Avanços no catolicismo, os evangélicos e a política

O presidente Bolsonaro, que considera a Igreja Católica um perigo, e em aliança política com líderes das Igrejas Evangélicas, ordenou à espionagem interna vigiar as atividades do sínodo da Amazônia convocado pelo Papa.

O diácono permanente Afonso Brito, e sua esposa, Socorro Oliveira, em Manaus TONI PIRES

O fim do celibato, a revolução católica que se inicia na Amazônia

Papa convoca bispos da região e especialistas para discutir neste mês de outubro em Roma a ordenação de padres casados e como proteger o ecossistema e seus habitantes

Nenhum deles tem aspecto de revolucionário, mas vocação. São casais felizes cujos filhos os tornaram avós. Maria Ana Albuquerque, professora indígena piratapuia aposentada, que durante anos viajou de barco para aldeias isoladas da Amazônia brasileira para dar catequese e levar a comunhão aos paroquianos que só veem o padre uma vez por ano ou, na melhor das hipóteses, a cada vários meses. Fiéis devotos como Denis Goma da Silva, 41 anos, indígena tucano, pai de família, que ganha a vida como segurança e, há uma década, assume uma infinidade de tarefas eclesiásticas e, inclusive, quando não há padre, celebra a missa o mais próximo possível que as normas permitem. Ou Socorro Oliveira, de 54 anos, casada com um diácono permanente, o mais semelhante a um padre católico. A principal diferença é que ele não pode dar a eucaristia, a extrema unção nem a confissão. Todos gozam da confiança de seus bispos e de suas comunidades, mas querem que o Vaticano vá mais longe.

Os católicos da Amazônia conseguiram que o Vaticano debata oficialmente uma proposta de ordenar homens casados como sacerdotes e mulheres como diáconas. Eles aceitaram o desafio do Papa quando este convocou bispos para um sínodo e pediu propostas “corajosas e inovadoras” para proteger a natureza e os habitantes deste imenso território, de paróquia dispersa, carente de padres e de vocações, e terreno fértil para os evangélicos. A reunião acontece neste mês de outubro no sínodo da Amazônia, que será realizado a 9.000 quilômetros daqui, em Roma.

Se Francisco abençoar a proposta, seria um passo com potencial revolucionário porque significaria o fim do monopólio do celibato adotado há um milênio na Igreja Católica Apostólica Romana. O sínodo, no qual o Pontífice e os bispos da Amazônia também discutirão como proteger as populações nativas e esse riquíssimo conjunto de ecossistemas, deixa os católicos brasileiros tão ocupados quanto esperançosos. As assembleias preparatórias acontecem há meses. Uma das últimas foi em Manaus, uma das cidades mais perigosas do Brasil, que, no entanto, possui um espetacular teatro de ópera, herança do esplendor da borracha. Cidade incrustada em uma paisagem de densa vegetação e rios sinuosos, as estradas asfaltadas são uma raridade e o trem é inexistente. Viaja-se de barco.

Antes de partir para Roma, o bispo de São Gabriel da Cachoeira, Edson Damian, de 71 anos, detalha durante a reunião de Manaus quem essa proposta tem em mente. “São esses líderes que estão à frente de comunidades isoladas, que há muito tempo celebram a palavra, que transmitem a catequese… Queremos que com a formação devida possam ser ordenados padres e que a eucaristia esteja presente em vez de negá-la como agora.” O documento de trabalho do sínodo, resultado de um longo processo de assembleias no qual participaram 87.000 pessoas dos nove países em que se estende a região, precisa que esses novos padres devem ser “preferencialmente indígenas”, “mesmo que tenham família constituída”. Trata-se de que os sacerdotes vivam com seus paroquianos nas aldeias mais isoladas, aonde agora vão em visitas esporádicas e rápidas.

O celibato não é sacrossanto em todos os ritos católicos. E nem sempre foi obrigatório na Igreja de Roma. “Seria resgatar o que funcionou durante 1.100 anos”, diz por telefone de Cruzeiro do Sul, outra diocese da Amazônia, seu bispo, Flavio Giovenale. Além disso, enfatiza o religioso nascido na Itália, apenas dois ou três dos 23 ramos do catolicismo não têm padres casados. Para os maronitas do Líbano ou os coptas do Egito, o casamento não os afasta do sacerdócio. Ressalta que também houve diáconas. Foi séculos antes da descoberta da América, aonde os missionários católicos chegaram com os conquistadores em 1500. A primeira coisa que os portugueses fizeram quando pisaram no que seria o Brasil foi celebrar uma missa.

O bispo Damian deixa claro que, se a proposta for adiante, os padres casados seriam apenas para a Amazônia. Entre a hierarquia e fiéis da Igreja do Brasil —a maior do mundo, embora em declínio, são 62% da população— ninguém menciona que seus colegas alemães —a Igreja mais rica do mundo— decidiram discutir o celibato, a ordenação de mulheres e a homossexualidade apesar da oposição do Vaticano.

A atual conjuntura —com a emergência climática no centro da agenda pública e a eleição de um presidente de extrema-direita no Brasil— deu uma inesperada relevância política ao sínodo convocado em 2017 por este Papa ecologista para analisar como preservar a floresta tropical, seus habitantes e o catolicismo em um território onde as muito dinâmicas igrejas evangélicas e os interesses econômicos predatórios —um adjetivo repetido pela Igreja— avançam velozmente.

O presidente Jair Bolsonaro, que considera a Igreja Católica um perigo para a soberania nacional, ordenou à espionagem interna vigiar suas atividades na Amazônia. “A Igreja não é maçonaria, não temos nada a esconder, que venham ver. Gostaríamos que todas as instituições participassem da defesa dos povos mais frágeis e da Amazônia”, afirma Damian. Muitos brasileiros indígenas como Silva acreditam que o Papa intercederá por eles. “Precisamos que nos defenda porque estão retirando nossos direitos e nossas terras. E as ONGs se preocupam com a natureza, não com as pessoas que vivem nela.”

O marido de Oliveira, Afonso Brito, 54 anos, foi um dos primeiros homens casados ordenados diáconos permanentes na Amazônia. Hoje eles são 418. Ela o acompanha desde o início. “É nossa tentativa de povoar espaços onde não existe um padre oficial”, diz ele. Ambos fazem trabalho pastoral, mas, como explica Oliveira, o Vaticano não os trata da mesma maneira: “Nos formamos juntos, mas não me impuseram as mãos. Embora o bispo diga que eu automaticamente também sou”, acrescenta rindo. Se Francisco aceitar ordenar diáconas, pouco mudaria na rotina dessas mulheres. Trata-se de oficializar o que já fazem.

Como as vocações são insuficientes nesta terra com muitos bispos vindos da Europa décadas atrás, acrescentar pais de família e mulheres é visto como uma solução. “Seria uma mudança muito necessária porque temos realidades muito negligenciadas”, explica a socióloga Marcia Oliveira desde Boa Vista, também na Amazônia brasileira. “A Igreja perdeu em 30 anos metade do que foi conquistado em 500 anos de evangelização”, diz esta professora que participará do sínodo como especialista. “Ou muda seus métodos e legitima as pessoas que acompanham os fiéis ou continuará perdendo muito espaço”, adverte.

Um bispo indígena

O bispo Damian sonha que seu sucessor à frente da diocese de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Colômbia, seja indígena. É o que deveria acontecer, diz, porque é uma das que têm maior proporção de fiéis nativos. Seis deles, cada um de uma etnia, participaram com ele da reunião com outros religiosos, leigos e bispos em Manaus. Percorrer os 800 quilômetros que separam as duas cidades leva de dois a quatro dias de barco. Depende se você pegar o rápido ou o barato. Os privilegiados podem chegar de avião. Graças a essa distância, é uma das que melhor resistiu ao ataque das ágeis igrejas evangélicas.

Embora o presidente Bolsonaro tenha sido batizado na fé católica como bom descendente de italianos e permaneça fiel ao Vaticano, forjou uma estreita aliança política com os principais líderes das igrejas evangélicas. Sua hostilidade à hierarquia católica é evidente desde a campanha eleitoral. Ele os considera esquerdistas. O ultradireitista admitiu recentemente que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) vigiou os preparativos do sínodo, porque o Governo é extremamente sensível à questão da soberania da Amazônia e considera que o encontro com o Papa “tem muita influência política”. Os bispos estão cientes dessa desconfiança, que atribuem aos enormes interesses econômicos e políticos que a questão implica, e por isso realizaram vários encontros com representantes das Forças Armadas. A agência de inteligência chamou os representantes da Caritas para que explicassem em primeira mão seu trabalho. Algo que nunca tinham sido feito.

Embora a hierarquia católica não mencione os evangélicos, a Igreja está perfeitamente consciente da eficácia com que essas novas igrejas de inspiração norte-americana entram nas comunidades indígenas. Num piscar de olhos formam e enviam um pastor, uma pastora ou um casal de pastores que fica para viver entre os fiéis. E lá estão eles com a paróquia nas alegrias e nas tristezas. Coisa que não acontece com os católicos, que podem contar com seus sacerdotes para celebrar casamentos e batizados, mas não nos piores momentos, quando ficam doentes ou enfrentam a morte.

A Assembleia de Deus, a mais poderosa das igrejas evangélicas do Brasil, nasceu na Amazônia em 1911. Mas existem cultos focados exclusivamente nos indígenas, como a Missão Novas Tribos do Brasil, que criou mais de cem igrejas lideradas por membros pertencentes a 44 das mais de 300 etnias do Brasil, segundo seu site.

Gerardo Trinidade, 31 anos, é uma raridade entre os padres brasileiros porque é indígena. Ele é baniwa. Ordenado há um ano, se ocupa de 17 comunidades rodeadas por aldeias onde os evangélicos são maioria. “Só as visito quatro vezes por ano e são visitas muito apressadas”, explica ele em Manaus. Basicamente, ele chega, faz uma reunião, joga uma partida de futebol com os aldeões, mostra um filme, faz uma palestra, celebra a missa, administra a comunhão… Quando anoitece, pega a lancha para a próxima comunidade.

A última palavra é do argentino Jorge Bergoglio, o primeiro latino-americano e jesuíta do papado. Há muito em jogo dentro e fora da Amazônia. No fim da última missa que reuniu os participantes do encontro pré-sinodal, os fiéis de São Gabriel fizeram um ritual indígena para proteger seus bispos durante a missão no Vaticano.

Fonte:  EL PAÍS Brasil
Por: Naiara Galarraga Gortázar
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Apaixone-se por alguém que defenda os direitos humanos

Começamos a valorizar as pessoas que nos cercam por razões sobre as quais nunca havíamos refletido. Nunca ouvi nenhuma amiga minha dizer que seu parceiro (ou sua parceira) ideal deveria ser a favor da democracia e não deveria defender a tortura. Alguém que compre briga pelas minorias às quais ele nem pertence.

O resto é detalhe

Ao longo da vida, talvez por arrogância, talvez por pressão social, começamos a elencar dezenas de características ideais que esperamos encontrar num potencial parceiro. Precisa ser alto. Mas não pode ter mais de 1,85. Pode ser grisalho, mas não pode ser careca. Gosto de narizes com personalidade. Precisa ter no máximo 5 anos a mais que eu e até 2 a menos. É bom ter um trabalho estável e ser motivado. Também era importante que não morasse muito longe de mim. Deve gostar de viajar, de comer comida japonesa e de ler biografias.

De fato, esse período de trevas que o Brasil vem atravessando é ruim em muitíssimos aspectos. Mas não dá para negar que há um lado interessante:começamos a valorizar as pessoas que nos cercam por razões sobre as quais nunca havíamos refletido. Nunca ouvi nenhuma amiga minha dizer que seu parceiro (ou sua parceira) ideal deveria ser a favor da democracia e não deveria defender a tortura. Sei lá, a gente achava que isso já vinha incluído no pacote básico, não é mesmo?

Mas no meio dessa loucura toda, como diria Jout Jout, parece que pré-requisito virou diferencial. E coisas que sempre nos passaram batidas, passaram a merecer uma atenção- quiçá até uma gratidão- especial.Olhar para nossos parceiros e lembrar que são pessoas que se opõem à violência e à truculência, passou a ser um alívio imenso, quase um oásis no meio do caos.

Por isso, se eu pudesse, hoje, dar um conselho aos mais jovens- e a qualquer outro solteiro que esteja sassaricando por aí- ele seria: apaixone-se por alguém que defenda os direitos humanos. Alguém que compre briga pelas minorias às quais ele nem pertence. Uma pessoa que berre que tá todo mundo doido, que violência não se resolve com violência. Alguém que não tenha medo de se posicionar.

No fundo, a gente percebe o quão pouco importa a aparência física, a estabilidade do emprego, o endereço. De que adianta um belo par de olhos verdes, se eles não enxergam tudo o que está acontecendo? De que interessa um currículo fantástico se toda a formação e a experiência não serviram para ter análise crítica? De que interessa um peitoral definido se dentro dele não tem empatia e solidariedade? De que adianta uma bela casa se dentro dela não se ouvem diálogos em defesa da democracia?

A verdade é que são tempos para a gente repensar muita coisa. Nossas prioridades, companhias, discursos e batalhas. Mas também é tempo de ser grato por cada dose de lucidez com a qual esbarramos nos nossos dias. Tempo de criar novos laços, frutos de uma identidade tão básica como a luta contra o retrocesso social.

Jovens, apaixonem-se por alguém que defenda os direitos humanos. E que se preocupe com os gays mesmo sem ser gay. E que defenda os índios sem precisar sem índio. E que tome as dores dos negros como suas, mesmo se for branco. E que lute pelos direitos das mulheres. E que defenda o Estado laico ao mesmo tempo que respeita a diversidade religiosa. E acolha os imigrantes. E que busque compreender os anseios das pessoas com deficiência. Vai por mim. Corpo bonito, dinheiro sobrando, vários diplomas, alta performance nos esportes. Nada disso pode ser mais delicioso do que chegar em casa e encontrar uma pessoa realmente legal deitadona no sofá.

Permitir aos padres apaixonados que se casem. Francisco pondera uma grande virada

“…o papa Francisco teria dito que entre as mudanças que mais lhe interessavam introduzir havia a abolição do vínculo do celibato para os padres”

Não se trata de vê-lo como remédio contra a pedofilia, mas como uma escolha para garantir sacerdotes apaixonados por sua vocação em tempo integral com outros casados em apoio do ministério e da própria família. Um livro deixa entender que, talvez, tenha chegado à hora certa para uma decisão do papa esperada por todos. O problema será abordado em 2019 no Sínodo sobre a Amazônia

A reportagem é de Carlo Di Cicco, vaticanista, publicada por Tiscali, 22-10-2018.

Poderia ser Francisco o papa que irá desatar o intrigado nó do celibato obrigatório para os padres na Igreja Católica do rito latino. Essa é, de fato, uma grande questão que vem atravessando toda a história da Igreja, especialmente a partir do século IV e a atitude escolhida em relação ao celibato dos padres amadureceu ou entrou em crise, segundo que a Igreja vivesse com mais força o valor da espiritualidade ou se adequasse ao modo de vida mundano.

A questão do celibato obrigatório para os sacerdotes na Igreja adquiriu novo vigor neste momento em que a opinião pública mundial está chocada pela revelação dos muitos casos de pedofilia do clero que, embora em percentual mínima em relação ao conjunto dos sacerdotes, está causando dor e desorientação entre os fiéis laicos. Pedofilia e celibato não têm nada em comum e um não é causa da outra, mas como ambos tocam a sexualidade e seu exercício, no sentido comum das pessoas são confusamente associados, multiplicando o escândalo.

O celibato para os padres decidido pela Igreja

Na verdade, desde a Segunda Guerra Mundial, a questão do celibato obrigatório como condição para se tornar padres na Igreja Católica Latina, a mais difundida no mundo e especialmente no Ocidente, começou a ser criticada, discutida, revista em círculos cada vez mais amplos. E um número crescente de vozes a partir de baixo e da própria hierarquia se pronunciaram em favor de uma revisão da lei que prevê a possibilidade de ser padre tanto a solteiros como a casados. Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), as vozes favoráveis a uma mudança aumentaram continuamente. Tanto a sugerir que poderia ser o próprio Francisco o papa que, com prudência e visão do conjunto, poderia iniciar uma experimentação prática nessa direção. Imagina-se que a ocasião para uma abertura como essa poderia surgir no outono de 2019, no Sínodo sobre a Amazônia, uma região imensa onde a escassez de padres e as dimensões gigantescas e complicadas em que estão dispersas as comunidades cristãs, torna difícil, quase impossível as suas celebrações religiosas, às quais eles também têm direito incontestável.

O problema dos padres destituídos

Uma das fontes à disposição de Francisco para tomar com toda a seriedade uma decisão desse tipo revelou-se um belo livro sobre a questão do celibato na igreja publicado recentemente. Foi escrito pelo jornalista Enzo Romeo, um especialista em Vaticano que estuda, se atualiza e verifica a confiabilidade de suas fontes. O resultado foi um livro interessante e confiável introduzido por uma minuciosa panorâmica do problema da destituição dos padres, assinada por Gianni Gennari, teólogo conhecido e padre romano, que teve que deixar o ministério depois de se apaixonar por uma mulher com quem se casou quando chegou a dispensa do celibato.

O livro de Romeo, confiável e excelente síntese sobre toda a questão do celibato, é resumida no título: “Lui, Dio e Lei” (Ele, Deus e Ela, 254 páginas), publicado pela Rubettino. Uma mina de informações, notícias, depoimentos, detalhes, citações estendidas em forma de narrativa que contam a evolução histórica de uma questão cada vez mais importante para compreender o cerne do problema do evangelho. Não que o celibato seja o coração do Evangelho, que continua sendo, é claro, o amor de Deus pelos homens, manifestado em Jesus e a missão de anunciar a misericórdia de Deus, que quer que todos os homens sejam salvos e conhecedores da verdade.

Amor, sexo e sacerdócio

Mas o celibato é uma perspectiva importante em pensar a fé e, portanto, a compreensão que foi se acumulando nos séculos de celibato levou a considerá-lo uma questão de amor. Enquanto nos séculos passados tratava-se de esclarecer a relação entre os eclesiásticos com as mulheres, após o Concílio Vaticano II tornou-se insistente, até mesmo no magistério da Igreja, enfrentar o problema do celibato como um problema de amor, ao invés de sexualidade. De fato, o amor representa a capacidade e a disponibilidade da pessoa de doar-se totalmente, enquanto a sexualidade pode ser vivida mesmo em uma condição de grande egoísmo que reduz as outras pessoas a instrumentos do próprio prazer. A obra de Romeo é valiosa pela simplicidade e clareza e coloca em foco essa grande verdade, levando, sem intenções apologéticas tendenciosas, a concluir que resolver a questão do celibato obrigatório não é uma concessão para a mundanidade, mas a demanda por uma responsabilidade e coerência mais radical com as escolhas da vocação de cada um. As citações do livro sobre o ensinamento dos papas do pós-concílio não por acaso colocam em paralelo a vida matrimonial e a vida missionária dos sacerdotes: nem uma nem a outra têm uma solução humana e não trazem felicidade para a pessoa se não forem vividas por amor. Para ambas as escolhas é preciso estar preparados, não é possível improvisar.

Por que impor uma regra nunca escrita na Bíblia

O sacerdócio, em particular, não tem o celibato como um elemento constitutivo, no sentido de que o ministério também pode ser exercido por padres casados. Não há uma ordem divina para ser padres celibatários, mas existe uma disposição vinculante da Igreja, plenamente legítima e racional pela qual aos padres se pede a fidelidade ao celibato, que garante alta qualidade no desempenho da missão. Por esse motivo, o celibato será frutífero e um real distintivo somente se livremente escolhido e não imposto como lei obrigatória para aqueles que queiram responder à sua vocação ao sacerdócio. Qualquer um que queira atualmente se tornar padre sabe que terá que respeitar o celibato. Mas se uma vez padre as circunstâncias da vida o levassem a quebrar esse compromisso, todos os padres sabem que a penalidade é a renúncia obrigatória ao ministério. Portanto, se pensa sobre a possibilidade de tornar a escolha do celibato opcional, prevendo padres celibatários e padres casados com um regulamento prático ainda totalmente a ser elaborado.

O que o papa pensava antes de se tornar sacerdote

E o que Francisco tem a ver com tudo isso? O livro de Romeo esclarece bastante o que Francisco pensava antes de se tornar padre, antes de se tornar bispo, antes de se tornar papa e, consequentemente, o que pensa agora que é papa. “No verão de 2015, o pastor pentecostal argentino Norberto Saracco, amigo de velha data de Bergoglio – como pode ser lido, entre outros exemplos, na página 63 – relata ao “National Geographic” uma longa conversa confidencial que teve com Francisco em Santa Marta dois meses após a sua eleição. Naquela ocasião, o papa teria dito que entre as mudanças que mais lhe interessavam introduzir havia a abolição do vínculo do celibato para os padres”.

Devemos acreditar? Talvez sim, talvez não, mas certamente está de acordo com a coerência com que Francisco está pedindo a cada cristão que viva o próprio livre testemunho do evangelho. Sua revolução e sua reforma da Igreja baseiam-se na conversão espiritual, a única que pode garantir o sucesso da reforma das estruturas e das leis. Só aparentemente a abolição da obrigação do celibato para os padres e a introdução de livre escolha da opção celibatária ou como casados pode ser considerada menos exigente. Na realidade, operar em liberdade é a forma mais exigente possível de assumir para si a responsabilidade e coerência na vida.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – IHU

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Ideologia de gênero parece ideologia mas é religião

O papa Bento XVI – Ratzinger – começou a usar a expressão para advertir dos “perigos” do feminismo, especialmente para a família tradicional.ide1

                        Parece ideología, pero es religión

Igual lo has leído en las noticias, se lo has escuchado a los políticos o incluso lo has usado en alguna conversación sin saber muy bien qué significaba. Es el término “ideología de género” que nada tiene que ver con “estudios de género” o “teoría de género”. Se parecen, pero no. Pablo Casado lo ha resucitado en las últimas semanas en su campaña para las primarias del PP, como si fuera un monstruo al que abatir. Literalmente, dijo que era “un colectivismo social que el centro derecha tiene que combatir”. Lo hizo en una entrevista en esRadio, en el programa de Federico Jiménez Losantos.

Pero, ¿qué es la ideología de género de la que habla Pablo Casado? Resulta que el término tiene más que ver con la religión que con la teoría académica, aunque ha terminado siendo política. Se popularizó principalmente cuando el papa Benedicto XVI – Ratzinger- empezó a usarla para advertir de los “peligros” que podría traer el feminismo, especialmente contra la familia tradicional. En España, los sectores de derechas y ultracatólicos lo adoptaron para oponerse a la ampliación de la Ley del aborto, como recoge esta columna de 2009 de Concha Caballero:

La derecha social y eclesial ha acuñado un término con el que designan los males sociales actuales y que denominan “la peligrosa ideología de género” que está impregnando las leyes actuales. Los think tank del pensamiento ultraconservador elaboran documentos, libros y artículos con un argumento común, tan fácil de comprender como un cuento infantil: la familia tradicional es la fuente de toda felicidad y fuera de ella sólo hay soledad y conflicto social”.

“En el contexto de la política hacer alusiones a combatir la ideología de género hace mención a ir en contra de los avances en igualdad de los derechos de las mujeres que se han producido fundamentalmente en el siglo XX como el acceso a la educación, a la igualdad de derechos civiles, y de forma más específica contra los avances sociales y leyes relacionadas con la salud sexual y reproductiva de las mujeres, la lucha contra la violencia machista o los derechos del colectivo LGTBI”, explica Rosa San Segundo, catedrática y directora del Instituto de Estudios de Género de la Universidad Carlos III.

Los que hablan de la ideología de género suelen acompañarlo de palabras como “adoctrinamiento” “radical” y tildarla como “peligrosa”. También aseguran que existe una agenda perfectamente planificada para imponer sus planteamientos a través de leyes innecesarias y adoctrinar a los niños en las escuelas sin el consentimiento de sus padres.

“En el fondo, muestra mucho desconocimiento y es un mal uso de la palabra. Creo que es una confusión con un uso interesado porque todos tenemos ideología, está implícita en todo lo que hacemos. Siempre nos educan con una perspectiva ideológica. En este caso, usan ideología de género para hablar del pensamiento feminista y sus logros, como para desacreditarlo”, opina Asunción Bernárdez Rodal, directora del Instituto de Investigaciones Feministas de la Universidad Complutense. “Pero ellos también tienen ideología de género, todos la tenemos, solo que la de los sectores más religiosos es una ideología basada en la desigualdad de la mujer”.

La prueba de Google también lo demuestra: la búsqueda “ideología de género” remite a resultados de páginas como conelpapa.com o catholic.net. Cuando alguien utiliza este término está eligiendo de manera consciente la idea que quiere transmitir y dónde se sitúa respecto al mensaje feminista. Y es importante. Pero cada vez que resucita ese término, que vuelve a tomar fuerza en el debate público, también resucita un histórico cántico de las manifestaciones “fuera los rosarios de nuestros ovarios”.

Fonte: EL PAÍS
Por: Mari Luz Peinado
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“Minha esposa sugeriu que cases comigo”

Hace poco más de un año, mi esposa, Amy Krouse Rosenthal, publicó un ensayo de Modern Love titulado: “Te recomiendo casarte con mi esposo”min

Brian Rea

Mi esposa te recomendó que te casaras conmigo

Pues yo soy ese tipo.

Hace poco más de un año, mi esposa, Amy Krouse Rosenthal, publicó un ensayo de Modern Love titulado: “Te recomiendo casarte con mi esposo”. Amy, a sus 51 años, se estaba muriendo por cáncer de ovario y redactó ese ensayo como un perfil para que yo buscara citas. La verdad es que fue una carta de amor para mí.

Fueron las últimas palabras publicadas por Amy. Ella falleció diez días después.

Amy no podría haber anticipado que ese ensayo me daría la oportunidad de que yo también formara parte de esta columna, en el contexto del Día del Padre, y así poder contar lo que ha sucedido desde el año pasado. Claro que no pretendo tener el extraordinario don que Amy tenía con las palabras, pero algo es algo.

Durante toda nuestra vida juntos, Amy fue una escritora prolífica; publicó libros para niños, memorias y artículos. Cuando supo que sus días estaban contados, quiso terminar un último proyecto. En ese entonces teníamos cuidado médico en casa, una manera gentil de lidiar con el fin de una vida y que te permite cuidar a tu ser querido en un ambiente familiar, lejos de los hospitales con máquinas ruidosas y frecuentes interrupciones.

Yo estaba en la mesa del comedor, con vista hacia la sala de estar, donde Amy había construido su oficina. Entre siestas trabajaba ahí, en el sillón.

Esos momentos de paz eran inducidos por la morfina que necesitaba para paliar los síntomas. Un tumor había creado un bloqueo completo del intestino, por lo que no podía comer nada sólido. Se sentaba frente al teclado y empezaba a escribir, luego dormía un rato y al despertar volvía a empezar.

Cuando Amy terminó ese ensayo me lo dio para que lo leyera, como había hecho con todos sus textos. Pero esta vez fue distinto. En su libro de memorias había escrito sobre nuestros hijos y sobre mí, pero nunca de este modo. ¿Cómo es que logró combinar esos sentimientos de profunda tristeza con un humor irónico y una honestidad total?

Para cuando salió publicado el ensayo, Amy estaba demasiado enferma para poder celebrarlo. Conforme crecían las reacciones alrededor del mundo, yo me sentí contrariado de que no pudiera apreciar el impacto tan profundo que tuvieron sus palabras. El alcance de ese artículo, de todas las obras de Amy, era mucho más profundo y enriquecedor de lo que me había dado cuenta.

Me llegaron cartas de todo el mundo. Incluían notas de admiración, consejos médicos, compasión y ofertas de mujeres que querían conocerme. Yo estaba consumido por el pesar de los últimos días de Amy como para dedicarme a responder. Era muy extraño que en ese momento yo fuera el centro de atención, aunque la efusión global me hizo apreciar lo significativo que era su trabajo.

Cuando las personas piden que me describa siempre empiezo con la palabra “papá”, pero pasé buena parte de mi vida adulta siendo “el esposo de Amy”. La gente la conocía a ella y a su obra, mientras que yo era relativamente anónimo. No tenía presencia alguna en redes sociales y con mi profesión, abogado, no precisamente se obtiene mucha atención pública.

Después de que Amy murió me enfrenté a incontables decisiones en mi nuevo papel de padre soltero. Como en cualquier matrimonio o unión entre personas con hijos, teníamos una división de labores. Ya no. Muchos pensaban que Amy era desorganizada porque tenía listas y listas: notas por doquier, pedazos de papel y hasta mensajes que escribía en el dorso de su mano. Pero era una de las personas más organizadas que he conocido.

Existen temas de la vida diaria que ahora enfrento, pero a los que antes no les ponía mucha atención. ¿Cómo es que Amy lograba hacerlo todo tan habilidosamente? Puedo hacer muchas cosas yo solo, pero si dos personas se apoyan pueden lograr mucho más en los retos de la vida diaria.

Muchas mujeres se tomaron al pie de la letra la recomendación de Amy y me enviaron todo tipo de mensajes: muy frontales, chistosos, sabios, conmovedores, sinceros. En una carta escrita a mano de seis páginas una mujer enalteció su conocimiento sobre automóviles en un aparente intento de conquistarme: “Sé cómo revisar el radiador del coche en caso de que necesite un poco de agua antes de que explote el motor”.

Aunque no sé mucho sobre programas de telerrealidad, me llegó una carta adorable de una niña: “Me gustaría meter una solicitud para mi mamá, como los amigos y familiares pueden hacer para quienes participan en The Bachelor“.

Y admiro el sentimiento y el estilo de la mujer que escribió: “Tengo una imagen visual de mujeres esperanzadas haciendo fila afuera del Green Mill Jazz Club los jueves. Madres solteras, divorciadas elegantes, tías solteronas, amas de casa aburridas, hijas, señoras de edad avanzada… todas ansiosas por ver si la zapatilla les quedará a ellas y ellas solas, si el príncipe del cuento es el indicado. Que ellas son las indicadas para él”.

En ese momento no tenía cómo lidiar con estos mensajes, pero desde entonces he encontrado consuelo y hasta risas en muchos de ellos. Lo que sí he logrado entender es la magnitud del regalo que me dio Amy al enfatizar que yo aún tenía una larga vida por delante que podía estar llena de júbilo, felicidad y amor. Su decreto de que llenara mi vacío con una nueva historia me ha dado el permiso de realmente aprovechar el tiempo que me queda en este planeta.

Si puedo transmitir un mensaje sobre lo que aprendí gracias a su regalo, sería este: habla con tu pareja, tus hijos y otros seres queridos sobre qué quieres para ellos cuando fallezcas. Si haces eso les das la libertad de vivir una vida plena a la que, con el tiempo, le conseguirán sentido. Habrá mucho dolor y a diario pensarán en ti. Pero seguirán y construirán un nuevo futuro a sabiendas de que les diste el permiso e incluso el ánimo de hacerlo.

Quisiera tener más tiempo con Amy. Quiero tener más tiempo para ir de pícnic y escuchar música en el parque Millennium. Quiero tener más cenas del sabbat con los cinco Rosies, como nos apodamos entre nosotros, los Rosenthal.

Incluso me encantaría esperar en lo que Amy se tarda todo el tiempo que quiera para despedirse de todos en las reuniones familiares, como siempre hacía, incluso cuando ya habíamos estado ahí durante horas, teníamos ante nosotros un largo camino a casa y muy probablemente nos veríamos de nuevo en unos días.

Quisiera haber tenido más de todo eso, tal y como Amy también lo deseó, pero nada de eso pasó. En cambio, como ella describió, seguimos el plan de ser, que consiste en estar presentes en nuestras vidas porque se nos acaba el tiempo juntos. Así que hicimos lo posible para vivir el momento hasta que todo se terminó.

La peor ironía de mi vida es que cuando perdí a mi mejor amiga, a mi esposa durante veintiséis años y a la madre de mis tres hijos, fue que pude realmente apreciar todos y cada uno de mis días. Sé que suena a un cliché, y lo es, pero también es verdad.

Amy aún me abre puertas, influye en mis decisiones y me enfrenta con el mundo para que lo sepa aprovechar. Hace poco di una conferencia TED sobre el fin de una vida y mi proceso de duelo que espero que ayude a otras personas. Nunca me imaginé que iba a hacer algo así, pero agradezco la oportunidad de conectarme con personas en una situación similar. Y claro que esto solo lo escribo gracias a ella.

Ahora estoy consciente, de una manera que quisiera no haber tenido que aprender, de que la pérdida es la pérdida, ya sea un divorcio, perder un trabajo o a una mascota o enfrentar la muerte de algún familiar.

En ese aspecto no soy distinto a los demás. Pero mi esposa me dio un regalo cuando, al final de su columna, dejó un espacio en blanco, uno que ahora quisiera ofrecerte a ti. Un espacio que tú puedes llenar. La libertad y el permiso para que escribas tu propia historia.

Aquí va. ¿Qué vas a hacer con este nuevo comienzo?

 

 

 

Atentamente,

Jason

Fonte: The New York Times
Por: Jason B. Rosenthal
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Ensinando, na escola, bondade e empatia, reduziríamos conflitos interpessoais?
O Transtorno de Personalidade Narcisista e a geração “floco de neve”
Por que alguns são amigos próximos e outros são só conhecidos?
Atalhos para memória com uma pequena ajuda de amigos