A manipulação dos nossos cérebros vem aí

Apple, Facebook, Microsoft, Google e DARPA investem muito em projetos de neurotecnologia.

O neurocientista espanhol Rafael Yuste.

Por que é preciso proibir que manipulem nosso cérebro antes que isso seja possível

O cientista Rafael Yuste, que comanda projeto de pesquisa do cérebro, pede que os governos criem novas leis contra os riscos da neurotecnologia

“Temos uma responsabilidade histórica. Estamos num momento em que podemos decidir que tipo de humanidade queremos.” São palavras de peso, tanto quanto o desafio ao qual se propõe Rafael Yuste. Esse neurocientista espanhol, catedrático da Universidade Columbia (EUA), escuta sussurrarem em sua consciência os fantasmas de outrosgrandes cientistasda história que abriram a caixa de Pandora. Ele, que impulsionou a iniciativa BRAIN, a maior aposta já feita na descoberta dossegredos do cérebro, não foge à sua responsabilidade: “Carrego isso como um dever”, afirma. Yuste sabe bem o que seu campo, a neurotecnologia, já é capaz dever e fazer em nossas mentes. E teme que isso escape de nossas mãos se não for regulado. Por isso reivindica aos governos de todo o mundo que criem e protejamdireitos inéditos: os neurodireitos. O Chile deverá ser o primeiro país a incluí-losem sua Constituição, e já há negociações para que esse espírito se reflita na estratégia do Governo espanhol para ainteligência artificial.

No ano passado, Yuste conseguiumanipular o comportamento de ratos. Fez isso intervindo nos pequenos cérebros desses roedores, adestrados para sorver suco quando viam listras verticais numa tela. Yuste e sua equipe haviam observado os neurônios específicos que eram acionados nesse momento e os estimularam diretamente quando não havia barras aparecendo na tela. Os ratos sorviam o suco como se tivessem visto aquele gatilho. “Aqui em Columbia meu colega desenvolveu uma prótese visual sem fio para cegos com um milhão de eletrodos, que permite conectar uma pessoa à rede. Mas também se pode usar para criar soldados com supercapacidades”, adverte Yuste. Esse aparelho, financiado pelo DARPA (a agência de pesquisa científica doExército dos EUA), poderia estimular até 100.000 neurônios, propiciando habilidades sobre-humanas.

Quando Yuste começou a trabalhar na iniciativa dos neurodireitos, há dois anos, era quase uma colocação abstrata, de ficção científica. “Mas a urgência da situação aumentou, há problemas bastante sérios que estão vindo com tudo; as empresas tecnológicas estão se metendo nisto de cabeça porque pensam, acertadamente, que onovo iPhonevai ser umainterface cérebro-computadornão invasiva”, diz Yuste. O homem que impulsionou um projeto de seis bilhões de dólares nos EUA para investigar o cérebro enumera com preocupação os movimentos dos últimos meses. OFacebookinvestiu um bilhão de dólares (4,36 bilhões de reais) em uma empresa que trabalha na comunicação entre cérebros e computadores. E aMicrosoftdesembolsou outro bilhão na iniciativa de inteligência artificial deElon Musk, que investe 100 milhões na Neuralink, uma companhia que implantará fios finíssimos no cérebro de seus usuários para aumentar suas competências. E Yuste tem informações de que oGoogleestá sigilosamentefazendo esforços semelhantes. Chegou aera do neurocapitalismo.

“A privacidade máxima de uma pessoa é o que ela pensa, mas agora já começa a ser possível decifrar isso”, alerta Yuste

“Estas grandes empresas tecnológicas estão ficando nervosas para não ficarem atrás com o novo iPhone cerebral. Para evitar abusos, temos que recorrer diretamente à sociedade e a quem faz as leis”, afirma. A tecnologia impulsionada por Musk pretende ajudarpacientes com paralisia ou extremidades amputadasa controlarem sua expressão e movimentos e a verem e ouvirem sozinhos,apenascom o cérebro. Mas não oculta que o objetivo final é o de nos conectar diretamente com as máquinas para melhorarmos graças à inteligência artificial. A iniciativa do Facebook é similar: uma empresa com um histórico questionável de respeito à privacidade, como a de Zuckerberg, acessando os pensamentos de seus usuários.

Essas pretensões parecem de ficção científica, mas uma simples olhada em algunsfeitos da neurociêncianos últimos tempos revela que elas estão ao alcance da mão. Em 2014, cientistas espanhóis conseguiram transmitir “oi” diretamente do cérebro de um indivíduo ao de outro, situado a 7.700 quilômetros de distância, por meio de impulsos elétricos. Em vários laboratórios foi possível recriar uma imagem mais ou menos nítida do que uma pessoa está vendo apenas analisando as ondas cerebrais que ela produz. Graças à eletroencefalografia, cientistas puderamler diretamente do cérebropalavras como “colher” e “telefone” quando alguém pensava nelas. Também serviu para identificar estados de ânimo. Na Universidade de Berkeley, foram capazes de identificar a cena que os voluntários estavam vendo graças à nuvem de palavras que seu cérebro gerava ao vê-las: cachorro, céu, mulher, falar… Uma tecnologia que poderia servir para descobrir sentimentos, dependendo das palavras que surjam ao ver uma imagem: por exemplo, seria possível ler “ódio” ao ver a imagem de um ditador.

Alguns desses marcos já completaram uma década, e desde então bilhões de dólares foram investidos em monumentais projetos privados e governamentais, do Facebook à DARPA, passando pela Academia de Ciências da China. “Pense que o projeto chinês é três vezes maior que o norte-americano, e vai diretamente ao assunto, ao fundir as duas vertentes: inteligência artificial e neurotecnologia”, adverte Yuste, que se diz otimista quanto aos benefícios da neurotecnologia, daí seu desejo de regulá-la.

“Em curto prazo, o perigo mais iminente é a perda de privacidade mental”, adverte Yuste, que lançou sua iniciativa pelos neurodireitos após debater o assunto em Columbia com uma equipe de 25 especialistas emneurociência, direito e ética, denominado Grupo Morningside. Várias empresas já desenvolveram aparelhos, geralmente em forma de tiara, para registrar a atividade cerebral de usuários que queiram controlar mentalmente drones e carros, ou medir o nível de concentração eestresse dos trabalhadores, como acontece com motoristas de ônibus na China. Lá também existem aplicações nas escolas: a tiara lê as ondas cerebrais dos alunos e uma luzinha mostra ao professor seunível de concentração. O problema é que a companhia que os vende, a BrainCo, pretende conseguir assim a maior base de dados desse tipo de atividade cerebral. Quanto mais dados ela tiver, melhores e mais valiosas serão suas leituras, claro. Como a indústria tecnológica está há uma décadaextraindo todos os dadosque possam obter do uso de aplicações e dispositivos, a possibilidade de espremer cada neurônio é um filão irresistível.

Potencial de desastre

A regulação proposta pelo grupo de Yuste tem dois enfoques. Um de autorregulação, com um juramento tecnocrático que submeta deontologicamente engenheiros, programadores e outros especialistas dedicados à neurotecnologia. Neste sentido, há uma negociação com as autoridades espanholas para levar o espírito desse juramento à Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, atualmente em preparação pelo Governo. Por outro lado, Yuste aspira a que os neurodireitos sejam incorporados àDeclaração de Direitos Humanos, e que os governos estabeleçam um marco jurídico que evite os abusos. O pioneiro será o Chile, com cujo Governo o grupo tem quase fechada uma legislação específica e suainclusão na nova Constituição.

“O que me preocupa com mais urgência é a decodificação dos dados neurológicos: a privacidade máxima de uma pessoa é o que ela pensa, mas agora já começa a ser possível decifrar isso”, avisa Yuste. “Estamos fazendo isso diariamente nos laboratórios com ratos, e quando as empresas privadas tivessem acesso a esta informação você vai rir dosproblemas de privacidade que tivemos com celularesaté agora. Por isso precisamos de neurodireitos, porque é um problema de direitos humanos”, resume. O neurocientista quer alertar à população que “não há nada de regulação, e isso afeta os direitos humanos básicos”.

“Existe um potencial para o desastre se deixarmos que continue escapando das nossas mãos, porque há uma total falta de regulação”, avisa Martínez-Conde

A neurobióloga Mara Dierssen, que não está envolvida na iniciativa de Yuste, destaca os problemas bioéticos decorrentes das possibilidades de melhora do ser humano pela neurotecnologia. Embora afirme haver muito sensacionalismo e arrogância em torno de empresas como a de Musk, Dierssen ressalta que “em longo prazo se pretende que os implantes possam entrar no campo da cirurgia eletiva para quem quiser ‘potencializar seu cérebro com o poder de um computador’”. “Que consequências pode ter a neuromelhoria em um mundoglobalizado, biotecnificado e socioeconomicamente desigual? Inevitavelmente surge a grande pergunta de em que medida essas técnicas seriam acessíveis a todos”, questiona Dierssen, pesquisadora do Centro de Regulação Genômica e ex-presidenta da Sociedade Espanhola de Neurociência.

Para a neurocientista Susana Martínez-Conde, trata-se de uma iniciativa “não só positiva como também necessária”. “Estamos dando conta como sociedade de que os avanços tecnológicos vão muito além do que estamos preparados filosófica e legalmente. Enfrentamos situações semexperiência prévia na história”, afirma Martínez-Conde, diretora do laboratório de Neurociência Integrada da Universidade do Estado de Nova York. “É necessário que prestemos atenção, porque a neurotecnologia tem repercussões diretas sobre o que significa ser humano. Existe um potencial para o desastre se deixarmos que continue escapando das nossas mãos, porque há uma total falta de regulação. É hora de agir antes de um desastre em escala global”, avisa.

Este desastre tem ressonâncias históricas. Enquanto conversa de seu escritório de Columbia, Yuste observa o edifício onde foi lançado o projeto Manhattan, que desembocou no lançamento dasbombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. “Esses mesmos cientistas foram depois os primeiros na linha de batalha para que se regulasse a energia nuclear. A mesma gente que fez a bomba atômica. Nós estamos ao lado, impulsionando uma revolução neurocientífica, mas também somos os primeiros que temos que alertar a sociedade.”

Os novos neurodireitos

O grupo impulsionado por Rafael Yuste desenvolve suas preocupações em torno de cinco neurodireitos:

1 – Direito à identidade pessoal.Esses especialistas temem que ao conectar os cérebros aos computadores a identidade das pessoas se dilua. Quando os algoritmos ajudarem a tomar decisões, oeudos indivíduos pode se esfumar.

2 – Direito ao livre-arbítrio.Este neurodireito está muito ligado ao da identidade pessoal. Quando contarmos com ferramentas externas que interfiram em nossas decisões, a capacidade humana de decidir seu futuro poderá ser posta em xeque.

3 – Direito à privacidade mental.As ferramentas de neurotecnologia que interagem com os cérebros terão capacidade para reunir todo tipo de informação sobre os indivíduos no âmbito mais privado que possamos imaginar: seus pensamentos. Os especialistas consideram essencial preservar a inviolabilidade dosneurodadosgerados pelos cérebros humanos.

4 – Direito ao acesso equitativo às tecnologias de ampliação.Yuste acredita que as neurotecnologias trarão inumeráveis benefícios para os humanos, mas teme que se multipliquem as desigualdades e privilégios de alguns poucos que terão acesso a estas novas capacidades humanas.

5 – Direito à proteção contra vieses e discriminação.Nos últimos anos, vieram à tona vários casos em que os programas e algoritmos multiplicam os preconceitos e vieses. Este direito pretende que essas falhas sejam buscadas antes de sua implantação.

Por: Javier Salas
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“Prolongar a vida em UTIs é uma praga moderna”

“A maior dificuldade que existe hoje é tratar a morte como uma questão pessoal, considerar o próprio fim”. “As diversas incertezas que rondam a finitude fazem do último suspiro um dos grandes tabus sociais”.

MJK

Maria Julia Kováca – foto: Carine Wallauer/UOL

‘Prolongar a vida em UTIs é uma praga moderna’, diz especialista em morte

Há quem tenha medo da morte e prefira não falar sobre ela. Algumas culturas costumam celebrá-la. Há quem queira ter controle sobre o fim da vida, já outros preferem que seja natural — sem dor, preferencialmente. Fato é que as diversas incertezas que rondam a finitude fazem do último suspiro um dos grandes tabus sociais. E foi exatamente sobre esse assunto que a psicóloga Maria Julia Kovács, 65, decidiu se dedicar profissionalmente.

Professora do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM), ela começou a estudar o tema nos anos 1980. O interesse surgiu de uma questão pessoal, a doença de uma tia. “Ela estava muito mal e queria falar sobre a morte. Eu me recusava, reproduzindo o jeito de ser da nossa sociedade atual. E foi aí que ouvi dela: ‘Que tipo de psicóloga você vai ser que não fala sobre o assunto?’”, contou em entrevista à Daniela Carasco, da UOL. “Comecei lendo alguns livros, até me especializar em 1982, no mestrado.”

Em 1986, ela criou na Universidade de São Paulo a disciplina “psicologia da morte” a fim de aproximar os alunos de uma questão tão implacável. “A maior dificuldade que existe hoje é tratar a morte como uma questão pessoal, considerar o próprio fim”, conta.

A “interdição” do tema, segundo Maria Julia, veio com o avanço da medicina. “Do ponto de vista médico, a morte é vista como um fracasso profissional, daquele que não conseguiu evitá-la”, diz. Como consequência, surgiu a “distanásia”, o prolongamento do processo de morte por meio de tratamentos cada vez mais modernos. Algo questionável na visão da especialista, que, como muitos, também tem medo do próprio óbito.

Aqui, ela fala abertamente sobre as mais variadas especulações e certezas que envolvem o processo de falecimento, como eutanásia, luto, cuidados paliativos, sofrimento, prorrogação artificial, suicídio e diferenças culturais.

A maneira como a morte passou a ser tratada mudou com o tempo?
Drª Maria Julia Kováca: – A grande mudança se processou na passagem do século 19 para o 20, com o desenvolvimento da medicina, principalmente na sua busca de cura e de tratamentos cada vez mais sofisticados. Do ponto de vista médico, a morte passou a ser vista como fracasso profissional. Então, houve a interdição do tema, isolamento de pessoas que estão morrendo em salas e corredores distantes nos hospitais, além da exploração de técnicas que pudessem postergá-la a todo custo. Assim se criou a “distanásia”, um processo muito sério de medicalização e prolongamento do processo de morte, que pode vir acompanhado de muito sofrimento.

Qual o lado bom e o ruim de prolongar a vida com os novos tratamentos?
Há benefícios, como permitir que pessoas com o diagnóstico de doenças sem cura vivam por muito tempo e com menos efeitos colaterais. A maior desvantagem é que muita gente não está conseguindo morrer naturalmente. Os maiores prejudicados nesse ponto são os idosos, com doenças crônicas e degenerativas. Eles são submetidos a uma série de intervenções inúteis, porque não se concebe a ideia de que possam morrer. Isso acaba ampliando o sofrimento do doente e de seus familiares, que os vê em situações muito graves, quase mortas, entubadas, sem a possibilidade de se comunicar. Prolongar a vida em UTIs é uma praga moderna.

Você é favorável à eutanásia?
Eutanásia quer dizer “boa morte”. O que aconteceu é que, nos últimos tempos, ela passou a ser associada ao apressamento do fim, possivelmente uma reação ao prolongamento. Sou a favor da sua legalização como possibilidade de atender ao desejo de uma pessoa que não quer mais viver. O direito de morrer e de planejar o final da vida é importante. Não apressá-la, mas deixar acontecer naturalmente sem muita intervenção, só cuidando para que a pessoa não sofra com dores ou outros sintomas. Daí a importância dos cuidados paliativos.

O que são os cuidados paliativos?
São cuidados de alívio e controle de sintomas de uma doença que não tem cura para garantir qualidade de vida ao paciente. Não é uma preparação para a morte, mas a dor, dificuldade respiratória, problema gástrico, ansiedade e outros problemas que ela possa ter. Eles são muito aplicados nas áreas de oncologia. Nas de doença mental precisam ser melhor trabalhados.

Optaria pela eutanásia para si?
Não, porque ela envolve uma terceira pessoa que executa o procedimento, alguém que lhe dá a medicação para morrer. E isso é complicado. Nos países em que é legalizada, ela é realizada por médicos. Para mim, seria a última possibilidade, mas quem deseja deveria ter esse direito de escolha. Se meu sofrimento for muito grande, aceitarei a sedação paliativa para aliviá-lo, diminuindo a consciência. Acho interessante a ideia do suicídio assistido.

O que é o suicídio assistido?
É quando o próprio doente executa o ato final. Ele é regulamentado em vários Estados dos Estados Unidos, onde a liberdade individual é muito prezada. Existem duas formas clássicas de realizá-lo. Um dos processos é feito com três seringas instaladas no paciente. A primeira é o acesso; a segunda, o relaxante; e a terceira, a substância que provoca a morte. Ele é quem vai acionar a última quando achar que deve. A outra forma é quando o médico entrega à pessoa a receita de uma medicação fatal e ela toma quando quiser. Isso ajuda muitas a repensarem a decisão. Essa é frequente na Suíça, onde existe uma clínica especializada em “morte com dignidade”, como preferem chamar.

Em Goiás, uma mãe entrou na Justiça para obrigar o filho a se submeter a sessões de hemodiálise. O menino de 22 anos sofre de uma doença crônica e decidiu abrir mão do tratamento. Ela pergunta se “é egoísmo uma mãe querer que o filho não desista de viver”. O que a senhora responderia a ela? Então, a morte é uma escolha pessoal?
Essa é uma grande discussão atual. Em muitas religiões, a vida e a morte pertencem somente a Deus ou a uma divindade. Portanto, não é uma escolha pessoal. Algumas até possibilitam uma conversa com o sacerdote neste sentido para um certo conforto espiritual. A Igreja Católica, por exemplo, defende que seja um processo natural, sem apressamento, nem prolongamento indefinido. O judaísmo se coloca da mesma maneira. Por outro lado, quando se tira o viés religioso, muita gente considera que a escolha do modo de morrer é própria.

Do ponto de vista dele, é absolutamente compreensível seu desejo. Mas a mãe também está certa por querer o filho vivo. Alguns dilemas nunca serão resolvidos, esse é um deles. A minha tendência seria apoiar o rapaz, porque quem está vivendo essa vida de sofrimento é ele. O que eu faria com ela seria legitimar seu sentimento e oferecer acolhimento. É um egoísmo natural de mãe. Seria até muito estranho se ela não lutasse pela vida do filho.

Culturalmente existem diferenças na interpretação da morte?
Podemos dizer que, de maneira geral, a cultura ocidental e a oriental lidam diferente. A primeira tem mais dificuldade de lidar com a finitude, a segunda enxerga mais como um ritual de passagem. Mas não existe um padrão. O México é um bom exemplo. Ele está no Ocidente, mas celebra a morte como possibilidade de evolução. Já uma metrópole como São Paulo, onde o trânsito e a rotina atribulada interferem até numa ida a um enterro, esse processo é perturbador.

“As pessoas não têm tempo de se enlutar na capital paulista. No trabalho, só podem ficar, no máximo, três dias afastadas após a perda de um familiar.

Quanto tempo dura o luto?
O luto é um processo de elaboração de uma perda significativa e não acaba nunca. Ele vai evoluindo, com dias melhores e outros piores. É como as ondas do mar, que vêm e vão. O mais importante é permitir ao enlutado expressar seus sentimentos da melhor forma para ele, seja de maneira intensa ou recolhida. Quando a gente ama profundamente uma pessoa, estão misturados aí medo, raiva, insegurança. Na hora que ocorre a perda, esses sintomas todos emergem e precisam ser legitimados. O problema é que nossa sociedade não tolera o sofrimento por muito tempo, nem muito intensamente. E isso perturba profundamente o processo. O capitalismo e a medicalização nos exige resolver os problemas emocionais rapidamente. Essa é uma característica dos tempos atuais.

O luto é uma doença?
Não. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5, depois de duas semanas, se as expressões emocionais continuarem muito fortes, pode ser dado o diagnóstico de depressão. Essa, sim, é uma doença.

Por que essa obsessão pela eternidade?
Porque a gente sempre imagina as coisas boas de se viver para sempre, mas as coisas ruins também podem perdurar. À medida que você envelhece, vai perdendo a potência, a força… Pense que isso deve permanecer com a o prolongamento da vida. Aí não fica mais gostoso, nem atrativo.

É possível sentir a morte chegando?
Sim. Normalmente, a gente consegue sentir isso quando está doente e a doença agrava. Muitas pessoas têm essa percepção e é terrível quando o mundo em volta diz que está tudo bem, que ela vai sair dessa. Ela viveu com esse corpo a vida inteira, sente que está terminando.

Dentre todas as mortes, qual é a mais tabu?
O suicídio, porque é um tipo de morte muito complexo, difícil de elaborar. A gente sabe que para tudo na vida existem inúmeras possibilidades. Então, entender que ele foi escolhido em detrimento de tantas outras é muito complicado. Por isso, é muito importante falar sobre o assunto. A única certeza que temos é que ignorá-lo não resolve. Pelo contrário, pode aumentar as chances diante da falta de compreensão.

Existe morte digna?
Sim e é essa que devemos batalhar para ter. É aquela que possa acontecer da maneira como a pessoa gostaria que fosse, com os valores que são importantes para ela. Se ela quiser, com as pessoas que são importantes na vida dela, sem dor e sem sofrimento possíveis de serem controlados.

Você teme perder pessoas queridas?
Sim. O fato de estudar a morte, ministrar disciplinas e atender em psicoterapia pessoas enlutadas não me protege da dor da perda. É uma ilusão pensar que estamos protegidos e vamos saber como lidar.

“Nada nos blinda do sofrimento. Como profissionais temos a tarefa de cuidar, mas temos que ter o espaço de elaboração e também de ser cuidado se necessário.

É normal ter medo da morte?
Eu diria que o medo da morte faz parte do existir humano para o bem e para o mal. Ele nos permite lutar pela sobrevivência, evitar perigos, se cuidar. Por outro lado, pode ser danoso no momento em que faz a gente deixar de existir — não vai viajar porque pode ter atentado, não vai trabalhar para não ser castigada pelo chefe, não se relaciona para não perder a pessoa amada. Você se superprotege e não vive. Alguns riscos para a vida são necessários, seja no amor ou no trabalho.

Por que as pessoas sentem isso?
Pessoas podem ter medo de morrer, medo de perder pessoas, medo da finitude, medo do desconhecido, medo do que vem após a morte… É multidimensional.

E você tem medo dela?
Sim. Tenho medo principalmente da morte com sofrimento e dor. Vamos dizer que ainda pretendo continuar vivendo, não gostaria de morrer agora. Se tivesse que acontecer neste momento, por alguma circunstância, não gostaria de passar pelo prolongamento do processo de morrer.

Fonte: Revista Prosa Verso e Arte
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A igreja que proibe consultar o médico

Os fieis não recorrem à medicina. Acreditam que toda doença deve ser tratada unicamente com a fé e a oração.

The Followers of Christ Church sign hangs in front of their church Wednesday, Sept. 14, 2011, in Oregon City, Ore. Dale and Shannon Hickman are charged with second-degree manslaughter. They are fourth couple prosecuted in the past two years by the Clackamas County District Attorney's Office for failing to seek adequate medical care for a child. The Hickmans are members of the Followers of Christ, an Oregon City faith-healing church. (AP Photo/Rick Bowmer)
The Followers of Christ Church sign hangs in front of their church Wednesday, Sept. 14, 2011, in Oregon City, Ore. Dale and Shannon Hickman are charged with second-degree manslaughter. They are fourth couple prosecuted in the past two years by the Clackamas County District Attorney’s Office for failing to seek adequate medical care for a child. The Hickmans are members of the Followers of Christ, an Oregon City faith-healing church. (AP Photo/Rick Bowmer)

          La Iglesia que prohíbe acudir al médico

Gennifer es el nombre de una bebé que murió en 2017 porque sus padres se negaron a llevarla al médico. Sus padres, Sarah Mitchell de 25 años y su esposo Travis Mitchell de 22, fueron encontrados culpables de homicidio el pasado 9 de julio. Lo particular de la joven pareja de esposos es que pertenecen a una denominación cristiana llamada “Seguidores de Cristo”. Para los miembros de esta secta cristiana acudir al médico es sinónimo de desconfiar de la voluntad de Dios.

Los seguidores de Cristo son un grupo de cristianos que se encuentran principalmente en los estados de Oklahoma, Oregon y Idaho. Esta iglesia se originó en el seno del movimiento pentecostal de sanaciòn por la fe de finales del siglo XIX.

La iglesia de los Seguidores de Cristo fue fundada en Chanute, Kansas, por Marion Reece. Después de un pequeño crecimiento y disputas con otros pastores, Walter White se mudó a Oregon City, Oregon, en la década de 1940. En ese entonces era una comunidad agrícola y maderera en gran parte rural, ahora un suburbio de Portland. Tras la muerte del pastor White en 1969 la iglesia no ha tenido un líder principal, y afortunadamente han cesado el proselitismo religioso. Sus feligreses, que son más de 1200, rechazan el uso de la medicina y consideran que toda dolencia debe ser tratada únicamente con la fe y la oración.

La historia de la pobre Gennifer

cons2Sarah Elaine Mitchell, 25, y Travis Lee Mitchell, 22, tras ser hallados culpables
por seguir absurdas creencias bíblicas.
Fuente: Oregon Live

Sarah Elaine Mitchell, la madre recientemente condenada, nunca supo durante su embarazo que estaba embarazada de mellizas. Durante todo la gestación no recurrió a médicos ni tuvo cuidados prenatales. El 5 de marzo de 2017 dio a luz en su casa. Sin embargo, al poco tiempo, ambas niñas comenzaron a tener serias dificultades para respirar. Los jóvenes padres en lugar de acudir al médico llamaron a los hermanos de la iglesia para que se iniciara una cadena de oración. Ningún miembro de la iglesia hizo un llamado a la línea de emergencias.

Gennifer empeoró y murió. Su hermana Evelyn también estaba empeorando. Las oraciones no estaban sirviendo para nada. Tras conocerse el deceso Gennifer las autoridades iniciaron una investigación y visitaron el hogar de los seguidores de Cristo.

El médico forense, al observar que la pequeña Evelyn tenía dificultades para respirar, la tomó consigo y la llevó a un centro hospitalario donde le salvaron la vida.

Ya el pasado 9 de julio una corte de Oregon, Estados Unidos, encontró a los Mitchell responsables de homicidio por negligencia y destrato criminal. Ellos aceptaron los cargos y fueron condenados a seis años de prisión. Se espera que por buen comportamiento puedan tener rebaja de la pena. La niña sobreviviente está en el momento a cargo del gobierno.

“Durante demasiado tiempo, los niños de esta iglesia han estado sufriendo y muriendo innecesariamente porque sus padres, como condición de sus creencias religiosas, se han negado a buscar atención médica para sus hijos”, afirmó la fiscalía. “Y durante los últimos 17 años y medio, la Oficina del Fiscal del Condado de Clackamas ha estado trabajando diligentemente para responsabilizar penalmente a los padres que no brindan la atención médica adecuada para sus hijos, lo que provoca su muerte o lesiones físicas graves”.

Como un signo de la disposición de la iglesia para detener finalmente el patrón de muertes de recién nacidos, la iglesia acordó como parte del acuerdo poner la siguiente declaración dentro de su edificio: “Todos en la iglesia siempre debemos buscar atención médica adecuada para nuestros hijos”.

“Esperamos que esta oficina nunca más se vea obligada a enjuiciar a los padres en la Iglesia de los Seguidores de Cristo por descuidar la atención médica de sus hijos”, afirmó el fiscal. “Sin embargo, seguimos estando preparados para hacerlo si los miembros de esa congregación no prestan atención”.

Gennifer no ha sido la única

cons3Alyana Wyland de 18 meses quedó ciega por
un tumor sin tratar. Sus padres son miembros de la Iglesia
Seguidores de Cristo,

Los miembros de esta denominación con frecuencia saltan a los titulares de prensa por dejar morir a sus pequeños por falta de atención médica.

En el 2008 fue noticia la muerte de Neil Beagley, de 16 años, por un bloqueo del tracto urinario . Su muerte resultó en la condena de homicidio por negligencia criminal de sus padres Jeff y Marci Beagley, también miembros de esta secta.

En 2011, Rebecca y Timothy Wyland fueron declarados culpables de maltrato criminal después de que su hija sufriera un crecimiento anómalo en los vasos sanguíneos de su ojo derivó en daño permanente a su visión.

La hermana de Sarah, Shannon y su marido Dale Hickman dejaron morir a su hijo recién nacido en 2009. Solo pudieron mantenerlo con vida nueve horas, sin embargo, también fueron condenados.

Otro miembro de la pequeña congregación también impidió que su bebé de 15 meses recibiera atención médica, lo que provocó la muerte de Ava Worthington. Los padres indicaron que habían dado al pequeño sanación por medio de la fe, pero no la visita de un profesional de la salud.

Segùn la doctora Karen Gunson, del Hospital Universitario de Oregon, en entrevista con People, relató que durante sus 30 años en la profesión ya ha visto 20 muertes similares.

La oración no sirve para nada

Muchos cristianos que han leído esta noticia han dicho que la inacción de los feligreses de los Seguidores de Cristo es sin duda fanática. Pero si nos detenemos a pensar, su idea de que Dios los salvará si oran con fe, como dice la Biblia, es consistente con la Biblia. ¿Entonces por qué mueren sus familiares?

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Los familiares de estos creyentes sinceros, pero engañados, se debe a que no hay nadie que escuche las oraciones, a menos los que están al lado de los que rezan. Sin la medicina científica miles que hoy se salvan por antibióticos, cirugías y atenciones de emergencias, morirían sin estas ayudas. Así que la próxima vez que alguien te hable sobre el poder de la oración ya podrás presentarles el caso de los Seguidores de Cristo, un triste pero ilustrativo experimento real del poder de la oración cuando retiras los medicamentos y lo dejas todo en las manos de Jesús.

Fonte: Blog Sin Dioses
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A eutanásia, a religião, os cuidados paliativos e a educação

“Um “declínio na religiosidade” explica em parte um aumento da aceitação da eutanásia” na Europa Ocidental.

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Cuidados paliativos e eutanásia não são práticas contraditórias

Segundo um estudo publicado no ano passado na revista internacional Palliative Medicine, a percentagem de pessoas que teve acesso a cuidados paliativos na Bélgica é superior entre os que solicitaram eutanásia do que na restante população que não morre de morte repentina.

Um dos autores deste estudo, o sociólogo belga Joachim Cohen, refere que, na Bélgica, a eutanásia acontece depois de os doentes terem acesso a cuidados paliativos com qualidade.

O estudo, publicado em 2017 e que analisou a realidade belga, mostra que, de todos os utentes de cuidados paliativos, houve 14% que solicitaram eutanásia.

Em resposta escrita à agência Lusa, o sociólogo, que trabalha num centro dedicado às questões de fim de vida, refere ter estudos e análises de dados que demonstram que as pessoas que procuram a eutanásia são sobretudo doentes mais informados e com níveis de educação elevados.

Os doentes oncológicos e pessoas entre os 65 e os 79 anos estão também entre os grupos mais relevantes quanto aos pedidos de eutanásia, segundo o estudo, após análise a mais de 6.800 casos de vários tipos de mortes na Bélgica.

Os autores destacam ainda que, no país, as federações de cuidados paliativos aceitam que a eutanásia aconteça no contexto de bons cuidados paliativos.

“Num contexto de eutanásia legalizada, a eutanásia e os cuidados paliativos não surgem como práticas contraditórias. Uma proporção substancial de pessoas que realizou pedido de eutanásia era seguida por serviços de cuidados paliativos”, refere uma das conclusões do estudo.

Joachim Cohen e a equipa do End-of-Life Care Research Group analisaram também a posição das sociedades e dos países relativamente à eutanásia e à morte medicamente assistida.

“A aceitação pública aumentou ao longo do tempo, mas com variações consideráveis entre os países”, concluiu o investigador.

Nesta análise coube ainda a procura pelas razões desta variação, sendo que a religiosidade surgiu como um dos fatores que influencia a posição sobre a eutanásia.

De acordo com Joachim Cohen, um “declínio na religiosidade” explica em parte um aumento da aceitação da eutanásia” na Europa Ocidental.

Outro dos fatores que influencia a posição sobre a eutanásia é a tolerância à autonomia e à liberdade de escolha.

Num outro artigo científico em que Joachim Cohen participou, de 2016, mostra que nem sempre as opiniões dos cidadãos e dos médicos sobre a eutanásia são coincidentes, podendo ser mais fácil despenalizar a eutanásia quando essa diferença de opinião não é tão significativa.

Fonte: Atlas de Saúde Pt
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Deus decide

Educando para a felicidade: a experiência dinamarquesa

O método dinamarquês de educar é marcado por condutas que afirmam uma ética orientada para a integridade e a interação. Uma delas é o “elogio ao processo”. A ideia básica é a de elogiar o esforço das crianças e não suas qualidades pessoais.

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Montagem sobre fotos/ Freepik

Educando para a felicidade: a experiência dinamarquesa

Brincar é uma das primeiras condições da aprendizagem, porque decisiva para o desenvolvimento de habilidades sociais

Há vários indicadores que medem o desenvolvimento das sociedades. Um deles, proposto pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) das Nações Unidas, mede o nível de bem-estar em uma amostra de 38 países (Better Life Index). O estudo é feito anualmente com 11 indicadores: moradia, renda, empregos, comunidade, educação, meio ambiente, engajamento cívico, saúde, satisfação pessoal, segurança, vida/trabalho. No cômputo geral de bem-estar, o Brasil ocupa a 34ª posição, superando apenas África do Sul, México, Turquia e Grécia. Nas primeiras posições estão Noruega, Dinamarca, Austrália e Suécia (https://goo.gl/6knFAm). O indicador de satisfação pessoal do estudo procura medir a perspectiva mais ampla de felicidade, para além dos sentimentos momentâneos das pessoas. O Brasil, nesse ponto, situa-se na média. O maior índice de felicidade é manifesto na Dinamarca, Finlândia, Islândia, Suíça e Noruega (https://goo.gl/E4tozG).

Desde 1973, a Dinamarca lidera o ranking de felicidade, o que desperta o interesse dos pesquisadores. Por que razão os dinamarqueses se destacam nesse indicador? Para além da efetividade dos direitos humanos que marcam o modelo nórdico de Welfare State, haveria algo na educação dinamarquesa que poderia explicar a maior satisfação das pessoas? Para Jessica Alexander e Iben Sandahl, autoras do livro Crianças Dinamarquesas, o que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes (editora Fontanar, 2017, 142 p.), é exatamente disso que se trata. Para elas, os dinamarqueses educam seus filhos de uma forma específica, cujos valores e condutas estão na origem da felicidade geral.

Brincar é uma das primeiras condições da aprendizagem e os dinamarqueses entendem que ela é decisiva para o desenvolvimento de habilidades sociais. A interação com outras crianças, de idades diferentes, inclusive, desenvolve as habilidades de negociação e de autocontrole. “Quanto mais brincarem, mais resilientes e socialmente capazes serão”, afirmam Alexander e Sandahl. As crianças devem brincar sozinhas também. O “faz de conta”, a criação de personagens e vozes permitem que as crianças reinterpretem suas experiências. Não por acaso, um dos brinquedos mais conhecidos do mundo, o Lego, foi inventado por um dinamarquês, em 1935. “Lego” é a abreviação para leg godt que significa “brincar bem”.

O método dinamarquês de educar é marcado por condutas que afirmam uma ética orientada para a integridade e a interação. Uma delas é o “elogio ao processo”. A ideia básica é a de elogiar o esforço das crianças e não suas qualidades pessoais. Ao invés de “Nossa, como você é inteligente! Ninguém resolve um quebra-cabeças assim tão rápido”, o pai ou a mãe dinamarquesa dirá: “Nossa, essa era uma tarefa bem difícil e você chegou ao fim dela. Adorei a forma como você manteve a concentração e não parou de trabalhar. Muito bem”! Crianças que não são elogiadas pelos pais tendem a ser pouco confiantes em si mesmas, mas crianças que são elogiadas como se fossem portadoras de qualidades especiais tendem a imaginar que não precisam se esforçar tanto, já que seriam “melhores” do que as outras. Essas crianças podem, inclusive, evitar desafios mais complexos, temendo que eventual fracasso revele que não são tão inteligentes ou habilidosas quanto seus pais sempre disseram. Elogiar o processo, ao invés de qualidades inatas, transmite uma mensagem totalmente diversa. Com ela, as crianças começam a firmar a noção de que podem alcançar muito quando perseveram na busca de seus objetivos.

Na mesma linha, os dinamarqueses lidam com uma técnica que as autoras chamam de “reenquadramento”. Trata-se de estimular as crianças a perceber a realidade sob múltiplos ângulos, evitando a redução de uma experiência, por exemplo, a uma dimensão negativa. Isso produz um uso cuidadoso da linguagem, para não reproduzir estereótipos. O desafio é separar os indivíduos dos seus atos. Se o coleguinha fez uma coisa ruim, é aquele ato que é ruim, não o coleguinha. Pessoas erram e devem corrigir seus erros. O mundo, em síntese, não está dividido entre os que erram e os que acertam. Essa compreensão evita que a linguagem se transforme em uma sentença. Crianças que ouvem seus pais dizerem coisas do tipo: “você é egoísta”, “você é preguiçoso” ou “nosso filho detesta matemática”, “nossa filha não gosta de ler”, terão, seguramente, uma boa chance de acreditar nisso, caminho pelo qual tais frases se transformam em profecias que se autocumprem.

Esses são apenas alguns dos temas abordados por Alexander e Sandahl. No Brasil, não temos uma formação especial para paternagem/maternagem, o que significa que os adultos costumam agir em relação as suas crianças de forma instintiva e, muito frequentemente, repetindo os padrões pelos quais eles mesmos foram educados. Essa característica integra a receita pela qual os padrões de desigualdade são reproduzidos e perpetuados. Também por essa razão, o livro mencionado pode cumprir um importante papel entre nós, não apenas para pais e mães, mas também para professores.

Fonte: Jornal Extra Classe
Por: Marcos Rolim
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E os psicanalistas foram impedidos de entrar no evento…

Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. Negócio é negócio.

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Imagem por Alpino

A medicalização da experiência humana

Variação do humor ou momentos de tristeza e tensão são sempre sinais de doença? Por muito tempo a psiquiatria europeia soube avaliar a gravidade e definir uma prescrição apropriada, da droga ao tratamento psicanalítico. A indústria farmacêutica incita, contudo, à transformação de dificuldades normais em patologias, às quais ela oferece uma solução

Diante da realidade do “sofrimento psíquico” – uma das mais importantes patologias modernas –, entrou em ação, há algumas décadas, uma maquinaria diagnóstica nunca antes vista, cujo objetivo é explorar esse enorme mercado potencial. Para isso, foi necessário primeiro substituir a grande psiquiatria europeia, que, graças a observações clínicas múltiplas e coerentes, reunidas durante os dois últimos séculos, havia repertoriado os sintomas, classificando-os em grandes categorias: neuroses, psicoses e perversões. Munido desses conhecimentos, o especialista podia dar um diagnóstico e distinguir os casos graves dos causados por circunstâncias passageiras. Ele separava então o que exigia o uso de medicamentos daquilo que poderia ser solucionado melhor com a conversa.

A psiquiatria clássica e a psicanálise haviam chegado às mesmas conclusões. Essas duas abordagens tão distintas se auxiliavam e se enriqueciam mutuamente. O mercado de medicamentos ainda guardava proporções razoáveis, o que deve ter dado o que pensar à “Big Pharma” – apelido conveniente para o enorme poder dos laboratórios farmacêuticos, que fazem uma corte assídua tanto aos clínicos gerais quanto às mais altas instâncias do Estado e dos serviços de saúde, com os quais sabem se mostrar bem generosos (oferecendo, por exemplo, cruzeiros de “formação” aos jovens psiquiatras).

A jornada de conquista desse grande mercado começou nos Estados Unidos, com a Associação dos Psiquiatras Americanos (APA) e seu primeiro manual de diagnóstico e estatística dos problemas mentais, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, ou DSM), em 1952.1 Em 1994, a Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou no capítulo “Psiquiatria” da Classificação Internacional das Doenças as nomenclaturas do DSM-IV, o que levou vários países a fazer o mesmo. Seguiu-se uma inflação de patologias repertoriadas. Havia sessenta em 1952, mas 410 em 1994, no DSM-IV.

Extinguir o vulcão

Negócio é negócio. O método DSM tem de ser simples: não se cogita buscar a causa dos sintomas nem saber a que estrutura psíquica eles correspondem. Basta encontrar o caso que se conforme ao comportamento visível do paciente. Essa prática esquece que um sintoma não é jamais uma causa. A conversa com o psiquiatra mal pode ser considerada necessária, pois serve apenas para repertoriar os “transtornos” superficiais: “transtornos” do comportamento, da alimentação, do sono… enfim, “transtornos” de todos os tipos, até a recente invenção dos “transtornos” pós-atentados. A cada um corresponde – maravilha! – um medicamento. Foi nessas águas perturbadas que naufragaram os antigos diagnósticos. O lobby da Big Pharma conquistou também as faculdades de Medicina, onde só se ensina o DSM. Mais: os próprios laboratórios transmitem os ensinamentos – numerosos conflitos de interesses foram denunciados. A grande cultura psiquiátrica acabou esquecida, de sorte que, diante de um paciente, o novo clínico made in DSM não sabe mais se está lidando com uma psicose, uma neurose ou uma perversão. Ele não distingue um problema grave de um estado circunstancial. E, na dúvida, receita psicotrópicos…“Depressão”, por exemplo, é palavra que faz parte do vocabulário corrente. O blues (tristeza) pode dominar qualquer pessoa, a qualquer momento da vida. Mas por que dar esse sentido ao conceito de “depressão”? Ela foi elevada à dignidade de uma doença à parte. Contudo, a tristeza pode ser um sintoma tanto de melancolia – acarretando risco elevado de suicídio – quanto de um estado passageiro e mesmo normal, como o luto. Confúcio recomendava ao filho um luto de três anos após a morte do pai; hoje, se você continua triste depois de quinze dias, está doente. Vão lhe dar antidepressivos, que podem temporariamente aliviar o problema, mas não o resolverão. Entretanto, como não convém interromper o tratamento de repente, a prescrição dura às vezes a vida inteira.

O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo. É necessário chorar antes de rir. Estamos à beira de um vulcão: extingui-lo com medicamentos que não passam de drogas é extinguir uma vida, porquanto viver é correr riscos o tempo todo. “O patológico só tem sentido para o improdutivo”, dizia o escritor Stefan Zweig.2 O nome de alguns medicamentos parece corroborar essa ideia, mas em uma acepção no mínimo discutível: em certas formas agudas de psicose, os psicotrópicos são imprescindíveis para acalmar as alucinações e os delírios. Tais medicamentos são chamados de antipsicóticos. Na cabeça do fabricante, essas moléculas estariam então destinadas a acabar de vez com a pessoa que sofre de psicose? O fabricante esquece uma coisa: o “paciente” é sempre maior que seu padecimento. Esses remédios deviam chamar-se de preferência “pró-psicóticos” ou “filopsicóticos”, pois um psicótico libertado de seus delírios é frequentemente um grande inventor (o matemático Georg Cantor), um grande poeta (Friedrich Hölderlin), um grande pintor (Vincent van Gogh) ou um grande filósofo (Jean-Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma pouco se importa com a liberdade reencontrada pelo paciente, que no fim poria em causa sua empresa. Ela prefere o ópio. E seus vapores se instalam com facilidade, porque o “transtorno” é associado às manifestações efetivas do sofrimento psíquico.

Não bastasse isso, mais vale que o número de “transtornos” cresça e se multiplique. Entre os mais recentes, o “transtorno bipolar” se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: este se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. Enquanto a vida segue seu curso, nós todos somos normalmente “bipolares”, hoje alegres, amanhã tristes. Acontece, porém, que nas psicoses melancólicas o objeto de desejo é a própria morte ou a explosão de um surto maníaco. O diagnóstico de “bipolaridade” se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses. Essa distinção, riscada dos DSMs, provoca inúmeras situações dramáticas.3

O “transtorno” mais comum e inquietante, pois diz respeito às crianças, que sofrem sem saber o motivo e não podem se queixar, é sem dúvida o “transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade” (TDAH). Essas dificuldades da infância vêm sendo enfrentadas há tempos por psiquiatras infantis e psicanalistas, pioneiros na matéria. Mas, como se trata de problemas peculiares a cada criança, eles não ousaram rotulá-los sob um “transtorno” geral. Graças a isso, são hoje acusados de não propor medidas, principalmente pelas associações de pais, algumas delas subvencionadas por laboratórios farmacêuticos (por exemplo, a associação Hypersupers TODA/H France, apoiada pelos laboratórios Mensia, Shire, HAC Pharma e NLS Pharma).

A imprecisão desse pretenso diagnóstico equivale a dizer, por exemplo, que a tosse é uma doença. E o exemplo vem de cima: em 29 de setembro de 2017, houve na Universidade de Nanterre uma conferência em favor do diagnóstico de TDAH sob o patrocínio do presidente francês, Emmanuel Macron, e da ministra da Saúde, Agnès Buzyn. Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. O TDAH não existe nas classificações francesas, seja a Classificação Francesa dos Transtornos da Criança e do Adolescente (CFTMEA), fiel à psiquiatria francesa, ou mesmo a Classificação Internacional das Moléstias (CIM-10), que acolhe as opções do DSM. Elas descrevem apenas os problemas de agitação. E agitação não é doença. Pode ter várias causas (problemas familiares, dificuldades na escola etc.); exige primeiro que as crianças e a família sejam ouvidas, e isso muitas vezes basta para resolver tudo. Com o TDAH, o sintoma se transforma em doença e, mais grave ainda, atribuem-lhe causas “neurodesenvolvimentistas”. Essa afirmação não repousa sobre nenhuma base científica, ao passo que provas não faltam das dificuldades causadas por problemas no seio da família ou na escola…

Jerome Kagan, professor de Harvard, declarou em uma entrevista de 2012: “O TDAH não é uma patologia, mas uma invenção. […] Oitenta por cento dos 5,4 milhões de crianças tratadas com Ritalina nos Estados Unidos não apresentam nenhuma anormalidade metabólica”.4 Na França, Patrick Landman mostrou em seu livro Tous hiperactifs? [Todos hiperativos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH não tem nenhuma causa biológica identificável: seus sintomas não são específicos e não apresentam indicadores biológicos. Nenhuma hipótese neurobiológica foi validada. Leon Eisenberg, inventor da sigla “TDAH”, declarou em 2009, sete meses antes de falecer: “O TDAH é o exemplo típico de uma doença inventada. A predisposição genética para o TDAH é totalmente superestimada”.5 Todavia, com a ajuda do lobby, cerca de 11% das crianças com idade entre 4 e 17 anos (6,4 milhões) receberam o diagnóstico de TDAH desde 2011 nos Estados Unidos, segundo os Centros de Prevenção e Controle das Doenças norte-americanos. Segue-se quase sempre uma prescrição de Ritalina (metilfenidato), que contém moléculas consideradas estupefacientes nas classificações francesas. A prescrição dessa anfetamina em grande escala poderia provocar um escândalo sanitário semelhante aos do Mediator e do Levothyrox. Essas substâncias viciam, e não se exclui – possibilidade ainda em discussão – uma correlação entre as crianças que tomaram Ritalina e os adolescentes que se drogam.

As crianças não são poupadas pelos transtornos da sociedade, que lhes impõe o imperativo do sucesso rápido, da competitividade, da obediência a normas que não se aplicam à sua idade. As recalcitrantes são facilmente consideradas hoje “deficitárias”. É, portanto, inquietante ver surgir em um site do Ministério da Educação Nacional da França uma mensagem endereçada aos professores afirmando, sem provas, que o TDAH é uma “doença neurológica” e fornecendo uma receita detalhada para o estabelecimento de diagnósticos prévios. Os “sinais indicativos” propostos poderiam se aplicar a quase todas as crianças. Sempre a mesma mistura de problemas normais e patologia…

A infância na linha de frente

Há tempos, Michel Foucault pôs em evidência a repressão, notadamente pelos Estados e as religiões, desse “mal-estar na cultura” que é a sexualidade. Hoje, a camisa de força de um patriarcado de direito divino está em via de marginalização. Como a repressão vai se organizar daqui por diante, supondo-se que o termo “sexualidade” deva ser entendido em sentido amplo? A indústria farmacêutica é que pretende tomar as rédeas da ciência. A mensagem é clara: “Não vos inquieteis, ó vós que tendes insônias, momentos de desconsolo, excitação exagerada, ideias suicidas! A culpa não é vossa, é de vossos genes, de vossos hormônios; sofreis de um déficit neurodesenvolvimentista, e nossa farmacopeia vai consertar tudo”. Trata-se de fazer crer que tudo se resume a problemas de neurotransmissores e de mecânica, nos quais o humano não entra. Seria necessário esquecer que as mazelas deliciosas e cotidianas das relações entre homens e mulheres, as questões jamais resolvidas de filhos com pais, as relações de forças angustiantes com a hierarquia e o poder deitam raízes nas profundezas da infância.

Por todos os lados, a infância está na linha de frente, o que torna o caso do TDAH ainda mais “perturbador” que os outros. Em todos os tempos e lugares, a criança é a primeira a ser reprimida, espancada, formatada. Quando um professor da velha escola puxava as orelhas de um aluno agitado, isso era – por mais chocante que pareça – quase mais humano do que exigir-lhe um diagnóstico de deficiência. Preservava-se uma relação pessoal, que a pseudociência elimina. Pela primeira vez na história, é em nome de uma pretensa ciência que as crianças são “espancadas”. Todos os anos o Papai Noel, esse mito de múltiplas estratificações (como bem mostrou o etnólogo Claude Lévi-Strauss),6 traz para as crianças presentes a fim de consolá-las. Hoje, a Big Pharma pretende vestir o capuz do Papai Noel. Mas não nos esqueceremos de que, sob a roupa vermelha, esconde-se uma sombra muito parecida com o Açougueiro da Festa de São Nicolau.7

*Gérard Pommier é médico psiquiatra, psicanalista, professor universitário emérito e diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. Autor, principalmente, de Comment les neurosciences démontrent la psychanalyse [Como as neurociências dão suporte à psicanálise], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, révolution sans fin [Feminino, revolução sem fim], Pauvert, Paris, 2016.

1 Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A bíblia americana da saúde mental], Le Monde Diplomatique, dez. 2011.

2 Stefan Zweig, Le Combat avec le démon: Kleist, Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, Hölderlin, Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 2004 (1. ed.: 1925).

3 Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um paciente melancólico a que um psiquiatra, ignorante de tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suicidou. Vi inúmeros casos semelhantes.

4 “What about tutoring instead of pills?” [Que tal monitoramento em vez de pílulas?], Spiegel Online, 2 ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>.

5 “Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergonha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev. 2012.

6 Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël supplicié [Papai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994.

7 Na França, é bastante difundida a lenda de São Nicolau, precursor do Papai Noel. Durante o inverno, três crianças bateram à porta do açougueiro Pierre Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. Porém, assim que elas entraram, ele as matou. Em outra noite, São Nicolau passava pela região e buscou abrigo na mesma casa. Enquanto dormia, ele sonhou com o assassinato das crianças e rezou até que elas ressuscitassem, tornando-se assim protetor das crianças.
Fonte: Le monde diplomatique
Por: Gérard Pommier
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Danone deu orientação nutricional controversa a 300 mil crianças

No espaço escolar acontecem mensagens comerciais que são reforçadas por educadores nos quais as crianças confiam. “Os lácteos podem aportar nutrientes que são importantes, mas nada que nos obrigue a consumir determinadas porções por dia para que ofereça o que a gente precisa a uma nutrição adequada” dan1

Projeto 1,2,3 Saúde! prescreve três porções de queijo, leite ou iogurte ao dia, uma orientação que não é consensual na comunidade científica

         Danone deu orientação nutricional controversa a 300 mil crianças

Um projeto da Danone deu orientações nutricionais controversas a pelo menos 300 mil alunos da rede pública de ensino em várias cidades do país. Apesar da promessa de falar sobre hábitos saudáveis, o 1, 2, 3 Saúde! enfatizava o consumo de lácteos, justamente o carro-chefe da corporação francesa.

O programa consistia de uma peça de teatro e de materiais didáticos distribuídos a professores e alunos, e foi desenvolvido em parceria com secretarias estaduais e municipais de educação entre 2013 e o primeiro semestre do ano passado, quando, sob pressão, a Danone decidiu abortá-lo.

– Lácteos vem de uma palavra muito antiga, lactis, que significa leite – dizia a professora Bete Palavra durante a peça O Fabuloso Mundo das Descobertas.

– Entendi. Lácteos contêm leite – respondia Joãozinho, o personagem principal.

– Isso mesmo! E, se você quer ficar ágil, forte, ter saúde e manter essa curiosidade e imaginação, você precisa de três porções de lácteos ao dia.

O projeto poderia ser considerado controverso se apenas induzisse ao consumo de lácteos. Porém, o 1, 2, 3 Saúde! dava um passo além e prescrevia de maneira categórica a necessidade de consumir três porções desses produtos por dia, sob pena de sofrer problemas de saúde no curto, no médio e no longo prazos. Não existe consenso científico que respalde esse tipo de afirmação, apesar do esforço constante das fabricantes de lácteos em bancar pesquisas favoráveis a seus interesses. Fosse assim, não haveria dietas veganas. E a Ásia, que concentra 60% da população mundial e via de regra tem uma baixíssima ingestão de lácteos, não conseguiria ser ágil, forte e criativa como Joãozinho.

A iniciativa chegou a ser investigada pelo Ministério Público do Distrito Federal a pedido do Instituto Alana. A assessoria de imprensa do MP informou que uma reunião que seria realizada com a empresa em março foi cancelada devido ao fim do programa. Há a possibilidade de arquivamento do inquérito aberto em 2016.

Originalmente, o projeto se chamava 1, 2, 3 Lácteos!, mas, em 2016, adotou o nome que carregou até o encerramento. E somou à lista de parceiros a Tetra Pak, do setor de embalagens, e a Palmolive, do segmento de produtos de higiene. Apesar disso, a ênfase no consumo de leites, queijo e iogurte se manteve como mote.

“Era um projeto sobre um objetivo escolar importante que era ajudar as crianças a fazerem escolhas. As escolhas apareciam na forma de possibilidades de profissões adultas”, contou Lilian Faversani, educadora que coordenou a elaboração do material pedagógico original. Ela relata que à época o trabalho foi balizado por um documento da Organização Mundial de Saúde (OMS) que sugeria o consumo de três porções de lácteos ao dia nos países em desenvolvimento.

“No segundo ano de vida do projeto, a Danone fez uma alteração das ilustrações. Colocaram ilustrações de potinhos de Danone. A Danone nos chamou e pediu que fizéssemos atividades que significassem em algum momento a distribuição de iogurtes na escola. Foi então que eu saí do projeto e pedi que meu nome fosse retirado dos materiais, inclusive. Não concordo em absoluto.”

Questionada sobre essas afirmações, a Danone optou por enviar uma resposta genérica. “A Danone Brasil ressalta que suas ações de comunicação atendem à legislação brasileira vigente e refletem a missão da companhia em levar saúde ao maior número de pessoas. Entre os anos de 2015 e 2016 o programa 1,2,3 e Saúde levou informação e conhecimento sobre a importância de uma boa alimentação de forma lúdica e gratuita às escolas de todo país. A Danone reitera seu compromisso em contribuir para que os brasileiros adotem hábitos de vida e alimentares mais saudáveis.”

A confiança na escola

Conversamos com algumas pessoas que participaram do 1, 2, 3 Saúde! e não temos nenhum motivo para duvidar da boa-fé delas. Pelo contrário, é de esperar que a grande maioria tenha trabalhado com ótimas intenções. E é possível que algumas crianças tenham extraído dessa história ensinamentos que vão além do consumo diário de três porções de lácteos. No entanto, as próprias entrevistas realizadas para esta reportagem mostram como, em se tratando de ambiente escolar, é complexo encontrar a linha que separa publicidade de ação educativa.

“Figura como projeto educativo. Então, é muito mais difícil desenvolver um senso crítico sobre essa ação”, lamenta Ekaterine Karageorgiadis, coordenadora do projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana. “As crianças confiam nos educadores. Estão num espaço de cuidado, de responsabilidade. Então, quando as mensagens comerciais acontecem dentro do espaço escolar, são reforçadas por essas pessoas que estão ali para cuidar das crianças.”

Apesar de a empresa ser a autora da ideia original, a gestão da iniciativa foi repassada à OAK Educação e Meio Ambiente, localizada na zona sul de São Paulo e especializada na captação de recursos via leis de incentivo fiscal. Procurada, a OAK disse que por motivos contratuais está proibida pela Danone de falar sobre o projeto, o que contraria a versão oficial da fabricante de lácteos de que era apenas patrocinadora.

No total, a corporação doou (e recebeu de volta em abatimento de impostos) R$ 1,2 milhão, somados a R$ 400 mil da Tetra PAK e a R$ 120 mil da Palmolive.

Tudo indica que o projeto foi bom para os negócios. Um vídeo de 2015 relatava que 45% dos participantes diziam ter aumentado o consumo de lácteos – 46% declaravam ter aumentado o consumo de vegetais, é bom que se diga. “A gente tinha muita vontade de trabalhar educação alimentar desde a infância porque sabe que é lá que os hábitos são formados”, dizia Maria Prado, gerente de Desenvolvimento de Categoria da Danone.

O projeto abordava do início ao fim supostos danos relacionados a um baixo consumo de lácteos em cada etapa da vida. O eixo central do material didático consistia da apresentação de oito profissões.

O pediatra mostrava que o cálcio dos lácteos é fundamental para um crescimento saudável. O biólogo falava sobre bactérias boas e más. O geriatra alertava que um baixo consumo de cálcio ao longo da vida está associado a osteoporose na terceira idade. A professora contava sobre a etimologia de palavras relacionadas a leite e afins.

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Vamos ver se você sacou a lógica. A nutricionista ensinava sobre… Se você respondeu qualquer coisa diferente de “lácteos”, sugerimos voltar alguns parágrafos na leitura.

É quando chegamos ao sociólogo que as coisas ficam mais interessantes. As crianças deveriam exercer a função do sociólogo, o que incluía entrevistar os pais sobre o consumo de… Beleza. Sem serem informadas ou remuneradas, essas crianças fizeram pesquisa de mercado para a Danone.

O 1, 2, 3 Saúde! tinha ainda alguns cartazes. Um deles falava sobre cuidados gerais com o corpo, o que inclui os ossos: “Produtos lácteos, como queijo, leite e iogurte, contêm nutrientes que ajudam o corpo a deixar os ossos mais fortes e saudáveis.”

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No cartaz abaixo, a situação começa a ficar mais complicada do ponto de vista científico. Primeiro, há uma reinterpretação do Guia Alimentar para a População Brasileira, que recomenda fazer da alimentação in natura a base da dieta e evitar o consumo de ultraprocessados. Curiosamente, os empresários do setor de laticínios foram uma das vozes mais fortes quando o documento-base do Ministério da Saúde foi elaborado, em 2014. De lá para cá, não faltaram tentativas de dar a ele outro significado. O material do 1, 2, 3 Saúde! é um exemplo: “Use alimentos in natura e evite alimentos muito processados.”

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Essa é a lista de ingredientes do Danoninho: “Leite desnatado, açúcar, preparado de morango (água, frutose, polpa de morango, fosfato tricálcico, citrato de cálcio, amido modificado, zinco, vitamina E, ferro, maltodextrina, vitamina D, acidulante ácido cítrico, espessantes goma xantana, carboximetilcelulose e goma carragena, aromatizante, conservador sorbato de potássio e corante natural carmim cochonilha), creme, cálcio, cloreto de cálcio, fermento lácteo, quimosina, estabilizantes goma guar, carboximetilcelulose, goma carregena e goma xantana.” Ele é “muito processado” e deve ser evitado? Na visão da Danone, não.

O mais curioso é que o cartaz propõe um porcionamento por grupo de alimentos, o que vai contra a filosofia do Guia. O material do Ministério da Saúde oferece uma linha de raciocínio sobre como se alimentar e evita a abordagem por nutrientes e grupos de alimentos. Afinal, se você seguir a recomendação de fazer de alimentos in natura a base de sua dieta, não precisa se preocupar em ser um expert em nutrição.

O porcionamento, por outro lado, é difícil de executar no dia a dia. O que é uma porção de carne? Uma porção de fruta é uma fatia de melancia, uma maçã ou uma manga? E pão francês, eu devo comer inteiro ou a metade?

Vamos pegar a recomendação do 1, 2, 3 Saúde! de ingerir seis porções diárias de “batata, arroz, massas, pão, mandioca”. Há produtos de qualidade totalmente diferente aí no meio. Eu posso entender que estou autorizado a comer seis porções de macarrão instantâneo e pão de forma industrializado. Ou que devo ficar apenas na mandioca.

O material fala também em três porções de queijo, leite ou iogurte. E deixa tudo mais controverso com um tabuleiro que deve ser preenchido diariamente pelos estudantes, seguindo fielmente as recomendações de porcionamento. “SE SOBRAREM ESPAÇOS VAZIOS NO TABULEIRO NO FIM DO DIA? Significa que ficou faltando consumir algum grupo de alimento ou nutriente. Não se preocupe se isso acontecer! Basta prestar atenção para que não aconteça nos demais dias da semana.”

Levada ao pé da letra, essa orientação induz crianças que consomem mais de três porções diárias de frutas ou legumes a reduzirem o consumo. Na via contrária, incentiva o consumo de produtos que não são imprescindíveis e que podem até fazer mal.

“Os lácteos podem aportar nutrientes que são importantes, mas nada que nos obrigue a consumir determinadas porções por dia para que ofereça o que a gente precisa a uma nutrição adequada”, diz Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas). Ele considera que os esforços publicitários desse segmento econômico transformaram o leite num superalimento e transmitiram a ideia de que é a única fonte de cálcio possível – no Joio, não fazemos nutricionismo, de modo que o melhor é procurar em outras páginas informações sobre boas fontes de cálcio.

“Lácteos são o leite? Ou um produto que contém leite, açúcar, espessantes, corantes e outras coisas que vão junto?”, questiona. “Pensando que a indústria de lácteos tomou essa vertente de usar cada vez menos alimentos e cada vez mais cosméticos, para reduzir o custo de produção, isso reforça a necessidade de pensar lácteos como um alimento da forma como foi desconfigurado, como uma fonte que desvirtua a alimentação e a recomendação de uma alimentação saudável.”

A Opas definiu em 2016 um perfil de nutrientes que permite entender quando um produto tem excesso de sal, gordura ou açúcar. O Danoninho, carro-chefe da Danone, receberia dois selinhos: alto em açúcar e em gorduras saturadas. O investimento em publicidade foi tão bem-sucedido que é, até hoje, considerado um item fundamental para um crescimento saudável. Em um estudo feito em 2015, mães argentinas citam o Danoninho como obrigatório na dieta dos filhos e declaram a ideia de que estão fazendo um bem ao comprá-lo.

O Danette, também muito consumido entre os pequenos, tem excesso de açúcar e de gorduras saturadas, segundo os critérios da Opas.

A reputação do leite como fonte de cálcio e o papel desse cálcio como imprescindível para evitar problemas ósseos foram grandes conquistas da indústria leiteira, obtida com fartos investimentos em pesquisas científicas. Tentamos encontrar artigos que revisem as evidências existentes, mas o conflito de interesses é tão marcado nessa área que fica difícil saber se o estudo é ou não confiável.

Preferimos ficar, então, com um documento da Organização Mundial de Saúde chamado “Exigências de vitaminas e minerais na nutrição humana”. O primeiro porém em relação ao cálcio é de que as recomendações variam enormemente de acordo com uma grande gama de fatores, de modo que é um erro transpor as conclusões de um país para outro. As pesquisas estão mais avançadas nas nações do Norte, logo, não há um padrão pré-definido de consumo para populações do Sul – o que inclui o Brasil.

O documento alerta que há incertezas sobre a correlação entre consumo de cálcio e osteoporose. “Ainda que se precise enfatizar que uma deficiência de cálcio e um balanço negativo de cálcio deve levar cedo ou tarde a osteoporose, isso não significa que toda osteoporose pode ser atribuída à deficiência de cálcio. Pelo contrário, pode haver mais osteoporose no mundo por outras causas.”

Limites

O projeto da Danone é emblemático sobre os limites da presença de empresas no ambiente escolar. A corporação alega que se trata de uma iniciativa “unbranded”, ou seja, que não há exposição da marca.

“O que me chama mais atenção é o resultado”, diz Ekaterine Karageorgiadis, do Instituto Alana. “Analisei mais de três mil fotos, desenhos, redações. É claro que existe uma mensagem de marca. Se não, a criança não escreveria uma redação sobre o papel da Danone. A criança não desenharia um potinho vermelho e escreveria que para ser saudável é preciso consumir lácteos três vezes ao dia. Não tiraria uma foto que diz Danone, Danone, Danone. Não teria uma premiação com produtos da empresa sobre uma mesa.”

Conversamos com gestores públicos municipais envolvidos no 1, 2, 3 Saúde! A história é conhecida. Primeiro, as redes públicas carecem de recursos. Segundo, de projetos. Um material didático bonito, casado a uma peça de teatro bem produzida, falando sobre hábitos saudáveis, só pode ter caído do céu. É uma chance de romper com a rotina e de falar sobre assuntos que muitas vezes extrapolam os conhecimentos dos professores.

“Era um material muito bacana sobre saúde e alimentos. Material muito bom mesmo. Falando de uma questão muito importante”, contou Mario Augusto Marques, diretor de Projetos da Secretaria de Educação de Poços de Caldas, em Minas Gerais, cidade que abriga uma unidade da Danone. “Foi um teatro de alto nível. Atores excelentes. Isso me chamou bastante atenção. Foi uma parceria de sucesso total.”

Soma-se a esse cenário o oferecimento de um prêmio às escolas e às crianças que desenvolvessem os melhores trabalhos. Não sobre vida saudável, mas a respeito da importância dos lácteos. Há uma série de vídeos no YouTube nos quais se pode conferir os resultados auferidos pelo projeto.

Essas iniciativas surfam também sobre um imaginário de desinteresse e bondade inerente do setor privado. É uma das linhas de raciocínio da resposta que a Danone enviou ao MP.

O documento adota um tom forte contra o Alana, criticado por uma atuação “deplorável” com base em acusações “levianas” e em “desvarios”, num “tresloucado pedido”. A empresa tenta se apegar à ideia de que tem um portfólio saudável, o que, claro, coloca o Danoninho como um produto desenvolvido para combater “carências nutricionais”.

“Ao contrário do Alana, a Danone não acredita que seja recomendável que as crianças fiquem absolutamente isoladas e alheias à publicidade até os doze anos de idade.”

É um argumento que os integrantes do projeto Criança e Consumo ouvem com frequência. “A gente justamente não quer as crianças dentro da bolha do consumismo. A gente quer que as crianças se desenvolvam como crianças e tenham acesso a muitas informações preparadas para elas”, responde Ekaterine.

A Danone tem um compromisso voluntário sobre publicidade voltada a crianças. A empresa diz não praticar a distribuição de produtos em escolas, “a menos que seja solicitado pela instituição de ensino ou para fins educativos e esportivos”. Faz parte da proposta não motivar “hábitos pouco saudáveis” e não minar a autoridade dos pais. A corporação se autoriza ainda a fazer publicidade de produtos para crianças de três a doze anos, desde que sejam considerados por ela como saudáveis – é o caso do Danoninho, com 6,1 gramas de açúcar por potinho.

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Recentemente, o Procon do Paraná impôs uma multa de R$ 108 mil à Danone por publicidade direcionada a crianças, num caso aberto em 2015 também a pedido do Alana.

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No documento em que se defende das acusações do instituto, a Danone diz que a constatação sobre a deficiência de lácteos nas escolas brasileiras surgiu em um estudo. O Nutri-Brasil Infância foi financiado pela própria corporação. E coordenado pelo pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, integrante do International Life Sciences Institute (ILSI), organização bancada pelas empresas de ultraprocessados. Basicamente, o ILSI coordena trabalhos científicos que ajudem as financiadoras, o que tem resultado em contestações cada vez maiores.

A parceria entre Fisberg e Danone vem desde pelo menos os anos 1990, quando uma iniciativa em escolas públicas incentivou o consumo de Danoninho sob o argumento de reduzir a prevalência de anemia.

Em agosto passado, o médico apresentou os desdobramentos do Nutri-Brasil em uma sessão patrocinada pela Danone no Congresso da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban). Profissionais de saúde foram encorajados a aumentar o consumo de lácteos das crianças.

A Sban, por sua vez, era parceira do 1, 2, 3 Saúde! “Sabe-se que é na infância que se estabelecem os hábitos alimentares. A escola, por abarcar o contexto familiar, comunitário e social é o ambiente ideal para consolidar os conceitos da prática alimentar adequada. Por isso, temos muito orgulho em apoiar o projeto 1,2,3 e Lácteos!”, disse Olga Amâncio, presidente da Sban, num material de divulgação da iniciativa.

Todas as cadeiras do Congresso da Sban estavam estampadas com o logo do Viva Lácteos, associação que reúne os fabricantes do setor – Danone incluída. A Sban tem ainda emitido documentos e publicado vídeos em defesa de iogurte, queijo e leite, produtos com as vendas afetadas pelo surgimento de dietas sem lactose.

Contudo, se depender de Joãozinho, o futuro do leite está garantido.

Fonte: O joio e o trigo
Por: João Peres
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EUA e sua indústria de alimentos querem nos impedir de colocar sinais de advertência nos rótulos de alimentos ultraprocessados com altos teores de sal, gordura e açúcar. E isto dificulta a luta contra a obesidade.  alto

   EUA começam a frear políticas da América Latina contra a obesidade

Governo Trump quer impor cláusula que evite a adoção de advertências em rótulos de alimentos com altos níveis de sal, gordura e açúcar, atingindo também os interesses do Canadá

– Eu acredito… que eu diria, deputado, que para nós…há mais nuances do que isso – titubeou o embaixador Robert Lighthizer, representante de Comércio dos Estados Unidos. Durante os três ou quatro minutos em que foi interpelado, ele raramente levantou a cabeça, gaguejou várias vezes, coçou a cabeça.

– Apenas responda. Essa medida está sendo levada adiante pelo governo Estados Unidos? – interrompeu Lloyd Doggett, do Partido Democrata do Texas, durante uma audiência na última semana na Câmara de Representantes.

– A ideia de colocar limites na habilidade de países de colocar advertências ou símbolos nos produtos… é algo com que estamos preocupados.

– Então é correto que essa medida está sendo levada adiante por nossos negociadores?

– Eu não… quero dizer… não posso comentar em termos precisos. Eu não tenho o artigo frente a mim, mas o tema me preocupa. O outro lado… Seu ponto de vista é excelente e eu concordo. Por outro lado, há exemplos de vários países que estão usando essa brecha basicamente para criar um ambiente protecionista – finalizou Lighthizer.

Demorou, mas finalmente se conseguiu avistar a unha afiada da águia sobrevoando as políticas da América Latina que tentam colocar um freio na epidemia de obesidade. Agora, é esperar pelo ataque.

Uma coalizão de ONGs mexicanas alertou sobre uma cláusula que os Estados Unidos tentam impor na renegociação do tratado de livre comércio com México e Canadá, o Nafta. Uma denúncia comprovada por documentos. Não satisfeito em desmontar as políticas nacionais que buscam uma saída para os problemas causados pela obesidade, o governo Donald Trump quer agora garantir que os vizinhos sejam impedidos de colocar sinais de advertência nos rótulos de alimentos ultraprocessados com altos teores de sal, gordura e açúcar.

Os países latino-americanos estão à frente de uma agenda criativa que tenta desencorajar o consumo de produtos associados à obesidade e às doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, câncer), uma das maiores causas de mortes no século 21.

O México adotou um imposto especial sobre o açúcar, medida que cruzou a fronteira e vem sendo adotada por estados e cidades dos Estados Unidos. O Chile colocou, em 2016, octógonos pretos nos rótulos que alertam os cidadãos sobre o excesso de calorias, sal, gordura e açúcar. O Peru e o Uruguai têm tudo para serem os próximos na lista. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda avalia qual modelo adotar, e o sistema chileno é uma das possibilidades.

O sistema do país sul-americano é inédito tanto por trabalhar com advertências, numa expressão clara do que deve ser evitado, como por ser de adoção obrigatória pelas empresas. De lá para cá, a indústria de alimentos mundo afora trabalha para desacreditar os sinais de alerta.

No México, deu certo, e o governo acabou adotando um sistema chamado GDA, que é o sonho dos fabricantes: todas as evidências científicas mostram que as pessoas não entendem de que se trata. Nos últimos meses, setores da sociedade têm conseguido aumentar a pressão para que a medida seja revista e que se adote o modelo chileno.

Mas é aí que o governo Trump quer matar dois coelhos numa paulada só. A tentativa de usar o Nafta para proibir a adoção de advertências mira também ao vizinho do Norte. O Ministério da Saúde do Canadá começou a discussão alguns passos adiante: partiu do pressuposto de que o modelo chileno é o que melhor funciona. Recentemente foi aberta uma consulta pública, e a expectativa é de que o design do símbolo de alerta seja definido ainda este ano. Se os emissários de Trump deixarem.

Foi o sinal mais forte de interferência direta do governo dos Estados Unidos na política regulatória contra a obesidade. “Espero que você esteja firme na proteção dos interesses dos investidores americanos, mas não de um mecanismo que os permita invadir a soberania, como você corretamente notou, e subverter e minar a saúde”, lamentou Lloyd Doggett na conversa com o representante de Comércio.

Anteriormente, havia sinais de interferência das corporações dos Estados Unidos no Uruguai e no Chile. A Coca-Cola avisou a Montevidéu que o levará à Organização Mundial de Comércio (OMC) caso siga adiante na intenção de copiar o modelo de Santiago. A indústria de refrigerantes tampouco poupa esforços para desacreditar a aplicação de impostos especiais.

Julios Salazar, assessor jurídico da ONG mexicana El Poder del Consumidor, que denunciou as negociações via Nafta, alertou que os esforços dos Estados Unidos violam os tratados internacionais. “Os acordos comerciais reconhecem a supremacia dos direitos humanos e da saúde sobre os interesses e os direitos comerciais”, afirmou, em comunicado divulgado pela organização.

A alegação do governo Trump de que os sinais de advertência têm sido usados de forma protecionista não resiste a um exame da realidade comercial. O Chile não tem grandes fabricantes capazes de tirar proveito de uma mudança, a exemplo da maior parte dos países do mundo, que simplesmente comem o que é fabricado por corporações dos Estados Unidos e da Europa.

A associação que representa os fabricantes de ultraprocessados nos EUA afirmou trabalhar por um sistema de rotulagem que não seja “enganoso”. Ao jornal The New York Times, a Grocery Manufacturers Association afirmou querer uma decisão que esteja “fundamentada na ciência, minimize barreiras desnecessárias ao comércio e beneficie os consumidores nos três países”.

Se os países fossem rotulados com os octógonos chilenos, os Estados Unidos receberiam a inscrição “Alto em lobby”.

Fonte: O Joio e o Trigo
Por: João Peres
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Pessoas mais escolarizadas discriminam as menos escolarizadas

As pessoas mais educadas discriminam as menos educadas. Pierre Bourdieu chamou isso de racismo da inteligência (…) da classe dominante e apontou para o fato de que o sistema de educação foi inventado pelas classes dominantes para manter o status quo. Os mais educados não são “naturalmente mais tolerantes” do que os menos educados.

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Sistema educacional foi inventado pela classe dominante para justificar sua posição na sociedade, disse o sociólogo francês Pierre Bourdieu

O que é o ‘educacionismo’, preconceito muitas vezes ignorado contra pessoas menos escolarizadas

Na primeira vez que pisou em um campus universitário, Lance Fusarelli se sentiu cercado de pessoas que pareciam saber mais do que ele – sobre a sociedade, gracejos sociais e “tudo que era diferente”.

Ele atribui essas diferenças à sua bagagem cultural. Fusarelli não cresceu na pobreza, mas em uma cidade de operários em uma pequena área rural em Avella, na Pensilvânia (EUA). Foi o primeiro de sua família a chegar à universidade – sua mãe engravidou e teve que deixar a escola, enquanto seu pai foi trabalhar em uma mina de carvão ainda na adolescência. Viveu em um ambiente onde poucos continuaram estudando além do ensino médio.

Funcionou para ele, que agora é altamente escolarizado – atua como professor e diretor de programas de pós-graduação na Universidade Estadual da Carolina do Norte. Às vezes se lembra de como se sentia naqueles dias, quando um colega inocentemente corrigia sua gramática imperfeita.

“Ele não estava sendo cruel, éramos bons amigos, ele apenas cresceu em um ambiente diferente”, diz. “Às vezes eu não vou falar como um acadêmico. Eu tendo a usar uma linguagem mais popular.”

Por mais que Fusarelli tenha galgado os degraus da academia apesar de seu contexto, suas experiências mostram a divisão social que pode existir na educação. Aqueles menos educados devido a seu contexto de desvantagem eles encaram um preconceito sutil, mas disseminado.

Um novo relatório do Jornal de Psicologia Social Experimental cunhou o termo “educacionismo” e pela primeira vez encontrou evidências claras do que o professor e muitos outros suspeitam há tempos: pessoas educadas têm preconceitos implícitos em relação às menos educadas.

E isso tem consequências ruins e não intencionais que muitas vezes aumentam a diferença entre ricos e pobres.

É um problema de “nível de sociedade” que cria uma divisão significativa, diz Toon Kuppens, da Universidade de Groningen, na Holanda, parte do time que criou o termo. “Precisamos falar a respeito.”est2Há um preconceito sutil em relação aos menos educados.  Alamy

‘Racismo da inteligência’

A ideia de que as pessoas julgam as menos escolarizadas não é nova.

Nos anos 1980, o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou isso de “racismo da inteligência (…) da classe dominante”, que serve para justificar sua posição na sociedade.

Bourdieu apontou para o fato de que o sistema de educação foi inventado pelas classes dominantes com conhecimento da classe média e testes com questões como método de avaliação.

A educação também parece dividir a sociedade de muitas maneiras.

Níveis mais altos de escolaridade estão ligados a uma renda maior, mais riqueza e bem-estar e níveis mais elevados de empregabilidade.

O status educacional também revela divisões políticas. Aqueles com níveis mais baixos de qualificação tinham uma tendência maior de votar pela saída do Reino Unido da União Europeia, por exemplo. Um relatório concluiu que o nível de educação teve um papel mais importante para o Brexit do que idade, gênero ou renda.

Apesar desse antigo entendimento, a existência de um preconceito educacional tão forte raramente é discutido diretamente, diz Kuppens, apesar de haver muitos estudos sobre preconceitos de gênero, etnia e idade.

Para lidar com esse problema, Kuppens e seus colegas criaram vários experimentos para entender a atitude das pessoas em relação a educação.

Eles perguntaram aos participantes diretamente quão positiva e cordialmente eles se sentiam em relação aos outros, mas também foram questionados indiretamente ao descrever os empregos de várias pessoas assim como sua bagagem educacional, que os participantes tinham que avaliar positiva ou negativamente.

est3Falta de recursos é ‘psicologicamente restritiva’.  Alamy

Os resultados foram evidentes – pessoas com níveis altos de educação foram mais apreciadas, tanto por pessoas com baixo e alto nível de escolaridade. E os participantes mais educados não eram “naturalmente mais tolerantes” do que os menos educados, como se acredita comumente, diz Kuppens.

Além disso, ele disse que uma das razões da existência desse preconceito é que o nível de educação é de alguma forma percebido como algo que as pessoas podem controlar. “Nós estamos avaliando as pessoas – dando a elas atitudes positivas e negativas – apesar de sabermos que na verdade elas não podem ser culpadas pelo seu baixo nível de escolaridade.”

Psicologia da pobreza

A razão pela qual as pessoas não podem ser culpadas por níveis baixos de educação é sua ligação com a pobreza.

Pessoas que vêm de contextos mais pobres rapidamente ficam atrás de seus colegas na escola e poucos adolescentes menos privilegiados chegam à universidade.

Está ficando claro agora que há motivos complexos para isso – particularmente que a pobreza afeta o processo diário de tomada de decisões de maneiras anteriormente não previstas.

Jennifer Sheehy-Skeffington, da universidade britânica London School of Economics, diz que uma falta de recursos é “psicologicamente constritiva”. Há também uma sensação de estigma e vergonha que gera baixa autoestima, um padrão que ela diz ser mais provável em sociedades com ideologias meritocráticas, nas quais a conquista de um indivíduo é vista como sendo baseada principalmente em inteligência e trabalho duro.

A pobreza afeta até o processo de tomada de decisões. Em um estudo revelador, Sheehy-Skeffington dividiu aleatoriamente participantes de classe média em diferentes grupos – alguns foram informados de que estavam apresentando resultados insatisfatórios na sociedade, enquanto outros ouviram que eram bem-sucedidos. Os que ouviram que eram “pessoas de baixo status” tomaram decisões financeiras piores, assim como tiraram notas mais baixas em tarefas cognitivas básicas.

“Isso significa que as habilidades cognitivas das quais você precisa para tomar boas decisões financeiras não estão disponíveis quando você está enfrentando o estresse de perceber que seu desempenho é pior que o dos outros”, diz ela.

Não é que os processos mentais sejam interrompidos, mas que as pessoas estavam mais focadas na ameaça atual de seu status do que em se concentrar nas tarefas dadas.

est4Poucas pessoas de contextos menos privilegiados entram em universidades como as de Oxford e Cambridge.  Alamy

Controle do futuro

Em sua análise sobre a psicologia da pobreza, Sheehy-Skeffington descobriu que as pessoas com baixa renda têm um senso menor de controle em relação à vida futura.

“Se você acha que você não pode controlar seu futuro, faz sentido investir a quantidade limitada de energia ou dinheiro que você tem para melhorar sua situação presente”, diz.

Trabalhos como o dela revelam um ciclo que é difícil de quebrar: performances em tarefas mentais são prejudicadas quando há restrições financeiras. E uma vez que essas restrições existem, a habilidade de planejar o futuro e tomar boas decisões também é negativamente afetada.

Isso claramente afeta o sistema educacional. Os que vivem no presente têm menos incentivo de ir bem na escola ou se planejar para continuar os estudos.

Uma equipe de pesquisadores vai ainda mais além, no entanto, argumentando que o sistema educacional é “motivado a manter o status quo” – no qual as crianças de pais altamente educados vão para a universidade enquanto crianças com menos contato com a educação fazem treinamentos profissionais ou viram jovens aprendizes.

Isso foi sublinhado em um estudo de 2017 feito pelo psicólogo social Fabrizio Butera, da Universidade de Lausanne, na Suíça. Sua equipe apontou que os “examinadores” davam pontuações mais baixas quando eram informados de que os alunos eram de um contexto menos privilegiado.

“É como se eles achassem que uma criança de um contexto mais baixo não devesse estar naquele caminho e, portanto, eles de fato dificultam suas perspectivas em termos de continuar os estudos”, diz Butera. “Perpetuar o status quo é uma forma de manter o privilégio que essas classes têm.”

E até mesmo quando pessoas de classes mais baixas chegam à educação superior, elas geralmente tendem a “descartar as partes originais de sua identidade para se tornar flexíveis socialmente”, diz Erica Southgate, da Universidade de Newcastle, na Austrália.

Ela estudou os estigmas enfrentados por pessoas que são as primeiras de sua família a chegar à educação superior. Descobriu que em áreas como medicina há uma suposição predominante dos colegas de que todos vêm de um contexto social parecido.

“Não era tanto sobre estigma, mas sobre os males escondidos das classes sociais que continuavam a aparecer – as pessoas tinham que ficar se explicando.”

est5Crianças de famílias mais pobres geralmente vão pior na escola.  Alamy

Notas, notas e notas

Então o que poderia ajudar a acabar com a divisão na educação? Uma ideia é que diferentes tipos de teste de pontuação poderiam ajudar.

Em vários estudos, a equipe de Butera apontou que dar às crianças notas em testes pode na verdade reduzir a motivação e a performance em raciocínio e tomada de decisões. Mas se não há notas, cai a competição social, o que sabemos que geralmente afeta a performance negativamente, como revelou o estudo de Sheehy-Skeffington.

Se um feedback detalhado sobre como melhorar é dado em vez de simples notas, isso ajuda a “focar na avaliação como uma ferramenta para a educação”, em vez de uma simples avaliação para seleção, diz Butera. Em outras palavras, as crianças aprendem a aprofundar seu conhecimento, em vez de aprender a ir bem em testes.

“Nosso time mostrou que uma solução viável é criar um ambiente em sala de aula no qual a avaliação é parte do processo de aprendizagem”, acrescenta. “Isso parece reduzir desigualdades sociais de classe e gênero e promover uma cultura de solidariedade e cooperação.”

Algumas escolas alternativas dão menos ênfases às provas, como os colégios que seguem os métodos Montessori, Steiner e Freinet, enquanto na Finlândia não há testes padronizados nas escolas primárias.

Mas esses exemplos são a minoria – e não agradam a todos. Muitos pais querem ver notas e, sem elas, pode ser difícil saber como as crianças estão indo.

“Aqui na Suíça eles aboliram as notas em um lugar, mas houve um retorno devido sobretudo a pais que de repente não conseguiam saber como suas crianças estavam indo na escola”, diz Butera.

Para Fusarelli, o mais importante para ambos pais e professores é esperar o melhor das crianças quando pequenas para reforçar a ideia de que “eles podem fazer isso e serem bem-sucedidos”. “Se você tem baixas expectativas, as crianças vão adotar esse nível de expectativas”, diz ele.

Um estudo até apontou que estudantes de baixa renda vão pior quando professores esperam que eles irão mal em matemática, leitura e vocabulário. “É por isso que dizemos a estudantes de baixa renda para ‘confiar em sua habilidade e acreditar que você pertence a este lugar’.”

É claro que preconceitos no sistema educacional não sumirão da noite para o dia. O pior é que a maioria de nós não perceberá que esses preconceitos existem. A atitude meritocrática de que os que trabalham duro vão sair bem-sucedidos ainda é generalizada, apesar das evidências mostrarem que há muitos outros fatores que estão fora do controle da pessoa que podem atrapalhar seu potencial.

E, infelizmente, são os mais educados, e que deviam ser sensíveis à discriminação, que podem se beneficiar – muitas vezes sem saber – da desigualdade que eles ajudaram a criar.

Leia a versão original desta matéria (em inglês) no site da BBC Future

Fonte: BBC Brasil
Por: Melissa Hogenboom
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O aborto e a armadilha para mulheres

Site oferece ajuda para mulheres grávidas que não desejam ter o filho sem esclarecer que o objetivo é impedi-las de abortar; domínio está registrado em nome de padre ligado ao Opus Dei e ao Centro de Ajuda à Mulher (CAM)

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           Armadilha para mulheres 

Fonte: apublica.org
Por: Andrea DiP

“Não posso ter um bebê!!!” Essa foi a mensagem de S., 27 anos, que iniciou a troca de mensagens com um site chamado “Gravidez Indesejada”, que acidentalmente foi parar na caixa de entrada de um jornalista da Pública por causa de um e-mail homônimo. Na resposta, que constava no mesmo e-mail, uma pessoa dizia que, para ajudar a moça, precisaria de seus dados pessoais e gestacionais. O nome do site, tão direto, e seu forte apelo chamaram atenção: o aborto é crime no Brasil, a não ser quando há risco de morte para a gestante, quando a gravidez resulta de estupro ou quando o feto é anencéfalo.

Diagramada em tons de rosa, com fotografias de bancos de imagens, a página contém mensagens do tipo: “Não perca mais tempo, fazer sua própria escolha em uma situação difícil é um direito seu!”. E ainda: “Não corra riscos desnecessários: temos 20 anos de experiência em ajudar as mulheres com uma gravidez indesejada […]. Ajudamos a resolver rapidamente e de forma segura os seus problemas; queremos lembrá-la de que neste momento cada minuto conta muito”. Oferece tratamento personalizado e sigiloso, gratuito, responde a dúvidas sobre o uso de medicamentos abortivos, especialmente o Cytotec – veja aqui a checagem dessas afirmações feita pelo Truco junto a especialistas –, e diz pertencer a uma tal Associação Mulher: “Somos a Associação Mulher, entidade sem fins lucrativos, com sede em diversas cidades do Brasil e do exterior. Ajudamos mulheres com gravidez indesejada, oferecendo atendimento personalizado em um momento difícil que possam estar vivendo”. Não há no site um CNPJ vinculado ou mais informações sobre essa organização. No Google também não é possível encontrar nada mais a respeito dela ou do trabalho que realiza. Mas uma busca ao domínio do site revela o nome de um padre: Hélio Tadeu Luciano de Oliveira. E um e-mail: cambrasildirecaonacional@gmail.com. Com essas primeiras informações em mãos e farejando uma armadilha para as mulheres grávidas – já que não se dizia nada sobre o tipo de ajuda que seria oferecido –, começamos a investigação e marcamos atendimento presencial através do telefone fornecido pelo site. Por eu ter o nome facilmente relacionado às pautas de defesa dos direitos das mulheres, optamos por chamar outra repórter da Pública para a visita. Eu iria como sua acompanhante. Por telefone, após ter insistido em obter todos os seus dados, uma mulher marcou a data e pediu seu telefone para que apenas um dia antes da “consulta” passasse o endereço. A repórter deu seu nome verdadeiro durante as duas visitas que faríamos, e eu, como sua acompanhante, também.

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Na aba “quem somos” está escrito que a associação ajuda mulheres com gravidez indesejada

O padre

Hélio Tadeu Luciano de Oliveira é um padre militante pró-vida que, segundo o site do Convívio Emaús (“convívio é o nome dado a uma atividade de formação organizada pelo Opus Dei que abrange um leque variado de formatos e finalidades), se formou em odontologia e teve sua vocação despertada ainda na faculdade. Fez parte do Movimento Jovens de Emaús em Florianópolis (SC) e, em 2004, foi estudar filosofia e teologia na Espanha, com bolsa integral, no Seminário Internacional de Bidasoa e na Universidade de Navarra, ambos confiados à prelazia do Opus Dei. Logo recebeu a sua ordenação diaconal na Paróquia San Nicolás, em Pamplona, Espanha, e depois retornou à Europa para continuar o doutorado em bioética em Roma. Em sua página pública no Facebook, é possível achar posts contra a “ideologia de gênero”, dezenas de mensagens e imagens contra o aborto (inclusive em casos de estupro) e até fotos de um dia de produção – feita por jovens de uma paróquia de Florianópolis – de fetos de borracha (frequentemente utilizados em manifestações pró-vida ou arremessados contra manifestantes pró-descriminalização do aborto). Também segundo essa entrevista de 2013, ele foi da arquidiocese de Florianópolis e, a pedido do então arcebispo da região, dom Murilo Krieger, empenhou-se nos estudos sobre bioética. É difícil dizer mais sobre o padre Hélio porque, após insistentes pedidos de entrevista por e-mail sem resposta e uma ligação à Arquidiocese de Florianópolis solicitando outro contato, fui informada por um funcionário de que esse era um projeto sigiloso e por isso ele ou outra pessoa da Igreja não falariam a respeito. Na página do Facebook, é possível constatar também seu envolvimento com a Associação Mulher, pois diversos de seus posts e vídeos pedem doações em dinheiro para ajudar a salvar “milhões de crianças do aborto, a sociedade, as mulheres”. Sua ligação com o CAM (aquele cujo e-mail constava no domínio do site do qual falaremos adiante) também aparece em sua página em posts como: “Hoje celebramos a São Josemaría Escrivá de Balaguer, o Fundador do Opus Dei. Recebi hoje muitas graças especiais e estou convencido de que foi pela intercessão desse santo sacerdote. Dentre essas graças está a reabertura do CAM Florianópolis e o crescimento na missão e no amor – quase palpável – de algumas pessoas amigas que confiam cada vez mais em Deus. São Josemaría – rogai por nós!”. Esse site mostra-o ainda como sacerdote da Rede Latino-Americana de CAMs e diz que ele esteve nos últimos encontros representando o Brasil.

apm2O padre Hélio Luciano utiliza o Facebook para pedir doações
A visita

Quando, no dia anterior, ligaram para nossa repórter com o endereço da “consulta”, não sabíamos muito bem o que nos aguardava. Preparamos os gravadores e fomos ao local indicado, onde uma feira livre estava sendo desmontada, tomando ruas e calçadas. Nós nos confundimos com a numeração e, enquanto procurávamos – sem dizer o que procurávamos –, fomos abordadas por um feirante que apontou uma casa: “Vocês vão ali, ó”. Caminhamos alguns metros e, surpresas, confirmamos a informação. Havia um número de ferro pregado à parede e outro escrito em uma placa posta ao lado. Tocamos a campainha e uma mulher de cerca de 30 anos abriu a porta. Perguntou quem seria atendida, e eu pedi para acompanhar o procedimento da minha amiga. Em uma rápida passada de olhos pela sala principal, não reparei nas fotos de papas, bispos e santos nas paredes. Minha colega também não. Apenas quando estávamos indo embora as notamos. Imagino que mulheres e meninas que entram na casa desesperadas todos os dias também não devam notar de imediato.

Em uma pequena sala, a voluntária que chamarei de Maria* pega uma prancheta e começa a fazer perguntas para a repórter. Idade gestacional, endereço de sua casa, número de seu documento de identidade, telefone. Ela responde que não se sente à vontade para dar seus dados sem saber que tipo de ajuda receberia ali. Maria diz que aquela ficha era para continuar o tratamento depois. “A gente, que é voluntária, atende as meninas que querem saber mais sobre aborto. Hoje a gente vai conversar sobre o aborto, se você sabe os procedimentos, por que você quer abortar, os riscos que você corre, tudo isso”. Nesse momento eu insisto, no papel da amiga chata, sobre que tipo de ajuda eles oferecem ali, já que não é uma informação clara no site. Após alguma enrolação, ela acaba dizendo que ali eles são “pela vida” e que ela seria informada de todos os riscos que corre ao abortar e que o aborto “é um caminho sem volta”. “Todo mundo acha que aborto é fácil, vai tomando Cytotec, que não tem consequência. Tem consequência gravíssima. A televisão não divulga a mortalidade de aborto. Agora deve estar morrendo menina. A gente recebe toda vez informações sobre mortes de meninas. Morte nessas clínicas de jogarem o corpo fora, as que fazem e voltam para tratar com psicólogos porque têm problemas psicológicos…” Interrompo mais uma vez e pergunto o que era ali e se estava ligado à Igreja. Ela diz que se tratava de uma comunidade em favor da vida que não abraça nenhuma bandeira. Eu insisto e pergunto se é uma ONG, uma clínica, uma igreja. Ela responde que é voluntária e a responsável é uma psicóloga e seu marido, que atendem e dão palestras. A voluntária diz à minha colega que ela pode doar o bebê, que pode, depois do parto, nem olhar para a cara dele, que a assistente social leva embora. “Um bebê recém-nascido com as suas características, branquinho com olho claro, acabou. Recém-nascido tá cheio de pai e mãe querendo.” O discurso de Maria segue truncado em uma mistura de terrorismo psicológico – “você pode morrer”; “podem furar seu útero”; “tem médico que dá tapa na cara”; “jogam seu corpo em qualquer lugar”; “pode pegar infecção, nada é esterilizado”; “eles te mostram o feto morto”; “você pode ser presa”; “dá hemorragia”; “sua consciência vai cobrar” – com histórias muito piores que a dela, em que abortos não foram realizados por sua intervenção, incluindo uma menina de 11 anos estuprada pelo primo. “Mas ela tinha direito ao aborto legal”, provoco. “Mas a mãe ficou com medo por causa do corpo dela, de não aguentar.” E diz que a menina, “coitadinha”, não está entendendo nada e ainda está sendo atendida pelo psicólogo da comunidade. Conta que muitas meninas chegam lá com o dinheiro na mão, achando que vão abortar, e, quando descobrem que não, querem quebrar tudo e saem furiosas. “Vocês atendem muitas mulheres?”, pergunto. “Muitas, três ou quatro por dia, de socialite a garota de programa. Cada caso que você pensa: ‘Meu Deus, o que eu vou falar”. Minha colega diz que vai pensar e que quer conhecer o psicólogo. Maria diz que vai ligar para marcar a sessão com o dr. Luiz. Em sua prancheta, mais uma vez a sigla “CAM”.

apm3Uma busca ao domínio do site revela o nome do padre Hélio Tadeu Luciano de Oliveira como responsável

O CAM

Em 1989, Jorge Serrano Limón, presidente do Comité Nacional Provida, inspirado por um trabalho que já era desenvolvido nos Estados Unidos, abriu o primeiro CAM na Cidade do México, com a missão de impedir mulheres de abortar. Para atrair as “clientes”, explica o jornalista mexicano Témoris Grecko, autor do livro El vocero de dios, Jorge Serrano Limón y la cruzada para dominar tu sexo, tu vida y tu país (“O porta-voz de Deus. Jorge Serrano Limón e a cruzada para dominar seu sexo, sua vida e seu país), o método era semelhante ao empregado no Brasil: “Colocar anúncios em jornais que lançavam um anzol: “Gravidez inesperada? Existe uma solução para sua gravidez! Garantido: Não te deixamos estéril nem te furamos o útero”, e ao lado o número de telefone da Provida”, conta Grecko em entrevista exclusiva à Pública (que você pode ler na íntegra aqui). No livro, o próprio Serrano Limón descreve para o jornalista o que acontece depois: “Elas nos ligam: ‘Oi, quanto me cobram pelo aborto?’. ‘Não posso te dar informações por telefone, venha’. Damos-lhes um questionário, se faz todo um procedimento e elas desistem de abortar”. O procedimento, explica o livro, inclui práticas em que se afirma que o aborto é “um assassinato e um pecado mortal” e a exibição de filmes com imagens impactantes. O site da rede latino-americana se gaba de ter atendido mais de 25 mil mulheres apenas em 2013, nos 14 países em que atua, nos mais de 90 centros. A maioria das mulheres atendidas está na faixa dos 25 anos e é solteira. Segundo uma planilha obtida pela Pública no site do CAM latino-americano, em vários países o procedimento se repete. No Brasil, a organização tem representantes em Florianópolis, São Paulo, Porto Alegre, Três Barras, Jacareí, Piracicaba e Rio de Janeiro. Ainda segundo o site, 85% das mulheres desistiram de abortar após a “conversa”.

apm4No Brasil, a organização tem representantes em diversas cidades

É importante dizer que o fundador do CAM no México, Jorge Serrano Limón, se envolveu em alguns escândalos de corrupção nos últimos anos, relacionados ao CAM, como explica Grecko: “Em 2005, o Ministério do Serviço Público ordenou que Serrano Limón devolvesse 25 milhões de pesos, que ele se recusou a pagar. E conseguiu recursos legais para evitar isso. Em 2012, um juiz federal o condenou a quatro anos de prisão pelo mau uso de 2 milhões 496 mil pesos para o CAM. Em fevereiro de 2016, Serrano Limón foi detido por dois dias por crime de peculato por 25 milhões de pesos (é o mesmo processo). De alguma maneira – provavelmente recebeu apoio de alguém com muito dinheiro –, ele conseguiu pagar fiança e atualmente enfrenta o processo em liberdade”.

apm5Nesse post o padre afirma que milhares de mães e crianças foram salvas por esse projeto

No Brasil, é difícil dizer com certeza quem são todos os envolvidos nos CAMs e quem os financia. Além da tentativa frustrada de falar com o padre Hélio, entrei em contato com a CNBB, que me passou o telefone de um bispo que estava na Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família e se responsabilizou pela implementação do projeto no país em 2011, mas não consegui contato. Liguei também para os telefones de cada CAM, de cada cidade (contidos nesta planilha obtida no site do CAM Latinoamérica) e no que dizia ser a coordenação nacional. Alguns telefonemas não foram atendidos e, quando foram, as pessoas negaram a relação. O telefone do CAM de São Paulo era o da casa onde fomos atendidas; a psicóloga responsável chegou a atender a ligação, mas disse que estava em uma reunião e não tornou a ligar. O CAM mexicano também não respondeu aos e-mails. Quando se busca pelo endereço da sede do CAM em São Paulo, a casa onde estivemos, segundo o site da Arquidiocese de São Paulo, o CNPJ que aparece vinculado é o de uma associação privada chamada Associação Nossa Senhora Rainha da Paz – Instituto Rhema, cuja atividade principal é psicologia e psicanálise. Seus fundadores, Eneida André Carmona e Luiz Carlos Carmona Reche, segundo esse site, são “fundadores da Comunidade Unidos em Cristo, psicólogos com atuação em clínica e peritos do Tribunal Eclesiástico de São Paulo, orientadores de consagrados e leigos para a Igreja Católica Apostólica Romana”, apesar de o psicólogo ter negado a relação com a Igreja durante a consulta com a nossa repórter.

O terrorismo final

Na segunda visita ao CAM em São Paulo, minha colega repórter subiu sozinha as escadas para a sala de terapia com o psicólogo Luiz Carmona enquanto eu fixava o olhar nos santos das paredes da sala de espera e ouvia um homem rezar alto na sala ao lado. Peguei alguns livros para ler – um escrito pelo padre Hélio, sobre regulação inteligente da natalidade. Ela desceria quase uma hora e meia depois, calada e abatida. Já na rua, ela contou que durante a sessão o psicólogo católico mais falou do que ouviu. Muito mais, aliás, segundo seu relato no box abaixo. Mostrou slides impressionantes, fez com que ela segurasse um feto de borracha nas mãos para que sentisse “o peso” do bebê que supostamente carregava no ventre, reforçou tudo o que de horrível poderia acontecer com ela caso decidisse abortar e falou até mesmo sobre as consequências psicológicas do aborto para os homens – uma das quais era a possibilidade de se tornar violento com a companheira. Durante uma hora e meia, a repórter, que poderia ser qualquer mulher ou menina que entrasse ali procurando ajuda, foi submetida a uma sessão de amedrontamento e culpa.

Enviei e-mail para o CAM Brasil em São Paulo dizendo que gostaria de falar com eles pessoalmente. Uma mulher me respondeu e pediu para eu entrar em contato com eles por telefone. Liguei e marquei o atendimento presencial, que é feito com a Maria*, que se apresenta como voluntária e explica que o CAM é uma comunidade pela vida. Depois dessa breve conversa, a primeira pessoa que falou comigo entrou em contato por WhatsApp marcando uma consulta com um psicólogo na sede do CAM.

Luiz, o psicólogo, me atende em uma sala na casa antiga localizada em uma rua pacata no bairro de Santana, em São Paulo. Ele preenche um cadastro com as minhas informações pessoais e se apresenta, explicando a sua função, e diz que o propósito do atendimento é baixar a ansiedade e o medo das mulheres da gravidez. O psicólogo enfatiza que a dúvida e a confusão são responsáveis pela mulher optar pelo aborto e diz que o trabalho realizado pelo CAM é em defesa da vida. Afirma que todas as mulheres nasceram para ser mães, essa é a função biológica destinada ao seu gênero. Depois pergunta sobre o que me incomoda, quais as minhas dúvidas, mas em nenhum momento pergunta como eu me sinto.

Sou questionada sobre a minha religião, digo que sou católica, e em alguns momentos durante a conversa o psicólogo se refere a Deus. Pergunto se o centro tinha algum apoio da Igreja Católica, e ele responde de maneira incisiva que não, mas que a entidade é reconhecida pela Igreja e o centro é mantido com a doação de sócios.

O psicólogo expõe os riscos de interromper a gravidez e me mostra em seu notebook slides com textos e desenhos de bebês, os tipos de aborto e a maneira como são conduzidos. Ele diz que essa apresentação é exibida em diversas universidades, sendo a última a Federal Fluminense, e que viaja pelo Brasil para falar sobre a chamada síndrome pós-aborto e suas consequências na vida da mulher e do homem.

Em uma parte dos slides, mostra-se que as mulheres passam a ter compulsão por álcool e drogas, que se sentem culpadas, com vergonha, depressivas e com transtorno de ansiedade generalizada. Já nos homens, além da compulsão por álcool e drogas, apresentariam obsessão por compras e esporte de risco. Segundo o psicólogo, os homens podem ter transtornos psíquicos e a sua autoimagem fica prejudicada “porque, toda vez que ele olhar para o próprio pênis, ele vai dizer: você entrou na vagina, fez o filho e por culpa desse pênis, por minha culpa, teve o aborto”; a disfunção erétil é uma das consequências citadas.

Luiz me diz que o homem pode apresentar também comportamentos violentos contra a companheira; por exemplo, pode passar a sentir raiva da mulher porque ela foi a responsável “pela conivência dele com o aborto”. O contrário também pode ocorrer: preocupação excessiva com o bem-estar da mulher e obsessão de que ela engravide novamente.

Ele pega o molde de um útero e simula como é feito o aborto. Com a ponta da caneta, ele demonstra como a cureta, instrumento cirúrgico, é introduzida no útero e como ela “cutuca” o embrião até despedaçá-lo. O psicólogo tira um boneco da gaveta com o tamanho aproximado de um feto e pede que eu segure. Esse foi o momento mais marcante de toda a conversa. Pude sentir de perto o constrangimento e a vergonha que outras mulheres passam quando se veem nessa situação. Não satisfeito, ele diz: “Esse bebê vai sangrar, vai sair o sangue, aí ele vai tentar fazer o seguinte: tirar os pedaços. Para ter certeza, ele vai colocar um sugador e vai aspirar os pedaços desse bebê”. Por fim pede que eu procure um padre para me tranquilizar.

Para reforçar a mensagem, menciona exemplos de mulheres que foram até eles com a ideia de abortar e, depois de passar por essa sessão, chamada “gravidez em crise”, decidiram ter o filho. Conta o caso de uma mulher casada com um filho que foi estuprada na rua por dois homens. Ela engravidou do estupro e contou para o marido, que não acreditou e começou agredi-la. A mulher se viu sem saída e foi até o CAM procurar ajuda. Depois de passar pela sessão, se convenceu a continuar com a gravidez – mesmo o aborto em caso de estupro sendo legalizado no Brasil.

Ao finalizar o atendimento, ele pergunta se eu tenho alguma dúvida, digo que não. Em seguida, passa um exercício para os seios que, de acordo com ele, tem como objetivo preparar a gestante para a amamentação do bebê e evitar a maceração dos mamilos. Ele faz a demonstração no corpo dele por cima da camisa. O exercício consiste em segurar a mama por baixo e puxá-la até onde conseguir, torcer e soltar.

Saio dali abatida, pensando nas mulheres que ele ainda vai “ajudar”.

O único relato que encontramos a respeito da armadilha escondida no site “Gravidez Indesejada” no Brasil foi o de uma mulher no site da organização holandesa Women on Web, que oferece ajuda legítima a mulheres que vivem em países onde o aborto legal é limitado. No relato, ela dizia que em um momento de desespero procurou a organização do site “Gravidez Indesejada” e, quando chegou lá, uma senhora tentou de toda forma convencê-la a não abortar, o que a deixou ainda mais desesperada. Em entrevista à Pública, Leticia Zenevich, coordenadora de Projetos na Women on Web, explicou que infelizmente essas armadilhas são uma prática comum em vários países. “Eu não sabia que havia chegado ao Brasil, mas faz sentido. Essas organizações existem no mundo todo, e a ideia é ser uma armadilha mesmo. Muitas vezes eles ficam postergando o atendimento, a mulher vai a primeira vez e eles continuam dizendo que vão ajudá-la, até que as semanas vão passando e o aborto se torne perigoso para a mulher. Ou eles prometem dinheiro e não dão. É um golpe, é de má-fé. Passam filmes, dizem que elas terão câncer, inventam uma síndrome pós-aborto que não tem CID [Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde] ou nenhum background científico”. Leticia diz ainda que o site recebeu em 2017 cerca de 40 mil acessos semanais do Brasil, em busca de informações sobre aborto seguro. Vale lembrar que a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que a cada dois dias uma mulher morre vítima de aborto clandestino no Brasil e que o procedimento de risco (ou seja, feito clandestinamente e de forma precária) é a quinta causa de morte materna. E, como explicou o ginecologista e obstetra Jefferson Drezett nesta entrevista à Pública, a criminalização do aborto tem sido eficaz em matar mulheres pobres porque clandestino não significa inseguro: “O que determina a insegurança do aborto não é ele ser clandestino; é não ter prática, técnica ou ser realizado em ambiente inseguro. A diferença entre as chances de morrer em um aborto inseguro é mil vezes maior. E qual é a diferença, já que no Brasil o aborto é proibido por lei? Depende se a mulher tem dinheiro para pagar por um aborto seguro, mas muito caro, ou se ela é pobre e vai procurar por métodos inseguros. Acaba-se criando uma desigualdade social, uma perversidade, porque uma mulher que tem um nível socioeconômico bom tem acesso a clínicas clandestinas, que não são legalizadas, mas são seguras. Esse aborto seguro pode custar mais de US$ 2 mil, enquanto um aborto inseguro pode custar R$ 50. A criminalização do aborto impõe à mulher pobre a busca pelo aborto inseguro e clandestino e para as mulheres ricas a busca pelo aborto clandestino e seguro”.

Em Portugal, por exemplo, onde o aborto é legalizado há mais de dez anos, desde que a prática foi descriminalizada o número de mulheres que morreram em decorrência do procedimento caiu e está em zero desde 2012.

Para Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília e coordenadora do grupo de Estudo Saúde Mental e Gênero, submeter mulheres em situação de extrema vulnerabilidade a abordagens como essas que vivenciamos pode ser considerado tortura psicológica. Ela acrescenta: “Em geral, as pesquisas pró-vida enfatizam os impactos para a saúde mental em casos de aborto. E são pesquisas muito mal feitas porque comparam mulheres que tiveram filhos e queriam ter com mulheres que não queriam ter filhos e fizeram aborto. O ideal seria comparar mulheres que não queriam ter filhos e tiveram com mulheres que não queriam ter e não tiveram. Tem um problema metodológico. Você ter um filho sem desejar é que tem impacto sobre a saúde mental. A maternidade é uma tarefa pesada para a mulher na nossa cultura. Desejar estar nesse lugar é fundamental para a gente pensar os impactos. No Brasil, quando uma mulher deseja não ter filhos, ela não tem os meios legais de concretizar essa opção. A maioria das mulheres acaba por fazer o aborto de forma clandestina. Isso as torna totalmente vulneráveis. É uma tendência dizer que o aborto é um grande drama, mas o mais difícil é a criminalização. Muitas mulheres que abortaram e que eu já atendi relatam que se sentem como se fossem criminosas. Como se elas tivessem o tempo todo que tomar cuidado com a polícia, como se fossem traficantes, assassinas. Então são mulheres que estão em um alto grau de vulnerabilidade e muito suscetíveis à manipulação. E existe o mau uso da religião, que não se dá apenas via clandestinidade, porque até nos serviços de abortamento legal eu já tive denúncias de que profissionais religiosos tentam convencer mulheres a não abortar. A ONU já se manifestou afirmando que negar o aborto em casos legais pode ser considerado tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante”. Sobre a conduta dos psicólogos, Valeska diz que merece investigação por parte do Conselho Federal de Psicologia.

Em tempos de retrocesso, em que PECs como a 181/15, que insere na Constituição a proibição do aborto em todos os casos, inclusive os já previstos hoje pela legislação, avançam no Congresso e ameaçam os poucos direitos já conquistados pelas mulheres, armadilhas como essas promovidas pelo CAM são um desserviço por expor mulheres e meninas vulneráveis a tudo isso que presenciamos. Jamais esqueceremos o que ouvimos ali. Retomo a pergunta feita pela minha colega repórter ao sair da consulta: “Eles enfatizam que ali estão pensando na vida. Mas na vida de quem?”.

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