Ciência e espiritualidade

Por Jacques Gruman
Einstein: “O comportamento ético dos homens deve se basear na simpatia, educação e laços sociais; não é necessária uma base religiosa. Os homens estariam em péssima situação se tivessem que ser controlados pelo medo de punição divina ou pela esperança de salvação após a morte”

Um brasileiro ganhou o prêmio Templeton deste ano, espécie de Nobel do diálogo entre ciência e espiritualidade. Marcelo Gleiser, há muito radicado nos Estados Unidos, é um físico empenhado na popularização dos conceitos mais avançados da ciência e na abertura de canais de comunicação da racionalidade científica com o que se chama de espiritualidade (categoria que tenho dificuldade em definir). Vamos e venhamos, não deixa de ser um abalo na imagem que se tem dos cientistas. Que diálogo pode haver entre uma área do conhecimento humano baseada na observação da natureza, nos desafios experimentais e no império da dúvida, com o sobrenatural, o que se garante existir contra todas as evidências e por pura fé, o irracional e anticientífico em estado bruto ?

Acho importante informar que, quando tinha seis anos. Gleiser perdeu a mãe, uma jovem de 38 anos. O choque para a criança foi tão grande que ela precisou alimentar, durante um tempo expressivo, tendências místicas, tentativas vãs de compreender a Morte e purgar culpas. Sei perfeitamente do que se trata. O Menino era adolescente quando o coração do Pai implodiu aos 42 anos. O que fazer numa hora dessas ? Dizer o kadish, oração judaica dos mortos, durante um ano inteiro, duas vezes por dia, ajudou. É como repetir um mantra, anestesiando e acalmando o que não se pode acalmar. Até aí fomos. Religião dá mesmo um senso de pertencimento e, no caso do kadish (que precisa de quórum mínimo de dez homens para ser dito), de comunidade. Numa hora de dor e vulnerabilidade, nada mais desejável.

O que não combina é o espírito do cientista com o espírito da fé. Que, como religião institucionalizada, embarcou a rodo, a História ensina, no espírito das trevas, do sangue e do horror. Gleiser está longe de ser o professor Pardal ou o Doc do filme De volta para o futuro, clichês do cientista alienado e meio pancada. Faz tempo que afirma que a função da ciência “não é tirar Deus das pessoas” ou, como escreveu em artigo de 2006, “o conflito entre ciência e religião não é, de forma alguma, necessário”. Não compreendo, embora respeite. Se a ciência não admite dogmas, se exige comprovação a cada passo que dá no desenvolvimento de novas explicações para os fenômenos da natureza terrena e do universo, se descarta hipóteses sobrenaturais, como conciliar com o seu extremo oposto ?

O fascínio da ciência é o encantamento pelos novos caminhos, que sempre nascem da dúvida, da curiosidade, da observação meticulosa e perseverante. Vejam o caso do astrônomo inglês Edmond Halley. No final do século XVII, ele e toda a população londrina assistiram, maravilhados, o céu se iluminar. Edmond correu para sua escrivaninha, fez um monte de cálculos e, no dia seguinte, anunciou para a multidão de incrédulos que aquele astro deslumbrante voltaria a iluminar os céus de Londres dali a 77 anos. Foi debochado. Pois em exatos 77 nos, quando o astrônomo já estava morto, lá estava a luz prevista. Era um cometa, cuja órbita Edmond calculou.Desde então, passou a ser chamado de Halley. Instrumentos precários e o dom da observação tiraram do terreno da magia e da superstição o que não passava de um astro passeando no universo.

Drauzio Varella, um cientista que não faz concessões às instâncias sobrenaturais, afirmou, com razão, que “a credulidade humana não tem nacionalidade nem respeita fronteiras. Ela se alimenta da insegurança do outro (…). Credulidade é condição contagiosa, não respeita escolaridade, posição social, cultura ou talento artístico”. No mesmo artigo, publicado na Folha de S. Paulo em dezembro de 2018, ele lembra: “Trato de doentes com câncer há 50 anos. Assisti ao desapontamento de inúmeras famílias que viajaram centenas de quilômetros com seus entes queridos – muitas vezes debilitados – atrás da promessa de curas mágicas que jamais se concretizaram (…) Milagres não existem, são criações do imaginário humano”.

Quando se chega nesse ponto, religiosos de boa fé (sem trocadilho) dizem que a espiritualidade nada tem a ver com religião institucionalizada, mas com uma ética amorosa, dos bons atos, da solidariedade, da preocupação com o destino comum da humanidade. Como diria Antônio Houaiss, discrepo. As causas das catástrofes econômicas, sociais e afetivas, dos desajustes estruturais e do desamor, não são sobre-humanas. Elas estão dentro das relações sociais e interpessoais, que geram seu próprio código de ética. Para mudá-lo, o caminho não está nas estrelas, mas na forma como os homens se relacionam para produzir e reproduzir, material e subjetivamente, suas vidas. Não é trabalho para monges, freis ou rabinos (embora sua participação, como entes sociais, no processo de mudança seja bem-vinda). Cito Einstein: “O comportamento ético dos homens deve se basear na simpatia, educação e laços sociais; não é necessária uma base religiosa. Os homens estariam em péssima situação se tivessem que ser controlados pelo medo de punição divina ou pela esperança de salvação após a morte” (matéria publicada no New York Times Magazine, em 9 de novembro de 1930). 

Sei que Marcelo Gleiser é honesto, tem boa vontade, e conhecimento de sobra, para tentar aproximar crentes de boa índole (os charlatães, em número cada vez maior e protegidos pelos modismos midiáticos, estão fora da equação) dos homens de ciência. Que tenha boa sorte, embora eu tenda a não acreditar muito nos frutos deste namoro. Nesta matéria, sou como Luiz Carlos Prestes. Perguntado sobre o fato de não acreditar em deus, o Cavaleiro da Esperança ponderou: “Eu nasci sem essa necessidade que a maioria das pessoas tem de acreditar num ser sobrenatural, mas não acho que seja um equívoco quem faz isto. Apenas prescindo desta necessidade”.

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