos sacerdotes do mundo são abusadores.

Entre 1945 e 2010 a média está entre 3,5 e 6%, mais alta entre diocesanos que entre religiosos. Mas desde 2002, nosEstadosUnidos, e desde 2010, naAlemanhaou naÁustria, as novas acusações são em menor número. Onde há escândalo público, medidas sérias de formação e diretrizes, já não existem maisabusos.

Uma parte ultraconservadora da Igreja culpa a suposta homossexualidade de alguns sacerdotes como causa dos abusos. Isso tem algum fundamento?

Os relatórios dizem que ahomossexualidadenão leva aosabusos, mas também dizem que em uma porcentagem entre 70% e 80% dos casos não se trata de crianças, mas de meninos adolescentes. Isto é significativo. Falamos de uma época, entre 1940 e 1970, em que não havia escolas mistas, ou seja, o sacerdote tinha uma relação mais normal com os meninos.

E também devemos observar que alguns provavelmente entraram para o seminário nesses anos, porque descobriram que eramhomossexuais, mas acreditavam que poderiam conviver melhor em umavida celibatária, pensando em uma solução mágica, que com aordenaçãoasexualidadedesapareceria. Isso se agrava com os fatores que eu mencionei acima. Quando se está estressado, frustrado, sozinho, essas dinâmicas aparecem.

Por quanto tempo a Igreja terá que lidar com essa crise?

Eu sempre disse que interessará durante uma geração. Onde há a atenção da mídia, as denúncias diminuem com o tempo, mas em países em que não se falou sobre isso agora, existe a sensibilidade e a disposição para denunciar. De agora em diante, haverá muito a fazer, também naEspanha, para não repetir erros e fazer justiça às vítimas. É uma infecção que está em todo o corpo, não apenas naAmérica do Norteou naEuropa Central. Devemos abri-la e erradicá-la, mesmo que isso signifique perder dinheiro, fama, nossa imagem ou poder.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU

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Falar abertamente de sexo e de gênero não perverte crianças e jovens

Em “Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” Freud desafiou a convenção da época dizendo que era um equívoco pensar que as práticas sexuais deveriam visar apenas fins reprodutivos – muitas delas (senão todas) teriam como objetivo o prazer – e que as crianças eram, sim, seres sexuais.

Alunos do colégio Magno, de São Paulo, durante aula de educação sexual.

Quer proteger crianças de abusos e preconceito? Então, precisamos falar sobre sexo e gênero com elas.

Em 1905Sigmund Freud lançou “Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” e desafiou a convenção da época. Neles, Freud disse que era um equívoco pensar que as práticas sexuais deveriam visar apenas fins reprodutivos – muitas delas (senão todas) teriam como objetivo o prazer – e que as crianças eram, sim, seres sexuais. A obra escandalizou a sociedade do início do século 20 ao sugerir que a sexualidade fazia parte do desenvolvimento humano.

Hoje, quem se escandalizaria seria Freud. Passado mais de um século de incontáveis evidências sobre a naturalidade da diversidade sexual, que levaram aOrganização Mundial de Saúde, a OMS, a reconhecer que direitos sexuais são direitos humanos, a sociedade ainda não lida bem com essa ideia. Uma pequena amostra disso foi osuicídio recente de James Myles, de apenas 9 anos. Myles tirou a própria vida após ter sofrido bullying homofóbico em sua escola nos Estados Unidos.

A maior parte das crianças de 9 anos ainda não tem total consciência da sua identidade sexual e de gênero, mas já pode ser vítima de preconceito. As atitudes preconceituosas são dirigidas justamente a pessoas como Myles, que desviam do que é socialmente esperado para elas. Tragédias como essa revelam por que a população de lésbicas, gays, bissexuais e, principalmente de travestis e transexuais, são desproporcionalmente mais sujeitas aviolência letale têm maior índice de desfechos negativos em saúde mental. Inúmeras evidências internacionais mostram quejovenseadultosLGB apresentam prevalência de tentativa de suicídio duas vezes maior se comparados à da população heterossexual. O caso das pessoas trans é ainda mais grave,nos Estados Unidos41% delas já tentaram suicídio em comparação com 4,6% da população em geral.

No Brasil, o cenário não é diferente. Umapesquisa conduzidapelo meu grupo de pesquisa na PUC do Rio Grande do Sul, com amostra de quase 10 mil jovens entre 11 e 24 anos de todo o país mostrou que, de 2004 a 2012, as tentativas de suicídio entre aqueles que não haviam sofrido preconceito por causa de sua orientação sexual caíram 20%. Em contrapartida, entre aqueles que sofreram esse tipo de preconceito o aumento foi de 60%.

Orientação sexual e identidade de gênero não são doença

Historicamente, o fato de que as pessoas que desviavam do que era socialmente esperado em relação à sexualidade e ao gênero terem maior prevalência de depressão, ansiedade e tendência suicidas era encarado como indicador de psicopatologia. Ou seja, haveria algo intrínseco a homo, bi e transexualidade que as relacionaria à doença mental. Por quase um século, a heterossexualidade foi tratada, compulsoriamente, como a única forma de sexualidade – inclusive por meio de supostas terapias reversivas, conhecidas como a “cura gay”, que só promoveram mais sofrimento.

Essa coação social e médica, porém, nunca foi o suficiente para mudar o desejo sexual e a identidade de gênero naqueles que os expressavam. Portanto, não é razoável supor,como sugerem candidatos a presidente em cadeia nacional, que a mera menção da existência da diversidade sexual e de gênero seria o suficiente para que o mesmo acontecesse com a população hétero e cissexual –pessoas que têm uma identidade de gênero que concorda com o sexo atribuído no nascimento.

Com a progressiva remoção da homossexualidade dosmanuais de diagnósticos, essa compreensão ultrapassada mudou. Ser gay, lésbica ou bissexual não é um problema de saúde.O que leva a mais suicídios, depressão e ansiedade é o preconceito. Os esforços dos profissionais e políticas de saúde devem se voltar aocombate à discriminação.Na mesma esteira, em 2018, aOMS retirou a transexualidade do rol das doenças mentaisgarantindo o acesso aos procedimentos médicos de afirmação de gênero, ao mesmo tempo que diminui o estigma relacionado ao diagnóstico.

Mas como se combate o preconceito e se protege as crianças de agressões de natureza sexual? Falando de sexo e gênero de maneira franca e não estigmatizante nas escolas. Diversos estudos têm mostrado que a educação sexual, feita dessa forma, no contexto escolar écapaz de reduzir a vulnerabilidade para o HIV, aviolência sexual, e, principalmente,o preconceito. Em relação ao abuso sexual de crianças, diversas pesquisasapontam que programas que são focados no conhecimento a respeito da sexualidade, e treinamento de habilidades para identificar e evitar agressões sexuais são eficazes para reduzi-las.

Os detratores desse tipo de proposta costumam associar a tentativa de se tratar em sala de aula temas sobre sexualidade à pedofiliae à erotização precoce. Essa afirmação não tem qualquer respaldo científico. No Brasil, esse discurso é também paradoxal. Essa suposta tentativa de proteção à infânciaconvive com a produção e consumo crescente de imagens erotizadas das crianças, especialmente dirigida ao público masculino heterossexual.

Participantes da 16º edição da Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, com o tema “Somos Marielle”, contra a criminalização da pobreza, o genocídio e a intervenção militar, na avenida Paulista, na região central de São Paulo.
Foto: Eduardo Carmim/Photo Premium/Folhapress


Se as histórias de vida das pessoas LGBTs nunca forem contadas na escola e se os alunos e alunas nunca ouvirem as palavras homossexualidade ou transexualidade de maneira positiva, será imposto aos estudantes LGBTs que lidem com o bullying sozinhos. Enquanto o assunto for tratado como tabu, o fardo de ser “diferente” será apenas dos estudantes e de suas famílias.

Da mesma forma, quando não se discute abertamente como e quando a sexualidade deve acontecer e o que são toques e carícias esperados e consentidos, será imposto às crianças que são vítimas de abuso sexual (quase sempre dentro da família) que lidem com essa violência sozinhas.

Uma estratégia bem-sucedida nesse sentido é oGRIS – Montreal, o Grupo de Pesquisa e Intervenção Social. Fundada em 1994, a ONG realiza intervenções em escolas levando ex-alunos LGBTs para conversar com turmas de ensino fundamental e médio. Os ex-alunos contam suas próprias experiências de superação e como se preveniram de situações de violência e exclusão, além de responder a dúvidas das crianças e jovens.

Em relação à prevenção do suicídio, uma das melhores iniciativas é o projetoThe Trevor. Trata-se de uma ONG americana fundada em 1998, que oferece serviços de aconselhamento psicológico para jovens LGBTs, além de recursos educativos para pais e professores. O projeto foi lançado pelos idealizadores do filme “Trevor“, ganhador do Oscar de melhor curta-metragem em 1998, que conta a história de um jovem gay que tenta suicídio após sucessivos episódios de bullying escolar. No Brasil, infelizmente, não existem iniciativas como o Trevor e a Gris.

É surpreendente que, no Brasil, onde abundam dados sobre o flagelo doabuso sexual infantileviolência contra LGBTs, não estejamos implementando políticas para diminuir esses fenômenos com estratégias amplamente disponíveis na literatura científica. Pelo contrário, discute-se oboicotea tais estratégias, mostrando que a violência dirigida aos jovens LGBTs no Brasil não é uma crise pontual, mas um projeto deliberado.

O exemplo do GRIS, em Montreal, e do Trevor, nos Estados Unidos, revela que falar abertamente de sexo e de gênero não perverte crianças e jovenscomo acredita o candidato Jair Bolsonaro, mas previne que elas sejam as próximas vítimas da violência sexual, de homicídios e de suicídios que poderiam ser evitados.

Fonte:The Intercept
Por: Angelo Brandelli Costa
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7 cosas sobre sexo que deberías enseñarle a tus hijos antes de que sea muy tarde

La "plática sobre el sexo" debería ser una conversación continua, y definitivamente no tiene por qué ser incómoda.

Claro, los educadores sexuales son buenos para descifrar datos complicados y potencialmente incómodos sobre el sexo en las lecciones que los niños en edad escolar pueden entender, pero no pueden ser responsables de todo.

Incluso si tus hijos tienen la suerte de estar en una escuela que ofrece un programa relativamente completo (porque algunos se enfocan únicamente en lecciones de abstinencia o no ofrecen educación sexual), tú también eres responsable de educarlos.

“Cuando tienes conversaciones sobre sexualidad cuando los niños son pequeños, digamos 5, antes de que estén expuestos al sexo en Internet o en la cultura popular, se normaliza el tema. Si te preocupa que las conversaciones sean incómodas, tienes una ventaja si comienzas pronto; los niños más pequeños son mucho más tolerantes con los adultos que buscan tratar algunos temas que los preadolescentes, y hablar con los niños cuando son pequeños es un buen entrenamiento para conversaciones continuas”, comentó Cindy Pierce, educadora sexual.

2. Nadie tiene derecho sobre tu cuerpo, incluso si es solo un abrazo

“Consentimiento, consentimiento, consentimiento. No puedo decir esto lo suficiente. Tenemos que enseñar a los niños que están a cargo y que son responsables de sus cuerpos y que tienen que respetar el de los demás. Ahora bien, eso no significa que les pidamos permiso antes de cambiarles los pañales o llevarlos al médico, pero podemos mostrarles el respeto por lo que estamos haciendo o enseñarles por qué es importante asegurarse de que su cuerpo esté limpio y saludable” comentó Lydya Bowers, una consultora sexual para la primera infancia con sede en Ohio.

“Más tarde, significa dejar que un niño decida si quiere o no que lo abracen, le hagan cosquillas o incluso le den una palmada. También significa ayudar a los niños a procesar cuando otra persona les dice que no la abracen, y asumir la responsabilidad de sus sentimientos al respecto. Nadie tiene derecho sobre nuestro cuerpo … ¡y no tenemos derecho sobre el de otra persona!”, agregó la especialista.

3. Enseñarles los nombres correctos para cada parte del cuerpo

“Diría que lo más importante es que los niños pequeños sepan los nombres correctos de sus genitales y otras partes del cuerpo. Esto es importante porque normaliza los genitales y no contribuye al tabú o al estigma en la forma en que lo hace el uso del lenguaje eufemístico. También es importante porque es muy difícil para los niños que no tienen el lenguaje correcto denunciar el abuso sexual si les sucede, por lo que el lenguaje también es una herramienta importante de seguridad”, comentó Louise Bourchier, educadora sexual en Nueva Zelanda y Australia.

4. No uses pornografía como modelo para el sexo real

“La verdad es que el porno es el educador de la sexualidad más común para los niños pequeños, y es muy fácil de acceder. Si deseas que tus hijos tengan información precisa sobre sexo saludable, es importante entablar una conversación sobre pornografía alrededor de los 9 años de edad. Es muy común que la primera exposición de los niños a la sexualidad sea por medio de un amigo presentándolos a la pornografía o que lo encuentren por su cuenta, intencionalmente o por error.

La industria de la pornografía efectivamente atrae a los niños curiosos que saben cómo deletrear y usar un buscador en Internet. El gran problema es que la pornografía de fácil acceso a menudo desvía las expectativas de cómo se ven y responden los cuerpos. Si descubres que tu hijo ha visto pornografía, no reacciones de forma exagerada.

Reconoce que la curiosidad es normal, pero diles que la pornografía no es sexo real y está destinado a los adultos. Si no tomamos en serio nuestro papel como el principal educador de la sexualidad, Internet llenará los vacíos”, agregó Pierce.

5. Hay más en el sexo que solo el acto físico

La identidad y expresión de género, orientación sexual, actividad sexual, imagen corporal y autoestima, comunicación y límites, amistades y relaciones sanas, violencia y acoso sexual, anatomía e higiene, anticoncepción, autonomía corporal , embarazo, placer, son algunos de los temas que debes abordar según Wazina Zondon, educadora sexual.

“Empieza la conversación siempre que puedas, nunca es demasiado tarde. Y no siempre tiene que ser sobre lo ‘pesado’: puede ser en respuesta a algo que vieron en la televisión, una boda en la familia, opiniones sobre lo que una celebridad llevaba puesto, un tema en las noticias”, agregó Wazina Zondon, educadora sexual y la creadora de “Coming Out Muslim: Radical Acts of Love”.

6. Está bien tener preguntas sobre sexo

“Contrariamente a la opinión popular, los adolescentes realmente quieren hablar con los padres sobre estas cosas. Y los estudios han demostrado que cuando lo hacen, es menos probable que participen en conductas sexuales riesgosas. Continúa respondiendo sus preguntas a medida que crecen, incluso si no estás seguro y la respuesta es: ‘No estoy seguro … ¿por qué no investigamos?’

A pesar de la educación sexual, a veces nos topamos con información errónea de amigos, medios o educadores (el mío me dijo que las almohadillas y los tampones no son necesarios por la noche porque la menstruación es solo una cuestión de gravedad, seriamente). Como padre y cuidador, asegúrate de que sea un espacio seguro y sin vergüenza para los niños, comentó Bowers.

“Estas conversaciones pueden dar miedo, pero es importante que respiremos profundamente. Cuando un niño hace una pregunta y te agarra desprevenido, siempre es útil preguntarles a ellos ‘¿Qué opinas al respecto?’. Esto te permite saber, para empezar, cuál es su base de conocimientos, y te da un momento para calmar el pánico y pensar la respuesta”, añadió

7. Algo puede ser desagradable o extraño para ti, pero no para todos

“En el aula, uno de los comentarios más comunes que escucho de cualquier grupo de edad, independientemente del tema (desde la imagen corporal hasta la higiene y la anticoncepción y todo lo demás), es ‘¡Ewww, eso es asqueroso!’ Mi respuesta es simple: ‘no taches de asqueroso algo que le gusta a otra persona'”, nos dijo Zondon.

“Esto puede sonar aparentemente incompleto, pero ayuda a los estudiantes a entender cómo otros viven su vida y lo que eligen puede no ser adecuado para todos, pero es su decisión: relaciones sexuales antes del matrimonio, parejas del mismo sexo, eliminación (o no eliminación) el vello corporal, la expresión de género de uno: entiendes la idea”.

Puede que no sea tu gusto, pero está bien si a alguien le gusta. Este mensaje ayuda a los jóvenes a comenzar a comprender cuáles son sus límites. Y si están en una posición que no les resulta cómoda, sabrán que no tienen que participar en ella, ni les corresponde impedir la expresión sexual de otra persona” dijo Zondon.

 

É possível prevenir o abuso sexual em escolas católicas?

Se você tem filhos em escola católica deveria considerar estas recomendações para que não sofram abusos sexuais enquanto estudam.

Guía para un apoderado de colegio católico en la admisión 2019

De acuerdo a las palabras del Papa Francisco, la Iglesia Católica Chilena sufre de una “cultura del abuso”, manifestada en actuaciones y omisiones de sus más altas autoridades frente a las denuncias de agresiones sexuales en contra de menores de edad, y ahora último respecto de religiosas. O sea, se trata de una cultura abusiva que no distingue el ámbito en que se ejerce el ministerio de los sacerdotes y religiosos agresores.

Uno de los contextos más sensibles de desempeño de sacerdotes y religiosos, sino el más, es el de las comunidades escolares de los colegios católicos, que atienden entre un 15 a 20 por ciento del total de la matrícula escolar del país, esto es, casi un millón de alumnas y alumnos menores de edad.

Si usted pertenece como apoderado a este grupo, si le ha confiado la enseñanza de sus hijos a sacerdotes y religiosos, no obstante la advertencia pública efectuada por el Papa respecto de la cultura del abuso en la Iglesia Chilena, debiera considerar las siguientes recomendaciones para prevenir que sus hijos sufran de abusos sexuales mientras estudian.

Si el sacerdote o religioso ocupa un cargo directivo dentro del colegio, sea o no docente – la mayoría no lo es -, el riesgo es evidente pues en una misma persona confluyen la autoridad escolar y la religiosa dentro de una comunidad educativa y pastoral, que por lo general no tiene contrapeso al interior de un colegio. En el caso que estemos en presencia de un pederasta, este agresor buscará posicionarse en todas aquellas actividades escolares y religiosas que le procuren cercanía y confianza entre los menores, hasta encontrar víctimas que exhiban algún grado de descuido o abandono de parte de sus padres o tutores.

La preparación para el sacramento de la primera comunión o de la confirmación constituyen una inmejorable oportunidad para encuentros privados entre eventuales agresores y sus víctimas. Lo mismo puede decirse respecto de otras actividades en que el sacerdote o religioso pudiere erigirse como responsable del cuidado de los menores, como es el caso de comunidades pastorales y de ayuda social, que demandan traslados y visitas a poblaciones, hogares de ancianos, procesiones hasta santuarios, etc. Un aspecto clave es la extensión del tiempo en que los menores se encontrarán a disposición de su posible agresor.

Los contextos descritos son los más difíciles de controlar porque tanto el agresor eventual como la víctima no se mantienen en un lugar fijo, que pudiere estar vigilado con sistemas de cámaras, por ejemplo; el potencial agresor se desplaza junto con la víctima buscando el espacio ciego en que pueda acometer y concretar el delito. La labor preventiva de los padres demanda una comunicación permanente con sus hijos respecto de todos los detalles acaecidos en alguna de las actividades descritas, verificando si el sacerdote o religioso incurrió en conductas abusivas o precursoras de daños a la intimidad sexual; si se trató de aislar al menor respecto del grupo en que participa.

En el contexto de aula, si el potencial agresor es un sacerdote o religioso que se vale de la docencia para aproximarse a los menores de edad, sería conveniente que los padres puedan acceder on line a través de sus smartphones a todo lo que sucede al interior de la sala de clases, todo el tiempo, en especial cuando los niños la van desocupando y quede la instancia de un encuentro privado entre abusador y posible abusado. La colocación de cámaras de vigilancia al interior de salas de clases es un tema conflictivo en general, pues los docentes estiman que se vulnera su libertad de cátedra. Para mí, esta libertad debe ceder en favor de un bien superior que es la protección y cuidado en todo momento de los menores.

Ahora bien, sea cual sea el contexto, la afectividad natural que buscan con mayor o menor frecuencia los menores respecto de sus cuidadores ocasionales, genera la oportunidad para que un sacerdote o religioso efectúe caricias impropias a la víctima. A estas alturas ya es claro que no cabe ninguna posibilidad de abrazos de los menores con sus cuidadores mayores de edad al interior del colegio, en especial tratándose de los más pequeños de estatura, que con el abrazo quedan expuestos al roce de sus cuerpos con los genitales del agresor. No puede existir contacto físico, y un aspecto que puede dar cuenta de una relación sana sería la actitud del sacerdote o religioso de guardar debida distancia hacia el menor y expresar que la afectividad es posible comunicarla y recibirla sin necesidad de aproximar los cuerpos.

Las actividades deportivas también sirven de contexto para los agresores. Si un sacerdote o religioso se encuentra a cargo de una academia, esto puede servir de indicio de que un pederasta está buscando la instancia que le brinde acercamiento al menor. Qué decir si intenta compartir duchas y camarines con los menores, antes, durante o después de la actividad, como si fuera uno más del grupo de alumnos.

Posiblemente estas sugerencias puedan servir como alertas mínimas preventivas, considerando que buena parte del día nuestros hijos se encuentran bajo el cuidado de una entidad, de un grupo de personas que trabajan en un colegio, pero no bajo la responsabilidad directa de una persona determinada. Eso también podría exigirse en el contrato de prestación de servicios educacionales: que se señale con precisión al profesor o a los profesores que se hacen responsables en todo momento del cuidado de nuestros hijos mientras están en el colegio.

En fin, dado el desdoroso momento que experimenta la Iglesia Chilena, los evidentes encubrimientos de tantas agresiones que se han ido comprobando en todo el país, pareciera razonable la salida de sacerdotes y religiosos de los colegios y que la labor educativa y de acompañamiento pastoral quede entregada exclusivamente a los profesores y demás profesionales preparados para relacionarse cotidianamente con menores de edad. Esto es, separar lo educacional de lo pastoral, y que lo segundo se desarrolle siempre en presencia de los padres.

Fonte: El Mostrador
Por: Ricardo Retamal Ortiz
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Acadêmica feminista lésbica abusa de orientando homossexual

Reitman tinha medo de sua professora e do poder que tinha sobre ele. Por isso, em muitas ocasiões, aceitou condutas que o levaram se sentir violentado.

aca

 Nimrod Reitman acusó a su exasesora de la escuela de posgrado de la Universidad de Nueva York, Avital Ronell, de acosarlo sexualmente y la universidad la declaró responsable. Sin embargo, algunas académicas feministas la han apoyado de formas que recuerdan las defensas de los acosadores masculinos. Caitlin Ochs para The New York Times

¿Qué pasa con el movimiento #MeToo cuando la acusada es feminista?

El caso es una historia que resulta familiar, pero al revés: se determinó que Avital Ronell, académica reconocida mundialmente que imparte las materias de Alemán y Literatura Comparada en la Universidad de Nueva York (NYU), acosó sexualmente a un antiguo estudiante de posgrado de nombre Nimrod Reitman.

Después de una investigación de once meses en respuesta a una queja basada en las disposiciones de la norma federal Título IX —una ley de Estados Unidos que prohíbe la discriminación por razón de sexo—, se declaró culpable a Ronell, descrita por un colega como “una de las contadas estrellas de la filosofía en el mundo”, de haber incurrido en conductas de acoso sexual, físico y verbal, “a tal punto que afectó los términos y condiciones del ambiente de aprendizaje de Reitman”. La universidad suspendió a Ronell para el siguiente ciclo académico.

The New York Times tuvo acceso a algunos fragmentos del informe definitivo sobre las investigaciones basadas en el Título IX, en los que se indica que Reitman declaró que Ronell lo había acosado sexualmente durante tres años y como prueba proporcionó decenas de correos electrónicos en los que la académica se refería a él con varias frases íntimas: “mi adoradísimo”, “nene hermoso”, “cock-er spaniel” y “mi increíble y hermoso Nimrod” [cock en referencia al pene en español].

El caso, que se dio a conocer justo cuando el movimiento #MeToo comenzaba a exigir la rendición de cuentas por conductas sexuales inadecuadas, representó un reto para las feministas, quienes debieron decidir cómo reaccionar ante la conducta indebida de alguien de su propio grupo. Su respuesta ha agitado las aguas en el sector académico.

En cuanto la universidad tomó su decisión definitiva y confidencial en mayo, varios académicos de todo el mundo, incluidas algunas feministas destacadas, enviaron una carta a NYU en la que expresaron su apoyo a Ronell. Judith Butler, autora del libro Gender Trouble y una de las académicas feministas más influyentes en la actualidad, encabezaba la lista.

“Si bien no tenemos acceso al expediente confidencial, hemos trabajado durante muchos años en estrecha colaboración con la profesora Ronell”, escribieron los catedráticos en una versión de la carta publicada en un blog de filosofía en junio. “Todos hemos visto cómo se relaciona con los estudiantes y algunos conocemos al individuo que ha urdido esta campaña malintencionada en su contra”.

Los críticos señalaron que esa carta, centrada en los posibles daños para la reputación de Ronell y la fuerza de su personalidad, evoca argumentos utilizados en el pasado para defender a hombres poderosos.

“Nos constan la delicadeza, el agudo ingenio y la dedicación intelectual de la profesora Ronell, por lo que solicitamos que se le trate con la dignidad que merece alguien de su posición y reputación internacional”, continuaba la carta.

Reitman, quien ahora tiene 34 años y realiza trabajo de investigación en Harvard, afirma que Ronell en varias ocasiones lo besó y tocó, durmió con él en su cama, le pidió que se recostara en su cama y lo tomó de la mano, además de que constantemente le enviaba textos, correos electrónicos, lo llamaba por teléfono, y no accedía a trabajar con él a menos que él le correspondiera. Reitman es homosexual y ahora está casado con otro hombre; Ronell es una mujer lesbiana.

Ronell, de 66 años, negó haber incurrido en conductas de acoso. “Nuestras comunicaciones, que ahora Reitman cataloga como acoso sexual, fueron intercambios entre dos adultos, un hombre gay y una mujer queer, que comparten la misma herencia cultural israelí, así como una afición por las comunicaciones floridas y exageradas debido al ambiente académico en el que nos movemos y a nuestra sensibilidad”, escribió en una declaración dirigida a The New York Times. “Él procuró estas comunicaciones en repetidas ocasiones, respondió a ellas y las alentó a lo largo de tres años”.

Dos años después de graduarse de NYU con un doctorado, Reitman presentó una queja en contra de su antigua asesora por infracciones al Título IX, por supuestas conductas de acoso sexual, violencia sexual, acecho y represalias. En mayo, la universidad determinó que Ronell era responsable de acoso sexual y que no se habían demostrado las demás acusaciones.

El abogado de Reitman, Donald Kravet, dijo que redactó con su cliente una demanda en contra de NYU y Ronell, y que por el momento están evaluando sus opciones.

Las descripciones de Reitman y Ronell acerca de sus experiencias evocan otras historias reveladas como parte del movimiento #MeToo: según recuerda Reitman, le tenía miedo a su profesora y al poder que tenía sobre él, por lo que en muchas ocasiones aceptó conductas que lo hicieron sentirse violado. En algunas entrevistas a las que The New York Times tuvo acceso y que Ronell presentó ante la oficina encargada de las quejas por Título IX en NYU, la docente indicó que Reitman estaba desesperado por llamar su atención y recibir su orientación.

Según Reitman, los problemas comenzaron a mediados de 2012, antes del inicio oficial del curso. Ronell lo invitó a quedarse con ella en París algunos días. El día de su llegada, según relató Reitman, ella le pidió que le leyera poesía en su recámara mientras tomaba una siesta vespertina.

“Fue cuando me pareció que algo andaba mal”, dijo Reitman. “Pero también pensé, bueno, ya estoy aquí. Mejor no armo un escándalo”.

Entonces, relató, la académica lo jaló hacia la cama.

“Puso mis manos sobre sus senos y presionó su trasero contra mi entrepierna”, dijo. “Entonces empezó a besarme, a besar mis manos y mi torso”. Esa noche, ocurrió de nuevo algo parecido, dijo.

Dijo que la confrontó a la mañana siguiente.

“Le dije, mire, lo que pasó ayer no estuvo bien. Eres mi asesora”, recordó en una entrevista.

aca2Los defensores de la profesora Ronell destacaron su “agudo ingenio” y sus “posición y reputación internacionales”, después de que ella fue acusada de acoso sexual.

Según dijo, cuando llegó a Nueva York ese comportamiento continuó. Después del huracán Sandy, en octubre de 2012, Ronell se presentó en su apartamento porque no tenía electricidad. Dijo que, a pesar de sus objeciones, ella lo convenció de que ambos podían dormir juntos en su cama. Una vez ahí, lo manoseó y besó todas las noches durante casi una semana, dijo.

“La profesora Ronell niega por completo las acusaciones de contacto sexual”, escribió Mary Dorman, su abogada, en un documento dirigido a la oficina encargada de las quejas por Título IX. Ronell dijo que solo pasó dos noches ahí después del huracán, por invitación de Reitman.

El informe de la investigación concluyó que no había suficientes pruebas para declarar culpable a Ronell de violencia sexual, en parte debido a que nadie más observó las interacciones en el apartamento de Reitman ni la habitación de Ronell en París.

Reitman también dijo que Ronell tomó represalias en su contra por haberse quejado de su comportamiento, como enviar recomendaciones formales que afectaron algunas posibilidades de empleo. No obstante, el informe reveló que las cartas de recomendación “eran comparables a las que había escrito para otros exalumnos” y Reitman, de hecho, obtuvo dos becas de investigación.

Ronell y algunas personas que la respaldan han intentado desacreditar a su acusador mediante algunos métodos conocidos, como cuestionar por qué tardó tanto en presentar la queja y por qué parecía tener una relación tan íntima con Ronell si en realidad se sentía miserable. Ronell dio a entender que quizá se sentía frustrado por no ser tan listo.

“Su principal dilema era la incoherencia en su manera de escribir, y que no era posible identificar un argumento”, señaló Ronell en una entrevista realizada en 2018 y presentada a la oficina encargada de las quejas por Título IX.

Además de la suspensión, que la universidad nunca anunció en público, NYU investiga otras acusaciones de represalias relacionadas con la carta de la académica.

John Beckman, vocero de la universidad, escribió en una declaración para The New York Times que NYU lamentaba la experiencia de Reitman.

Sin embargo, añadió Beckman, “dada la agilidad y seriedad con que respondimos para investigar a fondo sus cargos, no creemos merecer ni que sea justo que promueva un juicio millonario en contra de la universidad”.

Tanto Ronell como Reitman sienten que no se les ha retratado de la mejor manera en esta historia del movimiento #MeToo.

Reitman afirma que no pretendía convertirse en una figura pública y tema de conversación en todo el país por cuestiones de género, y subrayó que este proceso inició antes de que se popularizara el movimiento. “No fue como consecuencia del #MeToo”, enfatizó.

En marzo de 2018, Ronell especialmente se quejó de que Reitman insistía en compararla “con los ejemplos más escandalosos de conductas depredadoras, asociadas con magnates de Hollywood que acechan a las estrellas jóvenes”.

Fonte: The New York Times
Por: Zoe Greenberg
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“Juizes e advogados não tem boa formação em violência de gênero”

“O curso de Direito é bom para resolver questões de herança, como cobrar um cheque ou solucionar um problema de direito comercial, mas a formação em violencia de gênero, que para mim é de direitos humanos, é escassa ou nula”.

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 “Dudo que la ley de violencia de género se pueda aplicar”

El ministro del Tribunal de Apelaciones cree que las organizaciones feministas deberían abordar de forma más científica el problema de la violencia doméstica

Eduardo Cavalli es uno de los seis ministros del Tribunal de Apelaciones de Familia, lo que lo coloca como una de las mayores autoridades en esta materia que aborda temas tan variados como la tenencias de niños, las obligaciones legales de sus padres o tutores, casos de violencia doméstica y situaciones de menores de edad en infracción con la ley. Por esa razón, fue uno de los tres integrantes del Poder Judicial que participó de las discusiones para definir el presupuesto necesario para implementar la ley de violencia hacia las mujeres basada en género, aprobada el 13 de diciembre en el Parlamento, a pesar de las advertencias sobre que su costo haría muy difícil su puesta en marcha.

La cifra de $ 950 millones (unos US$ 30 millones) requerida para la creación de juzgados especializados en violencia doméstica tal cual lo ordena la norma no fue considerada en esta Rendición de Cuentas, pese a que es considerado apenas un mínimo por el Poder Judicial.

En entrevista con El Observador, Cavalli habló de las dificultades para aplicar esta norma desfinanciada, la crisis de la familia en Uruguay, las debilidades del sistema procesal que atiende a las víctimas de violencia doméstica, y por qué cree que las organizaciones feministas deberían analizar este fenómeno de forma más científica.

¿Cuáles son las situaciones que enfrenta con mayor frecuencia el Tribunal de Apelaciones en materia de familia?

Los casos de disputa por el régimen de visitas, y los de padres que incumplen el pago de pensiones alimenticias. El niño como rehén de una disputa entre adultos en materia de justicia de Familia es pan de todos los días. Tenemos conflictos entre madres y padres, o padres y abuelos, donde planteas una situación de visitas controladas en presencia de un tercero, y no se cumplen y siempre hay una excusa, un problema. Hay niños que pasan toda la infancia judicializados, porque los padres están enfrentados. En materia de tenencia lo más frecuente es que las mujeres impidan que los hombres vean a sus hijos.

Pero una prueba de que vivimos en una sociedad patriarcal son los casos de padres que incumplen el pago de pensiones alimenticias. Hay situaciones frecuentes de padres que se desentienden o que tienen un conflicto con la madre de los niños y que para castigarla le niegan alimentos. No están enfrentados con sus hijos, pero los afectan a ellos. Me parece que como país nos provoca un desgaste descomunal. La familia uruguaya se hizo añicos.

Uno de los temas que aborda un tribunal de familia es el de la violencia doméstica, ¿cómo evalúa el trabajo que se ha hecho con operadores de la Justicia para educarlos en esta materia?

Me di cuenta de que en los años de 1970 era machista. Es que hay cuestiones de la cultura patriarcal que uno las tiene en el ADN porque se crió en una sociedad así. Por eso siempre hay que estar aprendiendo en esta materia. Lo ideal es que hubiera una capacitación sistemática en todo el sistema de justicia porque jueces, abogados, fiscales y técnicos estamos formados en facultades que no encaran esta problemática de género. La Facultad de Derecho en Uruguay te forma muy bien para resolver situaciones como quién hereda qué, o cómo se cobra un cheque, o a solucionar un problema de derecho comercial, pero la formación en casos de violencia de género, que para mí son de derechos humanos, es escasísima o nula.

¿Por qué cree que el tema no cobró esa relevancia?

Por la cultura patriarcal. Pienso que en la Universidad de la República sigue estando. ¿Dónde lo veo? Los problemas de familia son prácticamente la mitad de los asuntos del Poder Judicial, entonces uno pensaría que eso tendría que ser la mitad de la formación, pero el tiempo dedicado al tema es mínimo. Puede que algún profesor lo haga, pero la exigencia con la que se da la materia es muy poca. ¿Cuántos libros escritos por abogados hay publicados por temas de violencia de género? Son poquísimos. Otras materias como en la penal, el derecho laboral o civil, vas encontrar muchas más publicaciones.

Sin embargo, los grupos feministas tienen actividades entorno a las universidades.

El gran talón de Aquiles de los movimientos feministas es que no han sabido reflexionar científicamente cómo deberían ser los procesos de protección de los derechos a nivel de la Justicia. En un juicio se puede tratar a las personas como sujetos de protección o como objetos de protección. Para nuestra justicia las víctimas de violencia doméstica son objetos.

Por ejemplo, cuando querés reclamar la plata de alguien que te chocó el auto primero hablás con tu abogado, que te pregunta qué pruebas tenés y te aconseja sobre qué se debe conseguir, presenta una demanda escrita en la que detalla el tipo de resarcimiento que quiere recibir, la defensa de la otra parte la lee y presenta su respuesta y recién ahí se hace una audiencia en la que el denunciante no habla ante el juez, lo hace su abogado. El juez allí solo decide si el denunciante tiene razón o no.

En violencia doméstica, la presunta víctima si tiene suerte la citan al juzgado, allí al mismo tiempo que ve al juez ve a su abogado, y ahí mismo cuenta su situación. El juez no sabe si lo que ella dice es cierto o no, por lo que se tiene que poner a averiguar. Por eso, el denunciante es una persona que ya en el interrogatorio es mirada con duda por el juez y muchas veces cuando hay personas de situación de contexto desfavorecido esa es la manera de callarla.

¿Cómo cree que debería hacerse?

Nosotros propusimos que antes de pasar por el juez se entrevistara con el abogado defensor, y que este le desarrollara una estrategia de defensa. De esta forma, cuando vaya ante el juez podrá presentar las medidas de protección que pretende para sí. El juez lee eso y después debe escuchar al marido. El marido se defenderá y con base en eso se define.

Decía que las mujeres van a los juzgados “si tienen suerte”, ¿a qué se refirió?

Los jueces de violencia doméstica reciben entre 70 y 80 llamadas por día, y después llevan a sus juzgados a entre 10 y 15. Todas las demás cuestiones, si la Policía no les contó que hay una situación de riesgo no la llevan al juzgado, porque no pueden tomar tantos casos, es un tema de organización del trabajo.

¿Qué sucede en esos casos?

Imaginate una mujer de la campaña que va a una comisaría del pueblo para denunciar una situación de violencia doméstica. Los policías llaman al tipo, que niega todo. Con esa breve indagatoria policial se llama al juez y este responderá en función de cómo le cuentan el cuento. Capaz que el Policía le dice que el muchacho es bárbaro y que la mujer es rara. Hubo un caso que el juez entendió que la situación no era grave y a través de la policía intimó a la pareja a no agredirse más. Horas más tarde el hombre fue y mató a la mujer.

¿Puede hoy una mujer negarse a ser protegida o dar marcha atrás en una denuncia?

Sí puede, pero con una aclaración.

Puede retirar la denuncia si el juez entiende que lo hizo porque está amenazada o porque culturalmente está acostumbrada al maltrato, entonces tiene la obligación de fijar medidas de protección, como tobillera, medidas de alejamiento. Hace poco llegó la apelación de una mujer que ejercía la prostitución y que pedía que se le quitara la custodia policial. El caso empezó cuando su última pareja le causó lesiones graves. La mujer hizo la denuncia, y se resolvió ponerle tobillera al agresor. El hombre se rompió la tobillera tres veces, por lo que se le puso custodia. La mujer no quería que los policías la siguieran al prostíbulo porque le espantaban los clientes .

El ministro del Interior, Eduardo Bonomi, dijo que por qué los jueces no envían a la cárcel a quienes rompen sus tobilleras, si están incurriendo en un delito de desacato a una orden judicial.

Pienso que algo de razón tenía. La Fiscalía como dice (el fiscal de Corte) Jorge Díaz es única y se expresa a través de sus agentes, por lo que tendría que tener una política más o menos coordinada, que permitiera que los fiscales de violencia doméstica puedan derivar el tema a los fiscales penales.

En la Rendición de Cuentas el Ministerio del Interior incluyó un artículo que pretende que los jueces solo puedan disponer custodias policiales o tobilleras en casos de violencia doméstica si cuenta con un informe técnico favorable elaborado por técnicos de la cartera.

¿Qué opina de esta medida?

Me parece que corresponde. Por algo hay separación de poderes. Son temas del Poder Judicial, si un juez resuelve poner la tobilleras el Ministerio del Interior en todo caso podría recurrir a esa decisión, pero no meterse en si puede o no. Es como si mañana el Ministerio del Interior dijera que los jueces solo van a enviar a prisión cuando tenga plazas suficientes en la cárcel.

¿Los jueces disponen demasiadas tobilleras?

Los magistrados uruguayos son muy de ante el más mínimo riesgo aplicar medidas de separación, incluso hasta por teléfono. Antes de llevar a la víctima al juzgado ya se tomaron medidas. Pero solo cuando logran tener peritos que le den un informe de la situación de alto riesgo colocan la tobillera. Prácticamente no se coloca tobillera si no se ve una situación potencialmente homicida.

¿Hay suficientes técnicos para hacer esos informes?

No, no los hay. Por eso lo que se suele hacer es que pedir ante situaciones que se entienden como graves, es que los expertos hagan un informe rápido. Pero no creo que se entreguen demasiadas. No no hay. En general tiene que pedir específicamente en situaciones que entienden como graves que se coloque. Si tenés 30 femicidios por año no es tan disparatado que se coloquen 300 aparatos a la vez. No solo evitas un homicidio, prevenís que un hombre le haga la vida imposible a la mujer.

El Poder Judicial solicitó un incremento presupuestal de poco más de $ 943 millones para cumplir con la “violencia hacia las mujeres basada en género” que fija entre otros puntos la creación de juzgados especializados en violencia basada en género, doméstica y sexual. Sin embargo, este dinero no fue considerado por el Poder Ejecutivo.

Los números son estos: cada 14 minutos hay una denuncia de violencia de género. Esos son 40 mil denuncias anuales. La ley prevé además otro tipo de violencia como por ejemplo gritarle a un una mujer que sea arbitro de fútbol, por lo que se va a agregar una cantidad de denuncias que ahora no existe. Pero además van a ser competentes en casos de abuso sexual infantil. Estimamos unas 120 mil audiencias anuales. Cada juez puede hacer cuatro diarias, y además se necesitan peritos, psiquiatras y psicólogos. ¡Es descomunal!

¿Cree que es aplicable?

Es muy cara, habría que darle un presupuesto enorme. Por eso miro con mucha reserva que sea aplicable. Habrá que hacer lo mejor posible.

Participó de las discusiones sobre este punto cuando la ley era analizada por el Parlamento, ¿se alertó sobre el alto costo que tendría?

Fui por la Asociación de Magistrado y les hice ver estos detalles. Me dijeron que era un problema de presupuesto y no de la ley en sí. Para mi fue medio doloroso, porque a raíz del conflicto por salarios el presupuesto para el Poder Judicial es muy bajo. No hubo aumento en años. Pero es el sistema político quien puede decir qué hacer, porque la gente los eligió. Ahora hay que sentarse a hacer cuentas y ver qué se puede aplicar. Tampoco es que sea una cifra tan escandalosamente alta, aunque si muy alta para el Presupuesto que se le asigna al Poder Judicial.

Fonte: El Observador Uy
Por: Guillermo Losa
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Machistas protegidos nas Universidades

“Não deveria ter que me preparar para ser estuprada quando vou trabalhar na Faculdade de Medicina”.

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Maior relatório já feito sobre assédio sexual na ciência dos EUA revela um abuso sistemático

Seus amigos, aqueles que não tinham nada a ver com a medicina, não podiam acreditar. “Você está de brincadeira, né?”, perguntaram-lhe. Já os colegas e funcionários da faculdade onde trabalhava pediam para deixar para lá. “Se você relatar isso vai se dar mal. Você não vai querer armar um escândalo.” Essa mulher, membro de uma faculdade de Medicina nos Estados Unidos, sabia que seus colegas da instituição tinham razão, mas sabia também que o que havia ocorrido, e continuava ocorrendo, era demais: “Não deveria ter que me preparar para ser estuprada quando vou trabalhar”.

Este é só um entre dezenas de depoimentos citados no relatório intitulado Assédio Sexual Contra as Mulheres: Clima, Cultura e Consequências nas Academias de Ciência, Engenharia e Medicina, que essas três instituições norte-americanas publicaram na terça-feira. Trata-se da análise mais exaustiva já escrita sobre o tema, trabalhada durante mais de dois anos e baseada em centenas de estudos, entrevistas, estatísticas e relatórios feitos desde a década de oitenta. Suas conclusões apenas salientam uma realidade cada vez mais visível e menos surpreendente: mais de metade das mulheres nesses três âmbitos, e em todos os níveis (alunas e professoras), já sofreram algum tipo de assédio – trabalhista, sexual ou ambos –, abusos, agressões sexuais, desprezo ou menosprezo profissional e pessoal durante sua formação ou no exercício da profissão.

 

“Embora haja cada vez mais mulheres nos campos científicos, assumindo responsabilidades e liderando pesquisas, os dados indicam que isto ocorre com muita frequência”, comentava na terça-feira Marcia McNutt, presidenta da Academia Nacional de Ciências, segundo quem essa “cultura” provoca uma clara devastação nas mulheres, tanto em nível pessoal quanto profissional, e na sua saúde física e psíquica. “É também uma perda tremenda dos recursos humanos, de potencial, de talento e de investimento nesse talento.” Com a agravante de que as políticas e os protocolos atuais para controlar esta situação não dão sinais de funcionar, e as consequências costumam ser o freio às carreiras profissionais das mulheres ou mesmo o abandono.

Para a presidenta, o relatório foi publicado na hora certa, depois que o movimento Me Too rompeu o obscurantismo e o silêncio de milhões de mulheres no mundo, dando início a um movimento global e crescente de conscientização e rechaço a essa violação constante de seus corpos, suas aptidões e suas vontades. Frente a isto, a resposta das instituições é contundente: mudar é não só urgente como também imprescindível. E para essa mudança, observou McNutt, as academias e as organizações públicas e privadas devem criar um ambiente totalmente diferente, que consiga evitar esse assédio a partir do primeiro indício: “Nosso relatório oferece soluções específicas para os diferentes espaços, para poder reduzir ou eliminar esse assédio. É necessária uma cultura baseada na diversidade, na inclusão e no respeito”. Algo que, no momento, não ocorre.

mac2Uma das infografias que a Academia preparou para resumir algumas das recomendações que apontam no relatório.

O pesquisador Kevin Swartout, da Universidade Estadual da Geórgia, foi o encarregado de montar o quebra-cabeça com os dados dos sistemas da Universidade do Texas, aos quais foram posteriormente acrescentados os da Universidade Estadual da Pensilvânia, para oferecer uma visão mais ampla; uma base de mais de 10.000 graduandos, pós-graduandos e professores que revelou um comportamento constante de assédio por parte do professorado ou dos outros funcionários. “Cerca de 20% das estudantes de ciências (graduação e pós) já o sofreram, mais de uma quarta parte das alunas de engenharia, e mais de 40% das estudantes de medicina”, diz o relatório, referindo-se à pesquisa da instituição texana. “Na Pensilvânia, realizou-se uma pesquisa similar, que encontrou resultados parecidos: 33% das estudantes de graduação, 43% das pós-graduandas e 50% por cento das estudantes de medicina.”

Não foram obtidas cifras conclusivas com relação a grupos minoritários, mas o estudo indica que as mulheres pertencentes a coletivos LGTBIQ ou da raça negra são alvos mais habituais do que qualquer mulher branca e heterossexual. Outros dados da pesquisa revelam as mesmas percentagens, e os autores consideram que isso não deveria surpreender. “Os funcionários de instituições acadêmicas têm a segunda maior taxa de assédio sexual [nos Estados Unidos], com 58% (os militares têm a taxa mais alta, 69%)”.

As pesquisas foram completadas com quarenta entrevistas com profissionais de todos os campos, de diferentes idades e níveis. Cerca de metade denunciou algum tipo de assédio físico, mas o psíquico também se revela como uma importante aresta a aparar. “A maioria deles degrada a mulher, encerrando-a no local de trabalho, menosprezando-a frente a outros colegas, dizendo-lhes que não são tão capazes como os outros, ou falando mal delas para o resto… Não é só tocar ou invadir sexualmente, é algo em nível mais intelectual. Tentam fazer esses jogos mentais para que você não possa se defender fisicamente”, aponta uma professora-assistente de Engenharia entrevistada no estudo.

Comentários sexistas, piadas reiteradas e alusões que degradam as mulheres no âmbito pessoal ou profissional foram uma constante que os pesquisadores encontraram ao reunir essa informação. Eles citam quatro aspectos que se dão nesses locais de trabalho como algumas das causas destas atitudes: “A dependência em relação aos assessores e orientadores para o avanço profissional; o sistema de meritocracia que não leva em conta a diminuição na produtividade como resultado do assédio sexual; a cultura machista em alguns campos; e a rede informal de comunicações, através da qual se difundem rumores e acusações dentro e através de programas e campos especializados”. E acrescentaram cinco fatores que poderiam explicar, em parte, esse assédio generalizado: a percepção de tolerância frente a tais atitudes, uma maioria de homens nesse entorno, a férrea hierarquia – que além disso costuma concentrar muito poder em poucas mãos –, sem a educação nem as ferramentas para lutar contra isto, e um enfoque ruim das leis que regulam o assédio nas instituições.

O estudo explica que, muito frequentemente, a interpretação judicial dessas leis incentiva as instituições a criarem políticas que se centram mais em um cumprimento simbólico da legislação e em evitar a responsabilidade do que em realmente prevenir o assédio. Ou seja, normas que acabam protegendo quem comete o assédio, e não a vítima, o que foi definido como “desalentador”. “Ao mesmo tempo em que se investe tanto dinheiro e energia em atrair e reter as mulheres nestes campos, frequentemente elas são intimidadas ou expulsas de sua carreira. Mesmo quando permanecem, sua capacidade de contribuir e avançar pode se ver limitada como consequência do assédio sexual, seja de forma direta, pelo assédio ambiental no entorno em seu departamento, programa ou disciplina, ou através de represálias e por serem tratadas como traidoras depois de relatarem formalmente o assédio”.

Por isso, entre outros estudos, Fazer Frente ao Assédio Sexual: Reconceitualizar a Resistência das Mulheres (2002), de Vicki J. Magley, descobriu, com uma base de dados de mais de 15.000 mulheres, que com frequência as respostas eram ignorar ou tentar apaziguar o assediador. Raras vezes ele era confrontado, e sempre havia uma tentativa de manter boas relações com ele. “Por exemplo, 74,3% das mulheres em um dos sete conjuntos de dados analisados por Magley evitavam o seu autor, 72,8% se distanciaram psicologicamente da situação, 69,9% suportaram a situação sem tentar resolver o problema, e 29,5% tentaram acalmar o seu algoz inventando uma desculpa para explicar seu comportamento.”

A história de sempre. Culpabilização, medo de não serem acreditadas num primeiro momento e do descrédito posterior, e de serem pisoteadas, maltratadas ou de suportarem represálias depois. Algo que está bem refletido no testemunho de uma pesquisadora de medicina que, após sofrer vários tipos de assédio trabalhista e sexual, acabou informando ao diretor de seu programa, que deixou o assunto nas mãos do chefe da instituição em questão; foi ele quem lhe disse que ela recordava a sua ex-mulher – “a quem todos sabíamos que odiava”, comenta a médica no relatório – e que se ela chorasse menos talvez tivesse mais amigos. “A partir daí, a qualificação que fazia do meu trabalho simplesmente foi ladeira abaixo.”

mac3O iceberg do assédio.

Algo incompreensível em todos os níveis. Décadas de pesquisa demonstraram como a indústria e a pesquisa ganham em qualidade quando sua força trabalhista é diversificada. “Esse assédio contínuo tem consequências para o avanço do bem-estar econômico e social do país e sua saúde pública em geral”, sentencia o estudo.

O panorama propõe uma série de mudanças profundas, estruturais, que segundo a Academia devem ser levadas em conta desde já e que se resumem em 15 recomendações não só para sua própria organização, mas também para outros órgãos federais, e políticas para que essa guinada rumo a um mundo mais inclusivo possa chegar a todos os cantos. Entre essas recomendações estão: abordar de forma direta o assédio sexual e ir além do mero cumprimento das leis para alterar pela raiz a cultura e o ambiente nessas instituições; gerar ambientes mais diversificados, inclusivos e respeitosos; melhorar a transparência e a responsabilidade em todos os níveis; reduzir ao máximo essas relações hierárquicas tóxicas que se dão entre as alunas e o professorado, com um poder tremendamente concentrado e que paira sobre o futuro das estudantes; sempre dar apoio à vítima; começar investigações que possam continuar revelando essa realidade; e iniciar mudanças legislativas e políticas para paliá-la.

Há muitos detalhes e conselhos oferecidos nas mais de 300 páginas deste trabalho, que começou a ser preparado há mais de dois anos, quando o Comitê de Mulheres em Ciência, Engenharia e Medicina propôs a criação de um grupo especial para analisar o passado e o presente do assédio sexual em suas áreas, avaliar o impacto que ele causa e estabelecer as bases para sua prevenção e erradicação no ambiente acadêmico. Cientistas, engenheiros, médicos, especialistas no tema, juristas e psicólogos se puseram então a colher e esmiuçar a literatura existente. E, embora tenham radiografado também a si mesmos, esqueceram uma das engrenagens do seu próprio maquinário.

Parte da comunidade científica, sobretudo mulheres, notaram a ironia da publicação deste relatório quando entre suas próprias fileiras há cientistas que pedem demissão ou são demitidos de seus empregos após serem acusados por estas condutas, mas continuam vinculados à Academia. É o caso do caçador de planetas Geoff Marcy, que se demitiu de seu cargo em Berkeley (Califórnia) em outubro de 2015, do neurocientista Thomas Jessell, despedido em abril da Universidade de Columbia, e de Inder M. Verma, o biólogo molecular que está em “licença” no Instituto Salk de Estudos Biológicos, onde trabalha desde a década de setenta, e que renunciou em 1º. de maio ao posto de editor da revista Proceedings, da própria Academia Nacional de Ciências, depois que a publicação Science denunciou que oito mulheres o haviam acusado de abusos sexuais.

Mas há mais. A cientista Julie Libarkin, da Universidade Estadual de Michigan, que criou em 4 de junho um site para denunciar o assédio em sua área, o MeTooSTEM, vem desde a década de oitenta ampliando uma base de dados sobre o assédio sexual que já acumula mais de 600 casos. A revisão desses nomes pelo The Washington Post revelou que há até cinco homens já punidos por assédio sexual que continuam sendo membros das Academias Nacionais norte-americanas, e três que ainda fazem parte de pesquisas com subvenção pública. A Academia Nacional de Ciências, criada pelo Congresso dos Estados Unidos em 1863, tem como acadêmico médio um homem branco de mais de 70 anos; os novos membros são escolhidos pelos atuais, e suas vagas são vitalícias. Haja o que houver.

Em maio, BethAnn McLaughlin, professora-assistente de neurologia na Universidade Vanderbilt, iniciou uma petição no Change.org para exigir às academias que destituam seus membros se tiverem sido condenados por assédio sexual ou trabalhista ou por agressões, algo que atualmente, conforme seus próprios estatutos, encalhados em algum ponto do século XX, é impossível. Os presidentes das três academias aludiram ao assunto no final de maio e asseguraram que tinham começado a tratar o tema dos “padrões de conduta profissional para os membros”. Outras instituições, como a Sociedade Astronômica Americana e a União Geofísica Americana, já alteraram pelos mesmos motivos suas políticas de expulsão. Talvez as Academias Nacionais também devessem começar por aí.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos
Fonte original: El País
Por: Isabel Valdés
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