Ela trocou remédios por maconha e controlou a depressão

“O mais complicado é que a depressão é uma patologia que lá fora já é tratada com cannabis, mas aqui a Sociedade Brasileira de Psiquiatria tem uma rejeição ao uso terapêutico da planta”, disse o advogado Ubaldo Onésio de Araújo.

Os remédios não faziam mais efeito. Ela trocou pela maconha e controlou a depressão.

Os remédios tradicionais, entre eles o popular Rivotril, pareciam não fazer mais efeito quando V., de 59 anos, conheceu o extrato da maconha, no começo de 2018. Segundo ela, a cannabis sativa, uma das espécies da droga, a fez dormir e acordar tranquila pela primeira vez depois de anos. Diagnosticada com depressão em 2014, V. conseguiu os primeiros frascos de extrato de cannabis com um médico – a importação pode chegar a custar R$7 mil por mês.

Sem dinheiro, disposta a dar continuidade no tratamento e a não ser presa, eladecidiu entrar na justiçapara conseguir a autorização do cultivo.

Deu certo: no último dia 31 de outubro o juiz federal Mário Jambo, do Rio Grande do Norte, a autorizou a ter até seis plantas e a transportá-las. Foi a primeira vez que a justiça brasileira liberou a maconha para tratamento de um paciente de depressão.

A ação também se estende a sua filha, que a ajuda no cultivo. Sem o apoio da justiça, ambas poderiam ser presas. Com a autorização, V. agora pode, além de plantar, também extrair o óleo de cannabis em sua própria casa. O juiz considerou que, se o uso recreativo não é considerado crime pela lei, o uso médico também não pode ser. Os argumentos do jurista coincidem com os da Comissão de Reforma da Lei Antidrogas, que apresenta nesta quinta-feira o relatório final que propõe da descriminalização do uso pessoal da maconha, de que o usuário não pode ser punido. Mario Jambo ainda reforçou que a Anvisa reconhece o uso medicinal da planta.

O caso de V. abre novas perspectivas para a maconha medicinal no Brasil – e a decisão antecipa o debate que acontece nesse momento no Senado. A Comissão de Assuntos Sociais da casa aprovou em novembro do ano passadoprojeto de lei 514/2017, que modifica um trecho da legislação sobre drogas e libera o cultivo de maconha para uso pessoal terapêutico. O projeto, agora, segue para a Comissão de Constituição e Justiça e, de lá, para a Câmara dos Deputados.

O avanço do conservadorismo no Congresso deve dificultar a tramitação da proposta, mas as autorizações judiciais já antecipam o impacto da liberação para as famílias que precisam da cannabis para tratamento. Como aautorização concedida pelo Tribunal de Justiça de SP– feito inédito nesta instância– nesta semana para uma servidora pública de Campinas, mãe de uma menina de 6 anos diagnosticada com autismo.

Produção caseira

Não foi fácil para V. conseguir a autorização. Sua defesa reuniu artigos científicos, reportagens, laudos médicos e depoimentos de familiares relatando a melhora da paciente.“O mais complicado é que a depressão é uma patologia que lá fora já é tratada com cannabis, mas aqui a Sociedade Brasileira de Psiquiatria tem uma rejeição ao uso terapêutico da planta”, disse o advogado Ubaldo Onésio de Araújo.

A defesa também conseguiu uma declaração do Instituto do Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, afirmando que seus laboratórios poderiam ser utilizados para analisar o extrato e garantir que o medicamento tenha as dosagens receitadas pelo médico. Isso já acontece, por exemplo, no caso do paciente que recebeu autorização para plantar maconhapara tratar a Doença de Parkinson no início deste ano também no Rio Grande do Norte.

O tipo de óleo e a dosagem de canabinoides, as substâncias que ativam receptores no cérebro e que são encontradas na maconha, mudam de acordo com o paciente e a doença. Na fabricação artesanal é um desafio alcançar as doses adequadase encontrar qual o tipo de maconha que atende melhor ao tratamento. Para a depressão, V. precisa de um extrato híbrido com níveis diferentes de canabidiol, que tem efeitos mais relaxantes, e THC, um estimulante.

A substâncias extraídas da planta imitam moléculas encontradas em humanos e outros animais e criam sensação de conforto e bem-estar ao ativarem determinados receptores no cérebro. Os canabinoides, naturais do cérebro ou encontrados na herva, são neurotransmissores e fazem a comunicação entre neurônios.

“Muitas vezes as pessoas usam o extrato sem segurança do conteúdo que está ali dentro. Isso pode até fazê-la não sentir uma melhora, quando na verdade a combinação é que não está correta para a doença”, explica Cláudio Queiroz, professor do Instituto do Cérebro.

V. conheceu o tratamento com cannabis em uma palestra do Coletivo Delta 9 e do Instituto do Cérebro. O coletivo trabalha em parceira com a ONG Reconstruir Cannabis, de Natal, no Rio Grande do Norte, que no momento auxilia quatro pessoas com depressão e três com ansiedade. O Reconstruir está buscando na justiça a autorização para o cultivoe extração do óleo. A entidade segue os passos da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança, da Paraíba, que conseguiu liberação no ano passado.

Maconha como antidepressivo

Existem pesquisas que associam o uso da cannabis ao desenvolvimento de quadros depressivos– especialmente relacionado ao uso excessivo e precoce, na adolescência. No entanto, segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro, isso só ocorre em casos específicos. “Perguntar se maconha causa depressão só faz sentido se você perguntar qual maconha. São várias espécies diferentes”, disse ao Intercept. Segundo ele, o efeito depressivo relacionado aos jovens desaparece nos adultos e idosos.

“O THC produz novas sinapses e o jovem já tem muita atividade neural, o que leva a um desequilíbrio. No caso dos idosos, o aumento da comunicação entre os neurônios com a maconha funciona como uma suplementação. O efeito é o mesmo dos antidepressivos”, diz Ribeiro. Com uma diferença: eles não causam efeitos colaterais como disfunção sexual, irritabilidade e agitação, além de terem uma taxa de dependência menor.

“A maconha é a coisa mais importante para a medicina do século 21. Ela trata epilepsia, Parkinson, Alzheimer, câncer e depressão. Tem que ter alguém com muita grana que banque um ensaio clínico sobre a planta, isso não existe porque a planta não dá para patentear. Existe um lobby para que a maconha fique ilegal. No futuro, vamos lamentar todos os anos em que não usamos a maconha para fins terapêuticos”, garante o diretor do Instituto do Cérebro.

Outra pauta sobre maconha está no Supremo Tribunal Federal – mas, desta vez, seu uso recreativo. Quando foi à votação, em 2015, três dos 11 ministros votaram pela liberação do porte de maconha para uso pessoal: Gilmar Mendes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso.

O julgamento, no entanto, estava suspenso desde setembro de 2015, quando ministro Teori Zavascki pediu vistas do processo. Agora, o ministro Alexandre de Moraes liberou o projetopara ir a plenário. Os ministros do STF devem votar neste ano.

Correção: 7/02, 15h42

O título anterior desse texto falava em “curar” a depressão com maconha. Alertados por um leitor, reconsideramos e modificamos para “controlou a depressão”, uma vez que V. tem tido sucesso em aliviar seus sintomas com a medicação a base de cannabis, não necessariamente foi curada.

Fonte: The Intercept

Por: Juliana Gonçalves

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A guerra às drogas não funciona. O que podemos aprender com o seu fracasso?

Se a polícia e os militares se comportassem por um dia em Ipanema da mesma forma que eles se comportam no Alemão, seria uma das maiores manchetes do mundo naquele dia. Imagine se eles enviassem um tanque para a praia de Ipanema e começassem a atirar em qualquer pessoa suspeita de estar usando drogas.

Tropas do Exército passam pelo bairro de Anchieta, na zona norte do Rio de Janeiro, durante intervenção federal de 2018 no RJ. Foto: Danilo Verpa/Folhapress

NO BRASIL ATUAL, as pessoas estão ou inspiradas ou apavoradas com a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência – e, para entender o que pode acontecer em seu governo, eu acredito haver uma história que deve ser explorada antes, porque essa é a única forma de enxergar um futuro.

Nos últimos oito anos, viajei pelo mundo inteiro me informando sobre a guerra às drogas (e as alternativas à guerra às drogas) para o meu livro “Na fissura: uma história do fracasso no combate às drogas”, recém-publicado pela Companhia das Letras. Estive em lugares com as políticas mais brutais em relação a usuários, dependentes e traficantes de drogas (como o Vietnã, o norte do México e os Estados Unidos); e fui a lugares que descriminalizaram todas as drogas (Portugal) ou as legalizaram (o estado do Colorado, Uruguai e Suíça). Há seis lições desta guerra global que explicam a ascensão de Bolsonaro – e o que acontecerá se ele fizer tudo o que prometeu durante sua campanha eleitoral.

Lição um: A guerra às drogas cria uma guerra pelas drogas.

O Brasil tem mais de 60 mil assassinatos violentos todos os anos, e a população está certa em se enfurecer e exigir mudanças radicais que resolvam essa catástrofe. Esta foi uma das principais razões pela qual tantas pessoas apoiaram Bolsonaro: elas acreditavam que ele, pelo menos, falava sobre o problema da violência massiva, e que tinha um plano para resolvê-la.

Mas, para entender por que o plano dele não funcionará, nós precisamos, em primeiro lugar, entender o que está causando metade dessa violência.

Para começar, faça um pequeno experimento mental. Imagine que você está em Chicago e decidiu roubar uma garrafa de vodca. Se você for até uma loja de bebidas, colocar a garrafa embaixo do casaco e os donos da loja te pegarem, eles vão chamar a polícia e a polícia virá e te levará. Assim, a loja em si não precisa usar violência; ela não precisa ser intimidadora; eles têm o poder da lei sustentando seus direitos de propriedade.

Agora, imagine que você está em Chicago e quer roubar um pacote de maconha, ou cocaína, ou metanfetamina. Se a pessoa que te vende a droga te pegar roubando, ela não vai chamar a polícia – ela iria presa. Ela vai lutar com você. Agora, se você é um traficante (e eu passei um tempo com vários deles durante o tempo de minha pesquisa), não precisa ficar comprando brigas todos os dias. Você precisa estabelecer uma reputação por ser tão assustador que ninguém ousaria te desafiar. Na verdade, você precisa estabelecer o seu lugar enquanto vendedor e resistir a seus rivais através da violência. Como o escritor Charles Bowden disse, a guerra às drogas cria uma guerra pelas drogas.

Maria Lucia Karam, importante juíza brasileira, calcula que 30 mil dos assassinatos no Brasil todos os anos são um resultado direto desta guerra pelas drogas criada pela proibição.

Lição dois: Onde quer que tenha sido experimentada, a proposição de Bolsonaro aumenta os índices de mortes.

Bolsonaro argumenta que a solução para tal violência é dar à polícia poder para executar qualquer um que ela suspeite de vender drogas. Execução extrajudicial, em si, é uma forma de assassinato, e nós sabemos que os atingidos por isso serão, em grande maioria, homens pobres em favelas – mas há também evidências de que essa tática aumentará o índice geral de mortes, além dos assassinatos cometidos pela polícia.

Imagine que você é parte de uma gangue de traficantes, como o PCC, que dominou as favelas de São Paulo, onde passei um tempo recentemente. Você travou uma guerra contra seus rivais e, através da violência e da corrupção de autoridades locais, obteve controle. Se a polícia vier agora e te matar, isso simplesmente gera uma disputa sobre o controle do seu território. É o primeiro tiro disparado para uma nova guerra – onde grupos rivais lutam para ganhar o seu território. É por isso que, invariavelmente, imposições policiais violentas sobre gangues do narcotráfico causam um aumento nos assassinatos em geral.

Isso não significa, é claro, que nós devemos deixar gângsteres violentos dominarem os territórios. Significa que devemos escolher as soluções mostradas que realmente funcionaram.

Lição três: Há uma maneira real para acabar com a guerra pelas drogas e a enorme violência que ela causa – e é o oposto do que Bolsonaro propõe.

Se você quiser saber quanto dessa violência é um resultado direto da decisão de proibir as drogas, então se pergunte: onde estão os violentos traficantes de álcool? O dono da Smirnoff atirou no rosto do dono da Budweiser? O bar local mandou que adolescentes atirassem no bar rival do outro lado da rua? Não – mas exatamente isso aconteceu durante a Lei Seca nos Estados Unidos. Todos sabiam quem Al Capone era.

O que mudou? Não a droga – o álcool é hoje o mesmo que sempre foi. O que mudou foi que a droga foi legalizada. O professor Jeffrey Miron, de Harvard, mostrou que os índices de assassinatos nos Estados Unidos aumentaram massivamente quando o álcool foi banido – e caíram massivamente quando o álcool foi legalizado.

Estive em lugares que legalizaram as drogas. Não há nada de abstrato na forma como eles fizeram isso. O estado do Colorado legalizou a maconha. Ela é agora vendida em locais licenciados e traficantes de maconha perderam seu espaço pouco a pouco. A Suíça legalizou a heroína e agora não há traficantes violentos de heroína no país (e houve um total de zero mortes relacionadas à heroína legal em quinze anos desde que ela foi legalizada).

Algumas pessoas dizem que acabar com a guerra às drogas é suficiente para países desenvolvidos como a Suíça e Portugal, mas que isso não é relevante para um país como o Brasil. “Eu acho ainda mais importante” aqui, disse-me a juíza Maria Lucia Karam. “Porque na Suíça ou em Portugal, eles não têm a violência”. Eles não têm quase 30 mil pessoas sendo mortas pela guerra às drogas ano após ano após ano.

Bolsonaro está oferecendo uma falsa solução para a violência. Mas há uma solução real em espera para quando o país quiser escolhê-la.

Lição quatro: A guerra às drogas é sempre usada como pretexto para fechar o cerco a grupos que o estado quer perseguir de qualquer forma.

Quando eu cheguei ao Brasil, peguei um táxi para o meu hotel, deixei minhas malas na recepção e fui dar uma caminhada na praia de Ipanema. A primeira coisa que um brasileiro me disse, após o motorista de táxi e da recepcionista do hotel, foi dita por um homem que viu um ‘gringo’ caminhando pela praia e veio confiante até mim dizendo: “E aí amigo – quer comprar cocaína?” Todos os dias, pessoas ricas na praia de Ipanema estão comprando e usando drogas.

No dia seguinte, eu fui ao Complexo do Alemão, uma favela não muito longe de Ipanema, e um extraordinário jovem ativista chamado Raul Santiago me acompanhou e me mostrou o lugar. Eu vi a polícia apontando armas abertamente a crianças pequenas. Eu os vi aterrorizando a população. Eu conheci famílias de pessoas que foram executados extrajudicialmente pela polícia. Eu descobri que eles dirigem tanques pelas ruas da favela.

Algumas pessoas estão usando drogas tanto em Ipanema quanto no Complexo do Alemão. Se a polícia e os militares se comportassem por um dia em Ipanema da mesma forma que eles se comportam no Alemão, seria uma das maiores manchetes do mundo naquele dia. Imagine se eles enviassem um tanque para a praia de Ipanema e começassem a atirar em qualquer pessoa suspeita de estar usando drogas.

Qual é a diferença? As pessoas no Alemão são tão humanas – e tão merecedoras de segurança e respeito – quanto as de Ipanema.

Nenhum país pode impor leis de drogas contra todos que as infringem. Nos Estados Unidos, cerca de 50% da população já agiu fora da lei. Nenhum país pode aprisionar metade de sua população. Então o que acontece? O estado sempre usa a guerra às drogas como um pretexto para fechar o cerco contra aqueles que deseja reprimir por outras razões. Nos EUA, são os afro-americanos, os latinos e os pobres. No Brasil, é a população das favelas. Bolsonaro já expressou seu desprezo por eles, dizendo que as mulheres de lá não são nem “boas para reprodução mais”. Agora a guerra às drogas fornece um pretexto para aterrorizar essas pessoas.

Certo dia, eu estava sentado no centro de uma favela chamada Maré, bebendo Coca-Cola Zero com uma jovem ativista de lá chamada Maïra Gabriel Anhorn. Ela me explicou que seu grupo de ativistas locais – que consiste basicamente em um grupo de pessoas da própria favela da Maré – estavam tentando provocar mudanças explicando para as pessoas que elas têm direito a segurança. A população entendia muito bem que educação era um direito, que saúde era um direito, mas quando se tratava de segurança ser também um direito, eles se perdiam. Eles haviam sido ensinados, durante todas as suas vidas, que essa insegurança generalizada, essa violência extrema, eram necessárias como parte da guerra às drogas. O estado tinha que travar uma campanha massiva de violência. Era necessário.

Maïra descobriu que “toda vez que você tentava criticar as operações policiais, a resposta era ‘Mas é um lugar muito inseguro, há muitas pessoas que vendem drogas’”, disse. “E para as pessoas aqui, essa é uma desculpa aceitável. Essa é a única desculpa que torna essas operações violentas aceitáveis – porque aqui há pessoas que compram drogas.”

A genialidade da guerra às drogas, disse Maïra, é que ela, como nenhuma outra, permite uma guerra aos pobres que a sociedade como um todo, e mesmo muitos dos próprios pobres, aceitarão como necessária.

Maïra acredita que acabar com a guerra às drogas pode ser uma coisa boa por diversas razões – mas uma delas é retirar de cena uma desculpa para essa guerra brutal de classes conduzida pelo estado. Está claro o que está acontecendo – e por quê. E, uma vez que essa lógica estiver clara para todos, diz, nós podemos lutar contra.

Lição cinco: Ir atrás de pessoas com crise de dependência piora o vício.

Os aliados de Bolsonaro, como o então prefeito de São Paulo, João Dória (recém-empossado governador do estado), reagiram às pessoas com dependência com violentas medidas repressivas – e essa parece que provavelmente se tornará a estratégia de Bolsonaro.

Em 2017, enquanto pesquisava para meu livro, “Na fissura”, eu passei um tempo na conhecida “Cracolândia” da cidade, onde muitos dos dependentes mais vulneráveis do Brasil acabaram por viver nas ruas. No começo, essas pessoas foram ameaçadas e agredidas pela polícia. Toda vez que isso acontecia, o problema só piorava. Então, durante um curto tempo, um interessante experimento foi conduzido por um grupo chamado De Braços Abertos.

Eles já haviam aprendido que a forma como a dependência química normalmente é pensada no Brasil é ultrapassada.

Se você tivesse me perguntado oito anos atrás, quando eu comecei a pesquisar para “Na fissura”, o que causa o vício em drogas, eu teria olhado para você como se você fosse um idiota e respondido: “drogas, né”. Não é difícil de entender. Eu pensei que havia visto isso a minha vida inteira. Todos podemos explicar. Imagine se você, eu e as próximas 20 pessoas que passarem por nós na rua usarmos uma droga muito potente durante 20 dias. Há componentes químicos viciantes nessas drogas, então se parássemos no 21º dia, nossos corpos precisariam daqueles químicos. Nós teríamos um desejo feroz pela droga. Nós estaríamos viciados. É isso que dependência significa.

Uma das formas em que essa teoria foi estabelecida pela primeira vez foi através de experimentos com ratos – introduzidos no pensamento norte-americano nos anos 80 em um famoso cartaz da Partnership for a Drug-Free America (Parceria para uma América sem Drogas). Você deve se lembrar. O experimento é simples. Coloque um rato em uma gaiola, sozinho, com duas garrafas de água. Uma contém apenas água. A outra contém água misturada com heroína ou cocaína. Quase todas as vezes que esse experimento é feito, o rato fica obcecado com a água drogada e segue voltando para beber mais e mais, até acabar morrendo.

O cartaz adverte: “Apenas uma droga é tão viciante, que nove entre dez ratos de laboratório as usam. E usam. E usam. Até que morrem. Ela se chama cocaína. E pode fazer o mesmo com você.”

Mas, nos anos 70, um professor de psicologia em Vancouver chamado Bruce Alexander, percebeu algo de estranho nesse experimento. O rato é colocado na gaiola completamente sozinho. Ele não tem nada para fazer exceto usar das drogas. O que aconteceria, ele se perguntou, se tentássemos de forma diferente? Então o professor Alexander construiu o Parque dos Ratos. É uma atraente gaiola onde os ratos teriam bolas coloridas, a melhor comida de ratos, túneis para passear e vários amigos: tudo o que um rato da cidade poderia querer. Alexander queria saber: o que aconteceria?

No Parque dos Ratos, todos os ratos obviamente provaram a água de ambas as garrafas porque eles não sabiam o que tinha dentro delas. Mas o que aconteceu em seguida foi surpreendente.

Os ratos com vidas boas não gostavam da água drogada. Eles a evitaram, consumindo menos de um quarto do que os ratos isolados haviam consumido. Nenhum deles morreu. Enquanto todos os ratos que estavam sozinhos e infelizes se tornaram usuários frequentes, nenhum dos ratos que tinha um ambiente feliz em torno de si o fez.

Há diversos exemplos humanos que mostram o mesmo princípio. Isso me fez perceber: o oposto da dependência é a conexão.

Após descobrir isso, a organização De Braços Abertos argumentou que a punição aumenta a dor e, portanto, a dependência e que, na verdade, a melhor maneira de reduzir o vício seria diminuir a dor profunda que essas pessoas sentem. Então eles compraram alguns hotéis baratos e forneceram às pessoas da Cracolândia um lar seguro, comida e emprego – em vários casos, pela primeira vez em suas vidas. A melhor pesquisa sobre isso mostrou que, como resultado, 65% deles reduziram o seu uso geral de drogas. O oposto da dependência é a conexão. Quanto mais pessoas puderem ser ajudadas a viver vidas significativas, conectadas e seguras, mais sairão do vício.

E logo quando o experimento da De Braços Abertos estava tendo resultados promissores – assim como havia tido em todos os lugares ao redor do mundo onde havia sido experimentado, de Vancouver a Lisboa – Doria foi eleito e decidiu acabar com tudo. Ele enviou a polícia para agredir os residentes e demoliu um prédio com três pessoas dentro. Como resultado, o problema da dependência química em São Paulo está mais fora de controle do que nunca.

Lição seis: O Brasil pode fazer escolhas melhores.

A única coisa que pode ser dita em defesa da guerra às drogas é que os Estados Unidos realmente deram a ela uma oportunidade justa. Eles gastaram trilhões de dólares; eles o fizeram por cem anos; eles mataram centenas de milhares de pessoas (e destruíram países inteiros como a Colômbia); eles aprisionaram milhões dos seus próprios cidadãos; e qual é o resultado? Eles têm a pior violência armada no mundo depois do Brasil. Eles têm a pior crise de dependência química no mundo. E eles não conseguem nem manter as drogas fora de suas prisões.

Sob o governo de Bolsonaro, parece que o Brasil vai de novo copiar lugares que falharam desastrosamente, como os Estados Unidos. Mas há uma alternativa. O Brasil poderia começar copiando lugares que deram certo. Por exemplo: Portugal descriminalizou todas as drogas e transferiu o dinheiro usado para destruir a vida das pessoas de forma a ajudá-las a reconstruir suas vidas. Desde então, houve uma grande queda nos índices de dependência e overdoses.

Em todos os lugares onde a guerra às drogas foi superada, eu vi o mesmo padrão. De primeira, é extremamente controverso e as pessoas pensam que é loucura – e então elas veem os resultados. Não é perfeito – eles certamente ainda têm problemas no Colorado, em Portugal e na Suíça – mas há uma melhora tão radical que a oposição às reformas simplesmente deixa de importar.

Você não precisa se tornar um vidente para saber o que a proposta de Bolsonaro vai fazer com o Brasil – você precisa apenas olhar para o outro lado do mundo. Para ver o caminho além de Bolsonaro – o caminho que genuinamente reduz os horrendos índices de assassinatos e dependência química do Brasil – você precisa manter o olhar global. As soluções foram testadas. Elas estão esperando o Brasil escolhê-las.

O livro “Na fissura” foi lançado no Brasil no fim de 2018 e está disponível nas livrarias de todo o país.

Tradução: Maíra Santos

Queres uma Heineken ou Coca-Cola com maconha?

Negócio, que movimenta R$ 20 bilhões por ano, faz grandes multinacionais estudarem as possibilidades do uso da Cannabis. As fabricantes de bebidas alcoólicas estão mergulhando de cabeça no universo da maconha.

Heineken e Coca-Cola podem aderir ao uso da maconha nos produtos; entenda

As fabricantes de bebidas alcoólicas estão mergulhando de cabeça no universo da maconha. Nos últimos meses, executivos de empresas como AB InBev, Heineken, Coca-Cola e Diageo deixaram suas bebidas tradicionais de lado e foram entender como funciona esse universo. Segundo o jornal canadense The Globe and Mail, as companhias começaram uma aproximação com algumas das principais produtoras de Cannabis do Canadá.

Representantes das multinacionais do setor de bebidas realizaram diversos tours nas instalações das empresas canadenses de marijuana e têm feito reuniões com os executivos dessas empresas. Não é à toa. Em outubro, o país deve legalizar o uso recreativo da planta, dando tração a um mercado que já movimenta globalmente US$ 20 bilhões por ano.

Além disso, há claramente um temor das fabricantes em relação aos impactos do crescimento do mercado de Cannabis legal no negócio de bebidas alcoólicas.

#PraCegoVer: Fotografia de duas latas recheado de flores de cannabis de uma bebida feita com Infusão de maconha desenvolvida pela Heineken em parceria com a Canna Craft, produtora de maconha da Califórnia

O namoro entre os dois setores não é de hoje. A Constellation Brands, que fabrica a Corona nos Estados Unidos, investiu no ano passado US$ 191 milhões em uma fatia de 9,9% da canadense Canopy Growth. Há duas semanas, ela intensificou a aposta. Por mais US$ 4 bilhões, aumentou a participação para 38% – e, pelo acordo, tem a opção de comprar mais 139,7 milhões de ações nos próximos três anos.
Caso decida exercer o direito, sua fatia na canadense subiria para mais de 50%, garantindo o controle da empresa, e ela teria que desembolsar outros US$ 5 bilhões.

A intenção das duas empresas com a união é clara. A Canopy e a Constellation estão desenvolvendo bebidas feitas à base da planta – como infusões com THC e CBD – e querem, após a legalização do uso recreativo, inundar o Canadá com esses produtos.

“Essas bebidas não terão calorias e farão você se sentir animado”, garantiu Bruce Linton, CEO da Canopy, em entrevista à CNBC. “Estamos falando de ir em um bar e tomar uma ‘tweed and tonic’ (como esse tipo de bebida tem sido chamado).” Ele acrescentou ainda que os produtos poderão ter 80 misturas potenciais diferentes com canabinóides.

A Heineken tomou a dianteira e já oferece, desde o mês passado, um produto semelhante – em alguns mercados específicos – por meio de sua marca Lagunitas (uma joint venture com a CannaCraft, produtora de maconha da Califórnia). A americana Molson Coors também está se movimentando e fechou em agosto uma joint venture com a canadense The Hydropothecary Corporation, para buscar oportunidades nesse segmento.

A incursão das fabricantes de bebidas no universo da maconha não é difícil de entender. Enquanto o consumo da planta tem disparado nos últimos anos, principalmente entre os jovens, o uso de bebidas alcoólicas segue uma trajetória constante de queda, nos principais mercados do mundo.

Nos últimos cinco anos, as vendas de cervejas caíram mais de 12% na América do Norte, segundo um estudo da consultoria Euromonitor. As previsões também não são nada animadoras. Até 2022, a expectativa é de um recuo de mais 14%. Enquanto as duas indústrias trazem alguns aspectos complementares, como a produção de produtos híbridos, há também um fator claro de substituição, que impacta as bebidas. Isso porque alguns consumidores deixam de usar bebidas alcoólicas quando estão consumindo maconha.

A maior parte das oportunidades na indústria de marijuana se encontra no Canadá, onde o setor encontrou um terreno fértil, em termos regulatórios e legais, para crescer. Mas, nos Estados Unidos, há também um mercado em ebulição. Nove estados já permitem o uso recreativo da Cannabis e 30, o medicinal. Até 2020, a previsão da Euromonitor é que o mercado legal de maconha movimente mais de US$ 16 bilhões só nos Estados Unidos.

Por enquanto, quem investiu nessa indústria já percebeu que a história é séria: as ações das empresas de maconha têm decolado nos últimos anos. O Marijuana Index, que acompanha a evolução dos papéis de 35 companhias listadas nas bolsas do Canadá e dos Estados Unidos, valorizou mais de 500% do início de 2016 até hoje. E, com o avanço na legalização da planta em cada vez mais mercados, a tendência é que esse crescimento continue. As fabricantes de bebida também querem surfar nessa onda.

Fonte: Smoke Buddies
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“Impostos ao pecado”

O que são os “impostos ao pecado” (e porque causam tanta polêmica no mundo)

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El tabaco mata a más de 7 millones de personas al año, según la OMS, que considera que los impuestos al tabaco son el medio más eficaz para reducir el consumo.

Qué son los “impuestos al pecado” (y por qué causan tanta polémica en el mundo)

Un alza de impuestos siempre genera polémica. Pero cuando los países aplican los “impuestos al pecado”, la discusión suele ir mucho más allá de los argumentos meramente económicos.

Conocidos también como los impuestos a los vicios, se trata de gravámenes que afectan productos considerados negativos para la salud, como el alcohol, el tabaco y el azúcar.

Los defensores de esta carga tributaria argumentan que reduce prácticas nocivas a nivel individual y social y, además, contribuye con recursos a las arcas fiscales.

“Los impuestos al pecado son una herramienta importante para combatir problemas sociales“, le dice a BBC Mundo Jonathan Gruber, economista del Massachusetts Institute of Technology (MIT).

“Está demostrado que la gente fuma menos cuando suben los precios”, afirma.

De hecho, el gobierno francés anunció el mes pasado que subirá el impuesto al tabaco, dado que en otros países, como Reino Unido, la política ha funcionado.

La cajetilla de 20 cigarrillos que actualmente vale cerca de US$8, llegará a casi US$12 en los próximos tres años.

Delicious sweets on candy buffet

Las bebidas y alimentos azucarados también han sido objeto de nuevos impuestos.

Según la Organización Mundial de la Salud (OMS), el tabaco mata a más de 7 millones de personas al año, de las cuales más de 6 millones son consumidores directos y alrededor de 890.000 son personas que no fuman, pero que han estado expuestas al humo ajeno.

“Los impuestos al tabaco son el medio más eficaz para reducir el consumo, especialmente entre los jóvenes y los pobres”, dice también el organismo.

De acuerdo a sus estudios, un 10% de aumento en el gravamen reduce el consumo de tabaco aproximadamente 4% en los países de ingresos altos y 5% en los países de ingresos bajos o medios.

El dulce ejemplo latinoamericano

El impuesto al azúcar, como forma de combatir la obesidad, es otro ejemplo de “pecado” que ha sido merecedor de impuestos especiales.

Y aunque en el mundo se han registrado experiencias de todo tipo, pero en América Latina, suelen destacarse los casos de Chile y México para defender los resultados de la mayor carga tributaria.

pec 1,2México aprobó un impuesto a los refrescos azucarados en 2014.

Un estudio de la Universidad de Chile señala que desde 2014 -año en que se aprobó un impuesto a las bebidas azucaradas- su consumo se redujo 22% en el país.

Y en México, un país con alta obesidad y diabetes que también aprobó un impuesto sobre refrescos azucarados en 2014, el consumo total de las gaseosas bajó 12% en el primer año de su implementación.

Por lo demás, recientemente Perú aumentó el impuesto a cervezas, gaseosas, cigarros y combustibles porque el costo social por enfermedades asociadas al consumo de esos productos, equivale a cerca del 11% del PBI anual, según el gobierno.

Carbonated drink poured into a glass

Perú acaba de subir impuestos a las cervezas, gaseosas, cigarros y combustibles.

Y, en lo que alimentos se refiere, aparte del azúcar los impuestos selectivos también se han aplicado en algunos países a los alimentos con mucha grasa dañina para la salud.

Eso ocurrió en Dinamarca en 2011. Pero un año después el gobierno lo eliminó al constatar que muchas personas simplemente compraban mantequilla en Alemania o Suecia.

Mientras que Escocia se convirtió a inicios de año en el primer país del mundo en implementar un precio mínimo para la venta de alcohol, para tratar de combatir sus problemas de bebida.

Pero no todos están de acuerdo con este tipo de políticas.

“Incentiva el mercado negro”

Efectivamente, el debate sobre los impuestos al pecado habitualmente apunta en dos direcciones: el daño que los productos generan en las personas y el costo que le provoca a la sociedad, lo que los economistas llaman “externalidades negativas”.

Pero los que se oponen a este tipo de medidas argumentan que en la práctica, el alza de impuestos genera contrabando y discrimina a las personas con menores ingresos porque ellos gastan una parte mayor de su salario en los productos gravados.

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Para algunos expertos, los impuestos al pecado pueden estimular la aparición de mercados negros.

“Estos impuestos castigan a los más pobres“, le dice a BBC Mundo Chris Snowdon, investigador del Institute of Economic Affairs en Londres.

“Mi objeción es que son regresivos y discriminan contra la gente basándose en las opciones de estilo de vida”, explica.

Un impuesto regresivo es aquel que golpea más duro a las familias con menos recursos económicos y en este sentido, los impuestos al pecado son injustos porque los más pobres tienden a gastar más en alcohol, en tabaco y en bebidas azucaradas como porcentaje de sus ingresos, argumenta Snowdon.

Y esa no es la única razón por la que el economista se opone a estos impuestos.

“No logran sus objetivos paternalistas muy eficazmente, salvo que los productos sean gravados a una alta tasa punitiva, lo que incentiva elmercado negro“, advierte Snowdon, para quien estos impuestos también atentan contra la libertad individual de las personas.

Y ante los argumentos de salud, también hay economistas que dicen que en realidad, los que contraen enfermedades crónicas producto del alcohol, el tabaco o el exceso de azúcar, no implican un costo tan elevado para el sistema de salud de los países porque mueren antes y cobran menos pensiones.

pec 2México ha intentado combatir su problema de obesidad con un impuesto a las bebidas azucaradas.

Otros expertos, sin embargo, defienden la estrategia.

“Los beneficios de los impuestos dependen del perfil del consumo en cada país”, explica Rachel Nugent, coordinadora del grupo de trabajo sobre enfermedades crónicas de la revista médica The Lancet, que publicó varias investigaciones sobre el tema.

“Y los más pobres no siempre son necesariamente los más afectados por estos impuestos”, asegura, explicando que los grupos vulnerables se benefician de este tipo de tributos porque bajan el consumo y retrasan la aparición de enfermedades crónicas.

Hay también lugares como Filadelfia, en Estados Unidos, que utilizan el dinero recolectado a partir del impuesto al azúcar en programas sociales, como una forma de mitigar el efecto regresivo.

Y para John Cawley, economista de la Universidad de Cornell, bebedores, fumadores y consumidores de mucha azúcar ponen presión en el sistema de salud y por lo tanto, generan efectos negativas de los que tiene que hacerse cargo toda la sociedad en su conjunto.

“Creo que deberíamos poner impuestos a las cosas que le generan costos a la sociedad”, le dijo a BBC Mundo.

Fonte: BBC Mundo
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Beber álcool moderadamente também faz mal para a saúde

Más notícias para quem pensava que era “saudável” uma taça de vinho por dia: até beber moderadamente faz mal para a saúde.copa1

Ni una copa al día: esto dice sobre el alcohol el mayor estudio sobre enfermedades del mundo

Entre los mayores de 50 años, el 27% de las muertes por cáncer entre las mujeres y el 19% de las de los hombres está vinculado al consumo de alcohol.

Malas noticias para quienes disfrutan de lo que pensaban que era una “saludable” copa de vino al día: hasta beber moderadamente es malo para la salud.

Esa es la advertencia de los autores de un gran estudio global publicado en la prestigiosa revista The Lancet, que confirma lo que algunos estudios anteriores ya habían apuntado: que ningún nivel de consumo de alcohol puede ser considerado saludable.

El estudio Global Burden of Disease es la mayor y más detallada investigación sobre las causas de enfermedad y muerte en el mundo, y sus datos analizan también los niveles de consumo de alcohol y su impacto sobre la salud de la población en 195 países.

En 2016 tomar alcohol fue el principal factor de riesgo de muerte prematura y discapacidad para las personas entre los 15 y los 49 años y su consumo está ligado a la décima parte de todas las muertes de ese grupo demográfico.

Por eso si bien los investigadores admiten que beber moderadamente puede proteger ligeramente de algunas cardiopatías, (como señalaron algunos estudios en el pasado), los riesgos combinados de desarrollar cáncer, lesiones y otras enfermedades asociadas al consumo de alcohol superan ampliamente esos posibles beneficios.

“Ningún límite es seguro”

“Aunque los riesgos para la salud asociados al alcohol cuando consumes una bebida al día son muy bajos, aumentan rápidamente al beber más“, le dijo a la BBC el autor líder del estudio, el doctor Max Griswold, de la Universidad de Washington, en Seattle.

“Estudios anteriores encontraron un efecto positivo del alcohol para algunas cardiopatías, pero nosotros descubrimos que, combinados, los riesgos para la salud asociados al alcohol aumentan con cualquier cantidad consumida”, por baja que sea, dijo.

“Este informe demuestra que ningún límite es seguro“, dijo Sonia Saxena, una de las autoras del estudio.

Según la académica, las recomendaciones de las instituciones de salud pública deben actualizarse y los gobiernos deberían repensar sus políticas.

“Si vas a beber, edúcate sobre los riesgos, y toma una decisión bien informada”, recomienda.

Las cifras del “riesgo”

El estudio fue llevado a cabo por investigadores del Institute of Health Metrics and Evaluation, de la Universidad de Washington.

Según Saxena esta es una de las investigaciones más importantes y detalladas jamás realizadas sobre el tema.

Los académicos analizaron los niveles de consumo de alcohol y su impacto para la salud en 195 países, entre 1990 y 2016 y para edades comprendidas entre los 15 y los 95 años.

Usaron información de casi 700 estudios para entender cuán común es la práctica de beber alcohol y de otros casi 600 para medir los riesgos para la salud. En total se estima que consideraron datos de unos 28 millones de personas de todo el mundo.

Y así pudieron comparar la salud de la gente abstemia con la de la gente que toma distintas cantidades de alcohol al día.

Se estima que en el mundo una de cada tres personas bebe alcohol. En términos globales, lo consume el 25% de las mujeres y el 39% de los hombres.

Entre los jóvenes, el riesgo para la salud de tomar una bebida al día es solo ligeramente superior a la abstención, un 0.5%.

Pero ese riesgo se incrementa rápidamente con un consumo más elevado del alcohol, un 7% para quienes toman dos bebidas al día y un 37% para quienes toman cinco.

Una bebida alcohólica fue definida como 10g de alcohol, que equivale a una pequeña copa de vino, a una lata o botella de cerveza o a una medida estándar de licor fuerte.

El estudio encontró que a nivel global entre los mayores de 50 años, el 27% de las muertes por cáncer entre las mujeres y el 19% de las de los hombres estaba vinculado al consumo de alcohol.

Entre la población más joven el mayor riesgo de muerte vinculada al consumo de alcohol es la tuberculosis (1,4% de las muertes), los accidentes de tráfico (1,2%) y las autolesiones (1,1%).

Un matiz

Si bien el abuso del alcohol es un grave problema de salud a nivel global, hay quien pide tomar cierta perspectiva ante estos resultados.

El profesor David Spiegelhalter, profesor de percepción pública del riesgo en la Universidad de Cambridge, hace un matiz sobre las conclusiones de los académicos.

“Dado el placer presuntamente asociado al consumo moderado de alcohol, decir que no hay ningún nivel ‘seguro’ no parece ser un argumento para la abstención“, comentó el académico, que no estuvo involucrado en el estudio.
“Ningún nivel de conducción es seguro, pero el gobierno no le recomienda a la gente que no conduzca”, ejemplificó.

“Si lo piensas bien, ninguna manera de vivir tiene un nivel seguro, pero nadie recomendaría abstenerse de ello”, concluyó.

Fonte: Animal Político
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Cancelada pesquisa sobre o uso de alcool patrocinada pela indústria de bebidas

Estados Unidos cancelou o financiamento do maior estudo sobre consumo de álcool jamais realizado.

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   Uma história de conflito de interesses

O NIH ( National Institutes of Health), que reúne institutos nacionais de saúde e é vinculado ao governo dos Estados Unidos, anunciou na sexta sua decisão de cancelar o financiamento do maior estudo sobre consumo de álcool jamais realizado. É que a pesquisa estava sendo considerada suspeita mesmo antes de começar pra valer. A fundação do NIH recorreu à indústria de bebidas para financiá-la.

A ideia era acompanhar pessoas que bebem uma vez por dia com as abstinentes para descobrir se afirmações como “uma taça de vinho no jantar faz bem” são verdadeiras ou não. Pela primeira vez, isso seria feito em grande escala: a ideia era testar sete mil pessoas escolhidas aleatoriamente em quatro continentes do planeta. E com elas consumindo as bebidas de sua escolha por seis anos seguidos (estudos anteriores, bem menores, encontraram dificuldades no engajamento do público por obrigarem as pessoas a beber o que não queriam, tipo compostos alcóolicos preparados pelos cientistas). Cinco empresas, entre elas as multinacionais InBev* e Heineken, toparam doar as bebidas, poupando ao estudo um custo de US$ 67 milhões. Com isso, se tornaram as maiores financiadoras da pesquisa que custava US$ 100 milhões.

Mas a participação das empresas nem sempre foi informada pelo instituto que coordena o estudo, o NIAAA (National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism), aos seus parceiros ao redor do mundo. E o pesquisador-chefe e professor de Harvard Kenneth Mukamal negou para repórteres da Wired e do New York Times ano passado que soubesse desse financiamento – mas eis que um pesquisador da África do Sul tornou pública uma troca de e-mails com Mukamal de dois anos atrás em que justifica sua recusa em participar do estudo por conta do conflito de interesses. Outras trocas de e-mail vazaram, mostrando que Mukamal chegou a discutir a metodologia da pesquisa com a InBev e a Diageo**.

Por fim, um vídeo mostrou diretores do NIH fazendo propaganda para um projeto da InBev durante uma reunião da empresa. A repercussão de tudo isso foi enorme na comunidade científica. E isso fez com que o NIH abrisse a investigação que levou à decisão de cancelar o estudo. Mas a instituição vai levar muito tempo para recuperar sua imagem, dizem pesquisadores.

*A Anheuser-Busch InBev é uma empresa multinacional belgo-brasileira de bebidas e cervejas formada em 2004 pela fusão da belga Interbrew e da brasileira Ambev.

**Diageo plc é do Reino Unido, a maior fabricante de bebidas destiladas do mundo.

 

Fonte: Outra Saúde
Por: Raquel Torres Gurgel
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Indústria do álcool não quer a concorrência da maconha legalizada

A cervejaria norte-americana Molson Coors divulgou no começo do ano que considerava o advento da maconha legalizada um grave risco para seus negócios.

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A batalha contra a legalização nos estados norte-americanos tem muitas atores, e um deles é a indústria de bebidas

  Maconha: por que a indústria do álcool parece não querer a legalização

Quando a cervejaria norte-americana Molson Coors divulgou no começo do ano que considerava o advento da maconha legalizada um grave risco para seus negócios, o que a empresa estava fazendo era marcar posição em um dos lados de um debate acirrado, que vem acompanhando o movimento pela retirada da maconha da obscuridade para o mundo dos bens de consumo tributados e regulados.

No Colorado, o estado norte-americano pioneiro na legalização, os defensores centralizaram sua campanha no argumento de que a maconha seria muito mais segura que o álcool, e por isso deveria ser tratada pelo menos de forma semelhante.

O argumento, no entanto, se torna inócuo se a maconha for um complemento para o álcool em vez de um substituto, isto é: se fumar fizer você beber mais, não faz diferença se ficar doidão for mais seguro que ficar bêbado.

Como o governo federal dos EUA vem há bastante tempo negando recursos para pesquisas sobre a cannabis, ainda há muito a se aprender, mas os resultados iniciais parecem indicar que o que se intuía era verdade: a maconha é um substituto não apenas para o álcool, mas também para os opiáceos.

“Embora ainda não se conheça o impacto final disso, o surgimento de cannabis legalizada em alguns estados dos EUA e do Canadá pode resultar em um afastamento da renda discricionária em relação aos nosso produtos ou em uma mudança nas preferências dos consumidores em prejuízo da cerveja”, alertou em seu documento a Molson Coors Brewing Company.

Mas a indústria de bebidas alcoólicas tampouco está ignorando a ameaça. Diversas empresas da área de bebidas, além de organizações do setor, ajudaram a financiar campanhas contra as iniciativas de legalização da maconha, o que indica que devem estar suficientemente convencidas dessa teoria para gastar dinheiro com ela.

Fiz uma análise preliminar sobre a venda de bebidas alcoólicas no Oregon, e os resultados indicam que as preocupações da indústria podem ter seus méritos, e que a maconha legalizada pode realmente estar fazendo as pessoas consumirem menos álcool.

A forma como o uso recreativo da maconha impacta o consumo de álcool pode ser a consequência mais importante da legalização em termos financeiros e de saúde pública. Embora o uso de maconha não esteja isento de problemas, o álcool é responsável por aproximadamente 88 mil mortes por ano nos Estados Unidos, e estima-se que o consumo excessivo crie um custo econômico de cerca de 250 bilhões de dólares.

Os eleitores do estado do Oregon decidiram pela legalização da maconha em 2014, por meio da Medida 91. Em outubro de 2015 o estado começou a permitir vendas para uso recreativo a adultos maiores de 21 anos, mas as cidades e os condados tinham a prerrogativa de impedir esse tipo de comércio; por isso, em alguns lugares essa modalidade de venda continuou proibida. Tal fato possibilita comparar as vendas de bebida alcoólica entre as partes do estado onde há lojas de maconha para uso recreativo e aquelas onde elas não existem, com base em dados da Comissão de Controle de Bebida do Oregon (Oregon Liquor Control Commission, OLCC).

Nessa análise, os municípios do Oregon foram divididos em dois grupos: cidades onde havia pelo menos uma loja que vendia maconha para uso recreativo durante o ano fiscal de 2017 da OLCC (do meio de 2016 ao meio de 2017), e cidades onde nunca havia sido vendida maconha para uso recreativo até julho de 2017. Os dados das lojas se baseiam nas informações obtidas da Autoridade de Saúde do Oregon e da OLCC.

Nos anos fiscais de 2016 e 2017, o total das vendas de bebidas alcoólicas nas cidades onde havia também venda de maconha para uso recreativo aumentou apenas 4,17%. Em comparação, nas cidades onde não havia lojas de maconha, o total das vendas de bebidas alcoólicas aumentou 5,86%. Embora a diferença absoluta seja pequena, foi a maior distância entre as taxas desses dois grupos ao longo de quatorze anos. Nos anos anteriores, o crescimento havia sido bastante próximo.

É claro que outros fatores podem ter estado em jogo, e trata-se apenas de dados relativos ao período de um ano. As cidades que permitem a venda de maconha tendem a ser mais liberais. Além disso, um grande número de habitantes do Oregon vivem perto da fronteira com o estado de Washington, que privatizou a venda de bebida alcoólica em 2012 e deu início à venda de maconha para uso recreativo em 2014. Ainda assim, a nítida divergência que se mostrou depois do primeiro ano fiscal completo de venda de maconha para uso recreativo é um resultado intrigante – em especial quando combinado com outros estudos que mostram que as pessoas podem estar substituindo outras drogas por maconha.

Embora os esforços para estudar esse assunto estejam intrinsecamente limitados pelo fato de que a maconha só foi legalizada recentemente e em poucos lugares, já existem estudos indicando que a aprovação estadual do uso da maconha para fins medicinais esteve associado a uma redução de 15% nas vendas de álcool. A pesquisa examinou as vendas de álcool em condados antes e depois da adoção da maconha para uso medicinal e as comparou com as vendas em condados vizinhos e em outros estados. Um relatório recente da Cowen Research concluiu, de forma semelhante, que os episódios de consumo excessivo de álcool eram menos comuns nos estados que haviam legalizado a maconha.

Outras pesquisas sobre o tema tiveram resultados mais variados. Um estudo da organização Rand concluiu que a maconha para uso medicinal estava associada a um discreto aumento nas mortes relacionadas à intoxicação por álcool em pessoas abaixo de 21 anos, mas também a uma redução de maior proporção da mortalidade relacionada ao álcool e aos opiáceos em adultos mais velhos.

Alguns estudos também concluíram que os estados onde existe distribuição de maconha para uso medicinal tiveram uma redução relativa no número de mortes ligadas ao uso de opiáceos. Isso parece indicar que a maconha também substitui outras substâncias mais perigosas, além do álcool. Apenas este mês, dois novos estudos foram publicados na revista JAMA Internal Medicine. Um deles constatou que a existência de legislação regulando o uso de maconha por adultos estava associada a uma taxa de prescrição de opiáceos 6,38% menor entre os pacientes com Medicaid (programa de saúde americano para pessoas de baixa renda). Os demais detectaram uma redução no número de receitas de opiáceos registradas pelos pacientes com Medicare (seguro de saúde público destinado a idosos dos EUA) depois que a maconha para uso medicinal passou a ser distribuída em seus estados.

Importante destacar que no estado do Oregon só existem dados referentes ao período de um ano, e que seria razoável imaginar que o efeito de substituição fosse relativamente pequeno, a princípio. Hábitos e vícios são por essência comportamentos refratários à mudança. Na hipótese de que haja um efeito de substituição em curso, não seria exatamente de se esperar que consumidores de álcool em grande doses imediatamente se tornassem usuários de cannabis. O mais provável, na verdade, é que algumas pessoas com potencial para se tornarem grandes consumidores de álcool passem, em vez disso, a usar cannabis.

Essa análise se baseia apenas em dados preliminares, mas destaca uma questão de grande interesse. Serão necessários muitos anos para reunir dados suficientes para atingir conclusões definitivas sobre o impacto da plena legalização, mas a comparação entre as cidades nos estados de Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts que decidiram permitir a venda de maconha para uso recreativo, e aquelas que não o fizeram pode se mostrar uma fonte muito útil de informação.

Embora os estados do Colorado e de Washington tenham sido tecnicamente os primeiros a legalizar a maconha, ambos já possuíam há anos sistemas de distribuição de maconha para uso medicinal, que facilitavam o acesso pela população por meio de jardins coletivos ou dispensários. Seria difícil separar o impacto de uma legislação já muito liberal em relação à maconha de uso medicinal do impacto da maconha de uso recreativo. Já Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts tinham distribuição muito restrita de maconha de uso medicinal, ou apenas por curtos períodos, antes da legalização.

Em vários estados, os governos que estão decidindo como lidar com a maconha de uso recreativo estão indiretamente fazendo parte de um enorme experimento natural. O potencial resultado pode impactar as políticas relativas à maconha, ao álcool e à saúde pública ainda por muitos anos.

Fonte: Outra Saúde
Por: Raquel Torres Gurgel
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