“As maracutaias da indústria do açúcar”

A indústria do açúcar está há décadas manipulando a ciência

Esta semana, uma equipe da qual participam Cristin Kearns e Stanton Glantz, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco conhecidos por apontar as maracutaias do negócio açucareiro, recuperou antigos documentos que mostram sua forma de trabalhar.

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A indústria do açúcar ocultou durante cerca de 50 anos estudos efetuados com animais que sugeriam os efeitos negativos que a sacarose tem na saúde. MARK R. CRISTINO EFE

Durante a história da humanidade morrer de câncer de pulmão era uma verdadeira raridade. No entanto, o consumo em massa de tabaco, que começou no final do século XIX, causou uma epidemia mundial. A relação entre o hábito de fumar e o câncer começou a ser demonstrada nos anos 40, e no final dos 50 as provas já eram irrefutáveis. Em 1960, porém, somente um terço dos médicos dos Estados Unidos acreditavam que o vínculo entre a doença e o tabagismo fosse real. Para essa confusão dos médicos e da população a ciência também contribuiu. Em 1954, o pesquisador Robert Hockett foi contratado pelo Comitê de Investigação da Indústria do Tabaco, dos EUA, para pôr em dúvida a solidez dos estudos sobre os malefícios dos cigarros.

Apesar dos esforços daquela indústria, a acumulação de provas conseguiu fazer com que a consciência sobre os perigos de fumar seja quase universal e que as campanhas tenham reduzido significativamente o número de fumantes. Mas o negócio do tabaco não é o único que manipulou a ciência para proteger seus lucros. Como o tabagismo, o consumo desenfreado de açúcar é um hábito doentio moderno. E embora a consciência sobre os danos do açúcar seja algo muito mais recente, parece que a própria indústria está ciente deles há muito tempo. De fato, Hockett, antes de buscar a proteção do tabaco por meio da confusão, tinha feito o mesmo com o açúcar. Nesse caso, ao não poder negar a relação entre a sacarose e as cáries, tentava promover intervenções de saúde pública que reduzissem os dados no açúcar em vez de restringir seu consumo.

Esta semana, uma equipe da qual participam Cristin Kearns e Stanton Glantz, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco conhecidos por apontar as maracutaias do negócio açucareiro, recuperou antigos documentos que mostram sua forma de trabalhar. Segundo explicam em um artigo publicado na revista PLOS Biology, a Sugar Research Foundation (SRF), conhecida agora como Sugar Association, financiou em 1965 uma revisão no New England Journal of Medicine na qual eram descartados indícios que relacionavam o consumo de açúcar, os níveis de gordura no sangue e doenças cardíacas. Essa mesma fundação também realizou estudos em animais em 1970 para analisar esses vínculos. Seus resultados encontraram um maior nível de colesterol em ratos alimentados com açúcar em relação a outros alimentados com amido, uma diferença que atribuíam a distintas reações dos micróbios de seu intestino. Quando a SRF conheceu os dados, que indicavam uma relação entre o consumo de açúcar e as doenças cardíacas, e até um maior risco de câncer de bexiga, interrompeu as pesquisas e nunca publicou seus resultados.

Glatz e seus colegas comentam que este tipo de trabalho propagandístico, direcionado a semear dúvidas sobre qualquer relação entre o consumo de sacarose e as doenças crônicas, continua hoje. Como exemplo citam uma nota à imprensa divulgada pela Sugar Association em 2016 como resposta a um estudo publicado na revisa Cancer Research. Nela, eram questionados os dados obtidos por uma equipe do Centro para o Câncer MD Anderson da Universidade do Texas, nos quais se observou em ratos que o consumo de açúcar favorecia o crescimento de tumores e a metástase.

Estratégias em vigor

As estratégias da indústria açucareira do passado continuam vigentes. Como quando Hockett propunha mitigar o impacto do consumo do açúcar nas cáries sem reduzir seu consumo, hoje, empresas como a Coca-Cola focam na necessidade de se fazer exercícios para reduzir a obesidade, deixando de lado a de diminuir o consumo de açúcar.

Em uma entrevista a El País, Dana Small, uma cientista da Universidade Yale que trabalha para entender a maneira como o entorno moderno, desde a alimentação à poluição, favorece a obesidade, comentou sua experiência colaborando com a Pepsi. Apesar de reconhecer que os dirigentes da empresa tinham boas intenções quando começaram a financiar projetos sobre alimentação e saúde, conta que tudo andou bem até que tiveram “resultados que indicavam que seus produtos poderiam estar causando danos”. Não podiam assumir que conheciam os perigos de seus produtos para a saúde porque essa informação poderia ser utilizada contra eles em futuras ações judiciais. “Deixaram de financiar-me na semana seguinte e confiscaram os computadores dos cientistas com os quais estava trabalhando”, relatou.

Glanz considera que a atitude das entidades açucareiras “questiona os estudos financiados pela indústria do açúcar como uma fonte confiável de informação para a elaboração de políticas públicas”. Small, no entanto, considera que a indústria do açúcar e a da alimentação em geral são grandes demais para serem ignoradas. Em sua opinião é necessário buscar meios de proteger este tipo de colaboração de tal maneira que ambas as partes possam trabalhar de forma honesta “sem ter que se preocupar com segredos comerciais ou ser alvo de ações judiciais”.

Fonte: El país
Por: Daniel Mediavilla
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Fátima Oliveira, nosso anjo se foi; que o seu espírito guerreiro permaneça entre nós

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis. Bertold Brecht (1898-1956), dramaturgo e poeta alemão, voz dos oprimidos do mundo

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Fátima Oliveira sempre foi imprescindível.

Médica, feminista e escritora. Negra e nordestina. Cabelinho nas ventas. Não mandava recado, falava na lata. Revolucionária.

Na manhã de 5 de novembro de 2017, aos 63 anos, ela “se encantou”, como diria o grande escritor Guimarães Rosa.

Foi no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estava internada há cerca de um mês.

Ironicamente no mesmo HC onde foi médica muito querida por 30 anos e se aposentou em março de 2014.

Fátima já está fazendo falta. E vai fazer muito mais.

A médica e feminista Ana Maria Costa, que presidiu o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), me avisou pelo zap:

–Acabo de saber da morte de Fátima Oliveira! Muito triste!”

— O quê???!!!!

— Como, doutora?!

— De câncer.

–Onde?

A gente se conheceu em 2009.

Fátima já tinha uma coluna semanal em O TEMPO, que saía às terças-feiras.

De vez em quando a reproduzíamos no Viomundo. Depois, quase toda semana.

Fátima reunia condições difíceis de serem vistas juntas num mesmo profissional: competente, atualizada, ética, corajosa, sem papas na língua, retidão ímpar.

Em se tratando de direitos sexuais e direitos reprodutivos, saúde integral das mulheres, saúde da população negra e SUS, Fátima era fonte fundamental.

Entrevistei-a para muitas reportagens nessas áreas.

Algumas vezes, eu, como repórter, buscava a sua ajuda. Outras, ela, antenadíssima, me alertava sobre temas. Ficava feliz, quando percebia que tinha colocado pilha, para eu ir atrás de algum tema mais cabeludo.

Em março de 2014, após morar décadas em Belo Horizonte, ela retornou ao seu querido Maranhão.

Em agosto deste ano, em resposta a um e-mail meu, querendo saber dela, veio a esta carinhosa resposta:

Oi, Conceição!

Quantas saudades de você!

Como vai? E como vai o Azenha?

Há momentos, a maioria deles, que penso estar em outro país!

É tudo muito surreal…

Digo sempre: ainda bem que tenho meus cactos e Clarinha Kkkkk

Morar no Maranhão tem sido um alento porque vivemos sob a égide de um governo humanista e ganhamos as eleições nas quatro cidades da Ilha de São Luís. Falando sério!

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Na sequência, me mandou uma foto da neta Clarinha.

Nas duas últimas semanas tudo isso veio à cabeça.

Revi nossos e-mails, nossas reportagens, entre elas as muitas sobre a MP 557, de 26 de dezembro de 2011, a famigerada MP do Nascituro, contra a qual Fátima, movimentos e entidades de saúde da mulher e saúde coletiva lutaram bravamente, denunciando o absurdo. O Viomundo e esta repórter se orgulham muito de terem remado contra a maré e lhes dado voz.

É difícil acreditar que ela partiu.

Foi ao remexer essas lembranças que me veio a ideia de, a exemplo do que fizemos em várias reportagens, nos juntarmos mais uma vez. Só que, agora, para homenagear Fátima.

Por e-mail, perguntei a vários participantes de alguma dessas matérias — a maioria conheci através de Fátima — se queriam dar uma declaração sobre o ser humano que cada um conheceu.

Resultado, de coração: depoimentos singelos, despretensiosos, pequenos fragmentos do gigante mosaico chamado Fátima Oliveira.

MARGARETH ARILHA: “OBRIGADA PELA LUZ QUE TRANSMITIU”

E porque a vida é assim, me arrepiei ontem a noite quando li o teu convite, Conceição!

Explico. Acabava de sair de uma tarde maravilhosa, na casa de Elza Berquó, onde recordamos com muita alegria e tristeza, o momento que tivemos juntas nós duas, e mais Fátima, Sonia , Tania Lago, Valeria e Jacqueline Pitanguy, em fevereiro de 2016.

Nos recordamos de como ela estava feliz, e de como havia chegado trazendo um pequeno cacto de presente para a dona da casa, dizendo, eu trouxe para você, não se preocupe, ele não precisa de muita água. Ele ficou plantado num vasinho pequeno de porcelana, e ontem veio iluminar aquela mesma mesa.

Juntas, colocamos as mãos sobre ele, abraçamos a Fátima, que permaneceu ali, toda a tarde conosco.

Eu a conheci no Cebrap [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento], e lá conversamos muito, muito, muito, rimos, rimos, rimos muito, choramos muito.

Durante anos. Tivemos medos e sonhos. Mas nunca esse pesadelo: o de sua partida tão fora de hora. Esbanjando saúde, sua lucidez parecia atirá-la para uma vida quase sem fim.

Afinal, parecia sempre estar carregada com tanta imaginação, palavras e lucidez, temas para debater, raivas pra curtir e lamentar, e prazeres para compartilhar, que ela e sua vida pareciam intermináveis.

Sempre dividia conhecimento e sabedoria. Falávamos das crias, do meu e do seu Gabriel, perguntava da Marina, falava dos filhos e mais recentemente da Débora. A presença instigante nas reuniões, e a luta sempre presente para tocar os plantões no hospital e seguir militando.

Sempre se fazia presente em todos os debates da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), sempre compreendeu sua natureza e missão, e participou com seu pensamento continuo e agitado.

Da professora Elza, era assim que a chamava, sempre falava com admiração, e apreciava imensamente a confiança por ter colaborado com o Programa de Bolsistas Negras do Cebrap, altamente inovador.

Ironicamente, as últimas imagens de seu twitter vinham sendo os cactos, pássaros e a casa no sertão.

Ironicamente, sua penúltima foto é com Fernando Pacheco Jordão [falecido em 14 de setembro de 2017], também membro da CCR, e falando da Democracia.

Ironicamente não tive tempo de dizer a você, Fátima, que o Maranhão, suas belezas e agrestes agruras são agora o centro da vida de minha filha.

Você gostaria de saber. Obrigada por tudo o que nos ensinou, e pela luz que transmitiu.

Margareth Arilha é psicanalista e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Desde os anos 1980 dedica-se a questões de gênero, saúde reprodutiva e políticas públicas.

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Tanto Margareth (depoimento acima) quanto Sonia Corrêa (abaixo) resgatam o último encontro com Fátima. Foi, em 26 de fevereiro de 2016, na casa da professora Elza Berquó, que fundou e dirigiu o consagrado Núcleo de Estudos da População, da Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp). Da esquerda para direita: Margareth Arilha, Valéria Pandjiarjian, Elza Berquó, Jacqueline Piranguy, Sonia Correa e Fátima Oliveira

SONIA CORRÊA: “UM TEMPO PARA O LUTO; AXÉ, FÁTIMA!”

Primeiro, soube que alguma coisa tinha acontecido com a feminista negra Fátima de Oliveira, com quem compartilhei momentos fáceis e difíceis, travessias tensas, mas também passagens muito prazerosas no curso de incessantes lides em torno da saúde e dos direitos das mulheres que transcorreram ao longo dos últimos quase trinta anos.

Um pouco mais tarde soube que ela havia partido.

Conheci Fátima nos início dos anos 1990, quando ela passou a integrar a Comissão de Cidadania e Reprodução.

Olhando suas fotos hoje, nas notas que circulavam sobre sua partida prematura, lembrei de muitos de nossos momentos juntas. Visualizei espaços, climas, conversas, expressões faciais.

Um desses momentos aconteceu, possivelmente, em 1998, num encontro anual da Rede Feminista de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos em Caxambu.

Era uma noite gélida. Sentadas num canto protegido do bar à beira da piscina, já meio bêbadas, tivemos um longo embate. Fátima havia aplicado para uma bolsa individual da Fundação Mac Arthur e dizia, obsessivamente, que não ia nunca ser selecionada pois era comunista.

Eu, de meu lado, dizia, obsessivamente, que ela estava enganada. Como o impasse não tinha solução, encerramos a conversa apostando uma garrafa de uísque 12 anos.

Eu ganhei. Bebemos quase metade da garrafa alguns meses depois para comemorar.

Mas também me voltaram imagens da última vez em que a vi, no início de 2016, num almoço com Margareth Arilha, Jacqueline Pitanguy, Tania Lago e Valéria Pandjiarjian na casa de Elza Berquó.

Nesse dia, ela estava alegre e cheia de energia. Falou das plantas do seu jardim, das frutas do seu pomar, da vida quase rural que havia escolhido. Falou de seus filhos e filhas e netos, das amizades e inevitavelmente das políticas, a com “P” mas também as políticas em que estivemos juntas metidas por tanto tempo.

Como podíamos imaginar que ela ia partir?

Segunda feira, frente à tela, eu lia as notas de lamento, olhava fotos de Fátima e buscava mais notícias, circulando as que ia encontrando, mandando mensagens para saber mais.

Tudo muito rapidamente, pois tinha que seguir adiante, pois há sempre muito mais a fazer.

Até que, de repente, me dei conta de que essa brutal aceleração já não deixa espaço nem mesmo para o luto. Parei, me aquietei, senti o vazio. Fui atirada ao lugar da nossa precariedade comum.

Essa nota foi escrita para não evadir esse abismo, como um gesto encantatório que traz Fátima um pouco de volta, mas também como uma tentativa de romper a jaula da compressão temporal a que estamos hoje sujeitas.

Axé, Fátima.

Sonia Corrêa é pesquisadora associada da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e co-coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política/Sexuality Policy Watch

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ALAERTE MERTINS: “MULHER DE FIBRA, FORTE”

Com certeza, esta é uma merecidissíma homenagem!

Mas, sinceramenre, não consigo escrever nem dois parágrafos, pois fiquei sem palavras, surpresa, desde que soube do passamento.

Se você me conheceu, assim como outras pessoas neste país e fora dele, foi graças à persistência da Fátima na luta pela saúde das mulheres, especialmente a redução da morte materna, e das mulheres negras, tema que insistentemente ela me pedia para escrever.

Guardarei sempre a lembrança da mulher de fibra, forte. Segue aí a foto de nosso último encontro, na República Dominicana, em 2015.

Alaerte Leandro Martins é enfermeira obstétrica e doutora em Saúde Pública. Incentivada por Fátima, pesquisou para sua tese mestrado “Mulheres negras e mortalidade materna no estado do Paraná”. Depois, no doutorado, gestantes negras que não foram a óbito, mas que ficaram com graves sequelas

BEATRIZ GALLI: SEUS OLHOS DE ÁGUIA SEMPRE VIAM DE LONGE”

Fátima era uma mulher negra, guerreira e intensa.

Era incansável na luta pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e nunca deixava de pontuar o que poderia ser uma ameaça de retrocesso no nosso campo de luta.

Seus olhos de águia sempre viam de longe, com clareza.

Ela sempre esteve muito atenta e por muitas vezes lia nas entrelinhas o que de fato estava acontecendo.

Eu tive a oportunidade de conhecê-la, em 2004, em uma reunião das Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro.

Desde então, sempre esteve presente nas reações rápidas em análises afiadas sobre o contexto político nacional. Mesmo de longe, ela continuava presente.

Fátima, que falta você está nos fazendo!

Beatriz Galli é advogada e assessora de políticas para a América Latina do Ipas.

ANA MARIA COSTA: ‘LACUNA NA ESQUERDA E NO FEMINISMO POLITIZADO”

Fátima Oliveira foi mulher admiravelmente múltipla: militante, médica, mãe, escritora, formuladora e muito mais!

Sua partida deixa uma lacuna na esquerda e no feminismo politizado que luta por direitos e políticas universais.

Meu enorme respeito pela Fátima!

Ana Maria Costa é médica, professora e diretora do Cebes, que já presidiu.

Através do Viomundo, muitos leitores se encantaram com a Fátima. Acabaram se tornando muito próximos, amigos, mesmo, como Telmo Kiguel e Gerson Carneiro.

A convite nosso, eles também fizeram as suas homenagens.

TELMO KIGUEL: EM COMUM, A MEDICINA, AS DISCRIMINAÇÕES E A POLÍTICA

Conheci a Fátima há poucos anos no Viomundo e solicitei à Conceição o seu email. A partir daí, passamos a nos corresponder e acabei publicando aqui, em Porto Alegre, três textos seus: Médico branco racista e médica negra discriminada; Médica diz: o Conselho Federal de Medicina não me representa; E a médica não se corrompeu.

A partir daí, descobrimos vários interesses em comum e parecia que nos conhecíamos há muito tempo. E tudo isso só pela internet.

Finalmente veio a POA e tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente e a família. A impressão de “velhos amigos” foi confirmada. Um dia só foi muito pouco para o que tínhamos em comum: a medicina, as discriminações, a política, etc. Acabamos o dia numa floricultura em que ela me deu uma aula sobre uma de suas muitas paixões, os cactos.

Ao saber de sua morte, não descansei enquanto não falei com sua filha Débora para saber o que tinha ocorrido. Muito triste. Muita saudade.

Telmo Kiguel é médico psiquiatra e responsável pelo blog Saúde Publica(da) ou não, no portal Sul21

LUANA TOLENTINO: FÁTIMA ME ESTENDEU A MÃO

Fátima Oliveira parte, mas entre nós fica o legado de uma mulher que lutou de maneira incansável pelo SUS e pelas mulheres negras desse país. Como um mantra, guardo uma frase dita por ela: “A superação do racismo no Brasil exige uma faxina moral”. Guardo também a mais profunda gratidão. Fátima me estendeu as mãos no momento mais doloroso da minha vida. Fátima será sempre nossa grande Mestra!

Luana Tolentino é professora e historiadora; ativista dos movimentos Negro e Feminista.

GERSON CARNEIRO: TIVE A SATISFAÇÃO DE SER CORRIGIDO PELA FÁTIMA; CONHECI UM ANJO

“Nós nos conhecemos através do Viomundo por volta do ano de 2009.

Eu comentava os textos dela. Passamos a compartilhar mensagens no twitter e logo estávamos trocando mensagens privadas, onde falávamos sobre nossas observações do mundo e também dávamos gargalhadas. Sim, ela tinha um humor fino, inteligentíssimo.

Fazia bem ter a companhia dela, saber que ela gostava das minhas tiradas no twitter, gostava dos meus textos.

Ela era muito poética. Adorava cactos. Postou no twitter muitas fotos belíssimas de cactos. A admiração pelos cactos era um dos pontos de ligação entre mim e ela.

Em uma tarde de 2011, no começo do julgamento do mensalão, eu ainda estava dando expediente no trabalho e, de soslaio, acompanhei as pessoas, ela inclusive, comentando o início do julgamento.

Em um das oportunidades comentei:

— Se eu não tivesse nada pra fazer eu também iria acompanhar o julgamento do mensalão.

Ela soltou uma gostosa gargalhada:

— Kkkkkkkk… Deixe de ser invejoso.

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Cirúrgica, a Dra. Fátima acertou. Era só inveja mesmo.

Em outra oportunidade, ela disse, em público, que uma fala minha no twitter era machista. Tentei justificar. Ela rebateu: “É machista. Apague, senão lamentavelmente vou ter que deixar de seguir o amigo”.

Diante de tal aviso, na hora, claro, me curvei na hora. E tive grande satisfação de ser corrigido por ela. Um enorme prazer.

Há um ano deixei essa foto do Frido na caixa postal dela no twitter.

E mais uma vez fui presenteado com a sua gostosa gargalhada. Foi nossa última troca de mensagem.

Realmente, conheci um anjo.

— Por que anjo? –, alguns talvez questionem.

Por causa da autoridade dela advinda da retidão em que trilhou. Só tem verdadeira autoridade quem tem retidão de caráter.

E por isso ela tinha autoridade para com seus conhecimentos nos proteger na labuta em favor das causas que acreditamos e defendemos.

De longe e, ao mesmo tempo, tão perto, nos proporcionava acolhimento nas batalhas. Sua repentina partida deixou uma imensa lacuna. Sentiremos nesse tempo sombrio o qual estamos passando.

É como a ” Estrela”, de Gilberto Gil:

“Há de surgir

Uma estrela no céu

Cada vez que você sorrir

Há de apagar

Uma estrela no céu

Cada vez que você chorar

O contrário também

Bem que pode acontecer

De uma estrela brilhar

Quando a lágrima cair

Ou então

De uma estrela cadente se jogar

Só pra ver

A flor do seu sorriso se abrir

Hum!

Deus fará

Absurdos

Contanto que a vida

Seja assim

Sim

Um altar

Onde a gente celebre

Tudo o que Ele consentir”

Estrela – Gilberto Gil

Gerson Carneiro é frequentador assíduo das redes sociais.

Curiosamente, até no seu “encantamento” Fátima Oliveira nos juntou, obrigando-nos a refletir sobre lutas passadas.

Mas também sobre o aqui e agora: só juntos teremos condições de enfrentar e buscar as saídas para a destruição do SUS, dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres brasileiras.

Fátima Oliveira, presente!

Fonte: Viomundo
Por: Conceição Lemes

Apesar das pesquisas sobre os atentados Trump não quer alterar sua relação com a indústria de armas

A afirmação de que “as armas não matam pessoas, os doentes mentais é que matam” é insustentável. As armas matam pessoas. Quanto menos armas estão em uma comunidade, seja nas mãos de civis ou da polícia, mais segura é essa comunidade.

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1. O que diz Trump:

      ‘Não é sobre lei de armas’, diz Trump do tiroteio em Igreja Batista*
O presidente norte-americano, Donald Trump, declarou que o tiroteio que chocou o estado do Texas nesse domingo não tem relação com a lei permissiva de armas no estado. A declaração foi feita nesta segunda-feira (6) durante coletiva no Japão.

Trump disse ainda que o atirador era “um indivíduo muito perturbado, com muitos problemas” e que tinha “um problema de saúde mental no mais alto nível”, lembrando o mesmo discurso que fez após o tiroteio em Las Vegas.

– Não é uma situação que se possa atribuir às armas – concluiu o presidente durante a coletiva. Os jornalistas lembraram que o estado do Texas é o mais permissivo no controle de porte de armas de fogo, que podem ser usadas até em universidades e supermercados.

O tiroteio na Igreja Batista, que deixou 26 mortos e outros 20 feridos, deu maior força à discussão sobre controle de armas, que acirra o campo político entre democratas e republicanos nos Estados Unidos. De um lado, democratas pedem maiores restrições, enquanto o partido de Trump defende o porte.

A discussão é polêmica no país em que existem mais armas do que veículos – 265 milhões de armas, contra 263,6 milhões de carros, de acordo com o Departamento de Transporte dos EUA. Além disso, Trump teve sua campanha apoiada pela Associação Nacional de Rifles e criticada por pacifistas.

Trump está em viagem diplomática pela Ásia durante 12 dias. Nesta segunda, ele se encontrou com o primeiro-ministro e a primeira-dama do Japão e falou sobre os acordos comerciais com o país. O presidente americano chegou a fazer críticas, dizendo que os Estados Unidos estavam saindo no prejuízo, mas manteve a relação aberta.

*Fonte: Pleno.News

2. O que diz a pesquisa:

Pesquisa da School of Humanities and Social Sciences, Deakin University, Geelong, Australia.**

Doença mental e violência por armas: lições para os Estados Unidos, da Austrália e Grã-Bretanha**

Austrália, Grã-Bretanha e Estados Unidos são sociedades diretamente comparáveis. Os dados estatísticos confirmam que eles têm taxas semelhantes de doença mental, incluindo as formas de doença mental mais susceptíveis de serem associadas a comportamentos violentos. As três sociedades têm uma mídia negativa e construção de cultura popular de doenças mentais, incluindo um senso exagerado da periculosidade dos doentes mentais. Eles também têm, através dos meios de comunicação tradicionais e das mídias sociais, acesso ao mesmo script do apocalipse pessoal. O que os homens australianos e britânicos não têm acesso fácil, no entanto, são armas de fogo.

As diferenças significativas entre as três sociedades são o número de armas de fogo na comunidade e se a polícia está armada.

No Reino Unido, as armas são difíceis de obter e a polícia geralmente não está armada. Uma pessoa que sofre de uma crise de saúde mental é improvável que possa causar sérios danos a outras pessoas, e a polícia quase sempre poderá resolver essa crise sem uma fatalidade.

Na Austrália, as armas são difíceis de obter, mas a polícia é rotineiramente armada. O maior risco de fatalidade é para os doentes mentais, devido a uma resposta policial que envolve automaticamente armas de fogo.

Nos Estados Unidos, as armas de fogo são facilmente acessíveis. Uma pessoa mentalmente enferma em crise geralmente tem uma arma disponível capaz de infligir facilmente violência letal, em alguns casos, sobre um grande número de pessoas em pouco tempo. A polícia também está geralmente armada e, embora os dados sejam insatisfatórios, uma proporção desconhecida (mas provavelmente grande) de um número desconhecido (mas muito grande) de civis mortos a tiro são doentes mentais.

Os benefícios do controle estrito de armas e da polícia desarmada são mais claramente ilustrados pelas diferenças nas mortes devido à ação da polícia. A população dos Estados Unidos é quase cinco vezes maior que a da Grã-Bretanha. Isso significa que, de acordo com dados conhecidos como uma grande subestimação (Planty et al., 2015), um civil dos EUA está entre 171 e 226 vezes mais chances de ser morto por um policial do que uma pessoa que vive na Grã-Bretanha no pior ano registrado da última década (Teers 2015).

A afirmação de que “as armas não matam pessoas, os doentes mentais é que matam” é insustentável. As armas matam pessoas. Quanto menos armas estão em uma comunidade, seja nas mãos de civis ou da polícia, mais segura é essa comunidade.

**Fonte: Violence and Gender
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O neuropsiquiatra e o ditador

Augusto-PinochetO Dr. Luis Fornazzari – MD, FRCPC, Behavioral Neurology, St. Michael’s Hospital, University of Toronto – fez parte de uma equipe médica que examinou, em 2001, o ditador chileno Augusto Pinochet para saber se estava mentalmente apto para enfrentar um julgamento.

Em vídeos em espanhol, ele relata fragmentos desta vivência.

Este depoimento faz parte do MUSEO DE LA MEMÓRIA Y LOS DERECHOS HUMANOS – SANTIAGO – CHILE
Duração: 77 min.. Pode ser interrompido e retomado a qualquer momento.

Leia aqui um relatório que acabou fazendo parte desta avaliação.

Agradecemos a permissão de publicar no Brasil ao Dr. Luis Fornazzari e ao Sr. José Manuel Rodríguez Leal – Encargado Archivo Audiovisual MMDH.

Esta é a primeira publicação no Brasil.

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“Mídia e publicidade influenciam nos transtornos mentais”

A psicanalista Jan Abram é membro da Sociedade Britânica de Psicanálise e professora do Instituto de Psicanálise de Londres.

Conferencista sênior da University College de Londres e a maior referência mundial da obra do pediatra e psicanalista infantil Donald Winnicott,
Eis a entrevista que concedeu ao Jornal da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre.

SPPA | A sra. poderia nos falar um pouco sobre sua trajetória como analista e como uma pensadora da psicanálise?
Jan Abram – Eu me interessei pela psicanálise quando fiz um curso de Drama e Movimento na Terapia, após ter trabalhado em teatro na educação. O trabalho de Freud inspirou e me ajudou a dar sentido a minha atividade em um hospital psiquiátrico. Posteriormente, me interessei pelo trabalho de R. D. Laing, pioneiro da antipsiquiatria no Reino Unido. “Pacientes” se tornaram “pessoas” que poderiam ser tratadas em comunidades terapêuticas psicanalíticas. Então eu “descobri Winnicott”. Sua maneira de elaborar o trabalho de Freud fazia intensa ressonância com minha experiência anterior de teatro na educação, o drama e o movimento na terapia – especialmente nos conceitos de ilusão e do brincar.Winnicott aprofunda as teorias de Freud e, junto com a indispensável experiência de análise pessoal, são cruciais na minha maneira de pensar.

SPPA | Que temas ou questões da psicanálise têm lhe interessado atualmente?
Jan Abram – Existem dois principais temas que atualmente me interessam: o paternal e a pesquisa psicanalítica. Estou escrevendo sobre o “Pai como um objeto total” no desenvolvimento psíquico primitivo. Este artigo analisa os últimos trabalhos de Winnicott em suas noções de pai que, no meu ponto de vista, está relacionado com a noção de função paternal. Minha proposta estende este úl- timo conceito. Minha outra área de interesse está associada com o trabalho do “Grupo de Paris” – um grupo de trabalho que pesquisa sobre a especificidade do tratamento psicanalítico hoje. No meu trabalho recente, procuro mostrar como a escuta interanalítica instiga uma reflexão única de trauma desmentido pela dupla analítica.

SPPA | A sra. concorda que nas últimas décadas está acontecendo uma maior incidência de transtornos mentais graves, tais como: distúrbios psicossomáticos, transtornos alimentares e adições? Se for esse o caso, a que atribui essa maior incidência?
Jan Abram – Uma resposta curta seria: é a “publicidade” e a mídia. Winnicott criticava muito a publicidade e dizia que toda a publicidade constituía um brutal impacto sobre a psique. Com os graus extremos de riqueza e pobreza no mundo, que são acentuados pela mídia, no meu ponto de vista, o bem-estar da mente humana é afetado negativamente. Todos nós, aonde quer que vamos, somos bombardeados com publicidade e isso nos afeta de maneira tanto óbvia quanto subliminar. As pessoas imaturas são especialmente vulneráveis a este tipo de sedução. Acredito que Winnicott estava certo e que talvez esta seja uma das principais razões para uma maior incidência de certas doenças mentais.

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