Guia alimentar brasileiro é o melhor…com protestos da indústria de alimentos

Foram analisados guias de outros 11 países: Austrália, Reino Unido, Estados Unidos, Holanda, Países Nórdicos, Suécia (que tem um guia independente dos outros nórdicos) Albânia, São Vicente e Granadinas, Granada, Catar e Tailândia.

Notas de cada um dos guias alimentares nacionais participantes | Foto: Reprodução – Ahmed et al

Estudo considera Guia brasileiro o melhor ao relacionar alimentação e sustentabilidade

O documento recebeu a maior nota em um comparativo que analisou 32 parâmetros de sustentabilidade em guias alimentares de 12 países

Um estudo realizado por pesquisadoras de três universidades dos Estados Unidos considerou o Guia Alimentar para a População Brasileira como o mais abrangente em relação à sustentabilidade. Além do brasileiro, publicado em 2014 pelo Ministério da Saúde, foram analisados os guias de outros 11 países, como Austrália, Reino Unido e Estados Unidos.

As pesquisadoras usaram um conceito ampliado de sustentabilidade, que leva em consideração não apenas os impactos ambientais da produção e do consumo de alimentos, mas aspectos econômicos, sociais, culturais e de saúde. Cada um dos 12 guias foi avaliado com base na presença de 32 parâmetros de sustentabilidade. A análise resultou em uma “nota” percentual para cada guia.

O brasileiro recebeu a maior: 74%. O segundo mais bem avaliado foi o guia australiano, com 69%. Todos os demais tiveram rendimento inferior a 50%. Das quatro dimensões principais estabelecidas pelo estudo — ecológica, econômica, de saúde humana e sociocultural e política — o guia brasileiro só não teve nota máxima na econômica.

Além dos países já citados, foram analisados Albânia, São Vicente e Granadinas, Granada, Catar, Holanda, Países Nórdicos, Suécia (que tem um guia independente dos outros nórdicos) e Tailândia.

Apesar do espaço amostral pequeno, as pesquisadoras ressaltam no estudo a superioridade do guia brasileiro em relação à sustentabilidade: “As diretrizes alimentares brasileiras, por exemplo, mencionam a importância de comprar alimentos sazonais e locais em várias páginas e em múltiplos contextos, enquanto as diretrizes de vários outros países, como Granada, mencionam essa subdimensão em uma extensão notavelmente menor.”

Selena Ahmed, Shauna Downs e Jessica Fanzo, autoras do estudo, escolheram os 12 participantes randomicamente em uma lista de 34 países de renda alta ou média-alta e que possuíam guias alimentares traduzidos para o inglês.

Para elas, os guias são ferramentas políticas com poder determinante sobre os padrões de consumo das populações e devem se adequar às novas demandas de sustentabilidade. “A incorporação efetiva de múltiplas dimensões da sustentabilidade em diretrizes alimentares tem o potencial de transformar os sistemas alimentares e permitir que os consumidores façam escolhas que sustentem a saúde planetária”, concluem.

Não é de hoje

Essa não é a primeira vez que as recomendações de sustentabilidade do guia brasileiro recebem menção honrosa da academia internacional. Em 2016, um relatório produzido por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado pela Agência das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) destacou o guia brasileiro como um dos mais sustentáveis do mundo.

O relatório ressalta que apesar de 83 países possuírem guias alimentares próprios, apenas quatro apresentam explicitamente questões de sustentabilidade: Brasil, Catar, Suécia e Alemanha. O guia brasileiro inova ao indicar que a população deve evitar o consumo de produtos ultraprocessados não somente pelos impactos negativos à saúde, mas também pelos impactos sociais e ambientais.

De acordo com os pesquisadores, existem fortes evidências de que dietas mais saudáveis tendem também a produzir menor impacto ambiental. Introduzir dimensões de sustentabilidade nos guias é, portanto, uma maneira de incentivar escolhas alimentares mais saudáveis.

O problema é que mesmo os guias mais preocupados com a sustentabilidade ainda se fiam majoritariamente em impactos ambientais, deixando de lado os efeitos sociais e econômicos das dietas, por exemplo. Neste sentido, o guia brasileiro é apontado como o único a apresentar uma visão mais completa do conceito de sustentabilidade.

O relatório aponta ainda a experiência de outros países que tentaram incluir, sem sucesso, parâmetros de sustentabilidade em seus guias, como Estados Unidos e Austrália. No caso dos EUA, a indústria reagiu fortemente quando o grupo de especialistas que revisa o guia alimentar a cada cinco anos apontou as correlações entre dietas saudáveis e sustentáveis. Frente aos protestos da indústria, o Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em inglês) acatou o argumento de que a sustentabilidade extrapola a competência do documento e proibiu a inclusão.

Os protestos da indústria

Não foi diferente no Brasil. Nos meses que antecederam a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, representantes da indústria de alimentos se esforçaram para barrar o documento. A principal crítica era ao segundo capítulo do guia, que usa a classificação NOVA, desenvolvida pelo médico Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, para dividir os alimentos por grau e propósito de processamento.

O guia sempre foi uma pedra no sapato da indústria de alimentos, que não perde uma oportunidade de criticá-lo. Para desacreditar o documento vale tudo, até dizer que ele não traz informações — acredite — sobre sustentabilidade.

“Não sei se alguém aqui já teve a curiosidade de ler o guia brasileiro com esse olhar, mas ele não traz de maneira explícita essa questão da sustentabilidade.” A frase é de Fernanda Martins, gerente sênior de Saúde e Nutrição para América Latina da Unilever, dita a uma plateia de nutricionistas e estudantes de nutrição no último congresso da SBAN — Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.

No mesmo evento, o médico e nutrólogo Carlos Alberto Nogueira, membro da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), registrou sua opinião sobre o guia brasileiro, mas de maneira velada. Falando sobre o guia holandês, ironizou: “Esse, diferente de outros por aí, não é um guia político e ideológico”.

No início de novembro, o Guia Alimentar para a População Brasileira completa cinco anos de existência. É um jovem que conquistou prestígio dentro e fora do Brasil, mas continua entalado na garganta da indústria.

Por:Victor Matioli
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O que ocorre no teu corpo durante um toque íntimo. Contaremos tudo

Na escola deveriam ensinar além do funcionamento do corpo, o que ocorre durante o sexo. Isto permitiria entender porque vítimas de abuso sexual podem ter orgasmo e sentem culpa.

¿QUÉ LE PASA A TU CUERPO DURANTE LA CARICIA? TE CONTAMOS TODITO

Seguro te ha pasado que una persona y tú se atraen muchísimo: comienzan esas cosquillitas en la panza que poco a poco se extienden por todo el cuerpo y, si todo sale bien y ambos lo desean, llega La Caricia.
Cool, ¿no? Claro, tener relaciones sexuales es tan natural como comer, pero no sólo es “mete-saca” y sanseacabó.
En nuestro cuerpo ocurren miles de estímulos y reacciones que hacen que coger sea una experiencia increíble.
Y como nadita se escapa de los ojos de la ciencia, hay investigaciones interesantísimas sobre qué ocurre en nuestro cuerpo cuando tenemosrelaciones sexuales.
¿Quién analizó primero el cuerpo humano durante las relaciones sexuales?
A mediados del siglo pasado, William Masters y Virginia Johnson observaron y estudiaron científicamente más de 10,000 actos sexuales para conocer a detalle la reacción fisiológica del cuerpo durante el sexo.
La investigación tuvo un origen curioso: Masters, quien era ginecólogo, le pagaba a trabajadoras sexuales para que le permitieran esconderse en un clóset mientras observaba y registraba todo lo que pudiera de los encuentros que ellas tenían con sus clientes: tiempos de excitación, duración del orgasmo, etc.
Tiempo después, él y Johnson, su entonces asistente, montaron un laboratorio donde lograron medir la respuesta fisiológica de cientos de personas que se masturbaron o tuvieron relaciones sexuales frente a ellos, todo en nombre de la ciencia.
A través de sus investigaciones, Masters y Johnson describieron la llamada “respuesta sexual humana”*, que son las reacciones corporales que ocurren durante la actividad sexual.
Ellos describieron cuatro fases: excitación, meseta, orgasmo y resolución. Tiempo después se le agregaron otras dos que también mencionaré: estímulo sexual efectivo y periodo refractario.
[*Existe otra investigadora importante que también diseñó su propio modelo de respuesta sexual humana, Helen Kaplan, pero por la extensión del texto, no hablaré de su teoría. Quizás después.]
Estímulo sexual efectivo
El estímulo sexual efectivo (ESE) es todo estímulo que produce excitación.
El ESE no aparecía originalmente en el modelo de Masters yJohnson, sino que fue agregado por el mexicano Juan Luis Álvarez-Gayou años después.
Hay de dos tipos: psíquicos, que pueden ser desde ver una persona desnuda, escuchar una canción, o a tus vecinos, o tener una fantasía sexual; y reflexogénicos, que son estimulación directa al cuerpo.
Los reflexogénicos, a su vez, se dividen en dos: exteroceptivos, aquellos que estimulan externamente el cuerpo; e interoceptivos que es por ejemplo, tener una erección en la mañana provocada por nervios que se tocan al tener una vejiga llena.
Hay tantos ESEs como personas en el mundo y su diversidad es inagotable. Al hablar de las cosas que nos excitan, siempre hay que tener en cuenta algo: si algo me prende, existe al menos otra persona en el mundo que también se excitará con lo mismo.
Excitación
La excitación se desata por un ESE y se trata de, básicamente, tu cuerpo poniéndose en disposición de tener actividad sexual.
Las personas con pene tendrán una erección, sus testículos se elevarán hacia el perineo, el escroto se tensará y engrosará.
Las personas con vulva lubricarán, sus clítoris tendrán una erección —porque sí, los clítoris también se erectan—, incrementará el tamaño de sus pechos, los labios mayores se engrosarán, los labios menores se abrirán para exponer la vagina que ahora tendrá un color más oscuro y se habrán alargado sus primeros dos tercios internos y se iniciará la verticalización del útero.
Además de esto, todas las personas experimentarán erección de pezones, aumentarán su presión sanguínea y tendrán una ligera taquicardia.
Algo importante: en los cuerpos con pene, la sangre solo se irradia hacia ese órgano, pero en los cuerpos con clítoris la sangre se irá hacia toda la vulva, lo que hace que muchas mujeres, personas no binarias u hombres trans tarden un poco más en excitarse. O sea: fajen mucho, amigues  El juego previo salva vidas… Y orgasmos.
Meseta
Esta es la etapa del los besos largos, del faje, del sexo oral, de la masturbación, del coito y de todo antes del orgasmo
 Aquí, habrá rubor sexual en el cuerpo —que es un enrojecimiento en la piel de pecho a brazos a rostro que es la señal del cuerpo de, oh sí, hoy hubo suerte—, la respiración se volverá agitada, rápida y profunda, aumentará el diámetro del pene y de las mamas, se incrementará la coloración del glande y de los labios menores (así como su tamaño), se elevarán los testículos y aumentarán de tamaño, el clítoris comenzará a retraerse, el útero continuará su verticalización, la vagina se alargará un poco más, aumentará la lubricación, tu corazón podrá llegar a latir hasta a 175 latidos por minuto y comenzarás a tener contracciones musculares un tanto intensas que se sentirán bien.
Conforme avanza la meseta —y déjenla avanzar, denle chance, ábranle paso, disfruten su existencia—  nos acercamos al momento favorito de toda relación y esto eeeees:
¡Orgasmo (s)!
En el orgasmo habrán fuertes espasmos de grupos musculares, se tendrán alrededor de 40 respiraciones por minuto y la frecuencia cardiaca podrá aumentar hasta 180 latidos por minuto.
Las sensaciones placenteras suelen concentrarse en la zona genital —pene, próstata y vesículas seminales o clítoris, vagina y útero—.
Durante el orgasmo, las gran mayoría de personas con pene eyacularán —aunque es posible separar ambas respuestas, por ejemplo, con orgasmos prostáticos o con sexo tántrico—  y, en algunas ocasiones, también lo harán algunas personas con vulva —aunque la eyaculación no se presenta siempre junto al orgasmo—.
(Si te estás preguntando qué onda con los orgasmos múltiples, sigue leyendo…)
Resolución
La resolución es ese momento post-orgasmo también conocido como “NO ME TOQUES” o “VEN Y ABRÁZAME” o “¿Y si ya nos vamos a dormir?”.
Durante la resolución te relajarás leeeeeentamente durante unos diez o quince minutos.
Tu cuerpo regresará al estado previo a la excitación: el pene y el clítoris perderán su erección, los órganos que se inflamaron soltarán la sangre acumulada, puede que tengas alguna contracción muscular que se sienta rico, posiblemente te den ganas de orinar debido a la vasopresina y puede que te dé algo de sueño, por eso es tan rico dormir después de La Caricia.
Periodo refractario
¿Ubicas cómo después de tener un orgasmo se te van las ganas de seguir cogiendo? Esto es por el periodo refractario, que se refiere al tiempo que tardas en volver a excitarte.
Algo curioso es que para las personas con pene suele ser un poco largo, mientras que para un buen número de personas con vulva el periodo refractario o no existe o es súper corto: de ahí que muchas puedan tener múltiples orgasmos en una sola relación sexual, incluso seguidos.
El periodo refractario varía de persona a persona y de situación a situación y suele aumentar con la edad.
Algunas personas tendrán un periodo refractario mínimo y podrán tener un orgasmo y seguir teniendo relaciones sexuales toda la noche, otras —y me incluyo acá— necesitarán de mucho tiempo de recuperación antes de volver a excitarse, incluso días o semanas.
Debido a la diversidad de los cuerpos y de respuestas, no hay tiempo de espera “normal”. Lo que a ti te funcione está bien.
 
¿Por qué es importante conocer la respuesta sexual humana? 
Porque es una función natural, sorprendente y maravillosa de nuestros cuerpos.
Porque en la escuela nos enseñan sobre el funcionamiento del cuerpo, pero deliberamente se omite el conocimiento que existe sobre lo que nos ocurre durante el sexo.
 
Porque muchas víctimas de abuso sexual sienten culpa por excitarse —e incluso, tener un orgasmo— durante el abuso sin saber que eso sucede porque el cuerpo es cuerpo y está diseñado para responder a estímulos muchas veces sin importar si existe deseo, consentimiento o voluntad.
 
Porque hay personas que viven con la angustia de no sentirse suficientes por no tener tanto deseo como su pareja, cuando podría ser solo cuestión de tener un periodo refractario más largo.
 
Porque hay quien nunca descubre sus estímulos sexuales efectivos y muere sin conocer aquellas cosas que pudieron haber hecho de su vida sexual algo más rico.
 
Porque son nuestros cuerpos y tenemos derecho a conocerlos.
 
Como dijo Paracelso: “Quien no conoce nada, no ama nada”. Conocer a nuestro cuerpo es otra forma de amarlo.

Entendendo a bissexualidade

Os bissexuais não são pessoas que estão “apenas passando por uma fase”. “E agora é uma questão de desaprender meus vieses pessoais e minha homofobia interiorizada.”

12 pessoas compartilham como entenderam que são bissexuais

Não, os bissexuais não são pessoas que “apenas passando por uma fase”.

As pessoas bissexuais são a maior parcela da população LGBT nos Estados Unidos. Em 2016 o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgou que 5,5% das mulheres e 2% dos homens se declaram bissexuais. Apesar desses números, as pessoas que se identificam como bissexuais tendem a ser pouco levadas em conta, tanto dentro quanto fora da comunidade LGBT.

A escritoria bissexual Ashley C. Ford explicou em um ensaio de 2015 intitulado I’m Queer No Matter Who I’m With (Eu sou queer, não importa com quem eu esteja, em tradução livre), que o fato de que uma pessoa bissexual “não pode ser classificada imediatamente nem como homossexual nem como hétero deixa as pessoas nervosas”. Por conta deste imaginário, muitas pessoas bissexuais se sentem pressionadas a escolher um “time”, por assim dizer.

E há mais: muitas pessoas pensam que a bissexualidade não existe realmente ou que é “apenas uma fase”. É uma premissa injusta e que acaba levando ao apagamento, ou invisibilidade, como o problema também é conhecido.

Não surpreende que estas pessoas levem tempo para falar sobre sexualidade publicamente como bissexuais. Enquanto algumas dizem que se descobriram bissexuais assim que começaram a se apaixonar por meninos e meninas, outras contam que levaram décadas para identificar-se desta forma.

O HuffPost US conversou com *12 pessoas que aceitaram compartilhar publicamente como foi sua jornada particular enquanto bissexuais.

“Era uma coisa que eu fingia não perceber e à qual eu não dava vazão, porque não entendia aqueles sentimentos.” 

“Desde criança sinto uma afinidade enorme por personagens femininas. Tudo começou com a Princesa Leia, de ‘Star Wars’. Eu tentava racionalizar, dizendo a mim mesma que queria uma figura feminina poderosa para admirar e respeitar. Embora isso seja sem dúvida parte da explicação, eu também tentava imaginar como seria se eu pudesse estar no lugar de Han Solo e ser a pessoa que beijava Leia, que segurava suas mãos nas minhas. Acho que devido ao ambiente em que fui criada, nunca me ocorreu que aqueles sentimentos fossem românticos. Era uma coisa que eu fingia não perceber e à qual não dava vazão, porque eu não entendia aqueles sentimentos e pensava que era a única pessoa a me sentir assim.

“Quando eu já era mais velha e estava na faculdade, tomei conhecimento do termo ‘bissexual’ e tive aquele momento de afirmação que ocorre com muitas pessoas LGBTQ+ em que me dei conta: ‘Uau, quer dizer que não sou só eu? Que eu não estou louca?’ Pensei em todas as personagens femininas com as quais estava obcecada e percebi que tinha sentimentos semelhantes em relação a personagems masculinos que eu achava atraentes. Desde então vem sendo uma questão de desaprender meus vieses pessoais e minha homofobia interiorizada.” ― Elise Marie, ilustradora

“Eu amo minha sexualidade e sua fluidez.” 

“Entender que eu sou bissexual foi muito mais fácil do que aceitar, abraçar e colocar em prática minha bissexualidade. Aos 14 anos eu percebi que sentia atração por homens, mas foi apenas com 24 que eu realmente encarei isso para valer e comecei a sair publicamente com homens. Até lá eu estava fazendo as coisas às escondidas e estava tendo dificuldade em estar ‘no meio, em algum lugar’. Fiquei aborrecido porque eu não podia simplesmente ser ou uma coisa ou a outra. Levei bons 10 anos para realmente abraçar essa realidade. Agora estou feliz com quem eu sou e aceito que nem sempre é no meio. Curto minha sexualidade e toda sua fluidez.” ―  Remy Duran, personalidade de reality show na TV 

“Nem todo o mundo recebe a aceitação (ou pelo menos a leve indiferença) com que eu fui tratada.” 

“De um jeito estranho, minha história de autopercepção e autoaceitação não foi tão difícil quanto o que muitas outras pessoas enfrentam. Percebi que sou bi quando tinha 16 ou 17 anos e simplesmente incorporei isso na minha vida. Minha mãe achou que era uma fase e meu pai faz questão de não saber de nada, já que não consegue conceber uma realidade em que algum filho ou filha dele não seja hétero. Nunca tive um bom relacionamento com ele, por isso, para mim, o que ele escolhe pensar é problema dele.

“Eu escolho acreditar no direito das pessoas de serem felizes e inteiras, então procuro apoiar qualquer pessoa que esteja precisando. Sou muito transparente em relação a ser bissexual e quero apoiar todo o mundo da comunidade LGBTQIA+. Nem todo o mundo recebe a aceitação (ou pelo menos a leve indiferença) com que eu fui tratada. Se eu puder, quero estar presente para ajudar essas pessoas a se sentirem validadas e inteiras.” ― Addy, 36 anos

“Só fui descobrir o termo ‘bissexual’ aos 17 anos, quando outra pessoa se assumiu como bi.”

“Percebi que eu não era hétero aos 11 anos de idade, quando comecei a ter paixonites por garotos da minha série e homens que eram celebridades. Mas eu não conhecia o termo ‘bissexual’. Ninguém nunca me ensinou isso. Só fui descobrir esse termo aos 17 anos, quando outra pessoa se assumiu como bissexual. Mas ele foi apagado imediatamente, então eu continuei a pensar que eu devia ser ‘gay em negação’. Dizer que eu era gay não explicava porque eu sentia atração por pessoas de muitos gêneros. Mas eu não enxergava outra opção.

“Encontrei maneiras de mentir para mim mesmo sobre minha sexualidade, me dizendo que eu jamais poderia fazer sexo com um homem ou me visualizar em um relacionamento com um homem. Isso mudou quando eu me apaixonei por meu melhor amigo, que era hétero. Ficou muito mais difícil negar a verdade para mim mesmo, e isso começou a me causar sofrimento real. Percebi que não havia mais como negar quem eu era. Assim, pouco antes de completar 25 anos, me assumi publicamente como bissexual.” ― Vaneet Mehta, produtor e roteirista

“Foi preciso eu ir trabalhar em um lugar muito quadrado depois de me formar para eu entender que não era hétero.”

“O processo de entender que sou bissexual foi uma jornada feita de muitos pedacinhos. Eu sempre sentira atração por mulheres, mas me lembro de ler artigos na revista Cosmo que diziam que é totalmente normal e muito comum as mulheres sentirem atração por outras mulheres e que isso não significava que eu era lésbica (ufa!). Acho que a confusão da sociedade em relação às pessoas bissexuais faz com que sejamos tratadas como héteros até prova em contrário, mesmo que estejamos sentindo e fazendo coisas queer. Essa cultura é responsável pelo fato de tantas pessoas bissexuais não se sentirem suficientemente queer para saírem do armário, ou então por apenas saírem do armário muito depois que seus amigos gays e lésbicas.

“Foi preciso eu ir trabalhar num lugar muito certinho e quadrado depois de me formar para entender que eu não era hétero. A maioria das mulheres hétero não sente atração por outras mulheres, a maioria das mulheres hétero não se sente mais à vontade em comunidades queer, e a maioria das mulheres hétero não têm uma paixão louca por sua amiga lésbica comprometida com outra. Não eram coisas normais para uma mulher hétero. E com aquele último pedacinho de entendimento, como se uma bigorna com ‘VOCÊ É IDIOTA’ estampada em cima tivesse caído em cima de mim, eu entendi finalmente que sou bissexual.” ― Nicole, 33 anos

“Foi apenas na faculdade que cheguei a dizer a outra pessoa que eu era bissexual, e mesmo assim só falei à minha então noiva.”

“Todo o mundo tem paixonites na adolescência, e desde que eu entendi o que era uma paixonite percebi que as minhas não se limitavam a um gênero. Mas, como fui criada numa comunidade religiosa rigidamente fundamentalista, eu sabia que só havia um conjunto de sentimentos que poderia expressar ou manifestar. O fato de ter crescido sofrendo de disforia de gênero também não ajudou em nada; embora em meu íntimo eu me sentisse tudo menos um homem hétero, aquela era a única identidade que eu era autorizada a expressar.

“Foi apenas na faculdade que cheguei a dizer a outra pessoa que eu era bissexual, e mesmo assim só falei à minha então noiva para lhe dizer que não ia traí-la com ninguém, de gênero algum, enquanto estivéssemos geograficamente distantes. Mantive aquele segredo escondido de todo o mundo por mais dez anos, só admitindo publicamente quando me assumi como mulher trans, o que teve como consequência o nosso divórcio. Eu estava com quase 30 anos de idade, era militar havia dez anos e não tinha nada a ganhar se continuasse a negar quem sou.” ― Ex-soldado do exército, 35 anos

“Eu não tinha certeza se era bissexual realmente ou se aquilo era ‘só uma fase’, por isso mantive silêncio durante anos.”

“Posso agradecer a Joseph Gordon-Levitt por ter despertado minha bissexualidade. Quando eu tinha 13 anos, era grande fã da série ‘Third Rock from the Sun’ e sempre que eu via Joseph Gordon-Levitt, percebia que gostava dele do mesmo jeito que eu gostava da minha outra grande paixão-celebridade da época, Christina Ricci. Ao longo da adolescência também tive paixões passageiras por Taylor Hanson e dois garotos que estudavam comigo no colégio. Os dois eram héteros, por isso nunca tentei nada com eles, mas mesmo assim tinha fantasias com eles. Mas eu hesitava em me dizer bissexual porque 1) na época o discurso sobre questões LGBTQ dizia respeito apenas a gays e lésbicas, sendo os bissexuais nada mais que uma nota de rodapé; e 2) eu não tinha certeza se era bissexual realmente ou se aquilo era ‘só uma fase’, por isso mantive silêncio sobre isso por anos.

“Eu me assumi como bi finalmente quando tinha 29 anos e era noivo de uma mulher cristã conservadora. Terminamos o relacionamento pouco depois disso e comecei a namorar um homem que era tudo que minha ex-noiva não era. Aquele relacionamento só durou nove meses, infelizmente, mas, por mais que isso possa   parecer chavão, estar com ele me fez sentir que eu estava vivo pela primeira vez na vida.” ― Tris Mamone, jornalista

“Tive paixões passageiros por garotos da minha classe e de séries de TV. Foi um período bizarro, que me deixou superconfuso.”

“Cresci no interior do Illinois numa comunidade agrícola rural tão pequena e hétero que, mesmo que houvesse alguém gay no colégio, a pessoa com toda certeza não teria se identificado como tal. Levei muito tempo para aceitar que eu sentia atração tanto por homens quanto por mulheres. Aquilo não me ajudava em nada a me enquadrar na escola. Num colégio cheio de caipiras e atletas amadores, eu já era um nerd tremendo. Eu assistia a pornografia com homens e mulheres; tive paixões passageiras por garotos da minha classe e de séries de TV. Foi um período bizarro, que me deixou superconfuso.

“Fazendo um fast-forward até a faculdade, onde passei um bom tempo em negação, sem querer me aceitar. Tive experiências tanto com homens quanto com mulheres, mas encontrei maneiras de compartimentalizar minhas preferências mesmo ali, em um ambiente que teria sido mais tolerante e me aceitado melhor. Foi apenas quando me formei e me mudei para Chicago, onde vivo hoje, que aceitei o fato de talvez ser bissexual, e só me assumi publicamente como tal dois ou três anos atrás. (Contei à minha agora esposa quando começamos a namorar. Ela sempre me deu apoio total, mesmo quando a mãe dela descobriu através de um post no Facebook e perguntou se isso queria dizer que tínhamos uma relação ‘aberta’, hehe!) Hoje fico superfeliz por ter me assumido. Encontrei muito apoio de pessoas de todo o espectro sexual. Mas não consigo deixar de pensar que eu poderia ter sido muito mais livre e mais honesto comigo mesmo sem o estigma que acompanha a bissexualidade.” ― Clint, podcaster e crítico de cinema e televisão no The Spool

“Qualquer garota que eu conhecesse que tivesse beijado outra menina numa festa era vista como vagabunda, como alguém que só queria chamar a atenção, e eu não queria que me encarassem assim.”

“Na adolescência, acho que eu tinha um interesse por mulheres que eu me recusei a encarar de perto durante todo o colegial, acho que em parte em função da misoginia. Qualquer garota que eu conhecesse que tivesse beijado outra menina numa festa, por exemplo, era vista como vagabunda, como alguém que só queria chamar a atenção, e eu não queria que me encarassem assim. Quase cheguei a falar à minha melhor amiga que eu tinha curiosidade de explorar minha sexualidade, mas antes de conseguir falar as pessoas começaram a fazer piadas sobre bissexualidade. Qualquer pessoa que tivesse interesse em explorar isso não apenas era ridicularizada, como também diziam brincando que ela tinha paixão por todo o mundo ou estava tentando transar com todo o mundo. Então eu sufoquei aqueles sentimentos até terminar o ensino médio. Assim que me vi livre da obrigação de  ver aquelas pessoas todos os dias, tive uma espécie de revelação. Literalmente, lendo um post de Zendaya no Instagram, tive um momento de clareza e percebi: ‘Oh, sou bissexual’.” ― Tayla, 23 anos

“Tudo bem você sentir atração por muitos gêneros e mesmo por pessoas sem gênero. É mais do que tudo bem, é lindo.” 

“Compreendi que sou bissexual pela primeira vez no ensino médio. Foi também a primeira vez que contei a um amigo sobre isso, mas não foi algo que passou a fazer parte do conhecimento público. Foi mais como um segredo aberto. Ao longo dos anos, as pessoas com quem saí sabiam (eu sempre fiz questão que soubessem, independentemente do gênero delas), mas essa questão sempre foi meio que empurrada para o lado. Durante anos as pessoas diziam brincando que eu era ‘o hétero mais gay do mundo’.

“Quando eu estava com 35 anos e me preparava para me casar pela segunda vez, eu simplesmente tive um estalo. Eu tinha muitos amigos queers de todos os tipos que estavam sendo criticados por quem eram, e deixar de ficar ao lado deles começou a me parecer criminoso. Sou um homem branco cisgênero; com esse grau de privilégio, se eu não sou capaz de ficar ao lado de meus amigos, então não sou amigo de verdade. Eu me assumi perante umas 200 pessoas ao longo de alguns dias. Nunca mais desde então eu escondi minha bissexualidade nem usei linguagem indireta ou disfarçada; estou fora do armário e estarei para sempre. Hoje posso falar abertamente as coisas que eu precisava tão desesperadamente ouvir quando era adolescente queer. Tudo bem você sentir atração por muitos gêneros e mesmo por pessoas sem gênero. É mais do que tudo bem, é lindo. Ser bissexual não é algo a ser escondido. Hoje posso afirmar com segurança que sou um homem bissexual e nunca voltarei para dentro daquele armário.” ― David Kaye, roteirista e músico

“Na adolescência, as pessoas me manipulavam psicologicamente e diziam que, porque sou feminino, minha atração por meninas não era real.”

“Sou um homem bissexual feminino. Sempre fui, de modo que não tive realmente a opção de ficar dentro do armário, se bem que às vezes eu me pergunte se teria sido melhor estar. Algumas das minhas primeiras recordações são de ter paixões passageiras por meninas e meninos do meu bairro e de me chamaram de viado. Quando eu era adolescente, as pessoas me manipulavam psicologicamente para me fazer duvidar de quem sou; diziam que, porque sou feminino, minha atração por meninas não era real. Aquilo me deixava superconfuso. O que outras pessoas diziam sobre mim me levou a pensar que talvez eu fosse gay e estivesse apenas tentando fugir dessa realidade. Mas continuei a me apaixonar por meninas.

“O que me ajudou foi aprender que homens héteros, homens gays e homens bissexuais são todos uma combinação de masculino e feminino, e por isso é tão importante não priorizar ou glorificar o lado masculino em detrimento do femino. É uma coisa arbitrária à qual as pessoas atribuem tanto valor.” ― J.R. Yussuf, autor de “The Other F Word: Forgiveness” e criador da hashtag #bisexualmenspeak

“Hoje minha bissexualidade é uma coisa que eu valorizo e curto. É uma parte intrínseca de mim, embutida em meu DNA.”

“Como você toma consciência do que você é quando não conhece outra coisa senão isso? Para mim, descobri quem sou ao reconhecer minha diferença. Para dar um nome a essa parte de mim, primeiro tive que aprender que eu era diferente do que as pessoas esperavam que eu fosse. Quando tento recuperar aquelas memórias, o que lembro principalmente é o medo. Eu sentia algo dentro de mim que precisava ser definido e explicado, mas não tinha como definir ou explicar. Eu gostaria de dizer que me parecia normal, que pude curtir minhas paixonites adolescentes por pessoas de todos os gêneros. Mas sei que não era assim, porque me recordo do pânico que eu sentia quando tínhamos que trocar de roupa para as aulas de educação física. Eu fixava os olhos num ponto na parede ou no chão, desviando meu olhar de minhas colegas, com medo de atrair o olhar de outra garota acidentalmente e de ela de algum jeito descobrir meu segredo, que não tinha nome. Eu escondi essa parte de mim porque, apesar de ignorar as palavras com que me descrever, eu sabia que se fosse descoberta seria o fim para mim.

“Hoje me sinto grata porque minha bissexualidade é uma coisa que eu valorizo e curto. É uma parte intrínseca de mim, embutida em meu DNA, minha vida e minha personalidade. Está presente em meu trabalho também; durante toda a vida eu tivesse esse desejo de me entender, um desejo que nunca era satisfeito realmente, e hoje posso passar minhas horas livres pesquisando a história da comunidade bissexual. Isso me lembra que aquela sensação de estar sozinha, o medo de eu ser a única pessoa que jamais se sentiu assim, não poderia estar mais distante da verdade. Sempre existiram pessoas bissexuais, apesar do apagamento e do preconceito. Mesmo que não tivéssemos sabido que nome nos darmos, sempre estivemos presentes e estamos presentes agora.” ― Mel Reeve, arquista e escritora residente em Glasgow, Escócia.

*As respostas recebidas foram levemente editadas para permitir maior clareza. Algumas fontes pediram para ser identificadas apenas pelo primeiro nome, para proteger sua privacidade. 

CFM determina que um feto está acima de uma mulher

O Conselho Federal de Medicina acaba de tirar das gestantes o direito à recusa terapêutica, dando aos médicos o poder de realizar procedimentos à força. Decidiu que é o estado dos fetos que elas carregam, e não a integridade física e mental dessas mulheres, que os profissionais devem priorizar.

À esquerda/Acima: a protagonista June, no início de uma gravidez, é levada para conhecer o destino das gestantes que se rebelam ou colocam fetos em risco – isolamento total, acorrentamento e tortura. À direita/Abaixo: June passa pela punição na pele após desobedecer o sistema. Fotos: Divulgação/George Kraychyk/Hulu

CFM põe The Handmaid’s Tale em prática ao determinar que um feto está acima de uma mulher

Maior de idade, capaz, lúcido, orientado e consciente. É isso que você precisa ser para ter a liberdade de escolher se submeter ou não a um tratamento de saúde – exceto se você for uma mulher grávida. Uma nova resolução do Conselho Federal de Medicina, o CFM, acaba de tirar das gestantes o direito à recusa terapêutica, dando aos médicos o poder de realizar procedimentos à força. O CFM decidiu que é o estado dos fetos que elas carregam, e não a integridade física e mental dessas mulheres, que os profissionais devem priorizar.

O despacho, publicado no Diário Oficial da União em 16 de setembro, afirma que a vontade da mulher pode caracterizar um “abuso de direito” em relação ao feto. E, nesses casos, os médicos devem tomar providências “perante as autoridades competentes” para garantir que o procedimento recusado será imposto. No dia seguinte, o CFM publicou uma nota em defesa da resolução. “O Conselho Federal de Medicina, ao aprová-la, cumpre, mais uma vez, o seu compromisso com o respeito à dignidade da pessoa humana”, afirmou o relator Mauro Ribeiro. O compromisso claramente não abrange as mulheres.

Na prática, procedimentos altamente dolorosos e invasivos, como a episiotomia (corte feito abaixo da vagina na hora do parto, muitas vezes sem anestesia), poderão ser feitos mesmo que as mulheres afirmem expressamente que não os autorizam. Em 2018, a Organização Mundial da Saúde, a OMS, afirmou que “não há nenhuma evidência que prove a necessidade da episiotomia em qualquer situação” e que o corte nunca pode ser feito sem autorização. No entanto, o corte acontece em mais de metade dos partos naturais no Brasil – às vezes, sem autorização ou aviso.

Outra das formas mais cruéis de violência obstétrica que a medida pode permitir é a “manobra de Kristeller”, em que profissionais de saúde apertam ou chegam a se sentar sobre a barriga mulher durante as contrações para acelerar o parto. Apesar de a ciência já ter mostrado que as duas práticas violentas não se convertem em benefícios para a saúde, as mulheres, a partir de agora, não poderão mais recusá-las se o médico julgar que elas são importantes para o feto.

A obstetra Melania Amorim, pós-doutora em Saúde Reprodutiva pela OMS e representante da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras, me disse que a resolução abre um “precedente perigoso” para que a medicina tutele os corpos das mulheres “em nome de uma suposta preocupação” com o feto. “Isso não pode ser admitido”, argumentou, ressaltando que a resolução se equivale ao Estatuto do Nascituro – projeto de lei que pretende garantir ao embrião e ao feto os mesmos direitos dos nascidos, acabando com o direito ao aborto em qualquer circunstância.

Bendito seja o fruto

A leitura da decisão logo traz à mente a série The Handmaid’s Tale, baseada no livro homônimo de Margaret Atwood. O drama retrata uma sociedade teocrática, dividida em castas, na qual as mulheres só são valorizadas como incubadoras e mães. Aquelas consideradas transgressoras vivem como escravas sexuais para procriação. Já as da classe dominante – belas, recatadas e do lar, mas incapazes de engravidar – devem ter como único objetivo ser mães das crianças geradas pelo estupro de suas aias.

O passo dado pelo CFM, guardadas as devidas proporções, é claro, lembra o início da caminhada que transformou o que costumavam ser os Estados Unidos no terrível governo de Gilead (se você ainda não assistiu à série: 1- assista; 2- agora é tarde para reclamar de spoilers). Traz à memória, ainda, uma das cenas mais chocantes da série: a de uma aia grávida acorrentada a uma cama, isolada de todo convívio social, vigiada por seguranças fortemente armados. É assim que são tratadas as gestantes do país fictício criado por Atwood que não agem de acordo com o que se julga ser o melhor para a gravidez – ou que praticam um “abuso de direito” sobre os fetos. É a resolução do CFM levada ao extremo. 

Como as grávidas do mundo distópico de The Handmaid’s Tale, gestantes brasileiras agora podem ser forçadas por médicos a passar por tratamentos dolorosos
ainda que não os autorizem. Foto: Divulgação/George Kraychyk/Hulu

Como na série, a mulher de que fala o artigo 5º da resolução é tratada meramente como incubadora – ou, no máximo, como mãe obrigada a abdicar de tudo, inclusive sua autonomia e bem-estar corporal, em nome do bendito fruto de seu ventre. É significativo que o parágrafo não use em nenhum momento a palavra “mulher” ou sequer “paciente”. A pessoa a que se refere é apenas “gestante” e “mãe”. Mas o CFM vai além de reduzir a mulher a esses dois papéis.

O Conselho passa a mensagem de que o feto está em condição superior à da mulher, que não tem capacidade de escolher o que autoriza ou não que seja feito a seu corpo. E de que a gravidez é, agora, uma condição infantilizadora, capaz de transformar uma adulta lúcida em criança, adolescente ou pessoa desprovida do “pleno uso de suas faculdades mentais” – os únicos grupos que, até o início desta semana, não tinham direito à recusa terapêutica.

Esses dois recados, passados pela autoridade responsável por garantir a ética médica no Brasil, não devem ser considerados algo menor diante da atual cruzada contra nossos direitos. Vale lembrar que não são poucas as propostas de lei que pretendem retirar das mulheres estupradas ou em risco de vida o direito ao aborto, nem os que intencionam endurecer o castigo dado àquelas que arriscam suas vidas tentando interromper gestações indesejadas. Mas a resolução do CFM é mais do que um símbolo dos tempos que vivemos. É uma decisão que tirou ainda mais poder de defesa das mulheres grávidas no país em que uma a cada quatro delas já sofria violência obstétrica.

Não é de agora que o CFM mostra seu desdém pela violência de médicos contra mulheres gestantes e em trabalho de parto. Para Melania Amorim, o posicionamento “vem ao encontro de diversas posturas do CFM” que ameaçam os direitos reprodutivos das mulheres, como a omissão do debate sobre a descriminalização do aborto, realizado em audiências públicas no Supremo Tribunal Federal em agosto de 2018. Em outubro daquele ano, o órgão publicou ainda um parecer afirmando que o termo violência obstétrica é “uma agressão contra a especialidade médica de ginecologia e obstetrícia” e, portanto, “contra a mulher”. “Desde 2013 o elitismo da classe médica como um todo tem se exacerbado com apoio maciço ao projeto conservador”, argumenta Amorim.

Se o documento assinado pelo relator Ademar Carlos Augusto em 2018 pretendia calar as vozes que se levantam contra a violência obstétrica, o despacho desta semana, assinado pelo presidente Carlos Vital Tavares Corrêa Lima e pelo secretário-geral Henrique Batista e Silva, acaba de torná-la prática oficial – e de nos aproximar um pouco mais da distopia de Margaret Atwood.

Fonte:  The Intercept

Biólogos alemães defendem fim do termo ′raça′ para humanos

Não há base biológica para raças, e nunca houve uma. O conceito de raça é resultado do racismo
não seu pré-requisito”. A simples remoção da palavra “raça” do vocabulário acadêmico não evitará o racismo
mas pode contribuir para garantir que esse preconceito “não possa mais ser invocado por nós como uma justificativa”

Classificação biológica de pessoas em raças é uma forma de racismo, defendem especialistas

Biólogos alemães defendem fim do termo ‘raça’ para humanos

Em manifesto, pesquisadores afirmam que não há base biológica para classificação da humanidade em raças e que conceito é resultado do racismo, além de ter sido usado para justificar perseguições e escravidão.

Cientistas da Universidade de Jena, localizada no leste da Alemanha, afirmaram que não há base biológica para a classificação da humanidade em raças e lançaram um manifesto pedindo que o termo deixe de ser usado na descrição humana.

“A justificativa primariamente biológica para definir grupos humanos em raças, por exemplo, com base na cor de pele ou de seus olhos ou no formato de seus crânios, levou à perseguição, escravização e matança de milhões de pessoas”, diz um trecho do manifesto intitulado Declaração de Jena.

“Não há base biológica para raças, e nunca houve uma. O conceito de raça é resultado do racismo, não seu pré-requisito”, acrescenta o texto. Segundo os pesquisadores signatários do manifesto, a categorização hierárquica de grupos de pessoas com base em seus traços biológicos supõe relações evolutivas entre as espécies, sendo assim uma forma de racismo.

A Declaração de Jena foi elaborada pelos biólogos, especializados em evolucionismo, Martin Fischer, Uwe Hossfeld e Johannes Krause, da Universidade Friedrich Schiller de Jena, e Stefan Richter, da Universidade de Rostock. O manifesto foi apresentado no âmbito do 100º aniversário da morte de Ernst Haeckel, que foi considerado por muitos a versão alemã de Charles Darwin.

Haeckel foi um notório zoólogo e biólogo que teria contribuído para a biologia nazista. O cientista categorizou os humanos em 12 “espécies” e 36 “raças”, afirmando inclusive que grupos indígenas e negros seriam menos civilizados que europeus.  Por meio de uma suposta classificação científica de “raças humanas” em “árvores genealógicas”, Haeckel contribuiu para “uma forma de racismo aparentemente baseada na ciência”, ressalta o manifesto.

O biólogo Uwe Hossfeld afirmou que Haeckel era um “racista naturalista”, pregando ideias do seu tempo, e que o atual manifesto é uma revisão crítica da tradição da disciplina.

Pesquisas científicas sobre variações genéticas de seres humanos apontaram que “em vez de limites definidos, os gradientes genéticos ocorrem entre grupos humanos”, segundos os pesquisadores. “Para ser explícito, não apenas não há um único gene que sustente as diferenças ‘raciais’, como não existe nem mesmo um único par de bases”, explicaram.

O manifesto carrega um peso adicional na Alemanha, onde, durante o regime nazista, a eugenia, um conjunto de crenças e práticas que visava melhorar a qualidade genética de uma população humana, e a higiene racial foram amplamente aplicadas para promover o dogma ideológico nazista de manter uma raça matriz pura e biologicamente superior a outras.

O presidente da Universidade de Jena, Walter Rosenthal, admitiu que a simples remoção da palavra “raça” do vocabulário acadêmico não evitará o racismo, mas pode contribuir para garantir que esse preconceito “não possa mais ser invocado por nós como uma justificativa”.

Na Declaração de Jena, o grupo de cientistas estabeleceu uma ligação entre as formas atuais de racismo e “disciplinas aparentemente científicas”, como higiene racial e eugenia. “Designar ‘os africanos’ como uma suposta ameaça à Europa e atribuir certas características biológicas a eles está na tradição direta do pior racismo do nosso passado. Portanto, vamos garantir que as pessoas nunca mais sejam discriminadas com base em especificações biológicas”, concluíram os cientistas.

Para animais domésticos, o termo raça ainda é adequado. Segundo Hossfeld, isso ocorre porque as raças nestes casos são resultado de criação e não de um processo biológico natural. “A qualificação geográfica não se aplica a animais domésticos. Não existem dachshunds de Gilbratar que migraram para o norte”, acrescentou o biólogo.

Quem ganha com falsas controvérsias sobre ciência

É cada vez mais difícil entender sobre falsas controvérsias, polêmicas fabricadas e mentiras que tentam se passar por opinião científica respeitável. Boa parte da culpa é atribuida a “condição de pós-verdade” do mundo Ocidental – em que o valor dos fatos parece variar de acordo com sua capacidade de servir aos preconceitos dos diferentes grupos sociais, e onde figuras públicas se julgam autorizadas a mentir com impunidade – nas costas do jornalismo business as usual, aquele praticado por grandes jornais, revistas de ampla circulação, rádios e estações de TV.

 

IMAGEM IQC

Quem ganha com falsas controvérsias sobre ciência

Está cada vez mais difícil ficar atualizado com a bibliografia sobre falsas controvérsias, polêmicas fabricadas e mentiras que tentam se passar por opinião científica respeitável.Não faz muito tempo, resenhei dois livrosque tratam do assunto. Semana passada aproveitei para ler outros dois, Post-Truth, do filósofo Lee McIntyre, eLies Incorporated, do jornalista Ari Rabin-Havt, ligado à ONG Media Matters e ao Partido Democrata.

Ambos os livros põem boa parte da culpa pela atual “condição de pós-verdade” do mundo Ocidental – em que o valor dos fatos parece variar de acordo com sua capacidade de servir aos preconceitos dos diferentes grupos sociais, e onde figuras públicas se julgam autorizadas a mentir com impunidade – nas costas do jornalismo business as usual, aquele praticado por grandes jornais, revistas de ampla circulação, rádios e estações de TV.

Não porque esses veículos estejam envolvidos em alguma grande conspiração para disseminar fake news– este é o discurso de gente como Donald Trump – mas porque,ao longo do século passado (e ainda neste), esses veículos adotaram normas e procedimentos cheios de bugs, bugs que foram manipulados à larga por políticos e publicitários.

O principal efeito desses bugs é o de confundir “equilíbrio” com “objetividade”, o que se reflete na norma de que todas as partes interessadas numa determinada questão devem ter igual voz na cobertura. Trata-se de uma regra útil quando o que está em jogo é, por exemplo, a construção de um novo parque, e também pode ser importante quando se realiza um trabalho investigativo de fôlego.

Mas quando se reduz ao meramente declaratório – “ele disse isso, ela disse aquilo” – e, principalmente, quando o que está sendo discutido são pontos científicos consensuais, o recurso engana, distrai e sugere preguiça ou, pior, covardia da parte de quem escreve e publica.Como afirma McIntyre, o ponto de equilíbrio entre verdade e mentira ainda não é a verdade – portanto, é mentira. 

Ao adotar uma política de equilíbrio (na verdade, uma falsa equivalência) em questões de consenso científico, a grande mídia “longe de ganhar objetividade, produziu o efeito irônico de reduzir seu compromisso com a cobertura precisa das notícias”. 

“Quando os erros são predominantemente responsabilidade de um dos lados, fingir que todos os lados são iguais é um desserviço à verdade”, escreve.

Novo problema velho

O filósofo sugere que essa ampliação do “outroladismo” para questões de ciência agravou-se com o surgimento, no mercado americano, de redes como a Fox News, claramente partidarizadas. Para criar contraste com as redes polarizadas e evitar acusações de partidarismo, os meios que se acreditam neutros e almejam à imparcialidade teriam caído na armadilha de tentar apresentar os “dois lados” a respeito de tudo.

O fenômeno Fox News pode ter acelerado a tendência, mas está longe de tê-la criado: o próprio McIntyre aponta (no que acompanha o diagnóstico de Rabin-Havt) que o “paciente zero” da manipulação da mídia por uma controvérsia científica fabricada foi a falsa polêmica da relação entre tabaco e câncer.

Em Lies Incorporated, o jornalista relata uma série de casos – indo do tabaco à questão da saúde mental de crianças criadas por casais gays (a ciência é clara: não há problema nenhum), e passando pelo aquecimento global – em que grupos de pressão encomendaram a produção de lixo científico, ou distorceram a ciência real, para empurrar para a mídia a ideia de que a questão teria “dois ou mais lados” dignos de consideração.

E a mídia caiu como um patinho, todas as vezes. O bug da “ciência com outro lado” está aí, escancarado, desde os anos 50, e ainda é explorado – na verdade, é cada vez mais fácil explorá-lo: McIntyre nota que, depois que a CNN estabeleceu o ciclo de notícias contínuo de 24 horas, programas de debate – em que “especialistas” e jornalistas conversam entre si ad nauseam– passaram a predominar sobre o conteúdo investigativo. E para haver debate, é preciso haver “vários lados”. 

Controvérsias, aponta Rabin-Havt, servem aos status-quo. Quem fabrica uma polêmica sobre ciência quer que tudo continue como está: que nada seja feito. Que as pessoas continuem fumando, queimando petróleo e derrubando árvores, por exemplo. A função da falsa polêmica é transformar o debate político em atoleiro.

E, com a colaboração, ainda que involuntária, da mídia, a estratégia funciona: estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Yale mostrou que, de 2008 a 2010, a proporção de americanos que acreditava da realidade do aquecimento global antropogênico havia caído de 71% para 57%. Nenhuma descoberta científica ocorrida no período explica essa queda. A questão é, apenas, de percepção e comunicação.

Para usar na escola

Já existe até material didático que aproveita o fenômeno. Creating Scientific Controversies, de David Harker, é um curso de filosofia da ciência construído em torno do tema das falsas controvérsias. Ele abre com uma revisão histórica do caso da percepção pública da relação entre tabaco e câncer, e então se lança numa densa discussão de temas filosóficos relacionados à percepção da ciência e ao fazer científico.

O autor trata de estabelecer que incerteza e convicção não são mutuamente excludentes– o fato de não existir certeza absoluta de que uma explicação é correta não nega a possibilidade de ela ser a melhor possível – e, depois, constrói o caso de que o consenso da comunidade científica, dadas as características dessa comunidade (hábito de crítica metodológica, revisão pelos pares, descentralização, tensão permanente entre competição e colaboração, etc.) tende a produzir sempre isso, a melhor explicação possível: aquela que, mesmo incerta, é a que merece convicção, pelo menos até que esse mesmo consenso evolua e traga uma melhor.

Não que o consenso seja infalível. Mas alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias, lembra o autor, e pondera que afirmar que o consenso de milhares de especialistas que estudam “X” está errado, e exatamente sobre “X”, é talvez a mais extraordinária alegação possível, logo deveria vir acompanhada de evidência contundente.

Harker aponta, ainda, o que considera as três “marcas” de uma controvérsia fabricada, com a ressalva de que essas marcas são mais indícios do que provas cabais. São elas:

Grupo interessado: alguém geralmente tem algo a ganhar com a negação do consenso científico, seja dinheiro, prestígio ou a mera manutenção de uma visão de mundo incompatível com a ciência. Harker adverte que o indício do “grupo interessado” pode degenerar facilmente para a falácia ad hominem, em que a crítica ao argumentador é tomada como crítica ao argumento, e pede cautela em seu uso.

Argumentação exclusivamente negativa: uma alternativa legítima ao consenso científico deve, espera-se, ser construída a partir de um conjunto de observações e experimentos originais, e oferecer uma teoria capaz de dar conta dessas observações e experimentos. Em resumo, alternativas legítimas são propositivas. Já uma controvérsia manufaturada raramente propõe algo, limitando-se a citar anomalias (reais ou fabricadas) no corpo experimental preexistente e falhas explicativas (mais uma vez, reais ou fabricadas) no corpo da teoria reinante.

Aqui, Harker retoma o princípio de que incerteza e convicção não são mutuamente excludentes. Toda teoria possui uma “superfície de contato”, uma zona-limite onde entra em choque com dados que não é imediatamente capaz de absorver, detalhes que ainda não consegue explicar de modo satisfatório, irregularidades e incertezas. É nessa zona de contato que a teoria encontra material para evoluir. E, sim, o impacto acumulado das anomalias pode até levar a teoria a ser abandonada e substituída. Mas apenas apontar a existência dessa “zona de choque” não prova nada: ela é parte normal da ciência.

Apelo à opinião pública, não aos pares: no curso normal dos eventos, um especialista que discorda honestamente de outros especialistas apresenta suas discordâncias e argumentos na literatura técnica, não nos telejornais. O apelo direto à mídia popular é um forte indicador de que a única argumentação à disposição dos promotores da controvérsia é do tipo negativo, ou de que ela não resistiria por cinco minutos à análise de uma audiência de especialistas.

“O mundo da política de pós-verdade é o resultado patético de uma cultura política onde vitória ideológica, não progresso, representa o verdadeiro objetivo”, escreve Rabin-Havt em Lies IncorporatedEle se refere aos Estados Unidos, mas a situação no Brasil não é muito diferente.

De fato, a atual campanha que tenta desmoralizar os dados oficiais do Inpe sobre desmatamento se conforma bem aos padrões de desonestidade intelectual estudados lá fora. A intenção, aventada várias vezes for figuras-chave do governo, de criar uma “apuração paralela” da taxa de desmatamento da Amazônia segue de perto o playbook dos fabricadores de controvérsias, que buscam transformar debates em atoleiros: se os dados legítimos não agradam, fabriquem-se (e comprem-se) dados “alternativos”.

Não temos – ainda, ao que parece – empresas de relações públicas e think tanks mercenários especializados em construir mentiras científicas, como os denunciados em Lies Incorporated, mas o mercado é sempre sensível à demanda. O Heartland Institute, recentemente visitado por representantes do governo brasileiro, é um grande produtor de laudos sobre aquecimento global que dizem os que os negacionistas gostam de ouvir, por exemplo.

Pelo menos no caso do desmatamento, a mídia brasileira parece ter acordado de sua catalepsia outroladista. Vamos ver como o jogo prosseguirá quando (e se) os números alternativos começarem a aparecer.

 

 

 

“Nature” publica guia sobre pensamento crítico

Experiências pessoais e relatos isolados, por si sós, não provam nada. O fato de uma solução/terapia/intervenção ser usada há décadas ou séculos não implica que ela seja segura ou eficiente. O fato de uma solução/terapia/intervenção ser baseada numa nova descoberta científica ou numa tecnologia maravilhosa não implica que ela seja segura ou eficiente. Opiniões de especialistas, autoridades ou celebridades não bastam para embasar uma alegação.

A revista “Nature” publicou, no início do mês, um artigo de opinião, assinado por 25 pesquisadores, sugerindo uma série de critérios e advertências para a tomada de decisão em questões de política e pública e saúde, adaptados do padrão-ouro da pesquisa médica, o teste controlado, randomizado, duplo-cego com grupo placebo, o popular RCT. 

O artigo todo é muito bom e vale a leitura, mas como é longo e está em inglês, vamos dar um resumo por aqui. O princípio básico é de que alegações de eficácia e propostas para a solução de problemas – médicos, sociais, econômicos, domésticos, você escolhe – devem, sempre que possível, ser baseadas em evidência produzida preferencialmente por comparações justas.

A ideia de comparação justa – em que os grupos avaliados têm formação semelhante, encontram-se em condições iguais e são tratados de forma idêntica, exceto no que diz respeito à intervenção testada – é a base dos RCTs médicos. Generalizar o procedimento específico dos testes clínicos para questões sociais pode ser complicado (embora não impossível), mas o princípio é algo que vale a pena ter em mente, ainda que como um ideal a ser alcançado.

Fazem também parte do guia uma série de princípios que, neste alvorecer do século 21, quatrocentos anos após a Revolução Científica e quase duzentos anos depois de a profissão médica ter se convencido de que lavar mãos salva vidas, deveriam ser tão óbvios quanto o fato de que galinhas têm penas e porcos não voam. Mas não são. São princípios que precisam ser aprendidos, repetidos, e defendidos com unhas e dentes no debate público. Alguns deles:

Experiências pessoais e relatos isolados, por si sós, não provam nada;

O fato de uma solução/terapia/intervenção ser usada há décadas ou séculos não implica que ela seja segura ou eficiente;

O fato de uma solução/terapia/intervenção ser baseada numa nova descoberta científica ou numa tecnologia maravilhosa não implica que ela seja segura ou eficiente;

Opiniões de especialistas, autoridades ou celebridades não bastam para embasar uma alegação;

E, o clássico absoluto:

Correlação não implica relação de causa e efeito! 

Ou, como os autores do guia escrevem, “muitas pessoas não percebem que duas coisas podem estar associadas sem, necessariamente, uma causar a outra”.

O artigo na “Nature” chama atenção para o fato de que a mídia – incluindo publicações universitárias e o material de divulgação produzido por institutos de pesquisa e enviado para a imprensa – perpetua esse falso elo entre associação e causação, principalmente como estratégia para “esquentar” matérias sobre dietas, saúde e hábitos de consumo.

Notando que o público tem dificuldade em discriminar o grau de confiabilidade de diversos tipos de evidência, o guia cita pesquisa realizada no Reino Unido que apontou que apenas pouco mais de um terço da população britânica confia em pesquisa médica, enquanto que dois terços confiam nas experiências pessoais de amigos e familiares com remédios e tratamentos.

Nem todos os problemas, porém, estão no senso-comum do público em geral, não escolado nas sutilezas do método científico ou nas críticas clássicas de David Hume (1711-1776) à facilidade com que fazemos inferências injustificadas sobre regularidades da natureza e relações de causa e efeito.

Há princípios no guia que dizem respeito a alguns maus hábitos que volta e meia se instalam na prática científica, por exemplo:

Mais dados não são, necessariamente, dados melhores;

Deve-se dar atenção aos resultados principais, não a indicadores indiretos (por exemplo, aumentar a sobrevivência do paciente é mais importante do que melhorar os resultados de seu exame de sangue);

Estudos pequenos podem levar a conclusões erradas;

Os resultados de um único estudo, tomados de forma isolada, podem levar a conclusões erradas;

Declarar um resultado “estatisticamente significativo” ou “não significativo” pode levar a conclusões erradas;

Revisão pelos pares e publicação num periódico científico não são garantia de que a comparação foi justa.

Estes últimos pontos são especialmente importantes hoje em dia, quando vendedores de panaceias, milagres estéticos diversos e defensores de terapias alternativas se esmeram em reunir “evidência científica” a favor de suas gororobas.

A própria “Nature”, para ficar no mesmo periódico, já publicou artigos, revisados pelos pares e nunca retratados, afirmando que o ilusionista israelense Uri Geller era capaz de, por meios paranormais, adivinhar corretamente os resultados de dados agitados dentro de uma caixa fechada; e que água é capaz de reter a “memória” de materiais com que já teve contato.

Vistos isoladamente, cada um desses trabalhos pode parecer revolucionário. No contexto maior da ciência, reduzem-se a curiosidades históricas e lições práticas sobre erros de metodologia.

Seria muito bom se o guia publicado agora fosse disseminado e passasse a embasar discussões, não só de ciência, mas também de política pública – e também, na medida do possível, os processos de tomada de decisão por que todos passamos no dia a dia. Seria uma lufada de ar puro, em meio ao miasma atual de preconceito e arrogância que passa por evidência no discurso público em que, para o bem ou para o mal, todos estamos inseridos.

A ciência e a religião segundo 6 grandes cientistas

 

Há um conflito entre ciência e religião? Grandes cientistas negaram a existência de deus. Outros tentaram reconciliar a ciência com a sua fé.

 Galileo Galilei fue acusado de herejía por la Iglesia.

¿Están la ciencia y la religión en conflicto por naturaleza? 

Algunos de los grandes nombres de la ciencia han negado la existencia de dios, pero a lo largo de la historia otros tantos trataron de encontrar una manera de reconciliar la ciencia y con su fe.

Para algunos de estos hombres y mujeres de ciencia, investigar el origen del universo era acercarse a la propia obra de dios.

Aquí repasamos las posturas religiosas de algunos de los grandes científicos de la historia:

1. Galileo y su conflicto con la Iglesia

En 1614, el astrónomo italiano Galileo Galilei fue acusado de herejía por apoyar la teoría de Copérnico de que el Sol estaba en el centro del Sistema Solar. Esto fue revolucionario en un momento en que se creía que era la Tierra la que estaba en esta posición central.

En 1616, la Iglesia le prohibió enseñar o defender estas teorías.

Este episodio se considera uno de los grandes choques entre ciencia y religión. Sin embargo, Ernan McMullin, profesor de historia y filosofía de la ciencia en la Universidad de Notre Dame, consideró que el asunto fue mal entendido y esto no fue un choque entre ciencia y religión. ¿La razón? Todos los involucrados en el caso eran cristianos.

Galileo escribió muchos miles de palabras sobre teología e interpretación bíblica mientras buscaba dar sentido a las observaciones telescópicas que estaba haciendo.

De hecho, fue el propio astrónomo quien dijo: “No me siento obligado a creer que el mismo Dios que nos ha dotado con el sentido, razón e intelecto nos haya destinado a renunciar a su uso”.

2. La fe en la ciencia y en Dios de Mitchell

Maria Mitchell fue la primera astrónoma de Estados Unidos y la primera mujer elegida para la Academia Estadounidense de Artes y Ciencias, en 1848. Ejerció como profesora de astronomía y fue una activista de los derechos de la mujer.

La astrónoma tenía una fe plena tanto en dios como en la ciencia. “Las investigaciones científicas avanzan y revelarán nuevas formas en las que Dios trabaja y nos trae revelaciones más profundas de lo desconocido”, escribió.

Creía que las revelaciones de la biblia y la comprensión de la naturaleza a través de la ciencia no están en conflicto. “Si parecen estarlo” -dijo-, “es porque no se comprende ni lo uno o lo otro”.

3. “Producto de la debilidad humana” para Einstein

El pensamiento del físico Albert Einstein sobre la religión estuvo muy influenciado por la obra del filósofo Baruch Spinoza.

El dios de Spinoza era un dios amorfo e impersonal responsable del orden del universo y la impresionante belleza de la naturaleza. Esta línea de pensamiento resonó profundamente en el científico.

Con su célebre “Carta de Dios”, que Einstein envió al filósofo judío alemán Eric Gutkind, el físico fusiona sus pensamientos sobre la religión, su identidad judía y su propia búsqueda del sentido de la vida.

En la carta, Einstein refuta los argumentos que Gutkind expone en el libro “Escoger la vida: la llamada bíblica a la rebelión”, en el que presentó a la Biblia como un llamado a la lucha, y al judaísmo e Israel como entes incorruptibles.

“La palabra Dios no es para mí más que la expresión y el producto de la debilidad humana”, escribió el físico.

Einstein califica la religión judía de “encarnación supersticiosa” como lo son todas las religiones y la Biblia “una colección de leyendas venerables pero bastante primitivas”.

“Ninguna interpretación, sin importar cuán sutil sea, cambiará mi punto de vista sobre esto”.

“Y el pueblo judío al que pertenezco gustosamente y en cuya forma de pensar me siento profundamente anclado, no tiene para mí ningún tipo de dignidad diferente a la del resto pueblos. Según mi experiencia, en realidad no son mejores que otros grupos humanos”, dijo el científico.

La carta se vendió el año pasado por US$2,9 millones en una subasta que se celebró en Christie’s, Nueva York.

4. El agnosticismo de Marie Curie

Marie Curie fue la primera persona en ganar el premio Nobel en dos disciplinas diferentes.

En 1903 recibió el Premio Nobel de Física junto a su marido y Henri Becquerel. Ocho años más tarde ganó un segundo premio Nobel, esta vez en química.

La menor de cinco hermanos, Curie -Maria Salomea Skłodowska- nació en Polonia en 1867. Su padre era ateo y su madre católica, y ella fue criada en el catolicismo. Sin embargo, abandonó la religión años más tarde, tras la muerte de su madre, lo que la llevó al agnosticismo.

La reconocida científica dijo en una ocasión: “Nada en la vida debe ser temido, solo debe ser entendido. Ahora es el momento de entender más, para que podamos temer menos”.

5. El dios “innecesario” de Hawking

Durante toda su vida, el científico británico Stephen Hawking -quien padecía esclerosis lateral amiotrófica (ELA) y murió en 2018 a los 76 años- trató de explicar el origen del universo.

Como escribió en su libro “El gran diseño” en 2010, sus trabajos sobre la teoría del Big Bang y la teoría del todo lo llevaron a una conclusión clara y contundente: “No es necesario invocar a Dios para encender la mecha y darle inicio al Universo”.

Pero tras afirmar que el Big Bang fue el comienzo de todo, la siguiente pregunta a la que se enfrentó es: ¿y entonces qué hubo antes?

“Cuando la gente me pregunta si Dios creó el universo, les digo que la pregunta en sí misma no tiene sentido“, narró Hawking en un video para el canal de televisión por cable especializado en ciencia Discovery Channel.

“El tiempo no existía antes del Big Bang, así que no había tiempo en el que Dios pudiera crear el universo”.

 6. O ateismo de Freud
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)*(1)
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)*(2)
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)*(3)
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)* (4)
Fontes: 
 1 a 5 – Redação  BBC News Mundo
6 – Saúde Pública(da) ou não
 
 
 

O jornalismo supérfluo, a ciência e a homeopatia

O jornalismo brasileiro vive um bizarro caso de amor com a homeopatia. Um caso em que o leitor desempenha o papel de cônjuge traído. Há cerca de quinze anos que a credibilidade clínica, a respeitabilidade científica e o papel da prática em políticas públicas de saúde, no mundo civilizado, só faz encolher – e o brasileiro que confia nos jornais, nas revistas e na televisão não fica sabendo.

Jornalismo brasileiro falha quando o assunto é homeopatia

O Titanic homeopático foi a pique anos atrás, abalroado por uma verdadeira frota de icebergs de evidência científica, mas para a mídia nacional é como se isso não tivesse nenhuma relação com oBrasil, um país onde a prática é absurdamente reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, promovida pelo Ministério da Saúde e subsidiada pelo SUS.

Por exemplo, a notícia recente de que o governo francês decidiu encerrar sua política de subsídioa medicamentos homeopáticos, atendendo a (mais um) parecer científico que constata a ineficácia da prática, chegou ao Brasil via internet – depois de ser antecipada aqui, em Questão de Ciência mas mal foi citada nos meios tradicionais. E, quando a citação ocorre, é no sentido de curiosidade inócua de uma terra estrangeira (o texto do G1, no link inicial deste parágrafo, é uma tradução do serviço de imprensa alemão Deutsche Welle). 

O contexto nacional chama atenção pela ausência: é como se os fatos científicos relevantes para a fisiologia e a saúde dos franceses não significassem nada aqui.O que se encaixa bem na cegueira histórica da imprensa brasileira para com a crítica científica à homeopatia.

O primeiro iceberg a pegar o transatlântico homeopático pela proa foi a publicação, pela revista médica The Lancet, em 2005, do estudo de Aijing Shang e colegas, demonstrando que os supostos efeitos benéficos da prática se reduzem aos de um placebo. Um editorial intitulado “O Fim da Homeopatia”– o que poderia ser mais claro? – acompanhava o trabalho.

Por aqui, na época, a Folha de S. Paulo dedicou ao assunto uma nota de rodapé na página de Ciência: nota traduzida do jornal inglês The Independent, sem nenhum esforço de relacionar o estudo (ou o editorial) à realidade brasileira. Sendo que, no tempo em que a grande imprensa ainda contava com espaço e equipe consideráveis para tratar de assuntos de saúde e ciência,qualquer coisa que saísse na Lancet sobre tratamento de unha encravada em camundongo virava abre de página, com ampla repercussão entre especialistas nacionais.

Um segundo golpe veio em 2010, quando uma investigação do Parlamento Britânico concluiu que o uso de verba pública para subsidiar a prática configurava desperdício do suado dinheirodos contribuintes.O jornal The Guardian definiu a defesa da prática, apresentada pela “elite da homeopatia” britânica, como “farsesca”, dada a incongruência dos argumentos e a falta de evidências. 

No Brasil, onde o SUS gasta dinheiro com homeopatia, silêncio sepulcral (para ser mais preciso, outra nota de rodapé na Folha, tratando o assunto como coisa de planeta alienígena). Quando, anos mais tarde, o relatório parlamentar permitiu que a ONG Good Thinking Societyforçasse a exclusão da homeopatia do sistema público inglês, o assunto foi largamente ignorado por aqui. Mal comparando, se uma CPI britânica concluísse que aspirina é inútil, e por causa disso o remédio acabasse banido da rede pública inglesa, isso seria, no mínimo, capa de Veja.

Um terceiro petardo veio da Oceania: em 2014, o Conselho Nacional de Pesquisa Médica da Austrália divulgou o resultado de uma ampla revisão de estudos sobre a eficácia da homeopatia como forma de tratamento médico.

Assim como os autores do artigo de 2005 naLancete o comitê do Parlamento Britânico em 2010, os australianos chegaram à conclusão de que não existe prova nenhuma de eficácia. O trabalho repercutiu internacionalmente– mas não no Brasil.

Aliás, a recente decisão francesa de encerrar o subsídio público a remédios homeopáticos se segue a mais uma revisão da literatura científicasobre o assunto, que produziu resultados idênticos aos (desculpe o tamanho da lista) publicados na Lancet, pelo Parlamento Britânico, pelo Conselho australiano, no British Journal of Clinical Pharmacologye por diversos outros cientistas:não há evidência positiva crível de que a homeopatia funcione melhor do que um placebo.

Existem revisões de literatura com resultado favorável à homeopatia? Sim. Mas só as que são feitas por homeopatas (e que costumam ter qualidade lastimável). O que remete à anedota do cara que acredita que é invisível, mas só quando nenhum cético está olhando.

Para ser justo, não é que a mídia brasileira ignore por completo a evidência de que a homeopatia é inútil. Mas insiste em tratá-la, editorialmente, não como evidência, questão de fato, mas como argumento, isto é, questão de opinião. Ainda em 2018, nosso “modelo”, a Folha, publicava artigos pró e contra homeopatia em sua página de material opinativo, Tendências/Debates. O jornal provavelmente teria pruridos em tratar o criacionismo ou o terraplanismo da mesma forma.

Para ser claro: não existe “controvérsia científica” em torno da homeopatia. A prática é rotineiramente citada como exemplo inequívoco de pseudociência ou ciência patológica em manuais acadêmicos de filosofia da ciência, muitas vezes no mesmo parágrafo que o design inteligente ou a astrologia. 

Pode-se argumentar que existe uma percepção pública de controvérsia. Isso é algo, infelizmente, comum em ciência: a questão já se tornou pacífica entre os especialistas e estudiosos, mas o público ainda tem a falsa impressão – quase sempre, insuflada por interesses comerciais ou ideológicos – de que o debate segue indefinido.

Da relação entre tabaco e câncer ao aquecimento global, passando pela evolução das espécies, a lista de proposições que já enfrentaram, ou ainda enfrentam, esse descompasso entre realidade e senso-comum é enorme. Mas o papel da imprensa deveria ser o de esclarecer e informar, não o de se curvar bovinamente ao senso-comum.

O problema ganha uma camada extra de complexidade, no entanto, quando descemos da esfera das abstrações e levamos em conta que o jornalista é um ser humano como outro qualquer, inserido na cultura dominante e também imerso no senso-comum. Se uma parcela significativa da sociedade é simpática à homeopatia e desconfia dos resultados que apontam contra ela, é provável que uma parcela significativa dos jornalistas também seja – e desconfie. E essa parcela acaba influenciando a seleção e o direcionamento das pautas.

De qualquer modo, a história do jornalismo está repleta de casos em que o ideal da objetividade e o peso bruto dos fatos derrotaram o senso-comum dessa ou daquela redação – a profissão seria bem supérflua, aliás, se isso não acontecesse com certa frequência. 

Então, recapitulo aqui os fatos brutos, e acrescento mais alguns: Inglaterra e França concluíram que subsidiar homeopatia é má política pública. Austrália concluiu que a prática é inútil.

Essas conclusões foram atingidas de modo independente, a partir da análise de milhares de estudos científicos, uma base de evidências que se acumula há décadas. A mesma base de evidências, aliás, levou o serviço de proteção ao consumidor dos Estados Unidos a exigir uma rotulagem especialpara medicamentos homeopáticos, advertindo o comprador de que eles não têm base científica.

Esses desdobramentos internacionais têm óbvia relevância para o cenário brasileiro. A grande mídia estaria cumprindo melhor seu papel se parasse de fingir o contrário.

Por: Carlos Orsi

Terapias “energéticas” são contos de fadas

Incluindo terapia quântica, toque terapêutico (TT), energia vital, reiki, “Ciência da Fada dos Dentes”, “campo energético humano”, Qigong…

Imagem IQC

Emily Rosa tinha onze anos de idade quando conseguiu algo com que muitos cientistas com décadas de carreira apenas sonham: assinar um artigo publicado num periódico científico de primeira linha. Há pouco mais de vinte e um anos, em abril de 1998, o Journal of the American Medical Association (JAMA) trazia a público o trabalho A Close Look at Therapeutic Touch, em que um experimento, desenhado por Emily dois anos antes para a feira de ciências da escola, demonstrava que praticantes de “toque terapêutico”, ou “TT” – uma forma de terapia por imposição das mãos – eram incapazes de detectar o tal “campo energético humano” de que suas supostas “curas” dependiam.
A metodologia adotada era de uma clareza solar: profissionais de TT tinham de introduzir suas mãos por um anteparo e determinar se, do outro lado, havia ou não a mão de outro ser humano. As chances de acerto, por pura sorte, eram de 50%. Se realmente houvesse um campo energético humano ou força vital detectável, o resultado deveria ser próximo de 100%. A real: 44%. O experimento publicado em JAMA foi composto por 280 testes individuais, e os participantes tinham, em alguns casos, quase três décadas de experiência em TT.
Produto do Ocidente, o TT foi inventado, na década de 70 do século passado, por uma ocultista holandesa, radicada nos Estados Unidos, e uma professora de Enfermagem da Universidade de Nova York. As criadoras, no entanto, reconhecem as raízes da práticano pensamento oriental.
Em artigo publicado em 1975 em The American Journal of Nursing, a professora de Enfermagem Dolores Krieger, uma das duas autoras do TT, cita o conceito indiano de prana, que ela interpreta como energia vital. A professora escreve que “a literatura afirma que o pranaé intrínseco ao que chamaríamos de molécula de oxigênio”.
A parceira de Krieger na elaboração da teoria e prática do toque terapêutico, a ocultista Dura Kunz, foi durante anos presidente da Sociedade Teosófica dos Estados Unidos. Desenvolvida na América do Norte no fim do século 19, a Teosofia importou vários elementos do misticismo hindu, misturando-os a tradições místicas europeias.
Qigong
Vamos, então, ao Oriente. Dez anos antes da publicação de Emily Rosa, um grupo de pesquisadores dos EUA e do Canadá havia visitado a China, a convite de cientistas chineses, para auxiliar nos testes de práticas ligadas à medicina tradicional chinesa (MTC) e outros supostos fenômenos paranormais.
As aventuras desse comitê, do qual fez parte o ilusionista James Randi, são descritas num dos capítulos do livro The Hundredth Monkey: And Other Paradigms of the Paranormal, mas a que nos interessa trata do teste de um certo Doutor Lu, mestre Qigong, uma forma chinesa de “cura” por imposição das mãos com (suposta) transferência, transmissão ou manipulação de alguma forma de energia vital.
Embora supostamente alicerçada em tradições milenares, a terapêutica Qigong surge, com esse nome – “qi” significando algo como “espírito” ou “força vital” e “gong”, “perícia”, “habilidade” – em 1955, num centro de repouso para funcionários do governo comunista em Pequim. O primeiro tratado sobre o assunto é publicado em 1957. Em comparação, a técnica japonesa de reiki (“rei”, divino, miraculoso; “ki”, energia, sopro), em que o terapeuta que também busca canalizar ou emitir “energia vital” a partir das mãos, foi codificada na década de 20.
A despeito, portanto, da antiguidade cultural dos conceitos de pranaqi ou ki, nenhuma das práticas hoje associadas à ideia tem, na verdade, mais de cem anos.
Sopro de ar
Como explica o especialista em história médica chinesa Yuan Zhong, citado neste artigo, durante milênios os médicos chineses tiveram de conviver com sérias restrições culturais que impediam a dissecação do corpo humano – algo que também foi comum no Ocidente –, e os principais modelos disponíveis eram as vítimas de execuções, que ocorriam principalmente por decapitação.
“Após a descida do machado, o sangue deixa o corpo rapidamente, e os observadores da antiguidade presumiam que esse líquido vinha da cavidade corporal, não dos curiosos tubos, aparentemente vazios, que conseguiam ver depois de o sangue ir embora”, explica o médico e historiador.
“Hoje, sabemos que esses vasos eram as artérias carótidas e veias jugulares, que transportam sangue”, prossegue. “Observadores antigos imaginaram que, como esses tubos pareciam vazios e murchos, algum tipo de ar ou gás especial deveria inflá-los, daí o nome qi”, que também admite o significado comezinho de “ar” (curiosamente, “prana”, em sânscrito, também tem o significado mundano de “respiração”).
Qigong na prática
Mas, voltando ao Doutor Lu: numa demonstração inicial, ele realizou suas manipulações energéticas sobre uma paciente, que reagiu de modo dramático, movendo-se “às vezes de forma lenta e comedida; às vezes, violenta e convulsiva”. O mestre Qigong estava a dois metros e meio da voluntária.
Os norte-americanos sugeriram uma demonstração da prática sob condições um pouco mais rigorosas. O teste foi, como no caso de Emily Rosa, de uma clareza fantástica: mestre e paciente foram colocados em salas separadas, sem contato visual ou acústico entre si (Doutor Lu tinha certeza de que sua capacidade de manipular e emanar qi funcionaria à distância, e através de paredes). 
Durante uma série de rodadas de duração predeterminada, o mestre iria emitir energia na direção da paciente ou se manter imóvel – o que aconteceria em cada rodada seria determinado por um lance de cara-ou-coroa. 
Questão: será que a voluntária iria entrar em movimento, ou teria convulsões, nas mesmas rodadas em que Doutor Lu estaria enviando energias? Caso a hipótese qi estivesse correta, a correlação temporal entre uma coisa e outra deveria ser próxima de 100%. 
Resultado: “durante um período, a moeda saiu coroa quatro vezes seguidas; isso significa que o mestre Qigong não transmitiu qi por 14 minutos e 45 segundos. No entanto, a voluntária se contorceu ao longo de todo esse tempo. As duas únicas rodadas em que a voluntária se manteve imóvel foram rodadas em que a moeda havia caído cara e o Dr. Lu tentava influenciar a paciente”.
Físicos
O relato em The Hundredth Monkey diz ainda que experimentos para tentar detectar a suposta energia que fluiria dos dedos dos mestres Qigong já haviam sido realizados antes da chegada do grupo de investigadores norte-americanos, com resultados negativos.
Nenhuma das forças conhecidas da natureza – gravidade, eletromagnética e as forças nucleares – corresponde à descrição da energia vital ou qi. Físicos como Sean Carroll e o falecido Victor Stenger apontam que a existência de uma força capaz de afetar objetos na escala de órgãos humanos, mas que ainda não tenha sido detectada por instrumentos científicos, é virtualmente inconcebível.
“Todos os organismos vivos são compostos pelos mesmos quarks e elétrons que compõem uma rocha ou um rio”, escreveu Stenger no artigo The Physics of Complementary and Alternative Medicine. “Sofrem os efeitos das mesmas forças. Físicos conseguem medir os efeitos de forças eletromagnéticas em uma parte em um bilhão, mas não encontram a menor sugestão de forças vitais ou psíquicas especiais”.
Carroll, em seu livro The Big Picture, afirma que, se existissem forças ou partículas capazes de fazer uma pessoa afetar outras pessoas ou objetos à distância, “já as teríamos descoberto”. A ciência está longe de saber tudo, diz ele, mas o que já sabe permite descartar algumas hipóteses.
Esse autor chama atenção para o conceito de domínio de aplicabilidade de uma teoria científica: Carroll não afirma que nenhum novo fenômeno físico jamais será descoberto; o que ele afirma é que qualquer nova força, se relevante na escala humana do cotidiano, já teria sido notada, se de fato existisse.
Sequer o fenômeno do emaranhamento quântico – em que partículas separadas por grandes distâncias são capazes de responder instantaneamente uma à outra – oferece refúgio. No livro Schrödinger’s Killer App: Race to Build the World’s First Quantum Computer, o físico Jonathan Dowling lembra que, na temperatura do corpo humano, “qualquer emaranhamento quântico seria destruído em um septilionésimo de segundo”. Nem mesmo as consultas do SUS são tão rápidas.
Fadas
Há vários anos, a médica e escritora Harriet Hall vem popularizando a expressão “Ciência da Fada dos Dentes”. Como ela mesmo explica num artigo:
“Você pode estudar quanto dinheiro a Fada dos Dentes deixa em diferentes situações (primeiro contra último dente, idade da criança, dente num saquinho contra dente enrolado em papel, etc.), e seus resultados podem ser replicáveis ​​e estatisticamente significativos. Você pode achar que descobriu algo sobre a Fada dos Dentes; mas seus resultados não dizem o que você imagina, porque você não se deu ao trabalho de descobrir se a Fada dos Dentes é real ou se alguma causa mais plausível (os pais) poderia dar conta do fenômeno”.
A pesquisa dita científica sobre as propriedades terapêuticas do tal “campo energético humano”, pranaqiou ki são exemplos clássicos de Ciência da Fada dos Dentes: busca-se medir os efeitos de um fenômeno sem, antes, estabelecer-se a realidade do fenômeno. De fato, o corpus reunido em torno do tema é negativo, inconclusivo, ou, quando positivo,  tem tão baixa qualidade que é como se os pesquisadores estivessem evitando – talvez de modo inconsciente – sequer considerar seriamente a hipótese “sem fada”.
Uma revisão recente da literatura sobre toque terapêutico, descrita na revista Skeptic, revela o estado lastimável do campo. Em pelo menos um caso, o “efeito positivo” descrito não passava de erro na interpretação dos dados estatísticos. E as autoras encontraram ainda “vários artigos publicados pela mesma equipe de pesquisa, dos quais pelo menos dois foram publicados com autores em ordem diferente e em diferentes periódicos, mas relatam exatamente os mesmos dados”.
As autoras concluem que, desde a publicação seminal de Emily Rosa, “a pesquisa sobre terapia energética não melhorou em nada; se houve mudança, foi para pior”.
Balão de ar
Como apontado por Carroll, Stenger e outros, a existência de algum tipo de “campo energético humano” viola as leis da Física – as mesmas leis que permitiram que você baixasse este artigo da internet, e que mantêm acesa a tela em que o lê.
Faz muito mais sentido reconhecer que os conceitos milenares de pranaki ou qi não são nada além de elaborações pré-científicas da constatação, muito real, de que o ar e a respiração são essenciais para a vida, e de que há uma ligação forte entre o ritmo e fluxo da respiração e o estado emocional.
Técnicas modernas, como reiki, Qigong e toque terapêutico, que tentam reinterpretar esses conceitos antigos em termos de campos e energias, cometem o mesmo erro das teorias “arqueológicas” que veem astronautas em pinturas pré-históricas. É uma mistura de perda de contexto e firme vontade de crer.
Quando Dolores Krieger, uma das inventoras do toque terapêutico, escreveu que “o prana é intrínseco ao que chamaríamos de molécula de oxigênio”, ela estava, enfim, muito mais certa do que poderia imaginar.
Por: Carlos Orsi
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