O sono, a patologia, a pressão social, econômica e política

Conseguir que pessoas fiquem acordadas e funcionais por 85 horas seguidas ou que produzam e / ou consumam 24 horas por dia, 7 dias por semana.

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Pílulas já no mercado e pesquisas que parecem ficção científica: a quem interessa um mundo que não dorme?

                O sequestro do sono

Quando o fisioterapeuta Bruno* usou um medicamento que o deixou ‘ligado’ pela primeira vez, três anos atrás, sua intenção era dirigir por uma longa distância sem ficar cansado. Aprovou. “Consegui ficar focado no volante durante oito horas sem parar”, diz ele. A droga usada foi o modafinil, produzido e vendido no Brasil pela Libbs, com o nome Stavigile. De venda controlada, ele é aprovado para tratar a narcolepsia, um distúrbio que faz a pessoa ficar extremamente sonolenta durante o dia, mesmo que tenha dormido bem à noite — e o sono vem inclusive em momentos estranhos, como durante conversas, consultas ou almoços. Nunca fui o caso de Bruno.

Bem longe dele, forças armadas em países desenvolvidos querem manter despertos seus combatentes, e isso não é nenhum segredo de Estado. Anfetaminas e outras drogas são velhas conhecidas de soldados (veja aqui e aqui); ainda em 2004, o jornal inglês The Guardian revelou que militares americanos faziam pesquisas com o modafinil e já tinham conseguido que pessoas ficassem acordadas e funcionais por 85 horas seguidas.

Há várias outras pesquisas bélicas com esse mesmo objetivo. No livro 24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, Jonathan Crary fala de testes que incluem substâncias diversas, terapia genética e até estimulação magnética transcraniana. O que o autor afirma, porém, é que a distância que separa o uso dessas drogas por civis e militares é apenas aparente. “A história mostra que inovações relacionadas à guerra são inevitavelmente assimiladas na esfera social mais ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador ou do consumidor sem sono”, escreve.

Para ele, o sono é uma espécie de resistência contra o capitalismo: a última barreira natural que o sistema não consegue transpor. Se conseguisse, a produção e o consumo 24 horas por dia, 7 dias por semana — daí o título do livro — estaria concretizada.

oso2Crédito: Christopher Morales, Forças Aéreas dos EUA

Boom

Voltemos a Bruno. Depois da primeira experiência, ele continuou testando remédios parecidos, mas com outra finalidade: conseguir estudar muitas horas seguidas para prestar concursos públicos. É que, fora da perda do sono, outro efeito das drogas procuradas por ele é o de aumentar o foco. Além do Stavigile, já fizeram parte da sua vida a Ritalina e o Venvanse, ambos controlados e indicados para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), principalmente em crianças. O fisioterapeuta faz parte de um crescente grupo de estudantes e trabalhadores ao redor do mundo que, mesmo sem nenhum diagnóstico, se automedica para produzir mais.

Algumas pesquisas feitas no Brasil mostram dados sobre a procura e o consumo desses medicamentos, especialmente o metilfenidato, substância que compõe a Ritalina e o Concerta. Neste estudo, publicado em 2014, foram entrevistados estudantes de medicina de uma universidade no Rio Grande do Sul e 23% deles já tinham usado essas drogas sem prescrição; este outro também ouviu alunos de medicina, mas no Tocantins, e o resultado foi semelhante: 24,5%; mais um, feito no Paraná com alunos de um cursinho para concursos, encontrou um percentual de 28,5%.

A psicóloga Cristiana Siqueira estuda o tema e, durante o mestrado, fez uma série de entrevistas que incluíram psiquiatras e usuários. “É interessante porque duas pessoas que eu entrevistei se referiram ao uso crescente de Ritalina no Brasil como sendo uma espécie de ‘americanização’ da nossa vida”, lembra. De fato, o fenômeno tem sido discutido há bastante tempo nos Estados Unidos, onde o grande procurado é o Adderall, também usado para TDAH (mas proibido no Brasil). O remédio entrou no país em 1996 e, de acordo com esta matéria do New York Times, vem substituindo a Ritalina em muitos casos. Em 2004, diz o texto, medicamentos estimulantes já eram a segunda droga mais comum nos colégios norte-americanos.

oso3Imagem: Flickr

Anfetaminas são usadas há quase cem anos (e tanto a Ritalina quanto o Adderall são relacionados a elas), e também não é novidade ouvir falar em trabalhadores das mais diversas categorias que consomem drogas como a cocaína para se manterem acordados. Mas é difícil estabelecer quando e por que este boom no consumo de remédios começou.

Cristiana acha que, em parte, isso pode estar associado à própria disseminação de informações sobre TDAH. Os médicos entrevistados por ela para sua dissertação de mestrado dizem que algumas pessoas chegam ao consultório pedindo diretamente os remédios, mas várias outras vêm com um “discurso pronto” sobre seus sintomas. “Às vezes as pessoas querem deliberadamente forçar o diagnóstico, então estudam os sintomas e, na consulta, fazem relatos deles. Mas nem todo mundo chega com a ideia de ‘enganar’ o médico. Como me disse um dos psiquiatras entrevistados, há pessoas que leem sobre os sintomas e colhem na sua história de vida lembranças dispersas — de que não iam bem no colégio, por exemplo — e de certa forma se convencem de que sempre tiveram TDAH”, comenta ela.

Um problema é que não existe nenhum exame de sangue ou de imagem para o diagnóstico de TDAH, que é feito a partir de conversas com as crianças e adolescentes, além de familiares e professores, em busca um conjunto de sintomas. “Mas não bastam os sintomas”, explica o professor Marcelo Victor, do Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ProDAH/UFRGS). “É preciso que exista também um comprometimento do funcionamento psicossocial da criança. Isso quer dizer que muita gente pode ter os sintomas, mas não o transtorno”, diz ele, explicando melhor: “É preciso avaliar a continuidade deles ao longo de vários meses, até porque alguns podem ser devidos a outras condições, como uso de drogas”.

O fato é que, com ou sem TDAH, não é difícil conseguir os remédios. Em vários grupos na internet, é possível comprá-los ilegal, mas abertamente. Bruno, que abriu esta reportagem, disse ter um parente da indústria farmacêutica que conhece vários médicos e consegue receitas. “Acabo comprando dele”, conta. Também há muitas pessoas dão dicas de psiquiatras que ‘facilitam as coisas’ e prescrevem medicamentos mesmo não diagnosticando doença alguma. Das três usuárias entrevistadas por Cristiana, nenhuma tem diagnóstico de doenças ou transtornos mentais, mas todas compram legalmente, com receitas de seus médicos.

Pílulas da inteligência… São mesmo?

Cristiana ressalta que, embora por aqui a propaganda desses remédios não seja permitida, a gente acaba sabendo deles de outras formas, como em reportagens e até mesmo seriados. E ela conta também que, há cerca de dez anos, começaram a pipocar várias matérias que descreviam, muitas vezes com manchetes entusiastas, usos não autorizados desses medicamentos estimulantes. “Há capas de revistas e manchetes com expressões como: ‘`pílulas da inteligência’, ou remédios que ‘turbinam o cérebro’, com imagens de pílulas com um cérebro dentro”, diz.

De acordo com ela, essa onda de matérias veio a partir da publicação de artigos na revista científica Nature, em 2008 e 2009, em que os autores defendiam a regulamentação do uso de remédios para fins de ‘aprimoramento cognitivo’ — isso porque alguns pesquisadores acreditam que as drogas podem melhorar a compreensão e o aprendizado, embora não haja nenhum consenso na comunidade científica.

oso4Cada vez mais gente se automedica para dormir pouco e render muito

O próprio Bruno diz não ter observado nada nesse sentido: “Elas só restringem a atenção”, diz. Sarah Noronha, que tem 25 anos e foi diagnosticada com TDAH aos 17, concorda. “Não acho que tenha efeitos além de tirar o sono e deixar a pessoa desperta. Diferente do que ‘concurseiros’ pensam, a medicação não ajuda a pessoa a aprender mais. Ela só vai aguentar mais tempo estudando”, diz.

Segundo Marcelo Victor, algumas análises com pesquisas já realizadas mostram que esses remédios podem melhorar “um pouco, não muito” o desempenho de pessoas saudáveis. “Depende da pesquisa”, diz ele.

Onde termina o tratamento e começa o aprimoramento?

Mas mesmo o uso de estimulantes no caso de TDAH — e o próprio diagnóstico da doença — vêm sendo discutidos exaustivamente, tanto pela comunidade científica quando por pessoas leigas. A Ritalina chega a ser descrita como “droga a obediência”, responsável por manter focadas e controladas crianças cujo comportamento, na verdade, seria normal, apenas inconveniente para os pais e professores.

E Cristiana traz informações no mínimo intrigantes. Os psiquiatras entrevistados por ela relatam que normalmente o que leva crianças ao consultório é um rendimento escolar considerado baixo, algo que com frequência é apontado pelas próprias escolas. E mais: eles afirmam que sugerem a suspensão ou a diminuição da dose nos fins de semana e nas férias escolares, como medida para minimizar os efeitos colaterais.

Mesmo Marcelo Victor reconhece que os prejuízos sentidos pelos pacientes dependem muito do ambiente externo. De acordo com ele, para algumas pessoas é preciso manter o medicamento o tempo inteiro, mas para outras, não. “Em alguns casos, a vida social e familiar da criança não é prejudicada pelo transtorno. De repente ela tem em casa uma mãe que é mais atenta, um manejo familiar que é diferente do da escola”, diz. E afirma ainda que “o transtorno aparece mais quando a pessoa é exigida”, quando precisa cumprir uma tarefa da qual não goste e que exija atenção. “Se ela gosta de videogame e você a coloca para jogar videogame, pode tirar o remédio dela. O jogo dá prazer, foca, estimula, ela pode ficar horas jogando videogame, e focada. Mas, quando vai para uma questão de matemática, fica cinco minutos e não consegue mais focar, se atrapalha. Porque é algo aborrecido para ela, pouco atraente”. Mas ele não diz que a doença de fato não exista. “As crianças sem o transtorno conseguem dizer: ‘agora preciso me concentrar nisso para aprender’, e as com TDAH, não”, compara. Para ele, trata-se principalmente de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

A questão é delicada. “Não estou negando que haja crianças que possam efetivamente ter algum transtorno, mas acho que o que está muito em jogo é o modo como essas crianças têm sido demandadas. Temos um sistema educacional que preza pela competitividade, pelo ranqueamento”, diz Cristiana.

oso5Em geral, crianças são diagnosticadas com TDAH após queixas de baixo rendimento escolar

Paralelos

É impossível não perceber uma relação entre o tratamento das crianças — devido principalmente ao seu baixo rendimento escolar — e o motivo que leva muitos adultos a buscarem medicação, ainda que sem diagnóstico. “Até os médicos com quem conversei têm dificuldade de estabelecer essa fronteira entre o que é patologia e o que é pressão social”, diz Cristiana.

Ela conta que quando perguntou a eles quais aspectos estavam possivelmente envolvidos no consumo off-label (ou seja, para usos não autorizados) da Ritalina, os psiquiatras mencionaram basicamente dois: “O primeiro é que há uma grande exigência social por performance, e as pessoas começam a se sentir fora da disputa, achando que o outro está consumindo algo a mais e elas estão ficando para trás. É uma espécie de coerção indireta: a pessoa se sente coagida a tomar o medicamento por saber que há outras tomando e rendendo mais. O segundo, no caso das crianças, é que não há uma rede comunitária e familiar para apoiá-las. Os pais estão desprotegidos, a escola diz que não tem mais o que fazer com a criança. É um desamparo”.

Na pesquisa de Cristiana, a pressão para dar conta de um excesso de atividades foi relatada pelas três usuárias entrevistadas. “Uma delas usava pontualmente, quando precisava escrever algum relatório grande, quando tinha prazos apertados no trabalho. Outra estava no doutorado e tomou Ritalina para escrever a tese — mas contou que não funcionou, ela não conseguiu. E a terceira não conseguia dar conta de todas as atividades do seu dia: ser mãe, cuidar da casa, trabalhar e estudar”. Uma das médicas também falou com ela sobre isso: “Me disse que muitas vezes vem uma demanda grande por todos os lados, não só de trabalho ou de estudo. A pessoa precisa dar conta de tudo, um tudo que parece ser grande demais, e acaba se direcionando para o medicamento”.

Livre escolha

Quando pergunto a Bruno até que ponto o uso desses remédios para estudar pode ser considerado de fato uma escolha, ele pausa por uns segundos e ri: “Essa pergunta é bem ideológica”, diz .

Sem dúvidas. O professor de filosofia André Brayner de Farias, da Universidade de Caxias do Sul, observa que a necessidade que muitas pessoas têm de abrir mão do sono, a pressão para render mais no trabalho e a sobrecarga do dia a dia estão diretamente relacionadas entre si — e com o capitalismo contemporâneo. Como Crary, ele acredita que o sono é um problema para o capitalismo, e não apenas porque paramos de produzir. “Quando dormimos, quando estamos ‘apagados’, de certa forma fugimos do controle que se abate sobre nós o tempo todo. Interrompemos o circuito de produção. Eu diria que o sono chega a ser hoje uma grande ferramenta política”, diz.

E explica melhor comentando aspectos da obra da filósofa alemã Hannah Arendt, que também é citada por Crary. “Ela traz um conceito de ‘natalidade’ e defende que essa é a base da nossa ação política. A natalidade se relaciona à nossa capacidade de nascer, de gerar crianças, de sair das trevas para a luz. Significa a dimensão do imponderável, do imprevisível. O que nasce é sempre algo que não estamos esperando. E essa autora diz que, quando agimos politicamente, é como se atualizássemos, nas nossas ações, o nosso nascimento. Porque a ação política tem justamente a ver com a nossa capacidade de realizar o imponderável, de dar espaço e tempo para o que é imprevisível. Isso é, por excelência, a forma de resistir”, diz o professor.

oso6Imagem: O pesadelo, de John Henry Fuseli

O sono seria, então, certa simulação dessa ideia, como se, ao dormir e acordar, simulássemos a morte e o renascimento: “É o sono, é a pausa, que nos devolve as forças. Quem acorda, nasce de novo. Ao renascer, surpreende o mundo. E isso é, de algum modo, uma ameaça.”

É claro que, mais e mais, o sono acaba se tornando, ele mesmo, produto de um consumo, se pensarmos na indução por medicamentos, por exemplo. “Este sono, de certa maneira, foi também capturado. É quando já estou tão transformado em máquina de produção que perdi a capacidade de apagar, e preciso ir à farmácia, comprar um remédio que, em muitos casos, vai me viciar”, analisa André, lembrando ainda que, além de já ser uma mercadoria, o remédio também pode atrapalhar os sonhos, “onde ‘visitamos’ territórios desconhecidos e paramos o mundo”.

Atualmente, a pesquisa de Cristiana está voltada justamente ao uso de remédios antidepressivos e indutores do sono: “É uma modulação do corpo produtivo”, diz a psicóloga, comentando o que disse um dos médicos que ela entrevistou, ainda para a dissertação: “Esse psiquiatra receitava Ritalina para uma paciente que, ele julgava, tinha TDAH. Depois de um ano, descobriu que ela se consultava em paralelo com outro médico e, com ele, obtinha receitas de Rivotril para dormir, porque a Ritalina lhe deixava insone. E assim ia gerenciando o sono”, lembra.

Para André, o sono induzido é “um passo na direção da vitória do capitalismo” nessa batalha pelo sono. “Mas ele só vence no dia em que a gente não não precisar mais dormir”, completa ele, ressaltando que, evidentemente, é preciso estar não apenas desperto, mas também produtivo. Cristiana, que está de acordo, comenta que, por enquanto, mesmo a garantia do sono talvez só esteja ancorada na ideia da produtividade, afinal, um corpo cansado não produz: “Existe a ideia de que é preciso dormir um determinado número de horas por dia… Para que possamos render bem”, pontua.

24/7

A necessidade de produção ininterrupta não é recente. No livro, Crary fala muito disso e exemplifica com empreitadas que parecem ter saído de um episódio de Black Mirror, mas que na verdade aconteceram no mundo real. Como um projeto europeu do fim dos anos 1990 que tinha como objetivo garantir que a luz do sol chegasse dia e noite a regiões metropolitanas inteiras, a partir de satélites que refletiriam essa luz para a Terra, para permitir o trabalho ao ar livre de noite. “Isso vem de muito tempo. Mas acho que estamos passando por um processo em que o sono vem sendo, pouco a pouco, minado”, acredita André.

Ele conta que vários dos seus alunos fazem uso regular de Ritalina e “estão convencidos de que é uma coisa boa”. Mas, quando fala de sucumbir à pressão por dormir pouco e render muito, André não está falando apenas dos ‘outros’: “Boa parte de nós acha que dormir é perda de tempo. Muitas vezes quem não usa os remédios também está completamente amarrado ao circuito de produção e tem o sono minado, ainda que seja crítico a isso”, diz, afirmando que este é o seu próprio caso (e é também o caso desta repórter). “É o projeto 24/7 se realizando, ou cada vez mais perto de se realizar”, reflete.

De acordo com o professor, o grande trunfo do capitalismo é que já não são só os donos dos meios de produção que nos cobram, mas também nós mesmos. “Isso acabou entrando na nossa vida, é algo que a gente faz hoje sem ninguém precisar mandar”, alerta.

oso7Um remédio para conseguir ficar desperto, outro para conseguir dormir: medicamentos modulando o corpo produtivo. Crédito: Alyssa L. Miller (Flickr)

E aí a questão da escolha individual volta a aparecer. Cristiana lembra que, naqueles artigos da Nature que defendiam a regulamentação de medicamentos para fins de aprimoramento cognitivo, os autores diziam justamente que o sujeito deveria ser livre para escolher tomar ou não essas drogas. “Mas essa escolha é feita a partir de um determinado contexto em que estamos inseridos, não é tão simples. A demanda está aí. A exigência por performance está aí. Estamos nesse mundo, essa é a sociedade à qual acabamos precisando nos adaptar. Nossas escolhas são balizadas por ela”, reflete a psicóloga, afirmando que, por isso mesmo, analisa a situação com o cuidado de não julgar usuários. “O fato é que os medicamentos existem, estão sendo procurados, precisamos entender e pôr em questão os motivos”.

André concorda: “Pensamos: minha atitude vai depender da minha escolha, eu é que tenho que escolher. Mas acontece que minha escolha não é um lugar puro e intocável dentro de mim. Escolho a partir de um histórico de informações, de uma educação, de uma cultura, de um condicionamento que cada um de nós recebe para ser capaz de escolher”, diz. Mas pontua: “É claro que posso examinar minha vida a cada instante, identificar o que interfere na minha escolha, fazer perguntas. Essa capacidade de se questionar e fazer perguntas significa que a gente ainda tem liberdade. E é isso que é, finalmente, fazer política em um sentido mais autêntico”.

Outros artifícios

Crary diz que no começo do século passado os adultos norte-americanos dormiam em média dez horas por noite; até pouco tempo atrás essa média era de oito horas (daí a afirmação de que passamos um terço da vida dormindo…) e, agora, é de apenas seis horas e meia. Mas remédios não são a única forma de minar o nosso sono, como lembra André: as novas tecnologias têm um papel importante nisso. “Talvez elas sejam até mais importantes nesse processo do que a própria medicalização. Ou, pelo menos, são forças de mesmo valor”, sugere.

De acordo com ele, estamos convencidos da necessidade de consumir informação o tempo inteiro, e isso tem constituído cada vez mais a nossa vida. “Vamos cada vez mais achar natural acordar de madrugada e checar o celular para ver se não tem nenhuma mensagem, nenhuma notícia importante. Ou levantar de manhã e conferir imediatamente o que está acontecendo”, exemplifica, completando: “É como se de fato não tivéssemos intervalo, não tivéssemos pausa. Exatamente o mesmo problema do sono”.

A conexão ininterrupta não significa só um consumo que não para mas, também, para muitos trabalhadores, uma jornada eterna. “Você sai do trabalho, mas ele continua te demandando. Não tem como você argumentar que não viu um email, porque todo mundo recebe alerta no celular, tem as redes sociais. Lembra que antigamente, de madrugada, a televisão parava, saía do ar? Hoje existe um mundo que funciona 24 horas por dia, e acho que tem muita gente que, se pudesse, não dormiria nunca”, diz Cristiane.

oso8Novas tecnologias possibilitam jornada quase eterna

Por mais que pareça paradoxal, ao mesmo tempo em que aumentam as distrações, aumenta a pressão por foco e rendimento. E os remédios não são a única estratégia para voltar aos eixos. Há muitos anos, fiz um curso de meditação que, descobri mais tarde, era replicado em empresas, para os funcionários. A monitora garantia: depois que começou a meditar, nunca mais se atrasou para uma reunião, nunca mais perdeu um prazo e era capaz de trabalhar muito mais, se cansando muito menos. “Existe uma lógica de que o sucesso se relaciona à atenção focalizada, e a partir daí surge toda uma produção de conhecimento de como gerir a atenção. Tem cursos de gestão do tempo e livros de autoajuda que ensinam a aproveitar o tempo para se tornar mais produtivo”, observa Cristiana. Como se o problema não fosse estarmos sobrecarregados, mas, sim, sermos maus gestores de nós mesmos: “As pessoas acabam buscando todas as ferramentas possíveis para se adequar a lógica vigente, e acabamos não colocando esta lógica em questão, não questionando por que precisamos trabalhar tantas horas e por que precisamos estar disponíveis (e bem) durante todas essas horas”.

Há na literatura alguns exercícios de imaginação sobre como seria viver sem dormir. André cita um conto do escritor japonês Haruki Murakami — Sono — em que a personagem principal perde, de repente, a capacidade de adormecer. “E ganha uma vitalidade tremenda, sua consciência se expande enormemente”, diz ele, contando que a mulher passa a fazer mil coisas durante o tempo que, antes, era ‘perdido’. “Mas lá pelas tantas ela se dá conta de que morreu, de que experimentou a própria morte. Esse livro traz uma teoria interessante da morte, é como se o mundo sem sono fosse o mundo onde na verdade estamos sem vida. Quando penso em um mundo sem sono, imagino assim: seres humanos totalmente automatizados, robotizados”, devaneia o professor. A batalha está posta.

* O nome foi alterado

Fonte: Outra Saúde
Por: Raquel Torres
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E os psicanalistas foram impedidos de entrar no evento…

Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. Negócio é negócio.

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Imagem por Alpino

A medicalização da experiência humana

Variação do humor ou momentos de tristeza e tensão são sempre sinais de doença? Por muito tempo a psiquiatria europeia soube avaliar a gravidade e definir uma prescrição apropriada, da droga ao tratamento psicanalítico. A indústria farmacêutica incita, contudo, à transformação de dificuldades normais em patologias, às quais ela oferece uma solução

Diante da realidade do “sofrimento psíquico” – uma das mais importantes patologias modernas –, entrou em ação, há algumas décadas, uma maquinaria diagnóstica nunca antes vista, cujo objetivo é explorar esse enorme mercado potencial. Para isso, foi necessário primeiro substituir a grande psiquiatria europeia, que, graças a observações clínicas múltiplas e coerentes, reunidas durante os dois últimos séculos, havia repertoriado os sintomas, classificando-os em grandes categorias: neuroses, psicoses e perversões. Munido desses conhecimentos, o especialista podia dar um diagnóstico e distinguir os casos graves dos causados por circunstâncias passageiras. Ele separava então o que exigia o uso de medicamentos daquilo que poderia ser solucionado melhor com a conversa.

A psiquiatria clássica e a psicanálise haviam chegado às mesmas conclusões. Essas duas abordagens tão distintas se auxiliavam e se enriqueciam mutuamente. O mercado de medicamentos ainda guardava proporções razoáveis, o que deve ter dado o que pensar à “Big Pharma” – apelido conveniente para o enorme poder dos laboratórios farmacêuticos, que fazem uma corte assídua tanto aos clínicos gerais quanto às mais altas instâncias do Estado e dos serviços de saúde, com os quais sabem se mostrar bem generosos (oferecendo, por exemplo, cruzeiros de “formação” aos jovens psiquiatras).

A jornada de conquista desse grande mercado começou nos Estados Unidos, com a Associação dos Psiquiatras Americanos (APA) e seu primeiro manual de diagnóstico e estatística dos problemas mentais, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, ou DSM), em 1952.1 Em 1994, a Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou no capítulo “Psiquiatria” da Classificação Internacional das Doenças as nomenclaturas do DSM-IV, o que levou vários países a fazer o mesmo. Seguiu-se uma inflação de patologias repertoriadas. Havia sessenta em 1952, mas 410 em 1994, no DSM-IV.

Extinguir o vulcão

Negócio é negócio. O método DSM tem de ser simples: não se cogita buscar a causa dos sintomas nem saber a que estrutura psíquica eles correspondem. Basta encontrar o caso que se conforme ao comportamento visível do paciente. Essa prática esquece que um sintoma não é jamais uma causa. A conversa com o psiquiatra mal pode ser considerada necessária, pois serve apenas para repertoriar os “transtornos” superficiais: “transtornos” do comportamento, da alimentação, do sono… enfim, “transtornos” de todos os tipos, até a recente invenção dos “transtornos” pós-atentados. A cada um corresponde – maravilha! – um medicamento. Foi nessas águas perturbadas que naufragaram os antigos diagnósticos. O lobby da Big Pharma conquistou também as faculdades de Medicina, onde só se ensina o DSM. Mais: os próprios laboratórios transmitem os ensinamentos – numerosos conflitos de interesses foram denunciados. A grande cultura psiquiátrica acabou esquecida, de sorte que, diante de um paciente, o novo clínico made in DSM não sabe mais se está lidando com uma psicose, uma neurose ou uma perversão. Ele não distingue um problema grave de um estado circunstancial. E, na dúvida, receita psicotrópicos…“Depressão”, por exemplo, é palavra que faz parte do vocabulário corrente. O blues (tristeza) pode dominar qualquer pessoa, a qualquer momento da vida. Mas por que dar esse sentido ao conceito de “depressão”? Ela foi elevada à dignidade de uma doença à parte. Contudo, a tristeza pode ser um sintoma tanto de melancolia – acarretando risco elevado de suicídio – quanto de um estado passageiro e mesmo normal, como o luto. Confúcio recomendava ao filho um luto de três anos após a morte do pai; hoje, se você continua triste depois de quinze dias, está doente. Vão lhe dar antidepressivos, que podem temporariamente aliviar o problema, mas não o resolverão. Entretanto, como não convém interromper o tratamento de repente, a prescrição dura às vezes a vida inteira.

O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo. É necessário chorar antes de rir. Estamos à beira de um vulcão: extingui-lo com medicamentos que não passam de drogas é extinguir uma vida, porquanto viver é correr riscos o tempo todo. “O patológico só tem sentido para o improdutivo”, dizia o escritor Stefan Zweig.2 O nome de alguns medicamentos parece corroborar essa ideia, mas em uma acepção no mínimo discutível: em certas formas agudas de psicose, os psicotrópicos são imprescindíveis para acalmar as alucinações e os delírios. Tais medicamentos são chamados de antipsicóticos. Na cabeça do fabricante, essas moléculas estariam então destinadas a acabar de vez com a pessoa que sofre de psicose? O fabricante esquece uma coisa: o “paciente” é sempre maior que seu padecimento. Esses remédios deviam chamar-se de preferência “pró-psicóticos” ou “filopsicóticos”, pois um psicótico libertado de seus delírios é frequentemente um grande inventor (o matemático Georg Cantor), um grande poeta (Friedrich Hölderlin), um grande pintor (Vincent van Gogh) ou um grande filósofo (Jean-Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma pouco se importa com a liberdade reencontrada pelo paciente, que no fim poria em causa sua empresa. Ela prefere o ópio. E seus vapores se instalam com facilidade, porque o “transtorno” é associado às manifestações efetivas do sofrimento psíquico.

Não bastasse isso, mais vale que o número de “transtornos” cresça e se multiplique. Entre os mais recentes, o “transtorno bipolar” se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: este se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. Enquanto a vida segue seu curso, nós todos somos normalmente “bipolares”, hoje alegres, amanhã tristes. Acontece, porém, que nas psicoses melancólicas o objeto de desejo é a própria morte ou a explosão de um surto maníaco. O diagnóstico de “bipolaridade” se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses. Essa distinção, riscada dos DSMs, provoca inúmeras situações dramáticas.3

O “transtorno” mais comum e inquietante, pois diz respeito às crianças, que sofrem sem saber o motivo e não podem se queixar, é sem dúvida o “transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade” (TDAH). Essas dificuldades da infância vêm sendo enfrentadas há tempos por psiquiatras infantis e psicanalistas, pioneiros na matéria. Mas, como se trata de problemas peculiares a cada criança, eles não ousaram rotulá-los sob um “transtorno” geral. Graças a isso, são hoje acusados de não propor medidas, principalmente pelas associações de pais, algumas delas subvencionadas por laboratórios farmacêuticos (por exemplo, a associação Hypersupers TODA/H France, apoiada pelos laboratórios Mensia, Shire, HAC Pharma e NLS Pharma).

A imprecisão desse pretenso diagnóstico equivale a dizer, por exemplo, que a tosse é uma doença. E o exemplo vem de cima: em 29 de setembro de 2017, houve na Universidade de Nanterre uma conferência em favor do diagnóstico de TDAH sob o patrocínio do presidente francês, Emmanuel Macron, e da ministra da Saúde, Agnès Buzyn. Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. O TDAH não existe nas classificações francesas, seja a Classificação Francesa dos Transtornos da Criança e do Adolescente (CFTMEA), fiel à psiquiatria francesa, ou mesmo a Classificação Internacional das Moléstias (CIM-10), que acolhe as opções do DSM. Elas descrevem apenas os problemas de agitação. E agitação não é doença. Pode ter várias causas (problemas familiares, dificuldades na escola etc.); exige primeiro que as crianças e a família sejam ouvidas, e isso muitas vezes basta para resolver tudo. Com o TDAH, o sintoma se transforma em doença e, mais grave ainda, atribuem-lhe causas “neurodesenvolvimentistas”. Essa afirmação não repousa sobre nenhuma base científica, ao passo que provas não faltam das dificuldades causadas por problemas no seio da família ou na escola…

Jerome Kagan, professor de Harvard, declarou em uma entrevista de 2012: “O TDAH não é uma patologia, mas uma invenção. […] Oitenta por cento dos 5,4 milhões de crianças tratadas com Ritalina nos Estados Unidos não apresentam nenhuma anormalidade metabólica”.4 Na França, Patrick Landman mostrou em seu livro Tous hiperactifs? [Todos hiperativos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH não tem nenhuma causa biológica identificável: seus sintomas não são específicos e não apresentam indicadores biológicos. Nenhuma hipótese neurobiológica foi validada. Leon Eisenberg, inventor da sigla “TDAH”, declarou em 2009, sete meses antes de falecer: “O TDAH é o exemplo típico de uma doença inventada. A predisposição genética para o TDAH é totalmente superestimada”.5 Todavia, com a ajuda do lobby, cerca de 11% das crianças com idade entre 4 e 17 anos (6,4 milhões) receberam o diagnóstico de TDAH desde 2011 nos Estados Unidos, segundo os Centros de Prevenção e Controle das Doenças norte-americanos. Segue-se quase sempre uma prescrição de Ritalina (metilfenidato), que contém moléculas consideradas estupefacientes nas classificações francesas. A prescrição dessa anfetamina em grande escala poderia provocar um escândalo sanitário semelhante aos do Mediator e do Levothyrox. Essas substâncias viciam, e não se exclui – possibilidade ainda em discussão – uma correlação entre as crianças que tomaram Ritalina e os adolescentes que se drogam.

As crianças não são poupadas pelos transtornos da sociedade, que lhes impõe o imperativo do sucesso rápido, da competitividade, da obediência a normas que não se aplicam à sua idade. As recalcitrantes são facilmente consideradas hoje “deficitárias”. É, portanto, inquietante ver surgir em um site do Ministério da Educação Nacional da França uma mensagem endereçada aos professores afirmando, sem provas, que o TDAH é uma “doença neurológica” e fornecendo uma receita detalhada para o estabelecimento de diagnósticos prévios. Os “sinais indicativos” propostos poderiam se aplicar a quase todas as crianças. Sempre a mesma mistura de problemas normais e patologia…

A infância na linha de frente

Há tempos, Michel Foucault pôs em evidência a repressão, notadamente pelos Estados e as religiões, desse “mal-estar na cultura” que é a sexualidade. Hoje, a camisa de força de um patriarcado de direito divino está em via de marginalização. Como a repressão vai se organizar daqui por diante, supondo-se que o termo “sexualidade” deva ser entendido em sentido amplo? A indústria farmacêutica é que pretende tomar as rédeas da ciência. A mensagem é clara: “Não vos inquieteis, ó vós que tendes insônias, momentos de desconsolo, excitação exagerada, ideias suicidas! A culpa não é vossa, é de vossos genes, de vossos hormônios; sofreis de um déficit neurodesenvolvimentista, e nossa farmacopeia vai consertar tudo”. Trata-se de fazer crer que tudo se resume a problemas de neurotransmissores e de mecânica, nos quais o humano não entra. Seria necessário esquecer que as mazelas deliciosas e cotidianas das relações entre homens e mulheres, as questões jamais resolvidas de filhos com pais, as relações de forças angustiantes com a hierarquia e o poder deitam raízes nas profundezas da infância.

Por todos os lados, a infância está na linha de frente, o que torna o caso do TDAH ainda mais “perturbador” que os outros. Em todos os tempos e lugares, a criança é a primeira a ser reprimida, espancada, formatada. Quando um professor da velha escola puxava as orelhas de um aluno agitado, isso era – por mais chocante que pareça – quase mais humano do que exigir-lhe um diagnóstico de deficiência. Preservava-se uma relação pessoal, que a pseudociência elimina. Pela primeira vez na história, é em nome de uma pretensa ciência que as crianças são “espancadas”. Todos os anos o Papai Noel, esse mito de múltiplas estratificações (como bem mostrou o etnólogo Claude Lévi-Strauss),6 traz para as crianças presentes a fim de consolá-las. Hoje, a Big Pharma pretende vestir o capuz do Papai Noel. Mas não nos esqueceremos de que, sob a roupa vermelha, esconde-se uma sombra muito parecida com o Açougueiro da Festa de São Nicolau.7

*Gérard Pommier é médico psiquiatra, psicanalista, professor universitário emérito e diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. Autor, principalmente, de Comment les neurosciences démontrent la psychanalyse [Como as neurociências dão suporte à psicanálise], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, révolution sans fin [Feminino, revolução sem fim], Pauvert, Paris, 2016.

1 Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A bíblia americana da saúde mental], Le Monde Diplomatique, dez. 2011.

2 Stefan Zweig, Le Combat avec le démon: Kleist, Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, Hölderlin, Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 2004 (1. ed.: 1925).

3 Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um paciente melancólico a que um psiquiatra, ignorante de tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suicidou. Vi inúmeros casos semelhantes.

4 “What about tutoring instead of pills?” [Que tal monitoramento em vez de pílulas?], Spiegel Online, 2 ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>.

5 “Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergonha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev. 2012.

6 Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël supplicié [Papai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994.

7 Na França, é bastante difundida a lenda de São Nicolau, precursor do Papai Noel. Durante o inverno, três crianças bateram à porta do açougueiro Pierre Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. Porém, assim que elas entraram, ele as matou. Em outra noite, São Nicolau passava pela região e buscou abrigo na mesma casa. Enquanto dormia, ele sonhou com o assassinato das crianças e rezou até que elas ressuscitassem, tornando-se assim protetor das crianças.
Fonte: Le monde diplomatique
Por: Gérard Pommier
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O assunto é muito pouco transparente e você só se da conta de sua importância na hora de pagar a conta da farmácia.…….PREÇOS de novas linhas de tratamento do câncer ou de doenças imunológicas na faixa de milhares de dólares por pílula ou por picada.

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  [ AS PATENTES FARMACÊUTICAS E SEUS EFEITOS COLATERAIS ]

Passou despercebida pela imprensa uma carta de cem organizações e sindicatos dos Estados Unidos, do Canada e do Mexico contra as medidas de restrição a acesso a medicamentos inscritas no NAFTA.

Após mais de 20 anos de vigência do NAFTA, o Canada, o Mexico e até os Estados Unidos sentem o impacto negativo das proteções leoninas aos detentores de patentes farmacêuticas. O assunto é muito pouco transparente e você só se da conta de sua importância na hora de pagar a conta da farmácia.…….

Surpreende neste momento a recusa de Trump em assinar o TPP (Tratado de Parceria Trans-Pacifica) formado por Japão, Malásia, Vietnam, Cingapura, Brunei Australia, Nova Zelandia, Canada, Mexico, Chile e Peru. Os negociadores americanos, assessorados por mais de quarenta advogados de empresas farmacêuticas, desenharam um capítulo sobre Propriedade Intelectual sob medida para a obesa Pharma, Pentágono da indústria farmacêutica.

Extensão dos prazos de patenteabilidade alem dos 20 anos, proibição de genéricos ou condições leoninas para produzi-los, liberalidade na renovação de patentes de medicamentos, tornando possível que cosméticas alterações em suas fórmulas aumentem o prazo de patenteabilidade para 30 ou 50 anos. Restrições adicionais à capacidade dos governos de promoverem programas de barateamento dos medicamentos ou concorrência de preços internacionais. PREÇOS de novas linhas de tratamento do câncer ou de doenças imunológicas na faixa de milhares de dólares por pílula ou por picada. Coisa para um por cento da população. Classe média alta, emergentes, novos ricos: favor não insistir. Monopólio é Monopólio. Thank you for calling.

Segundo ato. Trump acusa publicamente a OMC de não servir aos interesses americanos. Paralisa os trabalhos de escolha de novos árbitros para o mecanismo de solução de controvérsias da entidade. Não satisfeito, excomunga o NAFTA, execra os diplomatas americanos. Chama o Mexico para uma conversinha de parceiros da comunidade hemisférica : “você meu amigo, meu irmão ,meu camarada…”.

Exige a revisão do NAFTA. México e Canada são chamados a fazer correções de rumo. Logo se evidencia o interesse da Pharma em aprimorar a proteção das patentes farmacêuticas além das normas acordadas em 1995, no âmbito do acordo TRIPS da OMC, que vincula todos os países membros, inclusive o Brasil. De 1995 ate 2017 os Estados Unidos incentivaram a formação de acordos regionais, bilaterais ou plurilaterais como o NAFTA. Em todos esses acordos a questão da proteção das patentes farmacêuticas era central. Por essa razão criou-se no jargão das negociações a expressão Trips-plus. Algum dia precisa-se fazer a gramática da OMC ou a sua semiótica, de grande relevância para o marketing neoliberal.

Antes da OMC, a propriedade industrial era disciplinada pela Convenção de Paris da Propriedade Industrial, instrumento criado no fim do século XIX de que o Brasil foi sócio fundador por decisão do Imperador Dom Pedro II. A Convenção de Paris deixava latitude aos membros com relação a patenteabilidade de produtos farmacêuticos. Nos anos 80 do século XX, iniciam-se negociações que transformariam o GATT em OMC e criariam outras obrigações na Rodada Uruguai, dentre as quais o acordo TRIPS, acrônimo inglês para acordo sobre propriedade industrial relacionado ao comercio.

A adição da expressão “relacionado ao comercio” foi a fórmula encontrada para preservar a Convenção de Paris como instrumento venerável da comunidade jurídica internacional. Em compensação, TRIPS, por ser acordo vinculado a OMC ,foi dotado de mecanismos inéditos e discutíveis dentre os quais a possibilidade de retaliações comerciais aos países que não se conformassem às novas regras. Assim, nos tornamos menos livres e menos soberanos na nossa área de saúde publica. Na fase do TRIPS-PLUS, andamos sapateando no pântano da ALCA, que nos levaria a uma situação igual a do Canada e Mexico.A ALCA nada mais seria do que um NAFTA ampliado. .

Trump deixou claro que não dará pelota para a OMC e que a partir de agora negociará com os países amigos acordos comerciais exclusivamente bilaterais. Obviamente, ninguém será tão inocente de se voluntariar para entrar em negociações com tal disparidade de forças. Trump sabe disso e já começou a impor barreiras ilegítimas a determinados produtos e a determinados países. O Brasil foi contemplado em suas exportações de aço. Uma delegação do setor privado pretende iniciar conversações sobre o assunto nos Estados Unidos. Postura legitima sem duvida. E será recebida como o Mexico, parceiro fraternal da comunidade hemisférica. Vamos, queiramos ou não, entrar na cantilena. “Você meu irmão etc”

Preocupa essa nova estratégia em andamento. Sentar com os Estados Unidos para negociar um acordo bilateral seria rematada insanidade.

O caminho correto nesta hora seria exigir o debate das novas medidas americanas no âmbito exclusivo da OMC e inclusive deixar claro que eventuais retaliações dos Estados Unidos contra o aço brasileiro seriam no mesmo montante reciprocadas com cortes nas remessas de royalties de patentes farmacêuticas americanas. Pode ser medida drástica, porém legal.

Caso contrário, nos veremos enredados em negociações insalubres com a maior nação do planeta, convencida de que suas medidas de proteção ao monopólio farmacêutico são amparadas por supostos direitos de uma legislação internacional em tudo e por tudo muito mais próxima de um neocolonialismo globalizado do que da arenga esquizóide sobre o comércio livre do surrado neoliberalismo.

Fonte: União Brasileira de Escritores
Por: Adhemar Bahadian Diplomata aposentado
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Chama atenção que o programa não faz nenhum incentivo à escuta ou terapias não medicamentosas, simplesmente a prescrição, daí que ele vem sendo ironicamente chamado, ao invés de Educação Médica, de Programa de Promoção de Drogas.

subversos

O que podemos esperar da troca do mais alto posto da psiquiatria americana, a direção do National Institut of Mental Health (NIMH)? Por treze anos a entidade foi comandada pelo notório Dr. Thomas Insel. Insel ganhou repercussão mundial quando a esperada quinta edição do DSM, que vinha sendo organizada pela Associação de Psiquiatria Americana, não foi referendada pelo NIMH no exato momento de seu lançamento. O DSM5 foi elaborado em meio a grandes polêmicas e resistências, principalmente quando o mundo descobriu o alto grau de comprometimento dos psiquiatras responsáveis com a indústria farmacêutica. Quando o NIMH desautorizou o DSM5 muitos comemoraram, pois a expectativa era de um manual ainda mais repleto de transtornos, aumentando enormemente o que poderia ser considerado uma patologia mental. Contudo, como chamou atenção Eric Laurent, em um artigo escrito logo após o anúncio do NIMH, não haveria muito o que comemorar, já que a crítica de Insel era precisamente que o DSM5 não era suficientemente “científico”, deixando entrever que o futuro da psiquiatria seria seu desaparecimento no oceano das pesquisas em neurociências[1].

As pesquisas translacionais

Efetivamente, a gestão Insel priorizou a neurociência e estrangulou progressivamente o orçamento para a pesquisa clínica. Afinal, com toda a crítica feita ao DSM, este era ainda um instrumento conectado à experiência clínica de profissionais que recebiam pacientes todos os dias. A partir de 2010, o NIMH instalou um novo critério para aprovação de pesquisas , chamado de RDC (Research Domain Criteria), que atrelava qualquer solicitação de financiamento à pesquisa translacional. O que é a Pesquisa Translacional? Trata-se de uma tendência mundial, crescente na pesquisa de doenças de todos os tipos, que visa agilizar a transferência de resultados da pesquisa básica à pesquisa clínica, afim de produzir benefícios para a comunidade como um todo. Em princípio a ideia é muito boa, pois visa reduzir o hiato entre a ciência pura e a prática clínica. As pesquisas translacionais no caso da psiquiatria envolvem sempre, em uma mesma pesquisa, tanto os genes, moléculas produzidas, células, e circuitos cerebrais, quanto o comportamento e os resultados clínicos obtidos.

Contudo, a crença de que o futuro da psiquiatria está no cérebro é tão consolidada, que solicitações de financiamento de pesquisas puramente clínicas passaram a ser sistematicamente negadas a partir dos novos RDC. A alegação do NIMH é sempre de que faltam nas propostas simplesmente clínicas uma “neurosignature”, espécie de selo de qualidade que implica a presença no projeto encaminhado de procedimentos atrelados aos pilares das neurociências. Em uma recente carta ao Times, o psiquiatra John Markowitz relata como ficou difícil propor uma pesquisa puramente clínica auspiciada pelo NIMH, já que, progressivamente, os fundos foram todos dedicados às pesquisas que incluem as neurociências. Atualmente apenas dez por cento do bilionária verba do NIMH é dedicada à trabalhos puramente clínicos[2].

Remédios para todos

Quem então se interessa pelos ensaios clínicos? Percebe-se que o espaço deixado vago foi fartamente ocupado pela indústria farmacêutica. Enquanto os neurocientistas se dedicam às pesquisas translacionais, a clínica psiquiátrica, na ponta, passa a ser orientada de modo cada vez mais explícito por protocolos duvidosos que levaram o consumo de medicamentos à patamares sem precedentes.

Dentre os projetos mais controversos encontra-se o Practice Support Program for Child and Youth Mental Health (PSP-CYMH), coordenado pelo Dr. Stan Kutcher. Trata-se de um programa que visa identificar patologias psiquiátricas entre os jovens em idade escolar. O programa foi largamente impulsionado por alguns crimes e suicídios cometidos por adolescentes em suas escolas, e que ganharam grande repercussão na imprensa. Nele, médicos generalistas recebem 2600 dólares por 10 horas de capacitação, para identificar precocemente possíveis distúrbios psiquiátricos em jovens em idade escolar. Assim, durante as visitas rotineiras para vacinação e demais check-ups anuais, os jovens pacientes passaram a responder a um questionário protocolizado visando identificar possíveis situações de depressão, ansiedade ou outro sintoma psiquiátrico.

A constatação foi que, com o questionário, o número de jovens diagnosticados e tratados com medicamentos aumentou para proporções muito acima da realidade. Um dos mais preocupantes métodos para identificar distúrbios de ansiedade entre os jovens é o SCARED, Screen for Child Anxiety Related Disorders[3]. Enquanto a maioria dos dados conhecidos indicava que não mais que 10 por cento dos jovens apresentam distúrbios de ansiedade, com o SCARED o numero de jovens diagnosticados e tratados foi simplesmente o triplo[4]. O questionário, elaborado pelo Dr. Kutcher, vem sendo questionado por inúmeras entidades. A crítica é que ele induz os generalistas a aumentarem ou persistirem com a prescrição de Fluoxetina em jovens que muito provavelmente não possuem patologia alguma, simplesmente problemas cotidianos do enfrentamento de situações escolares difíceis.

Chama ainda atenção que o programa não faz nenhum incentivo à escuta ou terapias não medicamentosas, simplesmente a prescrição, daí que ele vem sendo ironicamente chamado, ao invés de Educação Médica, de Programa de Promoção de Drogas.

Como então encontrar o sujeito do sofrimento psíquico? O país está dividido. Há os que apostam milhões de dólares na elucidação biológica precisa das doenças psiquiátricas, em pesquisas cuja duvidosa comprovação pode levar décadas até produzir algum sentido prático na clínica, mas há igualmente os que desenvolvem sua prática clínica em um meio completamente distorcido pelo charme da indústria farmacêutica[5].

Os devaneios podem ir mais longe. Um experimento recente[6]] permitindo que adultos pudessem atingir o ouvido absoluto[7], condição que normalmente somente se adquire na infância, levantou a hipótese de que é possível recuperar a neuroplasticidade neuronal da juventude. A partir desses dados alguns pesquisadores já cogitam uma intervenção muito mais ousada, se não seria possível apagar os traumas infantis e permitir ao sujeito um novo ponto zero em sua própria história[8]. Ignora-se completamente que nossos traumas, assim como os sintomas decorrentes, são constitutivos de nossa própria existência.

Uma bilionária foraclusão do sujeito

“Os avanços na genética humana estão remodelando a maneira como entendemos muitas doenças mentais, incluindo a esquizofrenia. Sabemos infinitamente mais sobre as mudanças de DNA… O próximo passo crítico é aprender como eles produzem a doença.”[9] Esse comentário da Dra Pamela Sklar compõe uma matéria com as expectativas de seis grandes pesquisadores no domínio das doenças psiquiátricas publicado recentemente na Revista Cell, uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo. Os comentadores estão todos muito otimistas e pedem ainda mais fundos para continuar a desenvolver suas pesquisas: “Precisamos declarar guerra à doença mental, que afeta a vida de uma em cada quatro pessoas, e priorizar o financiamento de pesquisas neurobiológicas inovadoras para uma melhor prevenção, diagnóstico, intervenção precoce e tratamento.”, alega no mesmo artigo Jeffrey Borenstein, daBrain & Behavior Research Foundation.[10]

Não é provável que o orçamento anual de 1,5 bilhões de dólares do NIMH tenha destino muito diferente nas mãos de seu novo diretor. Joshua Gordon assume o novo posto após uma larga experiência como professor no Columbia University Medical Center, onde é o responsável pelo currículo de neurociências[11]. Suas pesquisas, focadas na atividade neural de camundongos portadores de mutações com relevância em doenças psiquiátricas, deixam entrever que não é para breve uma reconciliação entre a Associação de Psiquiatria Americana e o Instituto Nacional de Saúde Mental. São dois gigantes de peso. Se o orçamento do NIMH é gigantesco, o aumento no consumo de medicamentos psiquiátricos no Estados Unidos tem as mesmas proporções. Enquanto em 1987, quando o Prozac foi lançado, os americanos consumiam 800 milhões de dólares em medicamentos psiquiátricos, em 2010 essa cifra subiu para 40 bilhões de dólares/ano. E assim a máquina anda muito bem. O NIMH, preocupado com suas pesquisas em neurociências, parece não ter nenhum papel regulador sobre o consumo em proporções abissais de medicamentos prescritos no cotidiano da clínica. Há cifras bilionárias para ambos na terra de Trump. Somente a clínica do sujeito continua proletária

***

Em um ambiente tão inóspito, de que modo a psicanálise pode ser ouvida? Como mostrar uma face muito pouco conhecida da psicanálise em território americano, a psicanálise aplicada? Entre genes e ratos de laboratório por um lado, e uma venda crescente de medicamento por outro, poucas vozes se levantam contra essa bipolaridade obcecada em isolar o sofrimento psíquico no corpo cadaverizado da ciência ou rentabilizado pela indústria farmacêutica. Dentre as resistências mais ativas, podemos destacar o papel atual da organização não governamental MAD IN AMERICA[12]. Capitaneada pelo jornalista americano Robert Withaker, autor do best seller Anatomy of an Epidemic, a MAD se tornou uma das mais importantes associações contra os abusos e distorções da Saúde Mental americana. Sem dúvidas é necessário conhecer e interagir com essas resistências. Nas últimas décadas, a psicanálise acumulou uma enorme experiência em hospitais, serviços substitutivos e demais projetos sociais. Essa prática mostra que o mal-estar contemporâneo pode ter outro destino que não seja o entorpecimento. O sonho americano tem demonstrado seu amargo despertar, trata-se de um mal-estar que não será tratado por nenhuma droga, tampouco por promessas genéticas que podem beirar a eugenia. A psicanálise com certeza tem algo a dizer sobre os restos que nenhum muro consegue segregar.

[1] Laurent E., DSM 5, O fim de uma era, boletim Diretoria na Rede da Escola Brasileira de Psicanálise, link para acesso: http://www.ebp.org.br/dr/ebp_deb/ebP_deb001/laurent.html

[2] Markowitz J., There’s Such a Thing as Too Much Neuroscience, NYT de 14 outubro 2016 – http://www.nytimes.com/2016/10/15/opinion/theres-such-a-thing-as-too-much-neuroscience.html?emc=edit_tnt_20161014&nlid=67084594&tntemail0=y

[3] Sensitivity and Specificity of the Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders (SCARED): A Community-Based Study – Child Psychiatry & Human Development: June 2013, Volume 44, Issue 3, pp 391–399

[4] Wipond R., The Proactive Search for Mental Illnesses in Children, no site: https://www.madinamerica.com/2014/07/proactive-pursuit/

[5] Alison Bass, em seu livro Side Effects (Efeitos Colaterais), faz uma detalhada incursão no universo da indústria farmacêutica e suas tramas.

[6] Gervain J, Vines BW, Chen LM, Seo RJ, Hensch TK, Werker JF and Young AH (2013) Valproate reopens critical-period learning of absolute pitch. Front. Syst. Neurosci. 7:102. doi: 10.3389/fnsys.2013.00102

[7] Ouvido absoluto é capacidade que uma pessoa tem de formar uma imagem auditiva interna de qualquer tom musical marcado por um símbolo apropriado (nota, letra) de modo que se possa naturalmente identificar qualquer tom acusticamente apresentado

[8] Richard Friedman – Return to the Teenage Brain NYT de 8 outubro 2016 – http://www.nytimes.com/2016/10/09/opinion/return-to-the-teenage-brain.html

[9] “Developing Effective Treatments for Psychiatric Diseases” – Cell 165, June 2, 2016 1309

[10] idem

[11] NIH names Dr. Joshua Gordon director of the National Institute of Mental Health – www.nih.gov – new releases em 28 de julho 2016

[12] www.madinamerica.com

Fonte: Subversos
Por: Marcelo Veras, psicanalista
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Editora Fiocruz lança ‘Anatomia de uma Epidemia’ de Robert Whitaker em português

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Com a tradução para o português recém lançada pela Editora Fiocruz, Anatomia de uma Epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental parte da constatação de que desde os anos 1990 houve um aumento expressivo de doenças mentais nos EUA, justamente quando os meios científicos e órgãos governamentais da área da saúde festejavam o surgimento de drogas psiquiátricas supostamente mais eficientes (e também mais caras). Jornalista experiente e premiado por seus artigos sobre temas médicos, Robert Whitaker investiga os efeitos da abordagem medicalizante dos transtornos mentais, do uso crescente de “pílulas mágicas” agravando ou simplesmente criando falsos quadros patológicos. Livro premiado e traduzido em diversos idiomas, Anatomia de uma Epidemia aborda a contravertida questão das drogas e tratamentos psiquiátricos, que o autor considera “um tremendo campo minado político”.

Whitaker foi impulsionado pela leitura de uma matéria que denunciava maus-tratos em pesquisas com pacientes psiquiátricos. Entre eles, experiências financiadas pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, como o uso de medicamentos para exacerbar sintomas em esquizofrênicos, ou ao contrário, privando-os de antipsicóticos. Sempre com riscos para os pacientes-cobaias, até com a ocorrência de mortes durante os testes. Ao iniciar uma série de reportagens sobre esses experimentos, o autor confessa que estava convencido de que estavam sendo desenvolvidas novas drogas psiquiátricas que ajudavam a “equilibrar” a química cerebral, e que seria antiético retirar a medicação dos pacientes experimentalmente. Seria como retirar a insulina de diabéticos, para ver com que rapidez eles adoeceriam, pensava.

No entanto, ao concluir as reportagens, restava um certo incômodo os resultados de duas pesquisas com que havia deparado em sua investigação. A primeira era da Faculdade de Medicina de Harvard, que, em 1994, anunciara que “os resultados observados nos pacientes de esquizofrenia nos Estados Unidos haviam piorado durante as duas décadas anteriores, e não estavam melhores agora do que tinham sido cem anos antes”. A segunda era da Organização Mundial da Saúde, que contatara que os resultados sobre a esquizofrenia eram muito melhores em países pobres do que em países desenvolvidos. Consultando especialistas a este respeito, Whitaker ouviu que os maus resultados nos EUA, por exemplo, tinham origem em “políticas públicas e valores culturais” e que nos países pobres os pacientes tinham mais apoio das famílias.

Insatisfeito com a explicação, o autor reviu seu material de pesquisa e ficou sabendo que nos países pobres apenas 16% dos pacientes eram tratados com antipsicóticos. Seguindo em frente na investigação, esbarrou com descobertas da OMS, “que parecia haver encontrado uma associação entre os resultados positivos (no tratamento de esquizofrênicos) e a não utilização contínua desses medicamentos”. A partir daí dedicou-se a “busca intelectual” que originou este livro, que, segundo Whitaker, “conta uma história da ciência que leva os leitores a um lugar socialmente incômodo (…) estas páginas falam de uma epidemia de doenças mentais incapacitantes induzidas pelos fármacos”.

O livro analisa e questiona o resultado de pesquisas que sustentam a aprovação, comercialização e prescrição desses medicamentos em escala alarmante, não só nos EUA, mas no Brasil e em diversos outros países. Traz depoimentos de vários pacientes submetidos a tratamentos medicamentosos de longo prazo, para mostrar a consequência no funcionamento do cérebro e questionar a eficácia das drogas psiquiátricas. O jornalista detalha o conluio entre empresas farmacêuticas, instituições e formadores de opinião para garantir a disseminação dos psicofármacos, mas também aponta alternativas terapêuticas, nas quais os medicamentos não são o centro do tratamento e sim um recurso a que se pode lançar mão de forma consciente e cuidadosa.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias
Por Gustavo Mendelsohn Carvalho
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Convertendo gente sadia em enferma e cronificando doenças ao invés de curá-las

Como a indústria farmacêutica influi nas prescrições médicas

Ninguém imagina um juiz comendo com uma das partes de um processo ou que lhe paguem um congresso. Mas isto é o que está ocorrendo no mundo médico. O médico é um juiz que determina qual o melhor remédio para um paciente. E uma das partes lhe paga viagens, hotéis, cursos, livros e comidas.

 

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¿Hasta dónde debe llegar la relación entre las empresas que fabrican los medicamentos y los médicos que tienen que decidir el tratamiento de sus pacientes?

El pasado año la industria farmacéutica, representada en España por Farmaindustria, decidió dar un paso importante hacia la transparencia en el sector, publicando los datos de los pagos realizados a profesionales y organizaciones sanitarias. Sin embargo, la publicación de estos datos ha reabierto el debate en torno al control que la industria mantiene sobre la formación continuada de los médicos y sobre su influencia en las decisiones de los facultativos a la hora de prescribir medicamentos.

La continua evolución de los tratamientos farmacológicos hace que sea necesario que los médicos se actualicen con relativa frecuencia, lo que se conoce como formación continuada. Esta formación, que se mezcla con actividades publicitarias, se apoya fundamentalmente en el contacto con visitadores médicos, que son representantes de las farmacéuticas, así como en la asistencia a congresos o cursos y por medio de publicaciones especializadas.
La mayor parte de esta formación es financiada por la industria farmacéutica, lo que, a juicio de diversas organizaciones, supone un riesgo debido a la pérdida de independencia. Según el presidente de la plataforma NoGracias, Abel Novoa, “debido al abandono de las administraciones públicas, las actividades de formación han acabado controladas por la industria, que termina imponiendo sus intereses”. Novoa asegura que “la relación entre médicos e industria puede ser productiva, pero el problema está en determinar qué actividades son beneficiosas para el paciente y cuáles no”.
Para el director de la Unidad de Supervisión Deontológica de Farmaindustria, José Zamarriego, el objetivo de las actividades de formación es “ayudar al médico a que prescriba según la evidencia científica disponible” y aunque no niega la influencia que se pueda ejercer sobre los facultativos, aclara que ésta se puede considerar “positiva en la medida en la que se le ofrece al médico información sobre los mejores medicamentos disponibles”.

La influencia negativa de los visitadores

El primer contacto entre la industria y la comunidad médica se realiza través de los conocidos como visitadores médicos, representantes de la industria que ofrecen información a los especialistas sobre los medicamentos disponibles. Aunque su número se ha reducido drásticamente durante los últimos años, debido a la crisis y a diversos cambios en la regulación, estos profesionales siguen siendo un importante canal de comunicación entre los laboratorios y los facultativos.

if 1“Antes de que un médico tome una decisión ya ha tenido a un ejército de representantes que han ido a recordarle lo bueno que es un medicamento, lo que termina influyendo en su decisión, de forma que acaba prescribiendo los nuevos medicamentos pensando que está haciendo lo mejor para sus pacientes, cuando no siempre es así”, explica Novoa.

Zamarriego disiente y recuerda que “los médicos son grandes profesionales, que están muy bien formados” y asegura que “no se puede pensar que se les puede engañar con facilidad”. Además, insiste en recordar que los medicamentos están respaldados por estudios científicos y que desde su unidad se trabaja para que siempre se ofrezca “información rigurosa”.

Sin embargo, un reciente estudio muestra que efectivamente los contactos con representantes de la industria pueden debilitar la calidad de las prescripciones. Según los autores de esta investigación, existe “una asociación consistente entre las actividades relacionadas con la promoción de un medicamento y un aumento inapropiado de las tasas de prescripción o una reducción de la calidad de la prescripción”, por lo que recomiendan “restringir las interacciones médico-industria”.

Los congresos médicos controlados por la industria

El otro gran caballo de batalla de esta relación son los congresos médicos, patrocinados y financiados mayoritariamente por el sector farmacéutico. En España solo algunas sociedades médicas han tratado de llevar a cabo congresos independientes, algo que trata de promover la plataforma NoGracias a través de unas serie de recomendaciones para que los congresos estén “basados en los valores de austeridad, independencia, transparencia, proporcionalidad y progreso científico”.

También desde Farmaindustria se han hecho esfuerzos por mejorar en este aspecto y Zamarriego asegura que desde su unidad se trabaja para que “el interés científico sea el único a tener en cuenta a la hora de asistir a un congreso”. De esta forma, el código de autorregulación es el que determina “cuándo un laboratorio farmacéutico puede patrocinar la asistencia de un médico a un congreso”, explica Zamarriego, desautorizando los que no cumplen las condiciones del código de buenas prácticas.

Sin embargo, Novoa considera que el problema va más allá y exige un mayor grado de independencia. “Nadie se imagina a un juez comiendo con una de las partes de un juicio o que le paguen un congreso, pero esto es lo que está sucediendo en el mundo de la medicina, porque el médico es un juez que tiene que determinar cuál es el mejor remedio para un paciente y una de las partes le paga viajes, hoteles, cursos, libros o comidas”.

En este sentido se pronunciaba hace unos años el investigador de la Universidad de Stanford, John Ioannidis, en un controvertido editorial publicado en la revista de la Asociación Americana de Medicina. Ioannidis asegura que “hay suficientes pruebas de que los congresos médicos están al servicio de valores muy cuestionables que van en contra de la medicina y el sistema de salud” y que “solo favorecen a los departamentos comerciales de las farmacéuticas y a las cadenas hoteleras”.

Limitar el contacto directo entre médicos e industria

Desde NoGracias consideran que existe demasiada laxitud en el sector y que se debería elaborar un marco regulatorio más estricto, que evite “el contacto directo de la industria con los médicos, porque eso no beneficia a los pacientes, ni vale para que los médicos estén mejor formados”, explica Novoa.

En este sentido también se ha pronunciado el presidente Federación de Asociaciones Científico-Médicas, quien ha asegurado que el hecho de “que las aportaciones de la industria se vehiculen a través de nuestras organizaciones contribuiría” a que los profesionales puedan “acceder sin trabas a una formación de calidad e independiente”.

if 2Así lo hará a partir del próximo 1 de enero de 2018 la patronal del sector de las tecnologías sanitarias, FENIN, que, a diferencia de Farmaindustria, ha especificado en su código ético que “las empresas no darán ayudas a profesionales de la salud a título personal”.

Zamarriego, sin embargo, considera que “la clave no es tanto el hecho de que las ayudas se concedan a profesionales concretos o a entidades, como que estas transferencias de valor sean absolutamente transparentes” e insiste en que el sistema de transparencia de Farmaindustria “cuenta con el aval explícito de la Agencia Española de Protección de Datos”.

Publicidad vs formación

La legislación española hace referencia al conflicto de intereses en el ámbito sanitario por medio de la ley de garantías y uso racional del medicamento, que “prohíbe el ofrecimiento directo o indirecto de cualquier tipo de incentivo, bonificaciones, descuentos, primas u obsequios” por parte de la industria a los profesionales sanitarios.

Sin embargo, los pagos a médicos que realiza la industria, a los que se suelen referir como transferencias de valor, se consideran como actividades de publicidad o de formación, con lo que quedan excluidas de la citada ley. De esta forma, las relaciones económicas entre la industria farmacéutica y la comunidad médica están esencialmente reguladas a través de sus propios mecanismos de autorregulación.

La actual polémica respecto a las transferencias de valor ha surgido porque la Agencia Tributaria consideraba que estos pagos como retribuciones en especie y, por lo tanto, deben tributar. Tanto Farmaindustria, que se refiere a estos pagos como “becas para la asistencia a congresos”, como el PP y Ciudadanos, aducen que la formación de los médicos debería estar libre de cargas fiscales, sin embargo, según la actual legislación muchos de estos pagos son considerados como publicidad y no como formación.

De hecho, según el Real Decreto que regula la publicidad de los medicamentos, se consideran como tal “las visitas médicas efectuadas por los visitadores médicos”, “el suministro de muestras gratuitas” y “el patrocinio de congresos científicos en los que participen personas facultadas para prescribir o dispensar medicamentos y, en particular, el hecho de correr a cargo con los gastos de desplazamiento y estancia con motivo de dichos congresos”.

Pocos estudios sobre el conflicto de intereses en España

Aunque en España el conflicto de intereses en el ámbito médico apenas ha sido analizado en la bibliografía científica, en el año 2009 se publicó una investigación en la que se analizaron 9 revistas médicas españolas. Los resultados mostraron que el 92,8% de los autores había recibido algún tipo de financiación de la industria en el último año, siendo lo más frecuente el pago de viajes e inscripciones a congresos.

Sobre el la posición de los médicos respecto a estos conflictos de interés, apenas existen datos en España, aunque un estudio realizado en Cataluña en 2004 mostraba que el 70% de los médicos consideraba ético aceptar inscripciones a congresos o cursos y un 20% el pago de viajes.

A nivel internacional, el análisis más reciente sobre la posición de los médicos respecto a esta cuestión se publicó el pasado mes de marzo en EEUU y sus resultados indican que, aunque más del 90% de los médicos encuestados son conscientes de la existencia de normas que regulan los conflictos de interés en sus instituciones, existen varios ámbitos en los que hay un profundo desconocimiento.

Existe “una asociación consistente entre las actividades relacionadas con la promoción de un medicamento y un aumento inapropiado de las tasas de prescripción”

Solo el 77,5% conoce las normas sobre aceptación de regalos, comidas o actividades lúdicas y menos del 59% tiene conocimiento de la existencia de limitaciones a la hora de participar en eventos patrocinados por la industria o de recibir fondos de la industria para formación. Respecto a las políticas de restricción de acceso a los representantes de ventas, solo el 21,8% reconoce saber algo. Un porcentaje similar (22,6%) a los que tienen algún conocimiento sobre las normas de reclutamiento de pacientes para los ensayos clínicos financiados por la industria.

Fonte: eldiario.es
Por Teguayco Pinto
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Las medicinas serán cada vez más caras (y no necesariamente mejores), según la OCDE
En la última década, el coste de algunos medicamentos que sirven para tratar se ha disparado. Y la situación puede ir aún peor, sugiere un documento de la OCDE
farm 1¿Cuánto nos cuesta la salud? (iStock)
El futuro de la medicina es prometedor. Siempre y cuando podamos pagárnoslo, claro está. Los precios de los nuevos medicamentos se han disparado en los últimos años, y en muchos casos, esta subida espectacular no está ligada a unos mayores beneficios para el paciente. Es lo que señala un nuevo informe publicado por la OCDE y llamado ‘New Health Technologies. Managing Access, Value and Sustainability’ que resume las promesas y los problemas de la medicina moderna.

“La producción farmacéutica es abundante, pero no responde de manera adecuada a las necesidades médicas prioritarias”, señala el informe. “Como resultado de las nuevas tendencias, muchos nuevos medicamentos tienen precios muy altos que no siempre están relacionados con grandes beneficios para la salud”. Este cambio se debe en gran parte al auge de las medicinas especializadas, que en algunos países desarrollados llegan a suponer el 37,7% de las prescripciones a lo largo del año, y cuyo precio de salida al mercado es muy alto. Se trata, por lo general, de medicinas orales contra el cáncer e inmunomoduladores (que regulan el sistema inmune).

El informe presenta varios ejemplos de este “nuevo modelo de negocio”. Por ejemplo, el coste del tratamiento para la esclerosis múltiple cuesta de media 10 veces más ahora que hace 10 años, 60.000 dólares (56.000 euros) frente a 6.000 (5.600). Algo que también ha ocurrido con el coste del tratamiento oncológico mensual de los pacientes suscritos a Medicare, ya que muchos de los medicamentos aprobados durante los últimos años son especialmente caros. “Aunque los precios varían ampliamente, este incremento se ha observado en muchos países de la OCDE”, señala el informe.
Esto provoca que, en muchos casos, el coste para la seguridad social de estos tratamientos se dispare, lo que plantea nuevos retos, sobre todo teniendo en cuenta los problemas demográficos que atraviesan países como España. Aún más sensible en el caso de medicinas utilizadas para tratar enfermedades graves que no tienen otro tratamiento alternativo, lo que permite a las farmacéuticas disparar el precio. Aunque el informe no lo cite, es lo que ocurrió con Turing Pharmaceuticals de Martin Shkreli y la subida del 5.000% del medicamento para tratar el sida Daraprim o las medicinas para tratar la leucemia mieloide crónica (LCM).
Un futuro esperanzador, pero caro
En muchos de los casos analizados, los nuevos medicamentos han permitido que los pacientes vean alargada su vida y mejorada la calidad de esta. En el caso de la leucemia, por ejemplo, la aparición de medicamentos como el imatinib (Glivec) permitió que los pacientes pudiesen sobrevivir a la enfermedad. Sin embargo, es un tratamiento para toda la vida. Es lo que tienen en común la mayor parte de medicinas que suponen una elevada carga económica para enfermos y sistemas de seguridad social: son patologías crónicas con apenas tratamientos alternativos que colocan a las farmacéuticas en una situación privilegiada para negociar los precios.
farm 2La financiación privada no llega a muchos medicamentos que tratan enfermedades raras. (iStock)

Según el informe de la OCDE, en 2016 se prepararon 13.700 nuevos medicamentos, 6.900 de los cuales estaban en fase de desarrollo. El área que está experimentado un mayor crecimiento es la oncología: un tercio de las nuevas medicinas sirven para tratar el cáncer, una enfermedad que la OCDE considera prioritaria y que supone el 16,9% del coste de los países desarrollados. Sin embargo, el informen advierte que se destina muy poco dinero a a la investigación sobre resistencia a los antibióticos. ¿Por qué? “Los incentivos para las compañías privadas para desarrollar nuevos antibióticos son pocos ya que las expectativas de que resulten rentables son mucho más bajas que otras categorías terapéuticas, como las enfermedades crónicas”.

En otras palabras, el mercado no siempre ofrece respuesta a las necesidades de la población. Debido a que gran parte de la financiación es privada, esto puede suponer un riesgo a la hora de investigar enfermedades que afectan sobre todo a países en vías de desarrollo. Son las conocidas como “enfermedades abandonadas”, nombre por el que se las conoce desde hace 20 años, como el sida, la malaria y la tuberculosis, cuya investigación suele financiarse con dinero público (60%) o procedente de ONG (9%).
La buena noticia para los españoles es que, en comparación con otros países, los precios no son demasiado elevados. Como puso de manifiesto una investigación realizada por Sabine Vogler y publicada en ‘The Lancet Oncology’, los países en los que los fármacos para tratar el cáncer son más caros son Suecia, Suiza y Alemania, y el coste es más bajo en Portugal, Reino Unido, Grecia y nuestro país. No obstante, la subida de precios en los medicamentos que entran al mercado es generalizada.
El lujo de poder medicarse
Eso si hablamos de medicamentos cuya eficacia se corresponde con los beneficios que producen en la salud de los pacientes. No obstante, como señalábamos, hay otros que resultan menos eficientes. Aquí vuelven a aparecer también los tratamientos contra el cáncer: “De los 12 medicamentos nuevos aprobados por la FDA en 2012, solo uno aumenta las probabilidades de supervivencia en más de dos meses”, señala el informe. Otras medicinas de reciente entrada en el mercado han visto aumentar su precio y disminuir su impacto.
farm 3La tendencia parece tristemente clara: cada vez hará falta gastar más dinero para obtener peores resultados. Según las cifras ofrecidas por el informe, en 1995, un año más de vida costaba al paciente estadounidense 54.100 dólares (algo más de 50.000 euros); en 2005 esta cantidad ascendía a 139.100 (130.000 euros) y en 2013 eran 207.000 (193.000 euros). Es decir, un aumento de un 10% anual, muy por encima de la inflación. Por si fuera poco, la cantidad de medicamentos no recomendados por el NICE (National Institute for Health and Care Excellence) ha pasado de una tercera parte a dos tercios, aproximadamente.
El estudio hace especial hincapié en el reto que suponen los medicamentos para tratar la hepatitis C y que fueron aprobados entre 2013 y 2014. Se trata de tratamientos que suponen un gran avance para los pacientes debido a la respuesta de más de un 90% que produce el sofosbuvir, muy caros pero rentables. No obstante, la estrategia de Gilead, la compañía que lo comercializa en un gran número de países como España, desvela el problema que presentan mucho de esos tratamientos. El medicamento salió al mercado en EEUU con un coste de 84.000 dólares (78.630 euros) para 12 semanas. A principios de 2016, Gilead había obtenido en todo el mundo 35.000 millones de dólares (32.760 euros) de beneficio gracias al sofosbuvir.
En España lo conocemos bien: el coste por paciente ronda los 13.000 euros, y la no administración de los nuevos fármacos llevó a la Plataforma de Afectados por la Hepatitis C a querellarse en el Tribunal Supremo contra el ministro de Sanidad del momento, Alfonso Alonso. Muchos accionistas de la propia Gilead consideran que se podría reducir el precio del medicamento para facilitar su acceso en todo el mundo y seguir ganando dinero. Es la gran pregunta que se hace el informe: “las ganancias de Gilead han sido excepcionales y no reflejan la media de las compañías farmacéuticas. Sin embargo, estas plantean la pregunta de la relevancia del modelo de negocio y las respuestas políticas”.

¿Qué hacemos?
El informe también resume algunas de las medidas políticas que se están adoptando para hacer frente a este aumento en los precios y propone algunas más. Entre las primeras se encuentran una mayor regulación del mercado de entrada de nuevos medicamentos y su aceleración (que se ha reducido casi a la mitad den los últimos 10 años) o la adopción de medidas de fijación de precios basándose en el valor de medicamento, como ocurre en el sistema de salud inglés. También la financiación pública de medicamentos cuando la investigación de estos no resulta rentable, como ocurre con algunas medicinas para combatir el cáncer.

farm 4El coste de algunos medicamentos puede excluir a muchos enfermos. (iStock)

Entre la serie de medidas propuestas por el informe se encuentran las siguientes, basadas ante todo en un “reequilibrio entre los poderes de negociación de los compradores y los vendedores en algunas áreas terapéuticas” y la incentivación del desarrollo de medicamentos huérfanos (aquellos que afectan a un sector relativamente pequeño de la sociedad y cuya comercialización, por ello, resulta poco probable). Como señala el informe, uno de los problemas en muchos mercados es que, como hemos visto, las farmacéuticas tienen mucho más poder que el consumidor a la hora de fijar precios.
“Las tendencias actuales en los mercados farmacéuticos se ven al mismo tiempo con optimismo y con preocupación”, concluye el informe. “La cantidad de medicamentos aprobados cada año, impulsada por el desarrollo de terapias dirigidas, suena prometedora”. Sin embargo, la OCDE alerta de la aparición de “un nuevo modelo de negocio” en el que “las empresas solicitan precios más altos a poblaciones pequeñas afectadas por enfermedades graves”. ¿Se podrá reaccionar a tiempo, o millones de personas sufrirán por esta falta de adecuación entre el mercado y las necesidades de los pacientes?

Por Héctor G. Barnés
Fonte: El Confidencial (ESP)

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“Drogas homeopáticas não tem respaldo científico”

EE.UU.: Drogas homeopáticas deben indicar que carecen de evidencia científica

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La Comisión Federal de comercio (FTC, por sus siglas en inglés) de Estados Unidos hizo pública una resolución en la que se establece la obligatoriedad de avisarle a los consumidores que la supuesta efectividad para curar enfermedades no tiene ningún respaldo científico.

Según el comunicado de la FTC, “la gran mayoría de las indicaciones en los productos homeopáticos no están basadas en métodos científicos modernos y no son aceptadas por médicos actuales”.

La Administración de Alimentos y Medicinas de EE.UU. también está revisando sus políticas sobre estos productos, según confirmó su portavoz Theresa Eisemann.

Según publica la Asociación de Medicina Homeopática del Uruguay, se trata de un método desarrollado por Samuel Hahnemann en el siglo XIX y que “el tratamiento homeopático está indicado en general para cualquier enfermedad y en cualquier época de la vida, ya como tratamiento exclusivo o como complemento de otras terapéuticas”.

Qué es la homeopatía

Hahnemann creía que las causas de las enfermedades eran fenómenos que llamó miasmias y que los remedios homeopáticos actuaban sobre estos.

Existen tres escalas logarítmicas de potencia de común en la homeopatía. Hahnemann creó la escala centesimal o “escala C”, diluyendo una sustancia por un factor de 100 en cada etapa. Esto significa que cada 100 partes de agua contienen 1 parte de un ingrediente activo. De esta solución se toma de nuevo 1 parte y se diluye de nuevo entre 100.

Este proceso se realiza varias veces hasta que la relación 100−6=10−12, o sea una parte en un billón (1/1 000 000 000 000).

Al final, el elemento activo es prácticamente indetectable en el medio en que es diluido (alcohol o agua).

Para Hahnemann y los seguidores del esta práctica, existe un supuesto hecho denominado “memoria del agua”, lo que significa que esa disolución de 1 parte en 1 millón memoriza las propiedades del ingrediente activo indetectable.homeopatia-2
Solución homeopática que contiene peligrosas bacterias en su preparación. Foto: Wikimedia Commons.

Hahnemann también defendió el uso de sustancias que producían síntomas semejantes a aquellos que supuestamente deberían tratar, y que este hecho ayudaba a curarlos. Bajo esta premisa, algunas soluciones homeopáticas pueden llegar a contener peligrosos elementos como la bacterias Esteriquia coli, Clostridium botulinum, Salmonella, Mycobacterium tuberculosis y Estreptococo.

Diversas empresas presentes en Uruguay aseguran poder tratar padecimientos como el ácido úrico, agotamiento físico, aftas, afonia, alcoholismo, alergias, anemia, artrosis, bruxismo, bronquitis y decenas de otras enfermedades.

Fonte: LARED21

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Fonte: Viomundo

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Nos subterrâneos da Indústria Farmacêutica

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Viagem ao mundo do medicamento-mercadoria. A pesquisa submissa ao marketing. O trabalho infernal, nos laboratórios. A “eficácia das drogas atestada em estudos fraudados

Por Quentin Ravelli, no Le Monde Diplomatique | Tradução: Inês Castilho

“Percebi que estava grampeado, que sabiam exatamente o que eu receitava”, indigna-se um médico instalado em Paris. “Fui ingênuo, não fazia ideia. [Um dia], uma representante comercial me disse: “Você não prescreve muito!” Eu me perguntei: “Como ela pode saber disso?” Essa prática de vigilância, que choca muitos profissionais, é articulada pelos serviços comerciais dos laboratórios. Para aumentar ou manter sua fatia do mercado, os grandes grupos farmacêuticos implementam artifícios de engenhosidade mirabolante. Não hesitam, por exemplo, em alterar as indicações de seus medicamentos para conquistar novos clientes.

Considerado por certos médicos como “o Rolls Royce dos antibióticos dermatológicos”, a Pyostacyne (no Brasil, Pristinamicina), fabricado pela Sanofi – um dos primeiros grupos farmacêuticos do mundo em volume de negócios (33 bilhões de euros em 2013) – conheceu tal destino. Durante muito tempo de uso dermatológico, o antibiótico viveu uma “virada respiratória”: é agora utilizado maciçamente em casos de infecção broncopulmonar e de ouvido, nariz e garganta. Este último uso, criticado por numerosos médicos e depois denunciado pelo poder público, podia conduzir a um superconsumo de antibióticos, sendo assim parte do problema mais amplo do fortalecimento das resistências bacterianas – um grande desafio de saúde pública, responsável por setecentas mil mortes por ano em todo o mundo (ver “O outro pesadelo de Darwin“).

Para compreender a natureza versátil da mercadoria da indústria farmacêutica, acompanhamos a vida desse medicamento ordinário, desde os laboratórios de pesquisa até os visitantes comerciais, passando pela fábrica de produção do princípio ativo (1). A cada etapa, a mercadoria muda de nome: os biólogos falam da bactéria Pristinae Spiralis; os químicos, da pristinamicina fabricada pela bactéria; os representantes alardeiam os méritos da “Pyol” aos médicos; os trabalhadores denominam-na afetuosamente “a Pristina”. Ao longo dessa cadeia, o antagonismo entre as necessidades do doente e os lucros do industrial, entre o valor de uso e o valor de troca (2) nunca param de se manifestar.

Ele expõe a oposição entre assalariados e executivos, particularmente sensível em uma empresa em plena reestruturação, onde os trabalhadores estão lutando para conter os cortes de emprego e impor suas próprias concepções do papel do medicamento.

Vender

“Seu trabalho é manter o seu desempenho”

Grande bloco todo de vidro de 37 mil metros quadrados, a sede da Sanofi na França evoca transparência e respeito aos pacientes, cujas silhuetas estilizadas dominam o alto do edifício, cercadas por um coração azul. No terceiro andar desse edifício situado no sul de Paris encontram-se os escritórios de marketing, onde agitam-se os funcionários que trabalharam, desde a década de 1990, na introdução da Pristinamicina no mercado de infecções respiratórias. Com êxito evidente, já que, do inverno de 2002 até o inverno de 2010, o número de vendas para infecções broncopulmonares saltou 112%, enquanto o aumento foi de apenas 32,6% no campo dermatológico.

Esse aumento não corresponde a uma explosão do número de doenças ou a uma epidemia devastadora, mas a uma estratégia comercial: o mercado de infecções respiratórias envolve um volume de prescrições muito mais importante que o de infecções dermatológicas. “Acontece que, contra os germes que infectam os brônquios, pulmões, seios da face, o medicamento vai muito bem”, diz um médico da empresa. “Por isso, em seguida ele foi desenvolvido com essa indicação.” Da pele ao pulmão, o valor de troca metamorfoseou o valor de uso.

Os ourives desse gênero de giro terapêutico são os “gerentes de produto”, funcionários especializados na promoção de um só medicamento ou de alguns medicamentos com indicações aproximadas. Aqui, se é “gerente de produto Pristinamicina”, “gerente de produto Tavanic”, “gerente de produtos analgésicos” e até mesmo “gerente de produtos psicóticos”. Célia Davos (3), gerente de produto Pristinamicina, que se diz “muito voltada aos negócios”, descreve o conteúdo do seu ofício: “Seu trabalho é monitorar o desempenho do medicamento, é seguir seu produto para ver aonde ele vai, de acordo com os concorrentes, de acordo com o mercado, de acordo com a patologia, e fazer todos os esforços para maximizar o volume de negócios.” Esse posto, situado no coração do serviço de marketing, ele próprio no centro da sede social, funciona como uma mesa giratória onde os funcionários chegam de várias áreas e podem em seguida ser realocados para outros horizontes, como gerentes, responsáveis pelas áreas de marketing, comunicações, relações públicas, vendas.

O papel do gerente de produto consiste em destacar a utilidade de um medicamento na preparação do material dos propagandistas de laboratório, esses comerciantes que se deslocam pelos consultórios para convencer os médicos a prescrever seus produtos. No arsenal da Pristinomicina, encontram-se a ajuda de visita, espécie de guia a partir do qual o visitante constrói seu discurso segundo os argumentos elaborados pelo marketing; os elementos-chave, de informação médica, que sintetizam os pontos mais importantes; os número de uma revista científica como Infectologia, cujo patrono é a Sociedade de Patologia Infecciosa de Língua Francesa (Spilf) e que apresentam apenas os últimos resultados de ensaios clínicos bem sucedidos relativos à Pristinomicina. Mas também uma multidão de gadgets paramédicos – pequenas lâmpadas plásticas com uma espátula para pensar sobre o Pristinomicina, ao olhar o fundo da garganta do paciente; caixas de tecido para decorar o escritório do doutor; canetas Pristinomicina; pen-drive Pristinomicina. Esses textos e objetos, que se repetem por todo lugar no consultório do profissional, serão encontrados no porta-malas dos propagandistas.

Nem todos os médicos interessam aos laboratórios todos na mesma medida. Aqueles que têm um importante “potencial de prescrição” tornam-se objeto de atenção particular. Para identificá-los, os laboratórios utilizam os serviços do Grupo de Elaboração e Realização de Estatísticas (GERS), que dispõe das cifras das vendas aos distribuidores e das vendas diretas em farmácias; ou do Centro de gestão, de documentação de informática e de marketing (Cegedim), que fornece dados do software das prescrições dos médicas. A essas fontes oficiais, somam-se as redes de inteligência informais, como as enquetes dos visitantes médicos com farmacêuticos e seus colegas. Para os serviços de marketing, toda informação relativa às práticas dos médicos interessa, pois permite estabelecer uma “segmentação de clientes” em potencial. Assim, há os ”baixos ATB, baixos Pristinomacina” (os que prescrevem pouco antibiótico em geral, ou pouca Pristinomacina) e os “baixos ATB, altos Pristinomacina” (que já prescrevem abundantemente o produto promovido). Estes, serão menos visados que os “altos ATB, pequenos Pristinomacina” — pois podem substituir uma parte importante de suas receitas de outros antibióticos em receitas de Pristinomacina.

Evidentemente, essas estratégias não se traduzem mecanicamente em vendas. É necessário que elas sejam postas em prática pelos visitantes médicos. Na França, em 2014 havia dezesseis mil empregados de empresas farmacêuticas, que passavam o tempo todo em reuniões com os médicos. À taxa de duzentos e treze dias de trabalho por ano e seis visitas por dia, são mais de vinte milhões de conversas que travadas, anualmente com os médicos. Essas entrevistas são minuciosamente preparadas. Para aumentar a eficácia, os serviços de marketing redigem por exemplo brochuras apresentando diversos “tipos de perfil” de médicos: a “mulher médica sindicalista”, o “médico amigo”, o “médico cientista”, o “médico estressado”… Essas brochuras são utilizadas no decorrer de seminários de formação para ajudar os visitantes médicos a colocar em prática a “rota de fidelização”, com vistas a conhecer melhor suas metas. Aprendemos , nesses “workshops de produto”, que o médico da família – 55 anos, grande clientela, presidente de um programa de educação médica continuada – é mais “sensível à abordagem humanística do paciente” do que o médico cientista “instalado no campo”, de “contacto muito frio”, ao contrário do namorado companheiro, “alegre, mas um pouco mole.” Uma vez formados neste jogo, os representantes comerciais devem sair a campo para melhorar a “elasticidade” de médicos. Quanto mais um médico é considerado “elástico”, mais receptivo ele é ao discurso indústria farmacêutica.

Ou então, os médicos se tornam cada vez mais críticos, a ponto de fechar suas portas para os visitantes médicos, cujo número caiu depois de dez anos. Esta resistência crescente empurra a empresa a encontrar outras formas de lobbying, mais científicas e menos perceptíveis, particularmente ao dirigir-se a formadores de opinião (chamados KOL, key opinion leaders/líderes-chave de opinião) – ouvidos e respeitados por milhares de prescritores. Assim, a Sanofi procura influenciar docentes de universidades, por vezes percebidos como responsáveis pelo espírito crítico de jovens médicos.

Quando fui estagiário na Sanofi, tive por exemplo de construir “argumentos para decanos”, buscando convencer os mais reticentes em acolher a empresa em suas classes. Os maus resultados de algumas faculdades foram usados – especialmente em Paris-V, onde houve uma queda dramática na proporção de alunos classificados no primeiro trimestre da competição nacional. Esse resultado era explicado, de acordo com a Sanofi, pela personalidade do decano, considerado um dos mais indóceis, por não permitir a livre circulação de panfletos, cartazes e outros produtos de publicidade disfarçada.

Toda essa máquina de influência não funciona sem choque ou oposição. Há, em todos os níveis, dúvidas, dissonâncias, contradições. Certos representantes, particularmente conscientes dos problemas de resistência bacteriana, procuravam, por exemplo, falar com os médicos sobre todos os antibióticos disponíveis e não apenas daqueles que geram mais dinheiro. Eles esforçam-se por tecer laços não comerciais com os profissionais, não hesitam a partilhar suas dúvidas e suas críticas. Mas são encontram frequentemente confrontadas com mudanças arbitrárias, transferências de zona, a chamadas da direção, que são difíceis de contrariar quando pairam ameaças de demissão.

Produzir

“Há dois anos que perdi o sono”

A fábrica em que é fabricado o princípio ativo da Pristinomicina, a partir de bactérias colocadas para fermentar, encontra-se perto de uma volta do Rio Sena, ao sul de Rouen (França), onde são espalhadas diversas indústrias, como as da Total ou da ASK Químicos. Na fábrica da Sanofi, afetada por cortes de pessoal, alguns espaços foram substituídos por retângulos de grama que são alternados com oficinas de atividades, interligados por feixes de tubos de oxigênio, água purificada, solventes, ácidos. Quando se entra pela primeira vez, um odor contrai as narinas: é dos dejeitos agrícolas que as bactérias em fermentação consomem, em quantidade antes, de secretar os princípios ativos. O perfume inebriante de melaço de açúcar de beterraba, que chega na fábrica pelos carros-pipa, domina a atmosfera.

Na oficina de fermentação, o barulho atinge, como hélices de avião em marcha lenta, as longas lâminas de dezenas de fermentadores de duzentos e vinte metros cúbicos, movimentadas continuamente. É aqui que nasce a molécula pristinamicina, que se encontrará nas milhões de caixas acondicionadas na Espanha, depois vendidas em farmácias. Segundo os trabalhadores, o trabalho em si mesmo é interessante e frequentemente imprevisível, pois envolve organismos vivos. Mas as condições são particularmente duras. Os operários trabalham em regime 5 × 8. Significa que são divididos em cinco equipes, que trabalham dois dias das 5h às 12h, em seguida, dois dias das 12h às 20h, e finalmente dois dias das 20h às 5h.

Oficialmente, em seguida eles se beneficiam de quatro dias de descanso. Mas, onze vezes no ano, um desses quatro dias é suprimido, segundo o sistema de “remontagem” sem o qual o tempo de trabalho seria inferior a trinta e cinco horas semanais, a jornada legal na França. Frequentemente, portanto, Não restam mais que três dias de repouso, fortemente encurtados pela noite do último ciclo ou pela manhã do próximo. Quem segue esse ritmo não dorme, jamais, três vezes seguidas no mesmo horário. “O cérebro não é mais capaz de retomar os ritmos de vigília e sono”, diz o Sr. Etienne Warheit, que está no 34º ano de 5 × 8. “Dois anos atrás, perdi o sono e não conseguia mais fazer seis horas por noite. Ficava cansado às 22 horas, mas estava acordado à meia-noite e não havia maneira para dormir antes de 2:00. E vice-versa… chegava ao trabalho, estava cansado, e por isso tomava café. Você torna-se incapaz de fazer o trabalho. Precisa repeti-lo novamente três vezes, porque tem medo de esquecer as coisas, ter cometido um erro, você perde a confiança em si mesmo.”

Quando os trabalhadores acham esse ritmo muito desgastante e querem mudar de horário o gestor se recusa, principalmente porque não tem outros postos para lhes oferecer. O objetivo é primeiro rentabilizar as máquinas, que funcionam permanentemente. Para justificar esse ritmo infernal, a direção esconde-se atrás de uma espécie de determinismo tecnológico: os ritmos da fermentação bioquímica e extração de bactérias tornariam inevitável o sistema 5 × 8. “É óbvio que, numa fábrica como esta, a partir do momento em que a produção é contínua e só pode ser contínua, não é possível fazer de outra forma”, diz o médico da fábrica. Esta explicação científica desestimula a pesquisa de organização coletiva do trabalho. É parte de um discurso mais geral, que pode ser chamado de “biotecnologia”: a fábrica, voltada para produtos do futuro, seria mais semelhante a um laboratório, onde o protesto trabalhista não teria mais razão de ser.

Há, portanto, um abismo entre as práticas concretas do grupo industrial e seu discurso – “O essencial é a saúde”, proclama o slogan inscrito na entrada da fábrica. Mas os protestos, que dão a um dos responsáveis da área de recursos humanos a impressão de “um barril de pólvora”, e que inclusive provocam medo no gerente de “descer” nas oficinas, são integrados à estratégia de negócios da empresa. Ao oferecer a vários trabalhadores a possibilidade de se tornarem técnicos, usando o discurso da biotecnologia como forma de mascarar a realidade da fábrica, a empresa tem conseguido transformar a reivindicação coletiva de unificar todas as forças sindicais em promoção de desejos profissionais individuais. Essa recuperação repousa, notadamente, sobe o medo: durante vários anos, do final dos anos 1990 até 2005, a direção do grupo fez pairar a ameaça de venda da fábrica. Esse cenário, que jamais se concretizou, permitiu sobretudo que os trabalhadores aceitassem uma reestruturação e o corte de 15 dos 77 postos de trabalho no sistema 5 x 8. De ameaçada, a fábrica foi promovida a “unidade piloto” do grupo Sanofi.

Tal virada – que não mudou as condições de trabalho nem os salários – reflete a forte utilidade industrial das bactérias. O “bom da biotecnologia” marca uma orientação geral do capitalismo industrial deste início do século XXI, que desenvolve biotecnologias ditas verdes (agricultura), brancas (indústria), amarelas (tratamento de poluição), azuis (a partir de organismos marinhos) ou vermelhas (medicina). Por causa de todas essas aplicações, os mercados desenvolvem-se, e frequentemente as taxas de lucro são excepcionais, o que explica a razão pela qual a indústria farmacêutica tem comprado, no últimos anos, as empresas de biotecnologia. Em abril de 2011, a Sanofi comprou por 20 bilhões de dólares a Genzyme, uma empresa norte-americana especializada em produtos biofarmacêuticos para esclerose múltipla e doenças cardiovasculares. Esta atração pode ser explicada pelo fato de que as novas moléculas utilizadas no tratamento de muitas doenças não vêm da química de síntese clássica, mas do uso de materiais vivos, muitas vezes geneticamente modificados, que permitem fazer importante economia na produção.

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“O conflito de interesses é permanente”

Nas Jornadas Nacionais de Infectologia da França, dois “espaços” se defrontam. De um lado, o “espaço das marcas”, onde os comerciantes falam da Pristinamicina: 56 estandes de laboratórios farmacêuticos, dispostos em sete fileiras, segundo uma lógica de blocos desalinhados que impõe um deslocamento em zigue-zague aos 1,5 mil médicos inscritos. Do outro, o “espaço das moléculas”: dois auditórios, batizados de Einstein e Pasteur, onde acontecem simpósios científicos. Assim, paralelamente a um desinvestimento na pesquisa privada – a Sanofi fechou, em 2004, seu centro de pesquisa anti-infecciosa de Romainville –, os laboratórios exercem certo controle sobre a pesquisa pública: eles financiam os congressos médicos e influenciam, em contrapartida, a organização científica, material e espacial deles.

Para chegar ao espaço científico das Jornadas de Infectologia, que se encontra do lado oposto da entrada do congresso, os médicos devem passar, no mínimo, diante de treze estandes, cujo aspecto reflete o peso e a influência do expositor. Aos deliciosos petits fours da transnacional Boehringer-Ingelheim, degustados em meio a assentos com design e sob a luz azul de grandes lâmpadas halógenas verticais, responde o suco de maçã, servido sobre uma grande mesa de fórmica coberta de objetos em desordem, oferecido pelo StudioSanté, uma rede francesa de coordenação de cuidados médicos especializada na perfusão em domicílio…

Apesar da aparente separação dos espaços, as ligações entre o universo comercial e o mundo científico são sólidas. Durante o congresso, o principal objetivo das empresas é mostrar a superioridade científica de seus produtos. Os simpósios exibem, portanto, o nome de seus patrocinadores – “Simpósio Bayer”, “Simpósio GSK”, “Simpósio Sanofi” – nos quais se enfrentam os KOLs de cada laboratório. Para assegurar os serviços de médicos influentes, os lobistas dos grandes grupos conduzem um trabalho de fôlego que passa principalmente pela organização de viagens com vocação pseudocientífica. Uma “médica de produto” da Sanofi conta como constituiu o grupo de especialistas de um medicamento apoiando-se sobre os médicos cuidadores que influenciavam os outros “receitadores”. “Eu disse: tenho dez lugares, só quero aqueles que ganham 1 milhão de euros ou mais [em volume de negócios]. No primeiro ano, eu os levei para Cingapura. No segundo, aconteceu de serem no geral os mesmos. Aonde fomos? A Durban [África do Sul]! Um ano depois, estávamos em Cancún [México] e, no seguinte, na Birmânia. É desnecessário dizer – isso não se diz porque não se tem o direito –, mas é assim que você cria parceiros de verdade.”

Reencontramos, na organização dos testes clínicos, uma imbricação similar do valor de troca e do valor de uso. Um dos KOLs da Pristinamicina, o doutor Jean-Jacques Sernine, responsável por alguns testes clínicos, é um dos infectologistas mais renomados da França. Sua carreira foi construída em torno de duas práticas profissionais: a coordenação de testes clínicos para a indústria farmacêutica (sobretudo para Pristinamicina, na Sanofi) e a expertise junto às agências públicas do medicamento. Ainda que não avaliasse os mesmos medicamentos nos dois casos – ou haveria um flagrante conflito de interesses –, ele fazia parte de um pequeno grupo de especialistas que, tomados coletivamente, passava de uma margem para a outra, da indústria farmacêutica à medicina pública. “O conflito de interesses é permanente. O principal deles, quando se está lá dentro, é se interessar pelos antibióticos!”, justifica. “As coisas só são possíveis se há uma troca entre os avaliadores que somos no nível administrativo e a indústria farmacêutica.” Juiz e, em parte, condenado ao conflito de interesses, o grupo social dos especialistas fica dessa forma prisioneiro de sua própria competência.

Tal situação repercute na Agencia Nacional de Segurança do Medicamento e dos Produtos de Saúde francesa (ANSM), cujo trabalho baseia-se inteiramente na expertise. Situada na periferia norte de Paris, ela fica em um imponente prédio com vidros que não têm a graça e a leveza da sede comercial da Sanofi: quando chegamos ali, a porta giratória, temporariamente travada pelas intempéries, estava cercada por uma fita de construção vermelha e branca. Foi por uma porta clássica que tivemos de passar, para chegar a uma sala de espera à qual várias plantas de plástico, com folhas cheias de poeira, davam um ar de gabinete de taxidermista.

Essa desigualdade estética reflete uma profunda ausência de simetria social e econômica, que torna difícil acreditar que a ANSM exerça um contrapoder eficaz. Com efeito, ela muitas vezes não tem o tempo nem os meios de ler e analisar o conjunto dos dossiês de pedidos de autorização de colocação no mercado (AMM) que as empresas fazem chegar a ela. Sernine ironiza sobre um pedido de AMM para o qual ele contribuiu: “Eram 57 volumes de seiscentas ou setecentas páginas cada um, que pesavam 110 quilos e atingiam 2 metros de altura. E era apenas uma parte do dossiê”. Essa situação está longe de ser nova. A crônica jurídica de Bertrand Poirot-Delpech no Le Monde, durante o escândalo sanitário do Stalinon em 1957, já a mencionava como um problema fundamental: “Mestre Floriot, por exemplo, dedicou-se a um cálculo indiscreto. Sabendo que 2.276 vistos tinham sido concedidos em 1953 e que os comissários reuniram-se oito vezes por ano à razão de algumas horas a cada vez, ele chegou ao tempo recorde de 40 segundos por exame de dossiê” (4)

Hoje, os testes clínicos sobre os antibióticos desenvolvem-se em condições opacas, sobre um fundo de divisão seletivo e mesmo com manipulações de dados. Um teste sobre a utilização da Pristinamicina nos casos de pneumonia ilustra o problema: havia, segundo Sernine, sete fracassos do tratamento para o grupo de pacientes tratados com a droga e somente quatro no grupo de controle. Segundo o especialista, que partilha a opinião da diretora médica do laboratório, teriam sido incluídos doentes em situações a tal ponto severas que requereriam outro tratamento diferente. “Portanto, a conclusão a que cheguei sobre isso é que se trata do fracasso não do antibiótico, e sim da estratégia”. Um argumento surpreendente do ponto de vista lógico: como julgar a eficácia de um medicamento se os pacientes que ele não cura não são imediatamente desqualificados, se se parte do princípio de que ele só é eficaz quando é eficaz?

É difícil para a ANSM desviar-se desse tipo de raciocínio circular no seio de dossiês estatísticos complexos, que hoje substituíram a argumentação baseada no olhar médico que percorre os casos clínicos individuais. Com frequência, essa manipulação dos números conduz a falsificações. Em 2007, o caso do Ketek suscitou várias mortes de pacientes por causa de problemas hepáticos e levou um dos responsáveis pelos testes a purgar uma pena de prisão de dois anos nos Estados Unidos, por ter “inventado” pacientes para inflar artificialmente a eficácia do medicamento. Longe de ignorar o problema, certos dirigentes científicos lembram, vários anos após o escândalo, que para esse medicamento “havia cadáveres nos armários”.

Essa expressão, utilizada por uma das diretoras médicas do grupo, testemunha certo cinismo no interior da empresa, cujos altos executivos interiorizaram profundamente os códigos. Para eles, os interesses do grupo vêm antes da saúde dos pacientes, sempre que surge, entre estes dois sistemas de valores, um conflito. De maneira geral, nos escritórios do serviço médico e nos do marketing reina uma forma de amnésia seletiva do medicamento. A história dos efeitos colaterais imprevistos, dos testes clínicos deturpados e dos escândalos sanitários não é memorizada, e o fracasso clínico não tem o mesmo status do sucesso.

Toca-se aqui num dos problemas de fundo da indústria farmacêutica: o fato de os testes clínicos, ou seja, a prova da eficácia dos medicamentos, serem estabelecidos por aqueles que produzem esses mesmos medicamentos. Alguns chamaram esse fenômeno de dependência de “captura regulamentar” do Estado pelas empresas. Essa engrenagem ressurge a cada novo escândalo: Stalinon (1957), talidomida (1962), Distilbène (1977), Prozac (1994), cerivastatina (2001), Vioxx (2004)… A cada onda daquilo que os tribunais chamam de “homicídios involuntários”, a questão da independência dos testes clínicos volta à tona, mas nunca as reformas que se seguem questionam o regime de propriedade comercial do medicamento.

O problema está profundamente enraizado no sistema econômico, que não é mais moral para o medicamento que para o petróleo ou os cosméticos. Não somente porque são os mesmos acionistas que se encontram nos comandos – a L’Oréal continua sendo a principal acionista da Sanofi, desde a recente saída da Total –, mas também porque a possibilidade de lucrar com os medicamentos aguça os velhos antagonismos entre o valor de uso e o valor de troca.

(1) Conduzida no âmbito de um doutorado em Sociologia, esta pesquisa durou quatro anos, durante os quais o autor foi contratado para vários cargos, por exemplo, o de estagiário nos serviços comerciais da Sanofi, operário nas fábricas do grupo etc.

(2) A economia clássica distingue o valor de uso e o valor de troca de uma mercadoria. Adam Smith distingue, por exemplo, o diamante, com alto valor de troca e fraco valor de uso, da água, com fraco valor de troca e alto valor de uso.

(3) Os nomes dos funcionários foram modificados para preservar seu anonimato.

(4) Bertrand Poirot-Delpech, Le Monde, 1o nov. 1957.

Fonte: Outras Palavras

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