Quem ganha com falsas controvérsias sobre ciência

É cada vez mais difícil entender sobre falsas controvérsias, polêmicas fabricadas e mentiras que tentam se passar por opinião científica respeitável. Boa parte da culpa é atribuida a “condição de pós-verdade” do mundo Ocidental – em que o valor dos fatos parece variar de acordo com sua capacidade de servir aos preconceitos dos diferentes grupos sociais, e onde figuras públicas se julgam autorizadas a mentir com impunidade – nas costas do jornalismo business as usual, aquele praticado por grandes jornais, revistas de ampla circulação, rádios e estações de TV.

 

IMAGEM IQC

Quem ganha com falsas controvérsias sobre ciência

Está cada vez mais difícil ficar atualizado com a bibliografia sobre falsas controvérsias, polêmicas fabricadas e mentiras que tentam se passar por opinião científica respeitável.Não faz muito tempo, resenhei dois livrosque tratam do assunto. Semana passada aproveitei para ler outros dois, Post-Truth, do filósofo Lee McIntyre, eLies Incorporated, do jornalista Ari Rabin-Havt, ligado à ONG Media Matters e ao Partido Democrata.

Ambos os livros põem boa parte da culpa pela atual “condição de pós-verdade” do mundo Ocidental – em que o valor dos fatos parece variar de acordo com sua capacidade de servir aos preconceitos dos diferentes grupos sociais, e onde figuras públicas se julgam autorizadas a mentir com impunidade – nas costas do jornalismo business as usual, aquele praticado por grandes jornais, revistas de ampla circulação, rádios e estações de TV.

Não porque esses veículos estejam envolvidos em alguma grande conspiração para disseminar fake news– este é o discurso de gente como Donald Trump – mas porque,ao longo do século passado (e ainda neste), esses veículos adotaram normas e procedimentos cheios de bugs, bugs que foram manipulados à larga por políticos e publicitários.

O principal efeito desses bugs é o de confundir “equilíbrio” com “objetividade”, o que se reflete na norma de que todas as partes interessadas numa determinada questão devem ter igual voz na cobertura. Trata-se de uma regra útil quando o que está em jogo é, por exemplo, a construção de um novo parque, e também pode ser importante quando se realiza um trabalho investigativo de fôlego.

Mas quando se reduz ao meramente declaratório – “ele disse isso, ela disse aquilo” – e, principalmente, quando o que está sendo discutido são pontos científicos consensuais, o recurso engana, distrai e sugere preguiça ou, pior, covardia da parte de quem escreve e publica.Como afirma McIntyre, o ponto de equilíbrio entre verdade e mentira ainda não é a verdade – portanto, é mentira. 

Ao adotar uma política de equilíbrio (na verdade, uma falsa equivalência) em questões de consenso científico, a grande mídia “longe de ganhar objetividade, produziu o efeito irônico de reduzir seu compromisso com a cobertura precisa das notícias”. 

“Quando os erros são predominantemente responsabilidade de um dos lados, fingir que todos os lados são iguais é um desserviço à verdade”, escreve.

Novo problema velho

O filósofo sugere que essa ampliação do “outroladismo” para questões de ciência agravou-se com o surgimento, no mercado americano, de redes como a Fox News, claramente partidarizadas. Para criar contraste com as redes polarizadas e evitar acusações de partidarismo, os meios que se acreditam neutros e almejam à imparcialidade teriam caído na armadilha de tentar apresentar os “dois lados” a respeito de tudo.

O fenômeno Fox News pode ter acelerado a tendência, mas está longe de tê-la criado: o próprio McIntyre aponta (no que acompanha o diagnóstico de Rabin-Havt) que o “paciente zero” da manipulação da mídia por uma controvérsia científica fabricada foi a falsa polêmica da relação entre tabaco e câncer.

Em Lies Incorporated, o jornalista relata uma série de casos – indo do tabaco à questão da saúde mental de crianças criadas por casais gays (a ciência é clara: não há problema nenhum), e passando pelo aquecimento global – em que grupos de pressão encomendaram a produção de lixo científico, ou distorceram a ciência real, para empurrar para a mídia a ideia de que a questão teria “dois ou mais lados” dignos de consideração.

E a mídia caiu como um patinho, todas as vezes. O bug da “ciência com outro lado” está aí, escancarado, desde os anos 50, e ainda é explorado – na verdade, é cada vez mais fácil explorá-lo: McIntyre nota que, depois que a CNN estabeleceu o ciclo de notícias contínuo de 24 horas, programas de debate – em que “especialistas” e jornalistas conversam entre si ad nauseam– passaram a predominar sobre o conteúdo investigativo. E para haver debate, é preciso haver “vários lados”. 

Controvérsias, aponta Rabin-Havt, servem aos status-quo. Quem fabrica uma polêmica sobre ciência quer que tudo continue como está: que nada seja feito. Que as pessoas continuem fumando, queimando petróleo e derrubando árvores, por exemplo. A função da falsa polêmica é transformar o debate político em atoleiro.

E, com a colaboração, ainda que involuntária, da mídia, a estratégia funciona: estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Yale mostrou que, de 2008 a 2010, a proporção de americanos que acreditava da realidade do aquecimento global antropogênico havia caído de 71% para 57%. Nenhuma descoberta científica ocorrida no período explica essa queda. A questão é, apenas, de percepção e comunicação.

Para usar na escola

Já existe até material didático que aproveita o fenômeno. Creating Scientific Controversies, de David Harker, é um curso de filosofia da ciência construído em torno do tema das falsas controvérsias. Ele abre com uma revisão histórica do caso da percepção pública da relação entre tabaco e câncer, e então se lança numa densa discussão de temas filosóficos relacionados à percepção da ciência e ao fazer científico.

O autor trata de estabelecer que incerteza e convicção não são mutuamente excludentes– o fato de não existir certeza absoluta de que uma explicação é correta não nega a possibilidade de ela ser a melhor possível – e, depois, constrói o caso de que o consenso da comunidade científica, dadas as características dessa comunidade (hábito de crítica metodológica, revisão pelos pares, descentralização, tensão permanente entre competição e colaboração, etc.) tende a produzir sempre isso, a melhor explicação possível: aquela que, mesmo incerta, é a que merece convicção, pelo menos até que esse mesmo consenso evolua e traga uma melhor.

Não que o consenso seja infalível. Mas alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias, lembra o autor, e pondera que afirmar que o consenso de milhares de especialistas que estudam “X” está errado, e exatamente sobre “X”, é talvez a mais extraordinária alegação possível, logo deveria vir acompanhada de evidência contundente.

Harker aponta, ainda, o que considera as três “marcas” de uma controvérsia fabricada, com a ressalva de que essas marcas são mais indícios do que provas cabais. São elas:

Grupo interessado: alguém geralmente tem algo a ganhar com a negação do consenso científico, seja dinheiro, prestígio ou a mera manutenção de uma visão de mundo incompatível com a ciência. Harker adverte que o indício do “grupo interessado” pode degenerar facilmente para a falácia ad hominem, em que a crítica ao argumentador é tomada como crítica ao argumento, e pede cautela em seu uso.

Argumentação exclusivamente negativa: uma alternativa legítima ao consenso científico deve, espera-se, ser construída a partir de um conjunto de observações e experimentos originais, e oferecer uma teoria capaz de dar conta dessas observações e experimentos. Em resumo, alternativas legítimas são propositivas. Já uma controvérsia manufaturada raramente propõe algo, limitando-se a citar anomalias (reais ou fabricadas) no corpo experimental preexistente e falhas explicativas (mais uma vez, reais ou fabricadas) no corpo da teoria reinante.

Aqui, Harker retoma o princípio de que incerteza e convicção não são mutuamente excludentes. Toda teoria possui uma “superfície de contato”, uma zona-limite onde entra em choque com dados que não é imediatamente capaz de absorver, detalhes que ainda não consegue explicar de modo satisfatório, irregularidades e incertezas. É nessa zona de contato que a teoria encontra material para evoluir. E, sim, o impacto acumulado das anomalias pode até levar a teoria a ser abandonada e substituída. Mas apenas apontar a existência dessa “zona de choque” não prova nada: ela é parte normal da ciência.

Apelo à opinião pública, não aos pares: no curso normal dos eventos, um especialista que discorda honestamente de outros especialistas apresenta suas discordâncias e argumentos na literatura técnica, não nos telejornais. O apelo direto à mídia popular é um forte indicador de que a única argumentação à disposição dos promotores da controvérsia é do tipo negativo, ou de que ela não resistiria por cinco minutos à análise de uma audiência de especialistas.

“O mundo da política de pós-verdade é o resultado patético de uma cultura política onde vitória ideológica, não progresso, representa o verdadeiro objetivo”, escreve Rabin-Havt em Lies IncorporatedEle se refere aos Estados Unidos, mas a situação no Brasil não é muito diferente.

De fato, a atual campanha que tenta desmoralizar os dados oficiais do Inpe sobre desmatamento se conforma bem aos padrões de desonestidade intelectual estudados lá fora. A intenção, aventada várias vezes for figuras-chave do governo, de criar uma “apuração paralela” da taxa de desmatamento da Amazônia segue de perto o playbook dos fabricadores de controvérsias, que buscam transformar debates em atoleiros: se os dados legítimos não agradam, fabriquem-se (e comprem-se) dados “alternativos”.

Não temos – ainda, ao que parece – empresas de relações públicas e think tanks mercenários especializados em construir mentiras científicas, como os denunciados em Lies Incorporated, mas o mercado é sempre sensível à demanda. O Heartland Institute, recentemente visitado por representantes do governo brasileiro, é um grande produtor de laudos sobre aquecimento global que dizem os que os negacionistas gostam de ouvir, por exemplo.

Pelo menos no caso do desmatamento, a mídia brasileira parece ter acordado de sua catalepsia outroladista. Vamos ver como o jogo prosseguirá quando (e se) os números alternativos começarem a aparecer.

 

 

 

“Nature” publica guia sobre pensamento crítico

Experiências pessoais e relatos isolados, por si sós, não provam nada. O fato de uma solução/terapia/intervenção ser usada há décadas ou séculos não implica que ela seja segura ou eficiente. O fato de uma solução/terapia/intervenção ser baseada numa nova descoberta científica ou numa tecnologia maravilhosa não implica que ela seja segura ou eficiente. Opiniões de especialistas, autoridades ou celebridades não bastam para embasar uma alegação.

A revista “Nature” publicou, no início do mês, um artigo de opinião, assinado por 25 pesquisadores, sugerindo uma série de critérios e advertências para a tomada de decisão em questões de política e pública e saúde, adaptados do padrão-ouro da pesquisa médica, o teste controlado, randomizado, duplo-cego com grupo placebo, o popular RCT. 

O artigo todo é muito bom e vale a leitura, mas como é longo e está em inglês, vamos dar um resumo por aqui. O princípio básico é de que alegações de eficácia e propostas para a solução de problemas – médicos, sociais, econômicos, domésticos, você escolhe – devem, sempre que possível, ser baseadas em evidência produzida preferencialmente por comparações justas.

A ideia de comparação justa – em que os grupos avaliados têm formação semelhante, encontram-se em condições iguais e são tratados de forma idêntica, exceto no que diz respeito à intervenção testada – é a base dos RCTs médicos. Generalizar o procedimento específico dos testes clínicos para questões sociais pode ser complicado (embora não impossível), mas o princípio é algo que vale a pena ter em mente, ainda que como um ideal a ser alcançado.

Fazem também parte do guia uma série de princípios que, neste alvorecer do século 21, quatrocentos anos após a Revolução Científica e quase duzentos anos depois de a profissão médica ter se convencido de que lavar mãos salva vidas, deveriam ser tão óbvios quanto o fato de que galinhas têm penas e porcos não voam. Mas não são. São princípios que precisam ser aprendidos, repetidos, e defendidos com unhas e dentes no debate público. Alguns deles:

Experiências pessoais e relatos isolados, por si sós, não provam nada;

O fato de uma solução/terapia/intervenção ser usada há décadas ou séculos não implica que ela seja segura ou eficiente;

O fato de uma solução/terapia/intervenção ser baseada numa nova descoberta científica ou numa tecnologia maravilhosa não implica que ela seja segura ou eficiente;

Opiniões de especialistas, autoridades ou celebridades não bastam para embasar uma alegação;

E, o clássico absoluto:

Correlação não implica relação de causa e efeito! 

Ou, como os autores do guia escrevem, “muitas pessoas não percebem que duas coisas podem estar associadas sem, necessariamente, uma causar a outra”.

O artigo na “Nature” chama atenção para o fato de que a mídia – incluindo publicações universitárias e o material de divulgação produzido por institutos de pesquisa e enviado para a imprensa – perpetua esse falso elo entre associação e causação, principalmente como estratégia para “esquentar” matérias sobre dietas, saúde e hábitos de consumo.

Notando que o público tem dificuldade em discriminar o grau de confiabilidade de diversos tipos de evidência, o guia cita pesquisa realizada no Reino Unido que apontou que apenas pouco mais de um terço da população britânica confia em pesquisa médica, enquanto que dois terços confiam nas experiências pessoais de amigos e familiares com remédios e tratamentos.

Nem todos os problemas, porém, estão no senso-comum do público em geral, não escolado nas sutilezas do método científico ou nas críticas clássicas de David Hume (1711-1776) à facilidade com que fazemos inferências injustificadas sobre regularidades da natureza e relações de causa e efeito.

Há princípios no guia que dizem respeito a alguns maus hábitos que volta e meia se instalam na prática científica, por exemplo:

Mais dados não são, necessariamente, dados melhores;

Deve-se dar atenção aos resultados principais, não a indicadores indiretos (por exemplo, aumentar a sobrevivência do paciente é mais importante do que melhorar os resultados de seu exame de sangue);

Estudos pequenos podem levar a conclusões erradas;

Os resultados de um único estudo, tomados de forma isolada, podem levar a conclusões erradas;

Declarar um resultado “estatisticamente significativo” ou “não significativo” pode levar a conclusões erradas;

Revisão pelos pares e publicação num periódico científico não são garantia de que a comparação foi justa.

Estes últimos pontos são especialmente importantes hoje em dia, quando vendedores de panaceias, milagres estéticos diversos e defensores de terapias alternativas se esmeram em reunir “evidência científica” a favor de suas gororobas.

A própria “Nature”, para ficar no mesmo periódico, já publicou artigos, revisados pelos pares e nunca retratados, afirmando que o ilusionista israelense Uri Geller era capaz de, por meios paranormais, adivinhar corretamente os resultados de dados agitados dentro de uma caixa fechada; e que água é capaz de reter a “memória” de materiais com que já teve contato.

Vistos isoladamente, cada um desses trabalhos pode parecer revolucionário. No contexto maior da ciência, reduzem-se a curiosidades históricas e lições práticas sobre erros de metodologia.

Seria muito bom se o guia publicado agora fosse disseminado e passasse a embasar discussões, não só de ciência, mas também de política pública – e também, na medida do possível, os processos de tomada de decisão por que todos passamos no dia a dia. Seria uma lufada de ar puro, em meio ao miasma atual de preconceito e arrogância que passa por evidência no discurso público em que, para o bem ou para o mal, todos estamos inseridos.

O jornalismo supérfluo, a ciência e a homeopatia

O jornalismo brasileiro vive um bizarro caso de amor com a homeopatia. Um caso em que o leitor desempenha o papel de cônjuge traído. Há cerca de quinze anos que a credibilidade clínica, a respeitabilidade científica e o papel da prática em políticas públicas de saúde, no mundo civilizado, só faz encolher – e o brasileiro que confia nos jornais, nas revistas e na televisão não fica sabendo.

Jornalismo brasileiro falha quando o assunto é homeopatia

O Titanic homeopático foi a pique anos atrás, abalroado por uma verdadeira frota de icebergs de evidência científica, mas para a mídia nacional é como se isso não tivesse nenhuma relação com oBrasil, um país onde a prática é absurdamente reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, promovida pelo Ministério da Saúde e subsidiada pelo SUS.

Por exemplo, a notícia recente de que o governo francês decidiu encerrar sua política de subsídioa medicamentos homeopáticos, atendendo a (mais um) parecer científico que constata a ineficácia da prática, chegou ao Brasil via internet – depois de ser antecipada aqui, em Questão de Ciência mas mal foi citada nos meios tradicionais. E, quando a citação ocorre, é no sentido de curiosidade inócua de uma terra estrangeira (o texto do G1, no link inicial deste parágrafo, é uma tradução do serviço de imprensa alemão Deutsche Welle). 

O contexto nacional chama atenção pela ausência: é como se os fatos científicos relevantes para a fisiologia e a saúde dos franceses não significassem nada aqui.O que se encaixa bem na cegueira histórica da imprensa brasileira para com a crítica científica à homeopatia.

O primeiro iceberg a pegar o transatlântico homeopático pela proa foi a publicação, pela revista médica The Lancet, em 2005, do estudo de Aijing Shang e colegas, demonstrando que os supostos efeitos benéficos da prática se reduzem aos de um placebo. Um editorial intitulado “O Fim da Homeopatia”– o que poderia ser mais claro? – acompanhava o trabalho.

Por aqui, na época, a Folha de S. Paulo dedicou ao assunto uma nota de rodapé na página de Ciência: nota traduzida do jornal inglês The Independent, sem nenhum esforço de relacionar o estudo (ou o editorial) à realidade brasileira. Sendo que, no tempo em que a grande imprensa ainda contava com espaço e equipe consideráveis para tratar de assuntos de saúde e ciência,qualquer coisa que saísse na Lancet sobre tratamento de unha encravada em camundongo virava abre de página, com ampla repercussão entre especialistas nacionais.

Um segundo golpe veio em 2010, quando uma investigação do Parlamento Britânico concluiu que o uso de verba pública para subsidiar a prática configurava desperdício do suado dinheirodos contribuintes.O jornal The Guardian definiu a defesa da prática, apresentada pela “elite da homeopatia” britânica, como “farsesca”, dada a incongruência dos argumentos e a falta de evidências. 

No Brasil, onde o SUS gasta dinheiro com homeopatia, silêncio sepulcral (para ser mais preciso, outra nota de rodapé na Folha, tratando o assunto como coisa de planeta alienígena). Quando, anos mais tarde, o relatório parlamentar permitiu que a ONG Good Thinking Societyforçasse a exclusão da homeopatia do sistema público inglês, o assunto foi largamente ignorado por aqui. Mal comparando, se uma CPI britânica concluísse que aspirina é inútil, e por causa disso o remédio acabasse banido da rede pública inglesa, isso seria, no mínimo, capa de Veja.

Um terceiro petardo veio da Oceania: em 2014, o Conselho Nacional de Pesquisa Médica da Austrália divulgou o resultado de uma ampla revisão de estudos sobre a eficácia da homeopatia como forma de tratamento médico.

Assim como os autores do artigo de 2005 naLancete o comitê do Parlamento Britânico em 2010, os australianos chegaram à conclusão de que não existe prova nenhuma de eficácia. O trabalho repercutiu internacionalmente– mas não no Brasil.

Aliás, a recente decisão francesa de encerrar o subsídio público a remédios homeopáticos se segue a mais uma revisão da literatura científicasobre o assunto, que produziu resultados idênticos aos (desculpe o tamanho da lista) publicados na Lancet, pelo Parlamento Britânico, pelo Conselho australiano, no British Journal of Clinical Pharmacologye por diversos outros cientistas:não há evidência positiva crível de que a homeopatia funcione melhor do que um placebo.

Existem revisões de literatura com resultado favorável à homeopatia? Sim. Mas só as que são feitas por homeopatas (e que costumam ter qualidade lastimável). O que remete à anedota do cara que acredita que é invisível, mas só quando nenhum cético está olhando.

Para ser justo, não é que a mídia brasileira ignore por completo a evidência de que a homeopatia é inútil. Mas insiste em tratá-la, editorialmente, não como evidência, questão de fato, mas como argumento, isto é, questão de opinião. Ainda em 2018, nosso “modelo”, a Folha, publicava artigos pró e contra homeopatia em sua página de material opinativo, Tendências/Debates. O jornal provavelmente teria pruridos em tratar o criacionismo ou o terraplanismo da mesma forma.

Para ser claro: não existe “controvérsia científica” em torno da homeopatia. A prática é rotineiramente citada como exemplo inequívoco de pseudociência ou ciência patológica em manuais acadêmicos de filosofia da ciência, muitas vezes no mesmo parágrafo que o design inteligente ou a astrologia. 

Pode-se argumentar que existe uma percepção pública de controvérsia. Isso é algo, infelizmente, comum em ciência: a questão já se tornou pacífica entre os especialistas e estudiosos, mas o público ainda tem a falsa impressão – quase sempre, insuflada por interesses comerciais ou ideológicos – de que o debate segue indefinido.

Da relação entre tabaco e câncer ao aquecimento global, passando pela evolução das espécies, a lista de proposições que já enfrentaram, ou ainda enfrentam, esse descompasso entre realidade e senso-comum é enorme. Mas o papel da imprensa deveria ser o de esclarecer e informar, não o de se curvar bovinamente ao senso-comum.

O problema ganha uma camada extra de complexidade, no entanto, quando descemos da esfera das abstrações e levamos em conta que o jornalista é um ser humano como outro qualquer, inserido na cultura dominante e também imerso no senso-comum. Se uma parcela significativa da sociedade é simpática à homeopatia e desconfia dos resultados que apontam contra ela, é provável que uma parcela significativa dos jornalistas também seja – e desconfie. E essa parcela acaba influenciando a seleção e o direcionamento das pautas.

De qualquer modo, a história do jornalismo está repleta de casos em que o ideal da objetividade e o peso bruto dos fatos derrotaram o senso-comum dessa ou daquela redação – a profissão seria bem supérflua, aliás, se isso não acontecesse com certa frequência. 

Então, recapitulo aqui os fatos brutos, e acrescento mais alguns: Inglaterra e França concluíram que subsidiar homeopatia é má política pública. Austrália concluiu que a prática é inútil.

Essas conclusões foram atingidas de modo independente, a partir da análise de milhares de estudos científicos, uma base de evidências que se acumula há décadas. A mesma base de evidências, aliás, levou o serviço de proteção ao consumidor dos Estados Unidos a exigir uma rotulagem especialpara medicamentos homeopáticos, advertindo o comprador de que eles não têm base científica.

Esses desdobramentos internacionais têm óbvia relevância para o cenário brasileiro. A grande mídia estaria cumprindo melhor seu papel se parasse de fingir o contrário.

Por: Carlos Orsi