Faça amor não faça a barba

– Papai, eu tenho uns colegas do 6º ano que dizem que você parece um mendigo quando vai me buscar na escola. Tomado de uma curiosidade antropológica irresistível, pedi que o moleque me explicasse melhor o porquê daquela percepção dos colegas.

Outro dia, enquanto tomava fôlego entre uma e outra mordida nos seus sushis e sashimis preferidos, meu filho faz o seguinte comentário:

– Papai, eu tenho uns colegas do 6º ano – meninos na faixa dos onze, doze anos de idade – que dizem que você parece um mendigo quando vai me buscar na escola.

Tomado de uma curiosidade antropológica irresistível, pedi que o moleque me explicasse melhor o porquê daquela percepção dos colegas.

– É porque você vai de bermuda, chinelo e barba grande.

Esses colegas do meu filho associam vestimenta e estética corporal a uma determinada posição do indivíduo na escala social. A mendicância é um estigma, representa a falta de decência moral, equivale praticamente a um crime numa sociedade que valoriza os indivíduos pelo que têm e não por sua postura ética. É a criminalização da pobreza. É a lógica do “você é aquilo que você consegue comprar”. Não se contentam com nada menos do que os melhores celulares, as melhores chuteiras, o melhor sinal de Wi-Fi para jogar aqueles joguinhos interativos do qual entendo bulhufas.

A representação do sucesso nessa sociedade baseada na imagem e no consumo que a alimenta é, seguindo a lógica da galerinha que está às portas da adolescência, um homem na faixa dos quarenta anos que vai buscar o filho trajando um impecável terno e com a barba e o bigode devidamente aparados ou, simplesmente, ausentes, naquele estilo que nós, cariocas, costumamos chamar de “bundinha de neném”.

Fiquei matutando sobre tal percepção da realidade, tal visão de mundo e os valores a ela vinculados. Olho para mim no espelho e não consigo me enxergar sem a barba, cada vez mais branca, é verdade, traço indefectível de minha personalidade e que, modéstia à parte, deixam-me um pouco menos intragável visualmente. Sou um mendigo com doutorado, vejam vocês. Desprezo quem faz apologia à tortura, festejo a diversidade sexual, acredito piamente que a “mão do mercado” é uma falácia, uma historinha pra boi dormir, pra inglês ver. Por outro lado, o pai de terno e barba feita pode ter o colarinho branco, se é que vocês me entendem, porque pra bom entendedor, meia palavra basta. Estereótipos, estigmas, vento que venta lá, venta cá. Miséria material, miséria moral.

A barba por fazer é compreendida como sujeira, falta de higiene, de asseio, falta de banho. Mas ela é muito mais do que isso, ela incomoda porque é uma sujeira simbólica, porque, como dizia a antropóloga Mary Douglas, sujeira “é tudo aquilo que está fora do lugar”, é tudo aquilo que transgride uma determinada ordem das coisas, que desafia o certo e o errado, que questiona e não se curva à “impenetrabilidade da pedra”.

A barba, especialmente aquela pujante e desgrenhada, indomável, indócil, descontrolada, subverte. Nada mais apropriado do que a cultivarmos com carinho nos dias que correm, certo?

“Um Estado que não é regido pela justiça e a ética se reduz a um bando de ladrões”

Um Estado sem justiça, sem ética em suas autoridades não tem mais uma forma de governo do que a lei do mais forte, a lei da selva.

Las matemáticas, la ética y los valores

Le preguntaron al gran matemático árabe Al-Khawarizmi, uno de los padres del álgebra, que vivió entre el año 780 y el 850, sobre el valor del ser humano, y este respondió con la siguiente fórmula:

“Si tiene ética, entonces su valor es = 1. Si además es inteligente, agréguele un cero y su valor será = 10. Si también es rico, súmele otro 0 y será = 100. Si por sobre todo eso es, además, una bella persona, agréguele otro 0 y su valor será = 1000. Pero, si pierde el 1, que corresponde a la ética, perderá todo su valor pues, solamente le quedarán los ceros”.

Gran verdad esta simple y sencilla fórmula del matemático Al-Khawarizmi. Todo el edificio, tanto el social como el individual, se sustenta en la ética. Si la ética falla, todo se viene abajo, y más pronto que tarde: la política, la economía, el arte, la cultura, el estado de derecho, la vida en sociedad. Ya lo dijo el gran Agustín de Hipona:“Un Estado que no se rigiera según la justicia se reduciría a una gran banda de ladrones”. Y aquí podemos usar como sinónimos “ética” y “justicia”. Un estado sin justicia, sin ética en sus autoridades no tiene más forma de gobierno que la ley del más fuerte, la ley de la selva, en definitiva.

Estas definiciones del matemático árabe Al-Khawarizmi y de San Agustín, por lejanas que nos parezcan, nos ayudan a comprender mejor la afirmación del empresario chino Jack Ma sobre la necesidad de un cambio radical en la forma de educar. Una educación no basada en conocimientos, que se pueden repetir mediante inteligencia artificial que un algoritmo o un robot pueda suplantar trabajo humano.Lo que según Ma no se podrá suplantar nunca por una máquina, es una educación que se dirija a inculcar las habilidades necesarias que incluyen edificar valores, fomentar el pensamiento independiente, cuidado de los otros, trabajo en equipo.

Y la ética es una parte de esos valores que no pueden reproducir las máquinas por más avanzadas que sean. Dentro de estos valores se encuentra también la ética de la responsabilidad frente a las decisiones que uno toma, la ética de la cultura del trabajo que se viene resquebrajando a pasos agigantados en muchas partes del mundo, la ética de la ayuda a los demás colegas cuando están sobrepasados o cuando no ven la solución o cuando el peso de trabajo los agobia o cuando el trabajo en equipo potencia capacidades.

De hablar y de enseñar valores se debería tratar, por encima de todo, la reforma educativa que debemos emprender sin más demora. Una reforma que no rebaje los estándares de exigencia curricular para que todos pasen de grado y se reduzca la tasa de repetición o de reprobación, algo que se propone desde muchas autoridades de la enseñanza uruguaya que no quieren ser mal evaluadas internacionalmente o por la comparación con sus propios resultados en años anteriores.

No se trata solamente de mejorar el nivel de conocimientos para que los jóvenes puedan aprobar Primaria o Secundaria. Ello es obviamente necesario, pero si no educamos en valores, (y hay que reconocer que las autoridades educativas de los últimos lustros se han esforzado en eyectar los valores de las aulas so pretexto de una mal entendida laicidad y so pretexto de no exigir esfuerzo en momentos de la vida donde se forma el carácter) todo lo que pueda enseñarse tendrá un valor relativo y además efímero a medida que la automatización avance.

Pero esto no es solo un problema uruguayo sino mundial. Por ejemplo, las grandes escuelas de negocios, donde se forman muchos de los principales dirigentes empresariales, se han visto obligadas a repensar sus currículos y sus métodos de enseñanza al darse cuenta de que la ética quedaba por fuera de ellos. Y como consecuencia, esa ausencia se manifestaba luego en comportamientos empresariales tendientes a su maximización del beneficio a toda costa pasando por encima de personas, de reglas y de normas: volvíamos a la ley de la selva, a la ley del más fuerte, a la ley de que los fines justifican los medios.

Es importante, por tanto, que ante la contienda electoral que se avecina, los candidatos no se concentren únicamente en propuestas y programas de mejora material de la sociedad. Esas propuestas son necesarias, pero si no van acompañadas de propuestas en valores, del fomento del pensamiento independiente y del respeto a quien piensa distinto, de poco o nada servirán. Quizá se arregle el déficit fiscal o la tasa de inflación o se mejore el desempeño económico. Pero no habrá una base sólida para que la democracia y la libertad prosperen y estaremos a los vientos de los populistas y embaucadores de todos los pelos. Si ello ocurre, las personas perderán todo el valor y estaremos gobernados sin justicia. Será el sálvese quien pueda. Podremos tener prosperidad por un rato, pero las bases de la misma serán frágiles como la arcilla.

Por: Ricardo Peirano
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A Saúde Mental dos políticos

“Penso que deveria ser necessário a qualquer um que quisesse participar de uma eleição nacional passar por uma formação em psicoterapia. A conclusão do curso seria a qualificação para o cargo”.

Por que os psicopatas chegaram ao poder

Quem, em seu juízo perfeito, poderia desejar esse trabalho? É quase certo que acabará, como descobriu Theresa May, em fracasso e execração pública. Procurar ser primeiro-ministro britânico, hoje, sugere ou confiança imprudente ou fome insaciável de poder. Talvez necessitemos de uma ironia como a de Groucho Marx: alguém louco o suficiente para candidatar-se a essa função deveria ser desqualificado para concorrer.

Alguns anos atrás, a psicóloga Michelle Roya Rad listou as características de uma boa liderança. Entre elas figuravam justiça e objetividade, desejo de servir à sociedade e não a si mesmo, falta de interesse em ser famoso e ocupar o centro das atenções, resistência à tentação de esconder a verdade ou fazer promessas impossíveis. Por outro lado, um artigo publicado no Journal of Public Management & Social Policy (Jornal de Gestão Pública e Política Social) listou as características de líderes com personalidade psicopata, narcisista ou maquiavélica. Elas incluem: tendência à manipulação dos outros, disposição em mentir e enganar para alcançar seus objetivos, falta de remorso e sensibilidade, desejo de admiração, atenção, prestígio e status. Quais dessas características descrevem melhor as pessoas que estão competindo para ser “governantes” no mundo contemporâneo?

Na política, vê-se em todo lado o que parece ser a externalização de déficits ou feridas psíquicas. Sigmund Freud afirmou que “os grupos assumem a personalidade do líder”. Penso que seria mais preciso dizer que as tragédias privadas dos poderosos tornam-se as tragédias públicas daqueles que eles dominam.

Para algumas pessoas, é mais fácil comandar uma nação, mandar milhares para a morte em guerras desnecessárias, separar crianças de suas famílias e infligir sofrimentos terríveis do que processar sua própria dor e trauma. Aparentemente, o que vemos na política, em todos os cantos, é uma manifestação pública de profunda angústia privada.

Essa talvez seja uma força particularmente forte na política britânica. O psicoterapeuta Nich Duffell escreveu sobre “líderes feridos”, que foram separados da família na primeira infância para ser enviados ao colégio interno. Eles desenvolveram uma “personalidade de sobrevivente”, aprendendo a reprimir seus sentimentos e projetar um falso eu, caracterizado pela demonstração pública de competência e autoconfiança. Sob essa persona está uma profunda insegurança, que pode gerar necessidade insaciável de poder, prestígio e atenção. O resultado disso é um sistema que “sempre revela pessoas que parecem muito mais competentes do que realmente são”.

O problema não está confinado a estas paragens. Donald Trump ocupa a cadeira mais poderosa do planeta, e ainda assim parece roer-se de inveja e ressentimento. “Se o presidente Obama tivesse feito os acordos que fiz”, afirmou há pouco, “a mídia corrupta os consideraria incríveis… Para mim, apesar do nosso recorde em economia e tudo o que fiz, não há crédito!”. Nenhuma riqueza ou poder parece capaz de satisfazer sua necessidade de afirmação e segurança.

Penso que deveria ser necessário a qualquer um que quisesse participar de uma eleição nacional passar por uma formação em psicoterapia. A conclusão do curso seria a qualificação para o cargo. Isso não mudaria o comportamento de psicopatas, mas poderia evitar que, ao exercer o poder, certas pessoas impusessem sobre os outros suas próprias feridas profundas. Fiz dois cursos: um influenciado por Freud e Donald Winnicott, outro cuja abordagem tinha foco na compaixão de Paul Gilbert. Considero os dois extremamente úteis. Penso que quase todo mundo se beneficiaria desses tratamentos.

A psicoterapia não iria garantir uma política mais gentil. A abertura admirável de Alastair Campbell ao falar sobre sua terapia e saúde mental não o impediu de comportar-se – quando desempenhou as funções de assessor político e porta-voz de Tony Blair – como um valentão desbocado, que intimidava as pessoas a apoiar uma guerra ilegal, em que centenas de milhares de pessoas morreram. Tanto quanto sei, não demonstrou remorso por seu papel nessa guerra agressiva, que cabe na definição de “crime internacional supremo” do tribunal de Nuremberg.

O problema, na verdade, é o sistema no qual essas pessoas competem. Personalidades tóxicas prosperam em ambientes tóxicos. Aqueles que deveriam ser menos confiáveis para assumir o poder são justamente os que mais provavelmente vencerão. Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology  sugere que o grupo de traços psicóticos conhecido como “domínio sem medo” está associado a comportamentos amplamente valorizados nos líderes, tais como tomar decisões ousadas e sobressair-se no cenário mundial. Se assim for, nós, por certo, valorizamos as características erradas. Se para alcançar o sucesso no sistema é necessário ter traços psicopatas, há algo errado com o sistema.

Para pensar uma política eficiente, talvez fosse útil trabalhar de trás para frente: primeiro decidir que tipo de gente gostaríamos que nos representassem e depois criar um sistema que as levasse ao primeiro plano. Quero ser representado por pessoas ponderadas, conscientes de si e colaborativas. Como seria um sistema que promovesse essas pessoas?

Não seria uma democracia puramente representativa. Esse tipo de democracia funciona com o princípio do consenso presumido: você me elegeu há três anos, então presumo que consentiu com a política que estou para implementar, não importa se na época eu a mencionei ou não. Ela recompensa os líderes “fortes e determinados” que tão frequentemente levam suas nações à catástrofe. Um sistema que fortaleça a democracia representativa com democracia participativa – assembleias de cidadãos, orçamento participativo, co-criação de políticas públicas – tem mais possibilidades de recompensar os políticos sensíveis e atenciosos. A representação proporcional, que impede governos com apoio minoritário de dominar a nação, é outra salvaguarda potencial (embora não seja garantia).

Ao repensar a política, é preciso desenvolver sistemas que incentivem gentileza, empatia e inteligência emocional. É preciso nos desvencilhar de sistemas que encorajem as pessoas a esconder sua dor e dominar os outros.

 

A conversa cara a cara, o aqui e agora

Estabilidade política é resultado de conversa respeitosa na qual se dá e se recebe. Deixar de lado a vaidade, a intransigência e o orgulho; assim, a antítese da conversa é a polarização exacerbada.

DIEGO MIR

Conversar é uma arte em perigo de extinção?

Conversar é uma arte em perigo de extinção? Dizer que sim seria, no mínimo, controvertido, porque hoje tudo ao nosso redor está montado de maneira que nos chegam sem cessar oportunidades de interagir tanto com amigos quanto com desconhecidos. A conectividade digital permite trocar mensagens sem limite, de modo que vivemos na ilusão de estarmos imersos em uma espécie de conversa infinita. A pergunta inicial pode não parecer tão absurda se pararmos para pensar sobre o que se entende por conversa e, especialmente, o que se espera de seus participantes: a expressão de argumentos, de um lado, e escuta atenta, de outro. Em nosso atual ambiente hipertecnificado, ambas as ações são um desafio. O primeiro exige certas doses de solidão prévia para que quem fala tenha tido a possibilidade de elaborar algo genuinamente próprio; o segundo, prestar atenção. Ou, dito de outra forma, remar contra a corrente no caudaloso rio de estímulos e interrupções pelo qual navegamos diariamente. E, além disso, dialogar não é uma troca de monólogos. Jean de La Bruyère dizia que o talento da conversa não consiste tanto em mostrar muito, mas em fazer que os outros encontrem.

Nossas vidas são baseadas em interações e a comunicação verbal é a ferramenta mais à mão para produzi-las. Ninguém discute a máxima aristotélica de que o homem é um animal social inclinado a exteriorizar opiniões e sentimentos. Portanto, o silêncio imposto implica pesar, e quando um ente querido deixa de nos dirigir a palavra, experimentamos dor. O escritor Henry Fielding, em seu ensaio de 1743 dedicado à conversa, a definiu como a troca de ideias mediante a qual se examina a verdade e na qual cada questão é analisada a partir de diferentes pontos de vista, de modo que o conhecimento seja compartilhado. A história conheceu grandes momentos dessa arte desde que Platão observou que é a mais elevada forma de conhecimento. Muitos séculos depois se começou a perceber a relação direta entre a estabilidade política e o mundo da conversa, que David Hume descreveu como a conversa respeitosa na qual se dá e se recebe no interesse de um gozo mútuo. Para manter um intercâmbio linguístico autêntico deve-se deixar de lado a vaidade, a intransigência e o orgulho; assim, a antítese da conversa é a polarização exacerbada.

A conversa, como se desenvolveu tradicionalmente ao longo da história, tem um denominador comum: o cara a cara, o aqui e agora. E essa necessidade de nos comunicar olhando nos olhos é o que a onipresença das telas já começou a diluir, a ponto de haver quem chegou a acreditar que, com esses sucedâneos de colóquios mediados por um dispositivo, nada se perde no caminho. A tela, cabe lembrar, é não apenas uma superfície que transmite conteúdos, mas também é, em sua segunda acepção, uma separação, uma barreira ou proteção que se interpõe entre os indivíduos. Por isso pesquisadores como Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia do MIT, alertam para a crise de empatia promovida pelos aparelhos eletrônicos, pois nos privam de ver as emoções que afloram quando duas pessoas se explicam frente a frente e em tempo real. Além disso, conversar também é a maneira mais eficaz de criar laços afetivos. Turkle aponta em Reclaiming Conversation (Em Defesa da Conversa) que esperamos cada vez mais da tecnologia e menos das pessoas que nos rodeiam, às quais arrebatamos boa parte da nossa atenção para redirecioná-la a conteúdos alojados em outro lugar. “Sacrificamos a conversa pela mera conexão”, acrescenta, citando estudos científicos que demonstram que a simples presença de um telefone sobre a mesa, ainda que desconectado, desvirtua a atenção de todos os presentes. Outro dado preocupante: quanto mais tempo as crianças passam conectadas, menor é sua capacidade de identificar sentimentos alheios.

Diego Mir 

Nossa confiança na tecnologia para preencher os silêncios, combater o tédio e nos expressar sem o medo de nos sentirmos julgados é tanta que a indústria se esforça para desenvolver a inteligência artificial para que possamos falar com objetos em vez de pessoas. Os robôs de conversação já são uma realidade. Hoje é possível coletar todas as mensagens e comentários de um usuário na rede para que, uma vez morto, possam ser recriados seus padrões de conversação, de modo a podermos continuar trocando mensagens com ele. Embora isso, como Alan Turing vaticinou, não deixará de ser um jogo de imitação. A tecnologia é um meio extraordinário, mas nada é capaz, adverte Turkle, de substituir uma comunicação em pessoa e os benefícios que traz. O sociólogo Georg Simmel, já no início do século passado, qualificou a conversa de antídoto contra a pressão e o estresse causados pela vida moderna. Recentemente, um estudo da Universidade de Chicago provou que a conversa casual entre dois estranhos em um trem ou sala de espera faz desse momento uma experiência mais agradável. Talvez, apontam seus autores, estejamos superestimando o desejo de privacidade em um planeta cada vez mais povoado. Não entender os benefícios da interação social resulta inevitavelmente em solidão, empobrecimento e falta de empatia.

Ensinando, na escola, bondade e empatia, reduziríamos conflitos interpessoais?
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As pessoas vs a tecnologia

Por: Rosie Bennett
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“A crise da escola é a crise da democracia”

“…que todas as disciplinas incorporem o pensamento crítico para promover o combate a ideologias extremistas: “A direita não quer que as pessoas pensem”. “A esquerda é muito estúpida no que se refere à educação”.

O professor Henry Giroux no pátio do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona JUAN BARBOSA

O pedagogo norte-americano Henry Giroux defende que todas as disciplinas incorporem o pensamento crítico para promover o combate a ideologias extremistas: "A direita não quer que as pessoas pensem"

Henry Giroux (Providence, EUA, 1943), um dos acadêmicos mais reconhecidos noCanadáe um dos impulsionadores da chamada pedagogia crítica, tem um discurso radical sobre as falhas do sistema educacional. Ele não fala dos resultados dos examesPISA, que medem o conhecimento em ciências, matemática e compreensão leitora dos alunos de 15 anos de idade nos países daOCDE. Aliás, considera que provas padronizadas são uma estratégia da direita para desviar a atenção do “verdadeiro” problema da educação: não fomentar o pensamento crítico, de modo a criar cidadãos “conformistas” que não exijam nada das autoridades.

Radicado em Toronto, Giroux é conhecido por suas publicações conjuntas com Paulo Freire, um dos pedagogosde referência do século XX por sua teoria da Pedagogia do Oprimido, em que propõe a rebelião dos mais desfavorecidos através do acesso à educação. Giroux, pesquisador da Universidade McMaster de Ontário, foi incluído na obra Fifty Modern Thinkers on Education: From Piaget to the Present(editora Routledge, 2002), que seleciona os 50 pensadores que mais contribuíram para o debate educacional no século XX.

Giroux, autor de Neoliberalism’s War on Higher Education(“a guerra do neoliberalismo contra o ensino superior”, sem edição no Brasil), critica que as universidades estejam sendo atacadas com cortes contínuos em seu financiamento, especialmente os departamentos de humanas, para que deixem de ser centros de pensamento. E cita o caso brasileiro. Na semana passada, depois de dar uma palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, conversou com o EL PAÍS.

Pergunta.O que é a pedagogia crítica?

Resposta.Não é um método que possa ser aplicado nos colégios. É uma revisão do tipo de escola que queremos. É uma tentativa de reconhecer que a educaçãoé sempre política, e o tipo de pedagogia que se usa tem muito a ver com a cultura, a autoridade e o poder. A história que contamos ou o futuro que imaginamos se reflete nos conteúdos que ensinamos. A pedagogia tal e como está exposta ataca em vez de educar. É um sistema opressivo, baseado no castigo e na memorização, que persegue o conformismo. É preciso desenvolver outros métodos que formem alunos capazes de desafiar as práticas antidemocráticas no futuro.

P.Há alguns anos, houve uma onda de inovação educacional que transformou muitos colégios. Não acha que estão cumprindo essa função?

R.As escolas estão sendo atacadas, especialmente por Governos fascistase de direita. No Brasil, Bolsonaroincentivou os alunos a denunciarem os professores de esquerda por uma suposta doutrinação, e quer eliminar todas as referências a Paulo Freire dos currículos. Acaba de anunciar um corte nas graduações de humanas, como filosofia e sociologia, para priorizar profissões que “gerem um retorno ao contribuinte”. A crise da escola é a crise da democracia. Os governos de direita não querem que as pessoas pensem, e a educação tem um papel central na luta contra as narrativas tóxicas e o surgimento de ideologias ligadas à supremacia branca.

P.Como se pode implantar a mudança que você propõe? Acha que os partidos de esquerda estão à altura?

R.Primeiro o interesse tem que vir da rua, da comunidade de moradores e dos próprios professores. O poder tem que levar a educação a sério. A esquerdaé muito estúpida no que se refere à educação. Não percebe a importância que ela tem. Nos Estados Unidos, Obama reproduziu o programa dos republicanos, o teaching for the test(“ensinar para a prova”). As provas são parte de um discurso de opressão, são uma forma de disciplinar alunos e professores, e privam os alunos de terem imaginação. É preciso potencializar o diálogo, a construção de identidades e como encaixar os outros, como as minorias, por exemplo.

P.Qual é o perigo das provas?

R.São uma estratégia para fazer cidadãos menos críticos. Disseram aos professores que eles não são intelectuais, que são tecnocratas e que estão lá para medir o conhecimento dos alunos, que o que importa são os exames. Parece que a avaliação é o centro do sistema educacional. Mas a função da escola deveria ser conseguir criar cidadãos tolerantes, com capacidade de diálogo. O colégio é o lugar onde se criam as identidades. Quem você quer ser? Quando o professor e os conteúdos são incontestáveis, estão inculcando uma forma autoritária de entender a sociedade. Silenciar as dúvidas sobre o que vem dado de cima. A direita sabe tirar partido disso.

P.O Canadá é um exemplo de inclusão nas salas de aula. Acha que é uma referência?

R.O Canadá tem um sistema muito progressista, mas tampouco se salva. Em Ontário, o novo primeiro-ministro [provincial], Doug Ford, do Partido Conservador, suprimiu as classes de educação sexual e obrigou a retomar o currículo de 1990. Quer centrar o sistema em educar para o trabalho. Os Governos transformam a educação em algo que não deveria ser.

P.Não acha que as escolas devem preparar os alunos para as habilidades que o mercado de trabalho exige? Vão encontrar um terreno muito competitivo.

R.Não têm que preparar para o trabalho que os alunos terão no futuro, e sim para o tipo de sociedade em que eles querem viver. Eu te ofereço as habilidades digitais para que você trabalhe no Google ou no Facebook, mas você viverá numa sociedade fascista e intolerante. Isso não vale. É preciso priorizar que eles aprendam a serem cidadãos informados, quando há partidos de extrema direita que estão ascendendo ao poder.

P.Poderiam acusá-lo de ter uma visão utópica demais.

R.Sobreviver não é só encontrar o trabalho adequado, é exigir um bom sistema público de saúde ou o direito a uma moradia digna. O sistema escolar, baseado na competitividade entre iguais e na ideia de ganhadores e perdedores, ensina a acreditar que quando você tem um problema a culpa é sua. Que os problemas são individuais. As pessoas não podem transferir os problemas pessoais para as carências do sistema. Então surgem indivíduos alienados que se culpam a si mesmos por sua situação infeliz. “Não fiz o suficiente no colégio, por isso vou mal”, pensam, em vez de olhar para o Estado do bem-estar, e ver se ele está sendo desmantelado. É preciso ensinar a lutar e a exigir da administração que cumpra suas obrigações.

P.Em seu último livro você faz uma crítica muito dura ao trato dispensado pelos Governos às universidades.

R.Trump ameaçou retirar recursos federais de universidades que considera serem monopolizadas por liberais e esquerdistas, e propôs reduzir o orçamento educacional em sete bilhões de dólares em 2020. Cerca de 70% dos professores do ensino superior nos Estados Unidostêm contratos de meia jornada. Isso afeta sua liberdade de expressão, pois acham que podem ser demitidos se falarem. Têm medo de se mobilizarem contra a administração. A universidade deveria ser um espaço para o diálogo. As universidades cada vez mais funcionam como empresas, não contratam intelectuais para liderá-las, e sim CEOs. Os alunos viraram clientes. Os jovens são um valor no qual vale a pena investir, um investimento longo. Mas os políticos, tanto de esquerda como de direita, só procuram resultados de curto prazo.

Fonte:El País
Por:Ana Torres Menárguez
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Como lidar com um cretino sem tornar-se um também

Em algum momento é provável que tenhamos que interagir com um cretino. São pessoas que humilham e tratam os outros sem nenhum respeito, como se fossem lixo. Não se dão conta ou não se importam como agem.

Till Lauer

Cómo lidiar con un cretino sin convertirte en uno tú también

Hace unos años, hablaba frente al público sobre un estudio acerca de los hábitos de los grandes compositores musicales, cuando una persona me interrumpió.

“¡Eso no es cierto!”, exclamó. “¡Habla como todo un ignorante, no sabe lo que dice!”.

Al principio de mi carrera profesional, permití que algunas personas desagradables me pisotearan. En cierta ocasión, un cliente me reprendió por un error en un anuncio que había cometido mi predecesor y yo cedí y le ofrecí devolverle todo su dinero. En otro momento, un jefe amenazó con despedirme por defender a un colega a quien habían tratado mal, y me quedé callado. Pero cuando se presentó esta situación en particular, ya estaba preparado: había recibido formación como mediador en casos de conflicto, había trabajado como negociador y estudiado psicología organizacional.

En algún momento de nuestra carrera profesional, es probable que tengamos que interactuar con un cretino. Ese tipo de persona que humilla y no muestra ningún respeto. Sus actitudes pueden variar desde adjudicarse el crédito por nuestras acciones, culparnos por sus errores, invadir nuestra privacidad o faltar a sus promesas, hasta hablar mal de nosotros, gritonearnos y denigrarnos. En palabras del psicólogo organizacional Bob Sutton, estas personas tratan a los demás como basura y ni siquiera se dan cuenta, o no les importa.

Por supuesto, la respuesta natural es ponerse a la defensiva, pero así solo conseguimos escalar el ciclo de agresión. Tomemos como ejemploun estudioclásico en el que los investigadores registraron el comportamiento de negociadores con distintos niveles de desarrollo. Los negociadores promedio terminaron sumidos el triple de veces que los expertos en círculos viciosos de defensa-ataque. Los expertos no se dejaron llevar por la agitación del momento y además lograron calmar a su interlocutor. Con toda serenidad analizaron sus reacciones ante el comportamiento del otro y exploraron distintas razones para explicar qué pretendía comunicar la otra persona.

Llevaba varios años estudiando esas pruebas y dando cursos basado en ellas. Era la oportunidad perfecta para poner esos conceptos en práctica. Le pedí al público que tomáramos un descanso, caminé hasta el lugar donde estaba la persona que me interrumpió y le dije: “Claro que puede estar en desacuerdo con los datos, pero no me parece que haya sido una manera respetuosa de expresar su opinión. Al menos a mí, no me enseñaron a sostener un debate intelectual de esa manera. ¿A usted sí?”.

Mi intención era iniciar una conversación acerca de la conversación, es decir, cambiar nuestra atención del tema en sí para reflexionar acerca del tono del diálogo. Para mi sorpresa, funcionó.

“Bueno, no…”, tartamudeó, “Solo me parece que está equivocado”. Más tarde, le envié los datos y respondió con una disculpa.

Esa persona que me interrumpió se ajusta a la definiciónde “cretino temporal” de Sutton. Todos podemos desplegar ese comportamiento y arrepentirnos más tarde.Un estudiodemostró que cuando los líderes actúan de manera abusiva, al concluir el día se sienten menos competentes y menos respetados en el lugar de trabajo, además de que les resulta más difícil relajarse al llegar a casa.

Sin embargo, en algunas ocasiones nos topamos con uncretino certificado, una persona que acostumbra humillar a los demás y faltarles al respeto. Hace unos años, tuve un colega que tenía la reputación de gritarle a los demás en las juntas. Después de verlo con mis propios ojos, reflexioné sobre lo que había atestiguado y le llamé para hacerle notar que su actitud no me parecía profesional. Mi colega se puso a la defensiva: “¡Fue necesario para explicar mi postura!”.

Varias investigaciones sobre la psicología de loscretinos certificados revelan que acostumbranracionalizar la agresión.Están convencidos de que solo si actúan de esa forma conseguirán los resultados que desean. Apenas hace poco descubrí cómo responder ante algo así, cuando entrevisté a Sheila Heen, experta en mediación de conflictos, para un episodio de mi pódcastWorkLifesobre los cretinos con quienes convives en la oficina.Su propuesta es que tratemos de encontrar la manera de cuestionar con sutileza su creencia de que la agresión es necesaria: “¿De verdad? Me extraña, mi impresión es que eres una persona inteligente y creativa, así que no me cabe la menor duda de que puedes encontrar mejores estrategias para lograr la misma claridad sin tener que recurrir a atacar a alguien más”.

No es tan difícil visualizar ese tipo de conversación con un colega. ¿Pero qué puedes hacer si elcretino es tu jefeo tu superior y no tienes la opción de renunciar?

Algunasinvestigacionesrealizadas en bancos y empresas inmobiliarias han identificado dos formas efectivas de acabar con un patrón de supervisión abusiva. Una es ser menos dependiente del jefe. Si logras minimizar las interacciones, los daños serán menores. La otra es lograr que tu jefe dependa más de ti. Si te necesita, es menos probable que te trate mal.

Si todo lo demás falla, Sutton recomienda cambiar tu actitud con respecto a la situación: finge ser un especialista en cretinos y piensa en lo afortunado que eres por tener la oportunidad de ver de cerca a ese ejemplar tan espectacular y extraordinario.