Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?

A publicação de hoje consta de duas partes.

Inicialmente trechos do resumo do livro Americanah, reproduzido do blog da Editora Companhia das Letras.

E logo após nossos comentários sobre alguns conteúdos mencionados por Ifemelu, personagem do livro.

chimamanda-ngozi-adichieIfemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review.

Por Ifemelu

Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

6. Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional de decidir “quem é racista”

Nos Estados Unidos, o racismo existe, mas os racistas desapareceram. Os racistas pertencem ao passado. Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis. Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com família que o amam, pessoas normais que pagam impostos.

Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda.

7.
Querido Americano Não Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experiência de ser negro, por favor, não se anime e dê exemplos de sua própria vida. Não diga: “É igualzinho a quando eu…”. Você já sofreu. Todos no mundo já sofreram. Mas você não sofreu especificamente por ser um Negro Americano. Não se apresse em encontrar explicações alternativas para o que aconteceu. Não diga: “Ah, na verdade não é uma questão de raça, mas de classe. Ah, não é uma questão de raça, mas de gênero. Ah, não é uma questão de raça, é o bicho-papão”. Entenda, os Negros Americanos na verdade não querem que seja uma questão de raça. Para eles, seria melhor se merdas racistas não acontecessem. Portanto, quando dizem que algo é uma questão de raça, talvez seja porque é mesmo, não? Não diga: “Eu não vejo cor”, porque, se você não vê cor, tem de ir ao médico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televisão e eles dizem que ele é suspeito de um crime, você só vê uma figura desfocada,meio roxa, meio cinza e meio cremosa. Não diga: “Estamos cansados de falar sobre raça” ou “A única raça é a raça humana”. Os Negros Americanos também estão cansados de falar sobre raça. Eles prefeririam não ter de fazer isso. Mas merdas continuam acontecendo. Não inicie sua reação com a frase “Um dos meus melhores amigos é negro”, porque isso não faz diferença, ninguém liga para isso, e você pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer merda racista. Além do mais provavelmente não é verdade, não a parte de você ter um amigo negro, mas a de ele ser um de seus “melhores” amigos. Não diga que seu avô era mexicano e que por isso você não pode ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que Não há uma Liga Unida dos Oprimidos). Não mencione o sofrimento de seus bisavós irlandeses. É claro que eles aturaram muita merda de quem já estava estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas havia uma hierarquia. Há cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que tolerável, porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. Não diga que seu avô era um servo na Rússia na época da escravidão, porque o que importa é que você é americano agora e ser americano significa que você leva tudo de bom e de ruim. Os bens dos Estados Unidos e suas dívidas, sendo que o tratamento dado aos negros é uma dívida imensa. Não diga que é a mesma coisa que o antissemitismo. Não é. No ódio aos judeus, também há a possibilidade da inveja — eles são tão espertos, esses judeus, eles controlam tudo, esses judeus —, e nós temos de admitir que certo respeito, ainda que de má vontade, acompanha essa inveja. No ódio aos Negros Americanos, não há inveja— eles são tão preguiçosos, esses negros, são tão burros, esses negros.

Não diga: “Ah, o racismo acabou, a escravidão aconteceu há tanto tempo”. Nós estamos falando de problemas dos anos 1960, não de 1860. Se você conhecer um negro idoso do Alabama, ele provavelmente se lembra da época em que tinha de sair da calçada porque um branco estava passando. Outro dia, comprei um vestido de um brechó no eBay que é da década de sessenta. Ele estava em perfeito estado e eu o uso bastante. Quando a dona original usava, os negros americanos não podiam votar por serem negros. (E talvez a dona original fosse uma daquelas mulheres que se vê nas famosas fotos em tom sépia que ficavam do lado de fora das escolas em hordas, gritando “Macaco!” para as crianças negras pequenas porque não queriam que elas fossem à escola com seus filhos brancos. Onde estão essas mulheres agora? Será que elas dormem bem? Será que pensam sobre quando gritaram “Macaco”?) Finalmente, não use aquele tom de Vamos Ser Justos e diga: “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem os bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca, os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, os políticos negros não tentam fazer alguns truques para reduzir o poder de veto dos brancos através da manipulação dos distritos eleitorais e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas “aspiracionais” pelo “mainstream”.

Então, depois dessa lista do que não fazer, o que se deve fazer? Não tenho certeza. Tente escutar, talvez. Ouça o que está sendo dito. E lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua. Só estão dizendo como é. Se você não entende, faça perguntas. Se tem vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e faça assim mesmo. É fácil perceber quando uma pergunta está sendo feita de coração. Depois, escute mais um pouco. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas. Um brinde às possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.

O texto de hoje poderá ser melhor entendido acessando outras publicações abaixo.

Motivação para essa publicação:

“Ifemelu” postou em seu blog idéias semelhantes às já postadas por nós.

Textos correlatos:

1 – Propôs uma definição psiquiatrica para o racista: Síndrome do Distúrbio Racial.

Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra

Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

O antissemita seria um doente? E o racista?

É possível o diálogo entre discriminado e discriminador?

De onde partirá a iniciativa de prevenir a Conduta Discriminatória Racista
Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.

2 – Enfatizou a invisibilidade do racista: “os racistas desapareceram”.

Violência e racismo no futebol

Protegendo o discriminador

Proteja o discriminador e modifique o discriminado

Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.

A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.

3 – Lembrou que a conduta do antissemita pode vir acompanhada de inveja.

O antissemita seria um doente? E o racista?

O antissemita, o racista, o machista e a inveja

4 – “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos”…

Uma contribuição exploratória psicodinâmica para o estudo da etiopatogenia da Conduta Discriminatória.

Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

Discriminados também discriminam 

O Feminismo, seus mitos e as mulheres machistas

5 – “Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua”.

Progressos na inibição da Conduta Discriminatória

Projeto Discriminação – APRS

Agora uma possível discordância: diz respeito à conduta discriminatória racista que, segundo a personagem do livro, não viria acompanhada de inveja. Ela se refere aos Estados Unidos. Na nossa idéia, e o que temos acompanhado a respeito do racismo no futebol, os discriminados, também poderiam ser atacados por inveja: da sua fama (visibilidade) e de situação financeira invejável.

Esperamos que este livro estimule, aos brasileiro interessados em diminuir o sofrimento dos grupos discriminados, a procurar outras alternativas para prevenção das Condutas Discriminatórias além da educação e criminalização.

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Orgulho de ser discriminador

Paul Weston
Paul Weston

Prezado leitor.

Gostaria muito de saber sua opinião sobre esta manifestação.
Já viu algo semelhante (e tão explícito), sobre questões nossas, aqui no Brasil?
Qual foi a reação ao fato na grande imprensa e na internet?
Se não viu, pensa que isto possa ocorrer, em relação a algum grupo em nosso país?
O que pensa que deva ser feito para evitar este tipo de conduta discriminatória?
Esta manifestação é, na sua forma, diferente das que ocorrem em campos de futebol.
E nas suas essências, são diferentes?
Na sua opinião qual delas é mais perigosa para sociedade como um todo?
Qual delas é mais fácil de punir? E de prevenir?

Sobre o uso da palavra “racista” no video (Inglaterra) e na tradução.
Aqui utiliza-se a palavra/expressão discriminador.
Em muitos países a expressão “racista” tem o significado que aqui atribui-se a “discriminador”.

Veja abaixo o vídeo “I am a racist”. O vídeo é falado em inglês. Ao lado tem uma tradução em francês. E, a seguir, a tradução para o português.

Olá, meu nome é Paul Weston e eu sou um racista. Eu sei que sou racista porque muitas pessoas me dizem que sou racista. A extrema esquerda pensa que sou um racista, o Partido dos Trabalhadores pensa que sou um racista, conservadores pensam que eu sou um racista, democratas liberais pensam que sou um racista, a BBC pensa que sou um racista. Portanto, devo ser racista. Por que sou racista? É muito simples: eu desejo preservar a cultura do meu país, o povo do meu país e ao fazer isso eu sou designado racista na sociedade atual.

Isso é algo que tem sido movido pela esquerda, o cursor do racismo mudou consideravelmente. Para se tornar racista 30 ou 40 anos atrás, teria que realmente desgostar de estrangeiros. Eu não desgosto de estrangeiros. O que eu gosto mesmo, o que eu amo é meu país, minha cultura e meu povo. E eu vejo isso sob uma terrível ameaça atualmente.

A Inglaterra é um país muito pequeno que abriu suas portas para uma massa de imigrantes do Terceiro Mundo e estamos sobrecarregados. Nossas escolas não conseguem lidar com isso, nossos hospitais não conseguem. Na verdade, muito poucos setores ainda conseguem lidar. O sistema de bem-estar social está afundando também. Então, se eu quero defender o lugar que nasci e cresci, meu país, minha cultura britânica, meu patrimonio e minha história eu sou, aparentemente, de acordo com todo mundo diz atualmente, um racista.

Mas não acho que seja o caso. Não que eu não seja racista, eu vou assumir isso completamente. Porque claramente eu sou. Eu ouvi isso de tantas pessoas que só pode ser verdade. Eu sou provavelmente também islamofóbico. Uma fobia é um medo irracional de alguma coisa, e eu não tenho um medo irracional do Islã. Eu olho para o mundo hoje, para a Síria, por exemplo, onde 100 mil pessoas morreram nos últimos 2 anos, onde muçulmanos xiitas estão matando sunitas e vice-versa. Eu olho para lugares como Indonésia, Egito e China e as Filipinas. Em todo lugar que se olha, se vê problemas com islamismo. Eles são violentos e são, me atrevo a dizer para reforçar meu caráter racista, profundamente selvagens em ideologias políticas e religiosas.

Agora, muitas pessoas descordarão disso. A extrema esquerda dirá que não se pode criticar o Islã porque Islã é uma religião e agora há regras nesse país que dizem que se você criticar religião, está incitando o ódio religioso. Mas o Islã não é apenas uma religião, é uma ideologia política também e precisamos chamar dessa forma. É uma cultura que é política e religiosa. E eu gostaria de saber se posso dizer algumas coisas sobre isso. Nós temos um grande problema nesse país que não irá embora, vai piorar cada vez mais. Nós, como povo, estamos decrescendo demograficamente, e a população islâmica está crescendo nove vezes mais rápido do que qualquer outra.

Quando eu olho para o futuro, vejo uma grande guerra civil religiosa ocorrendo nesse país. As coisas impensáveis que estão acontecendo na Síria atualmente irão acontecer aqui antes de 2040, certamente antes de 2050. E eu não quero que a Inglaterra se torne assim, então vou denunciar o Islã como uma ideologia religiosa e política retrógrada e selvagem. E que vá para o inferno o que as pessoas pensem sobre isso. Porque se não fizermos algo sobre isso, vamos nos envolver em algo que a maioria das pessoas nem consegue imaginar na Inglaterra.

Então, precisamos denunciar isso pelo que é e começar a montar alguma defesa contra isso. O problema de montar uma defesa é que deparamos com a acusação de racismo, com o “Eu não sou um racista, mas…” Bem, aqui está: eu sou um racista. Se eu quero evitar uma guerra civil em meu país, estou preparado para ser chamado de racista. E você deveria aceitar ser chamado de racista também.

Vamos apenas dizer que somos racistas detestáveis e começar a denunciar uma ideologia que é a mais primitiva, selvagem e retrógrada que foi importada para dentro desse país pela esquerda, por pessoas como Tony Blair, que fizeram isso deliberadamente para debilitar meu país, meu povo. Eles fizeram isso deliberadamente e depois disseram que não temos permissão de discutir sobre isso. Bem, eu discuto sobre isso, e eu vou lhe dizer que você denunciou e retirou a Lei da Traição logo que chegou ao poder. Eu acho que você cometeu traição quando disse que nós vamos importar o terceiro mundo para esfregar a diversidade na cara da direita (política). Para mim, isso é traição.

Sua missão foi esquecer do melhor interesse das pessoas desse país para deliberadamente nos menosprezar e nos subverter, e isso é um ato criminoso. Não importa que você repeliu a lei, as leis podem retornar e algum dia você será julgado por traição, junto com o resto de seu gabinete e todos os políticos em altos cargos que permitiram esse ato criminal. E eu vou lhe dizer isso: não importa que você possa me processar por racismo ou incitar violência religiosa, eu não acredito nisso. Acredito apenas na defesa de meu país, a defesa do meu povo e da minha cultura. Todo o resto pode ir para o inferno. Eu sou um racista.

Tradução: Débora Fogliatto.

Por: Telmo Kiguel, médico psiquiatra e psicoterapeuta
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O racismo enquanto um problema ignorado pela saúde no Brasil

Há 11 anos eu e Patrício, meu marido, nos conhecemos. Quando me percebi apaixonada, procurei dentro da minha cabeça alguma imagem da infância e da adolescência que indicassem que o companheiro poderia não ser branco, mas não encontrei nenhuma referência a um “príncipe encantado” negro. Essa foi a primeira vez que me percebi inserida numa sociedade racista.

Antes de apresentá-lo aos meus pais, fiquei me questionando se haveria algum problema. Não porque estávamos num relacionamento mais sério, mas porque Patrício, embora não fosse meu primeiro namorado, era o primeiro negro, e também o único cuja cor da pele foi anunciada antes da apresentação.

Antes de conhecer o Patrício, jamais havia sido parada numa batida policial. Na minha primeira vez – não a primeira dele – quando voltávamos da exibição de seu filme “Negro e Argentino”, uma amiga conduzia o carro sozinha na frente e nós dois estávamos no banco de trás (éramos quatro pessoas, mas um amigo havia descido no metrô). Tivemos que sair do carro sob a mira de armas e mostrar nossos documentos. Enquanto Patrício foi revistado com as duas mãos sobre o capô do carro, eu e minha amiga fomos questionadas insistentemente sobre a natureza da carona (perguntaram inúmeras vezes se não era um sequestro).

No dia do ataque do PCC em 2006, quando mais de 500 civis foram mortos (grande parte pela polícia), nós dois voltamos juntos a pé para casa, porque não havia mais ônibus circulando. Descemos a rua completamente vazia às 18 horas da tarde. Segurava com força a mão do Patrício, querendo mostrar que aquele era meu companheiro, como se com essa atitude pudesse protegê-lo, já que em São Paulo, mesmo em condições de normalidade, o assassinato de negros pela polícia tem um índice 3 vezes maior do que o de brancos.

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O racismo, que muitas vezes se difunde de maneira bastante sutil – em propagandas de produtos médicos mostrando apenas usuários brancos, em coberturas esportivas que mostram apenas mulheres loiras na plateia e que elegem um jogador branco como herói em meio a uma grande maioria negra, em “pesquisas médicas” que sugerem que negros sejam mais violentos em seu DNA – é algo muito difícil, quase impossível de se lidar.

Muitas vezes a defesa da igualdade de direitos provoca uma violência ainda maior contra aqueles que ousam dizer o óbvio: vivemos numa sociedade racista! Inúmeros são os exemplos de publicações denunciando o racismo que recebem como resposta manifestações de ódio ainda piores que as atitudes denunciadas.

Mas este é um problema que não se restringe à esfera social, invade também a esfera da intimidade do negro que, relegado à própria sorte no cuidado com a saúde mental e psicológica, quase nunca encontra suporte profissional para lidar com essas e outras questões do quotidiano que envolvem ser negro numa sociedade racista e desigual. Raras são as menções ao racismo enquanto um problema que envolve a saúde no Brasil.

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Por isso me chamou a atenção a entrevista com a psicóloga, professora, pesquisadora, escritora e ativista Jaqueline Gomes de Jesus no site Blogueiras Negras, em 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, por trazer o racismo como um problema psicossocial.

Destaco da entrevista, que merece leitura completa por sua potência democrática e sensibilidade, o seguinte trecho:

“A saúde, de forma geral, ainda é vista como um fenômeno meramente biológico, sem relações com o mundo psicossocial. Psicólogas e psicólogos têm questionado esse posicionamento que limita a compreensão sobre como as relações sociais e os processos de subjetivação podem ser vetores de adoecimento psíquico, especialmente quando falamos de uma população historicamente discriminada em uma sociedade racista, no que se inserem as pessoas negras.

Pessoalmente, tenho me focado na discussão sobre como a subcidadania é construída socialmente, particularmente por meio de relações degradadas nesse nosso mercado de trabalho tardiamente globalizado, e perniciosamente competitivo, o qual tem raízes profundas nos séculos de escravidão que marcaram a construção das nossas imagens e discursos sobre o humano. Isso não é assunto apenas para historiadores, sociólogos ou jornalistas, como já me responderam em um parecer de artigo científico, mas também para psicólogos.

A Psicologia, como ciência e profissão, enfrenta o desafio de superar a visão eurocêntrica e colonial que ainda silencia acerca do sofrimento vivido pelas negras e negros neste país, seja no âmbito individual quanto no coletivo. Entendo que a Psicologia Social, em particular, tem apresentado contribuições relevantes nesse sentido, nos frequentes estudos sobre estereótipos, preconceito e discriminação de cunho racial, e nos mais raros sobre processos de branqueamento e branquitude, ainda que estejamos distantes de uma Psicologia – como conjunto de saberes-fazeres unificados que reconheça os movimentos sociais e intelectuais pulsantes em produção de conhecimentos, para além dos campos acadêmicos, como os feministas contemporâneos, os antirracistas, os movimentos por terra e moradia, entre outros – que realmente poderíamos chamar de “descolonial”.”

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O racismo não é um problema do negro – é da sociedade brasileira – mas é no negro que ele deixa suas marcas e sequelas. Portanto, deve ser tratado e debatido também como um problema de saúde, para que soluções sejam encontradas, não apenas no âmbito particular das pessoas negras, mas também em nível nacional.

Débora Aligieri é advogada
Reproduzido do Blog de deboraligieri – Rede HumanizaSUS

O antissemita, o racista, o machista e a inveja

O antissemitismo é antigo, multi causal e multi facetado.

Para alguns pesquisadores seria, basicamente, uma discriminação religiosa.
O racismo seria uma visão equivocada da biologia a serviço de uma determinada supremacia grupal.
Aqui no Brasil é traduzida por uma pretensa superioridade dos brancos sobre índios e negros.
E o machismo seria a idéia preconcebida da superioridade do homem sobre a mulher.


Mesmo organizados, estes grupos discriminados, não conseguem prevenir a ocorrência de atos hostis contra eles.
Inclusive com o recente auxílio do Direito que criminaliza estas condutas.
A inconformidade com os ataques tende a aumentar por não se sentirem inferiores a seus algozes.
E da maior conscientização de que o problema das discriminações está na mente do discriminador. 
E cada vez mais trazem argumentos em que demonstram os valores de seus grupos.
Na expectativa que estes valores previnam essas Condutas Discriminatórias.
Vejamos alguns exemplos desta argumentação, inevitavelmente, ineficaz.


Os judeus argumentam com a grande quantidade de seus membros que já receberam o Premio Nobel.
E que Israel é um dos mais avançados centros tecnológicos da atualidade do qual o mundo todo se beneficia.
Atos racistas são freqüentemente perpetuados contra jogadores de futebol.
Famosos, ricos e muito valorizados pela importância que nós brasileiros damos a este esporte.
E as mulheres também tem uma argumentação de peso.
Todo homem teve uma mulher importante em sua vida que foi sua mãe.
E nem isto inibe a conduta machista.


Todas estas argumentações nos leva a pensar que estas condutas discriminatórias podem ser potencializadas por inveja.
Para muitos o Premio Nobel desperta admiração e inveja.
Ser negro, famoso e rico no Brasil também.
Ter sido gerado, alimentado, criado, educado por uma mulher.
E depender de outra para ter filhos, também pode despertar admiração e inveja.
Conclusão: a criminalização e a argumentação, que é uma forma de educação dirigida, não inibem a Conduta Discriminatória.
 
 
 
Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

O antissemita seria um doente? E o racista?

ILUSÃO E VERDADEO nosso último texto “Não temos previsão de avançar no combate ao racismo” provocou alguns comentários pessoais.

Os que mais repercutiram dentro de mim iam no sentido do pessimismo à falta de sugestões / alternativas / propostas.

Mais práticas, imediatas, palpáveis.

Alguns dias depois leio a publicação sobre o antissemitismo: “Uma doença sem cura” do escritor português e doutor em ciências políticas João Pereira Coutinho.

Ela pode ser vista com seus comentários no link abaixo .

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2014/06/1471253-uma-doenca-sem-cura.shtml

E sua repercussão com muitas outras publicações caso o leitor se disponha a procurar na internet.

É o tipo da ideia / publicação que pode ajudar a inibir a conduta discriminatória.

Certamente muitos dos conteúdos expostos com a finalidade de inibir o antissemitismo poderiam ser veiculados em matérias para inibir os racistas em sua ações discriminatórias.

Muitos negros (e seus simpatizantes) poderiam descrever sofrimentos por atos de racistas, sempre acompanhada de sua percepção em relação às características emocionais dos racistas.

E estes sentimentos talvez sejam semelhantes aos dos judeus em relação aos antissemitas.

Numa perspectiva otimista, se mais grupos discriminados passassem a divulgar esses mesmos tipos de idéias, “definindo” seus discriminadores como doentes mentais, provavelmente outros segmentos da sociedade poderiam se sensibilizar e ajudar a pressionar a ciência a definir o discriminador como agente causador de sofrimento mental.

Para que essa idéia/possibilidade não pareça algo fantasioso/utópico vamos a um exemplo de fato real entre um grupo discriminado e a ciência.

Até os anos 70 o homossexual era definido pela ciência médica como doente mental.
Na época em que essa questão ia ser revista pelos responsáveis pela Classificação Internacional das Doenças, grupos de homossexuais pressionaram, concretamente e presencialmente, para que esta definição fosse modificada.

E conseguiram.

Portanto, nessas questões, a participação de todos segmentos da sociedade pode ser decisivo.

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

Psicoterapeuta

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Prevenindo discriminações, totalitarismo, bullying e antissemitismo nas escolas.

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Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.

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Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?

Religião e laicidade: discriminação e violência.

 

Não temos previsão de avançar no combate ao racismo

Prezado Professor Hélio Santos

A sua bela explanação tem muito valor pela sua legítima e nobre preocupação pelo não avanço no combate ao racismo.

(Vejam em http://www.youtube.com/watch?v=BOVGrYcY7cw&feature=youtu.be ).

Aliás, essa percepção é a mesma que já expusemos em vários posts aqui no blog.

A criminalização das condutas discriminatórias e os avanços nas políticas públicas a favor dos grupos discriminados não conseguem ter efeito de prevenção.

Existem três tipos de prevenção: primária, secundária e terciaria.

Quando falamos em prevenção, estamos nos referindo àquela que se antecipa a instalação do preconceito, a primária.

Só teremos avanços verdadeiros e consistentes no combate ao racismo quando consigamos preveni-lo primariamente.

E a prevenção em saúde só é possível quando se consegue conhecer, definir, entender o funcionamento do agente causador do sofrimento humano.

No caso da conduta discriminatória racista, o sofrimento infringido no discriminado é mental, sendo a ação somente verbal.

E quando a ação, além de verbal, é também física, teremos sofrimento mental e físico.

Em medicina, sabe-se que o causador de sofrimento mental e/ou físico pode levar o outro ao suicídio.

Sabe-se, também, que essa conduta não será modificada somente pela educação, pois esta corresponderia à prevenção secundária.

Ao menos, não pela educação formal, rotineira, às quais estamos acostumados em todas as sociedades contemporâneas.

Seria, mais ou menos, como dizer a um drogado que ele não deve se drogar.

Se ela evitasse esse sofrimento, países com melhores indicadores de educação do que os nossos não teriam a ocorrência de condutas discriminatórias.

Inclusive em escalas crescentes.

E, aqui, no Brasil, não teríamos manifestações discriminatórias originadas de pessoas com educação formal avançada/completa.

Quanto a sua interessante hipótese de que crianças nascidas numa ilha, na qual os educadores seriam “instrutores especiais, tais como judeus, ciganos, índios, negros, orientais” e que, em conseqüência, essas mesmas crianças não poderiam ser pessoas discriminadoras, leva-nos a concluir que educadores, de diferentes etnias e não discriminadores, não formariam filhos discriminadores.

 

Porém, constata-se que filhos de casamento “misto” (branco/negro; religioso x não religioso; ocidental/oriental) não ficam imunes de serem discriminadores.

A sua afirmação de que “ninguém nasce racista” é muito pertinente para um bom debate.

Nossa ideia é que, obviamente, o ser humano nasce psicobiologicamente imaturo e sem idéias pré-concebidas.

As primeiras ideias ou conceitos – adequados ou não – são formados em casa e não nas escolas.

E, se não amadurecer em casa para a aceitação/reconhecimento do outro diferente/diverso dele, poderá tornar-se um discriminador.

Um adequado amadurecimento mental de pais/educadores/sociedade, nessa ordem, certamente, pode ajudar a prevenir a formação de discriminadores.

Quanto a sua afirmação que o racismo é a instituição mais antiga do Brasil, caberia salientar o seguinte:

Caso consideremos a imagem da Primeira Missa como uma desconsideração com a religião dos índios, podemos entender aquele ato como uma imposição colonialista e discriminatória.

E, talvez, a conduta discriminatória mais antiga conhecida no Brasil!

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

Psicoterapeuta

Mulher é vítima e cúmplice na violência conjugal. Mas não culpada.

 

 

 

“Vítima ou Cúmplice? Caraterização da mulher vítima de violência conjugal na região de Lisboa e Vale do Tejo”

Esse é o título da tese de mestrado do psicólogo forense Mauro Paulino pela Universidade Nova de Lisboa.

Foi realizado através de entrevistas com 76 mulheres e análise de 458 processos de violência doméstica do Instituto Nacional de Medicina Legal.

“Em média, as vítimas demoram 13 anos até conseguirem terminar uma relação agressiva “, disse M. Paulino em entrevista à Agência Lusa de Notícias.

“As crenças religiosas tem uma forte influência na forma como as vítimas percebem e vivem a relação”.

“Isto determina um maior tempo de permanência de uma mulher na relação”.

“As mulheres católicas facilitam, banalizam mais a violência dos que as restantes, aceitando o seu papel na relação agressora, como se o facto de serem católicas fizesse com que banalizassem a violência, atribuindo a culpa dessa violência a elas próprias”, apontou.

No entanto, para o investigador, a importância da crença diminui tanto mais quanto maior for o nível de escolaridade.

“A escolaridade influencia no sentido de haver menos tolerância a qualquer tipo de violência, não aceitando algumas desculpas que as vítimas com menos escolaridade tendem a aceitar”, explicou.

Em 81,6% dos casos, as mulheres admitiram que os filhos assistiram aos atos de violência de que foram alvo, sendo que os comportamentos mais frequentes dos filhos foram chorar (72%), apoiar e dar razão à vítima (48%) e incentivar a separação (37%).

Aliás, 26 mulheres (34,2%) revelaram que os filhos foram a razão para manter a relação conjugal, vindo em segundo lugar (18,4%) o facto de ainda gostarem do agressor.

Na maior parte dos casos que o investigador estudou, a violência começou no namoro e o casamento não revelou ser fator de mudança, muito pelo contrário, já que “as agressões continuaram a acontecer e tenderam a agravar”.

Sobre o grau de sofrimento provocado pelas agressões, apontou que são as psicológicas aquelas a que “as vítimas atribuem um maior nível de sofrimento”.

Em sua opinião, esta constatação deita por terra a “crença de que só aquilo que deixa marca física é que é uma lesão ou uma agressão grave”.

O investigador chegou também à conclusão de que as vítimas demoram muito tempo a pedir ajuda e que, num número significativo de casos, pedem ajuda à família, mas esta nem sempre apoia.

Em relação às 76 mulheres entrevistadas, a maioria (85%) era de nacionalidade portuguesa, com estudos ao nível do 3.º ciclo (35,5%), casadas ou em união de facto (40,8%), desempregadas (32,9%), com idades entre os 18 e 82 anos.

Mostraram dificuldade em tomar decisões sozinhas (57,9%), em iniciar projetos ou fazer coisas por sua conta e quase metade (48,7%) revelou não saber lidar com o facto de estar sozinha.

Em 93,4% dos casos foram agredidas repetidamente, entre agressões físicas (80,26%), agressões psicológicas (89,47%) e agressões sexuais (32,89%).

Foram 34 as mulheres agredidas fisicamente durante a gravidez e cinco acabaram abortando.

Em declarações à agência Lusa, Mauro Paulino defendeu que a mulher que é agredida tanto é vítima como cúmplice, mas fez questão de clarificar que isso não significa que esteja a defender que a mulher é de alguma forma culpada.

“Enquanto técnicos e profissionais temos de honrar a ciência e a ciência é fria ao ler os dados. Então, temos de responsabilizar uma mulher que fica 13 anos numa relação violenta”, disse.

“É claro que compreendemos o contexto violento, ameaças de morte, essas questões todas, mas ainda assim temos de mostrar a estas senhoras que existe um apoio social, técnicas de intervenção que lhes permitem sair daquela situação”, acrescentou.

Defendeu, assim, a necessidade de se ir além de uma intervenção do ponto de vista social, partindo para uma intervenção mais profunda, ao nível da parte psicológica.

“A investigação mostra-nos que todos temos determinados padrões de relacionamento que se não forem alterados, faz com que esta vítima saia de uma relação e muito provavelmente vá procurar um outro companheiro com as mesmas características”, explicou.

Essa intervenção passa por explicar à vítima que “o entendimento que ela tem de si e da situação potencializa a relação violenta e determina que volte a entrar numa outra relação violenta”.

“Aquilo que acontece num processo psicoterapêutico não é mudar o mundo, é transformar a forma como a pessoa entende a si, aos outros e aos eventos da sua vida. Quando isto se consegue alterar, vai mudar o tal padrão de relacionamento”, referiu.

Com base nos dados do estudo, Mauro Paulino concluiu que o que está a ser feito em matéria de intervenção “é pouco” e defendeu mais ação ao nível da prevenção, sustentando que a violência doméstica é um problema de Saúde Pública.

“Está comprovado que as vítimas vão mais vezes aos hospitais, estão mais tempo internadas, são pessoas que produzem menos e isto tem também uma vertente económica”.

No entender do investigador, há também um completo desfasamento entre os horários de funcionamento dos gabinetes e linhas de apoio, apontando que muitos funcionam das “nove à uma e das duas às cinco”, quando a maior parte das agressões acontecem ao fim-de-semana e à noite, principalmente entre as 19:00 e as 24:00.

Questionou igualmente a formação dos agentes públicos, dando como exemplo o caso de uma mulher que pede ajuda às autoridades, vai para uma casa abrigo e depois volta para o marido.

“Quando voltou a pedir ajuda, os polícias, à frente dela, fizeram apostas para ver quanto tempo é que ela permaneceria na casa abrigo”, contou.

Mauro Paulino defende, também, uma intervenção nas escolas porque o estudo permitiu constatar que muitas mulheres não se reconhecem como vítimas quando sofrem a primeira agressão, o que faz com que desvalorizem a situação e não solicitem ajuda.

* Matéria reproduzida, adaptada e “traduzida” parcialmente de vários jornais portugueses.

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Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

 

 

Caro Telmo.

Obrigado pelos teus comentários sobre meu artigo na ZH de 5/4/14.

http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4466577.xml&template=3898.dwt&edition=24052&section=1012

Foste o responsável por ele (aliás como és pelo “tamanho do progresso publicado sobre o assunto”). Como idealizador e condutor do ‘Projeto Discriminação’ (ABP, 2007), solicitaste minha colaboração numa Mesa Redonda sobre o tema. Estudei e elaborei um trabalho, mas como a Mesa não saiu, não se concretizou minha contribuição.

O artigo teve essa intenção. Deu trabalho, pois o espaço era restrito. Mas deu para colocar os pontos psíquicos essenciais da Conduta Discriminatória e do teu Projeto. A começar por Freud, que foi o 1º a perceber e publicar tais aspectos: agressão narcisista/apocalíptica e a ‘denúncia’ da mesma como forma de inibi-la (fez o mesmo em relação ao suicídio e histeria).

Para finalizar (este e minha colaboração com teu Projeto, pois novos compromissos me chamam), eis, abaixo, outra solicitação tua (formular um conceito para CD):

CD: Ato maldoso e agressivo pelo qual o sujeito atua fantasias de destruição da totalidade dos outros com vistas a um mundo narcisista pleno.

Parabéns pelo Projeto e pela condução, estimulando colegas, trabalhos e instituições a se voltarem para o (grave) problema.

Caso tu consigas certa inserção governamental para o Projeto, além da psiquiátrica, acredito que terás melhores condições de desenvolvê-lo.

Um abraço do

Mabilde.

 

 

Mabilde

A tua sensibilidade e engajamento ajudarão a atenuar a repetição/manutenção do “grave problema” da Conduta Discriminatória.

E, possivemente, motivarão outros colegas a se interessarem pelo tema.

Freud foi, sem dúvida, um dos grandes inspiradores para pensarmos e desenvolvermos estas idéias.

O Projeto Discriminação tem como objetivo básico a criação de uma terceira instância inibitória da CD.

Gostei muito quando usastes, no artigo citado acima, a expressão “o homem é o lobo do homem”.

Cujo significado, em termos individuais, equivale a uma outra, mais ampla, de Freud.

“Todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização”.

Será que estas duas expressões ajudarão a pensar/ampliar/traduzir o conceito que sugeristes p. a CD?

O discriminador é o lobo do homem e inimigo da civilização?

Abraço

Telmo

 

Telmo

Em ‘“O mal-estar na civilização”, Freud (1930) culmina longo estudo sobre:

(1) o irremediável antagonismo entre nossos desejos e as restrições da civilização;

(2) agressão ou destruição.

Freud, então, afirma que a repressão contra os nossos desejos é o mais poderoso fator interno a favor da civilização, no que é auxiliada pela possibilidade do homem de descarregar agressão em atividades socialmente aceitas.

Quanto aos fatores externos, ele destaca os papéis decisivos de contemplar necessidades e amor como pilares da civilização. Em contraposição, por impedirem ou constrangerem o ser humano de gratificar, indistintamente, seus desejos, a cultura – como representante da repressão – é odiada por ele.

 

Em graus diferentes, portanto, todos odeiam a civilização, assim como todos discriminam uns aos outros. A questão da quantidade é, aqui, deveras importante, pois é a partir dela que as medidas inibitórias podem inicialmente agir.

 

No que se refere à inter-relação do discriminador com a civilização, é claro que as idéias apocalípticas do discriminador de existir uma só cultura (a dele) conduzem-no ao ódio contra as demais. Porém, se eu tivesse que escolher entre os dois outros fatores internos (sublimação e traços de caráter) responsáveis pelo maior ou menor equilíbrio entre civilidade X agressividade, diria ser o principal àquele relativo aos traços de caráter.

 

Basta pensarmos em líderes apocalípticos da história, tais como Mao Tsé-tung, Joseph Stalin, Adolf Hitler, Kublai Khan, Leopoldo II, Chang Kai-shek, Genghis Khan para melhor entendermos essa assertiva. Todos, sem exceção, exibiam  traços de caráter (paranóide, esquizóide, narcisista) dos mais regressivos e comprometedores para a personalidade.

 

Creio que a ideologia profunda  da mente – que abriga idéias patológicas de discriminação – seria produto desses traços, os quais, por sua vez, reforçam-na, num movimento dialético.  Nesse sentido, a CD seria mais ou menos destrutiva, conforme abriga traços de caráter mais ou menos patológicos.

Se quisermos introduzir a questão da agressão à civilização no conceito de CD, ficaria assim:

CD: Ato agressivo e contrário a civilização, pelo qual o sujeito atua fantasias apocalípticas de destruição, da totalidade dos outros, com vistas a um mundo narcisista pleno.

Um abraço do

Mabilde.

 

Luiz Carlos Mabilde

Médico psiquiatra.

Psicanalista

 

Telmo Kiguel

Médico psiquiatra

 Psicoterapeuta

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Progressos na inibição da Conduta Discriminatória

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Caro Telmo.
Obrigado pelos teus comentários sobre meu artigo na ZH de 5/4/14.
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4466577.xml&template=3898.dwt&edition=24052&section=1012
Foste o responsável por ele (aliás como és pelo “tamanho do progresso publicado sobre o assunto”). Como idealizador e condutor do ‘Projeto Discriminação’ (ABP, 2007), solicitaste minha colaboração numa Mesa Redonda sobre o tema. Estudei e elaborei um trabalho, mas como a Mesa não saiu, não se concretizou minha contribuição.
O artigo teve essa intenção. Deu trabalho, pois o espaço era restrito. Mas deu para colocar os pontos psíquicos essenciais da Conduta Discriminatória e do teu Projeto. A começar por Freud, que foi o 1º a perceber e publicar tais aspectos: agressão narcisista/apocalíptica e a ‘denúncia’ da mesma como forma de inibi-la (fez o mesmo em relação ao suicídio e histeria).
Para finalizar (esta é minha colaboração com teu Projeto, pois novos compromissos me chamam).
Eis, abaixo, outra solicitação tua (formular um conceito para CD):
CD: Ato maldoso e agressivo pelo qual o sujeito atua fantasias de destruição da totalidade dos outros com vistas a um mundo narcisista pleno.
Parabéns pelo Projeto e pela condução, estimulando colegas, trabalhos e instituições a se voltarem para o (grave) problema.
Caso tu consigas alguma inserção governamental para o Projeto, além da psiquiátrica, acredito que terás melhores condições de desenvolvê-lo.
Um abraço do
Mabilde.

Mabilde
A tua sensibilidade e engajamento ajudarão a atenuar a repetição/manutenção do “grave problema” da Conduta Discriminatória.
E, possivemente, motivarão outros colegas a se interessarem pelo tema.
Freud foi, sem dúvida, um dos grandes inspiradores para pensarmos e desenvolvermos estas idéias.
O Projeto Discriminação tem como objetivo básico a criação de uma terceira instância inibitória da CD.
Gostei muito quando usastes, no artigo citado acima, a expressão “o homem é o lobo do homem”.
Cujo significado, em termos individuais, equivale a uma outra, mais ampla, de Freud.
“Todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização”.
Será que estas duas expressões ajudarão a pensar/ampliar/traduzir o conceito que sugeristes p. a CD?
O discriminador é o lobo do homem e inimigo da civilização?
Abraço
Telmo

Luiz Carlos Mabilde
Médico psiquiatra.
Psicanalista

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra.
Psicoterapeuta.

Progressos na inibição da Conduta Discriminatória

Os últimos dias marcaram um avanço nas idéias publicadas sobre a conduta discriminatória.
Principalmente no sentido/entendimento que apresentamos aqui no blog.
Que são as mesmas do Projeto Discriminação que desenvolvemos, anos atrás, na Associação Brasileira de Psiquiatria.

Lillian Thuram, ex-jogador de futebol francês em entrevista na Globo, disse.
…”desde cedo se ensine às crianças que haverá, sim, pessoas que as julgarão pela cor da pele, mas que o problema está nessas pessoas”.
Ele não especificou qual o problema.
Muitos são da opinião que o “problema” é emocional.

Javier Miranda, Diretor Nacional de Direitos Humanos da República do Uruguai, em entrevista ao Sul21.
Ao comentar sobre preconceitos, discriminações, condutas discriminatórias:
“Precisamos diminuir a pressão penal”.
“Crer que tudo se resolve com legislação penal não é um avanço”.
“A violência e o crime têm outras raízes que não se combatem exclusivamente com legislação penal”
“Não vamos derrotar o preconceito com criminalização”.
“Esse pensamento conduz à criminalização do que não é criminalizável: os afetos, as identidades e as individualidades”.
Se a conduta discriminatória é um problema emocional.
Se ela causa sofrimento emocional nos discriminados.
A Psiquiatria e a Psicologia devem se apropriar do estudo desse comportamento.
E criar outra instância inibitória desta conduta causadora de sofrimento humano.
E não esperar que a legislacão penal substitua, p. ex., a medicina preventiva.

E por último o belo artigo “Conduta discriminatória”, Zero Hora, 5/4/14.
Escrito pelo colega e parceiro em muitos eventos e congressos.
Luiz Carlos Mabilde, psiquiatra e psicanalista.
Onde se alia às idéias expostas acima e também defende a origem emocional desta conduta escrevendo:
“Encará-la como produto do preconceito associado a um distúrbio mental seria, além do enquadramento penal, outra forma de inibi-la”.

Depois de dez anos de “militância” na questão das discriminacões.
Acompanhando episódios de discriminação, publicações científicas e leigas.
Participando de vários eventos sobre o tema e sua divulgação na imprensa.
Como organizador ou como convidado em congressos.
Em outras apresentando nossas idéias para algumas prefeituras.
Nesse tempo de dedicação ao assunto, não tinha visto tamanho progresso publicado na nossa imprensa.

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta