…Medicina papa-fina, não é coisa prá menina,…

 

Antigo hino dos bixos da Faculdade de Medicina

Qüim qüim qüim quiririm qüim qüérum (4 x); Oh Nicodemo [idem], Oh Jalaô [idem],
Oh Nicodemo Jalaô oba, oba oba oba oba, oba oba oba oba; e o esqueleto [idem]
da Faculdade [idem], ‘tava guardado em creolina, creolina, creolina, creolina, creolina; mas acordou [idem], e gargalhou [qua qua qua qua], e a maior é a Medicina, Medicina papa-fina, não é coisa prá menina, e a maior é a Medicina!

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Fonte: Capazes Pt

Versão ampliada em “Cuando impedían a las mujeres ser doctoras, ella lo logró”

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Fátima Oliveira, nosso anjo se foi; que o seu espírito guerreiro permaneça entre nós

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis. Bertold Brecht (1898-1956), dramaturgo e poeta alemão, voz dos oprimidos do mundo

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Fátima Oliveira sempre foi imprescindível.

Médica, feminista e escritora. Negra e nordestina. Cabelinho nas ventas. Não mandava recado, falava na lata. Revolucionária.

Na manhã de 5 de novembro de 2017, aos 63 anos, ela “se encantou”, como diria o grande escritor Guimarães Rosa.

Foi no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estava internada há cerca de um mês.

Ironicamente no mesmo HC onde foi médica muito querida por 30 anos e se aposentou em março de 2014.

Fátima já está fazendo falta. E vai fazer muito mais.

A médica e feminista Ana Maria Costa, que presidiu o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), me avisou pelo zap:

–Acabo de saber da morte de Fátima Oliveira! Muito triste!”

— O quê???!!!!

— Como, doutora?!

— De câncer.

–Onde?

A gente se conheceu em 2009.

Fátima já tinha uma coluna semanal em O TEMPO, que saía às terças-feiras.

De vez em quando a reproduzíamos no Viomundo. Depois, quase toda semana.

Fátima reunia condições difíceis de serem vistas juntas num mesmo profissional: competente, atualizada, ética, corajosa, sem papas na língua, retidão ímpar.

Em se tratando de direitos sexuais e direitos reprodutivos, saúde integral das mulheres, saúde da população negra e SUS, Fátima era fonte fundamental.

Entrevistei-a para muitas reportagens nessas áreas.

Algumas vezes, eu, como repórter, buscava a sua ajuda. Outras, ela, antenadíssima, me alertava sobre temas. Ficava feliz, quando percebia que tinha colocado pilha, para eu ir atrás de algum tema mais cabeludo.

Em março de 2014, após morar décadas em Belo Horizonte, ela retornou ao seu querido Maranhão.

Em agosto deste ano, em resposta a um e-mail meu, querendo saber dela, veio a esta carinhosa resposta:

Oi, Conceição!

Quantas saudades de você!

Como vai? E como vai o Azenha?

Há momentos, a maioria deles, que penso estar em outro país!

É tudo muito surreal…

Digo sempre: ainda bem que tenho meus cactos e Clarinha Kkkkk

Morar no Maranhão tem sido um alento porque vivemos sob a égide de um governo humanista e ganhamos as eleições nas quatro cidades da Ilha de São Luís. Falando sério!

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Na sequência, me mandou uma foto da neta Clarinha.

Nas duas últimas semanas tudo isso veio à cabeça.

Revi nossos e-mails, nossas reportagens, entre elas as muitas sobre a MP 557, de 26 de dezembro de 2011, a famigerada MP do Nascituro, contra a qual Fátima, movimentos e entidades de saúde da mulher e saúde coletiva lutaram bravamente, denunciando o absurdo. O Viomundo e esta repórter se orgulham muito de terem remado contra a maré e lhes dado voz.

É difícil acreditar que ela partiu.

Foi ao remexer essas lembranças que me veio a ideia de, a exemplo do que fizemos em várias reportagens, nos juntarmos mais uma vez. Só que, agora, para homenagear Fátima.

Por e-mail, perguntei a vários participantes de alguma dessas matérias — a maioria conheci através de Fátima — se queriam dar uma declaração sobre o ser humano que cada um conheceu.

Resultado, de coração: depoimentos singelos, despretensiosos, pequenos fragmentos do gigante mosaico chamado Fátima Oliveira.

MARGARETH ARILHA: “OBRIGADA PELA LUZ QUE TRANSMITIU”

E porque a vida é assim, me arrepiei ontem a noite quando li o teu convite, Conceição!

Explico. Acabava de sair de uma tarde maravilhosa, na casa de Elza Berquó, onde recordamos com muita alegria e tristeza, o momento que tivemos juntas nós duas, e mais Fátima, Sonia , Tania Lago, Valeria e Jacqueline Pitanguy, em fevereiro de 2016.

Nos recordamos de como ela estava feliz, e de como havia chegado trazendo um pequeno cacto de presente para a dona da casa, dizendo, eu trouxe para você, não se preocupe, ele não precisa de muita água. Ele ficou plantado num vasinho pequeno de porcelana, e ontem veio iluminar aquela mesma mesa.

Juntas, colocamos as mãos sobre ele, abraçamos a Fátima, que permaneceu ali, toda a tarde conosco.

Eu a conheci no Cebrap [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento], e lá conversamos muito, muito, muito, rimos, rimos, rimos muito, choramos muito.

Durante anos. Tivemos medos e sonhos. Mas nunca esse pesadelo: o de sua partida tão fora de hora. Esbanjando saúde, sua lucidez parecia atirá-la para uma vida quase sem fim.

Afinal, parecia sempre estar carregada com tanta imaginação, palavras e lucidez, temas para debater, raivas pra curtir e lamentar, e prazeres para compartilhar, que ela e sua vida pareciam intermináveis.

Sempre dividia conhecimento e sabedoria. Falávamos das crias, do meu e do seu Gabriel, perguntava da Marina, falava dos filhos e mais recentemente da Débora. A presença instigante nas reuniões, e a luta sempre presente para tocar os plantões no hospital e seguir militando.

Sempre se fazia presente em todos os debates da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), sempre compreendeu sua natureza e missão, e participou com seu pensamento continuo e agitado.

Da professora Elza, era assim que a chamava, sempre falava com admiração, e apreciava imensamente a confiança por ter colaborado com o Programa de Bolsistas Negras do Cebrap, altamente inovador.

Ironicamente, as últimas imagens de seu twitter vinham sendo os cactos, pássaros e a casa no sertão.

Ironicamente, sua penúltima foto é com Fernando Pacheco Jordão [falecido em 14 de setembro de 2017], também membro da CCR, e falando da Democracia.

Ironicamente não tive tempo de dizer a você, Fátima, que o Maranhão, suas belezas e agrestes agruras são agora o centro da vida de minha filha.

Você gostaria de saber. Obrigada por tudo o que nos ensinou, e pela luz que transmitiu.

Margareth Arilha é psicanalista e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Desde os anos 1980 dedica-se a questões de gênero, saúde reprodutiva e políticas públicas.

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Tanto Margareth (depoimento acima) quanto Sonia Corrêa (abaixo) resgatam o último encontro com Fátima. Foi, em 26 de fevereiro de 2016, na casa da professora Elza Berquó, que fundou e dirigiu o consagrado Núcleo de Estudos da População, da Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp). Da esquerda para direita: Margareth Arilha, Valéria Pandjiarjian, Elza Berquó, Jacqueline Piranguy, Sonia Correa e Fátima Oliveira

SONIA CORRÊA: “UM TEMPO PARA O LUTO; AXÉ, FÁTIMA!”

Primeiro, soube que alguma coisa tinha acontecido com a feminista negra Fátima de Oliveira, com quem compartilhei momentos fáceis e difíceis, travessias tensas, mas também passagens muito prazerosas no curso de incessantes lides em torno da saúde e dos direitos das mulheres que transcorreram ao longo dos últimos quase trinta anos.

Um pouco mais tarde soube que ela havia partido.

Conheci Fátima nos início dos anos 1990, quando ela passou a integrar a Comissão de Cidadania e Reprodução.

Olhando suas fotos hoje, nas notas que circulavam sobre sua partida prematura, lembrei de muitos de nossos momentos juntas. Visualizei espaços, climas, conversas, expressões faciais.

Um desses momentos aconteceu, possivelmente, em 1998, num encontro anual da Rede Feminista de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos em Caxambu.

Era uma noite gélida. Sentadas num canto protegido do bar à beira da piscina, já meio bêbadas, tivemos um longo embate. Fátima havia aplicado para uma bolsa individual da Fundação Mac Arthur e dizia, obsessivamente, que não ia nunca ser selecionada pois era comunista.

Eu, de meu lado, dizia, obsessivamente, que ela estava enganada. Como o impasse não tinha solução, encerramos a conversa apostando uma garrafa de uísque 12 anos.

Eu ganhei. Bebemos quase metade da garrafa alguns meses depois para comemorar.

Mas também me voltaram imagens da última vez em que a vi, no início de 2016, num almoço com Margareth Arilha, Jacqueline Pitanguy, Tania Lago e Valéria Pandjiarjian na casa de Elza Berquó.

Nesse dia, ela estava alegre e cheia de energia. Falou das plantas do seu jardim, das frutas do seu pomar, da vida quase rural que havia escolhido. Falou de seus filhos e filhas e netos, das amizades e inevitavelmente das políticas, a com “P” mas também as políticas em que estivemos juntas metidas por tanto tempo.

Como podíamos imaginar que ela ia partir?

Segunda feira, frente à tela, eu lia as notas de lamento, olhava fotos de Fátima e buscava mais notícias, circulando as que ia encontrando, mandando mensagens para saber mais.

Tudo muito rapidamente, pois tinha que seguir adiante, pois há sempre muito mais a fazer.

Até que, de repente, me dei conta de que essa brutal aceleração já não deixa espaço nem mesmo para o luto. Parei, me aquietei, senti o vazio. Fui atirada ao lugar da nossa precariedade comum.

Essa nota foi escrita para não evadir esse abismo, como um gesto encantatório que traz Fátima um pouco de volta, mas também como uma tentativa de romper a jaula da compressão temporal a que estamos hoje sujeitas.

Axé, Fátima.

Sonia Corrêa é pesquisadora associada da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e co-coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política/Sexuality Policy Watch

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ALAERTE MERTINS: “MULHER DE FIBRA, FORTE”

Com certeza, esta é uma merecidissíma homenagem!

Mas, sinceramenre, não consigo escrever nem dois parágrafos, pois fiquei sem palavras, surpresa, desde que soube do passamento.

Se você me conheceu, assim como outras pessoas neste país e fora dele, foi graças à persistência da Fátima na luta pela saúde das mulheres, especialmente a redução da morte materna, e das mulheres negras, tema que insistentemente ela me pedia para escrever.

Guardarei sempre a lembrança da mulher de fibra, forte. Segue aí a foto de nosso último encontro, na República Dominicana, em 2015.

Alaerte Leandro Martins é enfermeira obstétrica e doutora em Saúde Pública. Incentivada por Fátima, pesquisou para sua tese mestrado “Mulheres negras e mortalidade materna no estado do Paraná”. Depois, no doutorado, gestantes negras que não foram a óbito, mas que ficaram com graves sequelas

BEATRIZ GALLI: SEUS OLHOS DE ÁGUIA SEMPRE VIAM DE LONGE”

Fátima era uma mulher negra, guerreira e intensa.

Era incansável na luta pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e nunca deixava de pontuar o que poderia ser uma ameaça de retrocesso no nosso campo de luta.

Seus olhos de águia sempre viam de longe, com clareza.

Ela sempre esteve muito atenta e por muitas vezes lia nas entrelinhas o que de fato estava acontecendo.

Eu tive a oportunidade de conhecê-la, em 2004, em uma reunião das Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro.

Desde então, sempre esteve presente nas reações rápidas em análises afiadas sobre o contexto político nacional. Mesmo de longe, ela continuava presente.

Fátima, que falta você está nos fazendo!

Beatriz Galli é advogada e assessora de políticas para a América Latina do Ipas.

ANA MARIA COSTA: ‘LACUNA NA ESQUERDA E NO FEMINISMO POLITIZADO”

Fátima Oliveira foi mulher admiravelmente múltipla: militante, médica, mãe, escritora, formuladora e muito mais!

Sua partida deixa uma lacuna na esquerda e no feminismo politizado que luta por direitos e políticas universais.

Meu enorme respeito pela Fátima!

Ana Maria Costa é médica, professora e diretora do Cebes, que já presidiu.

Através do Viomundo, muitos leitores se encantaram com a Fátima. Acabaram se tornando muito próximos, amigos, mesmo, como Telmo Kiguel e Gerson Carneiro.

A convite nosso, eles também fizeram as suas homenagens.

TELMO KIGUEL: EM COMUM, A MEDICINA, AS DISCRIMINAÇÕES E A POLÍTICA

Conheci a Fátima há poucos anos no Viomundo e solicitei à Conceição o seu email. A partir daí, passamos a nos corresponder e acabei publicando aqui, em Porto Alegre, três textos seus: Médico branco racista e médica negra discriminada; Médica diz: o Conselho Federal de Medicina não me representa; E a médica não se corrompeu.

A partir daí, descobrimos vários interesses em comum e parecia que nos conhecíamos há muito tempo. E tudo isso só pela internet.

Finalmente veio a POA e tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente e a família. A impressão de “velhos amigos” foi confirmada. Um dia só foi muito pouco para o que tínhamos em comum: a medicina, as discriminações, a política, etc. Acabamos o dia numa floricultura em que ela me deu uma aula sobre uma de suas muitas paixões, os cactos.

Ao saber de sua morte, não descansei enquanto não falei com sua filha Débora para saber o que tinha ocorrido. Muito triste. Muita saudade.

Telmo Kiguel é médico psiquiatra e responsável pelo blog Saúde Publica(da) ou não, no portal Sul21

LUANA TOLENTINO: FÁTIMA ME ESTENDEU A MÃO

Fátima Oliveira parte, mas entre nós fica o legado de uma mulher que lutou de maneira incansável pelo SUS e pelas mulheres negras desse país. Como um mantra, guardo uma frase dita por ela: “A superação do racismo no Brasil exige uma faxina moral”. Guardo também a mais profunda gratidão. Fátima me estendeu as mãos no momento mais doloroso da minha vida. Fátima será sempre nossa grande Mestra!

Luana Tolentino é professora e historiadora; ativista dos movimentos Negro e Feminista.

GERSON CARNEIRO: TIVE A SATISFAÇÃO DE SER CORRIGIDO PELA FÁTIMA; CONHECI UM ANJO

“Nós nos conhecemos através do Viomundo por volta do ano de 2009.

Eu comentava os textos dela. Passamos a compartilhar mensagens no twitter e logo estávamos trocando mensagens privadas, onde falávamos sobre nossas observações do mundo e também dávamos gargalhadas. Sim, ela tinha um humor fino, inteligentíssimo.

Fazia bem ter a companhia dela, saber que ela gostava das minhas tiradas no twitter, gostava dos meus textos.

Ela era muito poética. Adorava cactos. Postou no twitter muitas fotos belíssimas de cactos. A admiração pelos cactos era um dos pontos de ligação entre mim e ela.

Em uma tarde de 2011, no começo do julgamento do mensalão, eu ainda estava dando expediente no trabalho e, de soslaio, acompanhei as pessoas, ela inclusive, comentando o início do julgamento.

Em um das oportunidades comentei:

— Se eu não tivesse nada pra fazer eu também iria acompanhar o julgamento do mensalão.

Ela soltou uma gostosa gargalhada:

— Kkkkkkkk… Deixe de ser invejoso.

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Cirúrgica, a Dra. Fátima acertou. Era só inveja mesmo.

Em outra oportunidade, ela disse, em público, que uma fala minha no twitter era machista. Tentei justificar. Ela rebateu: “É machista. Apague, senão lamentavelmente vou ter que deixar de seguir o amigo”.

Diante de tal aviso, na hora, claro, me curvei na hora. E tive grande satisfação de ser corrigido por ela. Um enorme prazer.

Há um ano deixei essa foto do Frido na caixa postal dela no twitter.

E mais uma vez fui presenteado com a sua gostosa gargalhada. Foi nossa última troca de mensagem.

Realmente, conheci um anjo.

— Por que anjo? –, alguns talvez questionem.

Por causa da autoridade dela advinda da retidão em que trilhou. Só tem verdadeira autoridade quem tem retidão de caráter.

E por isso ela tinha autoridade para com seus conhecimentos nos proteger na labuta em favor das causas que acreditamos e defendemos.

De longe e, ao mesmo tempo, tão perto, nos proporcionava acolhimento nas batalhas. Sua repentina partida deixou uma imensa lacuna. Sentiremos nesse tempo sombrio o qual estamos passando.

É como a ” Estrela”, de Gilberto Gil:

“Há de surgir

Uma estrela no céu

Cada vez que você sorrir

Há de apagar

Uma estrela no céu

Cada vez que você chorar

O contrário também

Bem que pode acontecer

De uma estrela brilhar

Quando a lágrima cair

Ou então

De uma estrela cadente se jogar

Só pra ver

A flor do seu sorriso se abrir

Hum!

Deus fará

Absurdos

Contanto que a vida

Seja assim

Sim

Um altar

Onde a gente celebre

Tudo o que Ele consentir”

Estrela – Gilberto Gil

Gerson Carneiro é frequentador assíduo das redes sociais.

Curiosamente, até no seu “encantamento” Fátima Oliveira nos juntou, obrigando-nos a refletir sobre lutas passadas.

Mas também sobre o aqui e agora: só juntos teremos condições de enfrentar e buscar as saídas para a destruição do SUS, dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres brasileiras.

Fátima Oliveira, presente!

Fonte: Viomundo
Por: Conceição Lemes

O Grande Médico que saiu de Rio Pardo para o Mundo.

 Aos 74 anos, Ciro Carlos de Araujo Quadros, esse pequeno grande gaúcho, natural de Rio Pardo, faleceu dia 29 de maio de 2014 em Washington D.C, onde residia. Veio jovem ainda para Porto Alegre, tendo ingressado na Faculdade Católica de Medicina no ano de 1961(Hoje Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde) e fez parte da primeira turma de formandos no ano de 1966.

Em 1967, decidiu-se pela Saúde Pública e contratado pela Fundação de Serviços de Saúde Pública foi trabalhar como médico-chefe da Unidade Sanitária da Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP) em Altamira, interior do Pará.

Em 1968 pós graduou-se  como Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.

Em 1969 implantou a Unidade de Vigilância Epidemiológica do  Paraná , responsável para investigação e bloqueio de surtos de varíola, como parte da Campanha de Erradicação.

Em 1970 , foi contratado como “Chief Epidemiologist” pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para coordenar a erradicação da varíola na Etiópia . A partir daí o  Dr. Ciro de Quadros, como ficou mundialmente conhecido, começa sua trajetória para o reconhecimento mundial como um dos maiores nomes da área de saúde pública. Foram sete anos de trabalho na Etiópia e apoiando outros países africanos e asiáticos, como a Somália e Bangladesh.

 

O Dr. D.A, Henderson que foi o chefe na Organização Mundial da Saúde(OMS), da campanha de erradicação da varíola no mundo, declarou para o Washington Post no dia 30 de maio: “Na Etiópia, os obstáculos foram inacreditáveis – o imperador assassinado, dois grupos revolucionários em luta, nove de suas próprias equipes sequestradas, até um helicóptero capturado e mantidos como reféns. Ciro manteve as equipes em campo – e o piloto do helicóptero saiu para vacinar todos os rebeldes. “

Em 1977, em função de seu exitoso trabalho na África e Ásia foi contratado como Assessor do programa de imunizações e assumiu a chefia do Programa Ampliado de imunizações (PAI), em Washington. Viajou por todos os países latino-americanos  para  estabelecer protocolos de vacinação, universalmente reconhecidos. Dentre os inúmeros acertos do PAI, está a realização da  Campanha de Erradicação da Poliomielite  em todos os países latino-americanos com base no exitoso modelo brasileiro de Campanha de Vacinação contra a Poliomielite .

“”Eu acho que o Ciro realizou nas Américas foi nada menos que um milagre”, disse Henderson. “Eu nunca vi qualquer outra pessoa fazer o que Ciro fez.”

Em 1994 foi nomeado diretor do Programa Especial de Imunização e Vacinas da OPS e entre 1999 e 2002, ano de sua jubilação, foi diretor da Divisão de Vacinas e Imunização da Organização.

Em 2003 assume o cargo de Vice-Presidente executivo do Sabin, Vaccine Institute.

O sucesso do modelo de campanha de vacinar toda a população menor de cinco anos em um dia, levou à erradicação da poliomielite da Região das Américas e os programas de vacinação ao controle ou eliminação de todas as doenças, principalmente as da infância, passíveis de prevenção pelo uso de vacinas.

Se o mundo flerta com a erradicação da poliomielite, doença que provoca a paralisia infantil e faz você correr com seu filhinho aos postos de saúde para “tomar a gotinha”, saiba que por trás disso está um homem nascido há 72 anos, em Rio Pardo, às margens do Rio Jacuí. Ciro de Quadros, epidemiologista formado na atual Universidade Federal de Ciências da Saúde, hoje, 99% do planeta está livre da doença — incluindo toda a América Latina”. Um dos líderes da campanha mundial pela erradicação da pólio, Quadros é vice-presidente do Instituto Sabin e morou em Washington. A cada frase ele demonstra, no conteúdo, a humildade de quem não sente necessidade de alardear conquistas. Na forma, o sotaque, especialmente nos finais das frases, indica: já faz décadas que vive nos EUA, onde teve suas duas filhas.

 
Força de Gates

O milionário e filantropo americano Bill Gates, fundador da Microsoft, sensibilizou-se pela causa de Quadros e abriu a carteira. O anúncio foi feito na casa onde um dos mais importantes líderes da história mundial, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt, tratou-se da pólio. Roosevelt, aliás, foi uma exceção: pegou a doença aos 39 anos. Na maior parte das vezes, quem a contrai são crianças, o que a leva a ser conhecida também pelo nome de paralisia infantil — sua letalidade alcança entre 5% e 10% dos infectados pelo vírus.

A entrada de Gates na campanha elevou o otimismo do gaúcho, que teve um encontro com o “mecenas da pólio”. Por essas e por outras, a previsão de dois anos para a erradicação. Depois, mais alguns anos, segundo ele, para a tal da gotinha se tornar página virada da história familiar de cada um de nós. (Trecho de entrevista concedida à ZH em 2012)

 

O Dr. de Quadros , o homem que saiu de Rio Pardo para o mundo, liderou o desenvolvimento da vigilância epidemiológica e estratégias bem sucedidas para a erradicação da varíola no mundo, e erradicação da poliomielite e do sarampo na Região das Américas.

O ser humano

            Desde os tempos da Faculdade Católica de Medicina na década de 1960, em Porto Alegre, Ciro manteve seu jeito simples e brincalhão. Sempre com o sorriso aberto e uma incrível disposição para o trabalho. Agregador por natureza, por onde andou deixou amigos e reconhecimento. Volta e meia nos pagos reunia-se com seus colegas de turma e o destino era um bate-papo descontraído,  para matar a saudade, acompanhado do churrasco, do qual não abria mão.

Na Organização Pan-americana da Saúde, comandou desde Washington uma equipe de consultores sediados em quase todos os países latino-americanos, envolvidos em atingir as metas do Programa Ampliado de Imunizações. Conhecedor profundo da área e com grande capacidade de liderança tinha o respeito e a admiração de seus comandados.

Seu imenso saber o levou a conquistar reconhecimento acadêmico.

Foi Professor Adjunto Associado da Escola Johns Hopkins de Higiene e Saúde Pública, em Baltimore , e Professor Adjunto do Departamento de Medicina Tropical da Faculdade Universidade George Washington de Medicina e Ciências da Saúde em Washington, DC

Participou de mais de 100(cem) conferências em todo o mundo e recebeu inúmeros prêmios internacionais, alguns aqui mencionados:

Recebeu o Prêmio Príncipe Mahidol da Tailândia (1993)

Medalha de Ouro Albert B. Sabin (2000).

Prêmio Fundação BBVA Fronteiras do Conhecimento na categoria de Cooperação e Desenvolvimento, por liderar a eliminação da poliomielite e sarampo das Américas e por ser um dos cientistas mais importantes na erradicação da varíola em todo o mundo.

No Brasil foi premiado com a mais alta láurea concedida a civis, a Ordem do Rio Branco.

Recebeu, o Título de Doutor Honoris Causa pela Fundação Oswaldo Cruz e o mesmo título pela Faculdade de Medicina da Universidade de Ciências da Saúde em Porto Alegre.

Condecorado com a Medalha Oswaldo Cruz na categoria Ouro.

No Rio Grande do Sul foi agraciado com a medalha “Negrinho do Pastoreio”

Citações em revistas de Saúde Pública

“A varíola foi talvez a doença mais terrível que assolou a humanidade até que, em uma obra mestre de coordenação e esforço internacional, ela foi erradicada. O Dr. Ciro de Quadros teve um papel muito importante neste processo, pelo qual poderemos aprender não somente os fascinantes aspectos históricos desta experiência, mas também os  ensinamentos para as campanhas em curso de controle e erradicação de outras doenças”. Ciro de Quadros citado em a Saúde do Mundo em 1980.

Citações de Ciro Quadros

“O que se sente ao contribuir para erradicar uma doença que causou milhões de mortes é indescritível. Se tem a sensação do dever cumprido e anima a continuar trabalhando para melhorar a saúde global”, declarou em 2012 ao receber o prêmio da Fundação BBVA.

“O século XXI será conhecido como o século das vacinas.  Às muitas que já temos é preciso somar as que estão sendo pesquisadas como, por exemplo, contra o câncer de estômago ou de fígado. Há doenças que consideramos crônicas ou degenerativas e que começamos a descobrir que são devidas a agentes infecciosos contra os quais podem ser criadas vacinas”.

“Se o campo da epidemiologia fosse o da música, a equipe que trabalhou para a erradicação da varíola seria nada menos que os Beatles”.

Citações de colegas:

“Uma figura merecedora de todas as homenagens, como o maior líder da Saúde Pública de nossa geração”. João Baptista Risi Jr.

“Fico muito triste com esta notícia. Desde então minha memória, seguidamente, tem trazido  imagens do Ciro em vários momentos da nossa convivência. Sempre o mesmo, afetuoso, sorridente, orgulhoso com o seu trabalho na   prevenção de doenças e feliz com sua família. Choro quieto a dor desta perda e me sinto privilegiado por ter sido contemplado pela sua amizade.” Saul Cypel

“A Saúde Pública está de luto.”  José Fiusa Lima

 

Fica a lembrança do grande médico que foi, orgulho para nossa medicina, faculdade e AD66. Edmundo Laranja

 

O falecimento do Ciro me entristece muito. Guardarei algumas lembranças que o distinguia entre nós. Mauro Keiserman.

 

Não conheço médico brasileiro que tenha recebido esta distinção. Leopoldo Piegas, referindo-se à página inteira de entrevista concedida por Ciro Quadros à Revista The Lancet, em 2001, uma das mais importantes revistas de medicina do mundo).

Grande figura. Eu me orgulho de ter sido influenciado e depois ter passado a pertencer à geração de sanitaristas que ele tão bem representava. Jair Ferreira.

Ciro Carlos de Araujo Quadros, deixou um legado de liderança e simplicidade,  afável e decidido, um mestre na formação e no exemplo, um homem a serviço da humanidade.

 Airton Fischmann, médico

Mestre em Saúde Pública

Ex-consultor da Organizacão Panamericana da Saúde 

 

Sua Vida Daria Um Filme

 

Quantos o teriam conhecido? Muitos? Poucos? Na área da saúde publica brasileira e internacional, posso garantir que quase todos.

Médico, sanitarista, epidemiologista.

Uma personalidade inesquecível. Um humanista.

Estou me referindo a Claudio Marcos da Silveira

No dia de sua despedida, Marquinhos, seu filho, disse: a vida de meu pai daria um filme.

Cresceu na periferia de Porto Alegre, e desde jovem trabalhou para compor a renda familiar. Nos anos de 1960, começou seus estudos em medicina. Nessa época iniciou a fazer política estudantil e como vice-presidente do Centro Acadêmico XXII de Março (C.A) da então Faculdade Católica de Medicina é destituído de seu cargo e detido pelo golpe militar de 1964. Chegou a prestar depoimento no antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), passagem muito bem descrita no livro de Eduardo de Azeredo Costa (então o presidente do C.A.), “50 Anos Dessa Noite”. O Pai de Eduardo era o famoso médico e professor, Rubens Mena Barreto Costa, ex-militante do PCB e homem que desfrutava de grande amizade com Leonel Brizola. O Arcebispo Dom Vicente Scherer, era paciente do Dr. Rubens. Isso explicaria a liberação da dupla de estudantes progressistas das “garras” do DOPS.

Foguinho, esse o seu apelido na Faculdade. Os cabelos cor de fogo, que no futuro iriam rarear, o identificavam facilmente. Colega, amigo e solidário. A solidariedade é algo que o acompanharia por toda a vida. Cinco ou seis anos mais velho que a maioria dos seus colegas de turma e com alguma experiência de vida, lhe conferiram o merecido rótulo de paizão. Sempre disposto a ajudar e a participar das causas mais “cabeludas”.

Passado o “episódio DOPS”, o brizolista Claudio Silveira, não abandonou a participação política, sempre em busca de horizontes mais dignos que ajudassem a acabar com a ditadura militar implantada no Brasil.

No entanto, o Curso de Medicina aproximava- se de seu epílogo e havia que enfrentar uma nova realidade: a prática da medicina. Decidiu-se pela psiquiatria e cursou residência médica nessa especialidade no Hospital Psiquiátrico São Pedro em 1968 e 1969.

Mas, o seu comprometimento com o social       e a importância que dava à saúde coletiva,  e aos componentes sociais e econômicos na determinação da  saúde e da doença, o levaram para a Saúde Pública. A Campanha de Erradicação da Varíola no Brasil e especificamente no Rio Grande do Sul, como parte dos esforços mundiais para a Erradicação da Varíola foi um chamamento maior. Abandonou a psiquiatria e ingressou no quadro de funcionários da Secretaria da Saúde (SES) em um Convenio que o Estado realizava com A Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP) do Ministério da saúde.

Começava o que seria a grande meta de sua vida profissional: o trabalho de campo, junto às comunidades mais carentes sempre com a máxima de que “é melhor prevenir do que remediar”.

Como parte da política de capacitação de pessoal da SES cursa em 1970 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Ao regressar assume provisoriamente a  direção da Unidade de Vigilância Epidemiológica em substituição ao Dr. Clovis Heitor Tigre que realizava sua especialização no exterior.

Deixou então registrada sua primeira grande atuação na saúde pública: coordenou a primeira vacinação em massa contra a poliomielite no Rio Grande do Sul, e realizada em muito curto espaço de tempo. Os efeitos se fariam observar com a acentuada diminuição dos casos nos anos seguintes. Futuramente, essa atividade se transformaria nos “Dias Nacionais de Vacinação”.

Viajou por todo o Estado, inicialmente, investigando surtos de varíola e casos de poliomielite. Esse tipo de trabalho não tinha dia e hora para terminar. Acabava quando não havia mais pistas ou a fonte do surto era identificada.

Mais tarde, em 1975, assumiu a direção do Instituto de Pesquisas Biológicas, modernamente conhecido como Laboratório Central do Estado, onde permaneceu como diretor até 1978. Aqui vale a pena abrir um parêntesis: Claudio era um estudioso  e um consumidor voraz de livros. Ainda quando estudante  prestou concurso para o Estado e foi aprovado como Auxiliar de Laboratório de Toxicologia do Instituto Médico Legal. Essa familiarização com a bioquímica, farmacologia e citologia conhecimentos básicos para o entendimento da  toxicologia facilitaram a sua identificação com um perfil adequado ao cargo de Diretor de IPB, claro, somado as suas excelentes capacidades gerenciais. Não foi surpresa, que, embora militante da Saúde Coletiva, fizesse seu mestrado na UFRGS, em Ciências Biológicas.

Inicia sua experiência como consultor da OPS/OMS em países da América Latina, para avaliar a erradicação da varíola.

Ainda restavam vários países na África e na Ásia onde a doença era endêmica. A Organização Mundial da Saúde necessitava especialistas com experiência de campo e Claudio Silveira é contratado como consultor para trabalhar em Bangladesh e posteriormente na Somália. Nesses países viajou até os mais longínquos rincões, para a identificação de casos e vacinação de contatos, deslocando-se nas mais adversas condições, de jeep, a cavalo, barco e a pé. Futuramente, seria agraciado pela OMS com a honraria da “Ordem da Agulha Bifurcada”.

Politicamente engajado, coordenou a equipe que elaborou o Plano de Saúde da candidatura de Alceu Collares para a Prefeitura de Porto Alegre, sendo o seu Secretário Municipal de Saúde, no primeiro ano da administração.

Mas, enfrentar desafios era uma de suas muitas virtudes. Aceitou o convite da Organização Panamericana da Saúde (OPS), para prestar consultoria à Superintendência de Campanhas (SUCAM) do Ministério da Saúde, à época em que José Fiusa Lima era o diretor. Desta vez, a malária era o alvo. Entre idas e vindas, durante seis meses, embrenhou-se pela selva amazônica buscando elos na cadeia epidemiológica que explicassem melhor o comportamento da doença no ser humano, uma vez que toda a ênfase era dada somente à eliminação do mosquito. Como quase todos que se dedicavam a essa tarefa, adquiriu a doença, da qual se recuperou.

Sua experiência o levou a trabalhar como consultor permanente da OPS, com sede em Washington, como epidemiologista do Programa Ampliado de Imunizações (PAI). Além de assessorar na condução da erradicação da poliomielite, Claudio Silveira coordenou o Programa que visava à eliminação do tétano neonatal e de outras doenças abrangidas pelo PAI. Durante dez anos viajou pelo continente americano, apoiando os Ministérios de Saúde. Também foi consultor externo para a avaliação do Programa de erradicação da Poliomielite na Índia.

O jeito simples, o diálogo fácil, e o grande conhecimento técnico o tornaram um consultor altamente requisitado pelos governos latino-americanos e o anuncio de sua chegada aos países despertava uma expectativa muito favorável nos funcionários dos Ministérios de Saúde.

Mesmo depois de sua jubilação pela OPS, continuou sendo convidado para diversas consultorias de curto-prazo, tanto no Brasil, como no exterior. Em 2003 foi contratado pela OMS para revisão de dados clínicos e epidemiológicos na América Latina e no Caribe para a determinação da segurança clínica no diagnóstico da caxumba. Suas últimas consultorias internacionais foram no México e em Cuba para avaliação do Programa de Imunizações.

Há quase dois anos o Claudio nos deixou, quando o nosso grupo de antigos colegas e companheiros, aposentados, se reunia para discutir sobre políticas de saúde e, imodestamente, sugerir soluções para os intrincados meandros da política nacional e internacional. Ainda não havia sido lançado, pelo Ministério da Saúde, o “Programa Mais Médicos”, na defesa do qual estou certo que ele se engajaria.

Mais do que suas qualidades técnicas e humanas que tentei descrever de forma muito resumida, Claudio foi um pai maravilhoso, testemunha que sou do convívio de mais de 40 anos com sua querida esposa Rosilda e seus filhos Eduardo e Marcos.

Fica faltando o filme, para isso precisaremos de um cineasta.

O “trailler”, já o temos.

Extraído do site : http://imagempolitica.com.br/site/.

Airton Fischmann, médico,

Mestre em Saúde Pública,

Ex- consultor da Organização Panamericana da Saúde.